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                  <text>A biblioteca pública na sociedade multicultural
Meri Nadia Marques Gerlin (UFES) - merinadia@hotmail.com
Aline Nunes Fraga (UFES) - alinenunesfraga@yahoo.com.br
Dulcinea Sarmento Rosemberg (Ufes) - dsrosemberg@globo.com
Resumo:
Traz a baila o conceito de biblioteca pública multicultural destacando a importância do
trabalho do bibliotecário. Para tanto, apresenta os conceitos de cultura, diversidade cultural e
multiculturalismo, sendo esse último o fio condutor das discussões propostas. Conclui que a
biblioteca pública é um ambiente propício ao acolhimento da diversidade cultural e que, ao
assumir sua função social, os bibliotecários que nela trabalham devem dirigir suas ações aos
mais diferenciados contextos socioculturais das comunidades em que se inserem. Para isso, os
profissionais devem buscar a ampliação do seu poder de agir para melhorar seu meio de
trabalho, bem como a qualidade de vida da população do entorno das unidades públicas de
informação.
Palavras-chave: Biblioteca pública. Multiculturalismo. Trabalho bibliotecário.
Área temática: Bibliotecas Públicas

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�XXV Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documento e Ciência da Informação –
Florianópolis, SC, Brasil, 07 a 10 de julho de 2013

A biblioteca pública na sociedade multicultural
Resumo
Traz a baila o conceito de biblioteca pública multicultural destacando a importância
do trabalho do bibliotecário. Para tanto, apresenta os conceitos de cultura,
diversidade cultural e multiculturalismo, sendo esse último o fio condutor das
discussões propostas. Conclui que a biblioteca pública é um ambiente propício ao
acolhimento da diversidade cultural e que, ao assumir sua função social, os
bibliotecários que nela trabalham devem dirigir suas ações aos mais diferenciados
contextos socioculturais das comunidades em que se inserem. Para isso, os
profissionais devem buscar a ampliação do seu poder de agir para melhorar seu
meio de trabalho, bem como a qualidade de vida da população do entorno das
unidades públicas de informação.
Palavras-chave: Biblioteca pública. Multiculturalismo. Trabalho bibliotecário.
Área temática IV: Bibliotecas Públicas: Para submissão dos trabalhos sobre
Bibliotecas Públicas do III Fórum Brasileiro de Bibliotecas Públicas.

1

INTRODUÇÃO
Um dos grandes desafios do bibliotecário brasileiro, atualmente, é saber como

lidar com a diversidade cultural e social dos indivíduos que frequentam os espaços
informacionais, em especial, as bibliotecas públicas cujos serviços são dirigidos ao
atendimento de diferentes tipos de pessoas. Trata-se de usuários que apresentam
peculiaridades sociais, culturais, religiosas, intelectuais, entre outras características
que expressam distintos comportamentos de busca e uso da informação.
Conforme a IFLA/UNESCO (1994, p. 1), a biblioteca pública é um espaço que
proporciona “[...] acesso local ao conhecimento - fornece as condições básicas para
uma aprendizagem contínua, para uma tomada de decisão independente e para o
desenvolvimento cultural dos indivíduos e dos grupos sociais”. Ou seja, aborda-se
contexto que exige práticas profissionais compatíveis com a promoção do uso da
informação, da educação e da cultura. Para tanto,
Os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na
igualdade de acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo,
religião, nacionalidade, língua ou condição social. Serviços e
materiais específicos devem ser postos à disposição dos utilizadores

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que, por qualquer razão, não possam usar os serviços e os materiais
correntes, como por exemplo, minorias linguísticas, pessoas
deficientes, hospitalizadas ou reclusas. (IFLA/UNESCO, 1994, p. 2).

Considerando-se que as unidades públicas de informação sejam gerenciadas
na perspectiva enunciada, pressupõe-se que funcionem como verdadeiros centros
de aprendizagem-cultura-informação. Prestando, portanto, serviços e produtos
informacionais pautados pelos princípios das liberdades fundamentais e da
igualdade de acesso à informação e ao conhecimento para todos, em respeito à
identidade e aos valores culturais dos seus usuários e não usuários (IFLA, 2008, p.
1). Partindo desse pressuposto, o trabalhador em Biblioteconomia estará
correspondendo às expectativas e às necessidades dos usuários desse tipo de
biblioteca, ao atuar numa instituição voltada para atendimento das diversidades
culturais. Nesse sentido, o objetivo deste texto 1 é discutir o conceito de biblioteca
pública na sociedade multicultural, utilizando como aporte teórico o Manifesto IFLA
(2008) a respeito da Biblioteca Multicultural, entre outras fontes de informação. Além
do exposto, destaca a importância do trabalho do bibliotecário nesse contexto de
atuação.

