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                  <text>NOTAS BIBLIOTECÁRIAS SOBRE UMA ANTIGA CASA DE EDIÇÃO
DO SÉC. XVI: O MUSEU PLANTIN-MORETUS (ANTUÉRPIA, BÉLGICA)

Andre Vieira de Freitas Araujo
Docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Doutorando do PPGCI-ECA-USP
E-mail: armarius.araujo@gmail.com
Resumo
Apresenta um conjunto de percepções a partir da visita realizada ao Museu
Plantin-Moretus (Antuérpia, Bélgica), constituído pelo acervo tipográfico, editorial,
livresco e administrativo da antiga Casa de Edição Plantin-Moretus. Christophe
Plantin (1520-1589) determinou aspectos transformadores na história da edição e
da circulação do impresso. Portanto, esta experiência materializou um conjunto de
conhecimentos que temos acumulado, nos últimos anos, sobre a História do Livro
e da Edição e evidenciou a importância desta área para os fundamentos da
Biblioteconomia.
Introdução
A História do Livro e da Edição constitui um campo de estudos fundamental
à compreensão do livro e da informação em diferentes contextos históricoculturais. Este campo coloca em evidência um conjunto de práticas que forjaram
os fundamentos da Biblioteconomia como disciplina. Neste sentido, a história do
livro está incorporada à própria história da informação e do conhecimento.
Para além da pesquisa bibliográfica e documental, acreditamos que o
estudo da História do Livro e da Edição também se dá por meio de experiências
empíricas, como a visita e observação de lugares de memória de antigas práticas
livrescas, editoriais e informacionais, a exemplo da Casa de Edição PlantinMoretus, cujo início remonta ao Séc. XVI e onde hoje abriga o Museu PlantinMoretus,
Relato da experiência
Local no qual a experiência ocorreu
A experiência (visita) ocorreu no Museu Plantin-Moretus, localizado na
Antuérpia, segunda maior cidade da Bélgica e situada na região de Flandres. O
Museu tem sua origem na vida e obra de um dos maiores impressores-editores de
todos os tempos: Christophe Plantin (1520-1589).
Plantin é considerado o principal impressor-editor da segunda metade do
Séc. XVI em função da qualidade de seus impressos (obras humanistas e tratados

�científicos) (NAVE, 2004). Em 1570, foi nomeado Prototypographus Regius por
Filipe II, tornando-se o primeiro Tipógrafo Real do Rei.
Dentre as suas obras tipográficas, destaca-se a Bíblia Régia ou Bíblia
Poliglota de Antuérpia – um in-fólio em oito volumes produzido entre 1568 e 1573.
Este foi o projeto gráfico mais importante do Séc. XVI uma vez que compreende
uma edição confiável e científica dos textos bíblicos em latim, grego, hebraico,
sírio e aramaico. (THOMAS; STOLS; KANTOR; FURTADO, 2014).
A produção editorial de Plantin possuía fama internacional por representar
uma cifra recorde para o período: na segunda metade do Séc. XVI estabeleceu-se
a media anual de 72 impressos. (THOMAS; STOLS; KANTOR; FURTADO, 2014).
Graças ao esforço de Plantin e de seus sucessores, as prensas de sua
empresa seguiram em funcionamento de 1555 até 1827, de modo que o Museu
abriu suas portas em 1877.
Em 2005, o Museu Plantin-Moretus foi elevado pela Unesco à condição de
Patrimônio Cultural da Humanidade.
Período da ocorrência
A visita ocorreu em fevereiro de 2015, como parte das atividades da
pesquisa de doutorado em andamento intitulada “Sobre a eminência e
ressonância da Bibliografia: “Conrad Gesner (Séc. XVI) e constituição da cultura
bibliográfica”, junto ao Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação da
Universidade de São Paulo (PPGCI-ECA-USP).
Detalhamento da experiência
A visita seguiu um roteiro pré-estabelecido que proporciona uma visão
ampla e ao mesmo didática do acervo tipográfico, editorial, livresco e
administrativo da antiga Casa de Edição Plantin-Moretus.
Para este trabalho, destacamos os principais espaços visitados na
sequência:
1) Fachada: o Museu está localizado à praça Vrijdagmark (Mercado de Sextafeira), exatamente no mesmo endereço de sua fundação.
2) Salão pequeno: é um dos primeiros salões do Museu e foi construído entre
1620 e 1622. Ao entrarmos no salão encontramos expositores com alguns
dos volumes da Bíblia Poliglota de Antuérpia.
3) Grande salão: composto pela galeria de retratos de membros da família
Plantin-Moretus, feitos por Peter Paul Rubens (1577-1640). Destaque para
o retrato de Plantin e um gabinete antuerpiano para guarda de objetos de
valor, construído em 1675.

