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                  <text>��GESTÃO DE ESTOQUES
DE INFORMAÇÃO
Novos termos e novas posturas para um
novo contexto

ELISA CRISTINA DELFINI
CORRÊA

EDITORA FEBAB

�Editora FEBAB
Rua Avanhandava, 40 - Conj. 108/110
CEP 01306-000 – São Paulo - SP Brasil
tel: (11) 3257-9979
e-mail: secretaria@febab.org.br
site: http: www.febab.org.br/
© 2016 Elisa Cristina Delfini Corrêa
Conselho Editorial
Dra. Celia Zaher
Prof. Dr. Claudio Marcondes Castro Filho (USP)
Profa Dra. Maria Imaculada Cardoso Sampaio
Profa. Dra. Regina Célia Baptista Belluzzo (UNESP)
Profa. Dra. Sueli Mara Pinto Ferreira (USP)
Profa. Dra. Telma de Carvalho (UFSE)
Profa. Dra. Valeria Martin Valls (FESPSP)
Profa. Dra. Zaira Zafalon (UFSCAR)Dra. Celia Zaher
Prof. Dr. Claudio Marcondes Castro Filho (USP)
Profa Dra. Maria Imaculada Cardoso Sampaio
Profa. Dra. Regina Célia Baptista Belluzzo (UNESP)
Profa. Dra. Sueli Mara Pinto Ferreira (USP)
Profa. Dra. Telma de Carvalho (UFSE)
Profa. Dra. Valeria Martin Valls (FESPSP)
Profa. Dra. Zaira Zafalon (UFSCAR)

Corrêa, Elisa Cristina Delfini
Gestão de estoques de informação: novos termos e novas
posturas para um novo contexto [Recurso eletrônico] / Elisa
Cristina Delfini Corrêa - São Paulo : FEBAB , 2016

�ISBN 978-85- 85024-10-9
1. Gestão da informação 2. Serviços de informação 3.
Gestão de estoque de informação 4. Bibliotecário gestor I.
Título.
CDD 025.2

�Agradecimentos

Pode parecer clichê começar agradecendo a Deus e à
família, mas no meu caso seria impossível fazer de outro
jeito. Sem aquela força sobrenatural que vem do Pai
eterno e o apoio dos meus queridos de casa, não teria
escrito uma linha sequer! Em especial, minha gratidão à
minha publicitária favorita, Marina Corrêa, que criou a capa
deste livro e que sempre me salva com sua competência,
arte e carinho em diferentes ocasiões.
Minha gratidão também abraça amigos queridos que me
incentivaram, acreditaram, discutindo ideias comigo. No
caso deste livro, minha gratidão eterna a Lani Lucas,
colega de DBI e amigona de toda e qualquer hora.
Obrigada por sua paciência e dedicação, lendo e relendo
meus rascunhos e obrigada, também, por me apresentar à
sua vasta rede de relacionamentos profissionais.
Dani Spudeit, amiga querida, que leu os originais e fez
sugestões: muito obrigada. Agradeço, em especial, pela
ponte que você construiu, levando-me até o prof.
Waldomiro Vergueiro, a quem também sou imensamente
grata por prefaciar o livro.
Gratidão eterna também à Adriana Ferrari e à FEBAB, cuja
parceria na publicação acelerou a disseminação das ideias
aqui desenvolvidas e permitiu dar o start no tão ansiado
debate sobre o tema com a comunidade de bibliotecários
no país.
Finalmente, obrigada à UDESC e à FAED, por me
permitirem fazer o que gosto do jeito que gosto e, assim,
adquirir ricas experiências docentes e realizar pesquisas na
área de Gestão de Estoques de Informação. Essa
caminhada é o fundamento principal das páginas que vêm
a seguir.

�Sumário
Agradecimentos 5
Sumário 6
Prefácio 8
Introdução 13
1 - Então, por que falar em gestão? 20
2 - Para além dos acervos e das
coleções: estoques de informação 29
3 - Usuário, não. Interagente! 34
4 - Novos olhares para a gestão de
estoques de informação e suas etapas
42
4.1 Seleção 47
4.2 Aquisição 50
4.3 Avaliação 55

5 - Política de GEI: um capítulo à parte
59
5.1 Aspectos sociais e administrativos da Política de
GEI 64

�5.2 Proposta de roteiro atualizado para uma política de
gestão de estoques de informação 67

6 - Gestão de e-books: um desafio e
um aprendizado 72
6.1 Seleção 76
6.2 Aquisição 78
6.3 Gestão de e-books em bibliotecas 80

7 - Passado, presente, futuro... 84
Referências 86

�Prefácio

Este não é – ou não deveria ser - um desabafo
existencial. Deveria ser o prefácio para um livro, enfocando
o que ele traz de inovador, de questionador, de novo (e ele
tem muito, como espero demonstrar mais adiante, de cada
um desses adjetivos). Mas, por outro lado, ele também se
liga a mim por um aspecto, digamos assim, mais
emocional, pois fala de coisas sobre as quais me debrucei,
com maior ou menor sucesso, durante grande parte de
minha vida profissional. Daí, este tom inicial de desabafo.
Já se vão mais de 25 anos desde que publiquei um
pequeno e despretensioso livro denominado
Desenvolvimento de Coleções, pela Editora Polis, de São
Paulo. Escrito a partir do incentivo da presidência da
Associação de Bibliotecários de São Paulo; na época, o
livro abriu uma coleção que pretendia fornecer aos
bibliotecários brasileiros espécies de manuais ou guias de
atuação às várias atividades profissionais por eles
desenvolvidas. A ideia era a de ter uma série de livros
introdutórios, mais ou menos na linha da coleção “O Que
é” da Editora Brasiliense, também de São Paulo. Meu livro,
inclusive, seguia o modelo dessa coleção até mesmo no
tamanho (projeto gráfico que foi modificado nos
lançamentos seguintes da editora Polis).
Eu, então, atuava como professor de Biblioteconomia há
pouco tempo. Havia sido, de certa forma, “premiado” com
a temática do desenvolvimento de coleções ao ingressar na
carreira docente, sentindo falta de um material que
sistematizasse essa atividade e pudesse ser utilizado em
aula. Como se tratava de um tema relativamente recente
na Biblioteconomia – havia sido introduzido no programa
das escolas apenas em 1985, com a mudança do currículo
mínimo -, procurei, no livro, atender a dois requisitos:

�primeiramente, desenvolver um discurso de
convencimento, ou seja, um enfoque que cativasse o leitor
e o fizesse aceitar meus argumentos em relação à
importância do desenvolvimento de coleções na atividade
do bibliotecário; em segundo lugar, ser suficientemente
profundo, a fim de passar ao profissional todos os
principais aspectos dessa atividade.
Nos anos seguintes, aprofundei alguns aspectos desse
primeiro livro em outros que publiquei, em artigos escritos
por mim, em palestras e cursos que ministrei pelo país,
nos trabalhos acadêmicos que orientei, no curso que
ministrei na Escola de Comunicações de Artes da USP e
muitos outros por todo Brasil, nas muitas bancas de
avaliação de que participei. Acho que fiz um bom trabalho
de divulgação: nesses anos todos, o interesse pelo tema
aumentou no país, com bibliotecários criando espaços
formais dedicados ao desenvolvimento de coleções em
suas bibliotecas; muitas unidades de informação
elaboraram e puseram em prática documentos de política
de desenvolvimento de suas coleções; vários colegas
professores passaram a se dedicar ao tema
desenvolvimento de coleções, escrevendo, orientando e
publicando na área. E fazendo isso muito melhor do que
jamais poderia fazer, diga-se de passagem.
Eu poderia, assim, vestir meu pijama de aposentado ou
colocar minha cabeça no travesseiro e suspirar com a
sensação do dever cumprido.
Mas eu estaria mentindo se afirmasse que nada mais há a
ser feito. Pelo contrário. Tudo na vida muda. Nada é
estático ou definitivo. Ainda que redundante, até mesmo
um lugar comum, pouca coisa é mais verdadeira do que tal
axioma. A experiência me mostrou que as certezas mais
ferrenhas um dia são colocadas em dúvida. As convicções
mais entranhadas acabam se esvaindo. Prioridades, que
antes pareciam irremovíveis, deixam de ser absolutamente
importantes. Pena que, em geral, só descobrimos tudo isso
depois que já não faz mais tanta diferença...

�Não me surpreendi muito quando Elisa Cristina Delfini
Correa me apresentou o livro Gestão de Estoques de
Informação: Novos Termos e Novas Posturas para um
Novo Contexto. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde,
alguém colocaria em questão muitas das minhas certezas e
confesso que fiquei feliz por ter sido mais cedo, de forma
que eu pudesse presenciá-lo. Além disso, já havia
acompanhado alguns de seus artigos anteriores na
literatura e conhecia algumas de suas ideias. Assim, em
vez de passar pelas cinco fases do trauma - negação,
raiva, negociação, depressão e aceitação – preferi encarar
o livro de Elisa como uma continuidade do meu trabalho. E
confesso que, ao fim de sua leitura, não poderia pensar em
melhor maneira de alguém fazer isso.
Elisa escreve de uma forma leve, tranquila, utilizando um
estilo coloquial que eu aprecio muito e que sempre busquei
manter, embora nunca tenha conseguido utilizá-lo com o
mesmo nível de precisão e elegância com que ela o faz.
Esse aspecto me cativou imediatamente no livro e tenho
certeza de que também cativará a muitos de seus futuros
leitores.
O estilo leve e conversacional do livro, por outro lado, em
momento algum consegue empanar a profundidade de seu
conteúdo. A autora se dispõe, com a obra, a colocar em
xeque muito do que se pensava ou se pensa ainda na
especialidade antes denominada “desenvolvimento de
coleções” e, baseada em sua experiência na Universidade
do Estado de Santa Catarina e nas proposições do
professor Aldo Barreto, começa propondo uma nova
denominação para ela: Gestão de Estoques de Informação.
Segundo Elisa, a nova terminologia se justifica, porque
“essa mudança terminológica deve também implicar uma
mudança de visão, especialmente devido ao caráter
dinâmico que a palavra “estoque” poderá assumir”. Nesse
sentido, a autora é ousada e eu gosto muito disso.
Não posso deixar de concordar com ela. Terminologias
tais como “formação e desenvolvimento de coleções” -

�como proclama ainda o currículo mínimo nacional em
Biblioteconomia - ou apenas “desenvolvimento de
coleções” - como eu sempre defendi -, estão com os dias
contados. O mesmo parece ocorrer com tentativas de
mudança apenas paliativas, como “gestão de coleções” ou
“administração de acervos”. Nenhuma delas reflete mais a
realidade do mundo da informação que hoje está disperso
em ambientes concretos (os documentos físicos) e virtuais
(toda a gama de informação disponível nas redes
eletrônicas). “Estoque” tem um aspecto mais dinâmico, de
conjunto renovável, que me parece muito apropriado ao
conceito que se apresenta. Não sei se a terminologia
proposta por Elisa será bem recebida pelos profissionais
brasileiros, mas ela me parece bastante adequada e torço
para que encontre guarida na área. Vale lembrar, inclusive,
que ela já tem uma ressonância e encontra um precedente
na Biblioteconomia inglesa, que há tempos utiliza a
terminologia “stock management” para se referir ao
desenvolvimento de coleções.
A ousadia de autora, devo acrescentar, não se restringe
apenas ao que diz respeito à nova denominação para uma
antiga área. Ela vai além. Em seu segundo capítulo, propõe
o abandono da palavra “usuário” e a utilização do termo
“interagente”. Justifica essa transição, baseando-se na
conotação excessivamente passiva da palavra usuário
(com o que eu concordo) e na maior adequação da palavra
interagente para definir “o cidadão contemporâneo que
busca informação de forma autônoma, inclusive nas
bibliotecas” (com o que eu também concordo). A
continuidade de sua argumentação é bastante coerente e
ela destaca que “[...] Mesmo nas bibliotecas mais
tradicionais onde a participação do ‘usuário’ é quase nula,
ainda ali é possível perceber níveis de interação ou
interatividade”. Elisa exemplifica esse papel interativo das
bibliotecas, mencionando “as conhecidas ‘caixinhas de
sugestões’ para a seleção de obras a serem adquiridas ou,
ainda, os estudos de ‘usuários’, cujos resultados,
infelizmente, nem sempre se convertem em mudanças

�concretas na biblioteca”. E apela a colegas e pensadores
respeitados da Biblioteconomia, como minhas queridas
colegas, as duas Reginas (Obata e Belluzzo) que salientam
o papel de interação e de intermediação da biblioteca e do
bibliotecário.
O discurso de Elisa a favor do termo interagente é lógico,
conciso, claro, racional. Impossível não concordar com ela.
Mas, mesmo concordando, eu confesso que fico
desconfortável. A palavra “interagente” me incomoda.
Talvez, por ser muito longa. Talvez, por ser sob alguns
aspectos, artificial. Pode ser apenas implicância minha, de
velho caquético e atrasado que sou, mas não consigo
imaginar qualquer bibliotecário falando ou sequer
pensando algo do tipo “eu vou agora atender o meu
interagente” ou afirmando que precisa desenvolver um
“estudo de interagentes para ajudar no planejamento da
biblioteca”. Isso me leva a recear que a inclusão da palavra
interagente em nosso vocabulário venha colaborar mais
para enriquecer o dicionário de biblioteconomês do que,
propriamente, para modificar práticas e visões sobre
aqueles para quem os serviços de informação existem. Isso
me leva também a pensar que, talvez, o problema não
esteja realmente na substituição da palavra usuário por
outra, mas na acepção de que nós conseguimos fazer com
que ela receba em nossa prática no dia a dia. Eu me
lembro de Alice no País das Maravilhas, quando ela
conversa com HumptyDumpty:
Quando eu uso uma palavra - disse
HumptyDumpty num tom escarninho - ela
significa exatamente aquilo que eu quero
que signifique ... nem mais nem menos.
A questão - ponderou Alice – é saber se o
senhor pode fazer as palavras dizerem
coisas diferentes.
A questão - replicou HumptyDumpty – é
saber quem é que manda. É só isso.

�Não consigo deixar de lado a impressão de que ainda não
exploramos o suficiente a palavra “usuário” e que ela
continua tendo o viés passivo que Elisa denuncia (e com o
que eu concordo), mais por nossa própria culpa do que por
qualquer aspecto inerente ao próprio vocábulo. Mas,
provavelmente, estou errado nisso. De qualquer forma,
sinto que um grande esforço deve ser desenvolvido para
que a palavra interagente “pegue”, não apenas na
literatura especializada, mas também - e principalmente -,
na prática diária dos profissionais. E desejo sucesso a
todos que se dispuserem a essa tão louvável e necessária
missão.
Os capítulos restantes do livro são dedicados à discussão
das várias etapas da Gestão de Estoques de Informação, e
fico muito feliz em ver que aquelas, definidas para o velho
desenvolvimento de coleções, continuam válidas nesse
novo contexto, como o estudo de comunidade, a seleção, a
aquisição e a avaliação. Não sei se concordo totalmente
com a ênfase que a autora dá à doação como indicador de
participação da comunidade na constituição dos estoques
de informação, pois prefiro apontar a necessidade de uma
política pública para a constituição de estoques de
informação e a responsabilidade dos mantenedores das
unidades de informação na provisão desses estoques. Por
outro lado, costumo dizer que a doação é o maior indicador
do prestígio que a biblioteca tem na comunidade e acho
importante isso não se perder. Nesse sentido, qualquer
orientação que leve valorizar a participação do público na
constituição dos estoques de informação – nesse rol
incluída a doação -, deve ser incentivada. No entanto, é
importante também desenvolver a consciência de que nem
todo estoque de informação, oriundo de doações,
representa um conjunto coerente e útil à comunidade. Se
não se atentar a isso, corre-se o risco de tal como
acontece com os grandes meios de comunicação deste
país, valorizar de forma desatinada qualquer estoque de
informação organizado por pedreiros, catadores de lixo,
crianças que gostam de ler, projetos de crowdsorcing e

�assim por diante. Mas confesso meu preconceito: sou por
princípio desconfiado de iniciativas que se apoiam em
atividades voluntárias; acredito que elas só funcionam em
pequena escala, como em quermesses de igreja ou na
organização de cursos para idosos, por exemplo. E olha lá.
Achei especialmente interessante o capítulo em que Elisa
trata da necessidade e da formulação de uma política para
gestão de estoques de informação. Não poderia concordar
mais com ela, quando afirma que “A disponibilização da
política por meio eletrônico, através de páginas web,
parece um caminho natural para democratizar o acesso a
este documento nos dias atuais”. Em uma época em que a
transparência é fundamental, toda e qualquer iniciativa que
deixe às claras o projeto institucional por trás de qualquer
estoque de informação é não apenas desejável, mas pode
ser vista até mesmo como uma obrigação profissional.
Infelizmente, o número de unidades de informação que
parece ter essa preocupação no Brasil – conforme se pode
ver por survey, realizada pela autora em sites oficiais na
internet -, ainda está muito aquém daquilo que se poderia
imaginar ou do que seria desejável e necessário.
O livro encerra com um capítulo desafiador que trata da
gestão de e-books. Nessa área, Elisa está consciente de
que pisa em ovos, pois se trata de área ainda bastante
recente, sobre a qual pouca coisa está realmente
sedimentada. Cuidadosa, não cai na esparrela de acreditar
– e, pior ainda, defender, como muitos de nossos colegas
menos avisados acreditam e defendem -, que o surgimento
dos e-books coloca em risco a própria existência dos
estoques de informação. Afinal, se alguém pode criar o seu
próprio estoque no seu computador – de forma
relativamente barata, como acreditam muitos -, porque
necessitará de estoques formalmente constituídos por
bibliotecas, centros de documentação, arquivos e outras
unidades de informação? E por que os bibliotecários
precisariam se preocupar com eles nas diversas unidades
de informação? Pois é: por quê? Talvez, porque não vale a

�pena alguém ir juntando informações que jamais poderão
ser devidamente deglutidas, simplesmente por que alguém
pode fazer isso. Ou por que isto representaria uma perda
de tempo à maioria das pessoas. Assim, discutir o papel
dos e-books em estoques de informação, digamos assim,
“públicos”, parece importante e necessário, a fim de evitar
que os parcos recursos disponíveis para aquisição sejam
desperdiçados em obras que não atendam às
características tecnológicas disponíveis, estejam em
desacordo com o nível de familiaridade dos usuários – ou
melhor, dos interagentes - com esse recurso ou tenham
condições de atender, minimamente, a demanda que
suscitarão. Elisa apresenta ponderações preciosas e bem
fundamentadas nesse sentido e só posso torcer para que
sua voz seja ouvida e seguida.
Para terminar esse prefácio-desabafo (ou desabafoprefácio, sei lá...), eu gostaria de dizer que me sinto muito
honrado por ter sido escolhido para escrever algumas
palavras introdutórias neste livro. De certa forma, eu o
vejo – e espero que a autora não se sinta ofendida por isso
-, como a segunda edição ampliada e atualizada do meu
livro sobre desenvolvimento de coleções de cinco lustros
atrás. Mais ainda: como uma atualização muito superior a
qualquer uma que eu poderia ter feito. Assim, sinto que
agora posso, tranquilamente, se assim for a minha
vontade, vestir meu pijama de aposentado e descansar na
minha rede preferida, curtindo minhas netas, lendo os
livros que ainda não li, relendo aqueles de que gostei e
organizando a minha coleção de gibis – ou, para atualizar a
terminologia, o meu estoque de informações gráficassequenciais. Sei que a bandeira que empunhei durante a
minha vida profissional na Biblioteconomia segue em
ótimas mãos. Não consigo imaginar melhores.
Prof. Waldomiro Vergueiro

��Introdução
“ainda somos os mesmos
e vivemos como nossos pais”
(Belchior)

O mundo mudou. Não me considero muito velha, mas
já vivi o suficiente para ver as calças boca de sino
entrarem na moda, saírem dela, voltarem e saírem de
novo. Fiz curso de taquigrafia e datilografia, mas hoje em
dia utilizo tecnologias que cabem na palma da minha mão
para redigir textos e me conectar com o mundo inteiro.
Foi tudo muito rápido e continua sendo. A humanidade é
curiosa e criativa, tem sede pelo novo e, como resultado, a
cada dia chegam às nossas mãos novos produtos e
serviços diferenciados que remodelam o dia a dia em,
praticamente, todas as áreas. Vamo-nos adaptando e
introduzindo diferentes rotinas no nosso jeito de trabalhar,
comprar, divertir, viver.
A nova ordem, porém não é apenas tecnológica. Vivemos
tempos em que muitos conceitos antigos são repensados e
vemos a sociedade atual exigindo maior respeito à
natureza e às diferenças, lutando por uma vida mais justa
para todos.
Assuntos como política, cultura, educação, saúde e
religião, por exemplo, entram em um novo e amplo
debate, conduzido e mediado por redes sociais na Internet,
e uma nova onda de mobilização se faz sentir em todo o
planeta. Multidões vão às ruas clamar por seus direitos,
parecendo haver uma nova consciência da
responsabilidade cidadã, impulsionada por muito mais do
que alguns centavos acrescidos às passagens de ônibus.
Ao mesmo tempo, no entanto, percebemos que algumas

�coisas simplesmente não mudaram praticamente em nada.
Algumas instituições parecem resistir ao tempo e aos
ventos de mudança, permanecendo quase intactas. Os dias
continuam tendo 24 horas, apesar da sensação incrível de
que o tempo passa cada vez mais rápido. Problemas
sociais como pobreza e corrupção parecem existir desde
sempre e, apesar de estarmos em pleno século XXI, a
maioria de nós nasce, cresce, constitui família e,
inevitavelmente, um dia morre.
Que mundo estranho, cheio de contradições... O novo e o
velho se esbarram, caminham juntos, e cada um de nós é
feito desse antagonismo que é matéria prima do ser
humano e da sociedade em que vivemos.
Nessa caminhada, somos todos protagonistas tanto do
novo quanto na manutenção das tradições. Falo
primeiramente por mim enquanto mulher, mãe, esposa e
cidadã. Mas, também, enquanto profissional: sou
bibliotecária de formação e atuo como professora
formadora de novos bibliotecários.
Desse lugar é que pretendo discutir mudanças e tradições
ao longo das próximas páginas, pois se há uma área
profissional capaz de permanecer enraizada e fiel aos seus
princípios diante dos vendavais das mudanças sociais e, ao
mesmo tempo, transformar suas práticas a partir desses
mesmos ventos, essa é a Biblioteconomia.
Pense numa biblioteca de 100 anos atrás em seus
aspectos físicos. Imagine suas estantes com seus livros
organizados, suas mesas e cadeiras dispostas para a
consulta, o balcão de atendimento. Pense agora na
biblioteca do seu bairro hoje. Visualize suas estantes com
seus livros organizados, suas mesas e cadeiras e o balcão
de atendimento. Se tiver sorte, vai conseguir enxergar
alguns terminais de computador como diferença principal.
Agora, como bibliotecário, pense nos métodos e códigos
de catalogação e classificação de 100 anos atrás e, nos de
hoje. Se tiver sorte, vai conseguir enxergar alguns

�terminais de computador como diferença principal.
Por outro lado, dos livros acorrentados e silêncio sepulcral
ao ambiente interativo de hoje, muitas águas já passaram.
Esse mesmo ambiente físico com características tão
parecidas ontem e hoje, também é palco de mudanças
significativas, onde serviços de informação e leitura
criativos e inclusivos fazem muita diferença. Dois exemplos
para o começo da nossa conversa, um brasileiro e outro
estadunidense.
Uma biblioteca de encher os olhos e o coração
bibliotecário de orgulho e esperança é a Biblioteca de São
Paulo, localizada no espaço onde funcionava a
penitenciária, da qual se tem a triste lembrança de uma
das mais cruéis chacinas de que se tem notícia no Brasil: o
Carandiru.
Inaugurada em 2010 e mantida pelo Governo do Estado
de São Paulo, a Biblioteca tem uma proposta inovadora
que se concretiza através de projetos de leitura e inclusão
social, oferecidos em um ambiente colorido, agradável e
confortável. Como biblioteca pública, atende os mais
diferentes públicos de forma atenciosa e acolhedora.
Trata-se de um espaço onde o impresso e o eletrônico
convivem, oportunizando o acesso a obras físicas e digitais,
inclusive a pessoas com necessidades especiais. Nele, é
possível ler, assistir a filmes, ouvir músicas, pesquisar na
Internet, jogar.
Segundo estatísticas da biblioteca, no ano de 2013, mais
de 300 mil pessoas usufruíram desse espaço e dos serviços
que nele são oferecidos e mais de 16 mil participações em
projetos de ação cultural foram desenvolvidos1.
Considero essa iniciativa do governo estadual de São
Paulo uma virada de mesa sensacional. A quantidade de
jovens e adolescentes que frequentam a biblioteca chega a
emocionar. Trazer o mundo da leitura e da vida para um
lugar, anteriormente, ligado a atrocidades e morte é
simplesmente fantástico! A sociedade agradece.