2

DESENVOLVIMENTO
Inicialmente, traz-se a baila os conceitos de cultura, diversidade cultural,

multiculturalismo, uma vez que esses são estrategicamente importantes para
elucidar o próprio conceito de biblioteca pública multicultural.
Mas afinal o que é cultura? A cultura está agregada a um imenso conjunto de
variantes muito peculiares das mais diferentes manifestações humanas nos
segmentos sociais, artísticos, educacionais, políticos, econômicos, religiosos, entre
outros. São esses diversos segmentos que conferem ao termo cultura um conjugado
de representações e significados. Cultura refere-se ao modo de vida de um povo,
em toda sua extensão e complexidade. Santos (1998, p. 22) evidencia que cultura
pode ser associada ao

1

Pesquisa realizada no período primeiro período de 2012, na disciplina Trabalho de Conclusão de
Curso de Biblioteconomia oferecida pelo Departamento de Biblioteconomia da UFES.

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[...] estudo, educação, formação escolar. Por vezes se fala de cultura para
se referir unicamente às manifestações artísticas, como o teatro, a música,
a pintura, a escultura. Outras vezes, ao se falar na cultura da nossa época
ela é quase que identificada com os meios de comunicação de massa, tais
como o rádio, o cinema, a televisão. Ou então cultura diz respeito às festas
e cerimônias tradicionais, às lendas e crenças de um povo, ou a seu modo
de se vestir, à sua comida, a seu idioma.

De acordo com o autor, as várias maneiras de se entender o que é cultura
derivam de duas concepções básicas. A primeira delas remete aos aspectos de uma
realidade social e a segunda faz referência ao conhecimento, às ideias e crenças de
um povo. É o aspecto social da cultura que concede aos indivíduos a liberdade para
se expressar, superar suas desigualdades e assumir a sua pluralidade. Assim sendo,
apresenta-se de várias formas e com múltiplas características, tendo em vista que
uma diversidade de entendimentos de um determinado grupo social, “[...] diferem
segundo o sexo, a idade, a profissão, o conhecimento, a habilidade de trabalho,
nível e classe social. Isso levanta a questão sobre o que une esses repertórios
variáveis” (WOLF, 2001, p. 43).
A cultura faz parte de um complexo sistema social que reflete o emaranhado
de relações que se vivencia cotidianamente. Cada grupo social detém uma
determinada cultura, com diferentes características. Não há cultura sem diversidade.
Desse modo, o conceito de cultura corresponde à multiplicidade dos grupos
humanos e, por conseguinte, está inteiramente relacionado à diversidade cultural de
um povo. Além do exposto, a cultura ilustra e dá sentido aos comportamentos
sociais, é a identidade de um grupo humano num determinado tempo e território, ela
passa pelo dilema da grande diversidade cultural da espécie humana, da
diversidade de condutas existentes entre os diferentes povos, etc.
No que se refere ao conceito de diversidade cultural, segundo Oliveira e
Souza (2011, p. 128), esse implica nas
[...] diferenças culturais que existem entre as pessoas, como a linguagem,
danças, vestimenta e tradições, bem como a forma como as sociedades
organizam-se conforme a sua concepção de moral e de religião, a forma
como eles interagem com o ambiente, etc. O termo diversidade diz respeito
à variedade e convivência de ideias, características ou elementos
diferentes entre si, em determinado assunto, situação ou ambiente.

