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                  <text>Interdisciplinaridade e complexidade na Ciência da Informação:
análise de possíveis contextos de formação e exercício profissional

Marivalde Moacir Francelin (USP) - mfrancelin@yahoo.com.br
Resumo:
Analisa a relação entre interdisciplinaridade e complexidade na Ciência da Informação como
contextos de formação e exercício profissional. Utiliza o método exploratório, com base em
revisão bibliográfica. A visão limitada ao campo interdisciplinar é o problema de partida.
Levanta a hipótese de que a interdisciplinaridade não pode ser considerada um paradigma na
perspectiva da complexidade, mas um de seus elementos constitutivos. Relaciona o debate
epistemológico sobre o conhecimento científico e o conhecimento do senso comum à questão
disciplinar. Conclui que o “paradigma da complexidade” agrega ciência, sociedade e ambiente
em uma ordem natural e real que precisa ser discutida no universo teórico e prático da
informação.
Palavras-chave: Interdisciplinaridade. Complexidade. Ciência da informação. Profissional da
informação.
Área temática: Temática II: Transcompetências: diferenciais dos usuários e do profissional da
informação

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Florianópolis, SC, Brasil, 07 a 10 de julho de 2013

Interdisciplinaridade e complexidade na Ciência da Informação: análise de
possíveis contextos de formação e exercício profissional
Resumo: Analisa a relação entre interdisciplinaridade e complexidade na Ciência da
Informação como contextos de formação e exercício profissional. Utiliza o método
exploratório, com base em revisão bibliográfica. A visão limitada ao campo
interdisciplinar é o problema de partida. Levanta a hipótese de que a
interdisciplinaridade não pode ser considerada um paradigma na perspectiva da
complexidade, mas um de seus elementos constitutivos. Relaciona o debate
epistemológico sobre o conhecimento científico e o conhecimento do senso comum
à questão disciplinar. Conclui que o “paradigma da complexidade” agrega ciência,
sociedade e ambiente em uma ordem natural e real que precisa ser discutida no
universo teórico e prático da informação.
Palavras-chave: Interdisciplinaridade. Complexidade. Ciência da informação.
Profissional da informação.
Área Temática: Tema II: Transcompetências: diferenciais dos usuários e do
profissional da informação.
1 INTRODUÇÃO
A proposta deste trabalho é analisar a interdisciplinaridade e sua relação com
a complexidade. Colocamos em pauta a discussão da noção de interdisciplinaridade,
ao mesmo tempo, como obstáculo e como eixo de desenvolvimento científico. Desta
forma, procuramos indicar possíveis desvios na adoção de um paradigma
interdisciplinar como norma para a formação e para exercício profissional em Ciência
da Informação. Tentamos colocar em debate quais paradigmas devem ser revisados
a partir de uma crítica contundente, sem preconceitos, buscando esclarecimento e,
principalmente, destacando divergências.
Defendemos que a complexidade não é um método, mas uma forma de lidar
com as relações humanas em contextos reais. Tratando da importância da base
conceitual para a formação profissional, Smit e Barreto (2004, p.12, 17) dizem que a
realidade é “[...] um espaço aberto, livre, raro e surpreendente, onde a esperança se
inscreve nas zonas mais profundas de cada ser humano.”, onde se possa
“atravessar” para outras realidades, num constante movimento de “renovação”. Smit
e Barreto não estão falando da complexidade, mas partiremos desta definição para
sugerir que a complexidade não pode implicar unicamente num paradigma. A

