<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<item xmlns="http://omeka.org/schemas/omeka-xml/v5" itemId="4601" public="1" featured="1" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance" xsi:schemaLocation="http://omeka.org/schemas/omeka-xml/v5 http://omeka.org/schemas/omeka-xml/v5/omeka-xml-5-0.xsd" uri="http://repositorio.febab.libertar.org/items/show/4601?output=omeka-xml" accessDate="2026-04-20T15:36:45-07:00">
  <fileContainer>
    <file fileId="3671">
      <src>http://repositorio.febab.libertar.org/files/original/41/4601/BiblioteconomiaSocial.pdf</src>
      <authentication>4760481b9a0d285c3462d55512ae3728</authentication>
      <elementSetContainer>
        <elementSet elementSetId="4">
          <name>PDF Text</name>
          <description/>
          <elementContainer>
            <element elementId="92">
              <name>Text</name>
              <description/>
              <elementTextContainer>
                <elementText elementTextId="51219">
                  <text>0

[Ano]

�1

BIBLIOTECONOMIA SOCIAL:
POSSÍVEIS CAMINHOS PARA
CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

�2

JORGE SANTA ANNA
EDCLEYTON BRUNO FERNANDES DA SILVA
MARIA ELIZABETH DE OLIVEIRA COSTA
(Organizadores)

BIBLIOTECONOMIA SOCIAL: POSSÍVEIS
CAMINHOS PARA CONSTRUÇÃO DA
CIDADANIA

Belo Horizonte
ABMG
2018

�3

© 2018 Jorge Santa Anna
2018 Editora ABMG
Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização
escrita dos autores.
COMISSÃO AVALIADORA:
- Professor Mestre Jorge Santa Anna – Universidade Federal do Espírito Santo
- Professor Mestre Edcleyton Bruno Fernandes da Silva – Universidade Federal da Paraíba
- Bibliotecária Mestra Maria Elizabeth de Oliveira Costa – Universidade Federal de M.
Gerais
NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA: Jorge Santa Anna
REVISÃO TEXTUAL E NORMALIZAÇÃO ORTOGRÁFICA: Jorge Santa Anna
PROJETO GRÁFICO E FORMATAÇÃO DA CAPA: Norma Padrão - Apresentação e divulgação
do trabalho científico
MONTAGEM DA CAPA: Norma Padrão
PRODUÇÃO GRÁFICA: Norma Padrão
ASSOCIAÇÃO DOS BIBLIOTECÁRIOS DE MINAS GERAIS - ABMG
Rua dos Guajajaras, 410, Centro - Belo Horizonte, MG - CEP: 30180-912. Edifício Rotary,
Sala 608
Presidenta: Maria Elizabeth de Oliveira Costa
Demais membros: Jorge Santa Anna, Edcleyton Bruno Fernandes da Silva, Andrea
Brandão, Graciane Borges, Taciane Rodrigues e Maria Clea Borges

�4

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a todos os envolvidos nas atividades de desenvolvimento desta obra, sobretudo
os que acreditaram em registrar os conteúdos textuais manifestados ao longo das seções deste
livro, tais como organizadores, autores, revisores, normalizadores e prefaciadores.

A todos os membros da Associação de Bibliotecários de Minas Gerais, gestão 2018-2021.
À Norma Padrão – Apresentação e Divulgação do Trabalho Científico pelas disposições
gráficas realizadas na capa e contracapa da obra.

À Biblioteca Pública do Estado de Minas Gerias, especificamente às bibliotecárias Alessandra
Gino e Fátima Falci, pela criação dos registros catalográficos.

À Escola de Ciência da Informação, da Universidade Federal de Minas Gerais,
especificamente ao Centro de Extensão pela contribuição em oportunizar o evento de
lançamento do livro e, também, aos alunos Andreza Gonçalves, Jéssica de Sá e Vinicius
Alves dos Santos, pela organização e monitoria nesse momento.

A todos os bibliotecários e bibliotecárias do Brasil pelo incentivo e pelas energias positivas
manifestadas nas redes sociais e/ou em outros canais de comunicação/divulgação, no decorrer
do desenvolvimento deste trabalho.

Nosso muito obrigado!

Os organizadores

Belo Horizonte, 20 de dezembro de 2018.

�5

“A informação é o insumo capaz de transcender paredes, horizontes e
contextos, promovendo a transformação de pessoas, instituições e da
própria sociedade” (MCGARRY, 1999).

�6

PREFÁCIO

Fiquei surpresa e imensamente feliz ao receber o convite do bibliotecário Jorge Santa
Anna, que, junto a Edcleyton Bruno Fernandes da Silva e Maria Elizabeth de Oliveira Costa,
idealizaram o livro Biblioteconomia social: possíveis caminhos para construção da
cidadania, publicado pela Associação de Bibliotecários de Minas Gerais (ABMG). Senti-me
lisonjeada e agradecida, até porque essa é uma responsabilidade nunca antes a mim atribuída.
O livro é fruto de um belo e instigante trabalho realizado por uma nova geração de
pesquisadores de Biblioteconomia, Ciência da Informação e áreas afins, no qual estão
envolvidos professores, alunos e bibliotecários dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo,
Santa Catarina, Rio de Janeiro, Paraíba, Ceará, Bahia, Pernambuco e Amazonas que se
debruçaram sobre a temática da Biblioteconomia Social.
O livro está dividido em quatro partes e subdivido em vinte capítulos, abordando
temas ligados à Biblioteconomia Social e à utilização da leitura, como meio transformador
nos diferentes espaços físicos e contextos da sociedade, objetivando a democratização do
acesso à informação como forma de conscientizar o cidadão, visando minimizar as
desigualdades sociais.
Aliando teoria à prática bibliotecária, os autores buscam promover reflexões nos
âmbitos cultural, político e social, propondo mudanças de cunho comportamental que possam
vir a colaborar significativamente para estimular e transformar as pessoas.
As experiências aqui apontadas sinalizam que há possibilidade de proporcionar o bemestar da sociedade, por meio de contribuições da Biblioteconomia para além das instituições,
sejam elas públicas ou privadas, com ações e práticas voltadas aos diferentes cenários da
sociedade como hospitais, periferias, presídios, centros urbanos, dentre outros.
Adotar uma postura pró-ativa e engajar-se em questões voltadas a promover políticas
públicas que possam garantir apoio e maiores investimentos financeiros, que transcendam os
espaços físicos das bibliotecas, têm sido um constante desafio para os bibliotecários que,
mesmo diante de todas as adversidades enfrentadas no seu cotidiano, não se deixam abater.
E quanto a você, o que tem feito nesse sentido?

Valéria Rodrigues de Oliveira Pozzatti
Bibliotecária. Mestre em Biblioteconomia pela
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UniRio

�7

SUMÁRIO

REFLEXÕES INICIAIS ........................................................................................................ 11
PARTE I - BIBLIOTECONOMIA SOCIAL: UM FENÔMENO OBSCURO À
REALIDADE BRASILEIRA ................................................................................................ 13
Capítulo I - Biblioteconomia e sociedade: resgatando o pensamento de Jesse Shera .............. 14
Capítulo II – O bibliotecário escolar e o incentivo à leitura: a contação de histórias como
prática educativa ....................................................................................................................... 23
Capítulo III - Empreendedorismo social na Biblioteconomia: análise da atuação bibliotecária
em ações com foco na agenda 2030 ......................................................................................... 36
Capítulo IV - O papel da biblioteca comunitária como instrumento de inclusão social .......... 53
PARTE

II

-

BIBLIOTECAS

TRANSFORMADOR

DA

NO

LEITURA

FOMENTO
EM

À

LEITURA:

DIFERENTES

O

PODER

CONTEXTOS

DA

SOCIEDADE .......................................................................................................................... 69
Capítulo V – Quarta da contação: histórias contadas por crianças. ..........................................70
Capítulo VI - Implantação de bibliotecas em terminais urbanos da grande Vitória-ES: um
relato de caso ............................................................................................................................ 82
Capítulo VII - Letramento informacional em bibliotecas: para além do processo de
alfabetização ........................................................................................................................... 104
Capítulo VIII - Leitura como processo de integração entre a subjetividade do leitor e o
contexto sócio-histórico.......................................................................................................... 113
Capítulo IX - Sistema de bibliotecas da Universidade Federal de Minas Gerais: criação do
espaço de leitura para o lazer no ambiente universitário ........................................................ 125
PARTE III - A BIBLIOTECONOMIA EM ESPAÇOS E CONTEXTOS DE
VULNERABILIDADE......................................................................................................... 138
Capítulo X - Projeto de instalação do espaço de leitura em clínica pediátrica de Hospital
Universitário ........................................................................................................................... 139
Capítulo XI - O bibliotecário no contexto do encarceramento: das instituições escolares aos
presídios .................................................................................................................................. 150

�8

Capítulo XII - Práticas informacionais de presas gestantes do Centro de Referência a Gestante
Privada de Liberdade do município de Vespasiano-MG: um relato de experiência .............. 173
Capítulo XIII – Remição de pena pela leitura: o lugar da Biblioteca Prisional no processo de
ressocialização ........................................................................................................................ 188
Capítulo XIV - A função da biblioteca comunitária nas regiões inacessíveis ao conhecimento
................................................................................................................................................ 203
capítulo XV - “O essencial é invisível aos olhos”: Sala Braille da Biblioteca Pública de Lagoa
Santa-MG ............................................................................................................................... 215
Capítulo XVI - A informação utilitária como um direito do cidadão: das bibliotecas públicas
aos centros de referências ....................................................................................................... 227
Capítulo XVII - O papel social da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais: uma
biblioteca para todos ............................................................................................................... 241
PARTE IV - PRÁTICAS BIBLIOTECÁRIAS EM FACE DO MOVIMENTO
ASSOCIATIVO .................................................................................................................... 254
Capítulo XVIII - Por uma sociedade mais justa e igualitária: o papel do movimento
bibliotecário na democratização do conhecimento ................................................................. 255
Capítulo XIX - Vivências e práticas no âmbito do Conselho Regional de Biblioteconomia. 268
Capítulo XX - Participação no movimento associativo: Associação de Bibliotecários de Minas
Gerais e o seu grande desafio ................................................................................................. 283
À GUISA DE CONCLUSÕES - BIBLIOTECONOMIA SOCIAL: O FUTURO EM
PERSPECTIVA .................................................................................................................... 304
312
DADOS BIOGRÁFICOS ................................................................................................... 3112

�9

REFLEXÕES INICIAIS

Jorge Santa Anna
Edcleyton Bruno Fernandes da Silva
Maria Elizabeth de Oliveira Costa

A trajetória histórica da área de Biblioteconomia - seja no contexto brasileiro quanto
internacional – tem revelado o desenvolvimento e contribuição das práticas profissionais
realizadas por bibliotecários nos mais diferenciados contextos e instâncias.
Dentre as diversas atividades biblioteconômicas realizadas, consideramos de extremo
valor para a sociedade contemporânea, os projetos interventivos realizados em prol da
sociedade, por meio de um campo denominado de Biblioteconomia Social.
Portanto, apresentamos à comunidade científica/profissional esta obra, a qual tem o
intuito de discorrer alguns desses projetos desenvolvidos ou discursos proferidos pelos
bibliotecários que acreditam no potencial da área para a construção de uma sociedade mais
justa, cidadã e igualitária.
Os projetos e discursos apresentados neste livro são aqueles que, na maioria das vezes,
permanecem obscuros aos olhos da sociedade, uma vez que acabam ficando “engavetados”
nas instituições, carecendo de uma maior visibilidade.
A ideia em formalizar este compêndio de textos é uma iniciativa da atual diretoria da
Associação de Bibliotecários de Minas Gerais (ABMG), que - inquieta pela falta de
divulgação dessas atividades – propôs esse empreendimento, de modo a fortalecer a função
social e política do bibliotecário e da biblioteca em uma sociedade que busca pelo
desenvolvimento sustentável ao longo do século XXI.
Consideramos que a ideia em publicitar este livro está em consonância com os
esforços realizados em prol do desenvolvimento sustentável, conforme Agenda 2030 da
Organização das Nações Unidas e que foi aderida pela Federação Internacional de
Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA). Assim, bibliotecas e bibliotecários, por meio
dos projetos sociais, interferem na melhoria da qualidade de vida das pessoas, possibilitando o
exercício da cidadania a todas as classes sociais, sobretudo as minorias.
O livro tem a pretensão de fundir teoria e prática, o que possibilitou a participação de
pesquisadores e profissionais de vários estados brasileiros. Os estudos aqui apresentados é
fruto das experiências vivenciadas pelos autores, ou projetos gerenciados dentro e foras das

�10

bibliotecas, como também, envolvem discursos teóricos que propiciam o fortalecimento do
campo social na área biblioteconômica.
Com efeito, a obra está composta por vinte capítulos, distribuídos em quatro seções, as
quais mencionam, sequencialmente: 1 – o campo da Biblioteconomia Social; 2 – os projetos
de leitura nos mais diferenciados contextos; 3 – projetos interventivos que possibilitam
melhorias nas vidas das pessoas; e 4 – práticas bibliotecárias no âmbito político, que
viabilizam o fortalecimento da classe e da sociedade, em geral.
Esperamos que este livro desperte aos leitores uma maior aproximação com o campo
da Biblioteconomia Social, de modo a fortalecê-lo, tanto na formação quanto na vivência
profissional. Além disso, é almejado o desejo de que toda a sociedade reconheça o potencial
desse campo, sobretudo os agentes governamentais, no intuito de que sejam elaboradas
políticas públicas direcionadas a possibilitar a expansão dos projetos sociais realizados pela
Biblioteconomia, rumo a uma sociedade mais democrática, inclusiva, participativa e cidadã.

�13

PARTE I

Biblioteconomia
Social: um fenômeno
obscuro à realidade
brasileira

�14

CAPÍTULO I
BIBLIOTECONOMIA E SOCIEDADE: RESGATANDO O PENSAMENTO DE JESSE
SHERA

Jorge Santa Anna

1 INTRODUÇÃO

A preocupação social constitui um dos principais objetivos das ciências e das profissões,
sobretudo àquelas que se desenvolveram e convergem princípios e valores de acordo com as
mudanças da contemporaneidade. O discurso científico, filosófico, político e profissional se
desenvolvem pela e para a sociedade, não sendo possível, portanto, dissociá-los, nem, tampouco,
pensar em estabelecer concepções antagônicas entre eles.
A historiografia do conhecimento científico e filosófico nos mostra claramente essa
indissociabilidade, estando essa tendência originada em nossos primórdios. Essa preocupação se
acentua ainda mais, com a expansão do conhecimento científico e tecnológico, e os possíveis
impactos oriundos dessa evolução, sobretudo com as grandes revoluções dos últimos séculos, tais
como Revolução Francesa e Industrial, que implementaram novos modelos de produção, consumo e
circulação de capital na sociedade.
Esse modelo implantado intensifica o debate acerca da relação entre o que se cria e para
quem, promovendo, por conseguinte, um campo fértil destinado às disputas de poder, como
também, os reflexos desse sistema aos indivíduos, o que consolida um discurso amplo em prol das
desigualdades sociais. Grandes pensadores, ao longo de suas vivências, tal como Foucault,
Durkheim, Bourdieu, Marx, dentre muitos outros comungavam dessa ideia, colocando em debate os
conflitos, as forças, os interesses e demais condições que, em conjunto, acabavam por denunciar
injustiças e propor explicações para a pacificação do sistema.
Foucault (1972), por exemplo, nos traz indícios de que a sociedade se evolui à medida que o
conhecimento científico é descoberto e utilizado, para propósitos e benefício da própria sociedade.
Logo, a concepção filosófica sustenta a ciência, que, por sua vez, reflete na vivência social,
remodelando o fazer profissional e beneficiando indivíduos e instituições.
Pensar o lado social da ciência e das profissões, portanto, é uma necessidade emergente,
visto que toda e qualquer profissão coloca-se a serviço de uma causa, de modo a beneficiar, de

�15

imediato, um grupo de envolvidos. Ao mesmo tempo, entender a realidade social constitui um
primeiro passo na resolução de problemas sociais, visto que, é por meio deste entendimento que
alternativas podem ser pensadas, para apaziguar ocorrências mais impactantes.
Os filósofos citados nos deixaram um legado triunfal, rumo a uma sociedade que, mesmo,
ilusoriamente, poderíamos considerar de “sociedade sem conflitos”. Compreender os reflexos da
Revolução Industrial e os meios de produtividade seria, portanto, uma forma para explicar
tendências ao suicídio, como atestou Marx (2006). Outro exemplo dessa relação envolve, por
exemplo, a liberdade de escolhas, e a formação de grupos e contextos específicos, que
compartilham crenças e hábitos em comum, conforme proposto na teria bourdiana (BOURDIEU,
1983).
Acreditamos que compreender essas relações firmadas entre profissão e sociedade é de suma
importância para levantar denúncias sociais, como também propor melhores condições de vida,
tanto para profissionais envolvidos com uma causa, como também aos cidadãos, de uma forma
geral. Isso, provavelmente, tende a desencadear a consolidação dos direitos humanos e a promoção
de uma sociedade cada vez mais democrática.
Na área da Biblioteconomia, por exemplo, reforçamos a ideia de que a preocupação com o
social precisa inserir-se no cotidiano dos profissionais, como também deve fazer parte do
fundamento teórico e prático dessa ciência. Isso se justifica pelo fato de que, durante muito tempo,
o discurso que sustentou essa área esteve pautado em um tecnicismo exacerbado, o que provocou o
afastamento com as causas humano-sociais.
A concepção humanista da Biblioteconomia, certamente, é impulsionada com a Escola de
Chicago, em meados do século XX, nos Estados Unidos, para a qual destaca-se como ícone nesse
pensamento Jesse Shera, formado em Biblioteconomia, possuidor de uma habilidade impressionante
no ato de catalogar, mas que, não perdeu a sua vocação para as Ciências Sociais e Humanas. Esse
olhar social proposto pelo teórico promoveu um viés mais humanizado aos registros do
conhecimento e, portanto, uma preocupação com o uso desses na sociedade, abrindo novas
possibilidades de se redefinir as práticas bibliotecárias, muito além dos registros e dos acervos,
fortalecendo a participação dessa área no desenvolvimento da sociedade.