�Biblioteca de São Paulo. Fonte: Biblioteca São Paulo

Como exemplo internacional, gostaria de mencionar a
Free Library, da Central Library of Philadelphia (Filadélfia,
EUA). Para além de seu espaço físico convencional, esta
biblioteca oferece diversos serviços essenciais à população,
como: orientação para buscar e encontrar emprego e
cursos de língua inglesa e preparatórios aos exames de
cidadania americana2. A biblioteca dispõe de diversos
‘ramos’, estendendo-se até o aeroporto da cidade ou áreas
com grande número populacional.

Free Library of Philadelphia, Aeroporto Internacional de
Philadelphia.
Fonte: http://intransit.blogs.nytimes.com/

Lankes (2012, p.129-130) conta que esta biblioteca
passou por uma situação constrangedora com a presença
de um grande número de moradores de rua, que entravam
para usar o banheiro e buscar um lugar para descansar
assim que suas portas eram abertas.
Para solucionar o problema, em vez de buscar formas de
livrar-se dos “incômodos” que este público poderia causar,

�os bibliotecários: 1. Contrataram esses homens e mulheres
como atendentes e responsáveis pela limpeza nos
banheiros; 2. Abriram um café financiado por um banco,
com equipamentos doados por uma grande rede de café
norte-americana e com o apoio das padarias da
comunidade que ofereciam a comida. Lá também
trabalhavam os sem-teto, que eram treinados e
gerenciados por antigos moradores de rua que estavam em
fase de transição profissionalizante.
Estes são apenas dois exemplos de como as bibliotecas
podem ser ao mesmo tempo tradicionais e inovadoras, sob
uma perspectiva social, que é justamente a razão de ser
desses espaços de informação. Os livros ainda estão nas
estantes, o balcão de atendimento ainda existe e as mesas
e cadeiras também fazem parte do cenário. Mas, elas
foram além, e é encantador reconhecer o potencial das
bibliotecas em sair do lugar comum e transformar vidas.
Contudo, este não é o tema central que quero abordar
nesta obra. Fiz toda essa introdução apenas para lembrar
que as bibliotecas podem ser muito mais do que a “caixa
de livros” que seu nome sugere. Fiz isso também para
reforçar a ideia de que os livros, dispostos nas estantes,
sem os quais seria (ainda) estranho pensar uma biblioteca,
possuem um importante papel social a cumprir.

A finalidade última de uma coleção ou acervo, seja físico
ou digital, é ser acessado para mudar vidas. Alguém já
disse que o melhor nome para biblioteca seria
‘personoteca’3, com o que eu concordo plenamente.
Ranganathan já sabia disso lá no início do século XX,
quando chamou a atenção para o fato de que os livros

�precisam ter seus leitores e que cada leitor deve ter o seu
livro. Isso é o básico da missão de uma biblioteca,
qualquer que seja a sua tipologia: da bebeteca, até a
especializada em assuntos dos mais complexos; o material
bibliográfico que comporá o seu acervo precisa ser pensado
e gerenciado de maneira voltada às pessoas que são o seu
público-alvo.
E aí chego ao meu verdadeiro objetivo: discutir a
formação e o desenvolvimento de coleções no contexto da
sociedade atual, sob o ponto de vista da gestão de
estoques de informação. Historicamente falando, a inclusão
da temática sobre as atividades biblioteconômicas,
voltadas à formação e desenvolvimento de acervos nos
cursos de Biblioteconomia no Brasil, remonta pouco mais
de 30 anos. Ou seja, anteontem.
Foi a partir daí que, efetivamente, houve uma atenção
maior e mais sistemática direcionada às questões relativas
aos cuidados que se deve tomar para selecionar, adquirir e
avaliar as obras que comporiam a coleção de uma
biblioteca brasileira.
Apesar de tão pouco tempo decorrido, o período entre a
década de 1980 e os dias atuais coincide com a época de
maiores mudanças no contexto informacional mundial. As
tecnologias de informação e comunicação alteraram
drasticamente o cenário da geração, fluxo, armazenamento
e uso da informação e, obviamente, há várias implicações
para as bibliotecas nesse novo contexto.
Portanto, formar e desenvolver coleções, hoje,
simplesmente não pode ser atividade realizada da mesma
forma como o foi há 30 anos. Por isso, como boa
bibliotecária, consciente de que manter suas raízes bem
firmadas é tão importante quanto empreender mudanças,
convido vocês a me acompanharem em uma releitura dos
principais termos que representam a criação e
desenvolvimento de acervos.
Esse ponto de vista nasce também da minha atuação

�como docente. Em 2002, ao iniciar a carreira como
professora do curso de Biblioteconomia, oferecido pela
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC),
assumi a disciplina de Gestão de Estoques de Informação,
a qual recebi assim, com esse nome, sem ter participado
do processo de mudança de nomenclatura, já que ainda
não fazia parte do quadro docente do Departamento de
Biblioteconomia e Gestão da Informação – DBI.
A mudança de nomenclatura ocorreu com a reformulação
curricular implantada em 2001, que deu um caráter
diferenciado ao curso, modernizando-o especialmente a
partir dos aspectos administrativos e tecnológicos da
formação profissional. A princípio, acreditei ser uma
tendência que, com o passar dos anos, naturalmente
haveria adesão de outros cursos que mudariam o título da
disciplina. De acordo com essa minha lógica, naturalmente,
artigos seriam publicados com a novidade na área de
Formação e Desenvolvimento de Coleções.
Não foi o que ocorreu. Numa pesquisa realizada no ano de
2011, verifiquei que de um universo de 37 cursos de
Biblioteconomia brasileiros, apenas 03 ofereciam a
disciplina com esse nome. A maioria esmagadora ainda
permanecia (e ainda permanece) oferecendo ‘Formação e
Desenvolvimento de Coleções’. Olhando um pouco mais
criticamente suas ementas e planos de ensino, mesmo as
03 disciplinas encontradas não apresentavam mudanças
significativas na abordagem do assunto ‘gestão de
estoques de informação’.
Esses dados me levaram a fazer muitas perguntas: por
que o título não emplacou? Será que vale a pena insistir
com ele? O que muda, afinal, se mudarmos o nome da
disciplina? A partir desses questionamentos, cheguei a
alguns pontos de reflexão iniciais que formam o conteúdo
deste livro, não havendo a menor pretensão de esgotar o
assunto, senão de apenas começar o necessário debate.
É preciso repensar a própria visão que se tem da
biblioteca em si e seus ‘usuários’ (termo que me causa

�incômodo). É preciso repensar o que significa ‘acervo’ nos
dias atuais e, como consequência natural, planejar tanto a
forma de gerenciá-lo quanto o perfil do profissional que
deverá fazer isso. E, aqui, abro um parênteses para pedir
desculpas pela quantidade de citações que o texto trará. A
argumentação que vem a seguir necessita de um chão
teórico firme para que possa sustentar as mudanças
terminológicas propostas.
Vivemos novos tempos, um novo contexto. Não podemos
nos conformar em repetir velhas práticas pensando em
obter novos resultados; Einstein diria que isso é loucura.
Prefiro seguir o que recomenda Giardelli (2012), citando
Gary Hamel: “não use velhos mapas para descobrir novas
terras” ou, em outras palavras, a partir do que já
conhecemos, podemos criar novas trilhas e chegar a
resultados melhores e mais interessantes.
Assim é que lanço a proposta de rediscutir a atividade
mais básica e milenar do bibliotecário: formar e
desenvolver a coleção de uma biblioteca. Proponho pensar
nessa atividade através de duas vertentes principais: a
administrativa e social. Para tal, nos capítulos que seguem,
abordaremos as tradicionais etapas do processo de Gestão
de Estoques de Informação à luz do contexto social
conectado e participativo em que vivemos atualmente.
Pretendo também repensar o papel do bibliotecário
enquanto gestor desses estoques: discutir as
características e atividades necessárias e desejáveis para
esse perfil de atuação. Além disso, suponho ser igualmente
essencial discutir a relação do bibliotecário e da biblioteca
com o seu interagente (termo que escolhi em substituição
a ‘usuário’). Dedicarei algumas páginas a esta reflexão
fundamental, até porque o ‘usuário’ de 30 anos atrás ficou
realmente para trás.
Este livro não tem por objetivo repetir o que já foi dito
sobre como formar e desenvolver coleções. Temos
literaturas excelentes que trazem com detalhes cada item
necessário dentro desse processo e, nesse aspecto, ainda

�são bastante atuais. O que desejo aqui é dizer o que ainda
não foi dito. Talvez pensado por muitos como eu, mas
ainda pouco explorado na literatura da área.
Sem perder de vista quem somos, enquanto
bibliotecários, pelo contrário, resgatando a verdadeira
essência da nossa atuação profissional, tentemos lançar
um novo olhar à biblioteca e sua comunidade, mais
precisamente à construção e desenvolvimento de seus
estoques de informação.
1 Dados da página da Biblioteca de São Paulo, disponível em:
http://bsp.org.br/fotos/
2 http://www.freelibrary.org/
3 Adriana Ferrari, atual presidente da Federação Brasileira de
Associações de Bibliotecários, acrescenta outras sugestões de termos
bem interessantes nessa linha de pensar a biblioteca voltada às
pessoas, como: pessoateca, gentoteca ou cidadâoteca. Genial, não
acham?

��1 - Então, por que falar em
gestão?
“O que importa não é de onde você vem
ou onde você está,
mas para onde você quer ir.”
David J. Schwarts

A palavra ‘gestão’ talvez nunca tenha sido tão
utilizada no meio acadêmico e empresarial como nos
últimos anos. Atualmente, no universo de estudos e
práticas biblioteconômicas, é muito comum ouvir falar
sobre gestão de bibliotecas, gestão da informação, gestão
de documentos, gestão do conhecimento, dentre outros
tantos.
Mas, o que é gestão? Encontrar uma definição clara do
termo não se mostrou tarefa simples para o
desenvolvimento deste livro. A primeira e mais óbvia
constatação seria a de que as atividades de gestão estão
intrinsecamente relacionadas à área de administração de
empresas. Sendo assim, é evidente que a busca
começasse por obras específicas dessa área do
conhecimento.
Vejamos o que diz o Dicionário Elucidativo de Termos
Administrativos (AMORIM; CLARES, 2005, p.97): “Gestão:
ato de gerir; gerência, administração; período ou termo de
um mandato, cargo ou função”. Para o propósito deste
livro, não considerei suficiente.
Próximo passo: percorrer obras de autores clássicos como
Chiavenato ou Drucker: igualmente frustrante. Embora
esses e outros autores discorram muito sobre o tema,
trata-se de tarefa quase heroica encontrar uma definição

�ou conceito específico que possa ser considerado “o”
conceito para explicar exatamente o que significa ‘gestão’:
”Há certamente tantas definições diferentes de gestão como
autores que escreveram sobre o assunto, e gestores que a
praticam. Estas diferenças surgem por uma variedade de
razões. Por vezes, a partir do debate irrelevante sobre se a
gestão é uma arte ou uma ciência; outras vezes, refletem os
diferentes pontos de vista a partir dos quais esse assunto é
abordado; e outras vezes, ainda, resultam dos diferentes
propósitos a que a definição se destina [...] Por um lado,
Peter Drucker, naquilo que é reconhecido como um dos
textos padrão sobre gestão, gasta três capítulos inteiros a
explorar “a natureza da gestão” [...] mas [...] nenhuma
definição simples e concisa de gestão é de facto
apresentada”. (GILES; STANSFIELD, 1980, p.9).

Talvez seja por isso que, dependendo da área do
conhecimento, surjam diferentes definições de gestão
aplicáveis a cada contexto. Contudo, Marques (2012, p.3)
traz uma definição de gestão um pouco mais interessante
ao nosso debate, de autoria de Robbins e Coulter (2009):
“Gestão é a coordenação e supervisão do trabalho de
outros para que as suas actividades sejam desempenhadas
eficiente e eficazmente” (grifos do autor).
Entram em cena as palavras ‘coordenação’ e ‘supervisão’,
que remetem às atividades de liderança no processo
administrativo e à ideia da eficiência e eficácia, ligadas
diretamente aos resultados que se espera obter.
Marques (op.cit) também cita Kay (1981) para quem
gestão é “o processo de tomada de decisão de como
afectar recursos limitados entre usos alternativos de
modo a optmizar determinados objectivos” (grifos do
autor).
A partir desta segunda concepção de gestão, percebe-se
que se trata de um processo, no qual decisões importantes
precisam ser tomadas, a fim de otimizar recursos para
atingir objetivos.
O texto de Marques é bastante didático e traz de forma
bem simplificada as etapas da gestão:

�Planejamento:
definir
os
objetivos
e
determinar com antecedência como atingilos;
Organização: estabelecer as relações entre
as pessoas e entre estas e os recursos
existentes;
Direção: Motivar, liderar e promover a
comunicação entre e com as equipes de
trabalho, a fim de alcançar os objetivos
propostos e resultados desejados;
Controle: Comparar objetivos definidos e
alcançados, corrigir falhas e desvios,
definindo novas ações.
Estes pontos são muito importantes para a discussão aqui
proposta, pois gerenciar/administrar demanda certos
conhecimentos e práticas organizacionais muito
específicas, que não devem ser realizadas de modo
intuitivo em nenhuma empresa. Tampouco em bibliotecas.
Hoje em dia são bastante evidentes as conexões entre a
Biblioteconomia e a Administração, ficando muito claras
suas aplicações especialmente nas questões gerenciais de
Unidades de Informação. Um bom número de artigos e
livros têm sido publicado, trazendo essa ligação entre as
áreas e discutindo as muitas variáveis e possibilidades de
aplicação de conceitos e atividades administrativas que
ajudam a organizar o trabalho bibliotecário, conferindo-lhe
maior eficiência e eficácia em diferentes processos.
Não é à toa que alguns cursos de Biblioteconomia
possuem em seus currículos diversas disciplinas voltadas a
estudos de Teorias Administrativas e a aspectos diversos
de gestão de bibliotecas e unidades de informação, por
exemplo, e isso se explica por conta da visão que temos
das bibliotecas enquanto organizações.

�Para atingir os objetivos, neste capítulo e voltando ao
nosso problema com o conceito de gestão, utilizaremos
duas definições encontradas em textos próprios da
Biblioteconomia. A primeira se encontra no Glossário de
Biblioteconomia e ciências afins (ARRUDA; CHAGAS, 2002,
p.104), onde gestão “consiste não só de um conjunto de
ferramentas, como também de uma adequada visão e
compreensão do negócio em si”.
Embora um tanto genérica, essa definição contribui, na
medida em que aponta a necessidade da adequação da
visão do gestor e de uma compreensão de negócio no
desenvolvimento das atividades gerenciais. De nada
adianta conhecer boas ferramentas se a visão for distorcida
ou não houver a compreensão exata a respeito da
biblioteca enquanto uma organização.
Mais completa e detalhada, a definição de autoria de
Garcia-Reyes, utilizada por Vergueiro e Miranda (2007),
aponta detalhes da atuação do gestor dentro do quadro
geral da administração de bibliotecas:
conjunto de funciones y técnicas integradas, de ejecucíon
simultânea, que deben aplicar de forma necesaria los cuadros
directivos, como responsables del trabajo de otros, para
lograr que la organización a la que pertencen funcione y
pueda alcanzar los propósitos que persigue” (GARCIA-REYES,
2007, p. 12).

Portanto, vemos que a partir de uma adequada visão
gerencial que permita a integração de funções e técnicas
de execução simultânea, coordenadas por pessoas em
cargos de liderança, detentoras da exata compreensão de
negócio que levará a biblioteca, enquanto organização, a
funcionar de maneira a atingir seus propósitos e objetivos,

�é o que podemos chamar de gestão no universo
bibliotecário.
Nessa direção, Maciel e Mendonça (2000) afirmam que,
independente do contexto e do tamanho, as bibliotecas
precisam ser pensadas como empresa, na qual as
atividades e projetos precisam ser gerenciados de modo a
obter resultados que devem ser avaliados constantemente.
A partir dessa concepção, as autoras dividem o trabalho
do gestor de bibliotecas e as tarefas necessárias para o dia
a dia dessas unidades de informação em diferentes funções
(como sugere Garcia-Reyes) de O&amp;M (Organização e
Métodos), que possuem como alvo a qualidade total.
Esse processo é permeado por uma sequência de tomadas
de decisão que colocam, sobre o bibliotecário, a
responsabilidade de escolher sempre o melhor caminho a
seguir para resolver os problemas de sua biblioteca. Assim,
eles se tornam gerentes de seu trabalho, estando em
cargos de mando ou não. (MACIEL; MENDONÇA, 2000,
p.15).
O propósito final de um processo de gestão de bibliotecas
é sempre o alcance de um nível de qualidade e excelência
em produtos e serviços de informação. No contexto da
Biblioteconomia é comum o uso do termo ‘gestão’, aplicado
basicamente nos processos de bibliotecas, relativos a
serviços, idealmente, com foco no ‘usuário’. Santos, Fachin
e Varvakis (2003, p.86) afirmam que:
Na gestão de serviços em bibliotecas, é fundamental e
necessária uma nova concepção de prestação de serviços,
fazendo uso das TIC e focando os usuários, ou seja, a
identificação da demanda de informações direcionadas e
específicas a cada segmento. É importante conhecer quem
são os usuários, quais são suas necessidades, promover uma
interação entre o fornecedor e o usuário da informação, dar
ênfase ao receber e analisar as solicitações de serviço,
detalhar as necessidades de cada usuário, especificar o tipo
de pesquisa ou de material bibliográfico necessário e mais
adequado àquele usuário.

Para administrar bibliotecas nos dias atuais, como visto na

�citação acima, é necessário que o gestor detenha,
também, conhecimento de tecnologias de informação e
comunicação direcionadas ao uso de equipamentos e
recursos eletrônicos, a fim de oferecer serviços de
informação adequados a uma comunidade que precisa ser
igualmente bem conhecida.

O bibliotecário gestor é o profissional responsável e
qualificado para exercer liderança em todo o processo que
envolve recursos e políticas administrativas necessárias ao
sucesso da biblioteca como um todo. Holanda e
Nascimento (2010) afirmam que o bibliotecário, gestor de
unidades de informação, deve desenvolver habilidades e
competências com aportes em um conjunto de
conhecimentos administrativos e tecnológicos de disciplinas
formativas que perpassam conteúdos como modelos
organizacionais, planejamento e tomada de decisões,
economia e políticas de informação dentre outras, que o
capacitem a gerenciar uma biblioteca com vistas ao
oferecimento de produtos e serviços de qualidade.
A literatura atual em Biblioteconomia tem dado ênfase
especial ao bibliotecário enquanto gestor. A partir desse
ponto de vista, o perfil de liderança do profissional que
gerencia bibliotecas é destacado e delineado, dando
evidência à sua capacidade de trabalhar em equipe e à
necessidade de adquirir conhecimentos específicos da
disciplina de Administração e de temas atuais sobre a
gestão organizacional. Assis e Maia (2014, p.187) afirmam
que esse bibliotecário “deve ser uma pessoa ágil e
dinâmica, com uma visão moderna de gestão e
organização”.

�Já o termo ‘gestor da coleção’ é raramente utilizado ao se
referir ao bibliotecário que atua com os estoques de
informação em bibliotecas. Verifica-se o uso do termo
‘gestor da informação’, englobando as atividades
específicas de pensar e organizar as coleções. Quando há
essa menção, encontra-se a orientação das atividades
relativas à formação e desenvolvimento de coleções sendo
próprias desse profissional como, por exemplo, em
Nascimento (2000, p.13), quando afirma que “o gestor de
informação tem de adotar metodologias para avaliar e
reajustar constantemente a coleção da biblioteca”.
Assim, também, Rodrigues e Azevedo (2012, p.38), ao
discorrer sobre o perfil do bibliotecário enquanto gestor da
informação em bibliotecas universitárias, afirmam que
dentre as suas atribuições estão as das atividades de
“organização, seleção, aquisição, armazenamento,
circulação, desenvolvimento de coleções, entre outras”.
De qualquer maneira, a partir de tudo o que vimos até
aqui, podemos delinear o perfil desse gestor e dizer que ele
deve ser alguém capaz de: coordenar e supervisionar a
equipe da biblioteca através de um processo de tomada de
decisão consciente e coerente, levando-a a oferecer
produtos e serviços de informação (com ou sem base
tecnológica), focados na sua comunidade de interagentes e
atingindo seus objetivos de maneira eficiente e eficaz. Em
relação à gestão específica dos estoques informacionais,
espera-se o mesmo desempenho.
Em bibliotecas de grande porte, com um número razoável
de bibliotecários atuando em diferentes setores, parece ser
mais fácil conseguir que esse papel seja cumprido de
maneira colaborativa e participativa. Mas e naquela
biblioteca pequena, lá naquela escola distante dos grandes
centros, onde o bibliotecário sozinho acumula todas as
funções possíveis e imagináveis (inclusive as que não estão
diretamente ligadas ao ambiente da unidade de
informação)? A gestão serve para esse contexto também?
O que se pretende discutir aqui é que, para além de

�estudos aprofundados de administração e da construção de
um processo hierárquico e delineado, segundo os
contornos clássicos das teorias administrativas, esse
bibliotecário responsável pela pequena biblioteca e por sua
coleção poderá considerar-se igualmente um gestor.
Isso por que a concepção de gestão que aqui se pretende
utilizar é aquela que tem como objetivo facilitar a vida
profissional do bibliotecário, oferecendo-lhe ferramentas e
ideias práticas de como otimizar seu trabalho através do
planejamento de suas atividades.
Foi publicado no blog chamado Bibliotecários Sem
Fronteiras (MURAKAMI, 2014) um post que sugere aplicar
a cultura organizacional do McDonald’s às bibliotecas. Os
aspectos abordados eram o da padronização, controle e
ferramentas de gestão, treinamento, comunicação eficiente
e rodízio de área/função.
O autor traz de forma simples alguns preceitos que, em
sua opinião (na verdade depoimento, já que trabalhou por
quatro anos em uma das lojas da rede) funcionam bem na
lanchonete e que, se aplicados corretamente nas
bibliotecas, poderiam resolver alguns problemas crônicos
como a dependência de funcionários que dominam as
tarefas de um setor; e termina a postagem dizendo que o
pessoal que trabalha no McDonald’s ganha pouco, mas é
mais animado do que o pessoal da biblioteca.
Sem entrar no mérito da aplicação sugerida, esse
exemplo representa bem o propósito deste livro: sem ter a
pretensão de ser um texto acadêmico que aprofunde
teorias administrativas, a ideia é trazer ao bibliotecário em
atuação uma visão estratégica de seu trabalho enquanto
gerente de uma unidade de informação, com foco dirigido
ao acervo como passível de receber uma gestão
especializada.

