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                  <text>BIBLIOTECAS COMUNITÁRIAS: uma organização sociocultural;
instrumento para a democratização do acesso à informação e
valorização cultural

Nicole Marinho Horta (UFMG) - nicole_coia@yahoo.com.br
Felipe Santiago Flores Rocha (UFMG) - felipemacato@gmail.com
Resumo:
A Biblioteconomia possui uma variedade de tipologias de bibliotecas, entre elas as bibliotecas
comunitárias. Este artigo tem como objetivo expor uma breve reflexão sobre as bibliotecas
comunitárias como espaços de ações integradoras de saberes, sociabilidades e mediações
informacionais e comunicacionais, além de traçar os paralelos de realidades distintas entre
duas bibliotecas comunitárias e sua importância na inclusão social através do acesso à leitura
e à informação para as minorias. Foram analisadas a Biblioteca Comunitária Livro Aberto, no
bairro Goiânia em Belo Horizonte, e a Biblioteca Comunitária Borrachalioteca, no bairro
Caieira em Sabará, em Minas Gerais. Foi observado a importância de projetos de apoio para
sobrevivência das duas bibliotecas comunitária e para ampliação de suas ações dentro da
comunidade, atuando como espaços de inclusão social por meio do acesso à informação e
apoio ao desenvolvimento sociocultural de comunidades carentes, atendendo ao objetivo de
desenvolvimento sustentável 4 da Agenda 2030 da ONU (Educação de qualidade: assegurar a
educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao
longo da vida para todos).
Palavras-chave: biblioteca comunitária; sociabilidade; inclusão social; inclusão informacional
Eixo temático: Eixo 4: Bibliotecas para todos: Acessibilidade para pessoas com deficiência,
inclusão social, enfoque de gênero, bibliotecas como espaço de
aprendizagem. Biblioteconomia Social.

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�Introdução
A Biblioteca Comunitária é um tipo de biblioteca que desperta o interesse de
pesquisadores e profissionais1 da área de Biblioteconomia, principalmente, por se
apresentarem como alternativa de acesso à informação e cultura para comunidades
carentes ou afastadas do aparato informacional público, que o estado dispõe aos cidadãos.
O termo biblioteca comunitária, Segundo Almeida Junior (1997), é citado na
literatura brasileira pela primeira vez por Carminda Nogueira de Castro Ferreira, na
década de 1970, ao se referir à experiência americana que tratava da integração da
biblioteca pública com a escolar. Ainda não existe um consenso absoluto sobre o conceito
de bibliotecas comunitárias. Porém, a literatura oferece algumas semelhanças conceituais
que ajudam a caracterizar as bibliotecas comunitárias. Machado (2009, p.88-89), por
exemplo, pontua alguns fatores de grande importância para essa caracterização:
1. a forma de constituição: são bibliotecas criadas efetivamente pela e
não para a comunidade, como resultado de uma ação cultural.
2. a perspectiva comum do grupo em torno do combate à exclusão
informacional como forma de luta pela igualdade e justiça social.
3. o processo participativo gerando articulação local e forte vínculo
com a comunidade.
4. a referência espacial: estão, em geral, localizadas em regiões
periféricas.
5. o fato de não serem instituições governamentais, ou com vinculação
direta aos Municípios, Estados ou Federação.

A maior parte dos autores analisados discernem a biblioteca comunitária como
uma alternativa criada através da iniciativa de indivíduos ou associações, para suprir as
necessidades de acesso a informações da população de uma determinada região onde não
há uma biblioteca pública e/ou esta é de difícil acesso, como afirma Jesus (2007, p. 2-3):
Bibliotecas comunitárias são instituições voltadas para disseminar
informação e cultura em locais de carência econômica. [...]Isso se deve
ao fato de que a informação só está acessível a quem pode pagar por
ela, pois a informação está contida em suportes informacionais como:
Internet, livros, revistas, etc., cujo valor ultrapassa o poder aquisitivo
de grande parcela da população.

Guedes (2011) também descreve os fatos que levam ao surgimento das bibliotecas
comunitárias, e ainda comenta sobre a construção de seu acervo:
As bibliotecas comunitárias são ambientes físicos criados e mantidos
por iniciativas das comunidades civis, e geralmente sem intervenção
do poder público. Esses centros comunitários possui um arquivo
bibliográfico multidisciplinar, abarcando diversas tipologias
documentais. Suas coleções, por vezes, possuem organização

1MACHADO

(2009), JESUS (2007), GUEDES (2011), ALMEIDA JÚNIOR (1997)

�improvisada ou intuitiva, pois o objetivo principal desses espaços é
ampliar o acesso da comunidade à informação. (GUEDES,2011, p.75)

