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                  <text>FORMALISMO NO PROCESSO DE INSTITUCIONALIZAÇÃO DAS
BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS

Sueli Goulart
sueligoulart@uol.com.br
Universidade Federal de Alagoas - UFAL
Biblioteca Central
Campus A. C. Simões – Tabuleiro do Martins
57072-970 – Maceió – AL
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE
Observatório da Realidade Organizacional
Administração
Av. dos Economistas, s/n Cidade Universitária
CEP 50740-590 - Recife, PE - Brasil
Fone: (81) 3271-8368 ou 8370 ramal 5162
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/

Programa

de

Pós-Graduação

em

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Programa

de

Pós-Graduação

em

Cristina Carvalho
cris_carvalho@uol.com.br
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE
Observatório da Realidade Organizacional
Administração
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Formalismo no processo de institucionalização das bibliotecas universitárias

1 Introdução

�O surgimento de organizações ou de novas formas organizacionais pode ser visto
sob diferentes perspectivas, baseadas ora em fatores econômicos ora em fatores sócioinstitucionais. A teoria institucional, baseada na concepção da realidade socialmente
construída, indica não ser apenas a necessidade de coordenação de atividades cada dia mais
complexas, mas também a disseminação de crenças e processos cognitivos sobre a
natureza do mundo e a maneira como as coisas funcionam que determinam a criação das
organizações (Scott, 1998).
Entendidas como sistemas abertos, as organizações relacionam-se com o ambiente
influenciando ou sendo influenciadas tanto no processo de criação como nos processos de
mudança. De acordo com um dos pressupostos apontados por Wilson apud Machado-daSilva; Fonseca e Fernandes (2000) o ambiente é teoricamente construído mediante a
interação entre fenômenos objetivos e diferentes percepções dos membros organizacionais.
Isto

implica

aceitar

que

indivíduos,

grupos

ou

organizações

podem

perceber

diferentemente um mesmo contexto institucional o que os levaria a adotar diferentes
posturas frente à relação organização-ambiente e no conseqüente delineamento de
estratégias de ação.
No âmbito das universidades, as bibliotecas constituem uma organização social
prestadora de serviços, criada e mantida para dar sustentação aos programas de ensino,
pesquisa e extensão por meio de suas coleções, produtos e serviços de informação. A
centralidade desse serviço para a comunidade acadêmica é identificada no cotidiano dessas
organizações e nos processos de avaliação instituídos pelo Ministério da Educação (MEC),
nos quais as bibliotecas se inserem como infra-estrutura acadêmica indicativa da
capacidade de oferta de cursos.
A criação e manutenção de bibliotecas ou sistemas de bibliotecas respondem a
valores consolidados no ambiente, sempre simbolizaram o compromisso da universidade
com a qualidade da formação e da produção acadêmica e contribuem para seu
reconhecimento social. Por isso, identificam-se atributos institucionais nessas organizações
pois seu processo de desenvolvimento é orgânico, adaptando-se tanto às necessidades dos
grupos internos como aos valores da sociedade (Perrow, 1990), visando a sobrevivência,
perenidade e legitimação, mediante a contribuição social que são capazes de viabilizar
(Pereira, 1997).
Ao longo das últimas três décadas vem se assistindo a amplas mudanças societais,
cujos reflexos nas bibliotecas universitárias podem ser analisados por meio das mudanças

�estruturais ocorridas em seu âmbito. Isso requer a incorporação de elementos da teoria das
organizações que possam ampliar o entendimento das mudanças para além da capacidade
de adaptação a tecnologias do momento. A “onipresença” das organizações no mundo
contemporâneo indica que é por meio delas que os indivíduos se conectam ao universo
macro-societal. Nesse sentido, as bibliotecas universitárias representam elos fundamentais
entre os indivíduos e a sociedade da informação, acrescentando complexidade na análise
dessas organizações.
O aprofundamento da análise organizacional nas bibliotecas universitárias pode ser
realizado mediante a identificação de um quadro evolutivo do contexto institucional de
referência e a respectiva resposta destas organizações, bem como o sucesso alcançado por
elas.
Neste trabalho, procurou-se traçar a evolução do contexto institucional e sua
interação com os atores sociais componentes do campo organizacional das bibliotecas
universitárias, compreendendo elementos simbólicos, culturais e cognitivos que moldam,
dinamicamente, suas estruturas.