�Quando se pensa em acervos naquela perspectiva das leis
de Ranganathan, deve-se levar em conta a comunidade
que interagirá com eles. O material bibliográfico (físico ou
não) de uma biblioteca é a base da prestação de seus
serviços e produtos de informação. Sendo assim, as
coleções dessas unidades estão invariavelmente incluídas
nesse ambiente organizacional e, portanto, alvo de atenção
gerencial.
A necessidade de uma mudança de mentalidade
(adequação da visão) quanto ao acervo nesse aspecto, em
especial, não é nova e essa preocupação não é só minha.
Já nos idos da década de 1980, quando Vergueiro (1989)
lançou o livro Formação e Desenvolvimento de Coleções
(muito utilizado até hoje quando o assunto é a coleção da
biblioteca), o autor já argumentava em suas linhas o quão
importante é “o planejamento de acervos seletivos,
dinâmicos [...] acervos integrados à comunidade”
(VERGUEIRO, 1989, p. 14), e quão necessário se fazia
lançar esse olhar de maneira sistemática à coleção das
bibliotecas.
A essa altura, talvez alguns estejam pensando: mas se
Vergueiro já disse isso em 1989, se esse livro é um dos
mais conhecidos e utilizados pelos bibliotecários que
formam e desenvolvem coleções, por que rediscutir o
tema? E mais, por que falar em ‘gestão de estoques’,
quando já temos tão sedimentado o termo ‘formação e
desenvolvimento’?
Bem, em primeiro lugar, trata-se de demonstrar que as
etapas e características da formação e desenvolvimento de
coleções são nada mais, nada menos, do que etapas e
características próprias de gestão. Essa nomenclatura vem

�adequar o termo aos demais utilizados na Gestão de
Bibliotecas e/ou Unidades de Informação, atribuindo-lhe
uma denominação mais coerente com as práticas de
planejamento de acervos que ali devem ser desenvolvidas.
Em segundo lugar, específica e conscientemente dirigida
aos mais céticos quanto a levantar uma questão dessa
natureza em solo tupiniquim, venho afirmar que o termo
‘Gestão de Coleções’ é amplamente utilizado pelas
Biblioteconomias norte-americanas e inglesas. Isso é bem
simples de checar: você pode realizar uma rápida pesquisa
básica no Google e vai encontrar as conhecidas Políticas de
FDC com o nome de Collection Management Policy1
(Política de Gestão de Coleção).
Assumindo o termo ‘management’ de forma mais
institucional, a ALA (American Library Association),
Associação Norte Americana de Bibliotecários, disponibiliza
uma série de orientações e documentos relativos à gestão
das coleções, em seções especialmente dedicadas aos
profissionais que exercem esse papel junto aos diferentes
tipos de bibliotecas2.
Nela, o bibliotecário poderá encontrar, dentre outras,
informações sobre comitês e grupos de interesse formados
para discutir e orientar o bibliotecário gestor em suas
atividades de formação e desenvolvimento de coleções.
Dentre os documentos disponibilizados pela ALA, estão
diversos guias para orientar diferentes etapas do processo
de gestão de estoques de informação, como: seleção de
obras em áreas especializadas e preservação e estocagem
de itens bibliográficos.
Como argumento final e, talvez definitivo, gostaria de
analisar o uso do termo por um autor repetidamente citado
nos artigos e livros sobre formação e desenvolvimento de
coleções: G.Edward Evans. Lembra-se dele? Se você atua
com coleções, certamente sim.
Evans (1979) é autor de um dos diagramas mais
conhecidos sobre o processo de FDC, citado por Vergueiro

�em seus textos:

Fonte: VERGUEIRO, 1993.

Quantas vezes você já viu, estudou, discutiu e utilizou
essa figura? Pois bem, este autor lançou, em 2012, a sexta
edição do livro publicado em 1979, denominado até a
quinta edição de 2006 como: ‘Developing Library and
information center collections’ (Desenvolvendo coleções de
bibliotecas e centros de informação). A obra recebe agora
o sonoro título de ‘Collection Management Basics’ que inclui
o termo ‘gestão’ (management, grifo meu).
O autor comenta que há vários termos utilizados para
designar o processo de criar coleções, mas a preferência
ocorre pela utilização do termo ‘gestão de coleções’,
porque ele “reflete todos os aspectos que são requeridos
para a efetiva criação e manutenção das atuais coleções de
bibliotecas, desde o início até o fim”. (EVANS, SAPONARO,
2012, Cap.2, p.5. Tradução livre).
Para os autores (op.cit. Cap.2 p.10), o termo ‘gestão de
coleções’ é:
Mais amplo em seu escopo e, enquanto retém a meta de
encontrar a informação desejada pelas pessoas (um serviço à
população), de maneira a economizar o tempo no uso dos
recursos da biblioteca, ainda acrescenta elementos como

�preservação a longo prazo, aspectos legais do acesso e uso
de materiais e proporciona um esforço colaborativo com
outras instituições e pessoas a fim de prover o melhor custobenefício possível ao acesso. Esta nova definição é mais
ampla e dá ênfase ao pensar (em termos de tempo e
economia) a construção das coleções em longo prazo, bem
como a buscar os recursos informacionais tanto interna
quanto externamente.

Conforme já mencionado, gestão pressupõe
planejamento, acompanhamento, avaliação. Portanto,
gerenciar acervos significa mais que localizar, agrupar e
conservar. Significa definir e aplicar critérios de seleção,
aquisição, avaliação e preservação para disponibilização,
buscando atingir níveis cada vez mais elevados de
excelência na formação de um estoque informacional.
Significa também traçar metas de desenvolvimento e
expansão desse estoque, levando em consideração os
objetivos da instituição, as demandas informacionais
existentes e a serem criadas, considerando o contexto
político, social e econômico local/nacional/mundial.
Para atingir essas metas, é necessário planejar atividades
meio e fim, captando recursos humanos e financeiros
suficientes a sua execução e para atingir as metas
propostas e, nesse aspecto, a figura do gestor é
imprescindível.
Acredito que já temos argumentos suficientes para pensar
a formação e o desenvolvimento de coleções sob a
perspectiva da gestão. Podemos, agora, seguir ao próximo
ponto, a partir do qual sugiro analisarmos o acervo como
um estoque de informação a ser gerenciado.
1 Alguns exemplos: Biblioteca Pública de Birmingham (Inglaterra) e
da Universidade de Iowa (EUA):
http://www.bplonline.org/about/policy/CollectionManagement.aspx
http://www.lib.uiowa.edu/collections/
2 Collection Management Section (CMS):
http://www.ala.org/alcts/mgrps/cms e Collection Management
Resources: http://www.ala.org/alcts/resources/collect/collmgt

��2 - Para além dos acervos e das
coleções: estoques de
informação
“Todo leitor tem seu livro. Todo livro tem o seu leitor”
Ranganathan

O termo ‘estoque de informação’ é utilizado por
Barreto (2000), que o conceitua como “toda a reunião de
estruturas de informação. Estoques de informação
representam, assim, um conjunto de itens de informação
organizados (ou não), segundo um critério técnico dos
instrumentos de gestão da informação e com conteúdo que
seja de interesse de uma comunidade de receptores”.
Esses estoques, processados e disponibilizados para
acesso e uso de seus receptores, fornecem os subsídios
necessários para que uma interação seja instalada no
processo comunicativo da leitura, cujo resultado esperado
é a produção do conhecimento.
Para o autor, a informação produzida e estocada é
considerada como sendo algo material e passível de ser
processado, tecnicamente, em unidades de informação
(BARRETO, 1994):
A produção da informação, definida por nós como estruturas
significantes, operacionaliza-se através de práticas bem
definidas e se apoia em um processo de transformação
orientado por uma racionalidade técnica que lhe é específica;
representa atividades relacionadas à reunião, seleção,
codificação, redução, classificação e armazenamento de
informação. Todas essas atividades orientam-se para a
organização e controle de estoques de informação para uso
imediato ou futuro. Este repositório de informação representa
um estoque potencial de conhecimento e é imprescindível

�para que este se realize no âmbito da transferência de
informação [...] As estruturas significantes armazenadas em
bases de dados, bibliotecas, arquivou ou museus possuem a
competência para produzir conhecimento, mas que só se
efetiva a partir de uma ação de comunicação mutuamente
consentida entre a fonte (os estoques) e o receptor.

As atividades técnicas mencionadas por Barreto (1994)
correspondem às etapas da gestão desses estoques
comumente encontradas em bibliotecas. O cenário de
produção da informação, contudo encontra-se em franca
expansão num crescente verificado desde a invenção da
imprensa e potencializado ainda mais com a chegada da
informática e da Internet.
Assim, os estoques de informação podem também ser
considerados como todo o material bibliográfico “reunido,
selecionado, codificado, reduzido, classificado e
armazenado”. Essa “racionalidade técnica”, embora
abranja as demais atividades da gestão da biblioteca como
um todo, inclui as atividades de gestão, próprias da
formação e desenvolvimento das coleções. Segundo o
autor (op.cit.):
A crescente produção de informação precisa ser reunida e
armazenada, de forma eficiente, obedecendo critérios de
produtividade na estocagem, ou seja, o maior número de
estruturas informacionais deve ser colocado em menor
espaço possível dentro de limites de eficácia e custo. [...]
Assim, os estoques institucionais de informação, processados,
gerenciados e controlados para uso político e econômico,
constituem uma infocotextura que convive e permeia uma
superestrutura de informação. A esta se acrescentam,
também, os estoques potenciais de informação que se
encontram disponíveis, mas não em uma cadeia de produção,
obedecendo a um processamento técnico e armazenagem
contínua.

Diante de um vasto universo de informações a serem
estocadas, Barreto afirma que as atividades de controle do
caos informacional, ocasionado por um volume gigantesco
de informação produzida atende a três tipos de seleção “na
formação dos estoques de informação”. (BARRETO, 2000).
A primeira delas se refere ao ato de selecionar obras à

�composição de acervos:
A primeira seleção é a de itens de informação que vão entrar
para formar o estoque de informação, os acervos; os critérios
e a política de inclusão são determinados por mediadores que
atuam em nome dos receptores; todo ato de selecionar uma
parte de um todo representa um favorecimento daquela parte
e um ocultamento do todo não favorecido na escolha.

O autor tece comentários sobre aspectos indesejáveis no
que chama de economia da informação, atribuindo caráter
excludente nem sempre positivo ao processo seletivo,
como indicado na citação acima. Vamos abordar as formas
de minimizar esse efeito negativo no capítulo em que se
trata das etapas do processo de gestão de estoques de
informação, especificamente a de seleção.
A partir dos textos de Barreto, abrem-se as portas para
uma nova forma de nomear acervos e coleções de U.I., e o
que pretendo defender aqui é que essa mudança
terminológica deve também implicar uma mudança de
visão, especialmente devido ao caráter dinâmico que a
palavra “estoque” poderá assumir.
Quando falamos em acervos, pensamos em um
agrupamento de itens, geralmente em grande quantidade,
que tenha um dono, um possuidor (privado ou público).
Vejamos as seguintes definições e conceitos:
Dicionário Houaiss: grande quantidade;
montão, acumulação. Conjunto de bens que
integram o patrimônio de um indivíduo, de
uma instituição, de uma nação.
Dicionário Aurélio Buarque de Holanda:
grande
quantidade;
porção,
cúmulo,
montão. Conjunto de obras que fazem parte
de um patrimônio.
Um conceito de acervo para a área da Biblioteconomia,
apresentado pelo Glossário de Biblioteconomia e ciências
afins (BRASIL, 2011) não traz diferenças significativas:

�“conteúdo de uma coleção privada ou pública, podendo ser
de caráter bibliográfico, artístico, fotográfico, científico,
histórico, documental, misto ou qualquer outro”.
Pessoalmente, a ideia de acervo me leva a imaginar uma
sala muito alta, com estantes que vão até o teto, cheias de
livros muitos dos quais talvez nunca tenham sido sequer
abertos. Vejo nessa sala, também, uma mesa antiga,
clássica, de madeira. Ao lado, um pouco mais à direita e
perto de uma imensa janela está uma poltrona confortável
e, forçando um pouco mais a imaginação, vejo-me ali
sentada com um livro aberto no colo, tomando uma xícara
de chá.
É uma imagem linda, digna de orgulho para o dono e
mantenedor desse acervo espetacular, ainda que
imaginário. Porém, trata-se de algo muito particular,
dirigido a um seleto grupo de pessoas, ao qual, em minha
imaginação, estou incluída felizmente.
Quando se fala em coleção, os significados são os
seguintes:
Dicionário Houaiss: reunião ou conjunto de
objetos; reunião ordenada de objetos de
interesse estético, cultural, científico, etc.,
ou que possuem valor pela sua raridade, ou
que simplesmente despertam a vontade de
colecioná-los.
Dicionário Aurélio: Reunião de objetos da
mesma natureza; reunião de objetos
escolhidos por sua beleza, raridade, valor
documentário ou preço.
O Glossário de termos diz o seguinte sobre coleção:
“conjunto limitado, de um ou diversos autores, reunidos
sob um título comum, podendo cada livro ter título
próprio”. Trata-se de uma definição específica que não se
refere ao acervo geral de uma biblioteca e, portanto, não
aplicável a nossa discussão aqui.

�Essas definições nos levam ao questionamento, em
tempos de interatividade e colaboração, das ideias de
coleção e acervo que, apesar de válidas para expressar o
caráter de reunião e conservação em um local definido,
não seriam muito limitadas quando se pensa no potencial
de seus conteúdos informativos no ambiente das
bibliotecas. Esses termos expressam ainda uma visão de
posse, guarda e patrimônio que contribuem à manutenção
do imaginário de biblioteca enquanto guardiã e
colecionadora de raridades (preferencialmente) intocáveis.
Talvez seja exagero da minha parte, mas me parece que
acervos e coleções são apenas para olhar, para admirar
quando, com estoques, as coisas são diferentes. Vamos,
pois à definição de estoque:
Dicionário
Houasiss:
Quantidade
de
mercadoria armazenada para determinado
fim.
Dicionário Aurélio: Porção de mercadorias
armazenadas num depósito, numa loja.
Conjunto de mercadorias, matérias-primas,
produtos acabados ou quase acabados, etc.,
que constituem a propriedade de uma
empresa.
O Glossário de termos de Biblioteconomia e ciências afins
não apresenta o conceito de estoque, o que não chega a
surpreender, já que o termo é pouco utilizado pela área.
Dos conceitos de estoque acima descritos, merece
atenção o que se refere à finalidade para a qual a
“mercadoria” está armazenada. Um estoque não é uma
coleção, nem mesmo um acervo, apesar de serem
constituídos, incialmente, de um conjunto de itens
armazenados que pertencem a alguém. Eles não estão ali
reunidos apenas para a guarda e preservação. Eles estão
ali com um propósito definido: sair do armazém o mais
rápido possível. Nenhum empresário ou comerciante

�sensato gostaria de ver suas ‘estantes’ cheias de material
estocado (leia-se ‘encalhado’).

Falando em aquisição, a ideia de estoque remete
imediatamente ao conceito de materiais, cuja aquisição e
manutenção envolvem recursos que possuem valores e,
portanto, não devem em hipótese alguma permanecer
ociosos, empoeirando nas prateleiras. Segundo Moreira
(1998, p.1), é preciso lembrar que “estoque é investimento
e conta como parte do capital da empresa”. Por isso devem
circular e serem transformados em lucratividade para
quem neles investiu.
Da mesma forma, os estoques de informação necessitam
circular constantemente e, para isso, devem ser dinâmicos
e atrativos. Eles foram adquiridos e, portanto, houve um
custo para sua formação. Mesmo quando são adquiridos
por doação, os materiais informativos representam gastos
de manutenção e conservação que precisam justificar sua
permanência nas estantes.
Não faz sentido um investimento sem retorno e o mesmo
vale para as bibliotecas. Por isso, a gestão desses estoques
deve visar à criação e ao atendimento de demandas de
informação, com o fim de torná-los lucrativos diante dos
objetivos da instituição que mantém a unidade de
informação.
A literatura de Biblioteconomia é prodigiosa no que diz
respeito ao marketing de produtos e serviços de
informação, justamente porque há a consciência de que o
material informacional das bibliotecas não pode ficar
estocado sem uso constante. Isso representa prejuízo em
diversos níveis: social, institucional, financeiro e de

�imagem/visibilidade profissional. Sendo assim, gerenciar
criteriosamente as etapas de seleção, aquisição e avaliação
é fundamental para sua formação e desenvolvimento, com
vistas à obtenção de resultados positivos na disseminação
da informação e construção do conhecimento.
Portanto, pensar o acervo sob a perspectiva de estoque
de informação implica também o lucro, que é sempre um
objetivo a ser atingido, mesmo que não corresponda
necessariamente a valores financeiros. Para tanto, é bom
lembrar o caráter cíclico da gestão de estoques de
informação.
Assim como os estoques de maneira geral, os de
informação devem passar por revisões contínuas e
periódicas, pois têm como finalidade última o atendimento
à sua clientela específica. Devem ser constantemente
renovados e divulgados para que não fiquem parados nas
estantes. Ao contrário, devem ser “consumidos”, a fim de
gerar conhecimento.
O gestor desse estoque precisa acompanhá-lo de perto,
detectando seus pontos fortes e fracos, questionando as
razões de uma obra ou área em especial estar sendo
subutilizada ou superutilizada, criando mecanismos para
incentivar sua circulação e uso, fazendo-o circular o mais
que puder.
A finalidade principal de todo o investimento realizado
para a formação de um estoque de informação é a
utilização máxima desses itens pelo seu público-alvo,
tendo como norte dois polos em especial: os objetivos da
instituição mantenedora e sua comunidade de ‘usuários’.
Os objetivos institucionais geralmente são bem definidos e
claros através da missão e visão das organizações; estão
normalmente disponíveis aos interessados em geral e aos
bibliotecários que gerenciam suas unidades de informação.
Esses objetivos norteiam todas as atividades da
instituição/empresa e oferecem certa segurança no
desempenho das diferentes funções desenvolvidas por

�aqueles que nela trabalham.
No entanto, as diretrizes que devem nortear o
conhecimento da comunidade-alvo, nem sempre se
traduzem de forma objetiva e nem com tanta clareza.
Pode-se, a princípio, dizer que seria fácil afirmar que numa
biblioteca escolar ou universitária essa comunidade seria o
conjunto de pessoas que estudam ou trabalham na
escola/universidade. Ou que, numa biblioteca
especializada, haveria as pessoas empregadas por aquela
empresa ou instituição ou, ainda que, numa biblioteca
pública, trabalhariam pessoas que moram numa
determinada localidade.
Teoricamente sim. Mas, para além do óbvio, quero
lembrar que se trata de pessoas que, apesar de
constituírem grupos distintos são individuais e únicas. Para
elas é que a biblioteca existe (a cada leitor o seu livro,
lembra?). Olhar para esse público como uma massa de
‘usuários’, realmente, torna a tarefa mais fácil. Porém,
menos interessante, menos social, menos verdadeira.
Para formar um estoque capaz de circular
satisfatoriamente e atingir os objetivos de uma biblioteca
socialmente relevante, é preciso repensar a forma de
enxergar sua comunidade. Esse é o próximo ponto a
discutir.

��3 - Usuário, não. Interagente!1
“Nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos”.
Ray Kroc

O termo ‘usuário’ nunca me agradou. Por diversos
motivos, mas, principalmente, porque não expressa o que
um frequentador de biblioteca realmente é. É uma
daquelas palavras que formam o vocabulário de uma
determinada área e já que todo mundo usa, acaba-se
acostumando com ela, usando-a também.
Na verdade, apesar de constantemente utilizada, trata-se
de uma palavra incômoda para muitas pessoas há bastante
tempo. Já no início do século passado, Ranganathan
preferia chamar de ‘leitor’ àqueles que procuravam a
biblioteca para satisfazer demandas de informação.
Atualmente, percebe-se uma tendência em chamar de
‘cliente’ aos que frequentam o ambiente da biblioteca em
busca de seus produtos e serviços.
Lunardelli (2007) realiza uma análise léxica dos termos
‘cliente’ e ‘usuário’ e conclui que não é possível afirmar a
existência de um termo mais correto, apenas a busca de
sua melhor adequação às condições de cada situação. Faz
sentido, mas ainda não resolve a questão.
O termo ‘usuário’, quando se refere àquele que busca
informação no ambiente da biblioteca, assume os
seguintes significados:
É aquele que faz uso da informação para melhorar seus
trabalhos, pesquisas e conhecimentos. (CORTEZ, 1987,
p.200).
Pessoa que consulta ou pesquisa documentos num arquivo.
(CASTILHO, 1991, p. 130) (ARRUDA; CHAGAS, 2002, p.214)
Com referência a uma biblioteca, entendemos que os
usuários são aqueles que habitualmente utilizam um ou mais

�de seus serviços [...] usuário seria a pessoa que utiliza
intensamente e assiduamente não somente os serviços de
leitura, como também dos outros que as bibliotecas
proporcionam como a fotocópia, traduções, resumos
analíticos, bibliografias especializadas, etc. (BUONACORE,
1976, apud LUNARDELLI, 2007).

Em outras palavras e pedindo desculpas pela redundância,
usuário é aquele que usa a biblioteca e seus recursos de
informação ou quaisquer que sejam os serviços que
estiverem disponíveis nesse ambiente. Usa até mesmo o
bibliotecário ou as pessoas que trabalham na biblioteca,
como provoca Lankes em um excelente keynote chamado
“Killing Librarians” (Matando os bibliotecários), disponível
no Youtube2 (se você entende o inglês, recomendo
fortemente que ouça!). O termo sugerido por Lankes em
substituição a ‘usuário’ é ‘membros’, sendo assim coerente
com sua concepção de bibliotecas como sendo
comunidades, como veremos logo a seguir.
A conotação da palavra usuário carrega consigo uma ideia
de passividade, pois deixa implícito que a pessoa chega à
biblioteca e simplesmente faz uso (intenso ou não) daquilo
que lhe é oferecido. Entra, usa e sai. A criatividade, a
invenção, a interação e a intervenção não ficam explícitas
no termo.
Claro que esta é uma conclusão bastante simplista, mas,
por mais que o bibliotecário seja convidado a conhecer e
estudar esse usuário, saber suas intenções ao buscar a
biblioteca, descobrir o que lhe agrada e que necessidades
ele tem, a ideia de alguém que entra, usa e sai sempre vai
permanecer enquanto o termo for utilizado.
Por isso é preciso refletir mais sobre ele, ou melhor, sobre
sua pertinência e permanência no contexto atual.
‘Cliente’, na minha modesta opinião, também não se
mostra adequado, já que traz uma conotação de ‘negócio’
ao relacionamento biblioteca/frequentador. Creio que essa
visão, apesar de ter a vantagem de levar o bibliotecário e a
biblioteca a prestarem mais atenção a seu público-alvo do

�que a seus processos internos, a fim de oferecer serviços e
produtos mais adequados, ainda não promove a necessária
aproximação com o público-alvo da unidade de informação.
Apesar de argumentar sobre os aspectos gerenciais da
formação e desenvolvimento de coleções, este livro
também possui um viés assumidamente social e, portanto,
não me parece possível e nem viável, nos dias atuais,
enxergar a biblioteca como outra coisa a não ser uma
comunidade de interagentes em um lócus de construção do
conhecimento onde os conceitos de participação, troca e
interatividade/interação são fundamentais.
A biblioteca como comunidade é apresentada por Lankes
(2011), trazendo uma visão revolucionária do que pode
representar uma sala equipada com livros e conduzida por
um bibliotecário motivado. Na verdade, para o autor talvez
nem houvesse a necessidade de existir uma sala ou um
estoque de informação. Apenas um bibliotecário motivado
bastaria.
Uma biblioteca como comunidade significa um lugar de
aprendizado e conhecimento. Essa biblioteca faz parte do
que Lankes chama de “nova Biblioteconomia”, cujo
fundamento é a ideia de que “o conhecimento é criado
através da conversa” (2011, p.84). O óbvio é levantado
por Lankes ao discutir isso: para que seja uma conversa, é
preciso que pelo menos duas pessoas estejam envolvidas,
caso contrário, trata-se de um monólogo.
Um monólogo pode até informar, mas a conversa cria
conhecimento, porque pressupõe participação. Portanto,
para que a biblioteca seja um lugar de formação de
conhecimentos, não podemos ter apenas usuários, pois
estes usam, não participam. É preciso provocar o diálogo,
a conversa.
Ainda hoje, os processos de organização e gerência de
bibliotecas são criados de forma unilateral e impostos aos
‘usuários’: a participação dos ‘membros’ ou ‘clientes’ de
uma biblioteca raramente é requerida ou desejada. Nós, os

�bibliotecários, decidimos o layout, impomos regras e
obrigamos nossos ‘usuários’ a lidar com números e códigos
quase esotéricos, que não lhes fazem o menor sentido,
caso queiram localizar as obras que colocamos nas
estantes.
Esse processo não é nada participativo. ‘E nem poderia
ser, senão perderíamos o controle da biblioteca’, diriam os
bibliotecários mais conservadores. Aliás, ‘controle’ é uma
palavra bastante confortável para nós, mas que não
representa a atuação profissional adequada à sociedade
em que vivemos hoje.
Weinberger (2007) discute a capacidade criativa de
organização da informação digital, através da desordem
aparentemente caótica da Internet e dedica aos
bibliotecários seu livro. Não é sem propósito que faz isso,
pois é sua vontade expor nossa incapacidade de ‘controle’
por meio dos códigos de classificação que não conseguem
capturar o universo dos significados e dos assuntos,
resumindo-os em 10 classes e suas subdivisões:
O sistema de classificação decimal de Dewey não pode ser
consertado, porque o conhecimento em si é mutável, diverso,
imbuído dos valores culturais do momento. O mundo é
diversificado demais para qualquer sistema único de
classificação funcionar para todos, em todas as culturas, o
tempo todo. (WEINBERGER, 2007, p.57).

