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VERDES SINAIS DE ESPERANÇA?
A EXPERIÊNCIA DA BIBLIOTECA DA ÁREA DE ENGENHARIA –BAE
UNICAMP, COM O TRABALHO DOS REEDUCANDOS
DO PRESÍDIO “ATALIBA NOGUEIRA”

JOANA D’ARC DA SILVA PEREIRA
BIBLIOTECA DA ÁREA DE ENGENHARIA-BAE
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS – UNICAMP - BRASIL
joana@bae.unicamp.br
Resumo: A Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP iniciou em novembro de 1999 uma
parceria com o Presídio “Ataliba Nogueira” de Campinas, onde os presidiários, em fase final de pena e
em regime semi-aberto, os reeducandos, têm a oportunidade de trabalhar. A Biblioteca da Área de
Engenharia -BAE, em fevereiro de 2000, iniciando uma expansão em suas instalações solicitou a
participação dos reeducandos para as atividades de deslocamento do acervo bibliográfico e adequação
da disposição do mobiliário e equipamentos. Com o término da reforma a BAE continua com a
colaboração de dois reeducandos que tem contribuído para a qualidade dos serviços e produtos
oferecidos aos usuários. A BAE, com este trabalho dos reeducandos, tem tido a oportunidade de
inovar em relação ao gerenciamento organizacional de uma biblioteca universitária, bem como de
manter um compromisso social com a comunidade.
Palavras -chave : gerência de bibliotecas universitárias; inclusão social; reeducandos

1- Introdução
Vêem-se cotidianamente pessoas e grupos vivenciando a exclusão na sociedade. Leis
têm sido criadas para garantir esses direitos a todos, mas, apesar delas, percebe-se que a
sociedade ainda exclui as pessoas que considera diferentes. A diferença das pessoas não
diminui seus direitos: são cidadãos e fazem parte da sociedade como qualquer outro.

A sociedade evolui e faz-se necessária uma preparação para lidar com a diversidade
humana. Todas as pessoas devem ser respeitadas, não importando o sexo, a idade, as origens, a
opção sexual, o nível econômico ou as deficiências.

�2

Para a construção de uma sociedade aberta a todos, que estimule a participação de cada
um, aprecie as diferentes experiências humanas e reconheça o potencial de todo cidadão, é
necessário avaliar as políticas públicas e ações da sociedade.

Focalizando os presidiários como os excluídos sociais, objeto de estudo deste trabalho,
é essencial conhecer alguns aspectos básicos da história do sistema penitenciário . As prisões
de antigamente serviam para trancar escravos e prisioneiros de guerra. Fora dessas categorias
albergavam apenas prisioneiros à espera de julgamento ou serem torturados, prática legal
naqueles dias. A partir do século 18, no entanto, a finalidade do encarceramento passou a ser
isolar e recuperar o infrator. “Houve um direcionamento novo da arte de fazer sofrer.”
(FOUCAULT,1977)

Dois sistemas penitenciários americanos influenciaram a organização dos presídios no
final do século 19: o sistema de Filadélfia e o de Auburn. O primeiro preconizava isolamento
em cela individual, silêncio absoluto, castigo físico para os desobedientes e vigilância
permanente. O outro, além de silêncio e das punições físicas, propunha oito horas de trabalho
diário nas oficinas.

Mais tarde, como aumento progressivo do número de presos e do custo para manter
prisões com celas individuais, a adoção desses sistemas se tornou impraticável. Entrou, então,
em moda um modelo criado na Irlanda, segundo o qual a pena seria cumprida em três fases: na
inicial, os detentos deviam ser mantidos em regime celular, isolados, em silêncio, com
“trabalho duro e alimentação escassa”; depois vinha um período intermediário de trabalho em
grupo, ainda em silêncio, mas com isolamento apenas noturno, no qual os bem-comportados
ganhavam o direito de adquirir a liberdade condicional, terceira fase da pena.

Como evolução das prisões brasileiras tem-se as cadeias localizadas no andar térreo
das Câmaras Municipais, sem muros, com grades que davam para a rua, através das quais os
presos pediam esmolas aos transeuntes, até a construção das primeiras Casas de Correção, em
São Paulo e no Rio de Janeiro, nos anos de 1850. Nelas, segundo SALLA (1999), os presos
eram condenados ao trabalho forçado, à prisão perpétua, ao açoite nos calabouços, e, numa

�3

demonstração clara de arejamento do sistema, os escravos não podiam mais ser condenados à
morte nem a receber mais do que 50 chibatadas por dia.