�16

2 ALÉM DOS LIVROS E DAS BIBLIOTECAS: RESGATANDO O PENSAMENTO DE
JESSE SHERA

Jesse Hauk Shera nasceu no ano de 1903, em Oxford, Ohio, Estados Unidos. Filho de
camponeses, destacou-se muito na prestação de serviços de catalogação na Biblioteca Universitária
de Chicago, o que o impulsionou a graduar-se nessa área, exercendo inúmeras contribuições,
também, ao Instituto Americano de Documentação, mais tarde denominado de Sociedade
Americana de Cientistas da Informação (ENCICLOPÉDIA, 2007).
A atuação intensificada com a Biblioteconomia, seja no fazer profissional, quanto aos
estudos científicos que desenvolveu, ao longo do tempo, fez-lhe adquirir reconhecimento entre os
profissionais e estudiosos da área, sobretudo por impulsionar a corrente humanista, a qual sustentou
a Biblioteconomia norte-americana, e que muito contribuiu para o desenvolvimento dos estudos
sociais.
Figura 1 – Shera, defensor da corrente humanista na área da Biblioteconomia

Fonte: Enciclopédia (2007).

O engajamento desse profissional, pesquisador e escritor fortaleceu a desvinculação da área,
tão somente, à concepção tecnicista, preocupada com questões técnicas e operacionais. Contribuiu
para instigar os primeiros estudos sobre uso de sistemas automatizados por humanos, além de
práticas no serviço de referências nas bibliotecas. Segundo esse teórico, qualquer que seja o

�17

objetivo da biblioteca, do bibliotecário e dos registros que são construídos, tudo deve ser feito para
uso na sociedade (SHERA, 1976).
O conhecimento e o interesse nos estudos da Sociologia permitiram ao autor fundir o fazer
bibliotecário, comumente realizado em bibliotecas, com as questões sociais, em que o centro das
atenções deixa de ser a biblioteca, os acervos e coleções, para ser os problemas sociais e a
contribuição desses fazeres para melhoria da vida dos indivíduos, discurso esse que permitiu
atribuir à Shera uma denominação muito mais ampla, dita por muitos como “sociólogo do
conhecimento” (BUDD, 2002).
Defendendo a necessidade de maior fundamentação da área, mediante o diálogo com a
Epistemologia Social, propõe a abrangência do fazer às diversas instâncias da sociedade, em que a
proposta bibliotecária precisa ir muito além, extravasando os muros das instituições. Assim, o
objetivo que precisa operar “[...] é aumentar a utilidade social dos registros gráficos, seja para
atender à criança analfabeta absorta em seu primeiro livro de gravuras, ou um erudito absorvido em
alguma indagação esotérica [...]” (SHERA, 1977, p. 11, grifo nosso).
Constata-se que o pensamento de Shera (1977) reflete uma reconfiguração da área, de modo
a complementá-la. Envolve todas as alternativas possíveis para que o conhecimento seja acessado e
utilizado pelo homem, no intuito de que possam ser estabelecidas melhores condições de vida.
[...] Portanto, se a Biblioteconomia deve servir à sociedade em toda extensão de suas
potencialidades, deve ser muito mais do que um monte de truques para encontrar um
determinado livro numa estante particular, para um consulente particular. Certamente é isso
também, mas fundamentalmente Biblioteconomia é a gerência do conhecimento. Por isso,
estes novos mecanismos projetados para manipular conhecimentos a fim de que o homem
possa alcançar melhor compreensão do universo no qual se encontra, são de especial
interesse para o bibliotecário [...] (SHERA, 1977, p. 11, grifo nosso).

Nesse diálogo, salienta-se que o papel do bibliotecário vai além da mediação, visto que esse
profissional, em conjunto com as propostas da instituição, demonstra aos usuários, por meio da
disseminação do conhecimento, a compreensão da evolução histórica, das transformações sociais, o
que evidencia, por meio desse reconhecimento, encontrar possíveis soluções aos conflitos sociais.
A evolução das bibliotecas revela que essas unidades foram se desenvolvendo ao longo do
tempo, a ponto de que, nos dias atuais, elas deixaram de ser repositório restrito de conhecimento e
passaram a ser centros de propagação do conhecimento, tendo como foco fornecer indícios para o
desenvolvimento individual, cultural e social.
Nosso sociólogo do conhecimento reforça a multiplicidade das funções atribuídas ao
bibliotecário e à biblioteca, na sociedade moderna, em que predominam as funções de apoio a
diversas instituições, como: “[...] empresas e organizações industriais, o sistema educacional em
todos os níveis, a cultura popular e o crescente movimento para auto-educação [...]” (SHERA, 1973,

�18

p. 88, tradução nossa). Ademais, o bibliotecário tem o compromisso com o uso do conhecimento
pelos humanos, o que envolve um contexto altamente complexo, problemático e que requer um
engajamento extrínseco à biblioteca. Assim, esse profissional precisa ser “[...] o mediador entre o
homem e livro, onde livro é um termo genérico que inclui todos os registros gráficos, e é sua
especial responsabilidade de operar nessa associação complexa de registro e mente humana
[...]” (SHERA, 1973, p. 88, tradução nossa, grifo nosso).
Destaca-se, na filosofia de Shera, as ações desenvolvidas em ambientes mais distantes da
sociedade, ou contextos que requerem uma intervenção mais acentuada, seja por parte do
profissional, quanto dos envolvidos com a gestão social. Nessa seara, a Biblioteconomia e todo o
seu corpus de conhecimento teórico e metodológico tornam-se agentes da democracia, “[...]
alcançando sua influência até mesmo aos desprivilegiados e socialmente desfavorecidos, mas
sempre foi uma parte do tecido da sociedade, refletindo as atitudes, valores e objetivos da cultura
que a apoiava” (SHERA, 1973, p. 88, tradução nossa).
A abrangência das práticas biblioteconômicas é alcançada por meio de uma discussão mais
profunda, em que pese os fundamentos propostos pelas ciências sociológicas e epistemológicas, tais
como a Epistemologia Social (SHERA, 1977). Essa disciplina condiciona argumentos que
fundamentam as pesquisas e, por decorrência, tendem a redefinir os fazeres dos profissionais, com
vistas a garantir a universalização/democratização do conhecimento e a aplicação desse para uso
junto às questões sociais.
A busca por uma sociedade democrática se manifesta por meio do acesso à informação e ao
conhecimento. Essa afirmação é praxe em diversas áreas do conhecimento e é consenso entre
especialistas e gestores de instituições. A Biblioteconomia ganha espaço nesse contexto, sobretudo
com o papel social atribuído à área e às unidades e serviços de informação. E esse espaço é
alcançado, principalmente, com o uso de equipamentos e serviços tecnológicos que passam a ser
ofertados à comunidade, criando uma relação mais próxima entre instituição e usuários, como
relatado por Shera (1972).
A reconstrução ou embasamento científico e pragmático da área passa pela questão social e
requer uma discussão que permeie o ambiente científico, educacional e profissional. A união desses
agentes e a consideração de diferentes contextos em que o conhecimento é gerado e disseminado
precisam ser o sustento da área, para que o compromisso social se manifeste. Portanto, trata-se de
um processo que se complementa pela ação conjunta, levando em conta as formas com que o
conhecimento é coordenado, integrado e colocado a funcionar (a praticidade do conhecimento na
vivência social). E, na maioria das vezes, esse processo é complexo, visto que há barreiras a serem
superadas, uma vez que existem forças ou pressões específicas de um dado local, ou seja, forças

�19

intelectuais, regidas por interesses próprios, que acabam por modelar as estruturas e as instituições
sociais (SHERA, 1972).
As forças intelectuais, na maioria das vezes, impregnadas sob um viés cultural e politizado,
acabam por gerar relações hierárquicas, em que há predominância de domínio do poder,
promovendo diferenças e exclusões. Manifestam-se, nesse âmago, uma sociedade que adestra
determinadas concepções, ou seja, uma sociedade disciplinar, em que são construídas, legitimadas e
seguidas regras pré-estabelecidas, conforme discorrido por Foucault (1979).
Essas relações representam uma forma de controle social, por um lado, mas podem ser
compreendidas, por outro, como manifestação para geração de privilégios. É nessa segunda questão
que o comprometimento social da Biblioteconomia e demais áreas das Ciências Sociais encontra
respaldo, ou melhor, essas ciências manifestam-se como denunciadoras da realidade e
emancipadoras dos sujeitos. Como emancipação do sujeito, a Biblioteconomia muito contribui,
mediante a oferta do conhecimento às pessoas, independente do contexto ou realidade a que se
inserem, o que evidencia a responsabilidade da área com a prática cidadã.
Além dos conflitos sociais existentes na sociedade e as diferentes causas de geração, há de
se considerar, também, as especificidades oriundas da cultura. A cultura é elemento fundamental
para formação da sociedade. Representa, ainda, um estimulador à democracia e liberdade de
expressão. Portanto, o estudo e/ou intervenção da Biblioteconomia nos contextos sociais deverão
considerar as interferências culturais nesses ambientes, respeitando-se as diferenças e garantindo,
sob o prisma da ética e dos bons costumes, a igualdade social e os direitos humanos.
Analisar os contextos sociais e as manifestações culturais nos leva a refletir sobre o conceito
de habitus, um elemento que possibilita o entendimento das diferenças culturais. Esse elemento
representa um conjunto de disposições conjuntamente constituídas, o qual “[...] enquanto estruturas
estruturadas e estruturantes constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das
práticas e das ideologias características de um grupo de agentes” (BOURDIEU, 2007, p. 191, grifo
nosso).
A valorização e o respeito à diversidade cultural são o caminho certo para consolidação dos
valores humanos e da igualdade de direitos, princípios norteadores dos estados democráticos. A
partir dessas condições, o compromisso profissional se amplia, extravasando os limites físicos das
instituições, indo ao encontro dos grupos sociais, sem considerar qualquer diferenciação que
proporcione algum tipo de discriminação, seja de raça, cor, classe social, gênero, opção sexual,
limitações físicas ou psicológicas, dentre outras tantas limitações e especificidades da sociedade
multicultural.

�20

Em Shera (1972, 1977), a Biblioteconomia reforça o potencial dela ao fundamentar-se em
teorias e princípios filosóficos, por meio da Epistemologia Social, que propõe o estímulo das
reflexões e da redefinição dos fazeres técnicos e humanos. Promove, a partir dessa provocação, uma
ação interventiva do bibliotecário no contexto social, mediante a construção de um perfil
profissional engajado e comprometido com as causas sociais.
A aproximação entre Biblioteconomia e sociedade se concretiza à medida que ações passam
a ser desenvolvidas para benefício das comunidades. Reforça-se, portanto, o papel das bibliotecas
públicas e populares na democratização do conhecimento, a ênfase atribuída aos usuários da
informação, e a delimitação de funções sociais propriamente ditas, como participação em
movimentos políticos e intervenções realizadas para benefícios de grupos marginalizados, como
relatado por Almeida Júnior (1997).
Por meio de uma Biblioteconomia renovada, certamente, atingiremos um nível mais elevado
de reconhecimento e valorização. É por meio da biblioteca e dos serviços que oferecemos com as
competências atribuídas ao bibliotecário que muito podemos contribuir para o desenvolvimento
social e a eliminação das desigualdades sociais. É preciso pensar e remodelar a biblioteca e o que
dela pode ser gerado; uma instituição
[...] que reflita e retrate as ideologias das classes oprimidas, geradas e mantidas por um
sistema embrutecido que escamoteia a realidade através de nebulosos conceitos de ordem e
progresso. Não importa o nome que se dê, [...] importa que a biblioteca caminhe ao lado e
com a maioria da população, auxiliando cada pessoa na busca do resgate de sua dignidade e
de sua condição de cidadão (ALMEIDA JÚNIOR, 1997, p. 57).

A Biblioteconomia Social, portanto, não representa uma discussão meramente teórica, que
enobrece o discurso e a pauta de governos e interesseiros no domínio do poder. Ela precisa
concretizar-se, sobretudo nas ações operacionais realizadas por bibliotecários e suas equipes de
trabalho, nos mais baixos níveis hierárquicos da profissão. Isso nos alude afirmar que o discurso
precisa ser substituído pela ação, ou seja, mais praticidade é uma estratégia para garantir a expansão
das práticas bibliotecárias para além das paredes das instituições.
Como afirmado por Shera (1977, p. 10), em todas as áreas de conhecimento, é preciso
considerar que, “[...] o mundo do pensamento e o mundo da ação, embora um ou outro possa ser
dominante em dada sociedade, são sempre interdependentes [...]”. Todavia, tendo em vista que o
modelo cultural vigente “[...] torna-se cada vez mais complexo, esta interdependência se intensifica,
tornando-se de importância cada vez maior à sobrevivência”.
Romper os velhos paradigmas que sustentaram a área ao longo do tempo não representa uma
tarefa fácil, mas estimular uma discussão, resgatando a argumentação filosófica e a mudança de
atitude, haja vista um fazer mais proativo e interventivo, representa um importante passo a ser dado,

�21

rumo a uma sociedade mais justa, democrática e igualitária, o que permite reforçar o papel da
Biblioteconomia com o desenvolvimento do estado democrático.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Resgatar o pensamento de Jesse Shera acerca da aproximação da Biblioteconomia com a
Epistemologia Social representa um estímulo renovador para os profissionais da área atuarem de
forma mais interventiva, em uma sociedade democrática, cuja informação e o conhecimento
representam as molas propulsoras para o desenvolvimento individual, econômico, político, cultural
e social.
A leitura às reflexões propostas por esse sociólogo do conhecimento reforça a área
biblioteconômica, sobretudo diante das fragilidades impostas pelo contexto competitivo e instável
da pós-modernidade. Pensar a Biblioteconomia no viés social não deve ser um discurso fictício e
ilusório, tampouco, um modismo adepto apenas aos indivíduos politizados. Trata-se de uma
preocupação que deve permear o fazer dos bibliotecários em todos os níveis e instâncias de atuação,
como também exige o reconhecimento e valorização por parte das instituições mantenedoras e
apoiadoras e por parte das autoridades governamentais.
Ancorados nos discursos de Shera e tomando sua experiência de vida profissional como
testemunho, somos chamados a proclamar a Biblioteconomia Social, como um dos campos
emergentes a serem assumidos pelos profissionais, de modo que o tecnicismo exacerbado seja
complementado pelas questões sociais, tornando a prática bibliotecária mais abrangente e
aproximada com a realidade social.
Acreditamos que a questão social, no âmbito da Biblioteconomia contemporânea, perpassa
por inúmeros contextos, sustentada por projetos sociais inovadores e que não se limitam aos
espaços físicos das instituições, desde que objetive a construção da prática cidadã, rumo a uma
sociedade integralmente inclusiva. Assim, múltiplas atividades podem ser pensadas com esse
propósito, perpassando desde o potencial da leitura e da educação para as pessoas, até contextos de
vulnerabilidade, junto aos grupos mais desfavorecidos e/ou em situações de risco, como também,
abranger as intervenções realizadas no âmbito político, haja vista o fortalecimento, legitimidade e
reconhecimento da profissão na sociedade.
Que essas manifestações possam se fortalecer, tornando-se um compromisso prioritário dos
bibliotecários, o que tende a demonstrar o potencial da Biblioteconomia para a evolução da

�22

sociedade e a consolidação e permanência constante dos princípios e valores humanos nas gerações
vindouras.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis;
APB, 1997.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.
______. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.
BUDD, John. Jessa Shera. Sociologist of Knowledge? The Library Quarterly, v. 72, n. 4, out.
2002.
DURKHEIM, Émile. O suicídio: uma questão sociológica. São Paulo: Marins Fontes, 2000.
ENCICLOPÉDIA. Jesse Shera. 2007. Disponível em:
&lt;http://ucla245.pbworks.com/w/page/8751414/Jesse%20Shera&gt;. Acesso em: 05 nov. 2018.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Petrópolis: Vozes, 1972.
______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
MARX, Karl. Sobre o suicídio. São Paulo: Boitempo, 2006.
SHERA, Jesse. Epistemologia social, semântica geral e Biblioteconomia. Ciência da Informação,
Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 9-12, 1977.
______. Introdução à biblioteconomia: elementos básicos do serviço de biblioteca. Littleton:
Bibliotecas Ilimitadas, 1976.
______. The Foundations of Education for Librarianship. New York: Becker and Hayes, 1972.
______. Toward a Theory of Librarianship and Information Science. Ciência da Informação, Rio
de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 87-97, 1973.