E é claro que nós, bibliotecários, sabemos disso e
entendemos que “o sistema original de Dewey chega a ser
constrangedor na era moderna” (op.cit., p.49). Mas
seguimos em frente com as mesmas práticas e
submetemos nossos ‘usuários’ à classificação imposta pela
biblioteca, mesmo em um mundo no qual eles são livres
para fazer buscas na Internet, usando suas próprias
concepções a respeito da melhor palavra chave para
encontrar o que quer ou precisa.
O autor ressalta o valor da informação filtrada, ‘tagueada’3
e classificada pelo ‘usuário’. Categorizar a informação está
ao alcance de todos na vida digital: “podemos estabelecer

�conexões e relacionamentos a um ritmo jamais imaginado.
Estamos fazendo isso juntos. Estamos fazendo isso em
público. [...] É assim que o significado brota. [...] a
construção pública do significado será o projeto mais
importante dos próximos cem anos”. (WEINBERGER, 2007,
p.227).
Mas isso não acontece na biblioteca. Poderia, mas não
acontece. Digo que poderia por dois motivos: primeiro,
porque já temos tecnologia barata e simples o suficiente
para que nossas bibliotecas, quase sem recursos, sejam
capazes de proporcionar a participação do ‘usuário’ em
seus processos internos. Não seria tão difícil, por exemplo,
criar/disponibilizar plug-ins nos softwares usados na gestão
das bibliotecas, a fim de permitir aos leitores a sugestão de
tags para ampliar os termos de busca de uma obra em seu
estoque. Segundo, porque as pessoas podem e querem
participar, e eu tenho como provar isso.
Tive o prazer de fazer parte, como membro da banca de
mestrado de Paula Balbis Garcia4, cuja pesquisa foi
baseada no conceito de excedente cognitivo, apresentado
por Shirky (2011). Este conceito supõe que as pessoas
escolarizadas desejam contribuir com o que sabem, em
seu tempo livre, para a construção coletiva do
conhecimento na sociedade.
Com base nisso, investigou as possibilidades de
participação ao que Garcia chamou de ‘leitor curador’ na
organização da metainformação do acervo da biblioteca
universitária da UFSC – Universidade Federal de Santa
Catarina. A pesquisadora recebeu um retorno
impressionante (tanto qualitativo quanto quantitativo) dos
alunos ‘usuários’ da BU/UFSC que responderam os
questionários.
Os resultados apontaram que há forte disposição destes
usuários em participar dos processos da biblioteca,
oferecendo sua contribuição voluntária em atividades por
eles mesmos sugeridas, como: recomendação de livros por
área, tradução de obras, elaboração de resenhas dos livros

�pertencentes ao seu estoque de informação e “adição de
palavras-chave/tags/categorias somente para
usuários cadastrados e utilizar dados de cadastro
para monitorar suas adições”. (GARCIA, 2014, p. 150.
grifo meu).
Diante desse contexto, a palavra ‘usuário’ se torna
constrangedora, assim como ainda é constrangedor o fato
de sermos tão ditatoriais naquilo que oferecemos aos
frequentadores das nossas bibliotecas.
Por este motivo, quero defender aqui o uso do termo
‘interagente’, em substituição ao inadequado ‘usuário’ em
vigor até hoje. Tenho plena convicção de que a proposta é
ousada, mas também acredito que seja necessária nos dias
atuais. Para isso, quero convidar o leitor a refletir comigo
sobre essa possibilidade, analisando o termo um pouco
mais de perto.
A palavra ‘interagente’ tem sido popularizada nos últimos
anos através do conceito de ‘interatividade’, que
acompanha os estudos mais recentes sobre o uso de
ferramentas tecnológicas e dos recursos digitais.
No contexto da sociedade conectada, cada usuário é um
potencial autor de conteúdo na Internet e, por isso, possui
um perfil marcado pelo alto nível de interatividade, tanto
com a informação em si, quanto com seus mediadores. O
termo usuário tem sido repensado em diferentes áreas do
conhecimento, como a comunicação, a informática e a
educação:
O termo “usuário”, tão utilizado nos estudos da
“interatividade”, deixa subentendido que tal figura está à
mercê de alguém hierarquicamente superior, que coloca um
pacote a sua disposição para uso (segundo as regras que
determina). Sendo assim, este trabalho defende o abandono
desse problemático conceito e preferirá adotar o termo
“interagente” (uma tradução livre de interactant, não raro
utilizado em pesquisas de comunicação interpessoal), que
emana a própria ideia de interação. (PRIMO, 2005, p.2/16).

Muito embora o que se verifica nas bibliotecas, ainda

�hoje, seja este cenário com regras determinadas e
impostas aos ‘usuários’; compartilho da opinião de Primo e
acredito que o termo interagente parece ser muito mais
adequado para definir o cidadão contemporâneo que busca
informação de forma autônoma, inclusive nas bibliotecas.
Utilizá-lo poderá significar uma abertura na visão que se
tem dessa personagem tão importante, possibilitando,
talvez, mudanças efetivas na Biblioteconomia, pois trará
destaque ao fator ‘interação’ em substituição ao fator ‘uso’.
Sou da opinião que isso poderá fazer uma grande
diferença.
Apesar de estar, geralmente, ligado à noção de
interatividade bastante utilizada em estudos recentes,
dirigidos à análise do uso de ferramentas tecnológicas, o
termo ‘interagente’ pode ser usado em diferentes
contextos, independentemente da relação com o
computador.
Jensen (1998, apud SEPÉ, 2006) afirma que “antes de ser
interatividade, o termo foi interação [...] um conceito que
geralmente significa: troca, influência mútua”. Assim,
infere-se que sua origem parte do processo comunicacional
existente mesmo antes do computador.
Dias e Chaves Filho (2003) afirmam que o significado
mais amplo da palavra interatividade, “baseada em termos
não computacionais, [significa] um espaço aberto à
discussão e à negociação, que permite a participação de
interlocutores”. (p.32).
Para os autores, interação combina o prefixo “inter” e o
termo “ação”, resultando no significado clássico “ação
entre”; retrata basicamente a atuação de um agente em
outro, em relação de mutualidade. (op.cit., p.34). Já, o
termo interatividade, pela mesma lógica, significa
“atividade entre” e ultrapassa o termo interação na medida
em que traz uma conotação de fluxo, de não linearidade.
A análise feita por Dias e Chaves Filho conclui que o
conceito de interatividade propõe uma nova configuração

�do processo comunicacional, no qual há uma troca, uma
ação partilhada que favorece a participação de
interlocutores e a intervenção dos envolvidos, um espaço
aberto à discussão e negociação, à leitura e produção
crítica e analítica.
Mesmo nas bibliotecas mais tradicionais onde a
participação do ‘usuário’ é quase nula, ainda assim é
possível perceber níveis de interação ou interatividade.
Cita-se, como exemplo mais clássico, a entrevista de
referência. Nela, a participação do
pesquisador/leitor/sócio/cliente – interagente - não apenas
é requerida, mas imprescindível.
Outro exemplo são as conhecidas ‘caixinhas de sugestões’
para a seleção de obras a serem adquiridas ou, ainda, os
estudos de ‘usuários’, cujos resultados, infelizmente, nem
sempre se convertem em mudanças concretas na
biblioteca.
Sobre os estudos de ‘usuário’, Rabello (1981) aponta que
eles têm, como objeto principal, a interação
usuário/biblioteca. Vejam: um artigo da década de 1980
levantando a questão da ‘interação’ do ‘usuário’ com a
biblioteca!
Este estudo define interação como “uma ação que se
exerce mutuamente entre duas ou mais coisas ou duas ou
mais pessoas [...] interação pode ser entendida como uma
ação conjunta” (op.cit., p.183). Com base nesses
conceitos, a autora conduz sua pesquisa sob o pressuposto
de que:
O campo de conhecimento relativo a usuário de biblioteca
tem como seu objeto a interação – entendida como interação
do usuário com a biblioteca, mas com ênfase no usuário [...]
torna-se usuário da biblioteca, parte da instituição, elemento
interno quando se relaciona com ela, mais especificamente
quando interage com ela. A interação é, portanto, o objeto de
estudo do campo. (RABELLO, 1981, p.184).

Portanto, não temos usuários, temos interagentes.
Rabello afirma que a biblioteca é um sistema de

�comunicação e que, como tal, deve estar interessada em
conhecer todos os aspectos que interferem nesse processo
comunicativo e, em especial, deve estar interessada no seu
relacionamento com o ‘usuário’. Para tal, precisa avaliar
constantemente “os instrumentos e políticas que adota
para facilitar essa interação”. (op.cit., p.190).
Chagas, Arruda e Blattmann (2000, não paginado)
também analisam a interação do usuário na busca de
informações num artigo em que pretende apontar
diretrizes aos bibliotecários que “atuam na interação com
os usuários diretamente na busca de informações para
realização de suas pesquisas”, ou seja, o bibliotecário de
referência.
Esses textos apenas refletem o quão inadequado, talvez,
seja o termo ‘usuário’, pois é enfatizado que o mais
importante na relação que a biblioteca deve manter com
aqueles que a frequentam é a interação. Os estudos acima
mencionados deixam claro que não há um simples ‘uso’
dos estoques, serviços ou recursos de uma biblioteca. Há
uma interação, uma troca, uma negociação entre as
partes, sendo que tanto influenciam quanto são
influenciadas. Há um diálogo, uma comunicação, mesmo
que em níveis menos elevados do que o necessário ou
desejado.
Além disso, nos dias atuais, fala-se muito sobre o
bibliotecário enquanto educador, sobre competências em
informação, bibliotecas híbridas. Termos mais recentes da
área (alguns ainda sem tradução), colocando o
bibliotecário como curador da informação, como ator nos
movimentos de advocacy5 e plenamente envolvidos com
pesquisadores em suas pesquisas, como os embedded
librarians6. Em todas essas possibilidades de atuação, fazse necessário o diálogo, a troca, a discussão e a
negociação. Fica muito mais difícil chamar o interagente de
‘usuário’ nesses contextos.
A ideia de interatividade ou interação permeia a noção de
biblioteca na atualidade. Obata (1999), com base na

�proposta de Perrotti (1996), apresenta o conceito de
biblioteca interativa como um espaço de expressão, que
“busca estabelecer relações de interação entre o sujeito e a
informação e cultura”. (OBATA, 1999, p.96).
A autora (idem) afirma que:
Identificou-se interação como a noção definidora da nova
concepção de biblioteca porque ela apresenta referências
como: a) o ator do processo é tanto um agente de atuação
como um objeto de orientação para si mesmo e para os
demais; b) como agente atuante, orienta-se para si mesmo e
para os outros, em todos os aspectos ou modalidades de
ação. (PARSONS, 1974, p. 172).

Para Obata (idem), a noção de interação fundamenta a
ideia de que “na Biblioteca Interativa, o sujeito não seja
somente um receptor, mas também um produtor. A
biblioteca deixa de ser apenas um espaço de difusão,
promoção ou disseminação da informação e cultura, deve
ser também um espaço de expressão”.
Para mim, foi uma grata surpresa encontrar a palavra
“usuário” ser mencionada entre aspas, no texto de Obata
(1999, p.99):
Há uma interpenetração entre os elementos da tríade do
sistema de informação [...] que transforma o “usuário” em
elemento constitutivo do processo como um todo. Ele faz
parte da linguagem do documento/acervo, ele está presente
na linguagem de representação, ele está presente, enfim, na
construção cotidiana da Biblioteca Interativa, como
protagonista de ações e interações.

Obata, neste artigo, refere-se a uma biblioteca interativa
em particular, criada em uma escola da periferia de São
Paulo, mas, pra mim, este deve ser o conceito de toda
biblioteca, independentemente de ela estar num contexto
escolar ou não. Toda biblioteca deve ser interativa em
múltiplos sentidos, promovendo sempre a participação e a
interação, assim como todo ‘usuário’ deve ser considerado
um interagente.
Assim, tanto faz ter como raiz a palavra interação ou
interatividade, o importante é olhar para esse personagem

�do cenário da informação e da biblioteca com outros olhos.
Percebê-lo como um parceiro, como alguém que não
apenas usará o que lhe oferecermos, mas que contribuirá
na construção do que queremos chamar de biblioteca
enquanto comunidade. É preciso reconhecer que ele é
parte constituinte do que uma biblioteca realmente
significa nos dias atuais e, na condição de interagente,
pode e deve ser um ator verdadeiramente participativo.
Isso fará toda a diferença.

Por fim, cabe destaque, nesta argumentação, a proposta
de Araújo (2012) para uma nova abordagem aos estudos
de usuário, mais uma vez apoiada no paradigma social de
Capurro (2003): a abordagem interacionista de estudos de
usuários de informação (grifo meu). Para o autor, interação
é o conceito chave para os estudos de usuário, pois se
mostra capaz de “integrar os avanços realizados nas
discussões contemporâneas do estudo de usuários e de
comportamento informacional com o paradigma social da
CI”. (op.cit., p.149, grifo meu).
Como argumentos, o autor aponta o significado de
interação como “ação recíproca”, afirmando que o usuário
não está nem totalmente determinado pelo ambiente, nem
alheio ou isolado dele. O mesmo vale para a informação,
cujos sentidos não são determinados apenas pelo
documento, pela mensagem em si ou pelo usuário, sendo
um resultado da interação entre esses elementos.
Araújo (2012, p.150) defende o uso do conceito de
interação, pois é o que “parece assim ser capaz de superar
algumas dicotomias que têm, historicamente, marcado o
campo: sujeito ativo/passivo, significado na mensagem/na

�mente do usuário, usuário cognitivo/emocional e cultural”.
Apesar de enfatizar o aspecto interacionista do estudo de
usuários e de colocar o conceito de interação em
patamares nunca antes colocados, a abordagem proposta
por Araújo não aponta para uma mudança terminológica
no conceito de ‘usuário’.
E é nesse sentido que a presente reflexão procura inovar:
é tempo de repensar não apenas o termo, mas,
especialmente, a forma como ele afeta a visão que se tem
da comunidade frequentadora das unidades de informação.
Não é apenas uma questão de mudança terminológica, é
uma questão de mudança cultural. Mudar a cultura da
biblioteca impositiva para uma cultura de participação se
faz necessário. As unidades de informação atuais, bem
como seus gestores precisam atentar para o fato de que,
atualmente, os ‘usuários’ são também coautores de boa
parte da informação existente nos mais diversos canais,
interagindo em seus processos de criação e fluxo,
especialmente no ambiente digital. E podem ser
construtores e autores do conhecimento em parceria com
bibliotecários.
É imprescindível atrair o público frequentador e utilizador
dos estoques de informação para uma parceria mais
efetiva dentro do ambiente da biblioteca e fora dela
também, estando presente na Internet através das mídias
sociais, estendendo o contato com seus interagentes
através desses canais.
Por isso, Belluzzo (2010) aponta para a necessidade de
um bibliotecário atuante como mediador e que seja
também um interagente, a fim de que possa desempenhar
suas atividades através da comunicação eletrônica.
Contudo, para mudar esse cenário, é indispensável muito
trabalho e uma nova consciência. Shirky (2011) afirma que
para haver efetiva participação, é preciso criar as
condições necessárias. Não basta haver a tecnologia
adequada, pois ela “possibilita esses comportamentos, mas

�não pode causá-los”. (op.cit., p.90). É importante criar as
oportunidades corretas, pois é diante delas que os
comportamentos mudam.
Enquanto as bibliotecas e os bibliotecários permanecerem
refratários às mudanças sociais, as oportunidades não
serão criadas. Enquanto o fato de um ‘usuário’ (que
esqueceu o título ou o autor) pedir o livro pela cor da sua
capa for motivo de piadas internas e não de incentivo para
a criação de mais uma forma de busca dos itens de seu
estoque de informação (o que custa escanear a capa e
criar um catálogo por cores?), nada vai mudar.
Somos nós, os gestores das bibliotecas e dos estoques de
informação, os responsáveis pela criação das
oportunidades de participação dos interagentes. Mas essa
não é a nossa cultura, ainda não. Quem sabe em breve.
Bem, apresentadas as considerações iniciais sobre as
razões da proposição de tais mudanças terminológicas,
podemos agora repensar cada etapa do processo de gestão
de estoques de informação à luz dessa nova perspectiva.
1 Um artigo científico sobre esse assunto, com o mesmo título, foi
publicado pela autora em dez/2014. Verificou-se essa necessidade
pois o termo ‘interagente’ passou a ser utilizado por alunos em textos
apresentados em eventos ainda sem a devida fundamentação teórica.
O artigo pode ser conferido no link
https://periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/15182924.2014v19n41p23
2 https://www.youtube.com/watch?v=_CL1eCWObsg
3 etiquetada
4 Mestrado em Ciência da Informação, CIN/UFSC
5 Movimento de promoção da profissão, de bibliotecas ou serviços.

��4 - Novos olhares para a gestão
de estoques de informação e
suas etapas
“Não vemos as coisas como são, mas como somos”
Pedro Demo

As etapas da gestão de estoques de informação
consistem nas atividades básicas já difundidas e
executadas por quase a totalidade dos profissionais que
atuam em bibliotecas ou unidades de informação, quais
sejam: seleção, aquisição e avaliação, além de outras
atividades relacionadas ao acervo que permeiam o
processo como: preservação e restauração, por exemplo.
Embora sejam atividades clássicas da formação e
desenvolvimento de coleções, as mudanças provocadas
pelas tecnologias de informação e comunicação
introduziram novas características na maneira de
selecionar, adquirir e avaliar o material formador do
estoque das unidades de informação, mudanças que serão
abordadas mais adiante.
Esse ponto de vista aumenta ainda mais a necessidade de
um planejamento coerente e sistemático de acordo com os
objetivos da biblioteca, da instituição que a mantém e da
comunidade que representa seu público-alvo.
Uma das principais contribuições de Evans, ainda no
século passado, foi a apresentação da ideia de que o
processo de desenvolvimento de coleções é cíclico e
envolve não apenas o staff da biblioteca, mas a
comunidade também. Esta é uma das mais importantes
formas de pensar os estoques de informação: eles existem

�para a comunidade de leitores interagentes, senão não
teriam razão de ser e existir.
Por isso, antes de entrar na discussão sobre as etapas
propriamente ditas, será preciso pensar um pouco sobre o
primeiro e mais importante ponto de partida: o bom e
velho Estudo de Comunidade, amplamente conhecido
pelos bibliotecários (mesmo por que é parte integrante de
alguns de nossos currículos de graduação), mas nem
sempre aplicado no dia a dia da gestão de bibliotecas.
Sob a ótica da gestão de estoques de informação, o
Estudo de Comunidade1, além de oferecer as informações
básicas necessárias sobre o grupo de pessoas para quem a
biblioteca foi inicialmente criada, assume um caráter
diferenciado que não pode ser desprezado: o de pesquisa
de mercado.
Fala-se muito sobre pensar as bibliotecas como
organizações ou empresas, mas é bastante raro ouvir falar
em competitividade. O discurso mais frequente entre os
profissionais gira em torno de redes de cooperação e
compartilhamento, às quais sou totalmente a favor e
acredito serem, indiscutivelmente, necessárias entre
bibliotecas e bibliotecários no contexto atual.
Mas o outro lado da moeda acaba por ser esquecido: esse
mesmo contexto de rede também marca um cenário, no
qual a mediação direta entre leitor e informação está cada
vez mais facilitada pelas tecnologias de comunicação.
Essa concorrência pode ser muito desleal às bibliotecas,
pois sabemos que há uma grande variedade de formas de
acesso para além dos serviços nelas encontrados, e isto
deve ser observado com atenção. Por este motivo, as
bibliotecas chamadas ‘híbridas’ entram em cena com
frequência cada vez maior, e os estoques bibliográficos
impressos compartilham os catálogos com fontes de
informação eletrônicas disponibilizadas aos interagentes.
Obviamente que, contrariando todas as previsões
drásticas em relação ao fim das bibliotecas e do livro

�impresso, temos hoje um cenário de bibliotecas ainda
cheias de gente e de livros nas estantes, anulando (ao
menos por enquanto) o risco extremo de desaparecerem
do mapa. No entanto, isso não significa que não hajam
riscos.
Um deles é a acomodação que vem dessa certeza de que
jamais seremos extintos, induzindo-nos a criar um mundo
fechado entre nós, no qual autoexaltamos nossa
capacidade de sobrevivência e nosso valor social.
Inventamos um mundo paralelo em que o bibliotecário cria
‘esquemas táticos’ que só ele domina. Acreditamos
piamente em nossos códigos e técnicas de organização da
informação e, pior, acreditamos que os ‘usuários’ sempre
estarão submissos a esse nosso domínio. Seria bom
repensarmos essa teoria.
Outro problema é que parece não haver a percepção de
que uma concorrência saudável entre bibliotecas deveria
existir, especialmente na oferta de produtos e serviços que
atraíssem os leitores conhecidos como ‘usuários em
potencial’.
Claro que queremos todas as bibliotecas movimentadas e
cheias de pessoas, mas também é evidente que queremos
a nossa biblioteca assim. No entanto, o que de concreto
podemos fazer para provocar esse fluxo constante de
gente entrando e saindo (satisfeitas, claro) das nossas
unidades de informação? Como atrair o público ao acesso e
uso do nosso estoque tão criteriosamente construído?
Nada melhor do que oferecer serviços de informação
diferenciados, necessários e atraentes, ‘empacotados’ de
acordo com as reais necessidades e desejos da
comunidade, criativos no sentido de antecipar demandas e
divulgados no melhor estilo marqueteiro possível.
Assim é que entra o Estudo de Comunidade em sua
característica de pesquisa de mercado, permitindo
conhecer o entorno da biblioteca e usar essas informações
como insumo para desenvolver seus estoques de

�informação. É preciso saber bem quem é seu público, o
que espera da biblioteca, quais suas características e o que
está efetivamente acontecendo lá fora.
Vivemos tempos onde o neuromarketing2 é aplicado por
empresas comerciais: o sentimento dos clientes a respeito
de seus produtos é fundamental para que a empresa possa
formatá-los de maneira a agradar sua clientela a ponto de
a fidelizar. Isso mostra o empenho do comércio em aplicar
técnicas científicas, inclusive, para conhecer a fundo seu
público-alvo e lhe oferecer o produto ou serviço mais
próximo possível do que lhe é necessário e desejado.
Como, então, ‘fidelizar’ os interagentes de uma biblioteca?
Alguém já disse que as bibliotecas não precisam de sócios
ou usuários, mas sim de ‘fãs’. Esse também é o espírito do
‘engajamento’, buscado pelas empresas através do
marketing digital. Alcançar esse nível de integração sem
conhecer profundamente sua comunidade é tarefa
impossível.
Por isso é essencial aplicar técnicas de pesquisa para
coletar dados essenciais sobre a comunidade alvo dos
serviços e produtos de informação de uma U.I. As técnicas
de estudo de comunidade são facilmente encontradas na
literatura sobre formação e desenvolvimento de coleções,
especialmente no conhecidíssimo livro de Vergueiro
(1989), não sendo necessário, portanto, repeti-las aqui.