Mesmo com a diversificação nos meio de disponibilização da informação, seu
acesso ainda é relativamente restrito. Uma parcela significativa da população brasileira
ainda não tem acesso a informações como deveria e, na grande maioria dos locais, as
bibliotecas públicas não são capazes de resolver esse problema. Nesse contexto, as
bibliotecas comunitárias se apresentam como alternativa de acesso ao conhecimento.
As bibliotecas comunitárias se encarregam de fornecer acesso informacional e
também

permitem

o

desenvolvimento

sociocultural,

sendo

suporte

para

o

desenvolvimento de projetos educacionais, culturais e até profissionais, contribuindo por
vezes também ao desenvolvimento econômico da comunidade e dos indivíduos nela
inseridos. Mas, embora a motivação para a construção de uma biblioteca comunitária seja
fomentada pelos mesmos ideais, o desenvolvimento de cada biblioteca segue caminho
diferente. Seus espaços dialogam com a cultura local e se moldam de acordo com a
comunidade na qual estão inseridas.
São essas diferenças contextuais no desenvolvimento de bibliotecas comunitárias
que desejávamos entender no desenvolvimento do trabalho que deu origem ao presente
relato. Assim pudemos observar os espaços e ações de duas bibliotecas comunitárias, uma
localizada na periferia de Belo Horizonte e outra na Região Metropolitana.
Relato de Experiência
Biblioteca Comunitária Livro Aberto
A biblioteca Livro Aberto surgiu em 2011, no bairro Goiânia em Belo Horizonte,
em uma evolução da biblioteca escolar da creche e escola mantida pela Associação
Comunitária Vila Presidente Vargas (VIVA). Com o intuito de atender à necessidade
informacional da comunidade, inicialmente manifestada por pais de alunos, a biblioteca
deixa o espaço físico da escola e começa a funcionar em um espaço anexo e mais acessível
à comunidade. Com sede própria, um pequeno acervo complementado por doações e a
vontade da moradora da comunidade, Poliana Natália, que trabalhava na VIVA, a
Biblioteca Comunitária Livro Aberto passou a atender demandas da comunidade. A
biblioteca teve oportunidade de organizar e ampliar seu acervo, obter equipamentos e
participar de ciclos de debates e treinamentos para seus profissionais através de projeto
do Instituto C&amp;A que apoiou não só a melhoria dos espaços comunitários de incentivo à

�leitura, mas participou intensamente da criação da Rede Nacional de Bibliotecas
Comunitárias (RNBC) e de redes regionais como a Rede de Leitura Sou de Minas, Uai.
A Livro Aberto chegou a ser biblioteca polo dentro da rede mineira, posto assumido
atualmente pela Borrachalioteca.
Em relação à visita na Biblioteca Livro Aberto, podemos destacar algumas
observações importantes. Sua atuação está vinculada com a VIVA - Associação
Comunitária Vila Presidente Vargas para desenvolvimento da comunidade local (creche,
oficinas de grafite, telecentro, equipamentos audiovisuais.). Foi criada a partir da
mobilização de membros da comunidade. A SABIC - Associação dos Amigos das
Bibliotecas Comunitárias da Região Metropolitana de Belo Horizonte orientou na
implementação e doou vários títulos para o acervo. O desenvolvimento e organização da
biblioteca contou com o apoio das redes e programas de leitura fomentados pelo Instituto
C&amp;A. Atualmente, a Livro Aberto não possui mais o convênio com o Instituto C&amp;A, e
não conta mais com profissional bibliotecário (ou estagiário) ou com verba para novas
aquisições. O atendimento hoje é mais pontual e mantido apenas para visitas de alunos da
creche e uso dos dois computadores conectados à internet. No entanto, a administradora
do espaço busca a renovação de parcerias para reativar o atendimento amplo na unidade.
Biblioteca Comunitária Borrachalioteca
Surgiu em 2002, com o jovem Túlio Damasceno, morador de uma comunidade
em Sabará, Região Metropolitana de Belo Horizonte, que pediu ao pai um espaço na sua
borracharia para que ele pudesse organizar alguns livros e realizar empréstimos à
comunidade que frequentava o local. Atualmente, o acervo possui mais de 15.000 obras
literárias, e conta com outras três unidades: a Casa das Artes, a Sala Son Salvador e o
Espaço Libertação pela Leitura, todos em Sabará.
Em 2006, tornou-se o Instituto Cultural Aníbal Machado e um ano depois ganhou
o Prêmio Viva Leitura (MinC, MEC e OEI). Em 2011 passou a ser o Ponto de Cultura
“Aqui se Lê” e em 2013 ingressou na Rede de Leitura “Sou de Minas, Uai!” – rede local
de bibliotecas comunitárias da Região Metropolitana de Belo Horizonte do Programa
Prazer em Ler do Instituto C&amp;A. Hoje é integrante da Rede Nacional de Bibliotecas
Comunitárias – RNBC.