Esta síntese histórica fundamenta o entendimento das prisões modernas, das quais a
Penitenciária de São Paulo, construída em 1920, encarnava a nova filosofia de tratar o
criminoso como doente e a cadeia, como hospital destinado a regenerá-los.

Ao chegar à situação atual das 871 prisões brasileiras, com suas 107 mil vagas,
CARVALHO FILHO (2000) abre caminho no emaranhado de artigos de nosso Código Penal,
para deixar claro o que poucos sabem: quando a pena é superior a oito anos, o condenado deve
cumpri-la em regime fechado. Quando não é reincidente e a pena é inferior a oito e superior a
quatro anos, poderá ser cumprida em regime semi-aberto. Se for inferior a quatro anos, o
principiante pode ir direto para o regime aberto

Além disso, cumprido pelo menos um sexto

da sentença, o preso de bom comportamento, que não tenha cometido crime hediondo, tem
direito de passar de um regime para o seguinte, do fechado ao semi-aberto e deste para o
aberto.

Considerando-se ou não que “lugar de bandido é na cadeia”, essas são as leis do país.
Se forem pouco enérgicas para conter a escalada do crime em nossas cidades, devem ser
modificadas urgentemente. Mas, enquanto não o forem, precisam ser respeitadas. O não
cumprimento delas, segundo VARELLA (1999) é a principal causa das rebeliões nas nossas
cadeias.

CARVALHO FILHO (2000) analisa ainda as principais controvérsias sobre as causas e
tratamentos da violência urbana que aflige as cidades. Mostra que o custo da manutenção
daqueles que foram condenados por crimes não violentos no país (cerca de 30% do total de
criminosos) seria suficiente para construir 54 mil casas populares por ano e que o problema da
segurança pública nunca será resolvido com a retórica dos demagogos, que prometem
devolver segurança imediata à população através de programas do tipo “tolerância zero”.
Enfatiza ainda que não há perspectiva de melhoria nesse campo sem a implementação de uma
série de políticas que envolvem desde medidas aparentemente singelas, como iluminação

�4

pública e criação de áreas de lazer para a população periférica, até reformas mais profundas,
voltadas para a reversão do processo de exclusão econômica e para o aperfeiçoamento das
instituições policiais e jurídicas.

Enviar para o sistema penitenciário um jovem que tenha cometido delito de média
gravidade pode revelar-se contraproducente. Ele pode sair do cárcere muito mais perigoso do
que entrou; e o “curso de especialização” teria sido pago pelo contribuinte. Ao mesmo tempo
em que é imperioso prender bandidos, há presos em demasia no sistema. Uma solução racional
para o problema seria a atuação tanto sobre a oferta de vagas, construindo presídios, como
sobre a demanda, o que se poderia fazer ampliando a aplicação de penas alternativas. No
Brasil, elas não chegam a 3% das condenações. Nos EUA e na Europa, respondem por de 30%
a 40%. (DEMAGOGIA prisional, 2002)

2- Trabalho dos reeducandos

Hoje, nas penitenciárias paulistas, quase 40% dos internos se mantêm ociosos, 27% se
ocupam com serviços internos das unidades e 33% tem atividade remunerada. Verifica-se que
mais da metade dos presidiários têm alguma atividade. (OLIVEIRA, 2000). Porém a situação
está longe do ideal. Quando o assunto é trabalho, os próprios detentos citam, corriqueiramente,
o velho dito “mente vaza, moradia do diabo”.

Segundo SILVA (2001) foi realizada uma pesquisa por estudiosos da Universidade de
São Paulo-USP, tendo como objeto a reincidência criminal no estado de São Paulo,
alcançando como resultado que a maioria absoluta dos casos de reincidência estavam entre os
criminosos que cumpriam suas penas em regime fechado, ou seja, no sistema carcerário.
Noutra perspectiva, os infratores que pagaram suas sentenças com medidas alternativas,
prestação de serviço à comunidade, regime semi-aberto, eram de uma porcentagem
insignificante comparados aos reincidentes que estiveram no regime fechado.

Cabe aqui um questionamento: por que ainda há tantos presos ociosos no Estado? As
iniciativas que visam elevar a porcentagem de presos nas linhas de produção esbarram

�5

principalmente no modo de se pensar sobre o preso e o sistema carcerário no Brasil. O Brasil
passa por uma fase de transição relativa às prisões que, aos poucos, estão deixando de ser
depósitos de criminosos e começando a se tornar lugares de “reeducandos” e “regenerandos”.