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metáfora do "paradigma da complexidade" congrega paradigmas que compõem o
universo complexo, pois, emanam dos conhecimentos científicos e do senso comum.
Respectivamente, ciência e senso comum estão ligados às noções de paradigma e
ética, mas procuramos deslocar essa tendência para o conhecimento do senso
comum, levantando a hipótese de além de uma ética, ele também é definido por
paradigmas e relações disciplinares num contexto particular, porém, não isolado.
Entendemos, portanto, que é possível explorar novos contextos de formação
de conhecimento. Nesse sentido, acreditamos que a emergência dos saberes
chamados "periféricos" já estava presente nas preocupações com os contextos da
informação, porém, a visão de recepção "passiva" evoluiu, através de um processo
de crítica epistemológica dos fundamentos do próprio conhecimento, para a
produção participativa em complexos sistemas contextuais definidos nas relações
"sócio-ambientais".
2 CONTEXTOS DAS RELAÇÕES DISCIPLINARES E PROFISSÃO
Uma nova constituição dos saberes está sendo requisitada no século XXI. Ela
exige que o conceito clássico de ciência seja modificado e contemple elementos
humanos e sociais, e não apenas naturais, enquanto legitimadores de uma ciência
válida. Mesmo assim, em ambos os casos, o conceito de ciência ainda é secular,
pois, buscamos as relações disciplinares, mas, ao mesmo tempo, queremos ter um
“núcleo duro”, geralmente atribuído à área (hard sciences) das ciências naturais,
mas não somos uma área que pesquisa objetos naturais e nem podemos
estabelecer a cristalização de um conjunto de disciplinas e muito menos de seus
conteúdos. Através da não cristalização, a interdisciplinaridade1 se efetiva, ou seja,
as relações disciplinares para acontecerem de fato e consolidarem-se na prática
devem acontecer, justamente, nas disciplinas consideradas “núcleo” e não apenas
nas periferias disciplinares.
Talvez seja necessário entender que o conceito de “núcleo duro” não se
aplica às ciências humanas da maneira como é entendido nas ciências naturais,
Além de não ser nosso objetivo, consideramos a existência de vasta literatura sobre a
interdisciplinaridade justificativa pertinente para não elencar definições, históricos e doutrinas. Dentre
essa literatura destacamos os livros de Japiassu (1976) e Fazenda (2008a; 2008b). Para discussões
do conceito, suas relações e funções teórico-metodológicas da interdisciplinaridade na Ciência da
Informação, podem ser indicados, entre outros, os trabalhos de Pinheiro e Loureiro (1995), Saracevic
(1995), Pinheiro (1999), Gomes (2001), Pombo (2005), Smit e Tálamo (2007) e Souza (2011).

