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                  <text>Políticas culturais, redes sociotécnicas e a mediação da informação
e do conhecimento

João Robson Fernandes Nogueira (PPGCI/ECA-USP) - jrobson_fn@yahoo.com.br
Marco Antônio de Almeida (PPGCI-ECA/USP) - marcko@uol.com.br
Resumo:
Apresentamos neste trabalho indicações preliminares de uma pesquisa ainda em andamento
que busca problematizar a reflexão e discussão acerca do uso das concepções de “mediação
cultural” e de “apropriação da informação” no âmbito da análise das políticas culturais no
Brasil contemporâneo. O Ministério da Cultura (MinC), criou em 2003 os chamados “Pontos de
Cultura”, incentivando o uso de softwares livres visando autonomia, protagonismo e
empoderamento local. Numa ótica habermaseana, o desafio em transformar redes
sociotécnicas num espaço público consiste em possibilitar aos indivíduos e grupos a condição
de acesso aos conhecimentos necessários e autonomia para a construção de suas
competências informacionais e comunicativas. Conclusões preliminares apontam para o fato
de que o grau de autonomia e as condições socioculturais dadas para a apropriação da
informação e dos usos das tecnologias variam contextualmente, indicando que os estudos das
políticas socioculturais de inclusão digital devem ter em conta as análises das condições
locais.
Palavras-chave: Espaço público. Mediação da informação. Políticas culturais. Redes Sociais.
Tecnologia.
Área temática: Temática I: Tecnologias de informação e comunicação – um passo a frente

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Políticas culturais, redes sociotécnicas e a mediação da informação e do
conhecimento

RESUMO:
Apresentamos neste trabalho indicações preliminares de uma pesquisa ainda em
andamento que busca problematizar a reflexão e discussão acerca do uso das
concepções de “mediação cultural” e de “apropriação da informação” no âmbito da
análise das políticas culturais no Brasil contemporâneo. O Ministério da Cultura
(MinC), criou em 2003 os chamados “Pontos de Cultura”, incentivando o uso de
softwares livres visando autonomia, protagonismo e empoderamento local. Numa
ótica habermaseana, o desafio em transformar redes sociotécnicas num espaço
público consiste em possibilitar aos indivíduos e grupos a condição de acesso aos
conhecimentos necessários e autonomia para a construção de suas competências
informacionais e comunicativas. Conclusões preliminares apontam para o fato de
que o grau de autonomia e as condições socioculturais dadas para a apropriação da
informação e dos usos das tecnologias variam contextualmente, indicando que os
estudos das políticas socioculturais de inclusão digital devem ter em conta as
análises das condições locais.
Palavras-chave: Espaço público. Mediação da informação. Políticas culturais.
Redes Sociais. Tecnologia.
Área Temática: Temática I: Tecnologias de informação e comunicação – um passo
a frente
1 INTRODUÇÃO

A Ciência da Informação (ou o conjunto de disciplinas que a compõem) por
muito tempo reservou uma posição privilegiada, quando não única e exclusiva, à
informação acadêmica e científica como objeto de seu estudo e atuação. Esse
quadro, entretanto, vem sendo gradualmente atenuado, principalmente graças às
discussões relacionadas aos processos de mediação cultural e apropriação da
informação, dando atenção maior à figura do “usuário” como sujeito dialogante e
ativo, e não unicamente como receptor passivo (ALMEIDA, 2008). Nesse sentido,
torna-se necessário a ampliação da própria noção de informação, incluindo
elementos que pertencem aos saberes populares, multiétnicos e cotidianos.
Ainda na década de 90 autores como Manuel Castells e Pierre Lévy
levantaram questões sobre a disseminação de um volume cada vez maior de
informações pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e às formas de
construção coletiva do conhecimento e de organização da sociedade em redes
(CASTELLS, 2003; LÉVY, 1999). Mais recentemente, Nestor Canclini (2005)

