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                  <text>Clube do Livro fora da biblioteca: um relato de experiência
Gabriela Bazan Pedrão (UNESP) - gabriela.bzp@gmail.com
Resumo:
O presente trabalho tem objetivo relatar as experiências de um clube do livro, organizado por
uma bibliotecária, em um ambiente diferente da biblioteca. O clube relatado tem seus
encontros mensais na Fundação do Livro e Leitura, na cidade de Ribeirão Preto, desde 2016 e
ainda está em atividade. O trabalho discutirá as práticas adotadas pela curadoria no que se diz
respeito a organização do clube, encontros, seleção de obras e abordagem das discussões. Na
conclusão as atividades e discussões que acorreram até o momento serão avaliadas e
discutidas, refletindo sobre as possibilidades de melhora para o que não deu certo e quais são
as opções existentes para o futuro do clube.
Palavras-chave: Relato de experiência, Clube do livro, Clube de leitura, Bibliotecária
Eixo temático: Eixo 3: Gestão de bibliotecas: aquisição e tratamento de materiais no
ambiente físico e virtual, curadoria digital, coleções especiais,
desenvolvimento de serviços e produtos inovadores, bibliotecas digitais e
virtuais, portais e repositórios, acesso aberto.

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�1. INTRODUÇÃO
O clube do livro, ou clube de leitura, é uma prática bastante conhecida e utilizada
não apenas em bibliotecas. Os clubes estão presentes em livrarias, escolas, organizações
e fundações dos mais variados tipos. Independentemente do local, do tipo de clube ou de
seu curador o objetivo é sempre o mesmo: discutir obras do interesse do grupo e incentivar
a leitura.
Para o bibliotecário, em especial, o clube do livro é uma prática interessante e que
possibilita novos formatos de atuação em comunidade. Nas diretrizes da IFLA (2013)
para bibliotecas públicas é dito que:
A oportunidade de desenvolver a criatividade pessoal e explorar novos
interesses é importante para o desenvolvimento humano. Para alcançarem este
objetivo, as pessoas necessitam de ter acesso ao conhecimento e a obras
criativas (IFLA, p. 15).

O clube é um bom exemplo dessa oportunidade de desenvolvimento. Com a ajuda
de um bibliotecário a oportunidade é ampliada, pois é o profissional que facilitará o acesso
as obras escolhidas, buscando as melhores opções de leitura, e ainda auxiliará nas
atividades de leitura e discussão com seu conhecimento como mediador.
O clube, como já dito, não precisa estar necessariamente ligado a uma biblioteca
para ter um bibliotecário como curador. No presente trabalho pretendo relatar as
experiências de um Clube que, sendo bibliotecária, tenho a oportunidade de ser curadora,
mas que não é ligado a nenhuma biblioteca.
O objetivo desse relato é transmitir ideias e ações que foram, e ainda são,
realizadas nesse Clube e auxiliar outros profissionais que desejem iniciar uma atividade
semelhante. Os relatos de práticas, dentro e fora de bibliotecas, elaboradas por
bibliotecários, são escassos, mas muito necessários para nossa comunidade profissional.
Os relatos são meios de conversa e troca de ideias entre práticas que deram certo e que
podem ser aplicadas em diferentes locais.
Nesse relato comentarei como surgiu a ideia do Clube, como ele foi organizado,
como são os encontros, as escolhas dos livros, qual o público participante e quais práticas
funcionaram ou não até o momento. É interessante adiantar que o Clube ainda está em
atividade e que essa é uma ação que realizo voluntariamente. Até o presente aconteceram
oito encontros. Comentarei alguns e analisarei as ações realizadas até então.