2 Evolução do contexto institucional e práticas formalísticas
Em 1914, quando Henry Ford implantava sua linha de montagem de automóveis, a
jornada de 8 horas e a gratificação por produção, tinha inicio, simbolicamente, o modelo de
produção fordista no mundo industrializado. Nessa altura, a separação entre concepção,
administração, execução e controle já estava instituída na indústria mas, ainda assim, o
“sistema Ford” era pioneiro: reconhecia que não se poderia inovar no modo de
organização da produção sem uma paralela reordenação do comportamento e da psicologia
dos homens nas suas atividades produtivas, da cultura, da estética e da ética do trabalho. O
modelo de produção pressupunha uma nova sociedade, com percepção diferente dos
conceitos de democracia, racionalidade, modernismo e populismo (Harvey, 2000). A
funcionalidade dos conceitos evidencia-se na “produção para todos”, na valorização dos
“fins em detrimento dos meios”, na “massificação” e no “pseudo-igualitarismo” derivado
dessa massificação.
Nessa formatação da sociedade, subentendida na proposta do modelo fordista de
produção, as corporações eram os centros do poder da regulamentação social e econômica.
Entretanto, a aceleração do crescimento após a Segunda Guerra Mundial, os enormes

�fossos entre a riqueza e a miséria no mundo obrigaram a um redesenho do papel e da força
dos atores sociais envolvidos na regulamentação e na condução do desenvolvimento social.
O Estado passa a ocupar papel preponderante como mediador dos interesses de
classes, tornando-o forte interventor e executor de políticas públicas e sociais, por meio da
regulamentação, suporte infra-estrutural e investimentos diretos no setor produtivo, como
forma de alavancar o desenvolvimento social em bases pretensamente mais eqüitativas. É o
chamado Estado keynesiano, no qual a intervenção estatal, especialmente os investimentos
públicos garantem o equilíbrio social, uma vez que somente o Estado teria capacidade para
realizar um volume tal de investimentos que garantisse políticas de emprego e renda como
suporte ao modelo econômico vigente.
No Brasil, o papel do Estado como agente executor de políticas públicas e sociais
foi definitivo na consolidação do sistema de ensino superior, especialmente a partir da
década de 50, com a ampliação da oferta de vagas nas universidades, criação de novas
instituições e fortalecimento da pós-graduação. Embora sejam organizações tão antigas
como as próprias universidades, as bibliotecas vêem sua relevância ampliada também a
partir daquela década, provavelmente como conseqüência da criação de dois órgãos de
vital importância e influência no redirecionamento da prática bibliotecária: o Conselho
Nacional de Pesquisa – CNPq e o Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação –
IBBD, atual Instituto Brasileiro de Informação Científica e Tecnológica – IBICT. Estes
fatos da década de 50, somados aos investimentos em pesquisa e pós-graduação, à
consolidação dos campi universitários e à regulamentação da profissão de bibliotecário, na
década de 60, passaram a exigir das bibliotecas universitárias novas políticas de atuação e
novas práticas de gestão.
Referenciadas no modelo fordista e em seus pressupostos fundamentais de
modernidade, homogeneidade e totalidade, as bibliotecas universitárias buscam moldar
suas estruturas no sentido de racionalizar práticas e processos. Isto pode ser ilustrado por
duas pesquisas realizadas nas décadas e 70 e 80 por Ferreira (1980) e Mercadante (1990),
respectivamente, descrevendo as estruturas organizacionais vigentes nos período referidos,
as principais tendências detectadas e formulando recomendações.
A pesquisa realizada por Ferreira (1980) identificou os modelos estruturais,
classificados em centralizados e descentralizados, baseado numa amostra de 17 bibliotecas
centrais e 133 setoriais, sem a pretensão de apresentar um único modelo ideal, mas
mostrando as vantagens e desvantagens de cada um. A pesquisa de Mercadante (1990)

