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                  <text>Uma bibliotecária no museu: o trabalho com o acervo particular de
Cora Coralina

Andréa Figueiredo Leão Grants (UFSC) - andrea.grants@ufsc.br
Resumo:
Este trabalho consiste na apresentação do relato de experiência da atuação profissional de
uma bibliotecária no museu Casa de Cora Coralina na cidade de Goiás. Trata-se de um
trabalho desenvolvido a partir de uma pesquisa de doutorado em Literatura na qual se buscou
investigar os biografemas, conforme noção conceitual apontada por Roland Barthes (1971), da
poetisa a partir de sua coleção de livros. Partindo da premissa apontada por Alberto Manguel
(2006) de que toda biblioteca é autobiográfica, a pesquisa realizou o levantamento das obras
que pertenceram à poetisa e executou os procedimentos de catalogação, indexação e
organização do acervo. A biblioteca estudada contempla parte do espólio da poetisa e se
encontra albergada no museu criado após a morte da escritora e que possui como foco
preservar a memória e promover a divulgação da obra de Cora Coralina. O trabalho com o
acervo pessoal da poetisa descortinou aspectos relevantes para se compor uma “biografia
descontínua” da poetisa além de revelar as possibilidades de integração e cooperação
profissional entre bibliotecários e museólogos.
Palavras-chave: Biblioteca particular. Gestão de acervo. Memória. Cora Coralina
Eixo temático: Eixo 9: Bibliotecas, Preservação e Memória.(Gestão de Preservação em
Bibliotecas; Gestão de Coleções Especiais e Livros Raros; História dos
Bibliotecários e da Biblioteconomia no Brasil; Sustentabilidade, preservação e
baixo recursos; Democratização, acesso e preservação de acervos
patrimoniais).

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�Introdução:
O presente trabalho se dedica a estudar e a explorar a biblioteca particular da
poetisa Cora Coralina. Para isso, foram catalogados, classificados e indexados
todos os títulos que pertenceram à coleção pessoal da poetisa. A biblioteca
estudada contempla parte do espólio da escritora e encontra-se localizada no
Museu Casa de Cora Coralina na cidade de Goiás, antiga capital do estado de
Goiás. A experiência de atuar como bibliotecária em um ambiente museológico
reflete, na prática, a interdisciplinaridade que envolve a biblioteconomia e a
museologia. Nesse contexto, cabe ressaltar que a iniciativa de trabalhar com o
acervo bibliográfico de Cora Coralina vem ao encontro do estatuto do museu
que privilegia o trabalho de preservação da memória da vida e obra da poetisa,
por meio do seu acervo patrimonial.
Destaca-se que, o conceito de biblioteca utilizado nesse relato de experiência,
ultrapassa a fronteira do estabelecido pelos manuais e livros de referência.
Sumariamente, a “biblioteca” que se propõe abordar vai além do sentido
etimológico resultante da união dos dois termos biblio e têke 1, e da definição de
Schwarcz, Azevedo e Costa (2002, p. 125), que estabelecem a biblioteca como
“prateleira ou depósito para guardar livros, escritos, rolos de papiro e de
pergaminho arrumados em estantes”, ou mesmo da materialidade definida
pelos dicionários que a indica como sendo “[...] a coleção pública ou privada de
livros e documento congêneres, para estudo, leitura e consulta. Edifício ou
recinto onde ela se instala. Móvel onde se guardam e/ou ordenam livros”.
(FERREIRA, 2001, p. 97). O desejo e a proposta, ao estudar a biblioteca de Cora
Coralina, é trazer, além dos pressupostos acima explicitados, uma concepção
ampliada do vocábulo. Isto significa dizer que a “biblioteca”, tal como é
concebida neste trabalho, articula a tensão entre reunião/dispersão,
esquecimento/memória, tradição/vanguarda.
Partindo da reflexão sobre como uma biblioteca espelha a singularidade de um
leitor, exercendo, desse modo, uma relação de testemunho entre o contingente
intelectual e a trajetória pessoal, propõe-se a atuar, num primeiro momento,
como bibliotecária e pesquisadora do acervo bibliográfico da poetisa e, em
seguida, como biografóloga, uma vez que serão analisados os biografemas2 que
possuem como pano de fundo as obras que, até o momento da pesquisa,
estavam “invisíveis”, posto que não disponíveis para a consulta e apreciação, por
parte de leitores e pesquisadores de Cora Coralina. Esses biografemas foram
detectados nos vestígios repletos de significações, presentes nas possíveis
conexões de leituras, nas redes de relações, nas escritas de margens em forma
de anotações, nos adendos, nas rasuras, além dos paratextos como as
1