�23

CAPÍTULO II
O BIBLIOTECÁRIO ESCOLAR E O INCENTIVO À LEITURA:
A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO PRÁTICA EDUCATIVA

Sara Suyane de Sousa Rodrigues
Laiana Ferreira de Sousa
Claudialyne da Silva Araújo
Edcleyton Bruno Fernandes da Silva

1 INTRODUÇÃO

Muito se ouve falar nos inúmeros benefícios proporcionados pela leitura; por isso não é
nenhuma novidade que ela desenvolve o indivíduo intelectualmente e socialmente. A leitura é capaz
de proporcionar conhecimento,

criticidade,

poder de persuasão, habilidades

oratórias,

enriquecimento do vocabulário, dentre outras competências que a tornam uma ferramenta
fundamental para o crescimento e desenvolvimento cognitivo do ser humano. Essa prática está
presente em nossa sociedade de diversas formas, sendo utilizada em várias vertentes, desde textos
de entretenimento até livros científicos.
Além de desenvolver as habilidades listadas, a leitura também pode ser praticada como um
ato prazeroso, de lazer e entretenimento. Os livros literários são os maiores responsáveis por
proporcionar momentos de alegria, prazer e encantamento entre os leitores de todas as idades. Esse
tipo de prática aguça o imaginário, desperta os sentidos e leva o leitor a universos paralelos além da
sua realidade.
Mesmo diante de todas essas características atribuídas à leitura, nossa sociedade não é
considerada leitora. Dados da pesquisa Retratos de Leitura no Brasil 1, realizada em 2016, revelam
que o número de leitores ativos tem diminuído gradativamente. O estudo demonstra ainda que,
mesmo entre os estudantes regularmente matriculados e que frequentam a escola, o índice de leitura
é baixo, resultando em uma população não leitora, consequentemente, pouco pensante, pobre em
argumentos e com pouco poder de decisão.

1

Pesquisa
Retratos
de
Leitura
no
Brasil.
2016.
Disponível
em:
&lt;http://prolivro.org.br/home/images/2016/RetratosDaLeitura2016_LIVRO_EM_PDF_FINAL_COM_CAPA.pdf&gt;.
Acesso em: 16 nov. 2017.

�24

É extremamente necessário que a leitura seja introduzida como prática prazerosa na vida das
crianças, já que elas formarão a sociedade pensante de amanhã. Geralmente, é na escola onde
acontecem os primeiros contatos das crianças com o universo leitor, contato inicial que muitas
vezes é decisivo para que elas se tornem leitores assíduos.
A leitura contribui diretamente para a formação da personalidade dos educandos. Por meio
do convívio com textos informativos e literários eles podem desenvolver o gosto pela
leitura, descobrir o mundo que o cerca e identificar suas preferências (GOMES;
BORTOLIN, 2011, p. 158).

As instituições de ensino estão mais conscientes do papel que exercem na formação leitora
de seus alunos e têm cedido, cada vez mais, espaço para atividades que propiciem a interação entre
as crianças e os livros. Sendo assim, se fazem necessárias iniciativas que sensibilizem e incentivem
a leitura, dinamizando-a e disseminando-a.
A contação de histórias tem se tornado uma das atividades mais utilizadas por educadores no
incentivo à leitura, por ser uma arte milenar que vem se perpetuando, ao longo dos tempos. Ela é
capaz de ampliar o universo literário, sendo uma prática que instiga o interesse do leitor. Dentro do
ambiente escolar, ela pode ser uma grande aliada no processo de iniciação à leitura, pois alia o
lúdico do “faz de conta” ao processo de letramento da criança.
Diante do exposto, o presente artigo tem como objetivo apresentar o bibliotecário escolar
como um dos principais agentes propulsores do incentivo à leitura dentro da escola, trabalhando
conjuntamente com as práticas pedagógicas curriculares. Evidencia-se a contação de histórias como
uma aliada da escola, que, mediante à ludicidade e dinamicidade, torna-se uma ferramenta
importante que auxilia no desenvolvimento leitor do estudante.
Este trabalho foi elaborado, por meio de revisão de literatura a materiais bibliográficos
referentes ao tema em questão. Foi também utilizada como referência para a pesquisa a vivência de
um dos autores no ambiente escolar, já que o mesmo trabalha na Biblioteca de uma escola particular
da cidade de Fortaleza-Ceará.
Este artigo está dividido em cinco seções. A primeira traz a introdução ao tema,
apresentando o objeto e os objetivos do trabalho. A segunda seção trata da biblioteca escolar,
abordando a importância da sua existência dentro da escola e as dificuldades para sua
implementação. Ainda na segunda seção, é apresentado o bibliotecário escolar e o novo perfil desse
profissional, atuando em atividades de mediação da leitura. A terceira seção aborda a metodologia
utilizada para a pesquisa. Na quarta, demonstram-se as atividades de mediação e incentivo à leitura,
que podem ser desenvolvidas na biblioteca escolar e apresenta a contação de histórias como uma
das mais eficazes para o estímulo à leitura. Mostra ainda, algumas possibilidades de se trabalhar
com a contação de histórias, por meio de técnicas e acessórios que podem aprimorar o trabalho. Na

�25

quinta e última sessão, apresentam-se os resultados da pesquisa, concluindo que os objetivos da
pesquisa foram atingidos ao se constatar que o bibliotecário tem um importante papel na construção
da identidade leitora e que a contação de histórias é uma arte efetiva no incentivo à leitura, que pode
ajudar a aproximar os alunos do universo leitor.

2 A BIBLIOTECA ESCOLAR

A biblioteca escolar no Brasil é uma realidade efetiva para um número reduzido de
instituições. Nosso sistema educacional ainda traz muitas lacunas a respeito da presença de
bibliotecas nas escolas do setor público e privado. Em geral, as instituições possuem um local
destinado ao funcionamento da biblioteca, mas que não é bem aproveitado para o fim a que se
destina. No setor público, a questão é ainda mais agravante, pois algumas instituições enxergam a
biblioteca, meramente como um “depósito” de materiais bibliográficos.
A lei nº 12.244, de 24 de maio de 2010, estabelece que em um prazo máximo de até dez
anos, a partir da data de publicação da referida lei, todas as escolas do setor público e privado
deverão dispor de uma biblioteca, ofertando o seu acesso à comunidade escolar e respeitando a
profissão do bibliotecário.
Em contrapartida a esse cenário, a importância da biblioteca no ambiente escolar vai além
das necessidades legislativas existentes. O ensino e a biblioteca devem ser aliados e trabalharem
conjuntamente para despertar e estimular o interesse pelos livros e pela leitura nos alunos.
A biblioteca se apresenta como uma grande aliada da escola na formação dos alunos. Além
da guarda, organização e disponibilização do acervo, é também tarefa dessa unidade de informação
a promoção e dinamização da leitura no ambiente escolar, por meio de atividades e projetos que
possibilitem despertar nos alunos o desejo pela leitura e desenvolver suas habilidades leitoras. “A
leitura, portanto, precisa ser constantemente estimulada; é necessário criar o hábito de ler, o prazer
de ler, o gosto pela leitura” (CAMPELLO, 2003, p. 3). A biblioteca é o espaço ideal para que esse
prazer pela leitura seja estimulado; ela deve ser ativa e se adequar ao ambiente e as necessidades do
leitor para que possa exercer seu papel com excelência.

�26

2.1 O BIBLIOTECÁRIO ESCOLAR E A MEDIAÇÃO DA LEITURA

Durante bastante tempo, o bibliotecário foi visto como um profissional altamente tecnicista,
que realizava um trabalho repetitivo e contínuo, tratando, armazenando e recuperando a informação
de forma convencional. De fato, há alguns anos, essa era a realidade da maioria desses profissionais
da informação.
Diante das novas configurações globais, o profissional precisou mudar e se adequar ao novo
cenário instaurado. As informações mudam e se transformam com freqüência; elas agora se
colocam mais acessíveis e em grande quantidade, consequentemente, as pessoas que necessitam
delas também têm um perfil diferente; são, agora, mais atentas, exigentes e dinâmicas. As
bibliotecas e os bibliotecários precisaram acompanhar essa tendência para se adequar a essa nova
sociedade e continuar a ter papel efetivo diante dela.
A técnica tem um significado específico no trabalho, não devendo ser desvinculada das
outras dimensões, como aconteceu durante muito tempo com as práticas bibliotecárias. Isto
significa que para o bibliotecário escolar ser competente, não basta o domínio de algumas
“técnicas”; é necessário que estas técnicas sejam fertilizadas pela determinação autônoma
dos objetivos e finalidades, pelo compromisso com as necessidades do coletivo e pela
presença da sensibilidade (FARIAS; CUNHA, 2009, p. 32).

O bibliotecário, portanto, tem agora, mais do que antes, o papel de agente socializador.
Além de tornar a informação acessível, ele também deve permitir que ela faça sentido ao seu
usuário e atenda às necessidades informacionais e sociais desse sujeito.
Dada essa extensão, o papel do bibliotecário está embutido na função de agente
socializador da informação, contribuindo no processo de aprendizagem dos indivíduos
através das mais diversas formas de leitura, como também em suas práticas, ajudando o
leitor a atingir um nível maior de complexidade no processo de ler/escrever e de produzir
sentidos (RASTELI; CAVALCANTE, 2013 p. 169).

A escola é um dos principais ambientes onde o bibliotecário irá atuar diretamente com
leitores em processo de formação. Portanto, na biblioteca escolar, esse perfil inovador se torna
ainda mais necessário, já que o seguimento é bastante desafiador e exige que o profissional tenha
um atendimento personalizado a cada usuário. Assim, “[...] a ação do bibliotecário escolar envolve
técnica e sensibilidade orientadas por princípios éticos e políticos” (FARIAS; CUNHA, 2009, p.
33).
Farias e Cunha (2009, p. 33) complementam, ainda, refletindo que,
é senso comum afirmar que a tarefa da escola é a formação de cidadãos. Diante disso, é
tarefa do bibliotecário escolar contribuir para essa formação, utilizando os recursos que
dispõe, analisando as situações de maneira crítica, consciente e comprometido com as
necessidades concretas do contexto social em que desenvolve seu trabalho. É por isso que,
quando falamos de competência temos que situá-la numa sociedade real.

�27

É importante que o bibliotecário escolar esteja atento às novas tendências literárias e as
preferências dos seus usuários, portanto, é interessante que ele invista na formação continuada, nas
pesquisas e esteja ligado a inovações e mudanças constantes. Além disso, de nada adianta dispor os
livros a usuários que não os procuram; é imprescindível que o profissional procure instigar os
alunos à leitura, apresentando meios dinâmicos de divulgação e incentivo. “No nosso entender o
bibliotecário escolar auxilia na formação do indivíduo, estimulando a comunicação [...]” (FARIAS;
CUNHA, 2009, p. 29).
Portanto, os bibliotecários, dentro das suas atribuições, exercem o papel de criar meios de
incentivar a leitura, agindo de forma interativa e dinâmica. A partir dessa concepção, Gomes e
Bortolin (2011, p. 158) salientam que “as atividades de promoção à leitura na escola contribuem
para que as crianças desenvolvam a curiosidade e busque novos conhecimentos, além de aproximálas da literatura”.
Esses profissionais podem contar com a mediação da leitura para realizar essas atividades
incentivadoras dentro do ambiente escolar, pois sua maior finalidade é proporcionar a comunicação
entre os livros e os alunos, estabelecendo elos entre as partes. Principalmente na biblioteca escolar,
a mediação é uma prática bastante eficaz, pois ela tem como premissas a dinamicidade e a
criatividade do mediador, o que proporciona uma atividade prazerosa aos mediados. “Na escola, por
exemplo, cabem aos mediadores de leitura, bibliotecários, professores, proporcionar aos educandos
iniciativas de leitura e essas iniciativas exigem dos mesmos uma postura dinâmica” (GOMES;
BORTOLIN, 2011, p. 158).
Educadores, de modo geral, precisam estar empenhados nessa missão de incentivo e
mediação da leitura, pois é papel fundamental da escola, formar leitores atuantes, pensantes e
questionadores.
Somos nós, bibliotecários e professores, os mais numerosos e frequentes mediadores
oficiosos de leitura. Nesse sentido, é importante que, como mediadores, tenhamos
conhecimentos teóricos sobre leitura e literatura, que nos dêem competência; conheçamos
os fundamentos de Psicologia, de Teoria do Conhecimento e outros mais, que nos dêem a
habilidade; dominemos o acervo disponível e que é lançado pelo parque editorial, que nos
dêem a segurança; que conheçamos a crítica da mídia, tanto quanto façamos a nossa própria
análise, que nos dêem a diretriz para a oferta, para o aconselhamento, para o processo de
mediação da leitura, enfim, tanto em nível particular quanto em nível coletivo (BARROS;
SILVA; BORTOLIN, 2006, p. 17).

Exercendo um importante papel para a disseminação da leitura dentro do ambiente
educacional e agindo como um educador, o bibliotecário tem a possibilidade de estimular nos
alunos o gosto pela leitura, mediante ao uso de atividades que fomentem a importância da leitura no
cotidiano do indivíduo. Nesse cenário, como mediador, ele estabelece um elo entre os livros e os

�28

leitores, ou seja, ele atua como o profissional “[...] que exerce atividades de aproximação entre
indivíduos e as obras de cultura [...]” (CUNHA; CAVALCANTI, 2008, p. 242).
Marteleto (2009, p. 19) afirma que,
seja numa ou noutra acepção, a mediação implica sempre em acompanhamento, controle e
negociação por um “terceiro”, enquanto o sujeito que se beneficia de um processo de
mediação é levado a aprofundar o seu próprio ponto de vista e a descobrir outros. Sob o
ângulo da construção de sentidos, a noção se fundamenta no fato de que os sentidos não são
imanentes aos objetos, mas são construídos processualmente por sujeitos interpretantes,
apoiados em linguagens e dispositivos.

A mediação da leitura é uma atividade ampla, que oferece inúmeras possibilidades e que
pode ser trabalhada com diversos tipos de público, modificando apenas a maneira como ela é
aplicada.
Para garantir o maior sucesso nas iniciativas de mediação da leitura é importante que
bibliotecários e educadores estejam integrados nessa empreitada. Salienta-se, também, que
esses profissionais devem saber escolher a melhor forma de trabalhar com a leitura, de
acordo com o público que se deseja atingir. O fomento à leitura e a formação de leitores é
um caminho longo, e percorrê-lo não é tarefa fácil (RODRIGUES, 2013, p. 38).

Para trabalhar a mediação, o bibliotecário pode contar com alguns artifícios que facilitem a
sua tarefa. Apresentaremos, a seguir, a metodologia utilizada para a pesquisa e em seguida algumas
das atividades que podem ser trabalhadas pelo educador dentro do âmbito escolar.

3 METODOLOGIA

Para o desenvolvimento deste trabalho, foi realizada uma pesquisa bibliográfica; para tal, foi
feito um levantamento de materiais bibliográficos. A pesquisa foi baseada em artigos, livros e
demais materiais que contivessem um segmento ou aprofundamento do tema proposto.
Entende-se por pesquisa bibliográfica a revisão da literatura sobre as principais teorias que
norteiam o trabalho científico. Essa revisão é o que chamamos de levantamento
bibliográfico ou revisão bibliográfica, a qual pode ser realizada em livros, periódicos, artigo
de jornais, sites da Internet entre outras fontes (PIZZANI et al., 2012, p. 53).

Esta pesquisa se configura como qualitativa, sendo uma abordagem que permite o viés
subjetivo, em que a produção do conhecimento e as impressões adquiridas no percurso podem ser
consideradas importantes para a sua realização e resultados.
De modo diferente da pesquisa quantitativa, os métodos qualitativos consideram a
comunicação do pesquisador em campo como parte explícita da produção de conhecimento,
em vez de simplesmente encará-la como uma variável a interferir no processo. A
subjetividade do pesquisador, bem como daqueles que estão sendo estudados, tornam-se
parte do processo de pesquisa (FLICK, 2009, p. 25).

�29

Utilizou-se a pesquisa do tipo exploratória, que se caracteriza por ser uma pesquisa mais
simples, que se familiariza com o assunto abordado, possibilitando que o pesquisador possa
conhecer a fundo o objeto em estudo. “As pesquisas exploratórias têm como principal finalidade
desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e [ideias], tendo em vista, a formulação de problemas
mais preciosos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores” (GIL, 1999, p. 43). O
planejamento da pesquisa exploratória é bastante flexível e seus resultados são capazes de mostrar
evidências e elucidar questões já conhecidas pelo pesquisador.

4 ATIVIDADES DE INCENTIVO À LEITURA NA BIBLIOTECA ESCOLAR

Além de tornar o acervo organizado, acessível e disponibilizá-lo aos seus usuários, é
importante que a biblioteca escolar busque desenvolver o estímulo à leitura, por meio de práticas
que apresentem a leitura e aproximem os alunos do cotidiano leitor.
Apenas a disponibilização de livros não é o suficiente para formar leitores [...]. É necessário
também investir na valorização social da cultura letrada e na formação de educadoresleitores, principalmente bibliotecários, professores e acadêmicos. A importância de espaços
de leitura, públicos ou abertos ao público, através de sua função de difusor e facilitador do
acesso ao conhecimento da cultura escrita, precisa ser resgatada como um dos elos mais
democráticos da reivindicada igualdade social (CORREA, 2011, p. 1).

Bibliotecários, professores e educadores, de modo geral, precisam estar atentos às novas
necessidades leitoras dos alunos, às novas formas de se incentivar a leitura e de introduzi-los no
universo leitor.
A missão de incentivar a leitura torna-se ainda mais desafiadora quando se trata das
crianças. Por haver entre esse público pouco ou nenhum contato com os livros, é missão do
educador, tornar os primeiros contatos prazerosos, possibilitando que a leitura seja introduzida de
maneira positiva na vida dos aprendizes, abrindo portas para uma trajetória de afinidade com a
leitura no cotidiano da criança e futuro adulto leitor.
A leitura não se refere ao simples ato de decifrar o código escrito nem de apenas saber
localizar e repetir conteúdos específicos de um texto de forma linear e literal. É importante
destacar essa ideia, pois durante muito tempo se acreditou que bastava estar alfabetizado ou
ser capaz de repetir o que estava escrito para se compreender qualquer texto. Hoje sabemos
que um leitor proficiente é aquele que sabe utilizar procedimentos de leitura, de modo a
reconstruir os sentidos do texto, dialogar com ele, concordar, discordar etc. (ARMELIN;
GODOY, 2011, p. 65).

