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BIBLIOTECA DIGITAL: caminhos de uma construção
RODRIGUEZ PEREZ, D.1
LIMA, P.2

RESUMO
Este trabalho pretende abordar as principais questões que devem nortear o
planejamento de uma biblioteca digital, desde a sua concepção, sua evolução a
aspectos técnicos e práticos. Apresenta uma visão conceitual de BD e as bases para
o projeto de sua criação, assim como os aspectos que devem ser considerados
nesse planejamento: custo/valor, sustentabilidade, confiabilidade, interoperabilidade,
persistência, usabilidade, objetos, metadados, serviços e proteção aos direitos à
propriedade intelectual. Alerta para a necessidade do desenvolvimento de
competências e habilidades do pessoal que trabalha com a BD. Destaca a
importância da preservação digital para a garantia da acessibilidade da informação
digital a longo prazo. Descreve estratégias que devem ser adotadas para a
manutenção e preservação da BD: padrões, metadados, migração, emulação,
encapsulamento, monitoramento de suportes e formatos, PDF, TIFF e XML. Analisa
questões dos direitos autorais na divulgação da informação no meio digital e cita
algumas iniciativas para minimizar essa problemática. Aponta fatores importantes
para a sobrevivência da BD e conclui citando o seu valor na comunicação do
conhecimento cultural e científico ao futuro.
Palavras-chave: Biblioteca digital. Acervos digitais. Planejamento de biblioteca
digital. Desenvolvimento de competências. Desenvolvimento de
habilidades.
Preservação
digital.
Metadados.
Migração.
Emulação. Encapsulamento: PDF. TIFF. XML. Direitos autorais.

ABSTRACT
This work intends to approach the main questions that must guide the planning of a
digital library from its conception, evolution to its technical and practical aspects. It
presents a conceptual view of the DL and the fundamentals of the project of its
creation, as well as the issues to be considered on its planning: cost/value,
sustentability, reliability, interoperability, persistency, usability, objects, metadata,
services and the protection to the intellectual property rights. It enhances the
necessity of the development of competencies and abilities of people who deal with
DL. It highlights the importance of the digital preservation for the guarantee of the

�2

digital information accessibility in a long term. It describes the strategies that must be
adopted for the maintenance and the preservation of the DL: patterns, metadata,
migration, emulation, encapsulation, monitoring of supports and formats, PDF, TIFF
and XML. It analyses the features of copyright in divulging the information in the
digital media and cites some initiatives to minimize that problem. It points out
important factors for the survival of the DL and reaches the conclusion about its value
on the communication of the cultural and scientific knowledge in relation to the future.
Keywords: Digital library. Digital collections. Digital library planning. Development of
competencies. Development of abilities. Digital preservation. Metadatas.
Migration. Emulation. Encapsulation: PDF. TIFF. XML. Copyright.

1 INTRODUÇÃO
O advento da Internet, a explosão da informação, a necessidade do
acesso rápido, da sua difusão e da sua democratização foram fatores decisivos no
surgimento do ambiente digital e na eclosão dos documentos digitais.
Há uma diversidade de conceitos atribuídos à BD (ANSARI, 2006;
DIGITAL..., 2004; SANTOS; BARRETO, 2007). Destaca-se a definição encontrada
em Toutain (2006, p. 16):
Biblioteca que tem como base informacional conteúdos em texto
completo em formatos digitais – livros, periódicos, teses, imagens,
vídeos e outros –, que estão armazenados e disponíveis para
acesso, segundo processos padronizados, em servidores próprios ou
distribuídos e acessados via rede de computadores em outras
bibliotecas ou redes de bibliotecas da mesma natureza.

O universo digital evoluiu, amadureceu e encontra-se em um terceiro
estágio, em que outros aspectos devem ser considerados para o êxito no
desenvolvimento

de

coleções

digitais,

como:

custo/valor,

sustentabilidade,

confiabilidade, interoperabilidade, persistência, usabilidade, objetos, metadados,
serviços

e

proteção

aos

direitos

à

propriedade

intelectual

(NATIONAL

INFORMATION STANDARDS ORGANIZATION, 2007). No entanto, o que se
observa nas definições é uma ênfase marcante no acesso aos serviços e ao
conteúdo, algumas vezes denominado coleções, documentos, informação ou objetos
de informação, segundo Seadle e Greifeneder (2007). Para esses autores, as
bibliotecas digitais ainda são muito jovens para serem definidas de forma
permanente. A maneira como pensamos nelas terá muito a ver como as futuras
gerações de bibliotecários conceituarão sua missão no mundo digital.