�ocorreu no âmbito do Programa de Pesquisas, Estudos Técnicos e Desenvolvimento de
Recursos Humanos para Bibliotecas Universitárias, desenvolvido pelo Programa Nacional
de

Bibliotecas

organizacionais

de

Instituições

adotados

pelas

de

Ensino

bibliotecas

Superior

(PNBU).

universitárias,

Comparou

identificando

as

modelos
principais

variáveis determinantes, a fim de orientá-las quanto à adequação da estrutura adotada,
sugerindo mudanças e adaptações necessárias. O universo da pesquisa foi composto de
bibliotecas vinculadas a universidades, totalizando 78 instituições.
No estudo de Ferreira (1980) a centralização, como modelo estrutural, é
identificada como objeto de debate freqüente nos fóruns formais e informais de discussão,
prioritariamente

referidos

a

vantagens,

desvantagens,

formas

e

graus.

A

questão

encontrava-se razoavelmente definida pela centralização, uma vez que a maioria das
bibliotecas pesquisadas tendiam à centralização ou encontravam-se em fase de transição
para esse modelo. Os principais argumentos para essa formulação eram: 1) redução do
número de bibliotecas; 2) reunião das coleções; 3) integração dos serviços bibliotecários;
4) integração dos pesquisadores; 5) custos de manutenção e desenvolvimento dos produtos
e serviços; 6) custos e desempenho dos processos de gestão e controle; e 7) desempenho
orçamentário-financeiro. A pesquisa conclui e recomenda que o processo de centralização
das bibliotecas seja concebido como sistema e este como sub-sistema do sistema
universitário e que as instâncias de decisão e gestão governamental e das universidades
identifiquem e viabilizem os sistemas de bibliotecas como sub-sistemas nacionais de
informação imprescindíveis ao desenvolvimento do ensino superior no país.
O panorama estrutural apresentado no trabalho de Ferreira (1980) permite
caracterizar um contexto referenciado na busca de centralização, com ênfase na otimização
dos recursos e no fortalecimento interno da unidade, conforme representado na figura 1.

Figura 1 – Situação na década de 70. Tendência: Centralização

Administração
Central da IES
Biblioteca
Biblioteca

Biblioteca

Biblioteca

�No estudo de Mercadante (1990), a coordenação sistematizada, como modelo
estrutural,

é

identificada

na

regulamentação

oficial

da

maioria

das

instituições,

constituindo-se, no entanto, mais em discurso do que em prática. Para a autora, essa
situação decorre dos traços históricos de autoritarismo a que esteve submetida a
universidade brasileira e que ainda persistiam no ambiente universitário. Segundo sua
afirmação até aquela data, sofriam-se as conseqüências, “seja por parte do órgão central,
que não consegue captar plenamente a ação integrada, seja pelas bibliotecas setoriais que
ainda vêem este órgão com laivos de autoritarismo” (Mercadante, 1990, p. 56). Ainda
assim, a maioria das bibliotecas tendiam a sistema formado pelo conjunto das bibliotecas
central e setoriais e/ou outros serviços de informação, no qual as primeiras, via de regra,
exerciam função de órgão coordenador. Os argumentos básicos eram: 1) o momento
histórico da instituição; 2) a capacidade de cada segmento do sistema; 3) a política de
ensino e pesquisa da instituição; e 4) o desenvolvimento das áreas priorizadas pela
instituição. A pesquisa preocupa-se em formular recomendações para as situações
identificadas, quais sejam: que as universidades com bibliotecas descentralizadas se
conscientizem da necessidade de integrá-las a estruturas administrativas modernas, sob
uma única coordenação, assegurando um mínimo de participação em programas nacionais
cooperativos. Àquelas já assim estruturadas, sugeriu-se a adoção de medidas capazes de
consolidar a ação sistêmica dos serviços de informação. Essas medidas visavam assegurar
que o órgão coordenador de fato tivesse competências para definir políticas de informação
a nível institucional, garantisse representatividade junto ao Conselho Universitário e
detivesse condições de avaliação periódica do sistema. Para os sistemas de bibliotecas já
constituídos, o estudo recomendou que se formalizassem por meio da aprovação
institucional de regimentos; incluíssem comissões ou representações de usuários em seu
processo de gestão; participassem da política orçamentário-financeira da universidade, com
responsabilidades definidas; coordenassem, centralizadamente, os serviços de aquisição e