Apenas saber decifrar o que está escrito não é suficiente para que o aluno seja um leitor
assíduo; é necessário também que ele saiba o que está sendo lido e entenda o motivo e/ou

�30

importância da leitura. A obrigatoriedade que muitas vezes é imposta aos alunos nas escolas acaba
afastando-os da leitura, já que eles a veem apenas como uma atividade curricular, sem nenhum
atrativo para seu cotidiano. É preciso desmistificá-la e trabalhar para que ela seja reconhecida para
além de suas características pedagógicas. A seguir, apresentaremos algumas atividades que podem
ser introduzidas na biblioteca escolar para estimular a leitura entre os estudantes.


Rodas de leitura
Essa atividade pode ser aplicada para diversas faixas etárias, bastando adequar o conteúdo

para a sua realização. A roda de leitura se torna mais produtiva quando os alunos já são
alfabetizados, pois o principal objetivo dessa atividade é debater o conteúdo lido entre os
participantes. Assim, o mediador indica um livro ou uma temática e solicita que os participantes
façam a leitura para que possam compartilhar suas considerações com o grupo. Desse modo, todos
poderão ver o livro de diferentes pontos de vista, concordando ou não, gerando interações em torno
da leitura abordada.


Concursos literários
Além de ser uma ótima atividade incentivadora da leitura, os concursos literários também

desenvolvem várias habilidades nos participantes, tais como a escrita, ampliação do vocabulário, a
criatividade, autonomia, o senso de responsabilidade e de competição, entre outras. A biblioteca
escolar pode desenvolver esses concursos ao longo do período letivo, alterando apenas o gênero
literário. Poesias, cordéis, desenhos, paródias, cartas, redações, entre outros gêneros podem fazer
parte da temática central do concurso.


Saraus literários
Os saraus têm ganhado cada vez mais espaço entre as atividades artísticas e pedagógicas das

escolas. O sarau literário desenvolve a leitura, a oratória, a memorização e a desinibição dos alunos.
Um sarau poético, por exemplo, pode ter como tema um poeta específico ou diversos poetas,
aproximando os participantes e o público espectador do gênero em questão.
Atividades como “A hora do conto” são umas das mais utilizadas para mediar a leitura na
biblioteca escolar. A seguir, abordaremos a contação de histórias e sua contribuição para o incentivo
e disseminação da leitura no ambiente escolar.

�31

4.1 A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS NA BIBLIOTECA ESCOLAR

Não se sabe ao certo quando a contação de histórias foi introduzida no cotidiano dos seres
humanos; sabe-se que antes mesmo de se dar conta, eles já narravam histórias. Essa arte, portanto,
tem suas raízes nas sociedades ancestrais que encenavam histórias para realizarem seus rituais e
mitos e para difundirem seus conhecimentos e experiências adquiridas ao longo do tempo
(RAMOS, 2011).
Por necessidade, prazer, costumes e tradições, a contação de histórias já faz parte da nossa
sociedade a milênios e mesmo com o surgimento e avanço da escrita e novas configurações
tecnológicas é uma arte que vem se perpetuando, ao longo dos tempos.
A narração oral precisou se reinventar e se adequar a nova sociedade da informação em que
está inserida, visto que hoje os narradores de histórias têm outro perfil, assim como os ouvintes que
também têm características, desejos e objetivos distintos.
As escolas têm reconhecido a eficácia pedagógica dessa prática, passando a inseri-la como
atividade artística, cultural e educacional no ambiente escolar. Sendo uma atividade leve, divertida,
que entrete, encanta e emociona, a contação de histórias é bastante indicada para o início do
processo de mediação de leitura, pois, segundo Gomes e Bortolin (2011, p. 161), “em um processo
de mediação na escola, o primeiro contato da criança com a leitura deve iniciar-se de maneira
natural, fazendo com que a leitura seja mais uma de suas brincadeiras”.
O bibliotecário, assumindo seu papel de mediador da leitura, pode encontrar na narrativa
uma importante ferramenta para a realização do seu trabalho. Trabalhando em parceria com os
professores e adaptando suas atividades às necessidades do currículo escolar, o bibliotecário exerce
seu papel de educador, sendo fundamental no processo de aproximação e inserção dos estudantes no
universo da leitura.
A contação de histórias entra nessa empreitada, sendo uma atividade que busca trabalhar
dentro do contexto exigido, histórias e temas que não só aproximem os alunos da leitura, mas os
faça refletir sobre a história em questão, e os temas abordados, que muitas vezes vão além das
literaturas clássicas já conhecidas. As histórias também abordam temas cotidianos, pequenos
conflitos reais e questões sociais.
Atualmente, a literatura direcionada à criança conta, além dos clássicos, de textos ditos
realistas. Os textos realistas, conquanto se querem diferentes dos clássicos ao substituir
fadas, bruxas e fantasias por pessoas e fatos cotidianos, também seduzem porque
comunicam as vivências das crianças em uma mensagem essencialmente artística
(CALDIN, 2002, p. 34).

�32

Dentro da biblioteca escolar, as narrativas orais podem tornar-se uma das maiores aliadas do
bibliotecário na efetivação do seu papel como incentivador da leitura, já que, geralmente, é na
escola onde as crianças dão seus primeiros passos rumo ao universo leitor. Sendo uma das maneiras
mais conhecidas e eficazes de se mediar a leitura, a presença desse profissional dentro da biblioteca
escolar se torna indispensável. O bibliotecário pode trabalhar com a contação de histórias de
diversas maneiras, usando sua criatividade e personalidade para dar vida a essa prática. “Contar
histórias é um experiência de interação. Constitui um relacionamento cordial entre a pessoa que
conta e os que as ouvem. A interação que se estabelece aproxima os sujeitos envolvidos”
(SCHNEID, [200?], p. 4).
A hora do conto é uma das atividades mais praticadas pelos educadores para o incentivo à
leitura em sala de aula, principalmente na educação infantil, quando as crianças estão estabelecendo
seus primeiros contatos com a leitura. “[...] Essa atividade pode despertar na criança a curiosidade
sobre o mundo da literatura infantil, com histórias fantásticas que contribuem para melhor
compreender a vida e também adquirir o gosto pela leitura” (GOMES; BORTOLIN, 2011, p. 164).
O bibliotecário também pode trabalhar com essa atividade na biblioteca, estabelecendo horários
extra-sala de aula para receber as crianças e partilhar histórias com elas.
A contação de histórias também pode tratar de temas do cotidiano, podem ser atribuídas
temáticas a esses momentos, em consonância ao assunto abordado pelo professor em sala de aula.
“Ouvindo histórias, crianças e adultos podem apresentar reações que manifestam seus interesses
revelados ou inconscientes e conseguem vislumbrar nas narrativas, soluções que amenizam tensões
e ansiedades” (SCHNEID, [200?], p. 3).
Se o professor está trabalhando o tema inclusão com seus alunos, por exemplo, o
bibliotecário pode escolher livros que tratem dessa questão e de maneira lúdica e dinâmica trabalhar
a inclusão social, a acessibilidade e as diferenças com as crianças.
Para personalizar e tornar a atividade ainda mais atrativa, os contadores de histórias podem
contar com algumas técnicas e acessórios no momento da contação. “A entonação da voz, fazer as
pausas que fazem parte da história, diferenciar vozes de acordo com os personagens, são algumas
das artimanhas utilizadas” (RODRIGUES, 2013, p. 35).
O uso de figuras e imagens, do próprio livro ou não, podem ajudar a ilustrar as histórias e
aproximar ainda os mais ouvintes do cenário do texto. Outro acessório bastante relevante são os
fantoches; eles tornam a história mais dinâmica e prendem a atenção da criança, principalmente
com relação aos personagens. Para tornar esse momento ainda mais atrativo, podem ser usados os
mais variados tipos de apetrechos no momento da contação, tais como fantasias, aventais coloridos,
dedoches, objetos etc.

�33

A contação de histórias não contempla somente o público infantil; ela também pode ser
trabalhada com adolescentes, tratando de temáticas do cotidiano e aproximando-os da realidade, por
meio das histórias.
A contação de histórias é um vínculo que gera entre as pessoas um contato humano mais
sensível no contexto social, por ser uma anfitriã acolhedora do ser humano que se diz
tímido e, norteadora do que se diz paroleiro, ela incentiva a todos que a ouvem a buscarem
novas respostas para os conflitos tratados num conto, numa poesia ou num poema [...]
(SOUSA, 2016, p. 13).

Para esse tipo de público, narração de contos e crônicas pode ser bem interessante. O
contador de histórias pode versar entre autores clássicos renomados e autores contemporâneos que
fazem sucesso entre os jovens. Além disso, o bibliotecário pode trabalhar a dramatização com os
alunos, fazendo adaptações da história e ajudando-os a encenar. Além de aproximá-los da leitura,
essa atividade desenvolve a oratória, a postura diante do público, a memorização e o improviso.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho teve como objetivo evidenciar a importância da biblioteca no ambiente escolar
e o bibliotecário como mediador de leitura, assumindo um novo perfil criativo, dinâmico e lúdico,
tendo a contação de histórias como uma das principais atividades nesse processo de mediação da
leitura.
É necessário considerar que é na escola onde, geralmente, as crianças têm os primeiros
contatos com os livros; sendo assim, desenvolver atividades que tornem essas experiências iniciais
satisfatórias é de grande relevância para a formação dos futuros leitores.
Nesse contexto, é imprescindível que o bibliotecário escolar esteja junto aos demais
educadores no processo de inserção ao universo leitor. É essencial que o papel de incentivador e
disseminador da leitura exercido por ele, esteja acompanhado de práticas pedagógicas que ajam
conjuntamente com o currículo escolar, tratando não somente de temas clássicos, mas de temas
cotidianos e vivências atuais.
Por meio de uma revisão de literatura baseada em artigos, livros e outros materiais
bibliográficos, foi possível constatar que a contação de histórias no ambiente escolar é uma prática
bastante efetiva para incentivar a leitura. As escolas têm utilizado essa arte para aproximar os
alunos do mundo literário, aguçando seu imaginário, causando fascínio, despertando a curiosidade e
desenvolvendo neles habilidades leitoras, tais como senso crítico, autonomia, ampliação do
vocabulário, oratória, postura ante as situações do cotidiano, entre outras.

�34

Sabe-se que o incentivo à leitura tem sido um assunto bastante abordado por educadores,
pesquisadores e estudantes; por isso muitos ensaios, trabalhos e artigos são diariamente publicados
com enfoque nessa temática. Contudo, apesar da gama de informações acerca do tema, não se pode
considerá-lo esgotado, já que a informação e a sociedade leitora estão em constante modificação.
Por fim, conclui-se que a leitura é fundamental para o desenvolvimento pessoal, social e
cognitivo do ser humano, e que a contação de histórias aplicada ao contexto escolar pode aproximála dos alunos e ajudá-los a se descobrirem leitores. Salienta a importância da inserção do
bibliotecário nas práticas leitoras, principalmente, no âmbito da contação de histórias, uma vez que
essa arte possibilita a dinamização do acervo literário da biblioteca ao mesmo tempo em que auxilia
na formação de leitores.

REFERÊNCIAS

ARMELIN, Maria Alice Mendes de Oliveira; GODOY, Márcia Cecília Félix de. Formação de
mediadores de leitura: sistematização de duas experiências. Cadernoscenpec, São Paulo, v. 1, n. 1,
p. 59-85, dez. 2011. Disponível em:
&lt;http://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/index.php/cadernos/article/viewFile/39/41&gt;. Acesso em:
09 dez. 2017.
______. A função educativa da biblioteca escolar no Brasil: perspectivas para seu aperfeiçoamento.
In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 5., 2003, Belo
Horizonte. Anais. Belo Horizonte, Escola de Ciência da Informação da UFMG, 2003. CD-ROM.
BARROS, Maria Helena Toledo da Costa; SILVA, Rovilson José da Silva; BORTOLIN, Sueli.
Leitura: mediação e mediador. São Paulo: Ed. FA, 2006. 160p.
CALDIN, Clarice Fortkamp. A oralidade e a escrita na literatura infantil: referencial teórico para a
hora do conto. Encontros Bibli: Revista Eletrônica de biblioteconomia e ciências da informação,
Florianópolis, n. 13, p. 25-38, 2002. Disponível em:
&lt;https://periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/1518-2924.2002v7n13p25/5213&gt; Acesso em:
12 mar. 2018.
CHEOLA, Maria Laura Van Boekel. Quem conta um conto. In: CARVALHO,
Maria Angélica Freire de; MENDONÇA, Rosa Helena (Org.). Práticas de
leitura e escrita. Brasília: Ministério da Educação, 2006.
CORREA, ELISA CRISTINA DELFINI. Contação de histórias: uma prática inclusiva. In:
CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA
INFORMAÇÃO, 24., 2011, Alagoas. Anais eletrônicos... Alagoas: Integrado Colégio e Faculdade
de Campo Mourão, 2011. Disponível em: &lt;http://febab.org.br/congressos/index.php/cbbd/xx iv/
paper/ viewFile/75/525&gt;. Acesso em: 17 dez. 2017.
CUNHA, Murilo Bastos da; CAVALCANTI, Cornélia. Dicionário de biblioteconomia e
arquivologia. Brasília: Briquet de Lemos, 2008.

�35

FARIAS, Christianne Martins; CUNHA, Miriam Vieira da. O bibliotecário escolar e suas
competências. Informação &amp; Sociedade: estudos, João Pessoa, v. 19, n. 1, p. 29-35, jan./abr. 2009.
Disponível em: &lt;http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/1787/2685&gt;. Acesso em: 28
fev. 2018.
FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. 3. ed. Porto Alegre: Artmed; Bookman, 2009.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
GOMES, Luciano Ferreira; BORTOLIN, Sueli. Biblioteca escolar e a mediação da leitura. Semina:
ciências sociais e humanas, Londrina, v. 32, n. 2, p. 157-170, jul./dez. 2011. Disponível em:
&lt;http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/seminasoc/article/view/11962&gt;. Acesso em: 02 mar.
2018.
MARTELETO, Regina. Jovens, violência e saúde: construção de informações nos processos de
mediação e apropriação de conhecimentos. RECIIS: Revista Eletrônica de Comunicação,
Informação, Inovação e Saúde, Rio de Janeiro, v. 3, n. 3, p. 17-24, set. 2009. Disponível em:
&lt;https://www.reciis.icict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/751&gt;. Acesso em: 25 fev. 2018.
PIZZANNI, Luciana et al. A arte da pesquisa bibliográfica na busca do conhecimento. Revista
Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, v. 10, n. 1, p. 53-66, jul./dez.
2002.
Disponível em: &lt;file:///C:/Users/ACER/Downloads/1896-2549-1-PB.pdf&gt;. Acesso em: 08 mar.
2018.
RAMOS, Ana Cláudia. Contação de histórias: um caminho para a formação de leitores? 2011.
Dissertação (Mestrado em Educação), Centro Pedagógico, Universidade Estadual de Londrina,
Londrina, 2011. Disponível em:
&lt;http://www.uel.br/pos/mestredu/images/stories/downloads/dissertacoes/2011/2011__RAMOS_Ana_Claudia.pdf&gt;. Acesso em: 09 dez. 2017.
RASTELI, Alessandro; CAVALCANTE, Lidia Eugênia. A competência em informação e o
bibliotecário mediador da leitura em biblioteca pública. Encontros Bibli: Revista eletrônica de
biblioteconomia e ciência da informação, Florianópolis, v. 18, n. 36, p. 157-180, jan./abr. 2013.
Disponível em: &lt;http://www.brapci.ufpr.br/documento.php?dd0=0000012622&amp;dd1=ab58b&gt;.
Acesso: 18 dez. 2017.
RODRIGUES, Sara Suyane de Sousa. A contação de histórias e o incentivo à leitura. 2013. 73f.
Trabalho de conclusão de curso (Graduação em Biblioteconomia) – Departamento de Ciências da
Informação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2013.
SCHNEID, Jucelma Teresinha Neves. Hora do Conto: uma experiência maravilhosa. [200?]. 7p.
Disponível em:&lt;http://www.pucrs.br/edipucrs/CILLIJ/praticas/hora_do_conto__uma_experiencia_maravilhosa_REVISADO_OK.pdf&gt;. Acesso em: 04 fev. 2018.
SOUSA, Jurema Francisca Ferreira de. Contação de histórias: um recurso alfabetizador para a
Educação de Jovens e Adultos. 2016. 22f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura em
Pedagogia) – Centro de Ciências Humanas, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio
de Janeiro, 2016. Disponível em: &lt;https://pt.slideshare.net/JureFran/contao-de-histrias-um-recursoalfabetizador-para-a-educao-de-jovens-e-adultos&gt;. Acesso em: 04 fev. 2018.