�3

Este trabalho pretende abordar as principais questões que devem nortear
o planejamento de uma biblioteca digital, desde a sua concepção, sua evolução a
aspectos técnicos e práticos.

2 PROJETO DA BIBLIOTECA DIGITAL
A biblioteca digital deve basear-se nos interesses dos usuários e fornecer
suporte na busca e na obtenção da informação de que necessitam (CUNHA, 2008,
p. 9). Cada instituição deve desenvolver seu projeto de BD indagando sobre a sua
viabilidade, os efeitos e conseqüências e as dificuldades da iniciativa. Se a resposta
for afirmativa, pode prosseguir no planejamento da BD. Para Cervone (2007, p. 3034), o projeto deve ser bem definido e seguir uma metodologia estruturada. Sugere a
estrutura utilizada pelo Project Management Institute (PMI), atualmente denominado
Project Management Body of Knowledge, aplicável a qualquer tamanho de projeto.
Sua base fundamental está definida em nove áreas: escopo, tempo, custo,
qualidade, recursos humanos, comunicações, risco, provimento de produtos e
serviços, integração. O sucesso de qualquer projeto, seja digital ou não, depende
principalmente dos critérios: o sistema deve ser aceito pelo cliente; deve expressar o
plano acordado e estar dentro do orçamento definido; e o seu desenvolvimento deve
ter o mínimo de impacto possível nas operações em andamento. The Digital Library
Federation (2004), estabelecida em 1995, define requisitos e padrões para a
formação de coleções digitais, abordando os aspectos já mencionados no item
anterior deste trabalho, que podem orientar, também, o planejamento de BDs.

2.1 Capacitação das Equipes
O processo de capacitação e de atualização das equipes envolvidas com
a BD deve ser contínuo para acompanhar a rapidez dos avanços da tecnologia
digital. Choi e Rasmussen (2006) realizaram um estudo como contribuição ao
desenvolvimento da educação para bibliotecários digitais, com os objetivos de
identificar as atividades desses profissionais, determinar as habilidades e o

�4

conhecimento exigido para a atuação nesse ambiente e buscar feedback para a
formação dos estudantes de biblioteconomia digital. O levantamento foi distribuído a
123 diretores de bibliotecas membros da Association of Research Libraries (ARL),
de setembro a dezembro de 2005, envolvendo tanto diretores, quanto outros
funcionários que trabalhavam em bibliotecas digitais, em serviços que não atendiam
ao público. Foram coletadas 48 respostas, de 39 bibliotecas.
Os resultados levaram às seguintes conclusões: bibliotecas digitais são o
futuro das instituições acadêmicas e de pesquisa; os programas de educação
profissional deverão fornecer, além do treinamento em bibliotecas tradicionais e
tarefas técnicas, a ênfase na gestão de projetos, incluindo tecnologias digitais, e a
prática em projetos digitais; deverão, ainda, desenvolver competências em relações
interpessoais, comunicação, integração e trabalho em equipe.

2.2 Preservação Digital
A

preservação

digital

compreende

a

capacidade

de

garantir

a

acessibilidade da informação digital, a longo prazo, com características de
autenticidade suficientes para que possa ser interpretada, no futuro, através de uma
plataforma tecnológica diferente da utilizada no momento da sua criação
(FERREIRA, 2008, p. 20).
Segundo Caplan (2008, p. 7), digitalização para preservação é um
conceito análogo ao tradicional campo da conservação e da preservação. Na
década de 1990, várias publicações, livros e jornais, foram microfilmados para
preservar e dar acesso ao seu conteúdo, evitando danificar os frágeis originais. Em
um período seguinte, de transição, o microfilme foi usado para preservar e a
digitalização, para dar acesso. Atualmente, apesar das controvérsias, a digitalização
tem sido proposta para preservação. A política de digitalização para preservação foi
endossada pela Association for Research Libraries, em julho de 2004.
De acordo com Sayão (2006, p. 127), ainda não há, e, provavelmente, no
futuro não haverá, uma estratégia única que seja capaz de resolver todos os
problemas que envolvem a preservação digital.