�2. RELATO DA EXPERIÊNCIA
O clube do livro que relatarei nesse trabalho é ligado a Fundação do Livro e
Leitura de Ribeirão Preto e é uma das atividades do Núcleo de Fomento do Plano Anual
da Fundação. A Fundação cede seu espaço físico na cidade, auxilia a divulgação das
atividades do grupo e através deles foi possível, até o presente momento, contarmos
também com a presença de alguns autores nacionais para comentar suas obras com o
grupo.
A ideia e inicio do ‘Clube de leitura da Fundação’ se deu em outubro de 2016. A
Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão já havia tido atividades semelhantes com outro
grupo, mas com o passar dos meses o antigo clube acabou se dispersando e se desfazendo.
É interessante comentar que o primeiro Clube de Leitura tinha como linha central de
discussões as obras da autora Lygia Fagundes Telles, ou seja, era um clube temático.
Após o término desse grupo a presidência da Fundação entrou em contato comigo,
pois eu já havia realizado atividades de leitura na Feira do Livro de Ribeirão e estava
desenvolvendo projetos com a Fundação, para conversarmos sobre a possível retomada
das atividades do clube. A ideia de mediar um clube sempre foi uma vontade que tive e
que estava tentando colocar em prática na cidade, mas por falta de um local comum, ainda
não havia tido a possibilidade de executá-la.
Em conversa decidimos então recomeçar essas atividades, mas com algumas
mudanças. A curadoria em minhas mãos teria um caráter mais jovem e despojado,
tentando trazer um público mais variado para a atividade, que antes era
predominantemente de adultos na faixa dos 45 anos ou mais. Para tanto, decidimos em
conjunto não colocar obras de um gênero, autor ou até mesmo editora específicos. A
escolha seria variada, mudando de mês para mês. Um dos principais objetivos do grupo
é até hoje proporcionar leituras diversas e que saiam da zona de conforto dos integrantes.
Decidimos por encontros mensais. Como a Fundação tem uma agenda de
atividades culturais variadas, não foi possível estabelecermos um dia fixo (por exemplo
o último sábado do mês), pois poderia entrar em conflito com outra programação, mas
fixamos que os encontros aconteceriam sempre aos sábados e às 16 horas.
Escolhido o primeiro sábado, que seria em novembro de 2016, e escolhi a primeira
leitura que seria discutida. Como esse seria o encontro de estreia do Clube, optei por uma

�obra clássica, popular e curta: ‘Um estudo em vermelho’, a primeira aventura do detetive
Sherlock Holmes, do autor Sir Conan Doyle. O objetivo da escolha foi atrair o público
para o Clube com uma obra popular e simples de ser encontrada. O acesso aos livros é
algo que prezo muito nas escolhas e é sempre o primeiro fator a ser considerado.
Começamos a divulgação em parceria, com cerca de um mês de antecedência,
utilizando as redes sociais e mídias da cidade que a Fundação tinha contato. Criamos uma
página de evento no Facebook e lá divulguei também as melhores opções para quem
estava interessado em adquirir a obra. É interessante ressaltar que a Fundação possui um
pessoal especifico para toda a parte de imprensa e divulgação que também nos auxiliou
nessa tarefa.
Nosso primeiro encontro em novembro discutiu então ‘Um estudo em vermelho’.
Como já dito a escolha foi feita com base na popularidade do detetive Sherlock Holmes
e por ser uma obra curta, o que daria tempo suficiente para a leitura. O Clube teve a
participação de 14 pessoas, mas a maioria não leu a obra completa. Mesmo assim o
encontro foi produtivo, a discussão rendeu bons comentários e o grupo estava animado
com o início das atividades.
Como um encontro ainda não é suficiente para definir o tom do grupo, decidi
apostar em uma obra diferente para a segunda reunião. O objetivo do Clube é diversificar
as experiências literárias e tirar o leitor de sua zona de conforto, assim sendo, escolhi um
livro de ficção científica para ser discutido. A obra selecionada foi ‘A mão esquerda da
escuridão’, da autora Ursula K. Le Guin. Não farei comentários específicos de cada obra
escolhida, pois o trabalho se alongaria mais do que o desejado, então apenas citarei as
leituras selecionadas e como foi a recepção do grupo.
No encontro de dezembro, para a discussão da obra citada acima, tivemos a
participação de nove pessoas, das quais apenas três leram o livro todo e duas partes da
obra. A discussão rendeu pouco, pois haviam participantes que não estavam a par dos
acontecimentos do livro, dificultando a roda de conversa. Mesmo assim dentre os
participantes que leram tivemos bons comentários e observações. Ao fim da reunião
cheguei a conclusão que a escolha havia sido complicada e que estava fora dos interesses
dos membros. Foi a primeira experiência de que nem sempre as pessoas aceitam sair das
zonas de conforto e que há também um limite de até que ponto um livro completamente
novo é interessante.