�processamento técnico; estabelecessem políticas e planos de serviços aos usuários e se
integrassem a redes e serviços cooperativos.
Em síntese, o contexto caracterizado por Mercadante (1990) remete à busca de
coordenação das ações em estrutura sistêmica, com ênfase na articulação de recursos
complementares e no fortalecimento das relações interorganizacionais. Nota-se também
que recomendações da primeira pesquisa repercutiram na segunda, sobretudo na concepção
organizacional sistêmica, conforme representado na figura 2.
Figura 2 – Situação na década de 80. Tendência: Coordenação
Administração
Central da IES

Unidade
Coordenadora
Unidade
do Sistema

Unidade do
Sistema
Unidade
do Sistema
Sistema de Bibliotecas
Relação Hierárquica
Relação Técnico-profissional

As situações identificadas em ambos os trabalhos permitem constatar a presença de
mecanismos isomórficos na formatação das estruturas organizacionais das bibliotecas
universitárias. Na tentativa de obter legitimidade, as organizações geralmente adotam
linhas de ação anteriormente definidas e racionalizadas na sociedade (Meyer e Rowan,
1992) e o fazem mediante processos isomórficos, assim caracterizados:
a) isomorfismo coercitivo: resultado da pressão formal ou informal de
organizações

que

têm

prevalência

sobre

outras,

especialmente

pela

dependência financeira;
b) isomorfismo mimético: caracterizado pela adoção de modelos já testados e
bem sucedidos em organizações similares; e

�c) isomorfismo normativo: decorrente da profissionalização que institui um
conjunto de normas e procedimentos delimitados para uma ocupação ou
atividade específica (DiMaggio e Powell, 1991).
A homogeneidade das estruturas formais entre as bibliotecas universitárias é
significativa e evidente, decorrendo, por um lado, da natural identidade funcional entre
essas organizações, incluindo aspectos como missão e objetivos, e de outro da busca de
legitimidade. Vulneráveis aos três tipos de processos isomórficos, estas organizações
tendem a conformar suas estruturas segundo pressões coercitivas de agentes controladores
e/ou financiadores, como o MEC e as entidades diretamente relacionadas ao ensino e à
pesquisa no nível superior, como a Secretaria de Ensino Superior (SESu) e a Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A identificação de
experiências bem sucedidas nas demais bibliotecas para a solução de problemas
específicos, como a automação, por exemplo, caracterizam os mecanismos miméticos. As
pressões normativas advêm da área profissional prioritariamente vinculada a estas
organizações por meio da atuação de associações, sindicatos, conselhos e escolas de
Biblioteconomia.
Entretanto, Machado-da-Silva e Fonseca (1993) advertem que, apesar das pressões
isomórficas, subsistirão diversidades entre as organizações pois a especificidade dos
esquemas interpretativos subjaz à visão de mundo dos dirigentes que, por sua vez, interfere
no delineamento das estratégias de ação, selecionando itens relevantes para situações
locais. O confronto entre a busca de legitimidade no ambiente institucional de referência e
as especificidades locais podem acarretar mudanças estruturais formalísticas, isto é, ocorre
uma dissociação entre o formal e o real.
Segundo Sander (1977, p.27) o formalismo é uma categoria da teoria administrativa
e pode ser operacionalmente definida “como a discrepância entre a conduta real e a norma
prescrita que se supõe regulá -la”. Como traço da cultura brasileira presente nas
organizações é estudado por Prates e Barros (1997, p. 62) e Caldas (1997), entre outros,
indicado pelos primeiros como um mecanismo de evitar incertezas “por meio da lei, e toda
espécie de regras formais e instituições”. Caldas (1997), ao tratar da fixação brasileira pelo
estrangeiro, afirma que as organizações mimetizam, geralmente de forma acrítica, práticas
de centros tidos como mais desenvolvidos, tornando-as externamente orientadas. Para o
autor, não se trata de negar os avanços alcançados, mas de questionamentos e seleção de
aspectos apropriados às condições locais.