�5

Sabe-se que preservar não é apenas criar cópias dos arquivos digitais,
guardando-as para serem usadas no futuro. A preservação digital engloba
estratégias como o estabelecimento de padrões; a adoção de metadados para
preservação; o monitoramento de suportes e formatos; a migração (preservação da
presença física e do conteúdo do objeto digital); a emulação (criação de novo
software que emula o funcionamento do antigo hardware e/ou software em um
hardware

mais

moderno);

a

preservação

da

tecnologia

(preservação

de

equipamentos e programas para garantir o acesso aos objetos digitais no ambiente
que os originou); o encapsulamento (preservação de todas as informações, junto ao
objeto digital, necessárias ao desenvolvimento de conversores, visualizadores ou
emuladores, em um futuro longínquo (DIRECÇÃO..., 2008, p. 49)); entre outras
estratégias. Por todos esses motivos, a preservação digital é um dos maiores
desafios para a criação e manutenção de bibliotecas digitais. Destacam-se a seguir
as estratégias mais usadas:
a) Adoção de padrões – estabelece os padrões que orientarão a aplicação das
demais estratégias de preservação, levando em consideração o conteúdo, os
formatos e os suportes dos materiais digitais. Requerem monitoramento, visto que
se modificam, havendo necessidade da migração para novos padrões.
b) Adoção de metadados para preservação – define-se como metadados ou
metainformação a “informação sobre informação, ou mais especificamente dados
estruturados sobre informação capturada no sistema de arquivo”. São um conjunto
de elementos (atributos) que dão significado, contexto e organização ao objeto
digital, permitindo a produção, gestão e utilização dos documentos eletrônicos a
longo prazo (DIRECÇÃO..., 2008, p. 43-45). Por isso, são fundamentais na
preservação digital. Há diversos tipos de metadados: descritivos ou bibliográficos ou
de identificação, administrativos, estruturais, técnicos, de preservação, de controle e
direitos etc. Cada instituição deve optar pelos tipos que melhor atendam às
características e necessidades da sua BD, adotando os padrões para a descrição
desses metadados. Dentre os mais usados, como descritivos, citam-se o Dublin
Core, o MARC e o EAD (Encoding Archiving Description) que permite a descrição da
informação arquivística, de acordo com a General International Standard Archival
Description�)ISAD(G)).

�6

c) Monitoramento de suportes e formatos – estuda a funcionalidade, a
durabilidade dos suportes e os formatos dos arquivos digitais, bem como a
obsolescência dos softwares e hardwares necessários para garantir o acesso futuro
ao conteúdo dos mesmos.
A fragilidade e a obsolescência tecnológica são uma constante ameaça à
durabilidade dos suportes. De acordo com a Direcção... (2008, p. 26), com a
evolução dos suportes, desde 1970 – com a introdução dos cartões perfurados
seguidos das fitas cassetes (início de 1980), dos disquetes de 5,25 pol. (final de
1980) e 3,5 pol. (início de 1990), dos CDs (final de 1990), dos DVDs (início de 2000)
e dos HD-ROMs e Blue-Ray Disc (2005) –, observa-se que os suportes têm mudado
em um intervalo de aproximadamente 10 anos, fato que dificulta a manutenção dos
conteúdos digitais.
De acordo com Bodê (2006, p. 7), formato de arquivo é a forma e estrutura
como as informações estão gravadas nos documentos digitais. Cada formato tem
uma especificação técnica, que pode variar entre suas diversas versões (ex.: TIFF
5.0 e TIFF 6.0). Conhecer as especificações dos formatos é muito importante para a
implementação de ações de preservação digital. Há de se tomar cuidado com a
preservação de formatos proprietários, dependentes de determinado software,
pertencentes a entidades comerciais, que normalmente mantêm sob sigilo as suas
especificações técnicas, e estão sujeitos, ainda, à obsolescência dos softwares que
os originaram. Com o uso das técnicas de emulação e migração, é possível acessar
as informações de documentos gerados a partir de formatos proprietários. No
entanto, deve-se considerar que o uso desses processos pode infringir os direitos
autorais e as leis de software.
Já os formatos abertos, por possibilitarem o acesso ao seu detalhamento
técnico, tornam-se mais indicados para a preservação dos arquivos digitais,
facilitando o uso legal das técnicas de preservação digital.
O Tagged Image File Format (TIFF) foi desenvolvido em 1986 pela Aldus e
pela Microsoft, para ser utilizado como formato padrão para imagem digital.
Atualmente é controlado pela Adobe. As imagens resultantes são de alta definição e
qualidade,