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pois, uma disciplina, interdisciplinar por natureza, possui, por exigência de seu objeto
de pesquisa e pela modernidade que acompanha seus princípios teóricos e
científicos, identidades constitutivas flexíveis. A mobilidade que envolve a Ciência da
Informação é intrínseca aos seus próprios fundamentos epistemológicos. Isto quer
dizer que há uma evolução no próprio conceito de ciência na área, demonstrando
que podemos nos relacionar com outras disciplinas das ciências naturais, além das
ciências humanas e sociais, mas que não podemos tomar de empréstimo suas
identidades.
A identidade disciplinar da Ciência da Informação é interdisciplinar, portanto,
ela é constituída por um conjunto de identidades que precisam ser extremamente
dinâmicas para dar conta de seu objeto de pesquisa, garantindo, assim, sua própria
sobrevivência. A Ciência da Informação é, dessa maneira, fundamentada em uma
complexa malha de relações não casuais que, em seu conjunto, formam uma sólida
base de competências profissionais e científicas. Paradoxalmente, temos a
consciência de que, para a manutenção desta “solidez”, é necessária muita
flexibilidade e, cada vez mais, manter distância do engessamento resultante do ideal
clássico de “uma única” unidade científica – é necessário compreender a Ciência da
Informação como uma ciência contemporânea, que se baseia em pressupostos de
uma ciência (nova) dinâmica, plural, complexa e pluridimensional. Caso contrário, os
fundamentos inter e transdisciplinares, estabelecidos em uma linha paradigmática
"nova", perderiam o sentido. Nesse caso, é possível dizer que não se espera,
efetivamente, chegar a uma “hard science”, pois, é a sua procura que está dando à
Ciência da Informação uma forma de estruturar-se, enquanto ciência, original,
particular e global ao mesmo tempo.
É interessante notar que os movimentos chamados transversais e/ou plurais
acontecem nas disciplinas consideradas núcleos e não em suas “periferias” apenas,
mantendo, quase sempre, relações e influências mútuas. Vale lembrar que a
segurança paradigmática de um núcleo fixo é importante como critério clássico de
uma ciência rigorosa, com objeto e metodologias próprios e definidos, porém, como
a própria história demonstra, em vários níveis, todo sistema hierárquico, unitário e
autoritário sufoca a liberdade e a criatividade, fazendo com que os grupos científicos
e profissionais ou até mesmo indivíduos isolados, desliguem-se da base, construam
seus próprios universos científicos e profissionais. Muitas linhas de pesquisa,
disciplinas e até áreas científicas foram criadas e desenvolvidas dessa maneira – um
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movimento que se considera natural e necessário quando nos referimos ao
conhecimento nos séculos XX e XXI. Isso, talvez, seja o resultado do que LópezHuertas (2007, p.3), no campo da organização do conhecimento, chama de “nova
unidade” disciplinar construída através de uma interdisciplinaridade voltada para a
inter-relação “orgânica dos conceitos de diversas disciplinas”.
Por outro lado, podemos dizer que, enquanto não há um paradigma fixo
estamos em permanente risco dentro dos conjuntos paradigmáticos que constituem
a Ciência da Informação, mas, a liberdade, mesmo que dada e controlada no âmbito
da pesquisa científica, é o principal elemento de responsabilidade e de
conscientização teórica, metodológica e epistemológica, opondo-se ao comodismo
da “antiga e dura” unidade paradigmática.
Nesse sentido, existem algumas diferenças entre interdisciplinaridade e
transdisciplinaridade, sendo que, a primeira, segundo Japiassu (2006, p.41), “[...]
desloca o centro em direção às fronteiras. Mas só o transdisciplinar instaura uma
visão globalizante: neutraliza a oposição centro-fronteira.” O autor ainda diz que para
atingir essa “visão globalizante”, mesmo que ela também seja discutível, é
necessário encontrar paradigmas comuns entre as disciplinas através de um recorte
transversal que indicaria uma “hiperdisciplina”. Essa hiperdisciplina pode ser
entendida como um conjunto de traços constitutivos que atravessam outras
disciplinas distintas. Exemplos de tais traços, que Japiassu chama de paradigmas,
são: “[...] a simetria, o signo, a linguagem, a crise, o paradoxo, o modelo, o algoritmo,
o sistema e a complexidade.” E os exemplos de hiperdisciplinas ficam, segundo o
autor, por conta da semiótica, da linguagem, dos modelos matemáticos e da teoria
geral de sistemas.
Não seria exagero então dizer que existem traços “hiperdisciplinares” na
Ciência da Informação, especialmente quando tomado como ponto de partida o
objeto informação. Esses traços são verificados em uma ampla e variada literatura2,
pois, trabalhamos com paradigmas complexos, temos relações estreitas com
diversas disciplinas e precisamos colocar todo esse conhecimento teórico possível
como critério epistemológico para avaliação do exercício profissional (GARCÍA
MARCO, 2004). Por isso, Morin (2002a, p.106) chama a atenção para uma
“mentalidade hiperdisciplinar” que pode transforma-se em “[...] uma mentalidade de
Por exemplo, em trabalhos como os de Butler (1971), Gomes (1980), McGarry (1999), Aquino
(2002), Robredo (2003), Toutain (2007), Capurro e Hjorland (2007) e Logan (2012).
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proprietário que proíbe qualquer incursão estranha em sua parcela de saber.”,
isolando e negligenciando a relação com outras disciplinas.
3 MODIFICAÇÕES NO CAMPO INTERDISCIPLINAR
Vivemos um período coroado pelas radicais modificações em torno, primeiro,
da concepção de ciência e, por extensão, do próprio conhecimento e, segundo, da
legitimação dos processos e procedimentos metodológicos e epistemológicos que
estão na base deste conhecimento e desta ciência . As formas tradicionais de
legitimação do conhecimento científico passaram, ao longo das últimas décadas, por
meio de um processo de des-construção que ainda não terminou.
Ao mesmo tempo em que muitas disciplinas estavam se re-estruturando,
outras surgiram, às vezes, dos próprios fragmentos de disciplinas tradicionais, às
vezes, pela junção de fragmentos distintos. Na re-constituição de alguns campos do
conhecimento, elementos, antes ignorados, foram reagrupados, trazendo consigo
novas dimensões metodológicas e epistemológicas.
Este é um processo inacabado, que passou por muitas especulações a partir
da emergência do conceito de interdisciplinaridade. Por outro lado, podemos notar
avanços no amadurecimento crítico sobre a interdisciplinaridade que permitem uma
distinção entre o ideal interdisciplinar e o interdisciplinar de fato.
Pensando, já, no interdisciplinar de fato, distinguimos, pelo menos, quatro
variantes