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chamou a atenção para o desmoronamento das fronteiras entre o erudito e o
popular, que por meio de processos comunicacionais e políticos massivos
reorganizam, sob novas convenções e regras, o hegemônico e o subalterno,
implicando na disseminação de novos centros produtores, condições de recepção e
consumo de bens culturais, assim como na alteração das próprias fronteiras estabelecidas entre os saberes.
Em um contexto marcado pela hibridização cultural e pela segmentação
espacial e social, devemos repensar as atividades de mediação da informação a
partir de um diálogo com as “comunidades interpretativas” que constituem o público
dessas iniciativas, buscando mapear os quadros sociais de significação que
norteiam seus juízos e apropriações em torno da produção cultural do grupo
(CRIPPA, ALMEIDA, 2011). Partimos do pressuposto que as mediações culturais
são as conexões que se estabelecem entre as ações sociais e os conteúdos
simbólicos de um dado grupo social (ALMEIDA, 2008). Nesse sentido, buscaremos a
seguir problematizar a reflexão e discussão acerca do uso das concepções de
mediação cultural e apropriação social da informação e do conhecimento no âmbito
da análise das políticas culturais no Brasil contemporâneo. A partir de uma reflexão
acerca da gama inédita de recursos simbólicos colocados a disposição do indivíduo
atualmente sob uma lógica reticular que sobrepõe novas formas comunicativas
constituídas de fluxos “de todos para todos”, dialogaremos com algumas teorias
sobre o Espaço Público e sobre o reconhecimento cultural, demarcando o contexto
teórico dos estudos de caso realizados nos chamados “Pontos de Cultura” (na
cidade de São Paulo e em Ribeirão Preto, interior do estado). Como metodologia,
além da necessária revisão bibliográfica da produção acadêmica das áreas de
Ciência da Informação, Comunicação e Ciências Sociais, realizamos duas
abordagens complementares de pesquisa: 1- a análise de documentos do MinC,
particularmente do material disponível no site oficial, bem como entrevistas com
gestores envolvidos nos processos de elaboração/implementação das políticas; 2estudos de caso de alguns Pontos e de redes sociais ligadas à temática cultural. O
foco de nossa análise é o da mediação cultural e da informação a partir da utilização
de TICs, procurando acompanhar a implementação e o desenvolvimento de projetos
nos diversos níveis: das macropolíticas elaboradas no MINC aos arranjos
institucionais locais que as viabilizaram (ou não) e a relação estabelecida com seus
beneficiários-usuários.

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2 CENTRALIDADE DA CULTURA E AMBIVALÊNCIAS TECNOLÓGICAS

Como já apontava Pierre Bourdier (1979), a economia política como
entendida pelos marxistas é “cultural” sem deixar de ser “materialista”, uma vez que
adquirir e manter posições em estratos econômicos privilegiados dependeria, em
parte, de fatores como educação e conexões sociais; assim como a cultura, como
entendida pelos estudiosos das artes e literatura, é estritamente “econômica” em sua
produção, distribuição e efeitos na reprodução das relações de classe. Mais
recentemente, Stuart Hall (1997) demonstrou que a cultura está cada vez mais
subjacente aos principais conflitos por legitimação política e modificações na esfera
do cotidiano – como na estrutura familiar e nos novos estilos de vida relacionados ao
empoderamento das mulheres. Segundo o autor, são alguns dos fatores envolvidos
neste processo a ascensão de novos domínios, instituições, e tecnologias
associadas às indústrias culturais; a ampliação da disseminação de conteúdos
simbólicos pela mídia; os novos padrões da migração global; o desenvolvimento do
setor de serviços; a crescente visão da cultura como instrumento de mudança social
e como contexto para a formação de identidades individuais e coletivas etc.
As novas TICs colocam ao nosso alcance uma infinidade de informações e
recursos simbólicos que estendem nosso potencial de “individuação” ao mesmo
tempo em que permitem o desenvolvimento de um vasto universo de novas e
complexas relações sociais – resultado de mudanças históricas anteriores ao
aparecimento da Internet, mas que não poderiam desenvolver-se sem ela
(CASTELLS, 2003). Segundo o autor, a crise das organizações políticas tradicionais,
como os partidos, possibilitou que

os movimentos sociais (organizações,

cooperativas e associações voluntárias em prol de causas de interesse comuns) se
estruturarem cada vez mais em rede, articulados em coalizões constituídas a partir
de valores e códigos culturais disseminados em um amplo âmbito com extrema
velocidade.
Uma vez que as estruturas de poder atuam de forma crescente ao nível dos
discursos mediados e, por outro lado, a ação/vivência das pessoas e grupos tende a
ser baseada, sobretudo, na experiência local, a Internet possibilita uma relação
“local-global” mais próxima; resultando ao mesmo tempo em novos meios de
controle social (vigilância aperfeiçoada) e novas formas de mobilização política a

