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                  <text>Classificação infantojuvenil: as seções da Biblioteca Rubem Braga
Beatriz Cristiane de Araújo (PMSP) - bca_araujo@yahoo.com.br
Cíntia Mendes (PMSP) - artemisia.cintia@hotmail.com
Resumo:
A Biblioteca Rubem Braga, localizada na cidade de São Paulo, é uma das 46 bibliotecas de
CEU (Centro Educacional Unificado) da rede municipal de bibliotecas. Trata-se de uma
biblioteca pública, aberta a todos os setores da população, mas por estar alocada junto a
unidades escolares de educação infantil e ensino fundamental, atende majoritariamente ao
público em idade escolar. Essa biblioteca possui um acervo de cerca de 23 mil livros, incluindo
7 mil obras infantojuvenis, que estão distribuídas em 37 seções infantis e 13 seções juvenis. O
método de classificação e organização de obras infantojuvenis por seções trouxe muitos
benefícios para os usuários de faixa etária entre 4 e 18 anos, um dos públicos-alvo do projeto,
pois faz mais sentido para esse público do que as classificações biblioteconômicas tradicionais.
Esta aproximação promove maior autonomia e educação dos usuários, facilitando a localização
de livros de seu interesse e acarretando em aumento do uso do acervo. Além disso, as seções
permitem que livros com assuntos semelhantes estejam lado a lado nas estantes, promovendo
uma espécie de mediação silenciosa de livros pouco difundidos do acervo.
Palavras-chave: Classificação infantojuvenil; Organização de acervos; Biblioteca escolar;
Biblioteca pública; Mediação de leitura.
Eixo temático: Eixo 2: 3º Fórum Brasileiro de Biblioteconomia Escolar: pesquisa e prática.

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�1. Introdução
A quarta lei de Ranganathan alerta: poupe o tempo do leitor
(RANGANATHAN, c2009). Este princípio do bibliotecário indiano aponta para a
simplificação das linguagens documentárias em benefício dos leitores, visando
diminuir o tempo para encontrar a informação desejada. Por isso, quando se trata de
organização de livros para os públicos infantil e juvenil, faz-se necessária uma maior
atenção, de modo que as linguagens utilizadas no acervo sejam acessíveis e
compatíveis com o desenvolvimento e o interesse da criança ou do jovem.
A classificação infantojuvenil costuma ser uma preocupação especial nas
bibliotecas que atendem com frequência esses públicos, uma vez que o universo da
criança e do jovem é norteado tanto pelos estágios na habilidade de leitura, quanto
pelos assuntos de interesse. Assim, a classificação infantojuvenil geralmente difere
da linguagem usada nos acervos para adultos, devido a necessidade de ser
inteligível pelos leitores ainda não-alfabetizados ou ainda não familiarizados com a
ordenação dos livros nas bibliotecas.
Utilizar uma linguagem de organização e classificação que seja compatível
com público infantojuvenil tem a finalidade de promover a autonomia dos usuários na
localização de obras de seu interesse, facilitar a guarda e a localização de livros,
além de estimular a educação do usuário e desenvolver uma espécie de mediação
de leitura silenciosa que contribui para a difusão de livros pouco conhecidos.

2. Relato da experiência: as seções da Biblioteca Rubem Braga
A Biblioteca Rubem Braga fica localizada no Centro Educacional Unificado
(CEU) Cidade Dutra Dr. Adib Salomão em São Paulo, no bairro de Cidade Dutra,
área periférica da zona sul.
Essa biblioteca, inaugurada em 2003, é uma das 46 bibliotecas de CEUs da
capital paulista e uma das 107 bibliotecas do Sistema Municipal de Bibliotecas
(SMB), contando com cerca de 23 mil livros, sendo 4 mil infantis e 3 mil juvenis.
Esse acervo está classificado em 37 seções infantis e 13 seções juvenis. As seções
infantis são: “Biografias”, “Canções infantis”, “Contos de fada”, “Fábulas”, “Ficção
científica”, “Ficção histórico-geográfica”, “Folclore”, “Histórias acumulativas”,
“Histórias afro-brasileiras”, “Histórias ambientalistas”, “Histórias de adivinhas”,
“Histórias de amor”, “Histórias de animais”, “Histórias de aventuras”, “Histórias de
bruxas”, “Histórias de crianças”, “Histórias de fantasia”, “Histórias de medo”,
“Histórias de objetos”, “Histórias de relacionamentos”, “Histórias didáticas”, “Histórias
educativas”, “Histórias em outros idiomas”, “Histórias engraçadas”, “Histórias
indígenas”, “Histórias morais”, “Histórias policiais”, “Histórias religiosas”, “Histórias
silenciosas”, “Histórias sociais”, “Histórias tradicionais”, “Histórias variadas”, “Jogos e
brincadeiras”, “Mitologias”, “Monteiro Lobato”, “Poesia infantil” e “Ziraldo”. As seções
juvenis são: “Aventura”, “Contos”, “Crescer”, “Crônicas”, “Distopia”, “Diversão”,
“Fantasia”, “Ficção científica”, “HQ”, “Mistério”, “Romance”, “Terror” e “Variados”.