básicas

e

necessárias

para

qualquer

abordagem

crítica

da

interdisciplinaridade atualmente. São elas: a complexidade, o senso comum, a ética
e a paradigmática.
Em tais esferas a interdisciplinaridade ganha nova configuração teórica,
metodológica e, por extensão, epistemológica, garantindo uma resposta coerente e
consciente dos distintos campos de pesquisa da Ciência da Informação e reforçando
uma atitude pragmática de alto nível, tão cobrada às profissões e aos profissionais
da informação (MUELLER, 2004), nos últimos anos, pelos agentes da epistemologia
da área.

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4 A COMPLEXIDADE
Não se pode caracterizar a sociedade atual como inteiramente fragmentária,
nem mesmo como um ambiente “sem sentido”, o que existem são centros e
periferias e o sentido pode estar relacionado ao capital e ao poder por um lado e, por
outro, à sobrevivência. Formam, assim, dois grandes e díspares conjuntos de
sentido que não podem mais ser considerados como fragmentos de uma mesma
estrutura, mas sim como elementos que possuem (desenvolveram) características
próprias, relacionando-se sim, mas por uma intrincada rede de complexidade que
não é determinada pela subordinação.
As chamadas periferias do conhecimento não são "vazios de conhecimento"3.
Elas estão se estruturando por elas mesmas, criando unidades marginais em redes,
onde desenvolvem seu conhecimento e sua cultura cada vez mais distantes da
cultura e do conhecimento praticados pelos grandes centros. Isto dá uma nova
configuração para a sociedade. Demonstra que os grupos subalternos estão se
organizando e criando uma consciência coletiva bem mais presente na sociedade
em geral.
Além disso, e das já citadas necessidades de relações inter-multi e
transdisciplinares4, é necessário, segundo Morin (2002a, p.115), “[...] ‘ecologizar’ as
disciplinas, isto é, levar em conta tudo que lhes é contextual, inclusive as condições
culturais e sociais, ou seja, ver em que meio elas nascem, levantam problemas,
ficam esclerosadas e transformam-se.” Para o autor é necessário ultrapassar as
disciplinas e, ao mesmo tempo, conservá-las através do que denomina de “metadisciplinar”. Morin continua dizendo que “Não se pode demolir o que as disciplinas
criaram; não se pode romper todo o fechamento: há o problema da disciplina, o
problema da ciência, bem como o problema da vida; é preciso que uma disciplina
seja, ao mesmo tempo aberta e fechada.” Essa é uma consciência extremamente