Em suma, a ideia de diversidade cultural está atrelada aos conceitos de
pluralidade, multiplicidade, diferentes pontos de vista ou de abordagem e variedade.
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Tal concepção pode ser encontrada, também, “[...] na comunhão de contrários, na
intersecção de diferenças, ou ainda, na tolerância mútua”. (OLIVEIRA; SOUZA,
2011, p. 128). Ao discutir a diversidade cultural é comum a sua correlação aos
termos raça, diferença e elementos das construções de identidade, como classes
sociais, religiões, gêneros, sexualidade, o que comumente direciona para a noção
de multiculturalismo.
Refletir acerca do “[...] multiculturalismo é, acima de tudo, pensar sobre
identidades plurais que perfazem as sociedades e em respostas que garantam a
representação e a valorização dessas identidades nos espaços sociais e
organizacionais” (CANEN; CANEN, 2005, p. 42). O multiculturalismo defende o
direito à diversidade cultural. Sua teoria surge num contexto social e político
moderno que visa a contribuir para a “[...] construção das bases teóricas que
permitirão o pleno reconhecimento, a proteção e a promoção dos direitos
fundamentais dos grupos minoritários”. (OLIVEIRA; SOUZA, 2011, p. 124).
Desse

modo,

se

constitui

como

um

movimento

que

propõe

um

questionamento social, cultural e democrático e, por conseguinte, que indica uma
temática fundamental no processo democrático de muitos países. É um movimento
que se desenvolveu junto com o processo de valorização dos direitos humanos, a
partir de 1948, por meio da declaração universal dos direitos humanos proclamada
em Assembleia Geral Organização das Nações Unidas (ONU). Ocasião em que se
introduziu “[...] o debate sobre o direito das minorias e dos grupos étnicos
marginalizados [...]. Esses direitos [foram] explicitados [...] a partir do direito à
diferença e com o direito ao reconhecimento da identidade étnica” (OLIVEIRA;
SOUZA, 2011, p. 123).
O movimento multicultural se relaciona com o reconhecimento da diversidade
cultural, étnica, econômica e religiosa que permeia o tecido social, permite o
encontro entre as diferentes culturas, possibilita o diálogo e a troca de experiências
entre os diferentes grupos de indivíduos favorecendo, tanto uma compreensão mais
profunda das diferenças culturais, quanto uma construção de valores, hábitos e
saberes entre os sujeitos do ambiente social. De acordo com os autores Canen e
Canen (2005, p. 42):
[...] as perspectivas multiculturais, grosso modo, podem ser delineadas
desde visões mais liberais ou folclóricas, que tratam da valorização da
pluralidade cultural a partir do conhecimento dos costumes e processos de

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significação cultural das identidades plurais, até visões mais críticas, cujo
foco é, justamente, o questionamento a racismos, sexismos e preconceitos
de forma geral, buscando perspectivas transformadoras nos espaços
culturais, sociais e organizacionais.

Por ser uma estratégia política de reconhecimento e representação da
diversidade cultural, o multiculturalismo, abrange um movimento propício de
integração social, de tentativa na pacificação de conflitos, de efetivação de
reivindicações das lutas dos grupos culturalmente oprimidos, de respeito às
diferenças, do reconhecimento das identidades, etc. Esse movimento tem como
meta o “[...] desenvolvimento cultural: compreensão das culturas, consciência da
discriminação, capacidade de interagir com diferentes culturas”. (OLIVEIRA;
SOUZA, 2011, p. 135). O multiculturalismo reconhece e valoriza as diferenças,
contesta preconceitos e discriminações, e é espaço para a construção de diálogos
entre as mais diversas culturas.
Na conjuntura das bibliotecas públicas, que atende aos mais variados grupos
de usuários, principalmente em uma sociedade extremamente rica e múltipla
culturalmente como a sociedade brasileira, a defesa do multiculturalismo auxilia os
bibliotecários a colocarem em análise o desenvolvimento de práticas dirigidas à
interação entre os diversos grupos de usuários dessas bibliotecas e a sociedade a
qual eles pertencem. Ao mesmo tempo provoca esses trabalhadores a pensarem
nas suas responsabilidades em prol do processo de formação da cidadania.