podendo

ser

intercambiadas

e

lidas

por

diversos

softwares

�7

independentemente da plataforma de hardware. Esse formato tem sido muito
utilizado em projetos de digitalização de documentos para os arquivos mestre
(arquivos com alta qualidade e resolução para a preservação, reprodução e
derivação para outros formatos).
O Portable Document Format (PDF) foi desenvolvido pela Adobe Systems,
no início dos anos 1990, com o objetivo principal de trocar documentos. Trata-se de
um formato proprietário cuja especificação está aberta e disponível, e também é
usado para fins de preservação. Tendo em vista que o PDF não atende às
necessidades de preservação futura, um grupo de instituições como a NPES
(National Printing Equipment Association) e a AIIM (Association for Information and
Image Management) iniciou um movimento para a formulação de uma norma ISO
(International Standardization Organization) que determinasse as características do
formato PDF para a preservação. Nasce, assim, a ISO 19005-1:2005, Document,
management – Electronic document file format for long-term preservation – Part 1:
Use of PDF 1.4 (PDF/A-1). Desde então, o PDF/Archive (PDF/A) está sendo
apresentado como uma solução para o problema da preservação digital de longo
prazo e recuperação no futuro, devendo ser combinado com um programa
abrangente

de

gestão

dos

arquivos,

que

inclua

políticas

apropriadas

e

procedimentos bem implementados. A organização deve assegurar processos de
avaliação da qualidade dos documentos que estão sendo preservados (FANNING,
2008).
Algumas pesquisas sobre o assunto apontam o TIFF e o PDF/A como os
melhores formatos de preservação a longo prazo.
Os formatos dos arquivos de uma coleção digital devem variar de acordo
com o tipo de informação e com a finalidade do seu uso. Por exemplo, arquivos para
a preservação de imagens e texto podem ser no formato TIFF; arquivos para acesso
(recuperação em catálogos), nos formatos JPEG, PDF; arquivos de áudio, em MP3
= MPEG-1 Layer III; arquivos de vídeo, em AVI = Audio Video Interleaved ou
MPEG/MPG = Motion Pictures Expert Group (SAYÃO, 2007).
d) Migração – estratégia que consiste em copiar, converter ou transferir a
informação digital da infra-estrutura tecnológica que a sustenta – mídias, software,

�8

formatos e hardware – para uma mais atualizada. Atualmente é uma das estratégias
mais utilizadas na preservação (SAYÃO, 2006, p. 132-133).
e) XML (Extensible Markup Language) – linguagem de enriquecimento de
informação sobre estruturas e significado. Independe de plataforma de hardware e
software, sendo um padrão de tecnologia aberto, reconhecido internacionalmente e
recomendado pelo W3C (World Wide Web Consortium), que favorece a
interoperabilidade e pode ser usado como formato de criação de documentos. Pode,
ainda, ser considerada como uma estratégia de preservação digital por ser vista
como um tipo particular de migração (RODRIGUES, 2003, p. 60).
f) Autenticidade dos documentos digitais – autenticidade é a qualidade de
reconhecer a proveniência de um documento, independente da veracidade de seu
conteúdo (GLOSSÁRIO..., 2004). A autenticidade e a integridade dos documentos
digitais apóiam-se em técnicas como marca d’água, assinatura digital, certificação
digital, algoritmos verificadores etc. (SAYÃO, 2006, p. 123).
Este trabalho não tem a pretensão de detalhar esse assunto. As
abordagens relatadas até aqui podem ser sintetizadas em “Os dez mandamentos da
preservação digital”, idealizados a partir da experiência vivida pelo Arquivo Central
do Sistema de Arquivos da Unicamp, citados por Innarelli (2007, p. 39), por se
enquadrarem nos princípios de uma política de preservação de documentos digitais:
1 – Manterás uma política de preservação; 2 – Não dependerás de hardware
específico; 3 – Não dependerás de software específico; 4 – Não confiarás em
sistemas gerenciadores como única forma de acesso ao documento digital; 5 –
Migrarás seus documentos de suporte e formato periodicamente; 6 – Replicarás os
documentos em locais fisicamente separados; 7 – Não confiarás cegamente no
suporte de armazenamento; 8 – Não deixarás de fazer backup e cópias de
segurança; 9 – Não preservarás lixo digital; e 10 – Garantirás a autenticidade dos
documentos digitais.
Todas as discussões e problemas que envolvem a preservação digital
ainda estão longe de ter uma solução. Muitas das estratégias descritas
anteriormente esbarram em violação da Lei de Direitos Autorais, Lei de Software e
outras questões. A preservação digital é um assunto complexo e que necessita de
muita discussão e estudo por profissionais de diversas áreas, como bibliotecários,