Uma vez entendida a necessidade desse primeiro passo
para desenvolver estoques de informação coerentes e
contextualizados, toda biblioteca deve, periodicamente,
realizar estudos dessa natureza. De posse dessas
informações, uma forma de analisá-los seria através do

�método SWOT, também conhecido como FOFA (sigla mais
simpática): forças, oportunidades, fraquezas e ameaças.
Essa análise é não apenas plenamente aplicável à gestão
de estoques de informação como ferramenta para o
planejamento estratégico dirigido ao desenvolvimento e
uso da coleção, como também se faz totalmente necessária
caso desejemos atingir metas cada vez mais excelentes
nas bibliotecas hoje em dia.
A análise FOFA, no contexto do Estudo de Comunidade,
abre as portas ao conhecimento do macro ambiente ao
qual a biblioteca está inserida. Valentim (2011) afirma
que:
Esse método propicia à organização realizar uma análise dela
mesma e de seu entorno, é uma maneira de conhecer a
condição de partida antes de definir as estratégias de ação
para o curto, médio e longo prazo. O método SWOT analisa
as forças internas em relação às oportunidades externas,
bem como as fraquezas internas em relação às ameaças
externas à organização, ou seja, analisa as condições de
partida frente às tendências e cenários futuros.

O conhecimento das fraquezas e forças dos estoques de
informação só será útil se conhecermos as ameaças e
oportunidades do macro ambiente da biblioteca. É preciso
saber cruzar dados internos e externos à biblioteca para,
realmente, construir e desenvolver um estoque que
interesse à comunidade, tornando-a mais atraente, visível
e socialmente relevante.
Conhecer as ameaças e oportunidades externas passa por
responder às seguintes perguntas, dentre tantas outras
possíveis: Que comunidade é essa onde a biblioteca foi
plantada? Quem são essas pessoas? Que idades elas têm?
Do que gostam? Quais características demográficas, sociais
e econômicas marcam essa comunidade? Qual o grau de
instrução dos membros dessa comunidade e quais seus
interesses de leitura e pesquisa? Quem são as pessoaschave dessa comunidade com as quais podemos fazer
parcerias? Como essa comunidade se expressa
culturalmente?

�Vergueiro (1989, p.35) afirma que essas respostas,
profundamente analisadas, “irão guiar não apenas todas as
etapas do desenvolvimento da coleção, mas também todo
o planejamento do serviço bibliotecário”. São elas que
determinam as necessidades de informação da comunidade
e correspondem à base fundamental para direcionar os
serviços da biblioteca que, realmente, desejar assumir sua
relevância social.
Estes dados permitirão mapear as possibilidades de inserir
a biblioteca no contexto exato de seu público-alvo, criando
um quadro, no qual poderão ser identificadas as
oportunidades e ameaças que nos permitam ajustar a
coleção e oferecer aos interagentes o que eles realmente
precisam e gostam em termos de informação.
Além disso, como tornar o ciclo de GEI verdadeiramente
democrático se não conhecermos e não nos conectarmos à
comunidade alvo da biblioteca? E se, ao final desse estudo,
chegar-se à conclusão de que sua comunidade anseia
por... ferramentas? Máquinas de costura? Guarda-chuvas?
Sementes para plantio?
Ofereça-os, ampliando a visão de ‘acervo’ ou ‘coleção’, a
exemplo do que faz a Biblioteca Pública de Basalto,
Colorado, EUA. O interagente ‘empresta’ as sementes e as
‘devolve’ com o fruto de sua plantação.

Fonte:

http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2013/fevereiro/bibliotec

�nos-estado-unidos-alem-de-livros.

Vergueiro encerra o capítulo sobre Estudo de Comunidade
com as seguintes palavras, que peço licença para tornar
minhas também:
O que se tentou passar com tudo o que foi dito, é que as
coleções precisam necessariamente ter um vínculo estreito
com a comunidade à qual se pretende que sirvam. Não
podem ir inchando “amebicalmente”, sem controle algum,
mesclando de forma aleatória os fundos disponíveis para
aquisição com as preferências pessoais do bibliotecário ou do
usuário. (VERGUEIRO, 1989, p.35-36).

Que fique, então, bem claro: planejar estoques de
informação sem realizar um bom estudo de comunidade
pode ser tão grave quanto abrir um negócio sem a devida
pesquisa de mercado: corre-se sério risco de investir
financeiramente em um produto ou serviço que
simplesmente não seja atraente para ninguém. O resultado
disso é uma provável falência. Situação triste em que,
provavelmente, encontram-se centenas de bibliotecas
espalhadas pelo país e pelo mundo.
Que fique claro, também, que a sociedade não é e nunca
foi estática. Isso significa dizer que um único estudo de
comunidade inicial não é suficiente e nem recomendável.
São muitos os fatores que podem implicar as mudanças
nessa comunidade; um gestor atento saberá que é preciso
acompanhar esse movimento, tornando flexível a gestão
dos estoques de acordo com essas variações.
O planejamento através da política de estoques de
informação é, portanto, uma das principais atividades
desse gestor. Sua atuação estratégica é essencial desde o
diagnóstico que precede sua formulação e passa por todas
as etapas de sua concretização, num processo cíclico e
interminável de negociação que envolve diferentes níveis
de tomadas de decisão. (MACIEL; MENDONÇA, 2000, p.
17-18).
O propósito principal das atividades desse gestor é suprir
demandas de uma clientela específica através da oferta de

�material informativo, o que leva ao conceito de estoque, já
discutido anteriormente.

Lankes (2012) faz uma excelente reflexão a respeito da
relação entre o desenvolvimento de coleções e o
conhecimento da comunidade. Em um texto publicado em
seu blog, o autor chama nossa atenção ao foco principal
das bibliotecas: as pessoas, a comunidade. Se o foco
estiver nas coleções: bibliotecas ruins. Se nos serviços:
bibliotecas boas. As bibliotecas excelentes entendem que a
coleção não é o que está colocado nas estantes, mas é a
própria comunidade: o “público e seus mundos”.
A teoria genial de Lankes é a de que o foco das bibliotecas
não deve estar no desenvolvimento da coleção, mas no
desenvolvimento da ‘conexão’, pois a informação está em
todos os lugares, inclusive nas pessoas. Estar em contato
constante, em relacionamento direto e numa busca
incessante do melhor conhecimento dessa comunidade é
essencial, portanto, a uma biblioteca excelente. A
ferramenta disponível? O Estudo de Comunidade!
Partindo dessas primeiras constatações, agora sim,
podemos analisar uma a uma cada etapa da GEI. Supondo
que meus leitores sejam estudantes ou profissionais
graduados em Biblioteconomia, pularei as conhecidas
definições para entrar diretamente na questão de por que
e como cada etapa deve ser vista sob a ótica da gestão.

�4.1 Seleção
Vergueiro (1989) afirma que a seleção é uma atividade
técnica e intelectual, tirando de cena a ideia de que seria
uma arte e desmistificando essa etapa antes considerada
altamente erudita, por muitos anos e em outras eras. Isso
indica que selecionar obras que comporão um acervo é
parte do corpo de tarefas que deve ser executada pelo
bibliotecário. Ele é a pessoa mais indicada, por que: 1.
Possui a formação acadêmica necessária; 2. Conhece a
instituição; 3. Conhece a biblioteca e; 4. Conhece a
comunidade (ou deveria).
Mas, como conciliar os recursos, geralmente restritos, os
interesses da instituição e as demandas da comunidade, a
fim de escolher o material bibliográfico (impresso ou
eletrônico) que fará parte do nosso pequeno universo
informacional? Como identificar o material apropriado, que
justifique a aquisição e seja efetivamente utilizado? E,
mais: como o bibliotecário conseguirá não se deixar levar
por suas preferências pessoais ou seu próprio ponto de
vista na hora da seleção? (não sou eu quem diz isso, são
EVANS e SAPONARO, 2012, cap. 2, p.14. Reclame com
eles).
A resposta está no planejamento e na habilidade do
bibliotecário gestor em tomar decisões, intrínseco ao
processo de gestão. Selecionar é decidir. E essa decisão
precisa ter como base critérios, previamente, definidos,
resultados do consenso entre as partes envolvidas. Este é
o primeiro argumento para considerar a seleção uma
atividade de gestão.
O bibliotecário, mesmo que seja o único a trabalhar na
biblioteca, não precisa e nem deve estar sozinho nessa
decisão. Na verdade, serão muitos os ‘selecionadores’, e
todos os interessados no acervo podem contribuir. Mas o
bibliotecário precisa liderar essa atividade desde a sua

�concepção, pois ele é quem conhece o escopo de seu
estoque, seus pontos fortes e fracos, bem como suas
prioridades.
Ele, o bibliotecário gestor deverá compor a comissão que
discutirá os critérios de seleção que serão adequados a
cada contexto específico e, por isso, não há receitas
universais prontas. Se a esta altura você esperava que
fosse apresentada uma lista de critérios, desculpe a
decepção.
Você, sua equipe e sua comunidade deverão pensá-los e
construí-los de acordo com a natureza e objetivos da sua
biblioteca, de maneira a tornar a etapa capaz de trazer
praticidade, objetividade e garantir bons resultados na
escolha3. Nisso eu tenho o apoio de Vergueiro (1995,
p.20): “cada profissional deverá procurar desenvolver os
critérios mais apropriados para a coleção pela qual é
responsável”.
O bibliotecário também deverá saber lidar com situações,
nas quais sua participação poderá ser limitada por certas
intransigências ou autoritarismo institucional. Nessas
horas, deverá ser um bom negociador: material para
argumentação ele terá de sobra, graças aos conhecimentos
que mencionamos acima e todos os dados que ele terá em
mãos para isso.
Além disso, outros fatores contribuem para um bom
planejamento de seleção:
o fato de estar em constante contato com o
comércio livreiro e conhecer bem o universo
de editoras e livrarias dentro de sua área de
atuação (instrumentos auxiliares de seleção
sempre são bem vindos);
ter recebido toda a capacitação técnica
necessária em sua graduação, através de
disciplinas que lhe forneceram ferramentas
para avaliar criticamente a qualidade de uma

�obra e conhecer as possibilidades de fontes
para a busca de materiais de interesse da
biblioteca (Fontes de Informação e Formação
e Desenvolvimento de Coleções/Gestão de
Estoques de Informação são dois exemplos
indiscutíveis);
possuir dados quantitativos referentes às
estatísticas de uso que, certamente, são
realizadas em sua biblioteca;
aproveitar sua proximidade diária com os
interagentes e suas questões de referência
para conhecer preferências e demandas;
conhecer a comunidade como um todo,
identificando tendências e antecipando
demandas.
Olhar a seleção como atividade de gestão implica também
atribuir–lhe características de racionalidade e eficiência
apenas possíveis através de planejamento e avaliação
constantes. Esses e outros atributos necessários estão
presentes na literatura de autores nacionais e estrangeiros
já consolidados. Alguns exemplos (todos os grifos são
meus):
A coleção deve ser desenvolvida de acordo com um plano
definido numa ampla base de generalizações. (HEINES,
1950, apud FIGUEIREDO, 1998, p.28).
Para que em qualquer biblioteca possa ser estabelecida uma
política de seleção, ou seja, conjunto das normas que irão
reger o dia a dia do trabalho dos selecionadores, é necessário
primeiro que estejam bem claros e delineados os objetivos da
biblioteca [...]; os autores são unânimes a este respeito, isto
é, de que deve existir uma declaração dos objetivos gerais
da biblioteca, relacionados com a instituição e à comunidade
que a ela serve”. FIGUEIREDO, 1998, p. 32).
Desenvolvimento
de
coleções
é
uma
função
de
planejamento [...] seleção é tomada de decisão. (EDELMAN,
1979, apud FIGUEIREDO, 1998, p.36).
A objetividade no processo de seleção é uma meta a ser

�constantemente almejada. (VERGUEIRO, 1995, p. 9).

Os termos em destaque nas citações revelam o caráter
essencialmente administrativo da seleção, reforçando a
ideia de que são tarefas que compõem um universo maior
relacionado à gestão da biblioteca como um todo, que
exigem o trabalho de planejamento prévio, definição de
critérios e metas a serem atingidas. Pressupõe um
monitoramento contínuo e a presença do gestor, cuja
liderança será capaz de levar a cabo os objetivos
propostos.
No entanto, o outro lado da moeda precisa ser resgatado:
as correntes administrativas atuais apontam as questões
emocionais que envolvem os processos de gestão, as quais
também devem ser consideradas. Um bom exemplo disso é
a Inteligência Emocional aplicada à gestão empresarial. No
caso da gestão de estoques de informação, especialmente
na etapa de seleção, tais questões devem também ser
levadas em conta.
Para Evans e Saponaro (2012), a seleção é o coração da
gestão da coleção, é o que mantém todo o processo vivo.
Uma atividade assim tão essencial obviamente implica o
peso de uma grande responsabilidade para o gestor que a
desenvolve. Portanto, questões emocionais são relevantes
e devem ser discutidas ainda na tomada de decisão do
selecionador.
No ótimo texto de Quinn (2007) é levantado esse debate
tão importante, ainda insuficientemente discutido, mas
essencial ao gestor de estoques de informação. O autor
lembra que a literatura sobre seleção costuma apresentar
listas de critérios racionais e cognitivos de escolha, que
servem para guiar os bibliotecários em seu trabalho, mas
são raros os autores que mencionam ser essa uma tarefa
que envolve também aspectos emocionais. Para ele, essas
decisões não são apenas uma questão racional, mas uma
questão do coração. (QUINN, 2007).
Para Quinn (op.cit, não paginado, tradução livre), “dado o

�elevado grau de incerteza inerente à tomada de decisões
na gestão de coleções, o processo não pode ser
considerado como estritamente lógico, analítico e racional”.
Segundo o autor, a emoção ou o afeto se somam ao
pensamento e à cognição no processo de seleção das
obras:
Um selecionador usa o pensamento para as decisões a serem
tomadas no desenvolvimento de coleções, e este pensamento
pode ser influenciado e levado em direções bem específicas,
que são resultado de suas experiências que envolvem sua
emoção ou estado de espírito. (QUINN, 2007, documento não
paginado)

Desse modo, o bibliotecário, consciente de que suas
emoções afetam o processo decisório de escolha de obras
que comporão o estoque de informação de sua biblioteca,
deverá cercar-se de cuidados para certificar-se de que seu
estado de espírito possa influenciar positivamente esse
processo. Significa usar sua intuição e memória afetiva,
por exemplo, a favor da tomada de decisão em relação a
um título:
As emoções com características de certeza, raiva ou
contentamento
geram
mais
confiança
na
escolha
(Heurísticas). Aquelas características de ansiedade ou
surpresa podem levar o bibliotecário a uma busca e análise
mais cuidadosas. (op.cit., tradução livre)

Esse ponto de vista emocional deve ser, portanto, levado
em consideração pelo bibliotecário gestor em sua tarefa de
coordenar a equipe de selecionadores ou mesmo de
exercer a atividade de seleção de obras.

�4.2 Aquisição
As atividades de aquisição são apresentadas como etapa
seguinte à da seleção. De modo geral, são atividades que
identificam, localizam e obtêm itens para a composição do
estoque de informação das bibliotecas, normalmente
realizadas através de compra, doação ou permuta. Até aí,
nenhuma novidade.
Ao pensarmos nos aspectos gerenciais que permeiam essa
atividade, logo vem à mente a necessidade de manter
cadastros e arquivos de fornecedores que registrem o
histórico das negociações, servindo de base às aquisições
futuras.
Em tempos de serviços automatizados, tais cadastros são
fáceis de serem criados e mantidos através do uso de
ferramentas tecnológicas. Os softwares de gerenciamento
de bibliotecas, por exemplo, facilitam a vida dos gestores,
oferecendo módulos dedicados ao registro e
acompanhamento das atividades de aquisição.
A literatura da área também é pródiga em oferecer
diretrizes para o bom andamento dessa atividade, sendo
comum encontrar exemplos de fluxogramas que retratam
passo a passo cada uma de suas etapas.
Talvez essa tarefa seja a mais facilmente conectada às
questões administrativas, pois há forte relação entre o
trabalho da biblioteca e os recursos financeiros da
instituição. Assim, já são bem conhecidas e aplicadas, por
exemplo, atividades de planejamento e otimização de
recursos orçamentários, supervisão e controle de cada uma
das atividades, desde a formalização do pedido aos
fornecedores até o pagamento, recebimento e conferência
dos materiais.
Quando a aquisição se faz através de compra,
especialmente, há diversas fontes de informação na área

�da Biblioteconomia que apresentam as diferentes
modalidades, suas vantagens e desvantagens às unidades
de informação.
Por isso, mais uma vez, não tenho aqui a pretensão de
apresentar um roteiro ou mesmo um manual que
identifique, conceitualmente, o universo de informações
sobre aquisição. Meu propósito, claramente assumido, é o
de refletir essas práticas nos dias atuais sob um ponto de
vista social e sob a ótica da gestão.
Sendo assim, gostaria de retomar aqui o diagrama de
Evans (1979), apresentado anteriormente, a fim de discutilo em relação à etapa da aquisição:

Fonte: VERGUEIRO, 1993.

Perceba que as etapas cíclicas apontadas pelo autor
possuem, em sua maioria, uma ligação direta representada
por setas. Na explicação do autor, as setas correspondem
ao nível de participação da comunidade no processo de
desenvolvimento de coleções. Quanto maiores elas forem
melhor será o nível. Percebeu que a única etapa que não
possui seta ligada à comunidade é a da aquisição?
Com toda a humildade possível diante da ousadia de

�discordar de um autor tão conceituado, gostaria de pensar
a razão dessa distinção. Uma primeira ideia que me
ocorreu, relacionada à ‘idade’ do diagrama, já que remonta
à década de 1970, é a de que, talvez, naquela época e
contexto, a concepção de participação dos interagentes
não seria tão desenvolvida como nos dias atuais.
No entanto, na nova versão do livro de Evans, em
parceria com Saponaro, lançada em 2012, os autores
reafirmam claramente essa relação demonstrada no
diagrama de 1979, quando dizem que “este é o único
ponto no processo de desenvolvimento de coleções que
envolve pouco ou nenhum “input” da comunidade [...]
Frequentemente, as pessoas que ajudam na seleção não
estão diretamente envolvidas nos trabalhos de aquisição
do material selecionado” (op.cit., p.47, c.2). Ou seja,
permanece a relação ‘zero’ entre aquisição e comunidade.
Vergueiro (1989, p.63) reproduz a mesma postura, pois
utiliza sem discutir esse ponto, a figura que ilustra o
processo de Evans, quando apresenta a etapa de
aquisição, afirmando que:
Deve ser entendida como uma etapa puramente
administrativa [...] veremos que a aquisição é a única a não
ter ligação direta com a comunidade. Isto acontece por que o
papel da aquisição, no processo, constitui-se em localizar e,
posteriormente, assegurar a posse, à biblioteca, daqueles
materiais que foram definidos pela seleção, como de
interesse.

Se formos considerar os trâmites administrativos e
financeiros da aquisição por compra, seremos obrigados a
concordar com Evans e Saponaro, assim como com
Vergueiro. Contudo, se levarmos em consideração que há
outras modalidades de aquisição, o diagrama não
representa uma das mais importantes formas de
participação comunitária no desenvolvimento dos estoques
de informação de uma biblioteca: a doação.

�Não podem ser desprezadas as outras modalidades de
aquisição, especialmente no Brasil, onde é muito comum
formar e desenvolver coleções, especialmente de
bibliotecas públicas, comunitárias e escolares por meio de
doações espontâneas e solicitadas. O censo nacional de
bibliotecas públicas municipais de 20094, por exemplo,
detém um quadro demonstrativo de que a opção mais
utilizada para aquisição é a doação (83%), estando a
compra, em segundo (e último) lugar, ocupando apenas
17%.
A participação através da doação de itens bibliográficos é
uma das mais importantes na relação entre biblioteca e
comunidade. Entregar livros que, anteriormente,
pertenceram a um acervo pessoal pode significar que há
um apreço do doador pela biblioteca, uma certeza intuitiva
de que seus livros serão bem cuidados e utilizados por
muitas outras pessoas, as quais aprenderão coisas novas e
crescer com eles.
É claro que nem todos os doadores são assim tão bem
intencionados. É sabido que muitas doações não passam
de um simples descarregar de lixo impresso e, para
situações como essas, há critérios de análise e seleção do
material doado, que devem ser seguidas e observadas.
Mas são muitos os casos em que bibliotecas pessoais
inteiras são entregues aos cuidados das mais diferentes
unidades de informação, nas quais, muitas vezes, famílias
de pessoas já falecidas, carinhosamente, abrem mão de
acervos valiosos, fazendo isso também como uma forma
de homenagear a pessoa amada e estender seu legado.
Há, assim, uma relação afetiva na doação que não é

�possível encontrar em nenhum outro tipo de aquisição. E
isso é muito valioso, pois estreita os laços com a
comunidade, agrega valor ao estoque de informação, tendo
a participação direta dos interagentes no processo de
desenvolvimento de seus estoques.
Além das doações espontâneas, outra forma de aquisição
possível em unidades de informação, geralmente não
vinculadas ao setor público, mais detidamente bibliotecas
comunitárias, é a captação de recursos através de
ferramentas de crowdfunding. O termo, traduzido para o
português, significa ‘financiamento da multidão’ ou
financiamento coletivo, como comumente é chamado no
Brasil e se trata de uma prática que vem crescendo nos
últimos anos.
O sistema de arrecadação de fundos acontece via internet
e funciona da seguinte maneira: alguém (pessoas ou
instituições) propõe um produto ou serviço a ser financiado
por pessoas desconhecidas que poderão se interessar por
ele, as quais decidem doar quantias em dinheiro para vê-lo
concluído. Normalmente, as quantias são estipuladas com
antecedência, tendo as seguintes garantias: caso o valor
não seja atingido, o dinheiro será devolvido e, em caso
positivo, alguma compensação será oferecida aos
doadores, depois de concretizado o projeto, nos âmbitos
equivalentes à doação recebida.
A partir do crowdfunding, artistas têm montado suas
peças, cantores têm lançado seus discos, startups
inovando tecnologias, e bibliotecas têm comprado livros.
Sim, você leu corretamente: bibliotecas têm comprado
livros.
Um exemplo a ser citado foi mencionado no site da
Revista Galileu5, no qual consta que foi lançado o Projeto
Librii por uma universidade norte- americana; que prevê a
criação de bibliotecas de baixo custo, com sinal wireless e
autossustentáveis na África. Para arrecadar fundos e
atingir seu objetivo, foi aberta uma chamada de
financiamento coletivo com alvo de 50 mil dólares.

�Outro exemplo recentemente divulgado por Rodriguez
Garcia (2014), através do Blog Infobibliotecas, é a
iniciativa espanhola de crowdfunding chamada Mecenable,
cujo financiamento coletivo é direcionado a projetos de
bibliotecas e que pode ser conferido através do link
http://www.infobibliotecas.com/es/blog/?p=844.

Fonte: http://www.yebothis.com/wpcontent/uploads/2014/07/librii3-w750.jpg

Na era de participação através da Internet, projetos dessa
natureza podem atingir bons resultados, pois o valor social
de uma biblioteca é algo, frequentemente, melhor
reconhecido pela ‘multidão’ do que pelas instituições e
políticas públicas. As chances de adesão podem ser bem
interessantes.
Outra forma para aquisição de estoques de informação,
que vem ganhando cada vez mais adeptos entre a classe
bibliotecária, é a realização de projetos de captação de
recursos externos à sua instituição de origem.
Eventualmente, são lançados editais públicos estaduais,
municipais ou mesmo federais, além da iniciativa privada,
que oferecem valores destinados à compra de material
bibliográfico para bibliotecas. Consórcios entre bibliotecas
também podem ser uma saída interessante.
Um gestor atento sabe que precisa ser criativo e
persistente na captação de recursos de modo geral, mas,
especialmente, para adquirir obras voltadas ao

�desenvolvimento de seus estoques. Infelizmente, vivemos
em um país onde, historicamente, prevalece uma cultura
que não valoriza - e nem prioriza - a compra de materiais
bibliográficos para bibliotecas, nem mesmo em muitas
instituições privadas não dependentes de recursos públicos
para sobreviver.
Todo esse contexto de dificuldades que os bibliotecários,
que lidam com a aquisição de livros e materiais
bibliográficos enfrentam, leva-nos a outro conceito que
deve ser analisado sob a perspectiva da gestão de
estoques de informação: a avaliação.