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partir de redes híbridas (ALMEIDA, 2010). A Internet torna-se “a estrutura
organizativa e o instrumento de comunicação que permite a flexibilidade e a
temporalidade da mobilização, mantendo porém, ao mesmo tempo, um caráter de
coordenação e um capacidade de enfoque dessa mobilização” (CASTELLS, 2003, p.
277). Mas como Castells nos alerta, o elemento de divisão social mais importante
que o próprio acesso às tecnologias associadas à Internet é a capacidade educativa
e cultural para utilizá-la: considerando-se que o conhecimento está na rede, mas que
se encontra codificado, “trata-se antes de saber onde está a informação, como
buscá-la, transformá-la em conhecimento específico para fazer aquilo que se quer”
(CASTELLS, 2003, p. 266).
A forma de construir e apresentar a informação, prevendo os meios para
acessá-la, não é universal, está relacionada muito mais aos esquemas culturais de
quem a disponibiliza do que aos esquemas de quem as busca (ALMEIDA, 2010).
Analisando as grandes exclusões existentes na sociedade: a exclusão associada ao
letramento e a exclusão digital, Warschauer (2006) ressalta a importância da
capacidade pessoal do usuário ao fazer uso desses equipamentos para “processar”
as informações recebidas. É nesse sentido que torna-se evidente a importância dos
processos de mediação cultural e da informação em diálogo com as novas
possibilidades descortinadas pelas TICs (ALMEIDA, 2008).
Nas sociedades cada vez mais complexas a cultura torna-se por excelência o
terreno estratégico dos conflitos. A produção não mais se reduz em transformar
recursos naturais e humanos em mercadorias, se estendendo cada vez para os
processos relacionais e sistemas simbólicos, o que permite controlar sistemas
complexos de informações, de símbolos e de relações sociais (ALMEIDA, 2009).
Para Alberto Melucci (2001), o desenvolvimento do conhecimento e de capacidades
individuais torna-se um recurso fundamental para a maior ou menor autonomia dos
atores locais em suas ações coletivas, uma vez que possibilita a apropriação de
informações não manipuladas que os aparatos dominantes tendem a impor à vida
social a partir de recursos simbólicos formados por linguagens e símbolos
antagônicos. Nesse sentido, para garantir a própria integração a sociedade não
pode ficar restrita à regulação da apropriação e distribuição de recursos, devendo
estender sua política aos níveis simbólicos das ações – as esferas que constituem o
sentido e a motivação do agir.

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Repousam aí, talvez, as questões norteadoras para a elaboração de políticas
de mediação cultural que considerem ativamente o papel dos usuários. Não se está
abraçando aqui uma perspectiva que aceita per se manifestações estéticas de
cunho popular de forma acrítica1. A cultura pressupõe seu gerenciamento, abrindo
uma perspectiva distinta das características da alta cultura e da cultura cotidiana
presentes na reflexão da teoria social clássica sobre o tema. Pensada nessa
perspectiva, a cultura conteria e expressaria elementos importantes para os
agenciamentos da sociedade civil, visando seu desenvolvimento econômico, social e
político (CRIPPA, ALMEIDA, 2011). Parcela considerável das Organizações NãoGovernamentais (ONGs) e Organizações Sociais de Interesse Público (OSIPs)
constatam a importância da informação e da comunicação para a efetivação de suas
ações coletivas em paralelo à valorização do “conhecimento local”, o espaço de
produção do conhecimento por parte das comunidades: um conjunto de saberes e
tradições (culturais e “técnicas”), muitas vezes contraposto ao conhecimento oficial,
“científico” (ALMEIDA, 2008).
3 ESPAÇO PÚBLICO POLÍTICO E CAPITAL SOCIAL

A identidade cultural se desenvolve no próprio processo de luta pelo seu
reconhecimento, que tem lugar num Espaço Público de relações sociais e políticas –
que se oferece como domínio de “expressividade” e “integração” (ESTEVES, 2003).
Espaço Público e Publicidade são conceitos imbricados. Este se refere a um ato
eminentemente comunicativo – o “tornar público”/“dar a conhecer”. O outro nos
remete a um conjunto de espaços concretos e virtuais onde ocorre a Comunicação
Pública e Política. Segundo Habermas, a partir da assimilação privada de problemas
sociais que repercutem nas biografias particulares, uma série de diálogos e
discursos sustentados por atores críticos, baseados na influência recíproca, num
sem número de esferas públicas mais ou menos especializadas, se interpenetram e
se sobrepõem ao longo do tempo, dando forma à Opinião Pública. A pressão por ela
exercida representa potenciais de influência sobre o comportamento eleitoral ou
sobre parlamentos, tribunais e governos em benefício de certas políticas. Haveria
1

Nesse sentido vale relembrar o que pondera George Yúdice (2006): a cultura hoje é um recurso que gera e atrai
investimentos, e cuja distribuição e utilização – seja para o desenvolvimento econômico e turístico, seja para as
indústrias culturais dependentes da propriedade intelectual – revelam-se como fonte estratégica para a
estruturação social.