O problema encontra-se tanto no empresariado quanto no Estado. Para os primeiros, a
imagem estereotipada que têm do preso apresenta-se como um entrave de difícil solução.
Existem dificuldades de motivação pela mão-de-obra carcerária, apesar das vantagens para
quem a utiliza: mão-de-obra farta e barata e inexistência de encargos trabalhistas. Em relação
ao Estado, os problemas apontam mais a falta de iniciativa do que o preconceito – além, claro,
dos problemas já como falta de estrutura e superlotação dos presídios.

Apesar das dificuldades citadas, várias ações estão acontecendo no Estado. Como
exemplo pode-se citar a HM Engenharia, que em parceria com Presídio “Ataliba Nogueira”,
de Campinas, está dando continuidade a um projeto de reintegrar reeducandos (presos em
regime semi-aberto, em oportunidades de trabalho) à sociedade. Ajudam a reintegrar cidadãos
que

cumprem

pena,

ensinando-lhes

uma

profissão

e,

principalmente,

dando-lhes

a

oportunidade de serem efetivados ao final de suas penas.

Outro exemplo digno de destaque: a 81 km da cidade de São Paulo, em Bragança
Paulista, um grupo de empresários, advogados, dirigentes sindicais, donas-de-casa e religiosos
assumiu há quatro anos a cadeia pública. Num convênio com o governo estadual, melhoraram
a alimentação e as acomodações e promoveram a assistência médica e psicológica. Foram
criadas oficinas para profissionalização, vendendo os produtos para empresas da região – as
empresas oferecem monitores para converter marginais em trabalhadores, além de garantir a
qualidade dos produtos. Resultado preliminar: a taxa de reincidência dos ex-presos é de 25%.

O trabalho é um direito do preso? Sim. O preso tem o direito social ao trabalho (art. 6°
da Constituição Federal).

Ao Estado incumbe o dever de dar trabalho ao condenado em

cumprimento de pena privativa de liberdade, ou àquele a quem se impôs medida de segurança
detentiva.

�6

O que é remição? É uma norma que permite, pelo trabalho, dar como cumprida parte
da pena, vale dizer, abreviar o tempo de duração da sentença. O condenado que cumpre pena
em regime fechado ou semi-aberto poderá diminuir, pelo trabalho, parte do tempo de execução
da pena. A contagem do tempo para o fim de remição será feita em razão de um dia de pena
por três de trabalho (art. 126 da LEP); assim por exemplo, se o detento trabalhar três dias terá
antecipado o vencimento de sua pena em um dia.

3- Parceria UNICAMP - Presídio “Ataliba Nogueira”, de Campinas

Na Europa e mesmo nas Américas, a história das universidades é secular, enquanto que
no Brasil ela ainda é recente. E se a história da universidade

brasileira assim é, a da

Universidade Estadual de Campinas é ainda mais recente. A UNICAMP teve seu campus
instalado oficialmente em 05 de outubro de 1966. Mas poucos anos mais tarde ela já havia se
firmado como uma das principais universidades brasileiras e latino-americanas, verdadeira
usina de pesquisas avançadas e de interesse local, hoje inteiramente consolidada.

Assim, a UNICAMP soube aliar sua juventude a uma forte experiência na produção de
conhecimento novo em praticamente todas as áreas. Não por acaso, presentemente ela
concentra 15% de toda a produção científica brasileira e cerca de 10% da pós-graduação
nacional. Isto faz com que mantenha áreas de compatibilidade científica e tecnológica com os
principais centros de pesquisa do mundo, com os quais mantém mais de uma centena de
convênios de cooperação.

Podemos visualizar a modernidade da UNICAMP na sua visão de futuro, onde destaca
como missão da Universidade: formar profissionais capazes de constante aprendizado
preparados para atuar em uma sociedade cada vez mais orientada pelo conhecimento. Cultivar
sua capacidade de identificar e resolver problemas de maneira crítica, eficaz e criativa dentro
de referenciais de excelência em seus campos de especialização. Desenvolver suas habilidades
de liderança e valorizar o seu compromisso com a sociedade, o meio ambiente e a cidadania.

�7

Diante deste enfoque da academia não foi surpreendente testemunhar, em 1999, o
início do Convênio Mão-de-obra de Reeducandos, entre UNICAMP e Presídio “Ataliba
Nogueira”, de Campinas.