�4.3 Avaliação
Esta etapa detém uma conexão direta com a natureza
administrativa da gestão de estoques de informação,
especialmente por conta da utilização de metodologias
próprias para análises qualitativas e quantitativas que
avaliam o estado do estoque em diferentes aspectos.
O livro de Lancaster (1996), talvez, seja o mais conhecido
entre nós e também o que oferece orientações e
metodologias variadas e aplicáveis à etapa de avaliação.
Acredito que seja muito difícil encontrar um bacharel em
Biblioteconomia, graduado nas escolas brasileiras que
nunca tenha lido ou mesmo ouvido falar sobre ele.
Portanto, mais uma vez, não iremos aqui discorrer sobre
métodos e fórmulas de avaliação, mas cabe discutirmos
um pouco mais detalhadamente sua relação com a gestão
e o papel do gestor propriamente dito.
Avaliar trata-se, basicamente, de coletar dados que
permitam verificar o estado da arte do estoque de uma
unidade de informação. Através da análise desses dados, é
possível verificar se a etapa de seleção foi realmente bem
sucedida, se o material adquirido agrega mesmo valor à
comunidade de interagentes, se o estado físico das obras
está em boas condições, se as áreas de assunto cobertas
estão em equilíbrio e se o número de itens oferecidos
atende à demanda de utilização.

Mais uma vez, refere-se à identificação e análise dos
pontos fortes e fracos, oportunidades e ameaças, voltados

�agora à construção e desenvolvimento dos estoques de
informação já existentes. Disso resultam diferentes
processos de tomada de decisão importantes ao
bibliotecário gestor, por exemplo: a retirada definitiva de
obras que não respondem aos objetivos e metas da
biblioteca e de seu público-alvo, a projeção de formas de
divulgação e marketing para obras pouco utilizadas, mas
com valor em termos de conteúdo, ao planejamento com
vistas a trazer equilíbrio às diferentes áreas de cobertura,
a fim de que todas recebam a atenção necessária para seu
desenvolvimento.
A coleta desses dados deve ser feita de modo contínuo e
sistêmico, baseada em estudos qualiquantitativos de uso,
tendo como objetivo final a medição da qualidade e
adequação do material oferecido pela biblioteca.
(LANCASTER, 1996). Enfim, realiza um diagnóstico do
processo de gestão de estoques de informação que aponta
seus sucessos e fracassos.
Outro resultado desse diagnóstico é a checagem da
validade da Política de gestão de estoques da biblioteca. É
a etapa de avaliação que permite identificar se o
planejamento das ações da biblioteca, voltado ao seu
estoque de informação, está sendo validado ou se
necessita de ajustes. Segundo Vergueiro (1989, p.83), “a
avaliação permitirá ao bibliotecário verificar se as etapas
anteriores do processo, do estudo de comunidade ao
desbastamento, estão sendo realizadas de forma
coerente”.
Coerência: gosto da aplicação dessa palavra ao pensar os
estoques de informação. Todo o processo de gestão de
estoques de informação deve ser conduzido sob a batuta
da coerência, sendo conduzido pelo ‘fio de Ariadne’ que liga
cada etapa aos objetivos da instituição, da biblioteca e da
comunidade de interagentes. A avaliação permite verificar
se isso está acontecendo ou não e caberá ao gestor
encontrar os caminhos para corrigir eventuais falhas.
O grande problema ao avaliar estoques de informação, já

�mencionado por Vergueiro em 1989, é a ausência de
parâmetros e metodologias contextualizadas à realidade
brasileira. Ainda padecemos da falta de padrões nacionais
que sirvam como parâmetros na formação de estoques de
informação, bem como de diretórios nacionais de
publicações, a exemplo de muitos que conhecemos fora do
Brasil6.
Nesse quesito, mais uma vez saem à frente as bibliotecas
universitárias, pois contam com parâmetros quantitativos
bem definidos pelo MEC (Ministério de Educação e Cultura),
fazendo avaliações institucionais que incluem análise de
estoques de informação da biblioteca como um dos
indicadores de qualidade à instituição.
Mais que isso, não há parâmetros claros em relação aos
outros tipos de bibliotecas e, muitas vezes, somos
obrigados a seguir padrões internacionais que não
correspondem ao contexto brasileiro. Sobre a ausência de
parâmetros em bibliotecas escolares, por exemplo,
Gonçalves et al. (2004, p.25) afirmam que “os poucos
estudos desenvolvidos permitem dizer que a questão de
padrões numéricos para coleções de bibliotecas escolares
não constituiu uma questão prioritária para autores da
área no Brasil”.
Decorridos dez anos da data da publicação do artigo,
pouca coisa mudou, mas merece destaque a Lei
12.244/2010, sobre a universalização das bibliotecas
escolares, que prevê o mínimo de um título por aluno
matriculado. Desta forma, podemos afirmar um pequeno
avanço (embora ainda não implantado, pois prevê o prazo
de 10 anos para tal) no que tange à apresentação de um
parâmetro, mesmo que extremamente tímido em termos
de quantidade de acervo a ser oferecido.
Para as bibliotecas públicas, desconheço padrões
nacionais. O Sistema nacional de Bibliotecas Públicas –
SNBP, em suas diretrizes para formação de acervos7,
sequer menciona questões quantitativas a serem
observadas em seus critérios básicos. Assim, as bibliotecas

�públicas do Brasil seguem levadas pelos ventos de suas
diretorias, normalmente formadas por leigos que assumem
cargos de confiança e, portanto, muitas vezes, profundos
desconhecedores do assunto.
Porém, nem só de números sobrevive a avaliação dos
estoques de informação. A análise qualitativa se refere à
pertinência, atualidade e adequação dos conteúdos e
suportes aos objetivos da biblioteca já mencionados
anteriormente. Nesse aspecto, as dificuldades são
igualmente identificadas, pois a avaliação qualitativa
demanda a participação engajada de especialistas em cada
assunto coberto pelos itens bibliográficos disponíveis.
A literatura sugere diferentes estratégias, como a criação
de comissões com a participação de especialistas nas áreas
de cobertura do estoque de informação. Esta pode ser uma
boa estratégia, apesar das limitações dos especialistas,
apontadas pelo próprio Lancaster (1996), quanto à
imparcialidade ou à falta de familiaridade com áreas muito
específicas dentro de um campo do conhecimento.
Contudo, também é consenso entre os autores que
escrevem sobre o assunto que conseguir reunir uma
comissão dessa natureza não se trata de tarefa fácil.
Especialistas geralmente estão atolados em trabalhos,
pesquisas ou aulas e, raramente, têm disponibilidade de
tempo para participar da avaliação qualitativa de estoques
de informação. O desafio de motivá-los a que opinem
sobre o conteúdo de uma obra de interesse da biblioteca
continua e, atualmente, é possível facilitar o trabalho dessa
comissão através de ferramentas colaborativas, encontros
virtuais que podem ser promovidos pela biblioteca por
meio das mídias sociais.
Além disso, em alguns casos, o bibliotecário poderá ser
um especialista na área dedicada à sua biblioteca, o que
representa algo mais, atribuindo maior facilidade de
julgamento da qualidade do conteúdo de seu estoque em
parceria com demais membros da comissão.

�Assim como o crowdfunding pode ser uma saída
interessante para a aquisição, o crowdsourcing 8também se
apresenta como uma opção a mais para a avaliação. O
termo foi apresentado pela primeira vez pelos editores da
Revista Wired em 20069 e pode ser definido como uma
maneira de terceirizar a solução de problemas, antes
buscada internamente por empresas ou instituições
diversas, através de um convite aberto à multidão de
voluntários dispostos a oferecer seu excedente cognitivo.
Assim, por exemplo, foram criados o software Linux e o
navegador de Internet Mozilla Firefox.
No caso da avaliação de livros, novamente, a ‘multidão de
fontes’ pode ser útil, pois trata de uma ferramenta para a
solução de problemas e construção coletiva do
conhecimento. Através dela, pode ser solicitada a opinião
de especialistas sobre o conteúdo de determinadas obras,
contando com a participação voluntária de profissionais e
pessoas que pesquisam o tema.
A definição do termo, encontrada na Wikipedia,
ferramenta igualmente criada pelo sistema de
crowdsourcing, reforça essa possibilidade ao mencionar
que “Com crowdsourcing explícito, os usuários podem
avaliar determinados itens, como livros ou páginas da
web”.
Para essa tarefa poderão ser convidados a participar, por
exemplo, a comunidade acadêmica de uma universidade,
aproveitando o potencial da ‘multidão’ de pesquisadores lá
existentes. Dessa forma, haveria uma participação efetiva
dos interagentes da biblioteca universitária, a exemplo do
que constatou Garcia (2014) em sua pesquisa mencionada
anteriormente. Uma solução caseira com múltiplas
vantagens para a biblioteca!
Para isso, contudo, é necessário ao gestor possuir uma
visão mais ampla de seu trabalho junto aos estoques de
informação. Mais uma vez são requeridas características
como pró-atividade, capacidade de negociação e liderança,
a fim de pensar e concretizar estratégias na busca de

�soluções práticas para as atividades de gestão de estoques
de informação. É importante que no desenvolvimento do
processo de gestão de estoques de informação o seu
gestor seja responsável e criativo; com base em
metodologias que podem ser criadas por ele ou adaptadas
de outros contextos.
Em síntese: criatividade para sair do lugar comum é
fundamental para uma boa gestão de estoques em uma
unidade de informação. Isso e um bom planejamento, por
meio da Política de gestão de estoques, nosso próximo
assunto.

1 Caso seja necessário aprofundar o conhecimento sobre o Estudo
de Comunidade, sugiro a leitura dos textos de Vergueiro (1989,
1993), Vergueiro e Andrade (1996) e Figueiredo (1994)
2 “Neuromarketing é um campo novo do marketing que estuda a
essência do comportamento do consumidor. É a união do marketing
com a ciência e é considerado uma chave para o entendimento da
lógica de consumo, que visa entender os desejos, impulsos e
motivações das pessoas”
http://neurobusiness.com.br/neuromarketing.php
3 Sugiro buscar textos dos autores já recomendados sobre as
Políticas de Seleção.
4 http://forumleitura.org.br/wp-content/uploads/2014/04/Censobibliotecas-publicas-brasil.pdf .
5 http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI33467217770,00PROJETO+DE+CROWDFUNDING+PRETENDE+ABRIR+BIBLIOTECAS+DE+BAIXO+
6 Alguns exemplos: Ulrich’s Guide e Sociological Abstracts
7 http://snbp.bn.br/diretrizesacervo
8 Para saber um pouco mais sobre o assunto, este site traz bons
esclarecimentos: http://www.ibccoaching.com.br/tudo-sobrecoaching/entenda-o-que-e-crowdsourcing-e-a-nova-tendencia-daproducao-colaborativa-2/.
9 Informações da Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Crowdsourcing .

��5 - Política de GEI: um capítulo
à parte
“Não use velhos mapas para descobrir novas terras”
Gary Hamel

O que seria de nós que gostamos de viajar estar sem
mapas ou GPS (Global Positioning System) para chegar a
lugares desconhecidos ou de difícil acesso? Quem sai de
casa para uma viagem sem o devido planejamento, sem
consultar diferentes fontes para saber onde estão os
melhores hotéis (ou os mais baratos), os melhores
serviços, quais meios de transporte utilizar e que lugares
conhecer? É muito bom poder contar com a expertise de
quem já trilhou esses caminhos antes de nós, deixandonos um roteiro seguro a trilhar, não é mesmo?
Pois bem, planejar é fundamental em qualquer
empreendimento, seja pessoal ou profissional. Ter um
plano, traçar metas, indicar atividades necessárias,
estabelecer parcerias e determinar prazos são
fundamentos para o sucesso de um empreendimento e, em
muitos casos, um diferencial no alcance mais rápido e
certeiro de um objetivo qualquer.
Quando se fala em gestão, planejar é imprescindível. O
planejamento estratégico é característica essencial para o
bom funcionamento de qualquer organização.

�No caso dos estoques de informação, o planejamento é
igualmente essencial. Deve saber-se o estoque da
Biblioteca, que estoque se quer construir e quais as etapas
e atividades necessárias para atingir esse objetivo. Deve
também definir prazos e atribuir responsabilidades
específicas a pessoas/setores que desenvolverão as
atividades concernentes à gestão de estoques de
informação.
Nesse caso, o ‘mapa’ é um documento formal denominado
‘política’, que deve ser construído de forma democrática e
de acordo com o contexto de cada U.I. A política é, assim,
o documento norteador do gerenciamento de todas as
atividades que envolvem a formação e o desenvolvimento
dos estoques de informação.
Inicialmente, conhecida como ‘política de seleção’, surgiu
primeiramente como resposta à necessidade premente das
bibliotecas em estabelecer critérios de escolha de material
bibliográfico a ser inserido nas ‘coleções’, especialmente
ocasionadas pela explosão bibliográfica e pelo
desenvolvimento científico e tecnológico.
No Brasil, uma das primeiras menções ao documento de
política de seleção pôde ser verificada no texto pioneiro de
Antonio Miranda, datado de 1978, que reproduz trabalho
apresentado no evento IV Bienal Internacional do Livro &amp;
IV Assembleia das Comissões Permanentes da FEBAB
(Federação Brasileira de Bibliotecários), realizado em São
Paulo.
Em seu texto, Miranda faz um diagnóstico dos processos

�de seleção e aquisição em bibliotecas universitárias
brasileiras, onde conclui que a seleção era, na verdade,
feita pelos professores que entregavam listas para
aquisição de livros, sem nenhuma “ingerência do
especialista de biblioteconomia no processo decisório e
sem qualquer ajuste a uma política definida de
desenvolvimento do acervo informacional da biblioteca”.
(MIRANDA, 1978, p.14).
O autor afirma, na sequência de sua argumentação que, à
época de seu diagnóstico, eram raras as bibliotecas que
possuíam uma política de seleção “que planeje o seu
crescimento conforme um plano racional, estratégico e
equitativo” (idem). Como consequência, constata Miranda,
inexistia o bibliotecário de seleção e a literatura sobre o
assunto era “paupérrima” (nas próprias palavras do autor),
obrigando os poucos cursos de Biblioteconomia, que
incluíam o tema ‘seleção de material bibliográfico’ em seu
currículo, a usarem literatura estrangeira como base
teórica.
Esse cenário, em finais da década de 1970, demonstra o
quão incipiente ainda eram os primeiros passos, tanto para
o ensino sistemático de técnicas de seleção e aquisição de
material bibliográfico, quanto para o estabelecimento de
uma política formalizada e especificamente voltada à
formação e desenvolvimento de coleções em bibliotecas no
país. Contudo, marca a chegada desse olhar mais técnico e
racional às coleções brasileiras.
Miranda, através de seu texto, traz os primeiros
direcionamentos à formulação do que chama de ‘política de
desenvolvimento do acervo informacional’, apontando os
objetivos dessa construção que, além de oferecer
racionalidade e equilíbrio aos processos de seleção e
aquisição, possibilitaria às bibliotecas (1978, p.30):
determinar e estabelecer demandas e
prioridades segundo as necessidades de sua
comunidade;

�definir extensão e profundidade da cobertura
temática de sua coleção;
avaliar suas decisões a partir de revisões
periódicas da política e
contornar,
de
forma
inteligente,
as
oscilações orçamentárias da instituição
mantenedora.
Esse texto clássico trouxe as primeiras orientações
básicas sobre o documento de política que serve de
fundamento até os dias de hoje. Pioneiro e ao mesmo
tempo de vanguarda, chamava a atenção dos bibliotecários
no sentido de que a ênfase não deveria estar no acervo
enquanto documento em si, mas no seu conteúdo
informacional, independente do suporte ou formato.
Destaca também a necessidade de analisar o contexto e a
conjuntura da instituição mantenedora e o conhecimento
da comunidade de utilizadores.
Miranda, a partir de seu diagnóstico e da apresentação de
seu trabalho, instala no Brasil um novo olhar aos acervos,
dando início a este importante debate entre os
profissionais.
Poucos anos mais tarde, com a introdução da disciplina
‘Formação e Desenvolvimento de Coleções’ nos cursos
brasileiros em 1982, o tema ganhou destaque,
representando um grande avanço nesses estudos no Brasil.
(VERGUEIRO, 1993).
Lentamente, a Biblioteconomia brasileira foi tomando
consciência da importância desse documento capaz de
nortear as atividades dirigidas aos estoques de informação
e, a partir da década de 1980, percebe-se a introdução
deste tópico na literatura publicada no país.
Lima e Figueiredo abordam a questão da política em
artigo publicado, em 1984, pela Revista Ciência da
Informação e afirmam que um dos entraves ao
estabelecimento de uma política para as coleções residia

�na ausência de políticas institucionais, pois estas servem
de base e parâmetro no desenvolvimento de políticas de
seleção, aquisição e descarte.
O texto apresenta características do documento que,
segundo as autoras, deveria ser construído de forma
participativa, ou seja, a partir de uma comissão formada
com representação de ‘usuários’ e “deve ser flexível e
atualizada, e expressa de forma a facilitar as decisões e a
justificar a incorporação ou não de determinados itens”.
(LIMA; FIGUEIREDO, 1984, p.139).
Quase uma década depois do texto de Miranda, em um
artigo datado de 1987, Vergueiro faz uma análise da
relação entre censura e seleção de obras em bibliotecas e
constata que a política formal de formação e
desenvolvimento de coleções ainda era inexistente em boa
parte das bibliotecas brasileiras; “no Brasil, é comum
bibliotecas, principalmente as públicas, não possuírem
qualquer política para o desenvolvimento da coleção, sendo
esta atividade bibliotecária, sem dúvida, uma das mais
importantes, realizada, em grande medida, da forma mais
desorganizada possível”. (VERGUEIRO, 1987, p.25).
Vergueiro é um dos autores nacionais que mais
contribuíram para o estabelecimento de uma visão
administrativa dessas atividades no Brasil. Seu livro
publicado, em 1989, também aborda a política enquanto
documento norteador das etapas de gestão de estoques de
informação, dedicando um capítulo específico para esse
tópico. Nele, o autor apresenta os propósitos, objetivos e
vantagens do documento e destaca suas características
gerenciais, sociais e pedagógicas.
Para Vergueiro (1989), estabelecer uma política de
coleções representa uma “medida de bom senso” (p.24),
pois: torna expressamente público “o relacionamento entre
o desenvolvimento da coleção e os objetivos da instituição”
(p.25); “propicia ao bibliotecário oportunidade de auto
avaliação e reflexão sobre sua prática de desenvolvimento
de coleção” e “funciona como diretriz para as decisões do

�bibliotecário”. (p.25).
Klaes, já no início da década de 1990, propõe a criação de
um sistema de informações gerenciais para a tomada de
decisão no desenvolvimento de coleções, no qual enfatiza a
necessidade da criação de políticas como ferramenta
indispensável à gestão de acervos (KLAES, 1991, p.221):
Outro aspecto que necessita ser enfatizado refere-se à
política de desenvolvimento de coleções, a qual representa
um plano de ação, através de um conjunto de enunciados
que determinam objetivos e critérios para orientar a
atividade de desenvolvimento de coleções.

A autora afirma que tanto a ALA (American Library
Association) quanto a IFLA (International Federation of
Library Associations), importantes entidades internacionais
da área, “recomendam o estabelecimento de políticas de
desenvolvimento de coleções que sejam revisadas
periodicamente, a fim de se adaptarem às mudanças
eventualmente ocorridas nos programas acadêmicos”
(idem).
A publicação de livros e artigos nas décadas de 1970 até
os anos 2000 serviram como fundamento para o ensino e o
desenvolvimento das atividades de formação e
desenvolvimento de coleções em unidades de informação,
sempre dando ênfase à criação do documento norteador de
políticas de gestão.
Simone da Rocha Weitzel em 2006, já no século XXI,
publicou um livro dedicado inteiramente à orientação sobre
a elaboração de políticas em bibliotecas universitárias;
sendo, mais uma vez, definidos os objetivos desse
instrumento, apontando todas as etapas do processo de
GEI que envolvem sua preparação e que se constituem no
conteúdo prático do documento.
É destacada novamente a importância do estudo de
comunidade, as características gerenciais de planejamento
e acompanhamento do desenvolvimento da coleção e, por
fim, a autora apresenta o passo a passo da construção de
cada elemento que deve ser observado em sua formulação

�e apresentação final.
Vamos fazer as contas: de 1987 a 2006, um total de 19
anos. Desde o texto de Miranda até o de Weitzel (sem
contar outros publicados nesse intervalo, o que alongaria
demais esta narrativa) decorrem quase duas décadas, nas
quais os mesmos tópicos precisam ser conceituados,
definidos e reafirmados. Isso não faz você pensar? A mim
faz e por isso aqui estou eu, em 2015, retomando o
debate.
O fato é que, decorridos quase 25 anos da introdução da
questão da política de gestão de estoques de informação
no país, ainda não se pode afirmar que sua presença seja
unânime nas bibliotecas brasileiras. É bem verdade que as
bibliotecas universitárias estão à frente nesse quesito: as
políticas dedicadas aos estoques de bibliotecas
universitárias são muito mais frequentemente encontradas
do que nos demais tipos de unidades de informação.
Por este motivo, talvez, nos anos que seguem a primeira
década do século XXI, verifica-se a publicação de artigos
que sugerem a criação de políticas para bibliotecas
escolares (SILVEIRA; FIORAVANTE; VITORINO, 2007) e
especializadas (MIRANDA, 2007), por exemplo.
Sobre políticas para estoques de informação em
bibliotecas públicas, desconheço publicações além das
orientações gerais dadas pelo Sistema Nacional de
Bibliotecas Públicas – SNBP1 e do documento Biblioteca
Pública: princípios e diretrizes2 da Biblioteca Nacional.
Ressalto, contudo, que nenhum dos dois documentos
explicita a necessidade da criação de uma política para a
gestão de estoques de informação enquanto documento
formal que abranja todas as atividades e etapas desse
processo.
Em minha experiência docente, venho estudando e
pesquisando o tema ao longo de mais de 12 anos de
atuação e tenho comprovado que o número de políticas,
efetivamente, implantadas e colocadas em prática ainda é

�muito reduzido, à exceção das bibliotecas universitárias
como já foi dito. No contexto da minha cidade, por
exemplo, a cada ano me surpreendo ao levar alunos em
visitas a bibliotecas de naturezas diversas e descobrir que
a política, ou não existe, ou está apenas escrita no papel,
geralmente desatualizada e sem uma aplicação efetiva.
Mas, para não ser injusta, devo dizer que há bons
exemplos de políticas de diferentes tipologias de bibliotecas
disponíveis de Internet, inclusive públicas e escolares, que
listo a seguir para que o leitor possa conferir:
Biblioteca Pública Benedito Leite (São Luís,
Maranhão):
http://www.cultura.ma.gov.br/bpbl/index.php?
page=politica_colecao

Biblioteca
do
Conselho
Regional
de
Contabilidade
de
Santa
Catarina:
http://www.crcsc.org.br/arquivosSGC/ARQ3_20111031

Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do
Estado
de
São
Paulo:
http://www.aprendersempre.org.br/arqs/APOSTILA_PO

Ministério
da
Saúde:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_de

Biblioteca escolar estadual Joaquim Maria
Machado de Assis do Colégio Estadual de
Campo
Mourão:
http://www.cpmestadualcm.seed.pr.gov.br/redeescola/

Biblioteca
Central
da
UDESC:
http://www.udesc.br/arquivos/udesc/documentos/0_32
Como fruto dessas observações, dos levantamentos
bibliográficos e das análises de diversas políticas,
desenvolvi a proposta de um roteiro atualizado para
compor o conteúdo da política de gestão de estoques de
informação, apresentado no XXV CBBD - Congresso
Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da

�Informação - realizado em Florianópolis em 20133.
No trabalho apresentado, oralmente, destaco algumas
características fundamentais da política, observadas na
literatura especializada da área e que refletem os pontos
acima abordados quanto ao caráter democrático e
gerencial da política de GEI.
Sobre este último aspecto, vale a pena detalharmos um
pouco mais, já que o objetivo deste livro é propor uma
abordagem da GEI sob o enfoque da gestão propriamente
dita.