Para Santos (2009) as palavras gregas biblio e têke significam respectivamente livro e
coleção/depósito.
2

Biografema é um neologismo criado por Roland Barthes (1971).

�dedicatórias, os pós-escritos, os excertos inéditos em prosa e verso, encontrados
no manuseio de seu acervo.
Dentro dessa perspectiva biografemática buscou-se encontrar os pormenores
concretos para compor uma “biografia descontínua” capturada a partir da
poética Cora, de seus livros e de suas impressões. Os vestígios, resíduos e os
fragmentos são como as chaves que permitem dar conta de uma trajetória de
vida e de escritura que, transgressora por não obedecer a uma ordem
cronológica convencional, refletem idiossincrasias humanas. Para Manguel
(2006, p. 163):
O que torna toda biblioteca um reflexo de seu proprietário não é
apenas a seleção de títulos, mas a trama de associações implícita
na seleção. Nossa experiência elabora outras experiências, nossa
memória elabora outras memórias. Nossos livros dependem de
outros livros, que os modificam e enriquecem, que lhes dão uma
cronologia ao arrepio dos dicionários de literatura.

Sobre o período que antecedeu à catalogação do acervo, cabe registrar que, no
momento em que encontrei os livros da biblioteca pessoal de Cora Coralina, as
obras estavam acondicionadas, por certo, em um local seguro, aparentemente
livres de agentes deteriorantes como sol, umidade, insetos, entre outros, mas
era absolutamente relevante observar que faltava um tipo de tratamento
técnico, pois não se notava nenhum critério que demonstrasse algum eco de
organização biblioteconômica, que permitisse disponibilizar o acervo para
pesquisadores interessados na vida e obra de Cora Coralina. Nesse instante,
lembrei-me da biblioteca sem catálogo, por opção, de Alberto Manguel, disse
ele: “Somos o que lemos, ou o que já lemos” (MANGUEL, 2014). Então, como
não pensar a poetisa a partir de suas leituras, de seu modo de colecionar,
selecionar os livros e fazer seus pactos de leituras.
Relato da experiência:
O museu Casa de Cora Coralina foi inaugurado no dia 20 de agosto de 1989
pouco mais de quatro anos após a morte da escritora. A pesquisa de campo foi
realizada no período de 26 de outubro de 2014 a 22 de janeiro de 2015. Antes da
realização da pesquisa, estimava-se que a biblioteca seria composta por
aproximadamente 300 títulos. A organização do acervo revelou que o número
estava equivocado e subestimado, pois após o trabalho de catalogação dos
títulos verificou-se que, na verdade, a biblioteca possui 912 títulos
compreendidos entre livros e periódicos perfazendo um total de 978
exemplares.
A experiência de atuar como bibliotecária no ambiente museológico contou com
o importante auxílio da equipe do museu, especialmente a diretora, Sra.
Marlene Vellasco, que colaborou com a pesquisa concedendo a autorização para
o livre acesso à biblioteca, bem como, auxiliando na construção detalhada do