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dessa forma uma referência implícita ao “discurso racional” (ou competição por
melhores razões) nos Espaços Públicos, a fim de produzir uma atmosfera
consensual (HABERMAS, 2003).
Essa seria a função de uma Esfera Pública Política operante, espécie de
estrutura intermediária entre o Estado (núcleo do sistema político administrativo) e a
Sociedade civil (os sistemas de ação especializados em funções e os setores
privados do mundo da vida), uma vez que associações e organizações livres
possuiriam maior sensibilidade em captar os problemas quase não percebidos pelas
rotinas administrativas decisórias. Mas como o próprio autor pondera, a influência na
Esfera Pública baseia-se não apenas em negociações e argumentos que seguem
critérios de “validade”, mas na “credibilidade” dos atores sociais (medida em termos
de capital social e cultural); ao passo que os atores coletivos (que operam fora do
sistema político e de organizações e associações formais) teriam normalmente
menos chances de influenciar conteúdos e tomadas de posição. Em nível nacional,
Matos (2007) ressalta que para que os “temas” atinjam o grande público e a agenda
pública eles necessariamente têm de passar pela abordagem controversa da mídia2
(baseada em distorções e dramatizações), o que suscita questões referentes à
seletividade com base em critérios sociais, materiais e aptidões discursivas.
Fazem parte da sociedade civil a esfera privada da família, os movimentos
sociais e outras formas de associação baseadas na comunicação pública – com
capacidades, recursos, metas, valores e desenhos institucionais distintos; mas
atualmente há uma crescente dificuldade em se fixar fronteiras rígidas entre Estado,
Economia e Sociedade (terreno híbrido de partilha de poder e atuação), o que
constitui, de certa forma, maiores possibilidades para o estabelecimento de limites
mais tênues no traçado das linhas divisórias entre público e privado. Nessas
condições a participação no Espaço Público passa a depender intrinsecamente do
Capital Social: habilidades comunicativas e discursivas envolvidas na sustentação
de opiniões diante dos argumentos alheios e utilizadas para angariar apoio para a
resolução de problemas vivenciados – desenvolvidas no próprio processo de

2

Briggs e Burke (2004) entendem os media como um sistema (cafés, jornais, televisão, rádio e atualmente, as
TICs) que contribuiria para o aparecimento de discursos racionais e críticos no debate público. Segundo os
autores os meios de comunicação sempre apresentaram grande influência na elevação da consciência política
durante as situações de crise social – por meio de debates vivos, mas relativamente curtos, ou seja, “esferas
públicas temporárias” ou “conjunturais”.