�4) Sala de manuscritos: composta por importantes exemplares da caligrafia
miniaturista, bem como textos de autores clássicos. Plantin adquiria
somente exemplares de manuscritos que pudesse reproduzir de forma
exata. O museu possui um total de 638 manuscritos. Destaque para Bíblia
de Wenseslau, Praga, 1403.
5) Livraria: aqui se comercializavam parte das obras produzidas. As mesmas
eram vendidas sem encadernação. Vê-se, a partir da antiga porta de
entrada dos clientes, o Librorum Prohibitorum Index (Índice de Livros
Proibidos) em forma de cartaz.
6) Sala didática e de demonstração: inaugurada em 2000, a sala possui uma
réplica da prensa mais antiga conservada na atualidade. É utilizada para a
demonstração de técnicas tipográficas.
7) Sala dos tipos: as paredes desta sala estão cobertas até o teto com caixas
de tipos. Encontramos um “estoque” de tipos, dos quais alguns estão
guardados em pacotes originais. Também é possível visualizarmos as
composições de tipos preservadas junto aos seus impressos
correspondentes.
8) Imprensa: esta sala era, junto com a sala de tipos, o centro do trabalho da
Officina Plantiniana. Nas caixas de tipos eram armazenados os tipos de um
mesmo alfabeto e corpo. Junto à parede observa-se cinco prensas dos
Sécs. XVII e XVIII. Também nesta sala estão as duas prensas mais antigas
do mundo (cerca de 1600).
9) Sala Gutenberg: dedicada à Johannes Gutenberg (1400-1468) e onde está
exposto um exemplar da Bíblia de 36 linhas, considerada um dos
monumentos da história da tipografia europeia.
10) Sala Plantin: dedicada à vida e obra de Christophe Plantin, ilustrada por
meio de impressos e documentos. Neste espaço fica em evidência em que
medida Plantin se tornou o primeiro impressor industrial da história.
Destaque para os dicionários, trabalhos científicos e livros litúrgicos para
Espanha.
11) Sala dos arquivos: compreende livros contábeis, contas, inventários,
cartas, testamentos, documentos pessoais etc. Destaque para as
correspondências com os humanistas e o privilégio para impressão.
12) Oficina e fundição: nesta sala é possível observar instrumentos utilizados
para a produção de matrizes e tipos. Era justamente o “ateliê” de fontes,
embora Plantin também adquirisse tipos dos melhores mestres flamengos e
franceses, de modo a garantir a qualidade dos impressos. Observa-se que
o piso de pedra foi adotado para diminuir o risco de incêndios.
13) Biblioteca principal: sua origem remonta às coleções adquiridas por Platin
para uso cotidiano ou emprego futuro. De acordo com Naves (2004),
manuscritos, bíblias, dicionários e outras publicações formavam os fundos

�da biblioteca de trabalho da Officina. Nesta sala, nos deparamos com uma
típica biblioteca humanista organizada ao estilo de uma biblioteca privada
do Séc. XVII: livros organizados de acordo com o seu tamanho, mesas de
leituras, bustos além de globos terrestres.
A visita ao Museu resultou em um conjunto de percepções bibliotecárias em torno:
1) da cosmologia e funcionamento de uma antiga casa editorial;
2) das técnicas de impressão adotadas nos Sécs. XVI e XVII;
3) do reconhecimento, de forma mais precisa, das formas, permanência e
possibilidades dos tipos móveis como recursos tecnológicos;
4) das transformações físicas e estéticas do livro impresso;
5) do protagonismo de Christophe Plantin, no que toca à difusão do impresso
na Europa Moderna;
6) do papel educacional do Museu, na medida em que coloca em debate
antigas formas de produção e apropriação do livro, sobretudo em tempos
de a-historicidade informacional.
Considerações Finais
Platin determinou aspectos transformadores na história da edição e da
circulação do impresso. Portanto, esta experiência materializou um conjunto de
conhecimentos que temos acumulado, nos últimos anos, sobre a História do Livro
e da Edição, o que possibilita, inclusive, o constante compartilhamento em sala de
aula.
A visita ao Museu Plantin-Moretus nos estimulou a uma reflexão mais
apurada sobre antigas práticas editoriais e livrescas que são, em síntese, práticas
de ordem documentária e informacional.
Neste sentido, acreditamos que o estudo dos fundamentos da
Biblioteconomia só tem a se fortalecer e se consolidar na transversalidade com a
área de História do Livro e da Edição.

Palavras-chave: Cristophe Plantin (1520-1589); História do Livro e da Edição;
Imprensa - Sécs. XVI e XVII; Livros Antigos; Museu Plantin-Moretus - Antuérpia;
Tipografia - Sécs. XVI e XVII.

Referências:

�NAVE, Francine de. El Museo Plantin-Moretus: la impresión y edición de libros
antes de 1800. Amberes: Musea Antwerpen, 2004.
THOMAS, Werner; STOLS, Eddy; KANTOR, Iris; FURTADO, Júnia (Org.). Um
mundo sobre papel: livros, gravuras e impressos flamengos nos Impérios
Português e Espanhol (Séculos XVI-XVIII). São Paulo/Belo Horizonte:
EDUSP/Editora da UFMG, 2014.

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