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                  <text>ACESSIBILIDADE E INFORMAÇÃO: A DEFICIÊNCIA VISUAL E AS
BIBLIOTECAS DE ARTE.

Lucas Alberto Miranda (UFF) - lucasalberto@id.uff.br
Resumo:
A presente pesquisa tem como tema central a discussão sobre acessibilidade em Bibliotecas de
Arte no contexto da deficiência visual. Partindo de uma fortuna crítica sobre a assimilação da
deficiência como uma produção social que delimita certos corpos em sua possibilidade de ação
no mundo, pesquisaremos como as bibliotecas tem se engajado para diminuir suas barreiras
de exclusão e se empenhado em promover inclusão e acessibilidade para pessoas cegas ou
com baixa visão. Analisando as medidas inclusivas da biblioteca da Universidade Belas Artes e
da biblioteca Dorina Nowill, exemplificaremos essa discussão, pensando aplicabilidades dessas
estratégias no contexto das Bibliotecas de Arte. Além disso, discutiremos os resultados das
iniciativas e os desafios à frente no campo de estudo do acesso à informação em bibliotecas no
contexto da deficiência visual, pensando como esses espaços podem diminuir desigualdades e
democratizar a acessibilidade à informação no cenário contemporâneo.
Palavras-chave: Acessibilidade; Deficiência Visual; Bibliotecas
Eixo temático: Eixo 9: 2º Fórum das Bibliotecas de Arte

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�XXVIII Congresso Brasileiro de
Biblioteconomia e
Documentação
Vitória, 01 a 04 de outubro de 2019.

INTRODUÇÃO

O escritor argentino Jorge Luis Borges narra no texto A cegueira sua perspectiva
de experiência do mundo como pessoa cega. Esse caso em específico é interessante para
iniciarmos uma discussão sobre acesso à informação, bibliotecas, e deficiência,
justamente porque Borges é tornado diretor chefe da Biblioteca Nacional da Argentina
no momento em que sua cegueira toma proporções severas, impedindo-o de acessar o
conteúdo escrito de qualquer livro do acervo. O autor relata:
Em 1955, tive a honra de ser nomeado diretor da Biblioteca Nacional
Argentina. Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca.
(Outros pensam nele como um jardim ou, talvez, um palácio.) Lá estava eu, no
meio de 900.000 livros em vários idiomas. No entanto, quase não conseguia
ler-lhes os títulos, as lombadas. Poder-se-ia dizer que, praticamente, para meus
olhos cegos, aqueles livros estavam em branco, vazios. (2004, BORGES,
p.183)

Percebemos nesse relato como o acesso à informação dentro das bibliotecas
perpassa campos muito extensos, para além das difíceis situações sociais de segregação
por desigualdade de classe, o contexto da deficiência se faz índice desafiador da
normatividade dos espaços culturais. Desse modo, pensando no campo da cegueira e
baixa visão como importante eixo para discussão sobre medidas de inclusão e possíveis
estratégias de redução das desigualdades e democratização do acesso à informação,
buscamos dentro de bibliotecas medidas para promoção de acessibilidade ao acervo às
pessoas cegas e com baixa visão.
A deficiência é um longo terreno a ser percorrido teoricamente, porém, é
importante retomar brevemente alguns processos que se instauraram no campo social da
sua compreensão. Inicialmente a ideia de deficiência é enclausurada no corpo do próprio
individuo deficiente, que é visto como alguém que possui um corpo mutilado e inferior
em seus processos perceptivos, nesse paradigma a deficiência é apropriada pelo discurso
biomédico e vista como condição de ausência de saúde. Já na segunda metade do século
XX, a perspectiva social de compreensão da deficiência inaugura novas formas de