2.1 UMA INSTITUIÇÃO PÚBLICA E VOLTADA PARA O CIDADÃO
A IFLA e a UNESCO (1994, p. 1) proclamam que a biblioteca pública é uma
“[...] força viva para a educação, a cultura e a informação, e como agente essencial
para a promoção da paz e do bem-estar espiritual nas mentes dos homens e das
mulheres”. Logo, designá-la como pública pressupõe que seja “[...] uma biblioteca
aberta a todas as pessoas, sem nenhum tipo de discriminação” (SUAIDEN, 1995, p.
61-62). Esse tipo de biblioteca é uma instituição indispensável à formação
educacional e cultural da comunidade. Consequentemente, entre os fins e objetivos
dos seus serviços está a função primordial de contribuir para a melhoria da
qualidade de vida dos diferentes públicos a que se destina, nas dimensões social,
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educativa, cultural, informativa, econômica, industrial e científica.
Assim, para cumprir essa tarefa humanista, as bibliotecas públicas que
exploram as características multiculturais dos mais diversos grupos sociais buscam
dialogar com todas as culturas e concepções de mundo, tendo em vista que são “[...]
em muitas comunidades, a única instituição cultural, o que vem a dar destaque
[também] a sua ação como fator de estreitamento dos laços da comunidade na qual
está inserida”. (BIBLIOTECA PÚBLICA, 2000, p. 100). Nessa perspectiva, Suaiden
(1995, p. 67), observa que a “[...] interação e vinculação com a comunidade mostrará
que a biblioteca pública é uma instituição indispensável nos planos de
desenvolvimento social, cultural e educacional de um país”.
Uma vez que as bibliotecas públicas são um centro cultural da sociedade,
propiciam o encontro dos mais diversos grupos de pessoas, devendo, então, prestar
serviços de qualidade com a finalidade de promover a inserção deles em projetos
que sejam provenientes das aspirações comunitárias. Entretanto, para que isso
ocorra, esse tipo de biblioteca precisa “[...] ter uma identificação muito grande com
sua comunidade e contribuir para resolver os problemas que são próprios à mesma
comunidade” (SUAIDEN, 1995, p. 20). O trabalho do bibliotecário, então, na
conjuntura das bibliotecas públicas, em prol da defesa do multiculturalismo pode
levar à promoção da cidadania, garantindo aos indivíduos o acesso a um conjunto
de práticas inerentes a uma sociedade verdadeiramente democrática. Cidadania
essa que pode ser entendida a partir de Barros (2002, p. 134), para quem:

O processo de construção da cidadania passa pelo direito de igualdade,
espírito de solidariedade, e educação do cidadão. E neste processo a
biblioteca pública pode contribuir oferecendo a sociedade um espaço mais
dinâmico e comprometido com o bem estar social, viabilizando o acesso
democrático e oferecendo serviços que promova o desenvolvimento social
e estimule as pessoas a procurá-la.

Nessa dimensão, a biblioteca pública é tida como um veículo capaz de
contribuir para uma participação mais igualitária dos indivíduos na sociedade em que
vivem, tornando-se assim um “[...] polo irradiador numa determinada comunidade,
com vistas ao desenvolvimento e ao bem-estar social” (BARROS, 2003, p. 74).
Sendo assim, essas unidades de informação contribuem para a diminuição da
exclusão socioeconômica, das desigualdades, dos preconceitos, da falta de acesso
à cultura e ao lazer, dentre outros processos, que inviabilizam o pleno exercício da
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cidadania. Barros (2002, p. 133) assinala ainda que,

As bibliotecas públicas se configuram em legítimo espaço público, voltado
para atender as demandas sociais, oferecendo oportunidade igualitária e
democrática a todo cidadão que faz uso do seu espaço, não apenas para
buscar conhecimento ou cultura, mas também para fazer deste espaço,
palco para as reflexões diárias, para o debate participativo de todos os
problemas sociais e necessidades de cada cidadão (BARROS, 2002,
p.133).