�plano de trabalho que alinhasse os anseios da pesquisadora às necessidades e
estratégias do local. Além disso, a equipe colaborou no esclarecimento de alguns
pontos lacunares da pesquisa e na disponibilização de material documental
adicional sobre a vida e obra da poetisa.
A integração do trabalho entre profissionais da biblioteconomia e da museologia
resultou no modus operandi composto por duas partes específicas. A primeira
compreende o levantamento dos títulos que compõem a biblioteca particular da
poetisa, o que significa dizer que, o acervo foi devidamente tratado
tecnicamente, ou seja, o material foi catalogado de acordo com o Código de
Catalogação Anglo-Americano (AACR2) e a atribuição dos assuntos obedeceu à
Classificação Decimal Universal (CDU). Todos os dados foram transpostos para
o sistema eletrônico gerenciador de biblioteca, o Personal Home Library –
PHL30 que é um sistema gratuito desenvolvido como alternativa moderna e
eficiente para atender as necessidades de organização de um acervo que, na
ocasião, seguindo as orientações da direção do museu, deviam permanecer
disposto no computador de pesquisa presente na sala de documentação, local
que abriga todo o acervo literário, em formato impresso e digital, pertencente à
poetisa, tais como: cartas, manuscritos, fotografias, dentre outros.
Todos esses procedimentos serviram de aporte para a segunda etapa da
pesquisa que compreendeu a análise rigorosa dos resíduos encontrados, haja
vista que a proposta busca assimilar os biografemas, a partir da descrição
detalhada dos objetos analisados e da escrita poética de Cora coralina. Esse
detalhamento foi registrado como notas de conteúdo e fizeram parte da
elaboração do catálogo. Ao identificar as obras lidas e colecionadas pela
escritora pode-se traçar paralelos com os fragmentos, os pormenores que, de
certo modo, estabelecem conexão entre a história e a memória.
Considerações Finais:
Nesta pesquisa, considerou-se a ação de trazer à tona parte do espólio da
escritora Cora Coralina, ou seja, buscou-se tirar do “esquecimento”, recolhendo
do estado de dormência a sua biblioteca pessoal, guardando-a na memória, por
meio da catalogação e, conduzindo à atualidade suas leituras, reminiscências,
anotações, objetos e dedicatórias que podem se constituir em biografemas. Isto
significou revisitar o passado para dar visibilidade à biblioteca de Cora Coralina,
inventariando e disponibilizando em formato de catálogo os títulos que
compõem parte do seu acervo pessoal. Essa experiência descortinou um
autêntico repertório de fontes, inspirações e leituras da poetisa. Ao manusear o
acervo, esperava-se encontrar (e foram encontradas), nas centenas de páginas
impressas, rastros de sua leitura, resíduos marginais, parentéticos, adendos,
rasuras, pós-escritos e comentários em prosa e verso. Materiais que serviram
como subsídios para responder a expectativa de arquivar e desarquivar
biografemas, a partir da biblioteca de Cora Coralina.

�Ao trabalhar o acervo bibliográfico de escritores, por vezes, armazenados em
museus, os bibliotecários estão contribuindo para a ampliação dos estudos
literários, uma vez que, tornam visíveis os livros que pertenceram a um
determinado escritor o que, por sua vez, contribui para a escrita de uma
historiografia da vida literária de um determinado período.
Além disso, o trabalho integrado e cooperativo entre profissionais bibliotecários
e museólogos estabelece uma realidade pensada e vivida para além do foco das
ações que se ocupam essencialmente com tipos e suportes documentais,
extrapolando esses limites da documentação e passando a perceber o acesso à
informação e a sua visibilidade como fator preponderante.
Referências
BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loyola. Madrid: Seuil, 1971.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio século XXI
escolar. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2001.
MANGUEL, Alberto. A biblioteca a noite. São Paulo: Companhia das Letras,
2006.
______. Alberto Manguel: “Somos os livros que já lemos”. 2014.
Disponível em: &lt;http://www.fronteiras.com/entrevistas/alberto-manguelsomos-os-livros-que-ja-lemos-&gt;. Acesso em: 14 out. 2015.
SANTOS, Josiel Machado. O processo histórico evolutivo das bibliotecas
da Antiguidade ao Renascimento. Vida de Ensino, Goiás, v. 1, n. 1, p. 0110,
ago./fev.2009.
Disponível
em:&lt;http://rv.ifgoiano.edu.br/periodicos/index.php/vidadeensino/issue/view
/3&gt;. Acesso em: 19 abr. 2016.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA,
Ângela Marques. A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de
Lisboa à independência do Brasil. 2 ed. São Paulo: Companhia das letras,
2002.

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