�entendimento dessa questão, concluindo que não se trata de assunto biomédico, mas de
uma construção social opressora, que garante acessibilidade e poder de ação para certos
corpos, privando outros de uma experiência autônoma no mundo. Nesse momento chegase à definição mais próxima ao garantido atualmente pela Organização Mundial de Saúde
para deficiência: desvantagem ou restrição de atividade provocada pela organização
social contemporânea, que pouco ou nada considera as pessoas que possuem lesões e as
exclui das principais atividades da vida social. (Upias apud DINIZ, p. 37, 2012).
Pensando que os espaços e relações sociais produzem opressões que segregam
certos corpos e incluem outros, é interessante pensar como as Bibliotecas de Arte pensam
suas medidas estratégicas para integração de diferentes sujeitos em suas atividades, e o
acesso deles aos arquivos e dispositivos de informação. A Biblioteca de Arte encontra
mais desafios ainda por justamente conter muitas vezes elementos que recorrem a uma
plataforma visual para além do nível textual, que nos interpela a pensar outros modos de
promoção de acesso à essas produções para pessoas cegas ou com baixa visão.

METODOLOGIA

Para a elaboração desse trabalho, utilizamo-nos principalmente das produções
teóricas sobre a deficiência, destacando-se: Débora Diniz em seu livro O que é
deficiência, e trabalhos práticos e teóricos exercidos em determinado momento junto ao
grupo Perceber sem Ver, núcleo de pesquisa e extensão na Universidade Federal
Fluminense, referência para estudos sobre deficiência visual no Brasil.
A partir de algumas medidas implementadas nas bibliotecas Dorina Nowill, no
Distrito Federal e na Biblioteca da Universidade Belas Artes, na capital de São Paulo,
por meio de revisão bibliográfica sobre essas instituições, analisamos como suas ações
se relacionam com as questões teóricas apresentadas sobre a deficiência e como suas
iniciativas podem ser aplicadas nas Bibliotecas de Arte, além de refletirmos como essas
atitudes produzem inclusão e apontam desafios para garantia de maior acessibilidade no
contexto da deficiência visual.

DESENVOLVIMENTO

Percebemos que grande parte das bibliotecas não conta com medidas de inclusão
que garantam acesso à informação resguardada em seus acervos ao público cego e com
baixa visão. Essa problemática é corroborada pelo fato de poucas produções escritas
serem adaptadas para o braile e sua disseminação ainda encontrar poucos investimentos.

�Assim, frente ao escasso material disponibilizado pelas editoras e outras fontes de
produção literária e acadêmica em braile, a biblioteca se vê desafiada a pensar outras
estratégias que tentem na medida do possível integrar esses sujeitos às suas atividades e
acervos.
A Biblioteca Dorina Nowill, no Distrito Federal e a Biblioteca da Universidade
Belas Artes, na capital de São Paulo, são instituições que se destacam no contexto da
acessibilidade à informação e promoção de engajamento entre pessoas cegas e com baixa
visão aos ambientes de acervo literário. Percebemos nelas iniciativas que vão desde
digitalização de conteúdos impressos e disponibilização em programas de computador
que transformam as palavras digitadas em voz, até recursos mais simples, mas de
engajamento coletivo, como as rodas de leitura promovidas para pessoas com deficiência
visual.

DISCUSSÃO
Sobre a política de acesso aos conteúdos das bibliotecas por pessoas cegas e com
baixa visão, um importante documento é o relatório profissional da Federação
Internacional de Associações de Bibliotecas e Instituições, intitulado Bibliotecas para
Cegos na era da informação: diretrizes de desenvolvimento. Nele, encontramos a
seguinte informação sobre mudanças no serviço de acessibilidade das bibliotecas: Muitas
bibliotecas cada vez mais estão convertendo suas coleções para acervos digitais. Uma
biblioteca digital pode assumir vários formatos e ser utilizado de várias maneiras
(KAVANAGH; SKOLD, 2009).
Atenta a essa possibilidade de inclusão através de dispositivos digitais, a
Biblioteca da Universidade Belas Artes apostou nessa forma de promoção de
acessibilidade. A instituição conta desde 2008 com computadores que disponibilizam
softwares como o Jaws, que permite leitura de tela e auxilia pessoas cegas no acesso à
internet e utilização de programas de escrita e criação de tabelas, e o software Magic,
outra aposta da biblioteca que possibilita a transformação de uma página digitalizada em
voz, utilizado para geração de audiolivro.
As medidas oferecidas por essa instituição são interessantes, mas difíceis de serem
replicadas em bibliotecas públicas que contam com pouco investimento para manutenção
e compra de equipamentos. Além disso, para Bibliotecas de Arte, que contam com um
grande acervo visual-imagético, dispositivos que realizam leitura digital não facilitam o
acesso aos trabalhos artísticos disponibilizados nos livros de artista e outras produções
que podem possuir imagens. É interessante pensar como essa perspectiva digital apontada
no relatório da Federação Internacional de Associações de Bibliotecas e Instituições pode