As bibliotecas públicas são centros de disseminação informacional, tornando
acessíveis aos seus utilizadores o conhecimento e a informação de todos os
gêneros. É um “[...] espaço público que tem como função democratizar e estimular a
cultura na sociedade, um lugar onde os cidadãos socializam seus saberes e trocam
experiências” (BARROS, 2002, p. 129). Desse modo, são instituições que se
caracterizam pelo papel fundamental de promover o acesso às informações a todos
os estratos da população.
A IFLA e a UNESCO (1994, p. 1) proclamam a biblioteca pública, “[...]
enquanto força viva para a educação, a cultura e a informação, e como agente
essencial para a promoção da paz e do bem-estar espiritual nas mentes dos homens
e das mulheres”. Designar uma biblioteca como pública pressupõe que ela seja “[...]
uma biblioteca aberta a todas as pessoas, sem nenhum tipo de discriminação”
(SUAIDEN, 1995, p. 61-62), passível de atender à população em geral. Sendo,
então, uma instituição indispensável à formação educacional e cultural da
comunidade em que está inserida. É uma biblioteca acessível a todas as classes da
comunidade, sem restrições.
Assim, entre os fins e objetivos dos serviços por elas prestados está o de
contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos mais diversos grupos de
indivíduos, em todos os aspectos – educativo, econômico, industrial, científico e
cultural – que compõem a sociedade. Qualquer que seja seu objetivo, “[...] seja
economicamente rica ou pobre, rural ou urbana, a biblioteca pública [terá] em sua
finalidade e em sua concepção, [de estender] seus serviços a todos seus potenciais
usuários” (SUAIDEN, 1995, p. 20) da forma mais democrática possível.
Concebidas dessa maneira, essas instituições públicas de informação
promovem a oportunidade da democratização da vida cultural e social, por meio do
acesso da população aos bens culturais, pela formação dos conhecimentos
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colocados em uso pela atividade cultural, ou pela participação ativa de cada um, de
acordo com suas possibilidades no desenvolvimento social da comunidade na qual
está inserido.
Neste cenário, qual o lugar que a biblioteca pública tem ocupado na
sociedade multicultural? As atribuições das bibliotecas e sua participação ativa na
sociedade vêm se ampliando nos últimos anos: “De um organismo estático,
destinado à conservação documental, as bibliotecas passaram a desempenhar
papel de grande importância na vida social, contribuindo para a democratização do
ensino e da cultura dos povos” (SPONHOLZ, 1984, p. 1-2). Eis aqui uma visão
multicultural com base no respeito e tolerância recíproca de características culturais
e sociais diversas, segundo prega o multiculturalismo.
Esse tipo de biblioteca dá ênfase à pluralidade cultural, destacando a
necessidade de se construir políticas voltadas para a valorização da diversidade
sociocultural, preocupando-se com o: reconhecimento e valorização da diversidade
dos povos; a adequação dos conteúdos disponibilizados às peculiaridades locais; o
uso

de

práticas

bibliotecárias

contextualizadas;

a

gestão

democrática;

a

possibilidade de diferentes formas de organização das atividades bibliotecárias; a
promoção do desenvolvimento sustentável e do acesso à informação e aos bens
sociais e culturais, assim como de proporcionar meios para a aprendizagem de
diversos conteúdos. Atuando nessa perspectiva os bibliotecários levam as
bibliotecas a terem “[...] uma identificação muito grande com sua comunidade e
contribuir para resolver os problemas que são próprios à mesma comunidade”
(SUAIDEN, 1995, p. 20). Ou seja, essa é uma dimensão social do trabalho
bibliotecário nessas unidades, que permite uma significativa troca de experiências,
valores e saberes entre os povos, grupos e comunidades.