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interação recíproca baseada em critérios de confiabilidade e reciprocidade
(PUTNAM, 1993).
Para Esteves (2003), conversações estabelecidas em ambientes associativos
podem aprimorar habilidades argumentativas e políticas (como autoapresentação,
negociação, desenvolvimento de coalizões etc.) uma vez que seus membros entram
em contato com “conteúdos mais amplos” sedimentados por experiência anteriores e
são constantemente “avaliados” por seus parceiros de interação. As organizações
cívicas se disporiam de maiores possibilidades para desenvolver habilidades de
modo a se posicionarem como agentes interlocutores capazes de articular seus
interesses nos fóruns de discussão. O autor defende que a Internet poderá vir a ser
um fator ainda mais importante em relação à amplificação e criação de novos
domínios de autonomia e liberdade para a afirmação mais favorável das opiniões e
vontades dos indivíduos e grupos que compõem a sociedade. O próprio Habermas
(2003, 2008), nos seus textos mais recentes, ressalta que a Internet pode ser capaz
de auxiliar os indivíduos que sofrem de injustiça a examinar mais criticamente seus
próprios valores e a interpretar a sua situação em relação a outros atores sociais,
bem como construir novos padrões de auto-apresentação e reconhecimento.
Para Matos (2009) o desenvolvimento do capital social está interligado ao
envolvimento em conversações, ao desenvolvimento da confiança mútua e ao uso
de informações midiáticas. A autora defende que na medida em que a formação de
uma Esfera Pública Política apresente maior apoio da sociedade civil, formada assim
por interlocutores com diferentes backgrounds, a autoridade do público que toma
posição no diálogo se fortalece no decorrer das controvérsias públicas; auxiliando-os
a exercer maior influência político-publicitária por meio da legitimação de discursos
antes excluídos. Constata-se no nível do Estado atual o estabelecimento de novos
mecanismos de participação social para a formulação de projetos de interesse
público, juntamente com um maior interesse em se desenvolver novos meios para a
criação de processos comunicativos entrelaçados aos cotidianos comunitários e
espaços de atuação social (BUCCI, 2009). A maior permeabilidade da opinião
pública a diferentes formas de expressão permite a abertura para problemas antes
não reconhecidos e a transposição de laços “quase-públicos” para o espaço privado
do lar ou das organizações – facilitando a projetação na vida pública (MAIA, 2007).
Em contextos cada vez mais complexos, as redes sociotécnicas que articulam
indivíduos e movimentos culturais a diferentes instituições, contextos, meios e

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dispositivos através de processos de mediação social e cultural tornam-se um
recurso

essencial

para

manutenção

do

dinamismo

cultural

de

grupos

desfavorecidos, operacionalizando a mobilização social em ambitos distintos – nível
local, nacional e transnacional (ALMEIDA, 2012). Grupos tradicionalmente invisíveis
podem atuar de forma mais autônoma e com maior potencial de ressonância,
aumentando seu poder de ação política estratégica a partir da afirmação de suas
especificidades culturais como modos de vida “legitimamente válidos”, e que devem
ser

incorporados

ao

nível

das

decisões

deliberativas

constitucionalmente

reconhecidas.

4 O RECONHECIMENTO CULTURAL SEGUNDO A FILOSOFIA DA JUSTIÇA
Nas sociedades “pós-modernas” ou “pós-coloniais” qualquer sujeito pode
“reivindicar” uma multiplicidade de identidades associadas a diferentes experiências
compartilhadas, resultando na criação de novos estilos de vida – e novas culturas.
Para Phillips (1995), o universo de variações possíveis deixa de conferir à diferença
o caráter de desconhecimento e separação, mas antes uma oportunidade para
escolhas mais bem informadas a partir de um maior número de possibilidades. O
contexto das práticas e normas culturais pelo qual as interações sociais se
desenvolvem funcionaria precisamente como a “base” para o estabelecimento de
novas opções para a atuação política.
A filósofa política Iris Young (1992) defende que a dicotomia sistema/mundo
da vida habermasiana separaria as normas culturais dos processos sociais que
reproduzem as instituições burocráticas e corporativas, reforçando uma oposição
que caracterizaria a sociedade civil como uma entidade que necessitaria de ajuda
constante. A autora defende que o diálogo político direcionado à resolução de
problemas coletivos requer a participação de diferentes pontos de vista, estilos de
discurso e formas de se expressar a particularidade da situação – todos aqueles
ligados ao âmbito mais afetivo e não apenas racional. De uma perspectiva oposta,
Fraser (1997) entende a posição de Young como afirmativa e não transformadora,
defendendo que uma política de reconhecimento constituiria um “fim em si mesmo”,
uma vez que se basearia na afirmação de uma característica “putativa” criada com o
único fim de legitimar a especificidade cultural de um grupo. Young (1997), no
entanto, afirma que Fraser exagera no grau em que uma política de reconhecimento

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se afasta de demandas econômicas e políticas – assim como fariam outros críticos
de esquerda do multiculturalismo. A autora concorda que correções redistributivas
para a injustiça econômica (típicas da provisão governamental de bens e serviços
para pessoas necessitadas) não alteram as condições que as produzem, podendo
até mesmo reforçá-las, mas questiona a preocupação de Fraser com o resultado
final da distribuição, que ignoraria as relações de poder que embasam os arranjos
decisórios – que condicionariam ações e relações sociais num contexto em cujo
interior são distribuídos os bens primários. O reconhecimento para Young atuaria
mais precisamente como um meio para a justiça econômica e a igualdade social,
uma vez que visa à afirmação das especificidades de instituições de solidariedade e
a desconstrução de estereótipos depreciativos que produzem e reforçam opressões
econômicas.
O teórico “paradigmático” da igualdade social, John Ralws (1963), pensando
em uma sociedade liberal de estado democrático, entende que a justiça se basearia
nos “direitos morais” de participação política de seus grupos constituintes. Ele
defende que as diferenças de “perspectiva histórica” distorcem os julgamentos
políticos ligados às escolhas justas dos princípios que governam a distribuição dos
bens primários.