�Os livros de ficção infantil ficam na área da biblioteca destinada às crianças,
organizados em caixas distintas conforme a seção. Cada uma dessas caixas possui
uma etiqueta frontal, que contém cor nas bordas e um ícone indicativo, extraído da
obra Vocabulário Controlado para indexação de obras ficcionais de Sidney Barbosa,
Eliane Serrão Alves Mey e Naira Chistofoletti Silveira (BARBOSA; MEY; SILVEIRA,
2005). Os livros de ficção juvenil ficam em estantes separadas do acervo adulto e
cada seção contém divisórias nomeadas anunciando o início e o final de cada uma.
Para facilitar a guarda dos livros, há também uma etiqueta lateral em cada exemplar
em que consta o nome da seção do mesmo. O público-alvo dessa organização por
seções são crianças e jovens de 4 a 18 anos e professores.
A implantação das seções na Biblioteca Rubem Braga deu-se em 2014 e
2015, baseadas na classificação utilizada na Biblioteca do CEU Paraisópolis e no
livro já mencionado (Vocabulário Controlado para indexação de obras ficcionais). Os
bibliotecários responsáveis pela idealização e implantação das seções foram Márcia
Cintra Camargo Rodrigues, coordenadora da biblioteca na época e que atualmente
trabalha na Biblioteca “João do Rio” do CEU Campo Limpo e João Garcia Neto,
atuante na Biblioteca do CEU Paraisópolis. Juntos estes profissionais realizaram
uma parceria para que a classificação que já ocorria na biblioteca do CEU
Paraisópolis fosse também implantada na Biblioteca Rubem Braga.
Desde sua implantação as seções continuam sendo seguidas como forma de
organização do acervo, no entanto, algumas adaptações foram feitas, divergindo das
sugestões encontradas na obra de Barbosa, Mey e Silveira (2005). Por exemplo,
nem todas as seções descritas na obra são utilizadas na biblioteca. “Epopeias”,
“Histórias da carochinha”, “Histórias para completar”, “Histórias de super-heróis”,
“Parábolas”, “Rimas infantis” e “Teatro Infantil” não fazem parte da atual organização
do acervo por possuírem pouca demanda ou número de exemplares insuficientes
para compor uma seção. Desta forma, o tesauro não é aplicado integralmente na
biblioteca, pois as seções utilizadas são apenas as que fazem sentido de acordo
com a necessidade do público local.
Segundo os autores do vocabulário controlado, mais simplicidade na
organização e mais autonomia na busca pelos livros, significam maior uso do acervo
e da biblioteca, tornando-se a mesma um local mais agradável e acolhedor, assim:
Bibliotecários devem transformar as bibliotecas em locais agradáveis,
acolhedores, onde o leitor possa encontrar rápida e facilmente as obras
desejadas. Devem também incentivar o prazer da leitura e promover o uso
do acervo. Quanto mais simples a identificação das obras ficcionais,
quanto mais independentes a busca e a seleção pelos usuários, maior o
uso das bibliotecas e do acervo. (BARBOSA; MEY; SILVEIRA, 2005, p.1).

As perguntas feitas cotidianamente pelas crianças, jovens e professores
indicam a necessidade de continuar esse trabalho de classificação por seções, pois
as classificações convencionais utilizadas na rede do SMB são apenas “ficção
infantil” e “ficção juvenil”. Já as segmentações por seção são capazes de dar mais
autonomia e responder com mais rapidez e eficácia as dúvidas e assuntos de