2.2 A BIBLIOTECA PÚBLICA NA SOCIEDADE MULTICULTURAL

As

práticas

bibliotecárias

numa

sociedade

multicultural

devem

ser

desenvolvidas numa perspectiva crítica tendo como foco a construção de uma
sociedade mais justa, igualitária e democrática e, consequentemente, as bibliotecas
públicas que seguirem esses conceitos serão “[...] uma das chaves para a igualdade
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de oportunidades [...]”. (SEYMOUR, 1979, apud USHERWOOD, 1999, p. 42). Logo,
essa instituição pública será um espaço apropriado à promoção e reflexão da
cultura, desempenhando, por exemplo, um papel de socialização importante acerca
da “[...] cultura pop e cultura da comunidade local” (USHERWOOD, 1999, p. 25)
dentre outras formas de expressões que possam abrir os horizontes de seus
usuários para a “[...] compreensão de outras culturas, de outras linguagens e modos
de pensar, [...], procurando construir uma sociedade pluralista e interdependente”
(GADOTTI, 1992, p. 23).
O pluralismo ao qual Gadotti (1992) se refere, significa que todos os
indivíduos devam manter um diálogo aberto com outras culturas, além da sua, para
que se possa construir uma sociedade mais tolerante com as diferenças. Uma
sociedade pluralista é uma sociedade onde deve existir o respeito à diversidade
cultural. Uma biblioteca multicultural é aquela que prioriza “[...] uma política e um
plano estratégico, que defina sua missão, objetivos, prioridades e serviços
relacionados com a diversidade cultural” (IFLA, 2008, p. 2, tradução nossa). Neste
cenário, uma biblioteca pública que ainda não abriu suas portas e foi ao encontro da
população, deverá fazê-lo urgentemente, pois é imprescindível acolher a todos os
membros da comunidade para que possam usufruir livremente e em igualdade de
condições dos seus serviços e produtos informacionais.
Hoje, apesar dos inúmeros desafios, torna-se possível afirmar que a
sociedade está implicada com a formação e consolidação de muitos movimentos
sociais, cujas ações têm proporcionado aos grupos sociais minoritários (negros,
indígenas, mulheres, gays, etc.) se organizarem e ampliarem suas lutas em defesa
dos seus direitos como cidadãos. Dentre as reivindicações desses grupos,
destacam-se as lutas pelo combate ao preconceito e as discriminações quanto aos
seus modos de vida, aos seus saberes e a suas práticas culturais. Esses grupos
lutam para que seus saberes e culturas sejam reconhecidos, para que se valorize a
convivência das diferenças socioculturais e que se evite a continuidade de práticas
de preconceitos e discriminações.
Nesta direção, os bibliotecários que atuam nessas instituições públicas são
responsáveis pela conservação e fomento da diversidade linguística e cultural
pertinente a uma sociedade multicultural. São profissionais que enxergam a cultura e
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as atividades culturais que por meio dela surgem, como um fator indispensável na
formação dos cidadãos dos diversos segmentos sociais; e atentam para o fato de
que, como observa Barros (2002, p. 115), “[...] toda cidade necessita, além de
educação, lazer e informação, conquistar dinâmicas formas de acesso à cultura,
através da arte, da música ou pelo caminho das novas tecnologias”.
São eles profissionais da informação implicados com práticas educativas
multiculturais voltadas para a democratização da Educação e da Cultura, pilares da
inclusão das minorias por meio de um processo que transforme as diferenças em
possibilidades de construção de novos saberes e valores voltados para o respeito, a
tolerância e a convivência democrática entre diferentes grupos sociais. A democracia
pressupõe que o público em geral tenha acesso às informações em uma larga
variedade de fontes. Sendo de fundamental importância destacar que todos os
cidadãos devem ter a oportunidade de ter acesso à informação. “O livre acesso à
informação só tem significado real se as pessoas também tiverem igual liberdade
para tomar decisões com base nessa informação” (USHERWOOD, 1999, p. 175).
O bibliotecário que atua numa biblioteca pública multicultural, assim como nos
outros tipos de bibliotecas, tem como um dos seus objetivos primordiais enfrentar o
desafio de construir projetos culturais que sejam capazes de reconhecer a riqueza
cultural brasileira, e tenham o compromisso de utilizá-la como um instrumento
fundamental no processo de formação de cidadãos críticos que respeitem e
convivam com as diferenças culturais, étnicas e políticas das outras pessoas, que
aceitem as culturas produzidas pelos diversos grupos sociais (indígenas, negros,
homossexuais, mulheres, dentre outros) que constituem a sociedade brasileira.
Perante a dimensão aqui discutida, os profissionais responsáveis pela gestão
de bibliotecas públicas multiculturais também devem se preocupar com a sua
formação continuada e de seus colaboradores. Para atender aos diferentes usuários
é indispensável uma formação especializada e preparação para lidar com as
diferenças culturais observando o princípio da igualdade de direitos, conforme
preconiza a Constituição Federal Brasileira. Se a sua missão é buscar a satisfação
de seus usuários reais e potenciais, como não se envolver com a definição de
políticas e programas dirigidos aos variados segmentos de públicos? A satisfação
com os serviços biblioteconômicos leva os usuários a se tornarem agentes
multiplicadores dos benefícios produzidos pelos espaços informacionais em seu
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cotidiano.