�Essa situação pode ser detectada naquelas organizações cuja capacidade de
interpretação e absorção do contexto institucional são restringidas por desígnios e
limitações internas, conforme pode ser ilustrado pelo caso apresentado a seguir.

3

A implantação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Alagoas
(SIBI/UFAL) : busca de legitimidade e mudança formalística
A UFAL foi criada em 1961, a partir da junção de seis cursos de graduação que

funcionavam isoladamente, chegando, aos dias atuais, com a oferta de 34 cursos de
graduação, 16 cursos de pós-graduação stricto sensu, sendo 13 em nível de mestrado e três
em nível de doutorado. A comunidade acadêmica incorpora aproximadamente 11.500
alunos, 868 professores e 1399 servidores técnico-administrativos.
Segundo Cardeal (1992), embora os primeiros 20 anos da UFAL tenham coincidido
com a chamada “década da educação”, em meio à relativa facilidade de acesso a recursos
financeiros e de pessoal, a instituição não contou com habilidade político-decisória capaz
de alavancar seu desenvolvimento, fortalecendo tanto a infra-estrutura física e de pessoal,
como a própria atividade acadêmica. Dessa forma, chega a meados da década de 80 com
considerável defasagem em relação às demais Instituições Federais de Ensino Superior
(IFES), constatada por fatos como a instalação do primeiro Curso de Mestrado na UFAL
ter-se dado apenas em 1985 e, no caso específico das unidades de informação, chegando-se
em 1986 com um quadro de cinco bibliotecários para atender a uma comunidade estimada
em 10.000 pessoas, quando estudos já indicavam a necessidade de pelo menos 33
profissionais (Universidade Federal de Alagoas. Grupo de Bibliotecários da UFAL, 1987).
O processo de modernização e melhoria das condições de funcionamento foi
impulsionado, no início da década de 80, por meio do acordo MEC-BID III, que viabilizou
a instalação definitiva do campus universitário da UFAL, financiando construções de
prédios, reformas, equipamentos, assistência técnica e capacitação de pessoal. Dentro desse
acordo foi projetada igualmente a construção de novo prédio para a Biblioteca Central (que
já funcionava no campus, em instalações precárias, desde 1978) e contratada, em 1985,
consultoria externa especializada para levantamento de necessidades e elaboração de
projeto, depois de duas outras propostas inconclusas. O relatório de viagem do consultor
revela a precariedade da situação então existente:

�A impressão geral foi desoladora quanto às condições de
funcionamento.
... coleção paupérrima
... quadro de pessoal muito limitado
... flagrante desrespeito à Lei 4.084 [que regulamenta a profissão de
bibliotecário]
... parecia (...) que a Biblioteca Central não se constituía em uma
aspiração da comunidade...
Em um quadro tão desolador quanto o das atuais bibliotecas da
UFAL, a construção de um novo prédio justifica-se como obra de
vital importância para a consolidação das atividades do campus
universitário, em caráter prioritário e urgente (Miranda, 1985).

