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                  <text>PESSOAS SURDOCEGAS EM BIBLIOTECAS: DISCUSSÕES INICIAIS
Marcos PASTANA SANTOS (IFRJ) - marcos.pastana@ifrj.edu.br
Cládice Nóbile Diniz (UNIRIO) - cladice.diniz@unirio.br
Rosemeire de Araújo Rangni (UFSCar) - rose.rangni@uol.com.br
Resumo:
Este trabalho propõe discutir acerca do atendimento informacional dos usuários com
surdocegueira em biblioteca. Em decorrência da carência de investigações sobre o tema, os
profissionais das bibliotecas não se veem apoiados pela literatura para o atendimento às
demandas informacionais desse público, que é pequeno, mas singular. A metodologia foi
exploratória e realizada por meio de levantamento bibliográfico. Como resultado obteve que a
compreensão do universo linguístico do usuário é um dos desafios da preocupação com o
leitor/usuário. Verificou-se que a American Library Association orienta aos profissionais que
atuam na biblioteca a seguirem uma série de recomendações para tratar com as pessoas com
deficiências e que na biblioteca as atividades devem ter um campo de ação onde o processo de
leitura e escrita seja individualizado por ser fundamental para a compreensão de mundo da
pessoa surdocega, o que leva a ser necessário realizar adaptações de acordo com o grau de
comprometimento e as singularidades da pessoa. Entretanto, conclui-se, também, que é
necessário haver ações gerais de transformação do ambiente da biblioteca em um local
agradável a esse usuário. Desse modo, requer capacitar adequadamente para essa finalidade
os profissionais da biblioteca e antecipar as ações transformadoras.
Palavras-chave: Surdocegueira. Biblioteca. Serviços informacionais.
Eixo temático: Eixo 4: Bibliotecas para todos: Acessibilidade para pessoas com deficiência,
inclusão social, enfoque de gênero, bibliotecas como espaço de
aprendizagem. Biblioteconomia Social.

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�Introdução
São poucas as pessoas que, sem ter uma pessoa surdocego em seu círculo
familiar ou de amizades, tenha se dado conta da problemática dessa condição. E,
considerando as que a têm, a quantidade continua a ser muito pequena. Isso não
ocorre no Brasil apenas porque em relação à totalidade da população o número de
ocorrência é ínfimo, de 1.250 casos, segundo Gabrilli (s/d) mas também pode estar
ocorrendo que esses indivíduos estejam sendo ocultados pelo manto de
invisibilidade que estigmatiza.
Com isso, muitos surdocegos podem estar com suas necessidades
informacionais não devidamente atendidas, mesmo quando recorrem às bibliotecas.
Esse questionamento surge do fato que as limitações da surdocegueira não
impossibilitam o usuário de ter acesso à informação.
Bosco, Mesquita e Maia (2010) destacam a consideração de McInnes1 (1999),
a qual apresenta a variedade de situações da surdocegueira: dela ocorrer não
apenas a indivíduos assim nascidos ou que a adquiriram precocemente – implicando
em não lhes permitir o desenvolvimento da linguagem como nos ouvintes -, mas que
lhes facultou desenvolverem algumas habilidades comunicativas / cognitivas que
constituíram as bases conceituais de suas compreensões de mundo. Lembram
esses autores, que também há aqueles que eram cegos e se tornaram surdos, ou
que eram surdos e se tornaram cegos e têm a linguagem.
Uma solução é propor ações que atendam à demanda informacional desse
usuário surdocego, o que implica em oferecer capacitação aos profissionais na
biblioteca para com ele se comunicar, compreendendo o seu universo linguístico e
permitindo que estabeleça um vínculo social.
No entanto, em rápida busca na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações
(BDTD), não se encontrou registro de pesquisas voltadas ao atendimento de
pessoas surdocegas em bibliotecas. No que tange a outros textos da literatura
especializada, encontra-se Santos e Evaristo (2015) que afirmam haver poucos
registros versando sobre esse tema. Em decorrência dessa carência de
investigação, este estudo propõe-se a apresentar a importância de ações voltadas

1

MCINNES, J. M. Deaf-blind infants and children: A development guide. Toronto, Ontario, Canada:
University of Toronto Press, 1999.