�36

CAPÍTULO III
EMPREENDEDORISMO SOCIAL NA BIBLIOTECONOMIA: ANÁLISE DA ATUAÇÃO
BIBLIOTECÁRIA EM AÇÕES COM FOCO NA AGENDA 2030

Daniela Spudeit
Claudia Souza

1 INTRODUÇÃO

John Wood ocupava uma importante função na área financeira da Microsoft e depois de
muitos anos se dedicando com afinco à empresa, por orientações médicas, tirou um período sabático
e programou uma viagem ao Himalaia. Em meio a uma fase de autodescobrimento e reflexões sobre
seus objetivos de vida, John percebeu que precisava mudar. Embora se espelhasse em Bill Gates,
sua vida precisava de outro sentido. Na viagem viu muitas escolas no Nepal sem uma estrutura
mínima de educação, de acesso à informação e cultura. Quando voltou a Nova York, criou uma
campanha para arrecadar livros e montar bibliotecas nas escolas do Himalaia para beneficiar toda
população, conforme relatado por ele (WOOD, 2007).
Para dar um novo significado a sua vida, John largou a profícua carreira na Microsoft e em
2000 criou a Room of Road, se transformando num importante ativista social. Essa Organização não
Governamental (ONG) tem a educação como foco de plataforma social e por meio dessa instituição
John tem empreendido importantes ações em toda Ásia, ficando conhecido como “herói asiático”
pela Revista Time e recebeu três vezes o Prêmio Capitalista Social da Fast Company/Monitor
Group. Essa história é um típico caso de empreendedorismo social narrada no livro “Saí da
Microsoft para mudar o mundo”, publicado em 2007 pela Editora Sextante.
No livro “Doar: como cada um de nós pode mudar o mundo”, o autor Bill Clinton informa
que Wood já construiu mais de 287 escolas e 3600 bibliotecas em vários países da Ásia, e expandiu
para África do Sul e América Latina a partir de 2010. Além dele, Clinton (2008) cita o caso de
Sheri Saltzberg e Mark Grashow, profissionais da área de Saúde Pública nos Estados Unidos que
em uma viagem de lazer para Zimbábue, na África, viram a realidade das crianças de lá e tiveram a
ideia de criar uma ONG para melhorar as escolas e toda estrutura educacional (bibliotecas,
laboratórios etc.), visando proporcionar mais qualidade de ensino e aprendizagem para as crianças.

�37

Com base nesses exemplos em que o empreendedor social é aquele que não mede esforços
para captar recursos por uma causa social que beneficie um grupo de pessoas, seja uma comunidade
local ou regional, apresenta-se esta pesquisa, com o intuito de apontar casos de bibliotecários que
podem ser considerados empreendedores sociais no Brasil.
Schneider e Castelo Branco (2012, p. 19) definem empreender como o “ato de tentar,
experimentar, decidir-se a fazer alguma coisa, resolver, pôr em execução”. Ou seja, remete à ação e
pode-se dizer que empreendedores são aqueles que realizam algo, mobilizam recursos e correm
riscos para colocar suas ideias em prática. Schneider e Castelo Branco (2012, p. 22) definem o
empreendedor como “aquele conectado, bem relacionado, atento e dinâmico, capaz de ver o que os
outros não veem [...], tem uma relação profunda com o que faz e não aprecia perder oportunidades”.
Partindo dessa premissa do empreendedor ser definido como realizador e mobilizador, é
interessante conhecer casos de pessoas que tem esse perfil, porém, no caso do empreendedor social,
há uma preocupação além do capitalismo ou acumulação de lucro, como vemos grandes
empresários que têm esse perfil empreendedor.

Dessa forma, Oliveira (2004) explica que o

empreendedorismo social é uma forma coletiva e integrada de produzir bens e serviços para a
comunidade local com o objetivo de desenvolver soluções para problemas sociais.
Empreendedorismo é "o processo de somar algo novo [criatividade] a algo diferente
[inovação] com a finalidade de criar riqueza para o indivíduo e acrescentar valor à sociedade"
(THOMPSON, 2002, p. 413). É aquela pessoa que habitualmente cria e inova, desenvolvendo
alguma coisa de reconhecido valor, em torno de uma oportunidade. Muitos empreendedores sociais
são pessoas com qualidades e conhecimentos e podem ser associados, por nós, a empresários que
operam na comunidade e estão mais preocupados em ajudar as pessoas do que "ganhar dinheiro".
Em muitos casos, eles mudam as vidas das pessoas porque abraçam causas sociais importantes
(THOMPSON, 2002).
Nas áreas da Saúde e Meio Ambiente, é mais comum conhecer casos de pessoas que agem
em prol do coletivo e fundam instituições com os objetivos sociais. Entretanto, esta pesquisa foca
nas iniciativas educacionais e culturais desenvolvidas por bibliotecários que são consideradas
exemplos de empreendedorismo social. Essas ações contribuem para o fortalecimento da
responsabilidade social da profissão, visibilidade das ações da Biblioteconomia para a sociedade e
também contribui para o alcance dos objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030
estipulados pelas Organizações das Nações Unidas (ONU)2.

2

ORGANIZAÇÃO
DAS
NAÇÕES
&lt;https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/&gt;.

UNIDAS.

Agenda

2030.

2015.

Disponível

em:

�38

A Agenda 2030 elenca 17 objetivos organizados em 169 metas e compõem um plano de
ação criado em 2015 por representantes dos 193 países membros da ONU pensando na
transformação do mundo para um desenvolvimento mais sustentável. Dentro desse plano de ação,
os bibliotecários podem contribuir para o alcance de todos os 17 objetivos, entretanto, enfatiza-se o
objetivo 4 (Educação e Qualidade) e objetivo 10 (Redução das Desigualdades) como os prioritários
a serem realizados, pois visam o desenvolvimento de empreendimentos sociais para a melhoria no
acesso, uso e disseminação da informação para a efetiva construção do conhecimento e formação de
uma sociedade mais reflexiva, crítica, consciente e democrática. Dessa forma, este trabalho objetiva
apresentar alguns casos de bibliotecários considerados empreendedores sociais para retratar como
desenvolvem seu trabalho a partir dos benefícios gerados para as comunidades mais vulneráveis em
que atuam, contribuindo para a qualidade de vida cultural, econômica e ambiental no âmbito da
sustentabilidade social.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

O fenômeno de empreendedorismo social surge num contexto de desafios, crises, mudanças
sociais, econômicas e ambientais que caracterizam a atual sociedade. É importante compreender
como ocorreu desde o início nos Estados Unidos da América (EUA) e como esse fenômeno
reverbera para a Biblioteconomia.

2.1 HISTÓRICO SOBRE EMPREENDEDORISMO SOCIAL
Parente e Quintão (2014, p. 13) explicam que “o conceito de empreendedorismo social
encontra as suas raízes nos EUA, na década de 1980, nas áreas disciplinares da economia e da
gestão, e o termo empreendedor social vulgariza-se nos anos 1990”.
Na década de 1990, a perspectiva teórica do setor não lucrativo internacionalizou-se através
do The Johns Hopkins Comparative Nonprofit Setor Project, iniciado em 1991. Este
projeto, encabeçado por Lester Salamon da The John Hopkins University, surge da
crescente importância das organizações de caráter associativo e não lucrativo em áreas
como a educação, saúde, serviços sociais, serviços culturais e recreativos, numa versão
funcionalista, inspirada numa perspectiva econômica do papel destas organizações nas
sociedades atuais. Em meados da década de 1990, este projeto começa a ser replicado,
abrangendo hoje 45 países o que permitiu desenvolver alguns dos primeiros estudos de
âmbito nacional e possibilitou as primeiras comparações internacionais. Estes estudos
vieram contribuir para uma maior visibilidade do setor em termos econômicos e políticos,
na medida em que possibilitaram a quantificação do número de trabalhadores (remunerados
ou voluntários), horas de trabalho, receitas e peso das diversas fontes de financiamento
(governo, filantropia, vendas) (PARENTE; QUINTÃO, 2014, p. 15).

�39

Dessa forma, percebe-se que o empreendedorismo social surgiu a partir da incapacidade das
instituições governamentais em solucionar novos problemas sociais, visíveis nos diferentes tipos de
políticas sociais setoriais (ou na ausência delas) e particularmente nas restrições orçamentais que
fomentam iniciativas da sociedade civil na procura de práticas alternativas que respondam às
necessidades sociais não atendidas nem pelo Estado, tampouco pelo mercado, conforme colocado
por Parente et al. (2011). Os mesmos autores defendem que:
É consensual que o conceito de empreendedorismo social nasce em contexto americano e
que não obstante as divergências entre as escolas que se debruçam sobre o fenômeno, fruto
dos contextos sociais, políticos e econômicos diferenciados, todas contribuíram quer para o
crescimento do interesse pelo tema quer para a consensualização da necessidade de
encontrar formas inovadoras no uso de métodos de negócio adequados à resolução de
problemas sociais (PARENTE et al., 2011, p. 270).

Nesse sentido, Silva, Moura e Junqueira (2015) explicam que, nas últimas décadas, as
pessoas e organizações têm buscado novas formas de atuar com foco no impacto social. É nesse
contexto que emergem as discussões sobre empreendedorismo social, porém isso não é novo, pois
antes da utilização do termo já havia iniciativas que poderiam se enquadrar como
empreendedorismo social. A utilização do termo e o aumento de empreendimentos sociais se
tornaram foco de diversos estudos, em face das organizações que atuam no segmento social
buscarem a sustentabilidade financeira.
O empreendedorismo social chega ao Brasil, justamente quando começa a popularização do
empreendedorismo nos EUA, na década de 1990. Nesse momento, o contexto era de crescente
problematização social: a redução dos investimentos públicos no campo social, o aumento das
organizações do terceiro setor e da participação das empresas no investimento e nas ações sociais
(OLIVEIRA, 2004).
Atualmente,

o

empreendedorismo

social

se

apresenta

como

um

conceito

em

desenvolvimento, mas com características teóricas, metodológicas e estratégicas próprias,
sinalizando diferenças entre uma gestão social tradicional e uma empreendedora.

2.2 DESENVOLVIMENTO DO EMPREENDEDORISMO SOCIAL
Para entender como funciona, Baggio e Baggio (2014, p. 30) explicam que “o processo de
empreendedorismo social exige principalmente o redesenho de relações entre comunidade, governo
e setor privado, com base no modelo de parcerias”. Para tanto, o resultado final desejado é a
promoção da qualidade de vida social, cultural, econômica e ambiental sob a ótica da

�40

sustentabilidade. Hart e Milstain (2004) detalham que a sustentabilidade global tem sido definida
como a habilidade para satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a habilidade das
futuras gerações para satisfazerem suas necessidades. Similarmente, o desenvolvimento sustentável
é um processo para se alcançar o desenvolvimento humano de uma maneira inclusiva, interligada,
igualitária, prudente e segura. Dentro dessa linha que Baggio e Baggio (2014, p.30) esclarecem que
“o empreendedorismo social é um misto de ciência e arte, racionalidade, intuição, ideia e visão,
sensibilidade social e pragmatismo responsável, utopia e realidade, força inovadora e praticidade”.
Para eles, o empreendedor social subordina o econômico ao humano, o individual ao coletivo e
carrega consigo um grande sonho de transformação da realidade atual.
Os autores explicam que o empreendedorismo social difere do empreendedorismo
propriamente dito em dois aspectos: não produz bens e serviços para vender, mas para solucionar
problemas sociais, e não é direcionado para mercados, mas para segmentos populacionais em
situações de risco social (exclusão social, pobreza, miséria, risco de vida). Nesse sentido,
Hesselbein et al. (1998, p. 53) enfatizam que o empreendedor social “transforma processos no setor
social, também com a perspectiva de extrair um rendimento maior. Aqui, no entanto, o ‘produto’
não é nem uma mercadoria nem um serviço (como nos negócios), nem uma regulamentação (como
no governo), mas um ser humano transformado”. Para eles (empreendedores bem sucedidos),
qualquer que tenha sido a questão, a atração não foi a necessidade existente, por si própria, mas a
perspectiva de obter resultados, de realmente produzir uma mudança em circunstâncias e vidas
humanas. Essa é uma característica diferenciadora dos empreendedores sociais: não se engajam em
caridade, mas em transformação.
Atualmente,

o

empreendedorismo

social

apresenta-se

como

um

conceito

em

desenvolvimento, mas com características, princípios e valores próprios, sinalizando diferenças
entre uma gestão social tradicional e uma empreendedora. Ou seja, é uma forma de solucionar
problemas de pobreza e exclusão social. Inicialmente, era uma derivação do empreendedorismo
empresarial e foi fortemente inﬂuenciado pela ação das empresas privadas no campo social e
público, assumindo, contudo, as suas próprias estratégias, num contexto de renascimento do terceiro
setor e da necessidade e procura de ações de grande impacto e mudanças efetivas (BAGGIO,
BAGGIO, 2014).

2.3 PERFIL E CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDEDORISMO SOCIAL

André Neto et al. (2013) apresentam características entre o empreendedor privado,
empreendedor social empresarial e o empreendedor social enfatizando que o empreendedor social

�41

foca no coletivo e integrado com foco na busca de soluções para problemas sociais a partir de
medidas de desempenho com impacto e transformação gerando capital social, inclusão e
emancipação. Na literatura, o empreendedor social também é visto como empreendedor sustentável
oposto ao empreendedor mais capitalista que só visa lucro a qualquer custo, de acordo com André
Neto et al. (2013).
Schneider e Castelo Branco (2012) enfatizam que criar um negócio é difícil, por isso realizar
isso com a preocupação de reduzir desigualdades sociais é desafiador, exigindo maior criatividade e
inovação na busca de soluções comuns que visem o desenvolvimento coletivo e sustentável. A
sustentabilidade deve ser pautada em uma consciência social, reconhecimento do valor da
diversidade cultural e política, ênfase nas prioridades voltadas às necessidades básicas, à qualidade
de vida e à inclusão social, segundo Krause (1997).
O empreendedorismo social contribui para formação da cidadania, emergindo como uma
forma de enfrentamento dos desafios sociais, econômicos e ambientais insuficientemente atendidos
pelo Estado, conforme enfatizado por Capela (2014). Para essa autora, “a prática se confunde e
diferencia do empreendedorismo privado, da responsabilidade social empresarial e do ativismo
social, evidenciando tratar-se de um conceito em construção, mas com características já
definidoras”. Ela explica que:
Ao buscar essa definição e distinção, encontra-se que o empreendedorismo privado, apesar
de ter o objetivo de suprir necessidades humanas, tem o foco no mercado e a medida de seu
desempenho é o lucro. A confusão ocorre porque o empreendedorismo social se apropriou
do termo empreendedorismo, pois incorporou suas características em um espaço cuja
finalidade não é a da acumulação da riqueza ou lucro. A responsabilidade social
empresarial traz para o negócio a perspectiva de longo prazo, a inclusão sistemática da
visão e das demandas das partes interessadas e a transição para um modelo em que os
princípios, a ética e a transparência precedem a implementação de processos, produtos e
serviços. Seu objetivo principal, no entanto, é agregar valor estratégico ao negócio e
atender expectativas do mercado e da percepção da sociedade/consumidores. O ativismo
social ou político também é provocado pela constatação de desequilíbrio social, mas se
diferencia pela orientação da ação transformadora que é focada em influenciar outros, como
os governantes, instituições não governamentais, consumidores ou trabalhadores. Embora
exija do ator social as mesmas características de inspiração, criatividade e força, a medida
do desempenho está relacionada à mobilização alcançada, mais do que à intervenção direta
na promoção do equilíbrio. O uso de um conceito pelo outro ocorre pela mescla de
orientações que cruzam objetivo social, associado às instituições sem fins lucrativos, com
uma vertente empreendedora, aliada ao caráter dinâmico e inovador do negócio. Por outro
lado, embora seja importante conceituar adequadamente (CAPELA, 2014, p. 68).

No que tange ao perfil do empreendedor social, Heis (2006) defende que a primeira
determinante do perfil são os valores humanos nos quais ele deve defender a cooperação, a
solidariedade, a equidade, a competência, a responsabilidade e o rigor econômico. Outra
característica do empreendedor social é o conhecimento que ele deve ter de história, geografia e a
evolução da humanidade, para que possa entender as diferenças culturais existentes na sociedade
brasileira, as quais lhe permitam enfrentar os efeitos da exclusão social, como a violência urbana, a

�42

exploração infantil, a marginalização dos idosos, os preconceitos e o narcotráfico. O empreendedor
social deve ser uma pessoa com habilidades gerenciais que valoriza tanto a rotina operacional
quanto a inovação organizacional. E ainda, precisa ser capaz de conciliar a parte operacional com os
projetos, que constituem a atividade-fim das instituições sociais, justificando a sua existência.
Apesar dos termos serem relativamente novos, empreendedores sociais e ações de
empreendedorismo social podem ser encontrados ao longo da história em diferentes áreas e
iniciativas. Ao fazer uma pesquisa sobre empreendedorismo social na base SCIELO 3, uma das
bases de dados mais completas existentes que agrupa publicações de várias áreas do conhecimento,
a busca usando as palavras “empreendedorismo e empreendimento social” trouxe 144 artigos, cujas
publicações concentram-se, principalmente, no Brasil (98), Colômbia (21) e Portugal (21), sendo
sete em língua portuguesa, 22 em inglês e 20 em espanhol.
A primeira publicação foi em 2004 e o ano que mais teve publicações foi 2012 com o
registro de 19 artigos; em segundo lugar foi no ano de 2015 com 17 artigos, sendo que 111
trabalhos são focados na área de Ciências Sociais Aplicadas, retratando a importância científica que
existe nessa área para pesquisas sobre tal temática. Embora esse número seja expressivo, o tema
ainda carece de maior aprofundamento.