�interesse destes públicos. As crianças buscam livros “de” animal, bruxa, medo, robô,
princesa e “polícia e ladrão”; pelos adolescentes são procurados os de aventura,
terror, e os parecidos com os das séries Harry Potter e Jogos Vorazes; e, pelos
professores, os de histórias indígenas e de contos africanos.
Algumas das ações desenvolvidas para aprimorar a eficácia das seções
foram:
a) migração das seções confusas, repetitivas ou com baixa adesão para
outras mais próximas das suas temáticas, por exemplo: as seções “Suspense” e
“Policial” foram unidas, formando uma nova seção denominada “Mistério”. As seções
“Artes” e “Biografia” do acervo juvenil, que continham poucos exemplares e baixa
procura, foram incorporadas à seção “Variados”. As seções “E agora?” e “Ficção”
foram revisadas e renomeadas, respectivamente, como “Crescer” e “Ficção
científica” visando maior consistência e clareza.
b) criação de novas seções para atender a demanda do público: “Histórias de
bruxas”, “Histórias em outros idiomas”, “Histórias silenciosas”, “Histórias variadas”,
“Monteiro Lobato” e “Ziraldo” (criadas ainda durante a implantação do projeto);
“Histórias afro-brasileiras” e “Histórias indígenas” (criadas para atender a demanda
dos professores do CEU que trabalharam o tema étnico-racial no ano letivo de
2016); e “Fantasia”, “Diversão” e “Distopia”1.
Algumas dificuldades encontradas foram: adequar os termos mencionados na
obra Vocabulário Controlado para indexação de obras ficcionais às necessidades
dos usuários da Biblioteca Rubem Braga; uniformizar as definições da classificação
por seções, considerando a rotatividade de profissionais na biblioteca desde a
implantação da classificação em 2014 até a data atual; e ausência de um campo no
Sistema Alexandria, catálogo utilizado pelo SMB, que seja específico e atenda essa
necessidade de organização do acervo infantojuvenil dos CEUs.
Os resultados alcançados foram:
a) criação de tabelas explicativas com as siglas, descrições dos conceitos e
exemplos de livros das seções infantojuvenis. As tabelas foram anexadas ao manual
de inserção de materiais da biblioteca, visando maior uniformização no processo de
inclusão de exemplares;
b) a classificação por seções faz mais sentido para os jovens leitores
(crianças e adolescentes) do que a classificação da literatura no tempo (século) e
espaço (país), como geralmente promove a Classificação Decimal de Dewey (CDD),
uma das mais utilizadas nas bibliotecas públicas. As seções são também mais
eficazes e eficientes para localizar os assuntos de interesse do que os termos
utilizados pelo SMB (“ficção infantil” e “ficção juvenil”), que não atendem com rapidez
demandas específicas;
c) A classificação por seções funciona como uma preparação para o sistema
de organização em bibliotecas (CDD), pois se ajusta melhor à compreensão dos
leitores, no caso dos não alfabetizados, e aos seus interesses de leitura, mas ao

1

Distopia: termo utilizado atualmente por youtubers para descrever ficção juvenil antiutópica.

�mesmo tempo mantém a lógica de organização por assuntos semelhantes, que os
jovens leitores encontrarão futuramente;
d) O trabalho de localização e guarda nas estantes foi facilitado com a
utilização das subdivisões em seções. As crianças localizam sozinhas livros de
princesa ou livros de humor, por exemplo. Mais autonomia acarreta em aumento do
uso do acervo e todos os dias os livros mais emprestados e consultados são os das
seções infantis e juvenis;
e) A organização em seções permite que livros com assuntos semelhantes
estejam localizados lado a lado nas estantes, criando uma espécie de “mediação
silenciosa”. É como se um leitor estivesse recebendo várias outras recomendações
literárias ao procurar na seção “Distopia” o livro Jogos Vorazes, por exemplo. Esta
mediação silenciosa é muito eficaz, pois muitas vezes os usuários não solicitam o
auxílio da equipe da biblioteca, por timidez ou desconhecimento. Importante salientar
também que muitos livros desconhecidos tanto pelos usuários quanto pela equipe da
biblioteca acabam recebendo maior destaque com este tipo de organização.
3. Considerações finais
A classificação das obras de ficção infantojuvenil utilizada na biblioteca
Rubem Braga é composta por uma linguagem híbrida baseada na classificação
adotada na Biblioteca do CEU Paraisópolis e na obra Vocabulário controlado para
indexação de obras ficcionais, além de adaptações realizadas pela equipe de
bibliotecários para atender as demandas do público. Os principais ganhos com isso
foram a rápida localização dos livros de interesse, estímulo à educação dos usuários
na organização da biblioteca, maior autonomia dos usuários para localização,
aumento do uso do acervo e mediação de leitura silenciosa.
É necessária a avaliação constante dessas seções para verificar se as
mesmas continuarão atendendo às necessidades de seu público, sejam estes os
professores, crianças ou jovens.
Referências bibliográficas
BARBOSA, Sidney; MEY, Eliane Serrão Alves; SILVEIRA, Naira D. Vocabulário
controlado para indexação de obras ficcionais. Brasília: Briquet de Lemos, 2005.
RANGANATHAN, Shiyali Ramamrita. As cinco leis da biblioteconomia. Brasília:
Briquet de Lemos, c2009.

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