Como

condição

para a

conquista

da

imparcialidade

na

representação apropriada dessas visões de mundo incompatíveis o autor propõe um
“ato de imaginação”: através do “véu da ignorância” qualquer cidadão seria capaz de
conceber os princípios que a toda sociedade poderia aceitar livremente, uma vez
que não teriam interesses fundados em posições sociais para defender.
Enquanto Ralws concebe o reconhecimento mais como uma acomodação às
exigências de estabilidade política, Young o considera como o acesso justo de
grupos oprimidos e desprivilegiados aos mesmos mecanismos de participação social
para a proposição de políticas públicas: uma equidade de participação política em
termos de justiça social, que reconheça os méritos e necessidades de indivíduos que
se constituem enquanto grupos.
5 APROPRIAÇÃO DA INFORMAÇÃO, TECNOLOGIA E POLÍTICAS PÚBLICAS
DE CULTURA

Numa ótica habermaseana o desafio em transformar redes sociotécnicas num
espaço público consiste em possibilitar aos indivíduos e grupos a condição de

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acesso aos conhecimentos necessários para a construção de competências
informacionais e comunicativas. No que diz respeito às políticas culturais/políticas de
comunicação e informação, pode servir para aferir em que medida elas contribuem
para constituir a autonomia dos sujeitos no “mundo da vida” ou, ao contrário,
enquadrá-los sob as formas de controle do “mundo dos sistemas”. No Brasil
contemporâneo, é possível fazer uma leitura nessa perspectiva das disputas que se
desenrolam no campo das políticas públicas culturais.
A tradicional concepção de política cultural como um programa de distribuição
e popularização da arte com a finalidade de corrigir desigualdades foi um modelo
bastante empregado no Brasil e na América Latina durante os governos autoritários.
A partir da constituição de 1988 institucionalizou-se uma significativa mudança nesse
sentido, conferindo aos grupos sociais o direito à alteridade cultural. Entretanto, o
afastamento do Estado no direcionamento de recursos culturais refletiu muitas vezes
interesses puramente mercadológicos3.
Em 2003, entretanto, o MinC, criou os chamados “Pontos de Cultura”,
incentivando o uso de softwares livres visando autonomia, protagonismo e
empoderamento local. Muitos deles desenvolvem projetos de arte, cultura e
economia solidária, com variáveis graus de apropriação das TICs por parte de
gestores e usuários. Podemos considera-la como uma política formativa orientada
para a utilização criteriosa das tecnologias a partir da própria capacidade de
iniciativa da sociedade civil ao nível das suas diferentes organizações e
associações. Esta nova configuração governamental trouxe para o centro das
discussões sobre políticas culturais uma alternativa alinhada às políticas públicas,
passando o Estado a colocar de forma mais pontual na agenda pública a
necessidade de preservar o desenvolvimento de grupos vinculados a diferentes
“patrimônios imateriais” ameaçados; tendo como estratégia um conjunto de
intervenções baseadas na mediação de conteúdos culturais, isto é, com a
participação ativa dos próprios atores na orientação e no desenvolvimento simbólico
de suas identidades e satisfação de suas necessidades culturais.
O Programa contempla diferentes grupos envolvidos em manifestações
culturais a partir de distintas linguagens artísticas e propostas metodológicas. Em
localidades com forte concentração de Pontos podem ser criados os Pontões de
3

As leis de incentivo com base em renúncias fiscais privilegiaram, sobretudo, as produções com maiores
probabilidade de retorno – como valor publicitário ou comercialização da atividade (YÚDICE, 2006).

