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                  <text>PROJETO ERA UMA VEZ A "CASA DA MADRINHA"

María Cecillia Malta Valle Diretora
da Biblbteca Central do Centro de
Letras e Artes - UFRJ

Projeto para integração das aianças de 2 a 6 anos, da Favela Divinéia, à

B~

blioleca da Faculdade de Letras/Cenlro de Lelras e Artes/UFRJ.
1 JUSTIFICATIVA
A Reitoria da UFRJ estabeleceu um amplo programa de Extensão Univers~
lària para os jovens residentes nas favelas do Campus Vicinai da Maré (UFRJ),
em Bohsucesso e da favela Divinéia, na Ilha do Fundão.
O projeto inicial de aceleração da escolaridade para a qualificação profissional de jovens de 14 a 17 anos está em pleno andamento e com resultados alentadores. Dando prosseguimento foi feito um projeto de alfabetização para aianças
de 6 a 7 anos, e o Jardim de Infância para aianças de 2 a 6 anos. Estas aianças,
ainda não alfabetizadas, são o público alvo deste projeto.
A Biblioteca Central do Centro de Letras e Artes/UFRJ possui um aceIVo
considerável de material bibliográfico infanto-juvenil que foi denominado "Casa da

Madrinha,q.
A Faculdade de Letras/UFRJ oferece cursos de Literatura Infantil e, desde
1988, está em pleno funcionamento pela Coordenação de Pó&amp;-Graduação o Curso
de Especialização em Literatura Infantil, com 20 alunos regulares.
Trazer as aianças li Biblioteca é por si só a grande justificativa do projeto. E

mais:
1.1 Era uma vez ... uma Biblioteca
2

A BC/CLA possui 5.000 m de área ocupada. Para o projeto Era uma vez a
"Casa da Madrinha" reservamos um espeço de duas salas, à entrada da Bibliote-

ca.
A algazanra natural e gostosa das crianças será ouvida e sentida sem perturbar os estudiosos, os pesquisadores.

151

�12 Era uma vez ... uma Coleção
A Biblioteca é o mundo dos livros. A Coleção "Casa da Madrinha" seria o
reino encantado em que as crlanças panelmriam como num sonho nunca imaginado e que se transfonmaria para elas no mundo de faz de conta; os livros seriam as
varinhas de condão e as histórias mágicas mostrariam o outro lado, o mundo maravilhoso e fanléstico da literatura infantil.
1.3 Era uma vez ... o pessoal
Bibliotecários, professores de Tecria llIerária, alunos dos cursos de Ltteratura Infantil, bolsistas da Faculdade de Letras, já existem. É só começar a panelmr
no IIPaís das maravilhas"
1.4 Era uma vez ... a Bibliolaca parada, arquivo de livros
A Biblioteca é um organismo vivo, vibrante e atuanta. Precisa de novas forças e as forças novas virão com a gurizada que, com certeza, não conhece este
ser Biblioteca. As crlanças farão a Biblioteca ser, ocupando um cantinho especial,
descobrindo os livros novos, brilhantes e coloridos da coleção, penetrando nas
suas páginas, aprendendo e apreendendo as suas estórias que, mudando as suas
cabecinhas, atuarão como a mágica de transmudação de crianças estigmatizadas
- faveladas em faveladas - consciente do seu ser.
1.5 Era uma vez ... uma Bibliolaca atuanle
A Biblioteca precisa ser dinilmica. Funciona como um pala multiplicador de
conhecimentos.
Cabe ao pessoal envolvido neste projeto mostrar as riquezas nela escondida, abrindo a arca do tesouro, dividindo-o com as crianças.
1.6 Era uma vez ... uma Biblioteca participame
A Biblioteca
usar todo o potencial que
nos sublerrãneos do casleio. As crianças devem iniciar o arejamento dos cantos escondidos. Surgirá uma
Bibliotaca que atingirá um de seus objetivos que é 11 infonmação e a comunicação
da POESIA. A poesia é de lodos e para todos.
A poesia do canto escondido no castelo encantado será levada para fazer
brilhar os olhinhos de outras crianças do mundo sem encantos da favela.