�9

arquivistas, analistas de sistemas etc., cabendo aos primeiros, os profissionais da
informação, garantir a preservação para o acesso aos objetos digitais com todas as
suas características essenciais.

2.3 Direitos Autorais
Um dos maiores desafios na construção e manutenção de bibliotecas
digitais é a questão dos direitos autorais. No Brasil, os direitos autorais são
regulados pela Lei no 9.610, de 19.2.1998 (LDA/1998), que define direitos autorais
como “os direitos de autor e os que lhes são conexos” (BRASIL, 1998). “Entende-se
por direito [sic] conexos os direitos reconhecidos nos planos de autor, a
determinadas categorias que auxiliam na criação, na produção ou na difusão da
obra intelectual” (SANTIAGO, 2007, p. 28).
Segundo Gandelman (2007, p. 33):
O direito autoral apresenta fundamentalmente dois aspectos: o
moral, que garante ao criador o controle à menção de seu nome na
divulgação de sua obra e o respeito à sua integridade, além dos
direitos de modificá-la ou retirá-la de circulação; e o patrimonial, que
visa regular as relações jurídicas da utilização econômica das obras
intelectuais.

Também devem ser considerados os direitos subsidiários, que, de acordo
com Gandelman (2007, p. 48-49), estão relacionados aos diversos usos e
oportunidades de exploração comercial de obras ou criações intelectuais. Envolvem
as novas adaptações, inserção de obras originais a outros produtos e criações de
obras derivadas. “[...] Podemos acrescentar agora, já em plena era digital, as
possibilidades de publicação através da Internet (portais e sites), CD-ROM, DVD,
ringtones, sites de busca etc.” (GANDELMAN, 2007, p. 49).
O plágio é outro problema que tem sido muito discutido pelos autores,
editores, profissionais da informação e outros envolvidos com a divulgação de
informações no meio digital:
O plágio ocorre quando alguém – um estudante apressado, um
professor negligente, ou um escritor inescrupuloso – falsamente
reivindica como suas as palavras de outrem, sejam elas protegidas
pelo direito autoral ou não. No entanto, se a obra plagiada é
protegida pelo copyright, a reprodução não autorizada é também

�10

uma forma de violação de direito autoral (GOLDSTEIN, 1996, apud
GANDELMAN, 2007, p. 101).

Já existem técnicas para a detecção automática de plágio no ambiente
digital que podem ser aplicadas pelos gestores de bibliotecas digitais. “Aplicando
essas técnicas, as Bibliotecas Digitais, em vez de estimularem o plágio, poderão
tornar-se importantes meios para inibi-lo e detectá-lo” (OLIVEIRA et al., 2007).
As possibilidades de copiar, manipular, distribuir, apropriar-se de
documentos ou outros objetos digitais no ambiente digital tendem a facilitar a
violação dos direitos autorais. De acordo com Gandelman (2007, p. 180), “os direitos
autorais continuam a ter sua vigência no mundo online, da mesma maneira que no
mundo físico. A transformação de obras intelectuais para bits em nada altera os
direitos das obras originalmente fixadas em suportes físicos”.
Outro direito que não pode ser negligenciado é o do acesso à informação:
A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 estabelece
que “Toda pessoa tem direito a liberdade de opinião e expressão”.
Este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de
procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer
meios, independente de fronteiras (SANTIAGO, 2007, p. 43).

Diante desse cenário, deve-se encontrar um equilíbrio que garanta o
cumprimento dos direitos do autor, com uma compensação mais justa à realização
do seu trabalho, para a produção de novas informações e conhecimentos e o acesso
à informação a fim de satisfazer os usuários nas suas demandas de pesquisa,
podendo

auxiliar

na

produção

de

mais

informação

e

contribuir

para

o

desenvolvimento do conhecimento.
O conhecimento humano desenvolve-se respaldado na descoberta
anterior. Essa necessidade criou no homem o constante retorno à
sua própria criação. (...) A acessibilidade é o que mantém, facilita e
aprimora esse retorno ao que foi criado (MILANESI, 2002 apud
SANTIAGO, 2007, p. 32).