�para o adequado atendimento das demandas informacionais dos usuários
surdocegos, especialmente para os presentes no espaço escolar.
Metodologia
A metodologia deste estudo, quanto aos fins, é exploratória, objetivando
encontrar subsídios que sensibilizem os profissionais de biblioteca para a
importância da proposição de ações inclusivas para usuários surdocegos nos
ambientes informacionais.
Quanto aos meios, apoia-se em pesquisa bibliográfica quanto ao objeto do
estudo, as ações inclusivas para usuários surdocegos nos ambientes informacionais,
sendo o seu universo formado pelos dados ofertados na literatura especializada e a
sua amostra, os dados das recomendações de recursos informacionais para
usuários com deficiência múltipla da American Library Association – ALA e os de
Miles (2005), que foram tratados qualitativamente.
Resultados
A perda da visão e da audição é tão relevante, que as atividades
educacionais para essas pessoas não podem ser realizadas em programas de
educação especial direcionados exclusivamente para pessoas com deficiência
auditiva e pessoas com deficiência visual. A surdocegueira não é considerada
deficiência múltipla, é singular. O Grupo Brasil, uma rede de profissionais da área de
reabilitação, define a surdocegueira destacando que o individuo sob essa situação
desenvolve diferentes formas de comunicação:
Uma deficiência singular que apresenta perdas auditivas e visuais
concomitantemente em diferentes graus, levando a pessoa surdocega a
desenvolver diferentes formas de comunicação para entender e interagir
com as pessoas e o meio ambiente, proporcionando-lhes o acesso a
informações, uma vida social com qualidade, orientação, mobilidade,
educação e trabalho. (GRUPO BRASIL, 2003).

Para as pessoas que possuem o comprometimento profundo da audição e
cegueira total, a compreensão de mundo é limitadora (COSTA; RANGNI, 2015). A
extensão do mundo real vai apenas à ponta dos seus dedos. Quanto menor o
comprometimento, a pessoa terá maior possibilidade de interação com o mundo.
De acordo com Miles (2005), o processo de leitura e escrita é fundamental
para a compreensão de mundo da pessoa surdocega. Na Figura 1, apresenta-se
uma usuária surdocega interagindo em espaço educacional.

�Figura 1 - Usuária surdocega interagindo em espaço educacional

FONTE: NATIONAL CONSORTIUM ON DEAF-BLINDNESS (2017)

Ainda considerando Mills (2005), encontra-se por ele indicada uma série de
adaptações para trabalhar a leitura e a escrita, tais como: Aquisição ou
transformação de conhecimento ou informação: livros (não ficção, referência);
Organização e suporte de memória; Entrar ou criar um mundo de fantasia; Auto
expressão: Jornais; diários; poesia; editoriais; Entretenimento: novelas; poesia; livros
em quadrinhos; Solução de problemas ou levantamento de problemas: palavras
cruzadas; problemas de matemática; Negociações financeiras: dinheiro; contas;
verificações; contratos; testamentos; etiquetas de preço; recibos; extratos bancários;
Criação e manutenção de relacionamentos: letras; notas; cumprimentando cartões;
correio eletrônico; Salas de chat do computador; telefones TTY; Lidar com emoções:
jornais; diários; notas; cartas; colunas de conselhos; histórias; Mapas; gráficos por
computador; Instruções de teste; regras do jogo; Fazendo ou compreendendo uma
declaração: sinais; cartazes sobre eventos; filme Informações adicionais; casamento
ou festa; convites; brochuras sobre eventos; Persuadir as pessoas a fazer ou
comprar coisas: anúncios de revistas e revistas; quadros de contas; anúncios de
televisão; logos de produtos; anúncios políticos; classificados; catálogos de
produtos; banners; Identificando coisas ou lugares: sinais de rua; etiquetas em
caixas, latas, pacotes; rótulos em nas fotos; títulos em livros; nomes pessoais; itens,
como roupas, cartões de crédito, biblioteca; Dando ou recebendo inspiração:
citações; sermões; livros de autoajuda; ímãs de geladeira com mensagens.
Nesse caminho, também há as diretrizes da ALA, recomendando mudanças
no espaço da biblioteca:

�A biblioteca pode ser um lugar acolhedor para pessoas com deficiências.
Um ambiente benéfico da biblioteca incluirá tecnologias que proporcionam
acesso à comunicação e informação, com materiais que podem ser
acessados facilmente por essas tecnologias, quando necessário. Mesmo
algo tão simples quanto o recurso de ampliação de texto da Microsoft ou
uma caneta larga e facilmente agarrada pode ser assistiva. O mais
importante para incentivar as visitas das pessoas com deficiência, usuários
da biblioteca, é criando uma experiência acolhedora e positiva através de
interações pessoais amigáveis. (AMERICAN LIBRARY ASSOCIATION,
2017, p.1-2, tradução nossa).