2.4 EMPREENDEDORISMO SOCIAL NA BIBLIOTECONOMIA

Na Biblioteconomia, ao pesquisar na Base de dados de Periódicos em Ciência da
Informação (BRAPCI)4, o termo “empreendedorismo social” como estratégia de busca trouxe como
resultado apenas dois artigos. Porém, nenhum dos dois foi direcionado para a área de
Biblioteconomia. Ao colocar o termo “empreendedor social”, apareceu na busca o artigo de Josiane
Fonseca da Cunha, publicado na Revista ACB, em 2009, o qual apresenta o histórico das atividades
sociais praticadas pela Faculdade São Francisco de Assis, desde o ano de 2004. A autora detalha as
ações realizadas pela faculdade em instituições carentes de Porto Alegre e região metropolitana,
doando alimentos, brinquedos e alegria para algumas pessoas, em sua maioria, crianças, e explica a
atividade teatral, cujo elenco era formado por colaboradores da biblioteca.
O fato de nos resultados não apresentar trabalhos indexados com a palavra
“empreendedorismo social” também mostra que as ações desenvolvidas - muitas vezes de forma

3

SCIELO é uma biblioteca eletrônica que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros e está
disponível em: &lt;http://www.scielo.org/php/index.php&gt;.
4
BRAPCI é uma base de dados de Periódicos em Ciência da Informação publicada no Brasil desde 1972 e encontra-se
disponível em: &lt;http://www.brapci.inf.br/&gt;.

�43

voluntária para beneficiar comunidades vulneráveis - podem até existir, porém não são tão
disseminadas em canais de comunicação como revistas científicas. Em eventos da área como no
Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação e no Painel de Biblioteconomia em
Santa Catarina é possível encontrar alguns relatos de práticas sociais.
Mesmo assim, percebe-se que na área de Biblioteconomia existe uma lacuna de estudo que
relacione esses relatos de experiências sobre empreendedorismo social. É importante que haja maior
aprofundamento sobre a temática para publicizar as práticas culturais e educacionais que são
realizadas por meio de parcerias e voluntariado de diferentes profissionais.
Pensando nisso, a comissão organizadora do III Fórum de Inovação e Empreendedorismo na
Biblioteconomia (FIEB)5, que ocorreu em setembro de 2018, em Campo Grande (Mato Grosso do
Sul), escolheu como

temática “Empreendedorismo Social” para dar visibilidade aos

empreendedores sociais na área e oportunizar discussões e aprendizagens sobre essa importante
temática e alinhar essas iniciativas aos objetivos da Agenda 2030, principalmente nas áreas de
educação e cultura em que os profissionais da Biblioteconomia tem as competências requeridas para
desenvolver projetos sociais.
Bastos e Ribeiro (2011), ao relacionar a educação e empreendedorismo social como forma
de transformar os cidadãos, enfatizam que essa proposta coaduna com a linha pedagógica de Paulo
Freire (2001), que entende as mudanças da realidade a partir da participação dos sujeitos que a
constituem.
Imaginar horizontes de possibilidades; sonhar coletivamente é assumir a luta pela
construção das condições de possibilidade. A capacidade de sonhar coletivamente, quando
assumida na opção pela vivência da radicalidade de um sonho comum, constitui atitude de
formação que orienta-se não apenas por acreditar que as situações-limite podem ser
modificadas, mas fundamentalmente, por acreditar que essa mudança se constrói constante
e coletivamente no exercício crítico de desvelamento dos temas-problemas sociais que as
condicionam (FREIRE, 2001, p. 30).

É nesse viés que o empreendedorismo social surge para protagonizar a construção desse
“sonho coletivo”, pois Freire (2001) sempre convida, a partir da prática educativa, a “(trans)formar
uma geração de alunos que tenham nítida percepção do contexto social, político, tecnológico da
realidade excludente e, ainda, da possibilidade de gerar mudanças a partir de ações coletivas,
conscientes, transformadoras” (FREIRE, 2001, p. 30).

5

Fórum de Inovação e Empreendedorismo na Biblioteconomia. Disponível em: &lt;www.fieb.net.br&gt;.

�44

A partir desse olhar de Paulo Freire, percebe-se que os empreendedores sociais são pessoas
preocupadas com as questões sociais e, por isso, realizam trabalho na comunidade a qual estão
inseridos, em que o ganho maior é o desenvolvimento das pessoas. Mas, para que isso aconteça, são
necessárias, além da boa vontade, criatividade e inovação.
Dentro dessa perspectiva da responsabilidade social na Biblioteconomia e alinhada à missão
social defendida por Ortega y Gasset (2006, p. 13), o bibliotecário:
Ao exercer uma profissão deve comprometer-se a fazer o que a sociedade necessita. […].
Para determinar a missão do bibliotecário, é preciso partir […] da necessidade social a que
serve vossa profissão. E esta necessidade, como tudo que é propriamente humano, não
consiste em uma magnitude fixa, mas é, essencialmente, variável, migratória, evolutiva; em
suma histórica.

Assim, consta também no juramento da Biblioteconomia, disposto pelo Conselho Federal
de Biblioteconomia (1966), que enfatiza a responsabilidade social quando cita: “Prometo tudo fazer
para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de Bibliotecário, fundamentado na liberdade
de investigação científica e na dignidade da pessoa humana” (CFB, 1966). Shera (1977, p. 11),
importante pesquisador da Ciência da Informação, também salienta a função social da
Biblioteconomia, afirmando que: “seja qual for o nível intelectual em que deve operar, o foco da
Biblioteconomia deve ser para aumentar a utilidade social dos registros gráficos [...]”. Também
acredita que a Biblioteconomia “[...] deve servir à sociedade em toda extensão de suas
potencialidades, deve ser muito mais do que um monte de truques para encontrar um determinado
livro numa estante particular, para um consulente particular”.
Com essa intenção, é possível perceber alguns trabalhos publicados que retratam a
Biblioteconomia com uma vertente mais social, chamada de “Biblioteconomia Social”. Souza
(2001) propôs um estudo amplo para produzir uma “teoria biblioteconômica-humana” para o Brasil.
Para ele, a perspectiva humana da Biblioteconomia, traduzida aqui pela expressão Biblioteconomia
Social, “[...] exige pesquisa nacional, com investimento em capacitação de pesquisadores capazes
de entender, explicar, e ensinar uma Biblioteconomia para a autonomia nacional” (SOUZA, 2001,
p. 44).
Lindemann (2014, p. 45) procurou fazer este estudo por meio de uma pesquisa bibliográfica
e documental sobre a temática e mostrou que “embora o termo Biblioteconomia Social em si não
seja muito familiar dentro da área no Brasil, ele é na verdade o caminho de um novo conhecimento
respaldado no conhecimento tradicional já existente como prática bibliotecária, mas sem a
compreensão de conceitos”. De acordo com a autora, existem Programas de Pós-Graduação
(UNAM, México), cursos e oficinas (Universidade de Córdoba, Argentina), contemplando
exclusivamente essa temática, entre outras iniciativas.

�45

Spudeit e Moraes (2018) publicaram coletânea de textos sobre biblioteconomia social em
que vários autores do país relatam pesquisas e práticas voltadas para ação social, sendo
considerados os diferentes perfis de empreendedores sociais dentro da Biblioteconomia.
Silva, Moura e Junqueira (2015, p. 122) corroboram e apontam a necessidade de atender as
demandas da sociedade e “abre-se uma nova perspectiva no enfrentamento dos problemas sociais,
seja pelo empreendedorismo social ou por outras formas que assumam as organizações da
sociedade civil”. Esse campo demanda não só uma ação inovadora, mas também a reconfiguração
dos papéis dos diversos atores sociais sejam eles, as próprias organizações, o Estado e a iniciativa
privada. Resta identificar casos de bibliotecários que podem ser considerados empreendedores
sociais, que é o foco desta pesquisa, cujos procedimentos metodológicos são apresentados a seguir.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica em relação aos objetivos e quanto aos
procedimentos é descritiva. Para desenvolver a pesquisa, apresentam-se fundamentos teóricos sobre
empreendedorismo, empreendedorismo social, sustentabilidade, Agenda 2030 e função social da
Biblioteconomia. Para esse levantamento, foi feita uma pesquisa em artigos científicos indexados
nas bases BRAPCI e SCIELO, além de consultar a literatura da área. Segundo Gil (2010), a
principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura
de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente.
Para relatar as experiências de bibliotecários considerados empreendedores sociais no Brasil,
foi feita uma coleta via Facebook no grupo “Bibliotecários do Brasil”, que congrega mais de doze
mil profissionais no país. Após identificar algumas iniciativas, entrou-se no site ou fanpage dos
projetos e também das pessoas envolvidas para conhecer mais as ações que realizavam. Para este
relato, focou-se em alguns casos para demonstrar as possibilidades da atuação do profissional como
empreendedor social na Biblioteconomia e fazer ações focadas nos objetivos da Agenda 2030 da
ONU.

�46

4

CASOS

DE

EMPREENDEDORISMO

SOCIAL

DESENVOLVIDOS

POR

BIBLIOTECÁRIOS

Na Biblioteconomia e Ciência da Informação, o termo empreendedorismo social ainda não é
usado, porém encontra-se em anais de eventos e artigos de revistas, diferentes trabalhos que
discorrem sobre reflexões e ações voltadas à geração de benefícios a toda sociedade, seja iniciativa
local ou regional, no âmbito das organizações não governamentais, setor privado ou público. Essas
práticas são tratadas por Moraes (2018) como ações de “responsabilidade social bibliotecária”. Para
a autora, o tema da responsabilidade social “torna-se cada vez mais pauta do dia não apenas na área
da administração de empresas, mas em várias outras áreas do conhecimento, principalmente no
campo da educação” (MORAES, 2018, p. 49). Nesse cenário educacional, “encontram-se os
bibliotecários, profissionais da informação e da cultura, os quais buscam adentrar os terrenos das
escolas e atuar junto aos professores possibilitando acesso à informação, à cultura e alfabetizando
os alunos no que concerne ao mundo informacional” (MORAES, 2018, p. 52).
No viés da responsabilidade social bibliotecária, emerge o empreendedorismo social como
forma de colocar o documento (um dos focos da Biblioteconomia) em um segundo plano e focar
nas necessidades de acesso e uso da informação como norte principal das iniciativas dos
profissionais da Biblioteconomia. A essa postura, Moraes (2018, p.60) chama para um perfil de
bibliotecário “mais crítico e consciente de que seu trabalho envolve algo muito além da organização
e administração dos materiais de informação; de que, na realidade, ele é um mediador, um educador
do acesso e do uso da informação, que surge o que denominamos de visão crítica da
responsabilidade social bibliotecária”.
Dentro dessa perspectiva que as ações empreendedoras e socialmente responsáveis dos
profissionais da Biblioteconomia vêm corroborar com o cumprimento dos objetivos da Agenda
2030, em especial dos objetivos 4 e 10 que dizem respeito à qualidade da educação e também à
redução das desigualdades, compromisso priorizado pela Federação Internacional de Associações
de Bibliotecas e Instituições (IFLA)6, que é o organismo internacional que representa os interesses
das bibliotecas e serviços de informação e de seus usuários.
No caso do objetivo 4 que se relaciona a assegurar a educação inclusiva, equitativa e de
qualidade visando promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos, a IFLA
(2017) coloca que: as bibliotecas devem cumprir esse objetivo mediante a provisão de equipes
dedicadas que apoiem a educação na primeira infância (educação continuada), o acesso à

6

Disponível em: &lt;https://www.ifla.org/files/assets/hq/topics/libraries-development/documents/sdgs-insert-pt.pdf&gt;.

�47

informação e à pesquisa para estudantes em todo o mundo, promovam espaços inclusivos onde os
custos não sejam uma barreira para adquirir novos conhecimentos e habilidades. É possível que os
profissionais da Biblioteconomia promovam atividades e projetos voltados à formação de leitores,
diversidade cultural, multiculturalismo, desenvolvimento da competência em informação, entre
outros.
Em relação ao objetivo 10, diz respeito à redução das desigualdade dentro dos países e entre
eles. Para a IFLA (2017), as bibliotecas podem promover espaços neutros e agradáveis que
permitam a aprendizagem para todos, incluindo os grupos marginalizados, como os imigrantes, os
refugiados, as minorias, os povos indígenas e pessoas com deficiência, além do acesso equitativo à
informação que promova a inclusão social, política e econômica. Torna-se necessário que sejam
realizadas ações que visem promover o respeito, a tolerância e inclusão de todos, pensando nas
questões de gênero, sexualidade, raça, religião, cor, entre outros fatores que muitas vezes são
usados de forma discriminatórias e precisam ser combatidos para promover a igualdade. Oficinas,
encenações teatrais, cine-debates, palestras, exposições, entre outras atividades devem ser
promovidas com essa finalidade dentro e fora dos espaços tradicionais de atuação dos
bibliotecários.
Nesse contexto, Spudeit e Prado (2017) relatam as atividades desenvolvidas pelas
bibliotecas parques no estado do Rio de Janeiro alinhadas às premissas de sustentabilidade
propostas pela Agenda 2030 que também são consideradas ações que legitimam o
empreendedorismo social na Biblioteconomia.
Ao realizar a busca no grupo “Bibliotecários do Brasil” na mídia social Facebook que reúne
mais de 12 mil bibliotecários, foi possível mapear algumas ações consideradas cases de
empreendedorismo social na área, conforme serão relatadas, a seguir:
A Biblioteca Sem Paredes localizada no Rio de Janeiro é um típico exemplo de
empreendedorismo social. Trata-se de um projeto desenvolvido pelos bibliotecários Carlos Farias e
Patrícia Chamon, quando ainda eram estudantes de Biblioteconomia da Universidade Federal do
Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). O projeto tem por missão promover e incentivar a leitura na
capital do Rio de Janeiro. Os livros são arrecadados e doados por amigos, editoras ou pessoas
interessadas em partilhar leitura e depois são disponibilizados em praça pública, numa banca para as
pessoas que circulam pela Feira Desapegue-se. O projeto utiliza o Facebook e Twitter como forma
de divulgação e aproximação com leitores de outros estados brasileiros. O envio também é feito
para diferentes regiões do país, mediante pagamento das despesas de envio, pois as obras são
doadas.

�48

No sudeste tem também o Clube Literário Tamboril, trabalho feito por uma equipe
interdisciplinar que conta com o bibliotecário Leandro da Silva Teixeira. É realizado nas cidades de
Pirapora e Buritizeiro, em Minas Gerais, desde 2017. São bibliotecas comunitárias que funcionam
como pontos de leituras e desenvolvem diferentes atividades com mediação, saraus, oficinas,
empréstimos de livros, rodas de conversas com autores, entre outras.
No sul, um exemplo típico bem conhecido dentro da área de Biblioteconomia é o de Cátia
Lindemann. Formada pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Cátia se considera ativista
da biblioteconomia social, atua na promoção do livro e a leitura para comunidades com
vulnerabilidade social. Trabalha de forma voluntária com mediação de leitura para detentos,
implantou e organizou um espaço de leitura em uma Casa de dependentes químicos no Rio Grande
do Sul. Por meio do seu trabalho com detentos, surgiu a necessidade de disseminar o hábito de
leitura em prostíbulos, onde quinzenalmente faz empréstimo de livros. Em consequência da sua
atuação, em 2016, Cátia foi contratada pela empresa VR Projetos Sociais, Culturais e
Transformadores, para atuar de forma remunerada em projetos de promoção do livro e a leitura a
comunidades em vulnerabilidade social em diferentes regiões no Brasil por meio dos projetos:
estante de histórias e sacolas literárias. Como bibliotecária voluntária, já implantou quatro
bibliotecas no Rio Grande do Sul (uma prisional, uma comunitária e duas escolares em colégio
público estadual), pois acredita que a educação esvaziará o cárcere.
No sul, entre tantos, destaca-se o projeto UmanuS, criado em dezembro de 2016, pela
bibliotecária Franciéle Garcês e sua sócia Daiana Breternitz, da área de Administração Pública.
Atua com desenvolvimento acadêmico para pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica
e educacional. Dessa forma, ajuda pessoas que queiram se preparar para ingressar numa
universidade, fazer uma Graduação ou Pós-Graduação, oferecendo métodos de estudos,
planejamento do tempo e dicas sobre os processos seletivos e vestibulares.
Outro típico case de empreendedorismo social, que não é gerenciado e nem foi criado por
bibliotecários, porém tem bibliotecários que atuam de forma esporádica como voluntários na equipe
é o case da Barca dos Livros em Florianópolis, Santa Catarina.
A Biblioteca Barca dos Livros caracteriza-se como uma biblioteca comunitária criada em 02
de fevereiro de 2007 com o objetivo de defender a importância da leitura para o desenvolvimento
coletivo e individual. Foi instituída por um grupo de moradores da região da Lagoa da Conceição
que depois passou a ser administrada pela Associação Amantes da Leitura, do mesmo bairro, na
cidade de Florianópolis, Santa Catarina. Atualmente, é administrada por uma professora
aposentada, entretanto, recebe ajuda voluntária de profissionais da área de Biblioteconomia

