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                  <text>XVI Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação
22 a 24 de julho de 2015
BIBLIOTECAS ESCOLARES: POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A CRIAÇÃO DE
POSSIBILIDADES 1
Autoras: Lilian Viana. Universidade de São Paulo. lilianviana@usp.br
Ivete Pieruccini. Universidade de São Paulo ivetepie@usp.br
1 INTRODUÇÃO
A pesquisa partiu da observação da crise enfrentada pela biblioteca escolar
brasileira; instituição escassa no cenário nacional e que, ainda quando existente, é
marcada por concepções centradas, sobretudo, em paradigmas que privilegiam a
conservação e a difusão de conhecimentos, por meio de coleção organizada de recursos
informacionais.
A questão ganha destaque no presente momento com a emergência da Lei
Federal no 12.244, em 24 de maio de 2010, que determina a obrigatoriedade da criação
de bibliotecas nas instituições de ensino nacionais e as define exclusivamente como um
acervo 2.
Em nosso estudo, afirmamos que bibliotecas escolares são ambientes de
informação e cultura complexos e sua implantação extrapola a criação de espaços físicos
contendo recursos informacionais. Neste sentido, foi indicada a necessidade do
desenvolvimento de políticas públicas ocupadas não somente com a criação de
bibliotecas escolares, mas principalmente com sua ressignificação na educação. Essa
perspectiva articula-se à premissa do direito de informar-se, questão que transcende à
lógica da oferta de recursos informacionais. Conforme apontado por Chauí, o direito a
informar-se é fundamental à consolidação de uma sociedade democrática, pois
[...] um indivíduo participa da vida social em proporção ao volume e à qualidade
das informações que possui, mas, especialmente, em função de sua possibilidade
de acesso às fontes de informação, de suas possibilidades de aproveitá-las e,
sobretudo, de sua possibilidade de nelas intervir como produtor do saber (1989, p.
146-147).

Nessa perspectiva, considerando-se a biblioteca escolar como questão chave no
quadro educacional, o estudo apontou para a importância de uma política pública
abrangente, capaz de fornecer elementos à ressignificação do seu papel na Educação, na
contemporaneidade. Em face de tal pressuposto, o trabalho teve como objetivo central
identificar e descrever categorias teórico-metodológicas que possam contribuir para a
formulação de políticas públicas para bibliotecas escolares no Brasil buscando-se, de
modo específico, identificar e descrever elementos que atestam e permitem compreender
a complexidade em que se inscreve o desafio de introduzir, efetivamente, uma política
pública neste âmbito, considerado o quadro brasileiro.

1

Este resumo apresenta a dissertação de mestrado Bibliotecas escolares: políticas públicas para a criação
de possibilidades, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da
Universidade
de
São
Paulo.
A
dissertação
pode
ser
acessada
em
&lt;
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27151/tde-18122014-094444/pt-br.php &gt;.
2
o
A Lei federal n 12.244/10 define biblioteca escolar como “a coleção de livros, materiais videográficos e
documentos registrados em qualquer suporte destinados à consulta, pesquisa, estudo ou leitura. Disponível
em &lt;http://www2.camara.leg.br&gt;. Acesso em: 11 jul. 2014.

�2 MÉTODO DE PESQUISA
A pesquisa, de natureza qualitativa, contemplou a abordagem de referencial teórico
sobre os temas política pública, democracia, educação, biblioteca escolar, protagonismo
cultural e apropriação cultural, assim como o estudo exploratório acerca de dois eixos:
a) Surgimento da Lei Federal no 12.244/2010: Realizou-se coleta de informações tendo
em vista conhecer as representações dos sujeitos diretamente implicados em sua criação
e seus desdobramentos. Foram elencadas figuras políticas, bem como representantes de
grupo de interesse envolvido na questão da biblioteca escolar, que se mobilizaram para
que a lei fosse criada. Os instrumentos utilizados para a coleta de informações foram o
questionário aberto e a entrevista semiestruturada.
b) Investigação acerca da implantação de política pública para criação de rede de
bibliotecas escolares: Após o levantamento das redes de bibliotecas escolares
existentes no território nacional, optamos por conhecer a política pública que implantou,
em 1999, a Rede Escolar de Bibliotecas Interativas (REBI) na cidade de São Bernardo do
Campo (SBC), situada na Grande São Paulo, concebida a partir do paradigma da
apropriação cultural. Os relatos foram colhidos a partir de entrevistas semiestruturadas,
realizadas com sujeitos que desempenharam distintas funções na experiência em foco.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
As seguintes categorias foram depreendidas como fundamentais à definição,
implantação, desenvolvimento e consolidação de políticas públicas que busquem
ressignificar a biblioteca escolar, considerados os diferentes contextos sociais do país,
bem como o quadro informacional contemporâneo:
Vontade política: refere-se ao papel dos gestores políticos nas decisões sobre a
implantação de estratégias políticas para o desenvolvimento de bibliotecas escolares
inovadoras.
Protagonismo profissional: refere-se ao papel dos profissionais que atuaram como
sujeitos no processo de implantação de bibliotecas escolares, desenvolvidas a partir de
referenciais inovadores.
Tempo político: refere-se ao período demandado para a realização de ações,
apropriação da proposta em causa e percepção dos benefícios para a população.
Apresenta-se a necessidade do desenvolvimento de ações a curto, médio e longo prazo.
Diálogo política e conhecimento: refere-se às formas de construção de vínculos entre
campos político e científico como alternativa para o desenvolvimento de políticas públicas
inovadoras, capazes de superar adversidades que marcam a biblioteca escolar em nosso
país, transformando cenários problemáticos.
Protocolos implícitos e explícitos: refere-se ao papel das instâncias formais na
definição de direitos e deveres dos campos político e científico, quando estes se propõem
a atuar de maneira conjunta para a resolução do problema público. As relações
interpessoais também irão influenciar o desenvolvimento das ações e, por conseguinte, a
obtenção de resultados.
Visibilidade: refere-se às questões de comunicação das ações realizadas, de seus
benefícios e da satisfação da população, como forma de revelar o significado da política
pública e sinalizar seu papel na construção de uma cultura de biblioteca escolar em nosso
país.
Construção de novas representações: refere-se à importância da objetivação do novo
conceito de biblioteca escolar como forma de demonstração concreta das novas
concepções em causa. Conceitos inovadores demandam a construção de dispositivos
inovadores, como evidências da possibilidade de ultrapassagem de noções de biblioteca
como sala com livros, lugar de silêncio, quando não raro, como instrumento de
apresentação, face ao completo desconhecimento do que pode ou deve ser uma
biblioteca escolar.