A ALA (2017) orienta aos profissionais que atuam na biblioteca uma série de
recomendações para tratar com as pessoas com deficiências. Indica que se fale
diretamente com linguagem, voz e tom normais e se ofereça para apertar-se as suas
mãos, enquanto acomoda-se a pessoa com deficiência, se identificando e usando o
nome do usuário quando apropriado. Propõe que se ofereça assistência,
perguntando-se

como

o

usuário

gostaria

de

ser

ajudado,

nunca

se

responsabilizando pelo usuário, seja ele um adulto, ou seja uma criança. Também
indica que se deve permitir um tempo ao usuário para que responda; recomendando
contar até sete ao aguardar a resposta para garantir tempo adequado para o
processamento. Na fala do usuário, ouvir atentamente e brevemente parafraseando
após uma pergunta, tentando manter o nível dos olhos ao do interlocutor quando
confortável e apropriado. (Tradução nossa).
No Manual de convivência – pessoas com deficiência e mobilidade reduzida,
encontra-se a recomendação de que ao se aproximar de um surdocego, se toque-o
levemente na mão para sinalizar a presença ao seu lado. Como andam,
normalmente, com um guia-intérprete ao seu lado com intuito de estabelecer a
comunicação com outras pessoas, a intermediação deste costuma ser útil.
(GABRILLI, s/d).
Discussão
Como a surdocegueira não é tratada como deficiência múltipla, a educação
dessas pessoas torna-se singular e na biblioteca as atividades requerem um campo
de ação também singular. Não há como utilizar as mesmas atividades de leitura de
outros tipos de deficiência para usuários com surdocegueira. Porém, ações não tão
individualizadas podem transformar o ambiente em um local acessível e agradável a
esses usuários, ainda que estes não estejam ainda a frequentá-la, também, devem
ser planejadas com os profissionais da biblioteca, antecipando-se na busca de

�soluções à problemática de se verem diante de uma barreira comunicacional com
um usuário surdocego. As diretrizes da ALA (2017) e as adaptações propostas por
Miles (2005) são contribuições a serem consideradas.
Considerações finais
Os resultados apontam para a necessidade de se ter adaptações e atividades
de leitura específicas para cada caso de usuário surdocego que se apresente na
biblioteca. Esse quadro requer aos profissionais da biblioteca competências para
lidarem com a situação, por capacitação adequada e empreendendo ações de
transformação do ambiente da biblioteca em um local agradável também a esses
usuários, o que deve ser antecipado à ocorrência de algum caso.
Referências
AMERICAN LIBRARY ASSOCIATION. People with multiple disabilities: what you need to
know. 2017. Disponível em: &lt; http://www.ala.org/ascla/resources/tipsheets/multipledisabilities&gt;. Acesso em: 30 jun. 2017.
BOSCO, Ismênia Carolina Mota Gomes; MESQUITA, Sandra Regina Stanziani Higino;
MAIA, Shirley Rodrigues. A educação especial na perspectiva da inclusão escolar:
surdocegueira e deficiência múltipla. Brasília: Ministério da Educação, 2010.
COSTA. Maria da Piedade Resende; RANGNI, Rosemeire de Araujo. (Orgs).
Surdocegueira. Estudos e reflexões. São Carlos: Pedro &amp; João Editores, 2015.
GABRILLI, Mara. Manual de convivência – pessoas com deficiência e mobilidade, S/D.
Disponível em: &lt;http://www.profala.com/manual_web.pdf&gt;. Acesso em: 15 jul. 2017.
GRUPO BRASIL. Surdocegueira. Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e Múltiplo
Deficiente. Folheto Informativo, 2003.
MILES, Barbara. Literacy for persons who are deaf-blind. DB-LINK, Jan. p.1-10, 2005.
Disponível em: &lt;http://documents.nationaldb.org/products/literacy.pdf&gt;. Acesso em: 04 jul.
2017.
NATIONAL CONSORTIUM ON DEAF-BLINDNESS. Literacy for Children with Combined
Vision and Hearing Loss. Disponível em: &lt;http://literacy.nationaldb.org/&gt;. Acesso em: 05
jul. 2017.
SANTOS, Keisyani da Silva; EVARISTO, Fabiana Lacerda. Mapeamento da produção
científica sobre surdocegueira no Brasil. In: COSTA. Maria da Piedade Resende; RANGNI,
Rosemeire de Araujo. (Orgs). Surdocegueira. Estudos e reflexões. São Carlos: Pedro &amp;
João Editores, 2015.

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