A Pró-Reitoria de Desenvolvimento Universitário (PRDU) em

contato com o Juiz de Direito Corregedor (Vara de Execuções) de Campinas,

efetivou esta

parceria.

Os reeducandos, vestidos com seus uniformes verdes, chegaram ao campus,
inicialmente restritos às atividades de jardinagem e construção.

Em fevereiro 2000, a direção da

Biblioteca da Área de Engenharia-BAE

tomou

conhecimento desta parceria através da Coordenadoria do Sistema de Bibliotecas da
UNICAMP e do Vice-prefeito da Cidade Universitária. Logo após o convite e aceite para
participar deste convênio, a BAE iniciou o planejamento das possíveis atividades que seriam
oferecidas aos reeducandos.

No mesmo mês a BAE iniciou as reformas das suas instalações, visando a ampliação
do espaço de 900m2 para 2.200m2. O trabalho contou com a participação de 12 reeducandos
que, com a supervisão da equipe de funcionários da Biblioteca, desenvolveram os serviços de
deslocamento do acervo bibliográfico (Quadro 1- Acervo bibliográfico da BAE)

juntamente

com todas as estantes e a adequação da disposição dos móveis e equipamentos

(Quadro 2-

Mobiliário e Quadro 4- Equipamentos da BAE). Faz-se necessário salientar que a ampliação
da BAE ocorreu no período de 8 meses, com o funcionamento normal ao público.
QUADRO 1
Acervo bibliográfico da BAE
livros
teses
periódicos
títulos correntes
títulos não correntes
mapas
microformas

QUADRO 2
Mobiliário
34.993
3.346
831
1.573
96
5.620

Mesas de trabalho
Cadeiras de trabalho
Mesas para usuários
Cadeiras para usuários
Armários
Mesas para microcomputadores
Sofás
Cadeiras – Sala Treinamento
Balcões

15
15
68
225
23
18
8
34
12

�8

QUADRO 3
Equipamentos
item

quantidade

microcomputadores

40

Impressoras

6

Scanner

3

Leitores de microfichas

4

Após a reforma, a direção da BAE optou por permanecer com dois reeducandos para o
desenvolvimento das seguintes atividades: auxílio da equipe da Biblioteca no preparo do
material bibliográfico, reposição do material nas estantes, ordenação dos espaços de estudo e
pesquisa, manutenção dos expositores de periódicos, colocação de espirais em documentos. O
Quadro 4 mostra a lista de reeducandos que já trabalharam na BAE no período de fevereiro de
2002 a junho de 2002.
QUADRO 4
Reeducandos na BAE: fev. 2000 a jun. 2002
Tempo na BAE
Nome

Idade

Situação atual

Agenor

45 anos

47 meses

L

Alcides

50 anos

3 meses

BAE

Alex

30 anos

87 meses

L

Alexandre

26 anos

3 meses

F

Anderson

23 anos

3 meses

F

Eduardo

24 anos

3 meses

L

Ezequiel

22 anos

2 meses

BAE

João

75 anos

7 meses

F

Lizandro

22 anos

4 meses

P

Manoel

36 anos

2 meses

L

Márcio

25 anos

15 dias

L

Mário

23 anos

5 meses

L

Maurício

30 anos

7 meses

L

Pedro

33 anos

1 ano

L

Reinaldo

31 anos

2 meses

L

Rodolfo

30 anos

1 ano e 4 meses

L

Sidney

26 anos

6 meses

L

Grupo de 10 Reeducandos

25 anos
(idade média dos
reeducandos deste grupo)

7 meses

Sem informações

(Reforma da BAE)

Legenda: L-Liberdade F-Fugitivo P-Prisão

BAE-em trabalho

�9

4- Convivência e Depoimentos
Para a apresentação deste trabalho foram realizadas entrevistas com os funcionários da
BAE e com os próprios reeducandos, em dois períodos: junho de 2001 e maio de 2002, tendo
uma única pergunta: O que representa a presença dos reeducandos na UNICAMP?

A

comparação das respostas obtidas fundamenta a direção da Biblioteca.
Para a melhor compreensão das respostas utilizou-se a seguinte categorização:
-

medo e curiosidade (funcionários)

-

aceitação (funcionários)

-

desempenho dos reeducandos (funcionários)

-

depoimentos dos próprios reeducandos

4.1- Medo e curiosidade (funcionários)

“A primeira pergunta que meio à cabeça foi: que tipos de crime cometeram?”
“No início, quando fiquei sabendo, houve uma curiosidade vinculada a um medo,
como se eles respirassem o mal e fossem atacar a qualquer momento”.
“Presidiários na biblioteca? Que será isso?”
“E não importava qual fosse o crime que tivessem cometido eram marginais, e do
marginal devemos ter medo”.