Expressão usada por Menou e Mchombu (2004, p.129) como referência às "comunidades
desfavorecidas". Nós a adotaremos numa perspectiva mais ampla.
4
Não discutiremos a transdiciplinaridade, mas consideramos importante destacar a sua importância
como “[...] postura de reconhecimento onde não há espaço e tempo culturais privilegiados que
permitam julgar e hierarquizar – como mais corretos ou mais verdadeiros – complexos de explicação
e convivência com a realidade que nos cerca.” (D’AMBRÓSIO, 2009, p.9 e 15). Os fundamentos
teóricos da transdisciplinaridade, segundo D’Ambrósio, são construídos sobre a análise dos
processos de “geração, organização intelectual, organização social e difusão do conhecimento.”
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necessária à concepção de complexidade, pois, deixa claro que não se propõe uma
abertura absoluta.
Analisando a complexidade enquanto pensamento complexo, temos uma
situação muito próxima da chamada transdisciplinaridade. Se a pesquisa
transdisciplinar vai além das relações disciplinares, contextualizando-se em níveis de
“esquemas cognitivos” (JAPIASSU, 2006, p.39), sua relação com a complexidade
torna-se mais adequada e fecunda. Por outro lado, a ideia de integração, presente
nos fundamentos da complexidade, não permite que apenas o pensamento
transdisciplinar seja a base para a construção teórica e metodológica do
conhecimento atual. É o próprio Morin (2002a) que, ao referir-se às relações
disciplinares, usa a construção inter-poli-transdisciplinaridade, além de inter-multitrans-disciplinaridade, indicando que, apesar das dificuldades conceituais em torno
desses termos, é necessária a relação de seus princípios como fundamentos
comuns às ciências.
Essa ideia expõe, de fato, a dinâmica de um pensamento transversal sem os
perigos de transformação hiperdisciplinar, indicada por Japiassu (2006) e criticada
por Morin (2002a) em suas respectivas perspectivas e linhas de abordagem.
A transversalidade, nesse sentido, pode ser identificada na complexidade com
o que Morin, em outro momento, irá chamar de “nova transdisciplinaridade” em
oposição à noção de interdisciplinaridade que pouco “unifica” e mais fragmenta e
confunde, propondo “magras trocas”, confirmando e fortalecendo as fronteiras
disciplinares ao invés de destruí-las. Para o autor, “A ciência nunca teria sido ciência
se não tivesse sido transdisciplinar.” (MORIN, 2002b, p.135-136, grifo do autor).
Então, poderíamos dizer que uma nova maneira de se entender a
transdisciplinaridade também exige uma nova ciência. Para o momento uma “nova
ciência”, além dos fundamentos e paradigmas estabelecidos na “revolução” científica
do século XX, reconduz um elemento que há tempos havia sido eliminado dos
ambientes produtores de saberes e conhecimentos válidos, ou seja, o senso comum.
5 O SENSO COMUM
Uma iniciativa marcante na ciência contemporânea é a do restabelecimento
do senso comum como categoria de conhecimento possível, ou seja, o senso
comum figurando ao lado da ciência como conhecimento válido.
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Suficientemente discutidos na literatura de modo geral, mas, infelizmente,
ausentes na formação acadêmica e profissional, o conhecimento do senso comum e
o conhecimento cientifico (SANTOS, 2001; 2005) estão cada vez mais “próximos”.
Proximidade firmada não apenas conceitualmente, mas, principalmente, pela
renúncia da legitimidade do conhecimento científico como único conhecimento
verdadeiro,

com

objetos,

teorias

e

metodologias

próprios.

Mas

há

uma

reaproximação da ciência com o senso comum ou o que está acontecendo é apenas
a identificação do senso comum como uma forma de conhecimento, assim como o
filosófico e o religioso?
É importante distinguir estas questões, pois elas são fundamentais para
entender se, realmente, está acontecendo um movimento de mudanças substanciais
em torno do conhecimento científico e, por extensão, sobre a própria ideia de ciência
ou se as mudanças estão no modo de se referir ao senso comum apenas como mais
um modo de produção de conhecimento.
Se identificarmos o conhecimento do senso comum apenas como mais um
tipo de conhecimento, isto em nada acrescenta à discussão sobre a sua validade
enquanto elemento transformador da realidade, ou seja, a hipótese de que a
comunidade/sociedade (comum/periférica) possui autonomia para modificar-se e
desenvolver-se através de suas próprias necessidades e vontades, não se verifica
como verdadeira, pois, o conhecimento que a transforma e a “desenvolve” não é
produzido por ela.
Mesmo assim, teríamos outra situação que merece ser pensada: se o senso
comum for considerado como conhecimento científico e/ou válido, ele também
poderia ser tratado por vias inter-multi e transdisciplinares, estando calcado em
paradigmas. Mas como seria um conhecimento do senso comum interdisciplinar?
Ou, quais conceitos de paradigma poderiam ser aplicados a comunidades nãocientíficas?
É claro que o conhecimento do senso comum não pode ser considerado um
conhecimento de relações disciplinares como o conhecimento científico, pois, seu
campo de noções não é definido e limitado como o de áreas "articuladas" do
conhecimento. Também, o senso comum não poderia seguir paradigmas no sentido
kuhniano, pois, aos últimos faltam componentes éticos, quase ausentes na formação
dos campos disciplinares, porém, fundamentais aos contextos interdisciplinares e
complexos.
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6 A ÉTICA
Seria difícil dizer se, ao longo da história, houve momento tão necessário para
a presença constante da ética e, ao mesmo tempo, no qual ela fosse tão pouco
discutida. Vive-se uma reavaliação dos saberes por causa das novas configurações
da ciência e das tecnologias em um mundo que se comporta, às vezes como uma
rede multifacetada, às vezes como um conjunto de fragmentos dispersos e sem
sentido.
O dilema ético da interdisciplinaridade e da complexidade reside, justamente,
no fato de ser a interatividade produtiva ou não. Faz sentido discutir ética em um
contexto interdisciplinar? A resposta parece fácil: sim.
A ética não parece ser um conceito de aplicação uniforme e muito menos
"universalizante", pois suas características irão corresponder às necessidades
culturais, políticas, econômicas, sociais de determinada região ou povo. Por outro
lado, apenas com características marcadamente locais é possível uma relação em
âmbito global que possa ser produtiva, ou seja, não adianta fazer relações
disciplinares se não há identidade entre as disciplinas e entre estas e o "meio"
(MORIN, 2005). Mesmo assim, talvez as identidades disciplinares não sirvam para
outra coisa senão para ressaltar nossas próprias diferenças.
Ser ético diante da interdisciplinaridade e da complexidade é reconhecer-se
enquanto disciplina autônoma, assim como reconhecer a autonomia alheia. Em
outras palavras, a relação da ética, da interdisciplinaridade e da complexidade
reside, por paradoxal que isto possa parecer, nas manifestações das identidades.
A transdisciplinaridade exige um posicionamento ético não apenas diante de
pessoas, grupos ou mesmo disciplinas, mas diante do que se produz em termos de
conhecimento científico e de como se produz. Uma ética transdisciplinar é conduzida
pelos paradigmas construídos em áreas, como a Ciência da Informação, que
procuram, ao mesmo tempo, dar conta de uma necessidade teórica e metodológica,
representar fenômenos que envolvem seu objeto de estudo e criar uma consciência
(individual e coletiva) sobre suas responsabilidades diante dos conteúdos
disciplinares, des-construídos e construídos, que fazem parte de seus princípios
fundamentais enquanto ciência, ou seja, uma ética deste tipo implica uma