�ser aplicada no recorte das Bibliotecas de Arte.
Desde 2005 a Google pesquisa e desenvolve softwares de descrição de imagens.
Esse processo é feito pelo próprio programa, com uso de mecanismo de inteligência
artificial e não necessita de mediação humana. O dispositivo pode ser chave importante
para promoção de inclusão dentro de Bibliotecas de Arte, mas ainda não há informação
sobre instituições culturais que estejam integradas a esse software.
Apostando em um caminho alternativo à digitalização, a biblioteca Dorina Nowill,
abriga há vinte e três anos um acervo com mais de três mil exemplares, grande parte
composto por produções em braile e outras no formato de audiolivro. Além dessa
possibilidade, a biblioteca conta com um projeto de integração que promove leituras
grupais em voz alta de obras não disponíveis em formato digital, audiolivro ou braile.
Apesar dos recursos escassos em relação aos recursos digitais, a biblioteca tem grande
relevância no cenário nacional, sendo sede da primeira Academia Inclusiva de Autores
do país, promovida através do projeto Luz &amp; Autor em Braile no qual os usuários cegos
e com baixa visão são convidados a escrever contos, poesias, poemas e crônicas.
Os projetos de descrição falada dos livros, encontros grupais, e produção literária surgem
como interessantes apostas a serem colocadas em prática nas Bibliotecas de Arte,
tentando aproximar as informações nelas disponibilizadas aos públicos com deficiência
visual, combatendo a desigualdade e promovendo a democracia quanto ao acesso à
informação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao buscarmos medidas de inclusão para pessoas cegas e com baixa visão nas
bibliotecas, percebemos que dois eixos regulam essas estratégias, um que se encaminha
através de recursos digitais, e outro que se engaja de forma colaborativa coletiva sem
assumir o processo de digitalização como regra para a produção de inclusão.
Pensando a aplicação dessas estratégias nas bibliotecas de arte, percebe-se que a
integração e engajamento do público junto à produção literária, como presente na
instituição Dorina Nowill, apresenta uma solução de integração artístico-cultural que
pensa o acesso à informação mas também a produção de conhecimento por pessoas cegas
e com baixa visão dentro do ambiente da biblioteca. Assim, esses espaços são pensados
ativamente como construtores de redes de saber e inclusão, podendo promover mais

�ativamente a redução de desigualdades e democratização do acesso às informações.
Já a via adotada pela biblioteca de Arte da Universidade Belas Artes, oferece um
acesso mais pragmático e facilitado, promovendo um contato com a informação de forma
mais rápida, porém menos engajada, marcada pelo aspecto individual da experiência.
Essa possibilidade é também importante, visto que garante a autonomia dos sujeitos cegos
e com baixa visão frente a sua necessidade de contato com o acervo. Todavia, pensando
do contexto das Bibliotecas de Arte, é necessário averiguar como os novos softwares de
descrição de imagem podem tornar o acervo ainda mais inclusivo pelo acesso digital.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORGES, J.L. La Ceguera, in Obras Completas, Vol. 3. Buenos Aires: EmecéEditores S.A, 2004.

DINIZ, D. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, 2012.

KAVANAGH, R.; SKÖLD, B. C. (Ed.). Bibliotecas para cegos na era da
informação: diretrizes de desenvolvimento. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo, 2009.

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