4.2- Aceitação (funcionários)

“Nem sempre a presença dessas (na maioria sofridas) pessoas no nosso meio é bem
vista. Julgamos o julgado sem conhecermos sua sentença, o motivo que o levou a cometer um
ato não aceito pela sociedade”.
‘Nós merecemos esta convivência com eles?”
“É prejudicial o relacionamento com eles?”
“Eu aprovo o trabalho dos reeducandos, é até bom para eles estarem trabalhando do
que fazendo coisas erradas na rua”.

�10

“A presença dos reeducandos no Campus representa uma oportunidade deles estarem
convivendo em um ambiente de alto nível cultural e intelectual. Apesar de achar que muitas
vezes, eles estão aqui apenas como mão de obra barata, e não para serem reeducados.”
“Não devemos descriminá-los, mas mostrar a eles, principalmente vivendo em nosso
meio universitário, que ainda há tempo para que eles amanhã sejam um de nós, com empregos,
bons salários, cargos, educação. Devemos ensiná-los a pensar para repensar e buscar algo
melhor.”
“Muitos reeducandos quando tem esta oportunidade de vir para a UNICAMP, não
sabem aproveitar e muitas vezes, ao meu ver esta tirando a oportunidade de outro reeducando
e ate mesmo a contratação de um funcionário.”
“Mas não cabe a nós julgarmos e sim darmos oportunidade para se integrem à
sociedade e, também e por que não, mostrar para eles qual a perda que tiverem, o que
deixaram de viver e proporcionar a sua família, quando cometeram aquele ato insensato.”

“Será que estão sendo reeducados?”

“Será que eles têm consciência da situação que se encontram?”

“Reconheceram o erro que cometeram?”

“Depois que me acostumei com a convivência com eles achei que alguns dos que
passaram por aqui tinham vontade de integrar novamente à sociedade.”

“A convivência com eles é muito boa, são educados e prestativos”.

“Verdinhos? Por que não?”

�11

4.2- Desempenho dos Reeducandos (funcionários)

“Admirei muito a facilidade e habilidade que eles tem em aprender os serviços.”

“A minha meta de trabalho foi cumprida graças a ajuda de um reeducando que sempre
estava disposto a cooperar.”

“O que me chama a atenção é a dedicação deles.”

“Quando eles não estão eu percebo logo cedo, vendo a desordem das mesas de estudo.”

“Na minha opinião os reeducandos são muito importantes aqui na Biblioteca para
ajudar como guardar livros, periódicos, serviço de manutenção dos carrinhos de livro nas
estantes etc... Também é bom para eles vim trabalhar para eles distrair a mente ficar só preso
deve ser muito chato.”

“Estas pessoas tem atuado na Biblioteca de forma eficaz, e muito tem contribuído no
desenvolvimento dos serviços de todos os setores desta Biblioteca.”

4.3 - Depoimento dos Reeducandos

“O pessoal é tudo gente fina.”
“O serviço é bom, é daqui pra rua...”
“O serviço é coisa simples, é só não deixar em falta para não acumular.”
“O que aparecer eu estou à disposição.”
“Daqui eu não tenho o que falar, todo mundo me trata com sorriso, cumprimenta de
manhã.”
“Aqui somos tratados como gente, de igual pra igual.”
“Quando cheguei fui apresentado à todos como funcionário, isso me envaideceu muito,
apesar deles saberem de onde eu vinha.”

�12

“Tem diferença de tratamento, aqui tudo bem, mas tem alguns lugares que eles se
afastam ou fazem que não estão vendo a gente, isso é normal.”
“Na hora do almoço eu procuro andar destacado (sozinho), verdinho já é marcado,
andando em função (3 ou 4 reeducandos) então...”
“Na minha opinião é melhor saber com quem está lidando, queira ou não é um
reeducando...”
“Não são todos os reeducandos que tem a mente fechada, a mente da maldade.”
“Quanto mais tempo ficar longe do presídio é melhor, nem que fosse sem receber nada,
eu aceitaria esse serviço aqui na UNICAMP, Deus me livre ficar lá o tempo todo...”