�5.1 Aspectos sociais e administrativos da
Política de GEI
Uma das características de qualquer processo de gestão é
a existência de documentos formais que orientam e
permitem acompanhar e medir o sucesso de um
empreendimento em qualquer organização ou instituição. A
política de gestão de estoques de informação representa
esse instrumento que norteia a realização de cada etapa,
segundo parâmetros e critérios pré-estabelecidos pela
comissão que o formulou, garantindo também sua
continuidade independente da permanência dessa
comissão.
Os processos da gestão de estoques em bibliotecas
compreendem ações de planejamento que implicam a
utilização de metodologias próprias. A política representa o
roteiro no qual estão descritos, passo a passo, cada uma
das etapas desse processo com indicações de seus
responsáveis e todas as informações que os gestores
entendem serem necessárias à composição do documento,
que servirão também como subsídios para a tomada de
decisão diária na gestão da coleção de uma U.I., ou seja,
na seleção, aquisição, avaliação, desbaste, preservação e
conservação do acervo.
A existência e a utilização desse documento sobre gestão
de estoques, em última análise, garantem que o estoque
de informação seja formado e desenvolvido, a partir de
uma visão concatenada entre:
biblioteca/instituição/comunidade e não dependerá de
opiniões pessoais, tendências ou modismos, nem estará
sujeito a qualquer tipo de imposição ou censura, seja
institucional, política ou pessoal.
Como comentado, anteriormente, a formulação da política

�deve ser fruto de um processo democrático, elaborado com
a participação de toda a comunidade de interessados pelo
estoque de informação a ser disponibilizado. Silveira, Costa
e Silva (2012, p.2) ressaltam que “a construção coletiva de
um documento dessa natureza pode proporcionar à
instituição o estabelecimento de diretrizes pautadas em
decisões coletivas, além de propiciar aos colaboradores o
sentimento de valorização nos processos decisórios da
instituição à qual pertencem.”
Para Vergueiro (1989, p.26), é fundamental essa
participação da comunidade, pois o autor afirma que “o
ideal é que tal documento surja como resultado da
negociação entre o bibliotecário, responsável pelo
desenvolvimento da coleção, e aqueles a quem a mesma
se destina”.
Desta forma, a política deverá estar em consonância com
a missão e objetivos da instituição mantenedora e, ao
mesmo tempo, conhecer profundamente a comunidade
para a qual a biblioteca foi criada, a fim de estar também
de acordo com suas demandas. Esses dois polos
representam os horizontes para os quais o estoque deve
apontar, e a política deve refletir o consenso obtido,
democraticamente, entre todas as partes no que diz
respeito ao estabelecimento dos critérios de seleção,
aquisição e avaliação do material informativo da
instituição.
Além do caráter democrático de sua formulação, o
documento também assume sua característica social, à
medida que estiver disponível ao público, a qualquer
interagente que esteja interessado em conhecer ou tirar
dúvidas sobre todo o processo. Assim, a política deve estar
disponível para consulta a toda a comunidade, sendo capaz
de dirimir possíveis dúvidas, oferecer subsídios para ação e
tomada de decisão, possibilitando espaço na negociação
entre todas as partes interessadas.
Ao apresentar os objetivos de uma política de
desenvolvimento de coleções, Vergueiro (20--) afirma que

�se trata de um documento necessário aos bibliotecários e
às bibliotecas também por uma questão de ‘relações
públicas’, pois existe para informar à comunidade por que,
para que e para quem o acervo existe.

Nos anos de 2013 e 2014, durante a ministração da
disciplina de GEI, realizei levantamentos e análises de
políticas disponíveis pela Internet em parceira com os
alunos. Nosso universo de pesquisa foi constituído das
bibliotecas universitárias: primeiramente as catarinenses e,
depois, as de universidades federais em todo o país.
Contrariando a teoria destacada no quadro acima, os
resultados da primeira pesquisa mostraram que, de um
universo de 59 páginas web de Bibliotecas Universitárias,
apenas 08 disponibilizavam links para suas políticas de
gestão de estoques enquanto documento completo para
pesquisa pública. Destes, um link se encontrava
“quebrado” não levando a conteúdo algum. Sendo assim,
de um total de 59 páginas web das BUs catarinenses,
foram acessadas 07 políticas de Gestão de Estoques de
Informação, o que corresponde a apenas 8% do universo
analisado.
Ao ampliar a pesquisa para o universo de bibliotecas de
universidades federais em todo o país, os resultados
obtidos foram muito semelhantes. De um total de 63
universidades, encontramos 59 links para as bibliotecas.
Destas, apenas 07 disponibilizam o documento de política
de GEI na íntegra para acesso à comunidade de
interagentes e aos interessados de forma geral, ou seja,
11% do total. Para esta última pesquisa, segue um gráfico
muito bem feito pela querida colega Daniela Spudeit e

�apresentado no I Forum de Gestão de Coleções em
Unidades de Informação realizado em Natal, RN, em
novembro de 2014. A imagem permite a visualização por
regiões e facilita o entendimento do estado da arte acima
descrito:

Fonte: Spudeit, 2014

É bom deixar claro que o fato de não disponibilizar a
política via página web não significa que os documentos
não existam na U.I. Este, aliás, constitui-se excelente
problema para pesquisas futuras. No entanto, fica evidente
a falta de preocupação dos gestores desses estoques em
publicizar democraticamente o documento, como orienta a
literatura da área, deixando de aproveitar as facilidades de
acesso e comunicação que a Internet propicia.
Assim, pode afirmar-se que, talvez, ainda sejam
necessários muitos artigos e publicações de livros e textos
que ressaltem a importância desse documento de teor
administrativo e social para a gestão eficiente e coerente
dos estoques de informação em bibliotecas, universitárias
ou não.
Ao longo desses anos de pesquisas e estudos, os alunos e
eu realizamos, também, diversas análises nos conteúdos
de diferentes políticas de bibliotecas universitárias,
públicas, especializadas e escolares. Nosso objetivo era o

�de identificar quais aspectos das etapas do processo de
gestão de estoques de informação estavam contemplados,
realizando análise comparativa entre os documentos e os
pontos indicados na literatura. O resultado desses estudos
é apresentado a seguir em forma de uma proposta de
atualização de conteúdo, a partir de um roteiro organizado
em tópicos.

�5.2 Proposta de roteiro atualizado para uma
política de gestão de estoques de
informação4
Para chegar à composição final da proposta, foi realizada
uma análise comparativa entre textos dedicados à temática
‘formação e Desenvolvimento de Coleções’ e diferentes
políticas disponíveis através de páginas web de bibliotecas
públicas, especializadas e universitárias.
Os autores utilizados como referencial teórico foram:
Vergueiro (1989), Weitzel (2006), Sthrel (2012) e Lozano
(2012). A partir destas leituras, foram elencados todos os
pontos sugeridos pelos autores como necessários à
elaboração do documento em questão.
A partir dessa listagem, foi realizada uma análise
comparativa com vinte políticas de diferentes tipos de
bibliotecas. Deste total, no entanto, as políticas de
Bibliotecas Universitárias representam a maioria, com um
total de quinze documentos disponíveis. As demais se
referem a bibliotecas de órgãos públicos ou bibliotecas
públicas estaduais.
O elenco de itens resultante da análise apresenta o
panorama de tópicos existentes nos documentos,
contemplados na literatura que serviu como referencial
teórico.
O modelo sugerido está estruturado em elementos prétextuais, textuais e pós-textuais. Os elementos textuais
correspondem ao conteúdo da política que depende dos
objetivos específicos e da missão de cada biblioteca em
cada contexto. Os detalhamentos, portanto, deverão ser
incluídos de acordo com os critérios estabelecidos pelas
comissões em cada unidade de informação. Na construção

�do modelo foram incluídos elementos que, normalmente,
ficam de fora das políticas analisadas e, por isso mesmo,
formam um diferencial que torna a política mais completa.
São eles:
Estudo de Comunidade enquanto base para
descrição
da
clientela/público-alvo:
no
capítulo 4 deste livro, estão dispostas, com
detalhes, as razões pelas quais este item
deve ser levado a sério na gestão de
estoques de informação. Contudo, gostaria
de ressaltar novamente que, nesse contexto,
esse estudo equivale a uma ‘pesquisa de
mercado’ para a oferta de produtos e
serviços de informação, pois descreve a
clientela da U.I. e suas demandas. Por isso é
fundamental que se conheça sua existência
e que seja identificado o perfil de sua
comunidade
a
partir
desse
estudo
detalhado;
Participação e papel da biblioteca em
programas
cooperativos:
A
sociedade
contemporânea, digitalizada e conectada
possui características colaborativas e, hoje
em dia, atuar em rede é fundamental. As
bibliotecas, especialmente as públicas e
universitárias podem e devem participar de
sistemas
de
cooperação
nacionais
e
internacionais com base em seus acervos.
Essa atuação deve ser planejada também na
política, descrevendo os critérios e as formas
de cooperação, a disponibilização (ou não)
de
recursos,
indicando
a
relação
custo/benefício dessa participação (STHREL,
2010);
Biblioteca 2.0 e Repositórios Digitais:
Embora pudessem estar incluídos no item
‘estoques de informação’ como formatos

�eletrônicos,
merecem
destaque
estes
documentos, pois necessitam planejamentos
específicos
com
desenvolvimento
de
estratégias que exigem contratos com
provedores, consórcios, licenças e acordos
diferenciados que envolvem, dentre outras
questões, assuntos concernentes a direitos
autorais, dentro de um novo cenário para as
bibliotecas na atualidade. A seguir, discutese com mais detalhes a questão da gestão
de e-books. Além disso, grandes bibliotecas
(especialmente as universitárias) podem
ultrapassar o papel de mediadoras no uso
desses materiais, sendo também apoiadoras
em projetos de criação de materiais de
conteúdo eletrônico em parceria com
pesquisadores.
(ex.
Biblioteca
da
Universidade Harvard, EUA5).
Conservação e Restauração: Apesar de ser
uma atividade essencial na gestão de
acervos que, inclusive, costuma estar
presente muitas vezes de forma emergencial
na maioria das bibliotecas, a conservação e
restauração dos estoques de informação não
é um item encontrado com frequência nas
políticas de GEI disponíveis na web. Incluí-lo
na política significa pensá-lo, planejá-lo de
forma estratégica e preventiva, estendendo
ao máximo a vida útil de cada documento
pertencente ao estoque da instituição, esteja
ele em seu formato físico ou eletrônico.
Censura: refere-se à garantia de acesso livre
e democrático ao estoque que a U.I. reserva
a seus interagentes. A presença do item
Censura no documento deve deixar claro o
compromisso da biblioteca em garantir que a
comissão responsável por essa etapa seja
atenta em equilibrar interesses na formação

�e no desenvolvimento de uma coleção que
contemple pluralidade de pensamento e
diversidade cultural. Além disso, deve
também garantir à sua clientela a livre
escolha e amplo acesso ao seu acervo,
segundo a natureza e objetivos de cada
instituição.
Vamos nos deter um pouco mais neste item, considerado
polêmico; apesar de não ser obrigatório na política, pode
ser incluído como subseção da etapa de seleção,
conferindo credibilidade na transparência dos processos
que envolvem a gestão de estoques de informação.
É importante frisar que a questão da censura é tratada
pela literatura da área sob três aspectos principais,
segundo Vergueiro (1989, p.59): a censura legal ou
governamental, pressão individual ou de grupos e a
autocensura. Em momentos históricos distintos ou
dependendo de determinados sistemas de governo, essas
categorias de censura podem se apresentar com maior ou
menor força.
No entanto, merece atenção especial a ‘autocensura’ que,
segundo o autor (VERGUEIRO, idem):
Refere-se a uma questão inerente ao próprio profissional
bibliotecário que, sem o saber, realiza autopoliciamento para
evitar prováveis polêmicas; quando, no entanto, tal
policiamento é consciente e espontâneo, deixa de existir
autocensura para passar a existir a censura exercida pelo
bibliotecário. Afinal, a linha a dividir a censura da seleção do
material é, às vezes, muito tênue [...].

Portanto, este item representa importante papel em uma
política de gestão de estoques coerente, pois se propõe a
garantir tanto à Instituição a qual a biblioteca está
vinculada, quanto ao seu público-alvo e especialmente ao
bibliotecário-gestor, a manutenção de um serviço
democrático e desvinculado de eventuais interesses e
restrições pessoais.

�Os demais elementos seguem as etapas tradicionais dos
processos de gestão de estoques de informação, ou seja:
critérios de seleção (qualitativa e quantitativa) e seus
instrumentos auxiliares; políticas de aquisição (compra,
permuta, doação, intercâmbio) e as metodologias de
avaliação (qualitativa, quantitativa), indicando as decisões
que seguem aos resultados obtidos (desbastamento).
O documento também deve indicar a periodicidade com
que a política deve ser revisada. O processo de gestão de
estoques é sempre dinâmico, assim como o é a biblioteca.
Com a rapidez característica impressa pelas tecnologias da
informação na sociedade contemporânea, essa necessidade
se faz ainda mais premente, talvez, ainda num espaço de
tempo menor do que os dois anos geralmente indicados
nas políticas atuais.
Como elementos pós-textuais, sugere-se incluir modelos
de correspondências utilizados para a comunicação entre
os diversos atores envolvidos nos processos e mais o
termo de doação, essencial à transparência nessa
negociação entre gestor/interagente na formação do
acervo, através da participação direta da comunidade na
etapa de aquisição.
Assim, segue em forma de tópicos enumerados a lista
completa dos itens considerados necessários para uma
política de gestão de estoques de informação:
1. Elementos pré-textuais
rosto, sumário)

(capa,

folha

de

2. Parte introdutória
1. Informações
Institucionais
(identificação, missão, objetivos)
2. Informações da U.I.
missão, objetivos)

(identificação,

3. Definição, importância e objetivos da
política

�4. Estudo de comunidade (descrição da
comunidade de interagentes)
5. Participação e papel da biblioteca em
programas cooperativos
(nacionais e internacionais)
3. Estoques de informação
1. Materiais que o compõem (conteúdo e
formato)
2. Recursos financeiros disponíveis para
sua formação e desenvolvimento
(orçamentos institucionais centralizados/descentralizados,
captação de
recursos externos)
4. Desenvolvimento
informação

dos

estoques

de

1. Seleção
1. Responsabilidade
da
seleção
(atores, princípios, atribuições e
competências)
2. Critérios por tipo de obra e de
suporte físico
3. Instrumentos auxiliares (fontes para
seleção)
4. Seleção qualitativa
qualidade)

(critérios

de

5. Seleção quantitativa (número de
títulos e exemplares por tipo de
obra,
segundo parâmetros/recomendações oficiais ou demandas

�verificadas)
5. Aquisição
1. Prioridades
(definidas
segundo
orçamentos e objetivos estabelecidos)
2. Formas de aquisição (compra, doação,
permuta, intercâmbio)
3. Reposição de materiais (situações e
formas previstas para reposição)
6. Avaliação
1. Metodologias
1. Qualitativas
responsáveis)
2. Quantitativas
responsáveis)

(métodos
(métodos

e
e

2. Periodicidade (previsão de prazos para
elaboração)
3. Desbastamento
descarte)

(remanejamento,

7. Biblioteca 2.0 e Repositório Institucional
(políticas, critérios, responsáveis)
8. Conservação/Restauração
responsáveis)

(políticas,

9. Revisão da política (previsão)
10. Elementos pós-textuais
1. Modelos
de
correspondência
(documentos administrativos)
2. Formulário de doação
3. Referências bibliográficas
Estes são os itens sugeridos para a composição de uma
política mais completa. Obviamente, não é definitiva e nem
‘universal’, isto é, nem todos os itens podem ser

�interessantes a todas as bibliotecas. Contudo, representam
o universo que cobre todo o processo de gestão de
estoques de informação. A utilização, bem como a
adaptação a cada contexto dependerá da negociação que
cada gestor conduzirá com sua instituição e sua
comunidade.
A ideia aqui é propor um roteiro que seja útil como ponto
de partida para a redação do documento, de maneira a
incentivar a elaboração desse instrumento de gestão
essencial ao sucesso, eficiência e eficácia das atividades de
gestão de estoques em bibliotecas.
Um último ponto deve ser abordado, a fim de completar
esse diálogo sobre a atualização de termos às atividades
de gestão de estoques de informação no contexto atual: a
gestão e-books. Discutiremos isso a seguir.
1 http://snbp.culturadigital.br/diretrizesacervo/
2
http://consorcio.bn.br/consorcio/manuais/manualsnbp/ArquivoFinal28_08.pdf
3 http://portal.febab.org.br/anais/article/view/1433
4 Boa parte deste conteúdo pode ser visto, também, no texto
apresentado no CBBD:
http://portal.febab.org.br/anais/article/view/1433/1434
5 http://www.theverge.com/2012/4/23/2969913/harvard-libraryadvisory-council-journal-open-access

��6 - Gestão de e-books: um
desafio e um aprendizado
“O livro não deixa de ser livro quando muda de formato”
Edson Nery da Fonseca

Não é de hoje que grandes desafios são trazidos ao
gestor de estoques de informação pelas tecnologias. Cada
inovação introduzida nos suportes, nos quais a informação
contida leva o bibliotecário à necessidade de rever suas
formas de trabalhar com os documentos, de repensar a
maneira de selecionar, adquirir e estocar em sua biblioteca
os novos formatos.
Foi assim que, desde a criação das tabuletas de argila e
sua evolução para os papiros e pergaminhos, depois para o
papel e, nos últimos anos, os suportes eletrônicos e
digitais, o desenvolvimento de novos suportes sempre
desencadeou mudanças na atuação do bibliotecário e na
organização das bibliotecas.
Especificamente, quanto a esta última transformação,
muito já se discutiu entre os pesquisadores da área. Uma
das principais implicações do chamado ‘impacto’ das
tecnologias nas bibliotecas, bastante debatido, foi a da
transformação do paradigma da posse para o do acesso.
No cenário das bibliotecas e suas coleções, Figueiredo foi
uma das autoras que, na década de 1990, discutiu esse
‘impacto’ em seus textos. Vou aqui abrir um pequeno
parênteses, pois julgo necessário repensar, mesmo que
muito brevemente, a noção de ‘impacto’ antes de entrar no
assunto propriamente dito.
A palavra ‘impacto’ conduz à ideia de algo que cai
repentinamente sobre alguém sem aviso prévio, causando,

�em boa parte das vezes, danos e prejuízos inesperados.
Em relação à introdução das tecnologias na sociedade e,
em especial no nosso caso, na biblioteca, isso não é
totalmente verdade.
Compactuo com Pierre Lèvy, para quem inexiste o
‘impacto’ da tecnologia1, já que a tecnologia é uma
construção social e, portanto, humana, nossa. Essa noção
é pautada nos estudos da Sociologia da Técnica, e tenho
como base especialmente um texto de Benakouche (1999,
p.2), para quem: “responsabilizar a técnica pelos seus
“impactos sociais negativos”, ou mesmo seus “impactos
sociais positivos”, é desconhecer o quanto - objetiva e
subjetivamente - ela é construída por atores sociais, ou
seja, no contexto da própria sociedade”.
Dito isto, dentro do contexto estudado neste livro, não
foram poucas as ‘previsões’ feitas sobre a inserção da
tecnologia no trabalho com a informação e, também, no
ambiente das bibliotecas. Portanto, o termo ‘impacto’ não
se justifica: fomos bem avisados por autores como
Lancaster, por exemplo, que segundo Figueiredo (1995,
documento não paginado) ficou conhecido como o “profeta
da sociedade sem papel”.
Figueiredo apresenta essas ‘previsões’, indicando que,
desde a década de 1970, o assunto estava sendo abordado
entre pesquisadores da área. Em seu texto, datado de
1995, Figueiredo apresenta as ‘profecias’ de Lancaster nas
décadas de 1970 e 1980, que incluíam o uso de
computadores no ambiente das bibliotecas em duas
aplicações possíveis: automação das operações internas e
acesso a informações fora do ambiente da biblioteca.
Figueiredo ressalta que essa transição do papel para os
sistemas eletrônicos era vista por Lancaster como parte
previsível da evolução dos suportes, atenuando ainda mais
a noção de ‘impacto’ e reforçando o ponto de vista da
construção social desse processo.
Outros autores citados por Figueiredo, que também

�discutiram essa evolução nas décadas de 1980 e 1990,
foram Black (1981), Horowitz e Curtis (1982), Line (1983)
e Garson e Howard (1984), Fisher (1992). Todos avaliaram
as tendências de publicações eletrônicas de periódicos e
livros, apresentando as possibilidades e as implicações
(palavra que eu prefiro) que trariam às bibliotecas.
O fato é que com ou sem a licença dos bibliotecários, as
tecnologias estão incorporadas nos dois aspectos
‘previstos’ por Lancaster desde 1970 e, a cada dia,
apresentam novos desafios e possibilidades ao gestor das
unidades de informação como um todo e, também, ao
gestor de seus estoques.
Como um dos primeiros desafios postos aos bibliotecários,
as bases de dados eletrônicos se tornaram os produtos
iniciais a serem desenvolvidos por esses profissionais. No
Brasil, já na década de 1960, percebe-se a introdução
dessa novidade nas bibliotecas brasileiras, através da
atuação visionária da equipe de bibliotecários liderada por
Lidia Sambaquy e Célia Zaher, do IBBD – Instituto
Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, predecessor
do hoje conhecido IBICT (Instituto Brasileiro de Informação
em Ciência e Tecnologia).
Assim foi estabelecida uma atuação tecnológica da
Biblioteconomia no Brasil: em 1968, os bibliotecários do
IBBD lançaram a primeira bibliografia brasileira na área de
Física, elaborada por processo automatizado,
representando uma grande inovação para a época.
(CORRÊA, 2008, p.94).
A partir daí, com a introdução dos sistemas
automatizados nas bibliotecas brasileiras, verifica-se a
atuação bibliotecária no contexto de bibliotecas digitais,
virtuais, eletrônicas, híbridas... Enfim, convivemos com
aparatos, produtos e serviços de base tecnológica no
ambiente das bibliotecas, com a participação de
bibliotecários especialmente na mediação e uso daqueles.
A história recente das bibliotecas demonstra que os

�avanços tecnológicos no campo da informação implicam
mudanças e adaptações exigidas do bibliotecário, que
resultam em alterações curriculares dos cursos de
graduação, com vistas a atualizar a formação profissional
em termos tecnológicos. Surge com força maior ainda a
necessidade de buscar formação continuada, aperfeiçoando
conhecimentos e atualizando o currículo pessoal do
profissional que deseja se destacar no mundo do trabalho
da atualidade.
Como analisado por Figueiredo na década de 1990, uma
das áreas de atuação nas bibliotecas, que também recebeu
os efeitos e implicações dos avanços tecnológicos nos
suportes de informação, foi a da gestão de estoques.
Segundo a autora, o desenvolvimento de coleções foi uma
das últimas áreas a serem ‘automatizadas’ e, dentre o
elenco de ‘impactos’ que sofreu, destacam-se os seguintes
‘problemas’, mencionados por Nissley (1993, apud
FIGUEIREDO, 1996, p.252-253): seleção e acesso
(questões de controle, qualidade, conteúdo e forma);
preservação; direitos autorais; aquisição.
Esses ‘problemas’ consistem, na verdade, em desafios
colocados aos bibliotecários ainda nos dias de hoje, alguns
deles sem uma definição clara até o momento, permeando
a oferta de bases de dados em geral, de periódicos
científicos e, mais recentemente, são assunto em pauta na
introdução de e-books nos estoques da biblioteca.