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epistemologia da ausência e um pensar e agir na complexidade, colocando em
debate a emergência e a convergência de novos paradigmas.
7 O PARADIGMA
Como norma, a noção de paradigma se estabeleceu em muitas áreas do
conhecimento, em especial na Ciência da Informação, a partir da necessidade,
criada pela própria comunidade científica, de reconhecer-se em um paradigma.
O paradigma interdisciplinar foi logo reconhecido como fundamental para a
ciência da Ciência da Informação. Não é por acaso que ela é “interdisciplinar por
natureza”. No entanto, indicar a interdisciplinaridade como um paradigma parece
estranho, pois, o interdisciplinar não agrega nada além de relações disciplinares. Ou
seja, sua função é identificar elos da Ciência da Informação, por exemplo, com áreas
afins. A caracterização destes “elos” não significa, necessariamente, que sejam
paradigmas para a Ciência da Informação. Esta noção de "estranhamento" acaba
afastando os profissionais das esferas de atuação por causa de concepções
tomadas de empréstimo irrefletidamente.
Pode ser que isso tenha ocorrido em função da necessidade de se encontrar
um modelo (noção, talvez incorreta, mas comum para paradigma) que lançasse a
Ciência da Informação na pós-modernidade. Em pouco tempo muitos estudos
surgiram, cabendo à década de 1990 situar boa parte deles. Porém, a identificação
da "natureza interdisciplinar" (SARACEVIC, 1995) e o papel dos "fluxos extrametodológicos e extra-científicos" colocam a Ciência da Informação num contexto
bem próximo ao pós-moderno (WERSIG, 1993; DAY, 1996), mas marcantemente
caracterizado pelo pensamento complexo.
Não queremos dizer que a interdisciplinaridade não é um paradigma, ela é um
dos paradigmas, mas não “o” paradigma, nem o mais importante. Paradigmas (no
plural) e não paradigma (no singular) é o que a Ciência da Informação possui. Por
isso ela é inter-multi-transdisciplinar. Incorporamos teorias e metodologias de outras
áreas através de amplos processos de des-construção, re-significação e prática que
dão identidade e validam conceitos em nossa área. É, a partir destes conceitos, que
representamos, numa determinada realidade, fenômenos relacionados à informação.