�Em relação à visita na Borrachalioteca, podemos destacar algumas observações
importantes. Desenvolveu-se de maneira tão positiva que hoje possui 3 unidades sob sua
administração. Houve a participação de bibliotecário na organização da biblioteca e suas
atividades, desde sua criação, segundo o fundador.
Um dos destaques é a Cordelteca, administrada pelo cordelista membro da
Academia Brasileira de Literatura Cordel, Olegário Alfredo, e que conta com amplo
acervo de cordéis e uma coleção de matrizes de xilogravura, onde são ministrados cursos
de confecção de cordéis, tanto o texto literário quanto as xilogravuras. Além disso, é a
única biblioteca comunitária no Brasil que realiza um festival municipal voltado à
literatura, o Festival Literário de Sabará. Já em sua terceira edição, com atividades
abertas e gratuitas para toda a comunidade. Realiza, ainda, projetos de incentivo à leitura
em parceria com o comércio local, caso do Projeto Pão e Poesia, além de apoiar projetos
de parceiros, como o projeto Leve um Livro, da UFMG. Oferece, os serviços básicos de
uma biblioteca pública (empréstimo, telecentro, contação de história.) e conta com um
acervo que hoje chega a 15000 obras distribuídas entre suas unidades.
Conclusão
Pode-se verificar através das visitas às bibliotecas comunitárias Livro Aberto e
Borrachalioteca, as características apontadas por Machado (2005) citadas anteriormente.
Ambas foram criada por impulsos internos das comunidades onde se inserem e fruto de
iniciativas de combate à exclusão informacional originados dentro da comunidade.
Ambas se localizam em regiões periféricas, sendo a Livro Aberto localizada em
um beco no centro da comunidade do bairro Goiânia em Belo Horizonte, e a
Borrachalioteca, com sua sede principal também em região periférica de Sabará, já conta
com outras três unidades distribuídas pela a cidade, atingindo quase toda a comunidade
Sabarense. Além disso, foi verificado a importância de programas, projetos e redes de
apoio na criação, estruturação, organização e desenvolvimento das bibliotecas
comunitárias. A biblioteca Livro Aberto está com seu atendimento limitado devido à
ausência de fontes de financiamento, não podendo contar com profissional para o
atendimento e gestão da unidade. Já a Borrachalioteca mostra como uma iniciativa bem
gerida, com apoio de profissionais e muito esforço empreendido, pode ser mantida e
ampliada, buscando parceiros, incluindo o comércio e a administração pública local.

�É importante perceber que as bibliotecas comunitárias se articulam à Agenda
2030, estabelecida em 2015, onde foram traçados 17 Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (os ODS). Elas apoiam a implementação do Objetivo 4, que define a
Educação de Qualidade, confirmando o compromisso de assegurar a educação inclusiva
e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida
para todos. As bibliotecas comunitárias se destacam como agentes integradores de saberes
e informacional com suas ações de incentivo à leitura, desenvolvimento cultural e até
profissionalizante. Pode-se observar o impacto da criação destas bibliotecas dentro das
comunidades que estão inseridas.
Independente das dificuldades enfrentadas, percebe-se que ambas as instituições
visitadas seguem se esforçando para manter seu trabalho que, contribui para a redução
das diferenças por meio do acesso à informação e a cultura.
Referência
JESUS, Maria. Implantação de bibliotecas comunitárias nos municípios do Estado da
Bahia. In: ENCONTRO NACIONAL DE ENSINO E PESQUISA EM INFORMAÇÃO,
7., 2007, Salvador . Anais eletrônicos... Salvador: CINFORM, 2007. Disponível em: .
Acesso em: 01 jun. 2017.
ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Bibliotecas públicas e bibliotecas
alternativas. Londrina: Editora UEL, 1997.
GUEDES, Roger de Miranda. Bibliotecas comunitárias e espaços públicos de informação.
Cultura

Informacional

e

digital.

Belo

Horizonte:

UFMG:

s/d.

Disponível

em:

https://www.ufmg.br/proex/cpinfo/cultura/docs/11_Bibliotecas_comunitarias__Roger_Guedes.pdf . Acesso em: 28 mai. 2007

MACHADO, Elisa Campos; VERGUEIRO, Waldomiro. Bibliotecas Comunitárias como
prática social no Brasil. CRB-8 Digital, São Paulo, v. 3, n. 1, p. 3-11, ago. 2010 .
MACHADO, Elisa Campos. Identidade cultural de Heliópolis: biblioteca comunitária.
Informação &amp; Sociedade: Estudos. João Pessoa, v. 15, n. 2, p. 113-125, jul./dez. 2005.
Disponível em:&lt;http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/34/1515&gt; .
Acesso em: 25 mai. 2017.

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