Em meio a todas essas questões, como manter os acervos das bibliotecas
digitais atualizados e garantir o acesso às informações e o cumprimento dos direitos
dos autores?
Existem algumas iniciativas que podem minimizar esse dilema, tais como:

�11

a) Creative Commons (Criatividade Pública) – projeto lançado em 2001 pelo
professor Lawrence Lessig, da Universidade de Stanford, com o intuito de
disponibilizar gratuitamente ao público um maior número de obras, através do
estabelecimento de licenças em que os autores definem as formas de uso de suas
obras (permissão ou não da utilização para uso comercial, alterações no conteúdo,
criação de obras derivadas etc.). O Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de
Direito da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, é o responsável pela gestão
do Creative Commons Brasil.
b) Open Archives (Arquivos Abertos) – repositórios digitais baseados no protocolo
Open Archives Initiative Protocol for Metadata Harvesting (OAI-PMH), normalmente
de acesso livre, que permitem aos pesquisadores publicarem e divulgarem trabalhos
científicos, produzidos nas universidades e centros de pesquisas, via web
(TOUTAIN, 2006; GLOSSÁRIO..., 2004).
c) Sistema CORDS – CORDS (Copyright Office Electronic Registration, Recordation
on Deposit System): sistema utilizado pela Biblioteca do Congresso dos Estados
Unidos, que permite aos autores fazerem o registro e depósito de suas obras no
formato digital pela Internet.
Os profissionais que lidam com a biblioteca digital deverão ter
conhecimento das leis que regem os direitos autorais e de uso de softwares para
que possam exercer o papel de mediadores da informação, buscando alternativas
que facilitem o acesso à informação no meio digital e estabelecendo negociações
com os detentores desses direitos.

3 CONCLUSÃO
Em face da natureza dos objetos que compõem a biblioteca digital, sua
sobrevivência requer o monitoramento constante dos fatores essenciais à sua
sustentabilidade, destacando-se:
a) revisão constante do Planejamento da BD, em função dos padrões, da tecnologia,
dos recursos orçamentários e humanos. O desenvolvimento da BD depende de boas
práticas e da experimentação;

�12

b) capacitação constante das equipes que atuam na BD para acompanhar os
desafios do emergente mundo digital;
c) definição e atualização da Política de Preservação da BD, em virtude das
mudanças tecnológicas, dos recursos orçamentários, humanos etc. Para assegurar
a autenticidade, a integridade, a interpretabilidade, a acessibilidade e o contexto do
material digital, a preservação deve estar no coração de qualquer BD; e
d) respeito às legislações de direitos autorais e de software.
O valor da biblioteca digital concentra-se na habilidade de comunicar
nosso conhecimento cultural e científico ao futuro (ROSS, 2007).

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�13

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Dolores Rodriguez Perez, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, dolores@dbd.puc-rio.br.
Patrícia Lima, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, patricia@dbd.puc-rio.br.

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              <text>Este trabalho pretende abordar as principais questões que devem nortear o planejamento de uma biblioteca digital, desde a sua concepção, sua evolução a aspectos técnicos e práticos. Apresenta uma visão conceitual de BD e as bases para o projeto de sua criação, assim como os aspectos que devem ser considerados nesse planejamento: custo/valor, sustentabilidade, confiabilidade, interoperabilidade, persistência, usabilidade, objetos, metadados, serviços e proteção aos direitos à propriedade intelectual. Alerta para a necessidade do desenvolvimento de competências e habilidades do pessoal que trabalha com a BD. Destaca a importância da preservação digital para a garantia da acessibilidade da informação digital a longo prazo. Descreve estratégias que devem ser adotadas para a manutenção e preservação da BD: padrões, metadados, migração, emulação, encapsulamento, monitoramento de suportes e formatos, PDF, TIFF e XML. Analisa questões dos direitos autorais na divulgação da informação no meio digital e cita algumas iniciativas para minimizar essa problemática. Aponta fatores importantes para a sobrevivência da BD e conclui citando o seu valor na comunicação do conhecimento cultural e científico ao futuro.</text>
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