Definido o projeto de construção do prédio, a partir do segundo semestre de 1986 o
corpo técnico é convocado para elaborar a proposta de implantação de sistema integrado.
Esse período coincide com o recém aprovado I Plano Nacional de Bibliotecas
Universitárias/PNBu, programa estabelecido no âmbito da SESu/MEC.
As diretrizes do PNBu e as ações delas decorrentes foram responsáveis por um
período de intensa atividade no conjunto das unidades de informação das universidades e
pelo fortalecimento de suas demandas frente às administrações das Instituições de Ensino
Superior (IES) e das atividades informacionais em nível nacional. Em nível local há que
lembrar a instalação do primeiro Curso de Pós-Graduação em 1985 e os efeitos do primeiro
processo eleitoral para escolha do reitor, que vieram reforçar o processo de formalização
do Sistema de Bibliotecas da Universidade.
O SIBI/UFAL tem seu regimento aprovado em 1989 e passa a ser composto pela
Biblioteca

Central

(unidade

coordenadora),

sete

bibliotecas

setoriais

(vinculadas

tecnicamente e administrativamente) e Órgão Colegiado (representações da comunidade
acadêmica com função de assessoria). Definida como órgão suplementar na estrutura
universitária, a Biblioteca Central vincula-se diretamente ao Reitor e organiza-se em quatro
divisões: Administrativa, Serviços ao Usuário, Desenvolvimento de Coleções e Tratamento
Técnico. Integra-se a redes de cooperação e prestação de serviços informacionais, como a
Rede Bibliodata/CALCO, a Rede Latino-Americana e do Caribe em Informações em
Ciências da Saúde – BIREME e COMUT.
Entre outros avanços, no sentido de valorizar e dotar de poder o sistema formado
pelo conjunto das unidades de informação, está o estabelecimento de percentual
orçamentário em 8% do orçamento de custeio e capital da Universidade que representou
um avanço significativo, em vista da média nacional da época que rondava os 5%, aquele

�estabelecido para as melhores bibliotecas universitárias (entre 8 e 12%) e a situação
vigente até 1987 quando não atingia 1% (Folha Semanal, 1991).
No processo de implantação e desenvolvimento do Sistema de Bibliotecas, percebese a atuação relevante de grupos e instituições cuja convergência de interesses, num
momento específico, possibilitou a criação de nova e moderna estrutura para os serviços
informacionais na UFAL. São eles: agências do MEC (SESu/PNBu, CAPES), dirigentes da
Universidade e os novos profissionais que viriam a compor a direção do Sistema. Nota-se
também a preponderância de elementos institucionais em sua implantação, vez que se
procurou adotar estrutura compatível com padrões nacionais, orientar-se por questões
normativas, configurando procedimentos isomórficos em busca de legitimidade.
Entretanto, estudos e observações realizadas no período de 2000 a 2001 mostraram
grandes dificuldades na efetivação da estrutura formal, detectadas em situações como a
composição do quadro funcional especializado que, apesar do aumento da comunidade
acadêmica, contava com 12 profissionais bibliotecários, dos quais quatro mantidos por
vínculo temporário. Destes, apenas um encontrava-se lotado em Biblioteca Setorial, o que
implica na inexistência de bibliotecários nas seis restantes, incluindo-se aquelas vinculadas
à pós-graduação. A precariedade do processo de desenvolvimento e organização das
coleções foi identificada pela inexistência de políticas explícitas e do deficiente processo
de automação dos serviços. A efetividade do Órgão Colegiado, como mecanismo de
interação com a comunidade, é questionável haja vista as afirmações de membros,
representantes dos docentes, entre as quais:
“... a relação do professor com a Biblioteca é muito ruim, ou seja, não
acho que o professor inclua a Biblioteca como instrumento
pedagógico”.
“... o pessoal do departamento não tem idéia da importância do Órgão
Colegiado: é como se a Biblioteca pudesse funcionar absolutamente
sozinha, isolada...”

Dessa forma, verifica-se que os elementos que atribuíram relevância simbólica à
estrutura organizacional adotada pelo SIBI/UFAL, atendendo às exigências e expectativas
do

ambiente

institucional,

contribuíram,

num

primeiro

momento,

na

obtenção

legitimidade. A importância mitificada pode ser ilustrada por afirmações feitas tais como:
“Uma universidade sem biblioteca não é universidade”. “... sem
biblioteca nós não teremos cérebros preparados”. “... a biblioteca é o
cérebro da instituição universitária”.

de

�No entanto, a importância revelada no discurso dos dirigentes e nas normas não se
traduzem em ações correspondentes; são portanto ritualísticas, confirmando que estruturas
determinadas

isomorficamente,

desvinculação

entre

estruturas

embora
formais,

ofereçam
atividades

legitimidade,
e

podem

implicar

em

comportamento

cotidiano

dos

membros da organização (Meyer e Rowan, 1992).