�1,7 Era uma vez .. , uma oficina de criação
Abrindo os portões da POESIA para as clianças, os bibliotecários, os professores e os alunos elou bolsistas de Letras e Belas Artes transformarlio a Biblioteca numa oficina: os bibliotecários com seu trabalho técnico; os professores
ministrando as aulas; os alunos elou bolsistas de Letras e Belas Artes colocando
em prática o que
nos cursos teóricos.
O trabalho com as crianças é uma oficina de cliação. A cliação da poesia.
2 OBJETIVOS

o

objetivo inicial é mostrar, a um grupo marginalizado pela sociedade, o
mundo dos livros.
Mostrando um mundo novo, o segundo objetivo é desenvolver, nas clianças,

° goslo pela leitura.

°

°

Desenvolvendo 9osto pela leitura, terceiro objetivo é introduzir as clianças na Biblioteca.
Introduzindo as clianças na Bibliolaca mega-se ao quarto objetivo que é ensinar a usar a Biblioteca.
Ensinando a usar a Biblioteca atinge-se o objetivo principal: a formação de
novos usuários,
Formando novos usuários a Biblioteca também atinge .eu objetivo básico:
"Servus servorum Scienfiae".
3 METODOLOGIA
O trabalho conjunto dos bibliotecários, professores, alunos elou bolsistas de
Letras é essencial para a completa interação clianças-Biblioleca através da linguagem,
Bibliotecários - preparar tecnicamente a coleção: registro, catalogação, estabelecimento de entrada, identidade, cabaçalhos de assunto, classificação. Verificação das fichas datilografedas e sua inclusão nos diversos fichários - auxiliares
e do publico. Verificar a preparação do livro para empréstimo - bolso, cartões e
etiqueta. Verificar a colocação das obras nas estantes. Levantamentos bibliográficos. Preparar as listagens para aquisição. Ensinamentos básicos do uso da Biblioteca. Orientar a descoberta do mundo dos livros.
Professores - orientar os alunos elou bolsistas de Letras para a aplicação
da palie teórica ministrada nos cursos de graduação e p6s-graduação da Faculdade de Letras/UFRJ.

153

�Alunos elou bolsistas de letras - aplicar a aprendizagem dos cursos teóricos de literatura Infantil. Dinamizar o contato com os livros através de hora do
conto, aplicar as artes cênicas na interpretação de textos, teatralizaçao de contos,
criação de textos, etc.
Bolsistas de Belas Artes - aplicar a linguagem artistica e seus materiais no
exerci cio de interação das artes plásticas à literatura.
3.1 O reino da linguagem
O reino da linguagem é habliado por !rés personagens: a linguagem oral, a
linguagem artlstica e a linguagem dramática.
A linguagem oral é a raiz da nossa formação cultural. Ela nos foi trazida na
bagagem dos primeiros portugueses, após o descobrimento e aqui se misturou e

se enriqueceu com as influências indfgena e africana. Os narradores que encantavam platéias com suas histórias e as pretas velhas que embalavam as aianças
brancas com as lendas, as histórias de fadas, duendes, bichos e assombrações
são os precursores da moderna literatura infantil.
A linguagem artistica surge das formas plásticas trabalhadas pelas aianças.
O visualismo das ilustrações dos livros coloridos não necessita das letras. Os
desenhos, as pinturas, os recortes nascem através da criatividade das aianças e

se transformam em linguagem. em estórias novas.
A linguagem dramática servirá de incentivo à inventividade e ao extravazamento da energia mágica das crianças, na teetralizaçao dos contos tradiciona. e
na criação de nova. peças.
As trés linguagens despertam o lado lúdico infantil. A pelavra, o desenho e o
teatro se juntam e se ajustam transformando-se em novos livros.
A capacidade crítica da criança, em contato com este livro vivo, será um
manancial rico para o aprendizado dos professores e alunos envolvidos com o
projeto. As aianças são 11 fôrma que darão forma a novas formas do pensar literário.