5- Conclusão

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Fernando Pessoa

Para finalizar é imperioso destacar que a questão: o que representa a presença dos
reeducandos na BAE- UNICAMP?, feita com os funcionários e com os próprios reeducandos
nos períodos de

junho de 2001 e maio de 2002, alcançou um nível significativo de

semelhança, o que vem demonstrar que os funcionários ainda não admitiram plenamente a
presença dos presidiários trabalhando juntamente com eles, como também, que o próprio
reeducando ainda não compreendeu totalmente o seu papel neste contexto.

Para a otimização deste Convênio é inevitável o desenvolvimento de um plano de
informação e conscientização com a comunidade acadêmica e os reeducandos. Tal plano
deverá ter metas visando o melhor aproveitamento da mão-de-obra dos reeducandos, a
capacitação em atividades de interesse e que possam facilitar a recolocação no mercado de
trabalho após a liberdade, acompanhamento de profissionais da Universidade (psicólogos,

�13

médicos, etc.)

que poderiam facilitar o trabalho rotineiro, como também a orientação para os

responsáveis pelos setores que recebem os presidiários.

Para a Equipe da BAE este trabalho com os reeducandos tem sido uma oportunidade
de inovar em relação ao gerenciamento organizacional de uma biblioteca universitária, bem
como de manter um compromisso social com a comunidade. Também é necessário destacar a
participação de outras Bibliotecas do Sistema de Bibliotecas da UNICAMP (SBU) no
Convênio UNICAMP-Presídio “Ataliba Nogueira”, com resultados promissores.

Quando a comunidade se envolve em parceria com o setor público, a eficácia do
recurso social se multiplica. E o que é problema vira solução. Essa parceria é que vai mostrar
as chances de o Brasil reduzir a exclusão _ e não somente a boa vontade ou destreza dos
governantes. Tão óbvio e tão pouco praticado.

IS THERE A GREEN SIGN OF HOPE?
THE EXPERIÊNCE OF THE LIBRARY OF THE AREA OF ENGINEERING –BAE OF
UNICAMP: THE WORK OF PEOPLE FROM THE
PRISION “ATALIBA NOGUEIRA” WHO ARE BEING REEDUCATED
Abstract: The State University of Campinas-UNICAMP has set up a partnership with the Prision
“Ataliba Nogueira” of Campinas in November 1999, where prisoners, which are serving their final
term of penalty outside jail and are in semi-opened regimen, the ‘reeducandos’, have the oportunity to
have an occupation. In February 2000, the Library of the Area of Engineeering-BAE started an
enlargement of its physical space and requested the ‘reeducandos’ to take part in the activities of
moving de bibliographic holdings and to adapt furnishings and equipments in the new space. As the
renovation finished the BAE Library keeps conting with the collaboration of two of the ‘reeducandos’,
which have contributed to the high quality of services and products offered to users. With the help of
these ‘reeducandos’ the BAE Library has the opportunity to innovate the organizational management
of a University Library, as well as keeping a social commitment with the community.
Keywords : University Library management; social inclusion; reeducated people; ‘reeducandos’

�14

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Sérgio.

A prisão sob a ótica de seus protagonistas: itinerário de uma pesquisa.

Tempo Social , São Paulo, v. 3, n. 1-2, p. 7-40, 1991.
CARVALHO FILHO, Luís Francisco. A prisão. São Paulo: Publifolha, 2000. 88 p.

DEMAGOGIA prisional. Folha de São Paulo, São Paulo, 13 abr. 2002. p. 2.

FOUCAULT, Michel.

Vigiar e punir: história da violência nas prisões.

Petrópolis: Vozes,

1977. 124 p.

OLIVEIRA, Mary Pérsia de. Trabalho em prisões pode ser melhor utilizado. O Estado de
São Paulo, São Paulo, 27 nov. 2000. Disponível em:
http://www.estadao.com.br/agestado/nacional/2000/nov/27/5.htm. Acesso em: 18 abr. 2001.

SALLA, Fernando.

As prisões em São Paulo: 1822-1940. São Paulo: Annablume, 1999.

167 p.
VARELLA, Dráuzio. Estação Carandiru. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. 297 p.

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    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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      <name>Dublin Core</name>
      <description>The Dublin Core metadata element set is common to all Omeka records, including items, files, and collections. For more information see, http://dublincore.org/documents/dces/.</description>
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              <text>Verdes sinais de esperança? a experiência da biblioteca da área de Engenharia- BAE UNICAMP, com o trabalho dos reeducandos do presídio "Ataliba Nogueira".</text>
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