�Qualificação dos quadros profissionais: refere-se ao caráter e natureza da redefinição
de papeis dentre os quadros já existentes, bem como ampliação e qualificação das
estruturas, face às intervenções sociais significativas implicadas no processo.
Formação: refere-se ao papel da universidade na preparação conceitual e metodológica
dos quadros para que os sujeitos envolvidos atuem como protagonistas da implantação e
transformação das bibliotecas escolares em dispositivos de apropriação cultural.
Instâncias de negociação: refere-se ao papel dos mecanismos de negociação em
estruturas educacionais consolidadas; desenvolvidos para lidar com a inevitável tensão
decorrente do processo de implantação de novo conceito de biblioteca escolar.
Avaliação: refere-se às formas de acompanhamento e verificação de resultados
alcançados com a implantação das bibliotecas escolares, tanto para justificar
investimentos e ações, quanto para propiciar o redimensionamento da política pública.
Renovação da política: refere-se à análise da dinâmica dos contextos e identificação de
ações, redimensionadas em virtude de lacunas constatadas e das transformações
indispensáveis e observadas como sendo essenciais, face ao dinâmico contexto
informacional contemporâneo.
Participação comunitária: compreende a criação de laços orgânicos entre os diferentes
sujeitos e a biblioteca escolar, os quais se mostraram fundamentais a sua consolidação, a
partir do seu explícito valor para a sociedade.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa teve como propulsor um problema social concreto: a carência de
bibliotecas escolares no Brasil, aliada ao surgimento de texto legislativo que determina
sua obrigatoriedade no cenário nacional, buscando assegurá-las como direito social. Em
face desta conjuntura lançamo-nos em um percurso em meio à teoria e a uma experiência
concreta, tendo em vista refletir e sistematizar categorias implicadas no desenvolvimento
de políticas públicas democráticas, voltadas não somente a criação de bibliotecas
escolares, mas, sobretudo, à ressignificação deste importante dispositivo no contexto
sociocultural brasileiro. Nesse sentido, compreender o surgimento da REBI, implantada a
partir de política pública pautada no paradigma da apropriação cultural, propiciou o
conhecimento de embates, dificuldades, lutas, negociações, articulações e oportunidades
que permearam uma ação política diferenciada em torno da implantação de bibliotecas
escolares. Desse modo, foram identificados referenciais do surgimento de um novo
conceito de biblioteca escolar num cenário que até então o desconhecia. Diante disto,
foram depreendidas diferentes e importantes categorias a serem consideradas numa
ação política em torno de bibliotecas escolares e aqui apresentadas na seção Resultados
e Discussão. Tais categorias, longe de configurarem-se como um fim em si mesmas,
constituem ponto de partida para novas incursões teóricas e empíricas em torno deste
tema tão importante, e ainda pouco explorado, que é o desenvolvimento de políticas
públicas para bibliotecas escolares, dispositivos fundamentais à garantia ao direito de
saber e querer informar-se e, portanto, essenciais à democracia.
PALAVRAS-CHAVE: Biblioteca escolar. Políticas públicas. Informação e Educação. Lei
Federal nº 12.244/10. Apropriação Cultural.
REFERÊNCIAS
CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São
Paulo: Cortez, 1989.

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