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8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estamos, cada vez mais, envolvidos com a prática interdisciplinar. Os
movimentos de relações disciplinares não cessam, pelo contrário, são cada vez mais
estimulados, cada vez mais produtivos e menos criativos. Produtividade e
criatividade se entrelaçam diante dos estímulos e padrões estabelecidos, para o
"bem" da ciência, pela comunidade científica.
Nos últimos anos acompanhamos a criação de cursos e grupos chamados
interdisciplinares. Os eventos, como congressos, simpósios e seminários, fazem
questão de indicar suas características interdisciplinares. Sem dúvida, essa não é
mais uma tendência, é uma realidade.
A complexidade que envolve os objetos de pesquisa da ciência acabam
aproximando disciplinas que, via de regra, poderiam ser consideradas distintas. E,
realmente, são distintas. Não são iguais. Por outro lado constituem uma rede de
relacionamentos histórica e epistemologicamente fundamentados. Uma disciplina
científica não surge do nada. Precisa ser estimulada. Precisa de pessoas dispostas
a desenvolvê-la. E, principalmente, precisa ser suficientemente desenvolvida para
cobrir a lacuna por ela mesma indicada.
Ao longo da história da ciência vemos uma série de movimentos de junção e
disjunção disciplinares. Por vezes temos a reflexão como a mais alta forma de
conhecimento e, por vezes, temos a prática como reveladora da verdade e, também,
existem momentos em que não temos nem uma e nem a outra, apenas uma leve
opinião do que “deveria” ocorrer.
Dentre as tantas questões relacionadas, podemos destacar a falta de
participação efetiva de profissionais e pesquisadores da Ciência da Informação nos
debates sobre Interdisciplinaridade, Multidisciplinaridade, Transdisciplinaridade e
suas variantes no campo da Complexidade.
Poderíamos, nesse caso, argumentar que as relações disciplinares ocorrem
nas próprias especialidades disciplinares, o que é plenamente legítimo e necessário,
mas estaríamos, de certa forma, nos furtando à participação, ao diálogo e ao debate
com outras disciplinas científicas.
Há uma cobrança na área sobre maior desenvolvimento de estudos teóricos,
metodológicos e, por extensão, epistemológicos, porém, essa é uma tarefa
complicada, pois, exige espaços de debate que não estejam sedimentados em
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disciplinas especializadas da Ciência da Informação. Isso implica na criação de
campos específicos para a discussão e a pesquisa das relações disciplinares, ou
seja, a transformação de tais relações em objetos de pesquisas, indo além da
revisão e atualização conceitual, tornando-se também uma realidade nos contextos
de formação e prática profissional.
9 BIBLIOGRAFIA
AQUINO, Miriam de Albuquerque (Org.). O campo da Ciência da Informação:
gênese, conexões e especificidades. João Pessoa: Ed. Universitária, 2002.
BUTLER, Pierce. Introdução à ciência da Biblioteconomia. Rio de Janeiro:
Lidador, 1971.
CAPURRO, Rafael; HJORLAND, Birger. O conceito de informação. Perspectivas
em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v.12, n.1, p.148-207, jan./abr. 2007.
D’AMBRÓSIO, Ubiratan. Transdisciplinaridade. 2. ed. São Paulo: Palas Athenas,
2009.
DAY, Ronald. LIS, method, and postmodern science. Journal of Education for
Library and Information Science, v.37, n.4, p.317-324, 1996.
FAZENDA, Ivani Catarina Arantes (Org.). O que é intedisciplinaridade? São Paulo:
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    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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              <text>Analisa a relação entre interdisciplinaridade e complexidade na Ciência da Informação como contextos de formação e exercício profissional. Utiliza o método exploratório, com base em revisão bibliográfica. A visão limitada ao campo interdisciplinar é o problema de partida. Levanta a hipótese de que a interdisciplinaridade não pode ser considerada um paradigma na perspectiva da complexidade, mas um de seus elementos constitutivos. Relaciona o debate epistemológico sobre o conhecimento científico e o conhecimento do senso comum à questão disciplinar. Conclui que o “paradigma da complexidade” agrega ciência, sociedade e ambiente em uma ordem natural e real que precisa ser discutida no universo teórico e prático da informação.</text>
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