Se você está lendo este livro, provavelmente não há
necessidade de uma definição do que seja um e-book, até
mesmo por que a tradução do termo é autoexplicativa:
livro eletrônico. No entanto, vale a pena dar uma rápida

�pincelada em sua breve e recente história antes de entrar
nos meandros de sua gestão em bibliotecas.
Assim, voltamos à década de 1970, quando Michael Hart
cria o Projeto Gutemberg e inaugura a era dos livros
eletrônicos. O Projeto Gutemberg nasce com a filosofia de
que o melhor uso que se poderia fazer da computação
seria o armazenamento, a recuperação e a pesquisa de
todo o material encontrado nas bibliotecas. Sua missão,
portanto, seria a criação e a distribuição de livros
eletrônicos que pudessem ser reproduzidos
indefinidamente.
Com essa ideia e fazendo uso de uma quantidade
excepcional de horas de uso no “super computador Xerox
Sigma V no Laboratório de Pesquisa de Materiais da
Universidade do Illinois”2, Hart digita e disponibiliza a
primeira obra do Projeto: A declaração da independência
dos Estados Unidos da América, que enviou ao maior
número possível de pessoas presentes na Internet.
Atualmente, o projeto oferece, segundo informações de
sua página em português, mais de 38 mil livros eletrônicos
e gratuitos (de domínio público nos Estados Unidos da
América) em formato e-pub ou kindle. Todos os livros são
digitalizados de editores originais e oferecidos em ótima
qualidade para leitura em dispositivos eletrônicos.
Essa é a gênese dos e-books; o primeiro passo de uma
tendência que cresce a cada dia e alcança um número cada
vez maior de adeptos, tanto leitores quanto escritores e
editores. Tem chamado, igualmente, a atenção de
estudiosos e pesquisadores das áreas de leitura e
publicações, por exemplo.
Em outras palavras, os e-books marcam um novo
momento na história dos suportes da escrita e, como em
todas as outras etapas anteriores, chegaram às bibliotecas
causando frenesi.
Muitas dúvidas e grandes desafios cercam a introdução de
livros eletrônicos nos estoques de informação das

�bibliotecas e ainda não há (pelo menos não durante a
escrita deste livro) nenhum texto que oriente, com clareza,
de que maneira devem agir os bibliotecários nas questões
relativas à seleção, aquisição e preservação desse tipo de
obra. Este fato resulta no óbvio silêncio sobre o tópico nas
políticas de gestão de estoques de informação disponíveis
para consulta online.
Como professora da disciplina, saio à caça de informações
para preparar minhas aulas, e o material que passo a
seguir é resultado de leituras em blogs, da participação em
webinars de diferentes provedores ou de cursos de
capacitação oferecidos via web no Brasil e em outros
países, em especial, na língua espanhola3.
Alguns poucos artigos, publicados em periódicos ou
apresentados em eventos, fazem menção ao assunto e
auxiliam na composição deste texto. São apenas tópicos
que julgo importantes, devendo ser observados por um
gestor ao lidar com esse tipo de material informacional em
sua biblioteca e estão descritos a seguir.

�6.1 Seleção
Em termos de conteúdo, a literatura sobre formação e
desenvolvimento de coleções traz critérios gerais de
escolha de obras para composição de estoques de
informação que são plenamente aplicáveis à seleção de ebooks: autoridade, precisão, pertinência e atualidade de
conteúdo. Portanto, numa primeira conclusão óbvia, esses
fatores devem continuar sendo observados ao serem
escolhidos os títulos de e-books que serão disponibilizados,
já que os e-books a serem adquiridos deverão atender à
demanda dos interagentes e aos objetivos institucionais,
tanto quanto os livros impressos.
É importante lembrar que, além das obras adquiridas por
compra, há diversas fontes de acesso aberto, inclusive ebooks, que podem ser linkados ou disponibilizados para
download, a partir do site da biblioteca e oferecidos como
uma forma de ampliar seu estoque de informação. Um
bom exemplo é o da biblioteca Brasiliana Guita e José
Mindlin da USP que, atualmente, oferece cerca de 3.000
títulos.

�Fonte: https://www.bbm.usp.br/node/27

É bom lembrar que a oferta de material eletrônico de
acesso aberto não dispensa sua cuidadosa seleção, a fim
de conhecer a fonte e avaliar sua pertinência, utilizando
critérios específicos para análise de fontes de informação
eletrônica4.
Ainda no caso de fontes de acesso gratuito, devem ser
observados os tipos de licença que utilizam (domínio
público, open access, creative commons), bem como quais
são os formatos que apresentam (proprietários como o
kindle ou livres como e-pub ou pdf).
A oferta de e-books, no entanto, ainda não é tão
abundante quanto à de livros impressos, caminhando a
passos mais lentos do que o desejável no Brasil. Fora isso,
em se tratando, especialmente, de conteúdo técnico ou
científico, boa parte dos títulos oferecidos se restringe a
provedores estrangeiros (que dominam o mercado
mundial) e a obras em línguas diferentes do português.
Coloca-se, aqui, em destaque a pertinência dessas obras
ao público-alvo da biblioteca quanto à sua capacidade de
leitura e compreensão de textos em idiomas diferentes do
português.
Ao selecionar os e-books, é preciso saber quais os
recursos de leitura são oferecidos: leitura na tela, acesso a
texto completo, se há mudanças no tamanho das fontes e
cor do fundo, se a paginação é fixa ou variável, se há
possibilidade de fazer anotação nos textos, busca
amplificada, download, cópia, impressão, etc.
Além disso, é necessário pensar nos equipamentos
leitores - tipos de dispositivos e softwares - que a
biblioteca deverá disponibilizar ou instalar, considerando,
também, a adaptação dos interagentes a esses
equipamentos e à interface oferecida, bem como em todo o
treinamento necessário ao pessoal da biblioteca. Há quem
sugira um período de testes antes da compra propriamente
dita.

�O DRM – Digital Rights Management – direitos autorais de
acesso e uso de e-books – apresentam restrições e
controle por parte das editoras. É preciso avaliar se a
aquisição de obras sob DRM é interessante à biblioteca.
Outras questões também devem ser levadas em conta na
hora de selecionar não apenas os e-books, mas também
seus distribuidores e, dentre elas, a autoridade de editores
e autores. No entanto, selecionar e-books depende de uma
negociação mais ampla que envolve não apenas a escolha
dos títulos, mas de todo o ‘pacote’ oferecido à biblioteca
para sua aquisição.

�6.2 Aquisição
Alinhar as necessidades das bibliotecas às propostas dos
fornecedores de e-books é um grande desafio a ser
vencido. É preciso analisar bem as propostas, estudar os
modelos de negócio existentes e buscar a melhor
adequação aos interesses das bibliotecas. Ainda é muito
comum que as unidades de informação precisem optar pela
proposta ‘menos ruim’, submetendo-se às poucas e nem
sempre vantajosas ofertas dos fornecedores5.
No entanto, de forma bastante pontual, na hora de
adquirir os e-books, vários aspectos precisam ser
esclarecidos:
Trata-se de compra
licenciamento?

perpétua

ou

de

É feita por coleção (pacote) ou por títulos
individualmente?
Sob que demanda?
A biblioteca está pagando pelo acesso ou
pela propriedade?
O
acesso
oferecido
(monousuário)?

é

individual

O acesso é multiusuário, podendo mais de
uma pessoa acessar o mesmo título? Qual o
máximo de usuários simultâneos permitido?
O acesso é limitado em sua quantidade ou
ilimitado?
O empréstimo é diário ou semanal?
A biblioteca poderá acessar os registros
MARC?
Dialoga com
biblioteca?

o

software

de

gestão

da

�Qual a garantia de que a biblioteca continue
a acessar as obras no caso de um
distribuidor deixar de atuar no mercado?
E se houver mudança de formatos?
Possui serviço de suporte, treinamento e
atualização
sobre
novos
recursos
e
ferramentas?
É preciso tirar todas as dúvidas que surgirem e buscar
conhecer o mais profundamente possível, tanto o processo
de aquisição como o mercado de e–books, pois é temática
bem recente nas bibliotecas brasileiras e ainda estamos
reféns do mercado internacional, principalmente. O
contrato a ser celebrado com os provedores deverá ser
bom para todas as partes.
Alguns conselhos dados em webinar, realizado pela equipe
do Aprender 3C, são bastante úteis:
Gaste tempo estudando esse assunto;
Não se ‘case’ com nenhum provedor;
Analise bem todas as ofertas;
Negocie com os distribuidores, mas se
aproxime também dos editores e livrarias.
Esses conselhos são importantes, à medida que se faz a
análise dos prós e contras de cada modelo de negócio
oferecido, bem como as suas implicações para o
interagente em relação ao acesso e uso das obras.
Importante também conhecer o mercado nacional: quais
livrarias oferecem títulos em português, quais são e como
baixar os aplicativos exigidos ao download dos e-books,
que programas são necessários para computadores e
tablets, etc.
Em suma, para adquirir e-books é preciso saber:

�O que há (disponível no mercado e na
biblioteca);
Como acessar (local ou remotamente?
Através de links? É necessário autenticação
de ‘usuário’ ?)
Como usar (conhecer a interface e lidar com
os dispositivos leitores)
Como emprestar (orientar o passo a passo
para baixar os e-books no computador e
outros dispositivos)
Como estamos falando em gestão, é importante saber que
a decisão de adquirir e-books precisa ser pensada e
negociada com o staff da biblioteca e com a instituição. A
seguir, algumas ideias que podem ajudar.

�6.3 Gestão de e-books em bibliotecas
Além das atividades de seleção e aquisição, é preciso criar
um ambiente favorável ao uso dos e-books pelos
interagentes, preparando e capacitando, tanto o pessoal da
biblioteca quanto seus interagentes. Por ambiente
favorável, entenda-se: propício ao aprendizado constante,
com facilitadores atuando de maneira a que a interação
informação/tecnologia/biblioteca resulte na produção e
disseminação de novos conhecimentos.
Uma vez que a introdução de e-books nas bibliotecas
parece ser uma tendência, faz-se necessária a contratação
ou designação de um gestor específico para a coordenação
e promoção de e-books, caso o tamanho da biblioteca e o
número de bibliotecários deem suporte à criação deste
‘cargo’.
Esse gestor deverá possuir, além das habilidades e
competências esperadas de maneira geral, maior
desenvoltura no uso de dispositivos e na leitura de textos
eletrônicos e, também, dispender tempo e energia no
conhecimento das questões técnicas e legais que envolvem
a aquisição desse tipo de material. Seu trabalho também
deverá ser o de convencer seus colegas de trabalho a
‘comprarem a ideia’ da introdução dos e-books e vencerem
seus limites ou preconceitos em relação a esse novo
formato.

Assim, o gestor deverá criar um ambiente democrático
onde toda a equipe envolvida poderá discutir aspectos que

�circundam a introdução desse material nos estoques de
informação da biblioteca. Dentre os assuntos a serem
debatidos, que dizem respeito ao contexto e à realidade da
unidade de informação, destacam-se:
Barreiras econômicas e tecnológicas que
deverão ser vencidas;
As possibilidades de digitalizar o material
impresso;
Armazenamento local ou em nuvem de
conteúdo digital;
Uso ético dos e-books (respeito às licenças e
direitos legais).
Outra questão de fundamental importância diz respeito à
implantação de um programa de treinamento à equipe da
biblioteca, já que é essencial que todos saibam acessar os
e-books para que possam auxiliar os interagentes. As dicas
abaixo são preciosas6:
Elabore e aplique um teste de nivelamento antes de iniciar
o treinamento: cada membro da equipe deve experimentar
baixar e ler um ebook de cada plataforma disponível na
biblioteca e em, pelo menos, dois tipos de dispositivos
diferentes;
1. Aborde uma plataforma
dispositivo de cada vez,
necessário para que as
firmeza no aprendizado de
de iniciar a outra;

e um tipo de
dando o tempo
pessoas sintam
uma etapa antes

2. Comece com os mais interessados e
desenvoltos no uso de tecnologias. Eles
poderão multiplicar o treinamento com os
demais colegas;
3. Prepare guias de uso de cada dispositivo,
voltados ao acervo específico de e-books,

�que podem ser arquivados em um
repositório ou folder compartilhado na
biblioteca;
4. Ao final do treinamento, aplique outro teste
de conhecimento, oferecendo certificados de
capacitação aos que apresentarem bom
desempenho no aprendizado.
Esses passos garantirão uma equipe preparada para, não
apenas auxiliar no acesso e uso, mas também para
incentivá-los dentre a comunidade de interagentes. Seguese, então, outra etapa igualmente importante: a
divulgação e marketing desse material.
O investimento na aquisição de e-books costuma ser alto
e, como visto anteriormente, deve ser justificado através
de uma utilização frequente e constante do material pelos
interagentes. Além da condição primária e óbvia de
conhecer sua comunidade de interagentes para saber os
níveis de aceitação e demanda do material, para que toda
a comunidade saiba da existência dos e-books e, melhor
ainda, permaneça interessada em utilizá-los, uma forte
campanha de divulgação deve ser elaborada e colocada em
prática. Algumas ideias que podem ser interessantes:
Criar um evento para o lançamento do
estoque
adquirido,
em
que
toda
a
comunidade de interagentes deverá ser
convidada;
Divulgação massiva em toda instituição e
fora dela, utilizando canais locais de
divulgação e mídias sociais;
Disponibilizar treinamentos periódicos;
Criar e divulgar tutoriais para facilitar o uso;
Incluir divulgação nas visitas orientadas à
biblioteca (algumas bibliotecas aproveitam o
treinamento do portal da Capes e incluem o

�treinamento
de
acesso
plataformas de e-books).

e

uso

das

O gestor também deve atentar para o acompanhamento
de dados estatísticos de uso desse material, além de
projetar o crescimento futuro do estoque, tanto em
número de títulos, como na quantidade de acessos.
A gestão de e-books fortalece a gestão de estoques de
informação como atividade vital de unidades de
informação, pois acrescenta atividades importantes ao
processo do gerenciamento de estoques, ampliando seu
espectro de atuação e o leque de possibilidades de acesso
à informação.
Assim como, nas décadas de 1970 e 1980, havia
previsões negativas em relação às bibliotecas ameaçadas
pelas tecnologias, verifica-se, hoje, um discurso não muito
favorável à permanência e validade das atividades de
formação e desenvolvimento de coleções diante da oferta
de e-books7. Talvez isso fosse verdadeiro no caso de
desconsiderar os e-books como parte integrante dessa
‘coleção’ ou, como prefiro chamar, desse estoque de
informação.
Como discutido neste capítulo, tanto os livros digitais
adquiridos por compra quanto os acessados de forma
gratuita, são alvos de critérios de seleção, aquisição,
armazenamento e preservação. Desta forma, até mesmo
para quem visualiza o cenário drástico da extinção do livro
impresso, creio ser possível afirmar a sobrevivência da
gestão de estoques de informação. E, assim,
encaminhemo-nos para o final desta conversa.
1 O sociólogo afirma a inexistência do impacto tecnológico em
entrevista dada ao jornal Folha de São Paulo em 1997, atribuindo o
uso de tecnologias como algo inerente à sociedade. A íntegra da
entrevista pode ser conferida no link:
www.ichca.ufal.br/.../biblioteconomia/.../pierre-levy-o-inexistenteimpacto-da-tecnolo..
2 https://www.gutenberg.org/wiki/PT-

�PG_Hist%C3%B3ria_e_Filosofia_do_Project_Gutenberg,_por_Michael_Hart
3 Em especial webinar da ProQuest e cursos da Aprender 3C
4 Sugiro os textos da professora Maria Inês Tomaél, pois dão
subsídios excelentes e devidamente testados para uma análise
consistente dessas fontes eletrônicas.
5 Para conhecer mais a fundo os diferentes modelos de negócio,
sugiro a leitura de Livro Digital e Bibliotecas (Serra, 2014). O capítulo
sobre a introdução dos livros digitais na biblioteca traz explicações
sobre os diferentes tipos de modelos disponíveis. O artigo de Costa e
Cunha (2014) também é muito esclarecedor e pode ser acessado no
link http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/26945
6 Adriana Gonçalves, em webinar da ProQuest
7 Veja postagem do blog Bibliotecários Sem Fronteiras, publicado
em 16/01/2015 sob o título “E-books e o desenvolvimento de
coleções

��7 - Passado, presente, futuro...
“Não existe o texto final, também porque não existe o
inicial.
Não é fixo. É nômade.”
Pedro Demo

A discussão proposta nestas poucas linhas não teve
a menor pretensão de ser absoluta ou definitiva. Como dito
logo de início, buscou-se apenas levantar uma reflexão
sobre a necessidade de atualizar termos técnicos voltados
às atividades de formar e desenvolver coleções, propondo
novos termos capazes de contemplar, de forma mais
contextualizada, uma das áreas mais importantes do fazer
bibliotecário: a gestão dos estoques de informação de uma
biblioteca.
Buscamos expor argumentos baseados na própria
literatura da área, nacional e estrangeira, a fim de colocar,
na pauta do dia das discussões profissionais sobre a gestão
do material informativo das unidades de informação, novas
possibilidades terminológicas com o fim explícito de
impulsionar o bibliotecário a uma nova postura profissional
diante do material informacional disponível nas bibliotecas.
Procurou-se conduzir o diálogo, a fim de apresentar uma
qualidade política que, segundo a concepção de Demo
(2011), deve dar ao texto a capacidade de não se mostrar
definitivo. Pelo contrário, precisa ser capaz de se manter
discutível, de se refazer, de continuar em constante
aprendizado.
Os questionamentos aqui levantados buscam despertar no
bibliotecário o interesse em sair do lugar comum, de se
inovar como profissional e, assim, reinventar sua área de
atuação, de se descobrir potencialmente criativo e atualizar
suas práticas de maneira democrática, respeitando e

�envolvendo todos os atores que podem e devem contribuir
para o sucesso das bibliotecas enquanto organismos em
movimento.
A gestão de estoques de informação (embora nem sempre
com esse título) tem sido matéria de pauta de toda e
qualquer biblioteca em todas as épocas da história da
humanidade. Selecionar, adquirir e preservar o estoque de
informação mais adequado a cada público sempre foi uma
das principais preocupações de todo bibliotecário atuante
em unidades de informação.
Passando de uma concepção de trabalho erudito e poético
a uma atividade técnica, propomos hoje que seja
considerada como um campo gerencial extremamente
importante ao desenvolvimento das bibliotecas e unidades
de informação.
Olhar o processo sob o ponto de vista da gestão,
entendendo as bibliotecas como um lócus de aprendizado e
geração de conhecimento e se relacionando com seu
público a partir da visão de interatividade: essas são as
propostas pensadas por mim nestas poucas páginas.
O potencial criativo e transformador das bibliotecas
depende, em grande parte, do pano de fundo que constitui
o estoque de informação por ela disponibilizado. Por isso, é
importante pensar e repensar sua gestão a partir de
pressupostos que valorizem o interagente, ampliando o
paradigma da biblioteca que simplesmente empresta livros
de forma descomprometida com seu contexto ou com a
qualidade do processo que antecede a chegada do livro à
estante e acompanha sua vida útil, tornando-a cada vez
mais útil por um período cada vez mais longo.
Novamente, reafirmo que os pontos aqui discutidos não
são definitivos: são propostas a serem discutidas e
testadas teórica e empiricamente, numa tentativa não
apenas de atualização terminológica, mas, especialmente,
de implantar um novo olhar para à gestão de estoques de
informação que resulte numa visão diferente da biblioteca

�e, quem sabe da própria Biblioteconomia. Uma nova
Biblioteconomia, como sugere Lankes.
O passo inicial está sendo dado e este livro representa um
convite para que, juntos, possamos abrir novos e
promissores caminhos às nossas bibliotecas e unidades de
informação.

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        <name>Dublin Core</name>
        <description>The Dublin Core metadata element set is common to all Omeka records, including items, files, and collections. For more information see, http://dublincore.org/documents/dces/.</description>
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                <text>Livros</text>
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    <name>Text</name>
    <description>A resource consisting primarily of words for reading. Examples include books, letters, dissertations, poems, newspapers, articles, archives of mailing lists. Note that facsimiles or images of texts are still of the genre Text.</description>
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      <name>Dublin Core</name>
      <description>The Dublin Core metadata element set is common to all Omeka records, including items, files, and collections. For more information see, http://dublincore.org/documents/dces/.</description>
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          <name>Title</name>
          <description>A name given to the resource</description>
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              <text>Gestão de estoques de informação: novos termos e novas posturas para um novo contexto</text>
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          <name>Subject</name>
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              <text>Gestão da informação&#13;
Serviços de informação&#13;
Gestão de estoque de informação&#13;
Bibliotecário gestor&#13;
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              <text>Não me surpreendi muito quando Elisa Cristina Delfini Correa me apresentou o livro Gestão de Estoques de Informação: Novos Termos e Novas Posturas para um Novo Contexto. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém colocaria em questão muitas das minhas certezas e confesso que fiquei feliz por ter sido mais cedo, de forma que eu pudesse presenciá-lo. Além disso, já havia acompanhado alguns de seus artigos anteriores na literatura e conhecia algumas de suas ideias. Assim, em vez de passar pelas cinco fases do trauma - negação, raiva, negociação, depressão e aceitação – preferi encarar o livro de Elisa como uma continuidade do meu trabalho. E confesso que, ao fim de sua leitura, não poderia pensar em melhor maneira de alguém fazer isso. Elisa escreve de uma forma leve, tranquila, utilizando um estilo coloquial que eu aprecio muito e que sempre busquei manter, embora nunca tenha conseguido utilizá-lo com o mesmo nível de precisão e elegância com que ela o faz. Esse aspecto me cativou imediatamente no livro e tenho certeza de que também cativará a muitos de seus futuros leitores. O estilo leve e conversacional do livro, por outro lado, em momento algum consegue empanar a profundidade de seu conteúdo. A autora se dispõe, com a obra, a colocar em xeque muito do que se pensava ou se pensa ainda na especialidade antes denominada “desenvolvimento de coleções” e, baseada em sua experiência na Universidade do Estado de Santa Catarina e nas proposições do professor Aldo Barreto, começa propondo uma nova denominação para ela: Gestão de Estoques de Informação. Segundo Elisa, a nova terminologia se justifica, porque “essa mudança terminológica deve também implicar uma mudança de visão, especialmente devido ao caráter dinâmico que a palavra “estoque” poderá assumir”. Nesse sentido, a autora é ousada e eu gosto muito disso. Não posso deixar de concordar com ela. Terminologias tais como “formação e desenvolvimento de coleções” - Não me surpreendi muito quando Elisa Cristina Delfini Correa me apresentou o livro Gestão de Estoques de Informação: Novos Termos e Novas Posturas para um Novo Contexto. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém colocaria em questão muitas das minhas certezas e confesso que fiquei feliz por ter sido mais cedo, de forma que eu pudesse presenciá-lo. Além disso, já havia acompanhado alguns de seus artigos anteriores na literatura e conhecia algumas de suas ideias. Assim, em vez de passar pelas cinco fases do trauma - negação, raiva, negociação, depressão e aceitação – preferi encarar o livro de Elisa como uma continuidade do meu trabalho. E confesso que, ao fim de sua leitura, não poderia pensar em melhor maneira de alguém fazer isso. Elisa escreve de uma forma leve, tranquila, utilizando um estilo coloquial que eu aprecio muito e que sempre busquei manter, embora nunca tenha conseguido utilizá-lo com o mesmo nível de precisão e elegância com que ela o faz. Esse aspecto me cativou imediatamente no livro e tenho certeza de que também cativará a muitos de seus futuros leitores. O estilo leve e conversacional do livro, por outro lado, em momento algum consegue empanar a profundidade de seu conteúdo. A autora se dispõe, com a obra, a colocar em xeque muito do que se pensava ou se pensa ainda na especialidade antes denominada “desenvolvimento de coleções” e, baseada em sua experiência na Universidade do Estado de Santa Catarina e nas proposições do professor Aldo Barreto, começa propondo uma nova denominação para ela: Gestão de Estoques de Informação. Segundo Elisa, a nova terminologia se justifica, porque “essa mudança terminológica deve também implicar uma mudança de visão, especialmente devido ao caráter dinâmico que a palavra “estoque” poderá assumir”. Nesse sentido, a autora é ousada e eu gosto muito disso. Não posso deixar de concordar com ela. Terminologias tais como “formação e desenvolvimento de coleções” - concretas na biblioteca”. E apela a colegas e pensadores respeitados da Biblioteconomia, como minhas queridas colegas, as duas Reginas (Obata e Belluzzo) que salientam o papel de interação e de intermediação da biblioteca e do bibliotecário. (Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro)</text>
            </elementText>
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        </element>
        <element elementId="39">
          <name>Creator</name>
          <description>An entity primarily responsible for making the resource</description>
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              <text>Corrêa, Elisa Cristina Delfini</text>
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        <element elementId="45">
          <name>Publisher</name>
          <description>An entity responsible for making the resource available</description>
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            <elementText elementTextId="20004">
              <text>FEBAB</text>
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          <name>Date</name>
          <description>A point or period of time associated with an event in the lifecycle of the resource</description>
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              <text>2016</text>
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              <text>© 2016 Elisa Cristina Delfini Corrêa</text>
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              <text>Recurso Eletrônico</text>
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