4 EQUIPAMENTOS
As salas que poderão se, utilizadas no projeto necessitam mobiliário apropriado para aianças: mesas, cadeiras, es!anles, quadro de aviso, vasos de plan!as.
Existe a, refrigerado central nas salas.

Ao lado das salas programadas para o projeto há um auditório pera 30

154

�ras, que poderá ser utilizado quando necessário.
5 MATERIAL BIBLIOGRÁFICO

Já existe uma coleção bãsica de Itteratura infantil no acervo da Biblioteca.
Em 1988 houve uma aquisição considerável de livros infantis que estarão incorporados à coleção "Casa da Madrinha" até o inicio deste projeto.
Uma bibliografia de todas as obras infanto-juvenis do acervo já foi organizada pela Biblioteca.
listagens sobre o assunto foram cedidas à Biblioteca por professores de
Teoria Literária e LHeralura Brasileira e servirão de subsidio às nOllas aquisiç/les.
Nevas aquisições sobre o tema devem ser realizadas periodicamente. A literatura infantil !em tido um grande desenvoMmento nos úHimos anos. Professoresautores e aulores-a1unos da Faculdade de Letras têm participado da explosão editorial infantil.
Os aulores infantis - professores e alunos da UFRJ - poderão ser convidados para pariicipar do projeto, falando às crianças sobre o ato de criação literária.
6 O TEMPO NO "ERA UMA VEZ" ...
A Sub-Reiloria de Pessoal e Serviços Gerais - SR-4 deverá ser contactada
para ceder uma viatura, para lransporte das crianças, da sala de aula à Faculdade
de Lelras.
A duração do projeto deverá, no primeiro semestre de 1989, ser ajustada à
acettação pelas crianças. De inicio, uma vez por semana, no horário de um expediente-aula.
No inverno, ouvido o diretor da Faculdade de
poderão ser usados os
jardins intemos da Faculdade, em programas dirigidos pelos professores, alunos
e/ou bolsislas de Letras e bolsislas de Belas Artes.
A ocupação interna da Biblioteca e externa da Faculdade servirá à integração criança-universidade.
O mundo pobre e favelado infantil penstrendo o mundo rioo e cuRo universitário resultará em beneficios para os dois universos representados no projeto, que
poderia ser chamado "no mundo do troca-troca"; os aduttos doando conhecimento
e adquirindo sabedoria; as crianças recebendo conhecimento e doando sabedoria.
7 CONCLUSÃO
A descoberia dos livros e da Biblioteca criam hábitos permanentes de leitu-

155

�ra. A lapidação da padra bruta - a criança-favelada, que nunca soube da existência de Biblioteca, resuHará num tesouro incalculável: o futuro usuário que desde
paqueno terá intimidade com o livro e o transformará num amigo. Será o !error cuidadoso, " leitor pontual, o leilor que saberá dividir o livro com outros oolegas; o
leilor que saberá preselVar o livro para a posteridade. Enfim, o leilor-ideal, o que já

deveria existir numa Biblioteca Universitária.
O etemo sonho dos bibliotecários sa lransformará em realidade: os livros
passando inteiros, de geração em geração, bem cuidados pelos usuários; a B~
blioteca sendo um veiculo de cultura para a Universidade e para a comunidade. A
transformação deve começar pelas crianças que, guiadas pelos espiritos das
fadas e dos duendes, se tomarão os futuros usuários conscientes. O sonho do "Era
uma vez... "para os que se aventurarem a panetrar no "Casa da Madrinha" está aí.
Vamos dizer como o cordeliste Santa Helena:

O povão é camarada Ele dá
mas ele cobra. Quem lem
credibilidade Sua confiança
dobra, O refrão vai pra
cabeça -Meu irmi!o, ni!o
esmoreça, Participa, MÃOS
A OBRA!

A criança e o jOllem
Necessitam da Escola Pra
colher lições de vida,
Comer, brincar, jogar bola,
Tomando feliz seus pais, A
Nação sem marginais, Nem

escravos de esmola.
Veja as necessidades
Feitas num computador
Deste relação escolha. E
seja que item for, Vai
cimentar o abraço
Projetando no espaço As
Malrizes do ame'-..

Mãos ã obra nas escolas

156

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