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Cultura, instituições com maior estrutura física e aporte técnico-tecnológico,
destinadas a interligar atividades, divulgar eventos, difundir produções colaborativas
e auxiliar nos processos de prestação de contas; favorecendo a criação de redes de
relacionamento entre diferentes entidades e instituições.
Apesar de todas as limitações constatadas, perspectivas promissoras podem
ser levantadas em dois casos estudados. O primeiro deles, Coletivo Digital, ONG
situada no bairro Pinheiros em São Paulo, oferece uma série de oficinas, cursos,
palestras e encontros, onde as interfaces entre os conceitos de acesso livre e cultura
digital fazem parte do substrato teórico e metodológico que embasa suas ações.
Elas são direcionadas aos gestores dos Pontos de Cultura da cidade; telecentros;
artistas e comunidade local. A organização já encerrou seu projeto como Pontão de
Cultura, mas não sua atuação como tal, ampliando suas experiências a partir de
outras formas de financiamento. Uma das iniciativas acompanhadas a partir de uma
análise de redes sociais (ARS) é o projeto Intercâmbios Sonoros, destinado à
produção musical colaborativa com a participação de artistas de diversas localidades
do país – preferencialmente atrelados a Pontos. O Coletivo oferece a estrutura e o
acompanhamento técnico para as gravações em estúdio próprio e custeia o
deslocamento dos artistas/gestores culturais e a produção do CD que será
distribuído por meios diversos – como a doação a equipamentos culturais.
O segundo caso estudado é a Rede de Pontos de Cultura de Ribeirão Preto,
sob responsabilidade do Pontão de Cultura Sibipiruna, resultado do convênio
estabelecido entre a Secretaria Municipal de Cultura / Prefeitura Municipal de
Ribeirão Preto e MinC. Ela é formada atualmente pelos Pontos de Cultura
Cantecoral, Carnaval para todos, Casa das Artes, Dandhara, Filhos de Bimba,
Mosaico dos Bambas, Kabuki, Ribeirão em Cena Inclusão Sociocultural, e
Transformar; cada um dos quais localizado em diferentes regiões da cidade e
contando com uma programação cultural bastante diversificada a partir de
metodologias com forte substrato teórico, como oficinas, cursos permanentes,
espetáculos artísticos, sessões de cinema, ensaios abertos de música e canto,
mostras, encontros culturais etc. O 2º Festival de Pontos de Cultura, realizado em
novembro de 2012 nos Estúdios Kaiser de cinema, contou com a apresentação de
diferentes produtos e performances culturais (sobretudo com a participação de
jovens), resultado das atividades desenvolvidas durante a ano. O evento contou com
a participação de um público considerável que acompanhou apresentações teatrais,

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musicais, danças, manifestações culturais, música popular e erudita etc. O local
contava com exibições de produções audiovisuais projetadas em diferentes espaços,
e exposições das produções artísticas e artesanais confeccionadas nos Pontos. No
mês seguinte foi promovida no mesmo local a Conferência de Cultura Livre de
Ribeirão Preto voltada para a incorporação de possíveis emendas ao novo Plano
Municipal de Cultural, contando com a participação de gestores, professores,
pesquisadores, alunos e, inclusive, a própria secretária de cultura – juntamente com
outros políticos. Nas mesas de discussão acompanhadas podemos constatar o
estabelecimento de diálogos críticos e processos deliberativos a partir de diferentes
perspectivas. Nos limites de uma democracia representativa (e considerando os
poderes de prerrogativas do conselho) esse parece ser um dos mais eficazes
instrumentos à disposição para a participação efetiva de grupos culturais na
formulação de política públicas, o que possibilita a formação de um vínculo
processual do conselho municipal com a comunidade.
O Pontão Sibipiruna opera no Memorial da Classe Operária, onde promove
encontros políticos e oferece oficinas e cursos de fotografia, inclusão digital,
audiovisual, elaboração de projetos etc. Diferentemente do primeiro caso, a lógica
dos Pontos que compõem a rede sob sua responsabilidade situa-se em processos
culturais mais tradicionais, onde não deixa de haver, contudo, participações ativas
na organização e divulgação de informações a partir da utilização de TICs,
descortinando práticas efetivas de representação audiovisual das performances
culturais e sua divulgação a partir de práticas comunicativas criativas em sites, blogs
e redes sociais virtuais.
A expressão cultural e a resignificação dos espaços coletivos podem ser
considerados

fatores,

dentre

inúmeros

outros,

indispensáveis

para

o

desenvolvimento humano e social, uma vez que proporcionam uma formação mais
ampla através da combinação de práticas e conhecimentos sob perspectivas
distintas. As políticas públicas de cultura podem auxiliar o desenvolvimento dos
atores individuais e coletivos nos processos públicos, baseadas na liberdade de
expressão (ou de atuação) cultural e autonomia política. A produção cultural livre –
uma vez vinculada à identidade cultural do grupo no qual a produziu – é essencial
para a constituição de uma sociedade democrática, reproduzindo “conhecimento e
informação, buscas estéticas, defesa de direitos humanos e outras razões pelas
quais os seres humanos e as culturas interagem” (CANCLINI, 2005, p. 127).