�49

regularmente, bem como estudantes de Biblioteconomia da Universidade do Estado de Santa
Catarina que realizam estágio curricular ou extracurricular.
Com ampla programação cultural e educacional, oferece uma extensa agenda com
intervenções literárias, cursos, palestras, oficinas, contações de histórias, encenações teatrais,
sessões de lançamentos de livros e conversas com escritores, entre outras atividades que são
programadas em parceria com a comunidade da Lagoa da Conceição. Em algumas ações, é cobrada
taxa de inscrição para manter os custos da locação do espaço e outras taxas administrativas. Porém,
várias ações são ofertadas gratuitamente para toda comunidade. Para manter-se, faz parcerias com
instituições públicas e recebe doações de empresas privadas e pessoas físicas.
No norte do país, tem a bibliotecária Cristiane Garcia, que em parceria com alunos da
Universidade Federal de Rondônia, criou, em 2016, a Biblioteca Salete Vergani, dentro de uma
unidade prisional localizado em Porto Velho (RO). Com um acervo de mais de 900 livros, conta
como público alvo, apenadas e seus filhos. Trata-se de um projeto voluntário (não remunerado), que
promove o acesso ao livro, ao conhecimento, à cultura, além de aproximar a apenada ao regime
semiaberto, por meio da remição de pena através da leitura.
Também no norte do país, outro case de empreendedorismo social é a Expedição Barco
Biblioteca no Rio Amazonas divulgada por um dos bibliotecários voluntários Thiago Giordano
Siqueira. A atividade surgiu em 2006 e conta com doações para alugar o barco e realizar as
atividades. O projeto visa levar a leitura para as comunidades ribeirinhas do Amazonas que não
possuem acesso de via terrestre, tentando alcançar e ganhar o maior número de leitores possíveis
contribuindo para o processo de inclusão informacional a partir da prática da leitura e a
democratização do acesso ao livro. A última expedição ocorreu em agosto de 2017 em quatro
comunidades de vulnerabilidade social Águia, Nossa Senhora de Nazaré, São Paulo e São Pedro do
Lago do Castanho de Manacapuru, no estado do Amazonas.
No nordeste também é possível encontrar vários cases de empreendedorismo social na área,
mas destaca-se o BiblioSolidário. Foi criado em 2012, por amigos bibliotecários paraibanos, e tem
como objetivo promover e disseminar ações voltadas à diversidade de indivíduos, culturas e
condições sociais. Tem por finalidade colaborar de distintas formas para aquisição de bens
necessários para uma condição de vida melhor, por meio de obras sociais e de atividades que
promovam o incentivo à leitura. A equipe desenvolve atividades culturais diversas e distribuição de
livros e brinquedos.
Além dessas relatadas, é possível identificar inúmeras outras na área que têm impactos
sociais, colaboram com benefícios para uma comunidade ou atendem necessidades de grupos locais.
Pautado nessas necessidades, percebe-se que nem sempre o empreendedorismo tem por objetivo

�50

somente a obtenção de resultados particulares ou individuais, mas também pode gerar benefícios a
toda sociedade, seja iniciativa local ou regional que vão além somente de iniciativas da esfera
pública ou privada.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Percebe-se que na Biblioteconomia tem muitos “John Woods” com o mesmo desejo em
melhorar a qualidade de vida das pessoas e oportunizar o acesso à informação e cultura. Apesar de
ainda não conseguirem mobilizar tantos recursos e ter a visibilidade de John Wood, são
bibliotecários que saíram da “zona de conforto” e estão pensando localmente e agindo globalmente
“fora da caixinha” focados no bem-estar coletivo, empreendendo socialmente.
Esses profissionais da Biblioteconomia, além de serem considerados empreendedores
sociais, também são inovadores sociais, pois são agentes de transformação que se motivam para
melhorar ou inventar novas soluções de forma sustentável para mudar a sociedade e gerar impacto
social que beneficiam comunidades e grupos, por meio de atividades de leitura, cultura e de acesso
à informação.
Na perspectiva da inovação social, os empreendedores sociais não surgem associados a uma
dimensão de organização coletiva ou a qualquer setor, público ou privado (lucrativo ou não
lucrativo), mas sim em estruturas híbridas, ora com apoio de empreendimentos comerciais, do setor
público, e, ainda, no setor privado, por meio de iniciativas de responsabilidade social empresarial ou
empreendedorismo social corporativo.
As atividades sociais, educacionais e culturais relatadas nesta pesquisa vão ao encontro das
práticas empreendedoras defendidas por renomados pesquisadores e contribuem para o alcance
efetivo dos objetivos da Agenda 2030, em especial o objetivo 4 (Educação de Qualidade) e 10
(Redução das Desigualdades) da Agenda 2030, além de trazer visibilidade para o papel, missão e
responsabilidade social da Biblioteconomia. Além disso, fazem parte de um rol de outras que
podem e devem ser exploradas e investigadas nos sertões, periferias e capitais desse Brasil pelos
bibliotecários. É de suma importância que esse profissional assuma sua responsabilidade social e
alinhe suas práticas aos preceitos de sustentabilidade requeridos pelas Organizações das Nações
Unidas.

�51

REFERÊNCIAS

ANDRÉ NETO, Antônio et al. Empreendedorismo e desenvolvimento de novos negócios. Rio de
Janeiro: FGV, 2013.
BAGGIO, Adelar Francisco; BAGGIO, Daniel Knebel. Empreendedorismo: conceitos e definições.
Revista de Empreendedorismo, Inovação e Tecnologia, v. 1, n. 1, p. 25-38, 2014. Disponível em:
&lt;https://seer.imed.edu.br/index.php/revistasi/article/view/612&gt;.
BASTOS, Maria Flávia; RIBEIRO, Ricardo Ferreira. Educação e empreendedorismo social: um
encontro que (trans)forma cidadão. Revista Diálogo Educ., Curitiba, v. 11, n. 33, p. 573-594,
maio/ago. 2011. Disponível em:
&lt;ttps://periodicos.pucpr.br/index.php/dialogoeducacional/article/view/4438&gt;.
CAPELA, Sandra M. J. O empreendedorismo social e sua contribuição para formação da cidadania:
estudo de caso da Associação Solidariedade Sempre. In: SABINO, Rosi (Org.).
Empreendedorismo social. Londrina, 2014. p. 65-75. Disponível em:
&lt;http://www.isaebrasil.com.br/download/EmpreendedorismoSocial-Rosi-Sabinoorg.pdf#page=65&gt;.
CLINTON, Bill. Doar: como cada um de nós pode mudar o mundo. Rio de Janeiro: Agir, 2008.
CUNHA, Josiane Fonseca da. Bibliotecário, um empreendedor social: atividades desenvolvidas na
Faculdade São Francisco de Assis. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina,
Florianópolis, v. 14, n. 1, p.192-205, jan./jun. 2009. Disponível em:
&lt;https://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/652&gt;.
FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: UNESP, 2001.
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2010.
HARD, Stuart; MILSTEIN, Mark. Criando valor sustentável. Revista de Administração de
Empresas, São Paulo, v. 3, n. 2, maio 2004. Disponível em: &lt;https://rae.fgv.br/gv-executivo/vol3num2-2004/criando-valor-sustentavel&gt;.
HESSELBEIN, Francês; GOLDSMITH, Marshall; BECKHARD, Richard; SCHUBERT, Richard
F. A Comunidade do futuro: ideias para uma nova comunidade. São Paulo: Futura, 1998.
KRAUSE, G. A natureza revolucionária da sustentabilidade. In: CAVALCANTI, C. (Org.). Meio
ambiente, desenvolvimento sustentável e políticas públicas. São Paulo: Cortez, 1997.
LINDEMANN, Catia. A busca pela Biblioteconomia Social por meio da Ciência da
Informação. 2014. 60f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Biblioteconomia) –
Instituto de Ciências Humanas e da Informação, Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande,
2014. Disponível em:
&lt;http://repositorio.furg.br/bitstream/handle/1/6000/BIBLIO%20SOCIAL.pdf?sequence&gt;.
MORAES, Marielle Barros de. Responsabilidade social bibliotecária (RSB): o que significa em
tempos de rupturas democráticas? In: SPUDEIT, Daniela; MORAES, Marielle Barros de (Org.).
Biblioteconomia social: epistemologia transgressora para o Século XXI. São Paulo: ABECIN

�52

Editora, 2018. Disponível em: &lt;http://abecin.org.br/data/documents/EBook_Biblioteconomia_Social_1.pdf. p.49-76&gt;.
OLIVEIRA, Edson Marques. Empreendedorismo social no Brasil: atual configuração, perspectivas
e desafios – notas introdutórias. Revista da FAE, v. 7, n. 2, 2004. Disponível em:
&lt;https://revistafae.fae.edu/revistafae/article/view/416&gt;.
ORTEGA Y GASSET, José. Missão do bibliotecário. Brasília: Briquet de Lemos, 2006.
PARENTE, Cristina et al. Empreendedorismo social: contributos teóricos para a sua definição. In:
ENCONTRO NACIONAL DE SOCIOLOGIA INDUSTRIAL, DAS ORGANIZAÇÕES E DO
TRABALHO EMPREGO E COESÃO SOCIAL: da crise de regulação à hegemonia da
globalização, 14, Lisboa, Maio de 2011. Anais... Disponível em: &lt;https://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/61185/2/cparenteempreendedorismo000151867.pdf&gt;.
PARENTE, Cristina; QUINTÃO, Carlota. Uma abordagem eclética ao empreendedorismo social.
In: PARENTE, Cristina (Org.). Empreendedorismo social em Portugal. Porto: Universidade de
Porto, 2014. p. 11-69. Disponível em: &lt;https://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/73385/2/88711.pdf&gt;.
SCHNEIDER, Elton Ivan; CASTELO BRANCO, Henrique José. A caminhada empreendedora: a
jornada de transformação de sonhos em realidade. Curitiba: Intersaberes, 2012.
SHERA, J. H. Epistemologia Social, Semântica Geral e Biblioteconomia. Ciência da Informação,
Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, 1977. Disponível em: &lt;http://revista.ibict.br/ciinf/article/view/92&gt;.
SILVA, Maria de Fátima; MOURA, Laysce; JUNQUEIRA, Luciano. As interfaces entre
empreendedorismo social, negócios sociais e redes sociais no campo social. Revista de Ciências da
Administração, v. 17, n. 42, p. 121-130, ago. 2015. Disponível em:
&lt;https://periodicos.ufsc.br/index.php/adm/article/view/2175-8077.2015v17n42p121/pdf_67&gt;.
SOUZA, Francisco das Chagas de. A escola de Biblioteconomia e a ancoragem da profissão de
bibliotecário. Informação &amp; Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 11, n. 2, n. 2, 2001. Disponível
em:
&lt;http://www.brapci.inf.br/index.php/article/view/0000001436/5cb28a1fd6e5aa86a66a6ec87c63bd8
a&gt;.
SPUDEIT, Daniela; PRADO, Jorge Moisés Kroll do. Bibliotecas Parque e a Agenda 2030: análise
das atividades no Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São
Paulo, v. 13, n. esp. CBBD 2017. Disponível em: &lt;https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/835&gt;.
SPUDEIT, Daniela; MORAES, Marielle Barros de (Org.). Biblioteconomia social: epistemologia
transgressora para o Século XXI. São Paulo: ABECIN Editora, 2018. Disponível em:
&lt;http://abecin.org.br/data/documents/E-Book_Biblioteconomia_Social_1.pdf&gt;.
THOMPSON, John L. The World of the Social Entrepreneur. The International Journal of Public
Sector Management, Bradford, Inglaterra, GB, v. 15, n. 5, p. 412-431, 2002.

�53

CAPÍTULO IV
O PAPEL DA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA COMO INSTRUMENTO DE INCLUSÃO
SOCIAL

Maria do Socorro Soares Rodrigues
Laiana Ferreira de Sousa
Claudialyne da Silva Araújo
Edcleyton Bruno Fernandes da Silva

1 INTRODUÇÃO

As bibliotecas comunitárias nascem em comunidades e periferias das grandes cidades e
também na zona rural de todo país. Essas organizações surgem, muitas vezes, do desejo dos
moradores de serem protagonistas na construção de sua cidadania, por meio do acesso à leitura, à
informação e ao conhecimento. Nesse contexto, a biblioteca comunitária tem um papel social de
grande relevância para a vida dessas pessoas.
Segundo Machado (2008), a biblioteca comunitária pode ser entendida como um projeto
social que possui autonomia perante instituições governamentais e que são geridas e organizadas
pela própria comunidade. A partir da sentença de Machado (2008), é possível reconhecermos a
biblioteca comunitária como uma entidade autônoma que pode promover o crescimento social de
sua comunidade, considerando a questão da inclusão e exclusão social nesses locais.
Sabe-se que a grande maioria da população, principalmente as que vivem em comunidades e
bairros das periferias, padece de um processo penoso de exclusão social. A exclusão se dá em todas
as áreas, seja educacional, profissional, cultural e social. Além desses, pode-se acrescentar outro
tipo de exclusão, que é a exclusão informacional, muito presente em nossa realidade. Nesse cenário,
acredita-se que a biblioteca comunitária é um caminho na tentativa de reverter o quadro de exclusão
informacional das comunidades, pois “[...] a informação é, portanto, direito de todos. É um bem
comum, que pode e deve atuar como fator de integração, democratização, igualdade, cidadania,
libertação, dignidade pessoal. Não há exercício da cidadania sem informação” (TARGINO, 1991, p.
155). Como se pode ver, a informação é um bem vital; é essencial para a garantia de direitos, e para
tanto, é necessário que a mesma esteja acessível.
As bibliotecas, de modo geral, têm como objetivo primordial disseminar a informação de

�54

acordo com a necessidade de seu público-alvo, no caso da biblioteca comunitária, à comunidade
localizada ao seu redor. É nesse contexto que destacamos o projeto Rede de Leitura Jangada
Literária, fruto da parceria com o Instituto C&amp;A por meio do Programa Prazer em Ler. O projeto foi
criado em 2013, e fundamenta-se na implantação de bibliotecas comunitárias nas periferias de
Fortaleza e São Gonçalo do Amarante, região metropolitana, estado do Ceará.
O programa tem por objetivo fomentar a criação e estruturação de bibliotecas comunitárias e
espaços de leitura em comunidades espalhadas pelo país; ele se desenvolve, geralmente, em
instituições de cunho social, como: Organizações Não Governamentais (ONGs), Associações de
Moradores, Conselhos Comunitários, entre outros. Um dos pontos mais importantes do programa é
o foco no incentivo à leitura, por meio de ações que estimulem esse processo, principalmente com o
uso do livro. Sabe-se que as dificuldades enfrentadas pelas bibliotecas públicas são uma constante,
e, em especial, as bibliotecas comunitárias, as quais não dispõem de recursos necessários para a
manutenção de seus espaços, bem como para a contratação de um bibliotecário, profissional esse de
fundamental importância para gerir a biblioteca e promover de modo eficaz o acesso ao livro e à
leitura. A realidade que se presencia diariamente é a escassez desses profissionais para atuarem nas
bibliotecas, sejam elas de qualquer tipologia.
No caso das bibliotecas comunitárias, recorre-se, portanto, à figura do mediador de leitura,
responsável por gerir a biblioteca na falta do bibliotecário. No projeto Rede Jangada Literária, o
mediador de leitura conta com a gestão de um bibliotecário, que assessora as oito bibliotecas
integrantes da rede. A escolha do mediador de leitura é feita a partir de alguns critérios, como, por
exemplo: sua ligação com a comunidade onde a biblioteca está inserida, e que prioritariamente seja
um morador local, jovens em idade escolar ou universitária e que, além dessa ligação com a
comunidade, demonstre apreço pela leitura.
Considerando o fato de a biblioteca comunitária ser um espaço de inclusão social, enfatizase o papel dos jovens a frente dessas bibliotecas, como mediadores de leitura, uma vez que a
biblioteca pode ser uma ponte para o alcance de objetivos, a realização de sonhos e a descoberta de
talentos entre esses jovens. Justifica-se essa análise, principalmente, pelo quadro social que se
apresenta nos bairros e comunidades das periferias onde as bibliotecas da rede estão localizadas,
como, por exemplo: IDH muito baixo; altos índices de analfabetismo entre crianças, jovens e
adultos; aumento exponencial da violência, especialmente, entre os jovens, bem como a
insuficiência de serviços públicos básicos como educação, saúde, transporte e lazer.
Além desses fatores, as bibliotecas comunitárias são o único equipamento cultural
disponível para o desenvolvimento da cultura e do lazer na população atendida, ou seja, crianças e
jovens, alvos mais vulneráveis. Como metodologia, utilizou-se a pesquisa participante, com uma

�55

exploração bibliográfica do tema, bem como de temas afins, a partir de textos sobre cidadania,
inclusão e exclusão informacional, informação e sociedade, biblioteca pública, conceitos e
definições sobre comunidade, entre outros.
Além do uso da bibliografia, realizou-se ainda a observação participante in loco dessas
bibliotecas e dos mediadores de leitura, uma vez que um dos autores deste artigo atua como
bibliotecário da Rede. Para tanto, como corpus de análise, têm-se os três mediadores de leitura de
três bibliotecas da Rede, a saber: a Biblioteca Comunitária Sorriso da Criança, localizada no bairro
Presidente Kennedy; a Biblioteca Famílias Reunidas, no bairro Padre Andrade; e a Biblioteca
Comunitária Literateca, de São Gonçalo do Amarante.
Desse modo, a fim de alcançar a proposta deste artigo, o mesmo possui sete seções. Na
primeira seção, é feita a introdução, cuja temática é contextualizada, como também expõe-se a
justificativa acerca da escolha do tema, os objetivos e a metodologia utilizada. Na segunda parte,
apresenta-se o referencial teórico sobre biblioteca comunitária e inclusão social, à luz de alguns
teóricos estudados. Por fim, apresenta-se a metodologia, os resultados obtidos e as considerações
finais.

2 O PAPEL DA BIBLIOTECA PARA PROMOÇÃO DA IGUALDADE E DA CIDADANIA

O Brasil é um país de grandes proporções e dimensões continentais, diferentes costumes,
grande riqueza natural e considerado o maior país da América do Sul. No entanto, sofre com
problemas sociais crônicos na saúde, segurança e em especial na educação. Apesar de todo seu
crescimento econômico e de ser o maior país da América do Sul, a questão da educação é sempre
um tema recorrente, principalmente pelos índices de analfabetismo7, que atualmente chegam a 8%
entre jovens de 15 a 19 anos.
É certo que esse quadro vem mudando ao longo do tempo, muitas vezes, por iniciativa da
própria população. No entanto, para as pessoas de baixa renda e que vivem em comunidades em
situação de vulnerabilidade social, a educação ainda é um problema a ser enfrentado. Essa
problemática é proveniente da origem do nosso país. Sobre isso, Paulo Freire (1967, p. 67) já
afirmava que,
[...] nossa colonização foi, sobretudo, uma empreitada comercial. Os nossos colonizadores
não tiveram — e dificilmente poderiam ter tido — intenção de criar, na terra descoberta,
uma civilização. Interessava-lhes a exploração comercial da terra.