4 O novo cenário
Muito já se tem comentado a respeito dos impactos das novas tecnologias de
informação e comunicação sobre as bibliotecas, desde as mudanças radicais no que se
refere a suporte, posse e oferta de serviços de informação: do papel para meios digitais e
magnéticos; do “possuir” para o “acessar” e do espaço físico para o espaço virtual até às
estratégias para a inserção do país na sociedade da informação.
Em estudo prospectivo onde tenta visualizar possíveis cenários para a biblioteca
universitária brasileira em 2010, Cunha (2000) afirma que a tecnologia da informação afeta
tanto as atividades acadêmicas como a natureza do empreendimento em educação superior,
com reflexos significativos para as bibliotecas. Entre as mudanças prenunciadas, enfatiza a
mudança estrutural (terceirização de serviços e foco no atendimento), o financiamento
(estabelecimento

de

consórcios

e

diversificação

de

fontes), os serviços (balcões

eletrônicos, apoio a programas de ensino à distância) e a diversificação de público
(ampliação da população atendida e novos formatos de cursos).
Diante das perspectivas e exigências da sociedade, a transição para a sociedade da
informação impõe novos desafios aos dirigentes de universidades e bibliotecas pois exige
convivência com modelos tradicionais, aperfeiçoamento de serviços e planejamento
consistente na busca da contemporaneidade da oferta de serviços de informação. Por um
lado porque, como afirma Targino (1995, p. 195), “em anos e anos de informação
multifacetada, não há registro de casos de extinção de veículos de comunicação em face do
surgimento de outros. Ocorrem, sim, mutações, adaptações e avanços”.

Por outro lado,

porque as condições infra-estruturais encontram-se em estágios bastante diferenciados
entre as diversas regiões do Brasil e as próprias instituições que atuam na área de
informação. No Quadro 1 delineiam-se as características dos dois modelos de produção no
domínio das unidades de informação, entre os quais se incluem as bibliotecas
universitárias.

�Quadro 1: Modelos Fordista e Pós-Fordista nas Unidades de Informação
Modelo fordista

Modelo pós-fordista

SERVIÇOS DE INFORMAÇ ÃO
Atendimento indiferenciado a um público homogêneo
Atendimento específico a públicos heterogêneos e
de interesses informacionais diversificados
Tratamento de informações em formatos e suportes
convencionais (livros e periódicos em papel)

Tratamento de informações em múltiplos formatos
e suportes (audiovisuais, multimídia, em meios
magnéticos e/ou digitais, além dos convencionais).
Informação como mercadoria chave para geração
de negócios
Ênfase no acesso à informação. Prioridade para a
ampliação das áreas temáticas. Função de eficácia

Informação como suporte para a formação
Ênfase na aquisição de grande volume de material
bibliográfico. Multiplicidade de exemplares. Função
assistencial
Acumulação de material bibliográfico de baixo uso
Catalogação manual, isolada, explosão bibliográfica x
ampliação de backlogs

Duplicação de recursos entre unidades similares
Subordinação a rubricas orçamentárias
Integração vertical

Maior rotatividade e diminuição do tempo útil do
material bibliográfico
Catalogação automatizada, cooperativa,
importação de registros bibliográficos catalogados
por grandes bibliotecas ou redes (Biblioteca
Nacional, Bibliodata, OCLC)
Formação de consórcios e redes para
compartilhamento de recursos
Subordinação aos interesses de pesquisa
Terceirização de tarefas técnicas e/ou mecânicas