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Essas são experiências que, embora com dimensões locais, ou mesmo
regionais, configuram-se como amplificadoras das alternativas de articulação dos
mais variados projetos, atores e políticas públicas de cultura, onde jovens
capacitados no uso de tecnologias passam a promover de forma mais autônoma o
registro de suas práticas culturais e o fomento a novas redes sociais e políticas a
partir delas. Ainda não se sabe o potencial de ampliação da importância da cultura
para o cenário nacional a médio e longo prazo, mas as questões aqui levantadas
nos estimulam a repensar as políticas culturais a partir de novas perspectivas que
abordem e incluam as TICs – desde sua formulação ao nível do Estado, até seu
impacto local, percorrendo assim toda a cadeia de mediações estabelecidas entre o
“macronível” e o “micronível” dos usuários-cidadãos (ALMEIDA, 2008).
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Constatações iniciais indicam que grau de autonomia e as condições
socioculturais dadas para a apropriação da informação e dos usos das tecnologias
variam contextualmente. Entre os problemas constatados, encontram-se dificuldades
de formação de públicos, acompanhamento, assistência técnica inadequada e
outras inerentes ao uso de ferramentas livres. Além desses aspectos, é bom lembrar
que os praticantes também encontram nos pontos possibilidades de oferta muito
heterogênea de atividades e de contato com novas formas de conhecimento e
informação. Os melhores resultados foram os que ancoraram o desenvolvimento
institucional das organizações que abrigam os Pontos de Cultura, indicando que os
estudos das políticas socioculturais de inclusão digital devem ter em conta as
análises das condições locais nas quais a informação adquire sentido e é
contextualizada, a partir de representações sociais e indicadores culturais.
O desenvolvimento tecnológico em curso descortina possibilidades inéditas e
promissoras para uma participação mais efetiva dos cidadãos na elaboração de
políticas públicas culturais e na influência das decisões dos Estados nacionais. Os
bens sociais, patrimônios culturais, e informações atualizadas e oportunas
possibilitam a formação de sujeitos críticos e criativos capazes de exercer iniciativas
mais autônomas sobre a produção e a circulação de informações (CANCLINI, 2005).
Uma vez que a comunicação fornece os subsídios necessários para a
construção da identidade, o acesso a diferentes fontes de informação torna-se

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determinante para a participação política. As novas TICs configuram a possibilidade
de criação de espaços menos hierárquicos de circulação de informações, podendo
fazer de cada usuário um co-autor ou um mediador da informação cultural.
Verificamos nesse sentido uma maior necessidade do envolvimento de Políticas
públicas culturais na disponibilização de recursos técnicos e treinamento em
questões relacionadas à representação de manifestações culturais por meios
audiovisuais e sua vinculação aos fluxos de informação digital; o que possibilitaria a
criação de diversificados processos de mediação cultural – “virtualmente” possível
de gerar efeitos “multiplicadores” positivos em relação à comunidade.

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              <text>Apresentamos neste trabalho indicações preliminares de uma pesquisa ainda em andamento que busca problematizar a reflexão e discussão acerca do uso das concepções de “mediação cultural” e de “apropriação da informação” no âmbito da análise das políticas culturais no Brasil contemporâneo. O Ministério da Cultura (MinC), criou em 2003 os chamados “Pontos de Cultura”, incentivando o uso de softwares livres visando autonomia, protagonismo e empoderamento local. Numa ótica habermaseana, o desafio em transformar redes sociotécnicas num espaço público consiste em possibilitar aos indivíduos e grupos a condição de acesso aos conhecimentos necessários e autonomia para a construção de suas competências informacionais e comunicativas. Conclusões preliminares apontam para o fato de que o grau de autonomia e as condições socioculturais dadas para a apropriação da informação e dos usos das tecnologias variam contextualmente, indicando que os estudos das políticas socioculturais de inclusão digital devem ter em conta as análises das condições locais.</text>
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