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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Diante dos conceitos trazidos, torna-se possível concluir que a biblioteca
pública é um ambiente propício ao acolhimento da diversidade cultural e que, ao
assumir sua função social, os bibliotecários que nela trabalham devem dirigir suas
ações aos mais diferenciados contextos socioculturais das comunidades em que se
inserem essas unidades de informação. Para isso, esses profissionais devem buscar
a ampliação do seu poder de agir para melhorar seu meio de trabalho, bem como a
qualidade de vida da população do entorno das unidades públicas de informação.
Conhecer e compreender os problemas socioculturais enfrentados no
cotidiano dos grupos sociais, colocando-se a serviço dos processos de
transformação social é no que reside o trabalho da biblioteca pública e, por
conseguinte, do bibliotecário que atua numa sociedade multicultural como a
brasileira. Assim, essa instituição deve desenvolver atividades críticas e reflexivas
capazes de legitimar discursos e vozes dos grupos sociais cujos padrões culturais
não são dominantes, como é o caso dos negros, indígenas, imigrantes, mulheres,
aposentados, homossexuais e outros grupos minoritários que integram a sociedade.
Trabalhar com a diversidade cultural é uma oportunidade excepcional de se
reconhecer e afirmar as diferenças como um caminho para a construção de uma
educação democrática, igualitária e acolhedora de nossa diversidade sociocultural.
O desenvolvimento de projetos que envolvam atividades de caráter
multicultural sob uma perspectiva de um amplo respeito ao ambiente social
multicultural, exige um olhar plural sobre a sociedade, capaz de reconhecer a
diversidade cultural que está presente no cotidiano social e consequentemente
também no espaço da biblioteca pública. Espera-se, que os profissionais que nela
atuam, conheçam os universos culturais e ampliem seu poder de agir no/com esses
contextos sociais e culturais, possibilitando, assim, a construção de atividades
bibliotecárias condizentes com as realidades informacionais e culturais em que
atuam.
Sob esse ponto de vista, novos desafios se impõem aos profissionais que
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atuam nas bibliotecas públicas, um deles diz respeito à desconstrução de uma
estrutura monocultural. Vencer esses e outros desafios, então, significará garantir a
produção de atividades culturais que valorizem e dialoguem com a diversidade de
valores, saberes, crenças e costumes dos diversos segmentos sociais. Para isso,
aos bibliotecários caberá colocar em análise permanente as suas atividades laborais
a partir de um processo dialógico coletivizado objetivando a ampliação de seu poder
de agir em prol da qualidade das situações de trabalho e da melhoria de vida da
população do entorno das unidades informacionais em que atuam.

REFERÊNCIAS
BARROS, M. H. T. C. de. Disseminação da informação: entre a teoria e a prática.
Marília: [S. n], 2003.
BARROS, P. A biblioteca pública e sua contribuição social para a educação do
cidadão. Ijuí: UNIJUÍ, 2002.
BIBLIOTECA PÚBLICA: princípios e diretrizes/ Fundação Biblioteca Nacional,
Coordenadoria do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas. – Rio de Janeiro:
Fundação Biblioteca Nacional, Departamento de Processos Técnicos, 2000.
CANEN, A.; CANEN, A. G. Rompendo fronteiras curriculares: o multiculturalismo na
educação e outros campos do saber. Currículo sem Fronteiras, v. 5, n. 2, p. 40-49,
jul./dez. 2005. Disponível em:
&lt;http://www.curriculosemfronteiras.org/vol5iss2articles/canen.pdf&gt;. Acessível em: 24
abr. 2012.
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    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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              <text>Traz a baila o conceito de biblioteca pública multicultural destacando a importância do trabalho do bibliotecário. Para tanto, apresenta os conceitos de cultura, diversidade cultural e multiculturalismo, sendo esse último o fio condutor das discussões propostas. Conclui que a biblioteca pública é um ambiente propício ao acolhimento da diversidade cultural e que, ao assumir sua função social, os bibliotecários que nela trabalham devem dirigir suas ações aos mais diferenciados contextos socioculturais das comunidades em que se inserem. Para isso, os profissionais devem buscar a ampliação do seu poder de agir para melhorar seu meio de trabalho, bem como a qualidade de vida da população do entorno das unidades públicas de informação.</text>
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