�Pensando nisso, a partir do encontro de dezembro passei a oferecer duas ou três
opções de leitura para serem escolhidas pelo grupo para a discussão do mês seguinte.
Assim eu teria a liberdade como curadora de escolher obras que eu julgasse interessantes
e o grupo teria a liberdade de participação na escolha. Levei em dezembro algumas opções
de clássicos e o vencedor foi ‘A Abadia de Northanger’, da autora Jane Austen.
A partir de janeiro notei que o grupo se interessa mais quando as escolhas são
obras clássicas. O encontro que discutiu Jane Austen teve grande participação e apenas
um membro do grupo não leu a obra completa. Estruturei melhor minha abordagem inicial
da discussão e passei a abrir as reuniões falando sobre o autor (a) do livro, a época e o
contexto histórico em que a obra se encaixa e passei a levantar pontos que considero
interessantes para discussão. O grupo recebeu bem a abordagem e as discussões se
tornaram mais amplas e proveitosas.
Em fevereiro e março tivemos reuniões com a presença de autores. Recebemos
Ignácio de Loyola Brandão, para comentar seu livro ‘Não verás país nenhum’ e Luiz
Ruffato, para comentar ‘De mim já nem se lembra’. Essas reuniões são abertas e
divulgadas em formato de Salão de Ideias. Pude perceber que o público difere muito do
Clube. Houve grande participação em ambas atividades de pessoas não ligadas ao Clube,
mas mesmo com a divulgação do projeto nos Salões não houve procura dessas pessoas
por nossas atividades de leitura.
Nos dois Salões de ideias as discussões ficaram um pouco restritas e tivemos mais
a fala dos autores do que a discussão de grupo. Como a atividade é aberta, também
tivemos muitos participantes que não leram as obras e compareceram apenas pela
presença do autor. Esses encontros substituíram a reunião mensal do Clube, e em conversa
com a Fundação, percebemos que a atividade não estava sendo proveitosa como discussão
de obras. Para o futuro decidimos manter as reuniões do Clube e, em separado, trazer
também os Salões de Ideias para nosso grupo e demais pessoas interessadas. Essa
dinâmica parece que funcionará melhor.
Para o segundo semestre estamos elaborando também um calendário fixo, com as
datas dos encontros escolhidas e as obras já selecionadas. Isso facilita a organização do
grupo com as leituras e aquisição das obras. Meu objetivo é manter obras mais próximas
dos clássicos, que tem tido melhor recepção até agora, e introduzir alguns gêneros
diferentes ao longo do semestre.

�Lemos até agora, além das obras já citadas, ‘O Senhor das Moscas’ de William
Golding; ‘O Aleph’ de Jorge Luis Borges; ‘A outra volta do parafuso’, de Henry James;
e ‘Anna Kariênina’, de Liev Tolstói. O grupo tem cerca de seis participantes fixos, de
jovens adultos a adultos, e o restante varia de mês a mês. Essa característica dificulta um
pouco a criação de um perfil literário para o Clube, que facilitaria na escolha das obras,
mas tenho feito as escolhas com base nas experiências passadas e nos integrantes fixos e
tem sido uma boa abordagem.
3. CONCLUSÃO
O clube tem sido uma atividade interessante e produtiva. Apesar das dificuldades
nas escolhas das obras, creio que o grupo está evoluindo e a experiência tem sido
enriquecedora para todos. Como curadora tive dificuldade no início para conduzir o
debate e começar a caminhar com a discussão. Percebi que o grupo estava interagindo
pouco e que isso poderia ser por falta de estímulo da minha parte, como responsável pela
mediação. Como comentei, mudei a abordagem e passei a trazer comentários, fazer
perguntas específicas sobra a obra, comentar a história dos autores e do processo de
escrita para começar a conversa e incentivar a participação dos presentes.
Acredito que com as mudanças programadas para o segundo semestre o grupo
poderá aumentar. Com as obras já selecionadas creio que as discussões também serão
mais produtivas, pois os membros terão a possibilidade de organizar melhor suas leituras
e preparar com mais antecedência seus comentários.
Por fim posso afirmar que o Clube do Livro me auxiliou na leitura de obras que
talvez não fossem lidas em caráter individual e que percebi que o mesmo aconteceu com
outros participantes. Estamos definindo o tom aos poucos e também quais os limites para
gêneros literários pouco explorados, como a ficção científica, mas tem sido proveitoso e
uma ótima oportunidade para sair de uma atividade solitária como a leitura.

REFERÊNCIAS:
IFLA. Diretrizes da IFLA sobre os serviços da biblioteca pública. Tradução para
português: Célia Heitor. Lisboa, 2013.

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