TRABALHO
Indivíduo treinado em uma única tarefa
Indivíduo polivalente, particularmente no
atendimento aos usuários
Especialização na área técnica profissional
Valorização de conhecimentos complementares em
áreas de interface (computação, por exemplo) e em
campos de conhecimento específico
Ênfase na intermediação entre a informação e o usuário
Ênfase nos procedimentos auto-explicativos para
o acesso autônomo dos usuários à informação
Pouco ou nenhum treinamento no trabalho
Atualização permanente de habilidades no trabalho
ESPAÇO/ESTRUTURA
Unidades centrais e setoriais definidas
Espaço físico amplo para manter acervo em papel e
serviços tradicionais (circulação e empréstimo)
Unidades de informação referenciadas no espaço local
e nacional
Design estrutural tradicional (divisões, setores e
seções)

Unidades provedoras de informação posicionadas
em rede
Espaço físico para suporte de acesso e conexão a
fontes virtuais de informação
Unidades de informação referenciadas no espaço
global
Integração por processos, atividades

O atual contexto parece remeter para estruturas mais flexíveis, tematicamente
especializadas,

articuladas

em

redes

de

naturezas

diversas,

com

ênfase

no

compartilhamento de recursos e referenciadas a um universo informacional global,
apresentado graficamente na figura 3.

Universo
Administrativo

Figura 3 – Situação na década de 90. Tendência: Ação em redes

Administração
Central da IES

Relação Funcional
Relação Técnico-profissional

�Relação Hierárquica

5 Considerações finais
Nesta transformação social, política, cultural, institucional, ética e estética que
caracteriza a passagem do modelo fordista para o modelo pós-fordista é de se esperar que
repercussões nas estruturas e processos das organizações possam ser observadas.
O

pós-fordismo, baseado nos pressupostos fundamentais de pós-modernidade,

pluralidade e especificidade, exige reconhecer a diversidade e a congruência entre o global
e o local. Trata-se, portanto, da busca de soluções compatíveis com os diversos estágios em
que se encontram as bibliotecas universitárias. Por um lado, políticas e ações centralizadas
nas instâncias de normatização precisam levar em conta a capacidade de absorção das
diversas bibliotecas. Por outro, estas devem estar atentas à pertinência dos processos
isomórficos, evitando reprodução acrítica, mas favorecendo a adaptação criativa.
No caso de mudanças estruturais é importante extrapolar a dimensão formal,
representada pela forma burocrática de organização, isto é, o conjunto de regras e normas,
a diferenciação horizontal e vertical, relações de autoridade delineando padrões de
regularidade. Essa formalidade, na maioria das vezes, não corresponde ao cotidiano das
organizações onde a relação entre as pessoas assim como os processos ocorrem de maneira
mais aleatória, atribuindo sentido às determinações formais da estrutura e delineando
padrões de interação.

�Admitir que os indivíduos constroem sentidos significa admitir que agem de acordo
com sua interpretação dos elementos estruturais e que podem limitar ou ampliar o escopo
dos processos que ocorrem nas organizações, uma vez que as estruturas refletem também
valores e interesses individuais ou grupais. Portanto, passam a refletir também as relações
de poder que ocorrem entre indivíduos e grupos, levando a que as organizações possam ser
entendidas como instrumentos de poder. Assim sendo, as mudanças estruturais podem
decorrer de mudanças cognitivas dos membros, de alterações nas relações de poder e de
influências do ambiente (Ranson, Hinings e Greenwood, 1980).
A continuidade do direcionamento homogêneo das ações modernizantes, mediante
mecanismos isomórficos coercitivos, e a negligência às diversidades e especificidades
locais, em favor de práticas acriticamente mimetizadas, fortalecem o caráter formalístico
das estruturas, terminando por institucionalizar, na verdade, o “faz-de-conta”. Esta
evidência pode se tornar ainda mais grave frente ao cenário de transformações tecnológicas
que modelam a sociedade da informação, surgida no bojo do novo modelo de produção e
acumulação pós-fordista baseado na flexibilidade.
São estas reflexões que a análise ao nível organizacional pode gerar e, assim,
contribuir na compreensão da ação das universidades e suas unidades de bibliotecas na
sociedade de informação.

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