7

PNAD-IBGE (2016) apud Retratos da Leitura no Brasil (2016).

�56

É perceptível na fala de Freire (1967) que, para os colonizadores, não era importante manter
uma relação de parentesco, de pertencimento com essa terra, fato que traz consequências até os dias
de hoje. A educação tem um papel fundamental para a construção da cidadania e igualdade social
de uma nação, de um povo, de uma comunidade. Nessa perspectiva, a biblioteca torna-se uma
parceria estratégica para o desenvolvimento econômico e social, especialmente quando
consideramos as ferramentas: livro, leitura, informação e conhecimento.
Mas, o que significa cidadania? O que caracteriza ser um cidadão? Ao tratar sobre esses
conceitos recorre-se às definições gregas de Aristóteles apud Targino (1991, p. 151): “homem livre
e que tem direito a exercer seus direitos”. No entanto, naquele período histórico, assim como hoje,
nem todos se encaixavam na definição de cidadãos. Targino (1991, p. 151) afirma que, “[...] a
cidadania é compreendida enquanto dimensão pública da participação dos homens na vida social e
política, ainda que, em antigas legislações, nem todos os habitantes da cidade fossem cidadãos”.
Esse fato é tão atual, quanto o foi no passado, visto que muitos são os que são excluídos de
seus direitos e, portanto, vivem à margem da sociedade. Ainda de acordo com Targino (1991),
pode-se
inferir que ser cidadão é ter consciência de seus deveres e acesso a seus direitos. A
cidadania se manifesta e se constrói a partir dessa conscientização e da participação política
e social dos homens na sociedade (TARGINO, 1991, p. 156).

Entendemos que essa prerrogativa de direitos e deveres passa, num primeiro momento, pelo
acesso à informação e ao conhecimento, sendo a escola e a biblioteca espaços primordiais para o
desenvolvimento do ser cidadão. Portanto, as bibliotecas, assim como as escolas, se destacam como
espaços de construção de conhecimento, disseminação do saber e transformação social.
Corroborando Targino (1991), a respeito da construção da cidadania, Petit (2008) afirma não ser
algo simples e fácil de conquistar, mas algo a ser alcançado.
Uma cidadania ativa --- não devemos esquecer isso --- não é algo que cai do céu, é algo que
se constrói. A leitura pode contribuir em todos os aspectos que mencionei: acesso ao
conhecimento, apropriação da língua, construção de si mesmo, extensão do horizonte de
referência, desenvolvimento de novas formas de sociabilidade [...] (PETIT, 2008, p. 53).

Assim, a biblioteca, seja ela pública, privada, escolar, universitária, especializada ou
comunitária exerce um importante papel de promoção não somente de informação, mas de
qualidade de vida e lazer para seus frequentadores.
[...] É sempre na intersubjetividade que os seres humanos se constituem, e suas trajetórias
podem mudar de rumo depois de algum encontro. Esses encontros, essas interações às
vezes são proporcionados por uma biblioteca [...] (PETIT, 2008, p. 53).

A afirmação de Petit (2008) é bem significativa para expressar o valor da biblioteca

�57

enquanto espaço de oportunidades e novas estratégias de vida. Infere-se, portanto, que onde existe
uma biblioteca, as possibilidades de crescimento e desenvolvimento local são substanciais. Nesse
contexto, as bibliotecas são redutos para transformação social, para construção de igualdade e
cidadania, possibilitando a garantia de direitos às comunidades onde estão inseridas.

3 COMUNIDADE NO CONTEXTO BRASILEIRO

Viver em grupo faz parte da história do homem desde os tempos mais remotos de sua
trajetória sob a terra. Foi assim com os primeiros habitantes e assim continua até os dias atuais. São
várias as nomenclaturas para descrever, ao longo do tempo, esses ajuntamentos de indivíduos:
tribos, clãs, aldeias, vilas e as cidades. Essas últimas têm se desenvolvido de forma tão acelerada,
principalmente pela explosão populacional que as acomete. Seus domínios se formam a partir de
ruas e bairros e se estendem desde o centro até as periferias.
Nessa configuração territorial, o Estado oferece aos indivíduos que ali vivem uma série de
instituições e serviços que se configuram em instrumentos capazes de prover a vida do coletivo. No
entanto, a forma como nasce essas ruas e bairros nem sempre se dá de modo planejado e
organizado, o que acarreta uma série de problemas estruturais e deficiência na prestação de serviços
essenciais para a população.
Nessa perspectiva, de inchaço populacional e desorganização dos espaços territoriais,
surgem as favelas e/ou comunidades. Feitosa (1998) expõe as causas desse fenômeno na sentença
abaixo.
A favela no Brasil é resultado do processo de desenvolvimento econômico por que passou o
país ao longo de sua curta história. Assim sendo, tem suas marcas fundantes no processo
capitalista adotado como recurso desenvolvimentista. Seu surgimento deriva da má
distribuição de renda e da divisão da sociedade em níveis hierárquicos, onde a grande
maioria da população sobrevive com baixos salários, enquanto uma minoria domina os
processos de produção dos bens e materiais do sistema capitalista (FEITOSA, 1998, p.
110).

O autor ainda complementa seu pensamento afirmando que o “desenvolvimento econômico
e ocupação ilegal de terras são tidos como as causas do surgimento das favelas nas cidades”
(FEITOSA, 1998, p. 110).
Portanto, quando pensamos no aumento exorbitante da população que ocorre nos meios
urbanos ou rurais e nas desigualdades sociais, fica claro que a afirmação do autor é muito coerente e
bem atual. Outro fator de destaque na concepção de Feitosa (1998) é a questão do território, ou seja,
o solo que é ocupado, no qual as pessoas vão construindo suas moradias. As favelas, portanto, são

�58

territórios onde se desenvolve a vida de seus moradores, e dentro desse contexto, também podemos
entender esses locais como espaços comunitários, cujos ocupantes usufruem dos mesmos serviços e
possuem as mesmas necessidades e dificuldades.
Nesse sentido, entende-se que favela não é diferente de comunidade. Neste trabalho,
optamos tratar o termo favela por comunidade, pois entendemos não existir diferença entre um
termo e outro, no que diz respeito ao coletivo que ali se constitui. Ainda, segundo Suaiden (1995),
“a comunidade é, pois, uma área de vida dotada de certo grau de coesão social, suas bases são:
localidade e consciência de si mesma. Uma comunidade ocupa sempre uma área territorial”. Logo,
percebe-se que Suaiden (1995) também aponta a questão do território como fator importante para
descrever a comunidade e assim corrobora o conceito de comunidade descrito pela Sociologia.
É (comunidade) essencialmente ligada ao solo, em virtude dos seus componentes viverem
de maneira permanente em determinada área, além da consciência de pertencerem, ao
mesmo tempo, ao grupo e ao lugar, e de partilharem o que diz respeito aos principais
assuntos das suas vidas. Têm consciência das necessidades dos indivíduos, tanto dentro
como fora do seu grupo imediato e, por essa razão, apresentam tendência para cooperar
estritamente (EBAH, DICIONÁRIO DE SOCIOLOGIA, ON-LINE)8.

A comunidade, no entanto, não pode ser vista somente do ponto de vista do territorial ou
local e sim do sentimento de pertencimento e da segurança que o coletivo proporciona aos seus
integrantes. Isso se observa no pensamento de Bauman (2003, p. 7), em que o autor afirma que a
“comunidade é um lugar ‘cálido’, um lugar confortável e aconchegante”. Para ele, “comunidade
sugere coisa boa”.
Esse pensamento, todavia, pode parecer contraditório e até ingênuo, já que o viver
coletivamente não é tão simples e fácil, pois existe tensão constante de todos os lados, uma vez que
a comunidade é formada por diferentes indivíduos com interesses diversos. De toda forma, Bauman
(2003) não é incoerente em sua exposição, pois como já mencionado, a comunidade ainda é um
lugar de refúgio, de abrigo e de pertencimento para as pessoas que ali residem.
Não é raro encontrar nessas comunidades, grandes deficiências econômico-sociais, pois,
quase sempre, estão longe do alcance dos recursos públicos, e, consequentemente, há ausência de
investimentos em serviços básicos, como: saúde, transporte, trabalho, segurança, cultura e
educação, infraestruturas essas que garantem a cidadania aos seus moradores.
Esses serviços e instituições que o Estado dispõe aos cidadãos das periferias e comunidades
quase sempre geram insatisfação, pois seu alcance é muito pequeno se considerarmos a quantidade
de pessoas que convivem num mesmo território. Órgãos essenciais como hospitais, postos de saúde
e escolas são insuficientes para atender a população aos seus arredores, sendo possível incluir,

8

Disponível em: &lt;http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAGZQAJ/dicionario-sociologia&gt;.

�59

também, nessa lista, as bibliotecas.
A cidade de Fortaleza, por exemplo, dispõe de apenas duas bibliotecas públicas: uma
estadual e uma municipal. A situação dessas bibliotecas públicas não é das melhores. A Biblioteca
Pública Estadual Governador Menezes Pimentel, atualmente, passa por uma reforma que se arrasta
já há dois anos, sem previsão de entrega à sociedade. É significativo dizer que a biblioteca pública
como instituição estatal voltada a suprir as necessidades informacionais do município ou do estado,
no entanto, não pode atender sozinha, de modo satisfatório, os seus usuários, e uma das razões para
a concretização desse fato, como visto, é a quantidade de bibliotecas públicas existentes na cidade,
uma vez que a biblioteca pública estadual atende não somente o morador fortalezense, mas também
todas as regiões do estado.
É nesse cenário de dificuldades, que a biblioteca comunitária surge como equipamento
cultural de fundamental importância para os bairros e comunidades que se encontram afastados da
biblioteca pública, seja do estado ou município. A biblioteca comunitária passa, então, a exercer o
papel dessas bibliotecas, pois, muitas vezes, é o único acesso da comunidade à leitura, informação,
conhecimento e ao lazer. Assim, a biblioteca comunitária assume uma responsabilidade bem mais
ampla em relação à sua comunidade; ela se destaca como ferramenta de inclusão social.

3.1 BIBLIOTECA COMUNITÁRIA
A biblioteca é tida como “templo do saber”, expressão muito usada para destacar sua
importância para o desenvolvimento econômico, social e cultural da humanidade. Sua origem
remonta desde o surgimento das antigas civilizações, em que sua principal função era armazenar
todo conhecimento produzido pelo homem. No entanto, ao longo do tempo, a biblioteca passou por
diversas transformações. Hoje, o armazenamento não mais se configura como aspecto mais
importante da biblioteca, e sim sua capacidade de alcançar seus usuários, de modo a atender suas
necessidades informacionais e sociais.
A biblioteca se divide, basicamente, em duas categorias: as públicas e as privadas, e dentro
do caráter público ou privado, temos seus diversos tipos: escolar, universitária, especializada e
comunitária, além da biblioteca pública. Cada tipo de biblioteca tem características que as
distinguem umas das outras. Ressalta-se, aqui, a biblioteca comunitária como foco deste artigo. No
entanto, antes de explorarmos o universo da biblioteca comunitária, vamos conhecer como se
configuram as outras tipologias de bibliotecas. Segundo Machado (2009, p. 58),

�60
de modo geral, as bibliotecas atendem as demandas de suas comunidades e são
caracterizadas por elas, ou seja, pelo seu público. A biblioteca universitária é criada por lei
federal, independente de ser vinculada a uma instituição de ensino superior ou privada [...]
enquanto que a biblioteca especializada está necessariamente atrelada a uma instituição e
atende as demandas informacionais do grupo de técnicos e especialistas vinculados
formalmente a essa instituição.

Fica claro que cada biblioteca objetiva atender as necessidades de seus usuários e que cada
uma possui características intrínsecas a eles. Além dessas categorias, tem-se, ainda, a biblioteca
pública, que, segundo a Federação Internacional das Associações de Bibliotecários e Instituições
(IFLA, 1994, não paginado), é
[...] porta de acesso local ao conhecimento, fornece as condições básicas para uma
aprendizagem contínua, para uma tomada de decisão independente e para o
desenvolvimento cultural dos indivíduos e dos grupos sociais.

A biblioteca pública, assim, tem um importante papel para o desenvolvimento de seu país.
Ela nasce institucionalizada, ou seja, o Estado a provém de estrutura, equipamentos, recursos
financeiros e de pessoal e seu objetivo é atender as necessidades informacionais da sociedade em
nível de estado, município ou federação. Suaiden (1995, p. 19) afirma que,
a biblioteca pública, mantida pelo governo, tem por objetivo primordial preservar e difundir
o conhecimento, principalmente no que se refere à cultura local, e dentre todos os tipos de
bibliotecas é a única que possui realmente características de uma instituição social, tanto
pela amplitude de seu campo de ação como pela diversificação de seus usuários.

Nesse contexto do social, temos a biblioteca comunitária, que, assim como a pública, tem
seus objetivos direcionados a atender as demandas de informação e conhecimento da comunidade
onde está localizada. Machado (2008, p. 62) a descreve da seguinte forma:
[...] o emprego do termo biblioteca comunitária é mais apropriado para identificar o que
consideramos ser empreendimentos sociais que surgem do desejo e da necessidade de um
determinado grupo de pessoas em ter acesso ao livro, à informação e à prática de leitura,
num real exercício de cidadania [...]. Podemos identificar as bibliotecas comunitárias como
projetos vinculados a um grupo particular, que tem como objetivo atender esse mesmo
grupo, os quais possuem os mesmos problemas, os mesmos interesses e a sua própria
cultura, seja esse um grupo de especialista em paleontologia ou um grupo de moradores de
uma comunidade considerada de risco.

Observa-se, portanto, que a biblioteca pública e a biblioteca comunitária são semelhantes,
mas uma diferença significativa se destaca que é a forma como cada uma se constitui, pois, no caso
da biblioteca comunitária, ela nasce diretamente da comunidade e para a comunidade, não
possuindo nenhum vínculo com o poder público.
Almeida Júnior (1997, p. 94) descreve a biblioteca comunitária como,
[...] aquelas bibliotecas que atuavam junto aos seguimentos mais pobres das grandes
cidades, principalmente em bairros periféricos, mas que em nada ou talvez, em muito pouca
coisa, diferenciava das bibliotecas públicas tradicionais.

�61

O autor deixa claro que em sua concepção a biblioteca comunitária, nada mais é que uma
biblioteca pública situada nas periferias das cidades. Ele ainda esclarece que o termo “bibliotecas
comunitárias” “[...] é utilizado como forma de amenizar as ideias que acompanhavam a proposta de
bibliotecas populares” (ALMEIDA JÚNIOR, 1997, p. 93). É preciso esclarecer que não
aprofundaremos a discussão sobre bibliotecas populares, neste trabalho. Considerando, portanto, as
características e similaridades entre a biblioteca comunitária e a biblioteca pública, evidencia-se a
importância da comunidade para essas organizações e que sua existência se explica a partir do
momento em que as mesmas respondem aos anseios da coletividade, atuantes como agentes de
inclusão social.
A partir desse quadro de desigualdade social e falta de expectativas por parte dos jovens, é
que se ressalta a importância da biblioteca comunitária. Como campo de observação para esta
pesquisa, delimitaram-se as bibliotecas comunitária integrantes da Rede de Leitura Jangada
Literária. Nesse sentido, cumpre aqui elaborar estratégias para conhecer os mediadores de leitura
dessa Rede e compreender os impactos dessas ações na formação dos mesmos.

4 METODOLOGIA

A fim de atingir o objetivo de evidenciar a biblioteca comunitária como ferramenta de
inclusão social, capaz de promover o desenvolvimento social de jovens residentes em comunidades
de risco, optou-se pela pesquisa participante, já que um dos autores deste artigo atua como
bibliotecário nas bibliotecas do projeto. De acordo com Brandão (2006, p. 12), entende- se a
pesquisa participante como:
[...] um repertório múltiplo e diferenciado de experiências de criação coletiva de
conhecimentos destinados a superar a oposição sujeito/objeto no interior de processos que
geram saberes e na sequência das ações que aspiram gerar transformações a partir também
desses conhecimentos.

O trabalho tem uma abordagem qualitativa de cunho exploratório, na qual se faz uso da
observação participante, da pesquisa bibliográfica e de campo. O universo amostral da pesquisa é
formado por três mediadores de leitura, que atuam em três bibliotecas comunitárias integrantes da
Rede de Leitura Jangada Literária.
Os três são jovens que desde criança participam de atividades nos projetos sociais; são
membros de grupos de jovens, de associações e de conselhos comunitários ou de órgãos de controle
social, como no caso de uma jovem mediadora que atualmente está como conselheira da linguagem
Literatura no Conselho Municipal de Política Cultural de Fortaleza. Esses mediadores também se

�62

destacaram desenvolvendo habilidades e talentos que contribuíram para o crescimento e a
visibilidade da biblioteca comunitária em suas comunidades, fato que justifica as escolhas por esses
sujeitos.
Os mediadores são identificados pelas iniciais de seus nomes e sobrenomes preservando,
assim, as identidades deles. Para coleta dos dados, optou-se pela aplicação de um questionário
contendo oito perguntas. Em um primeiro bloco de perguntas, abordamos seus dados pessoais,
como: nome completo, idade, endereço, sexo, biblioteca em que atua e escolaridade. Em outro
bloco, indagamos o papel da biblioteca em suas vidas, como eles a conheceram e o que mudou a
partir de suas atuações nesses ambientes.

4.1 ANÁLISE DOS DADOS

Para análise, apresenta-se um breve relato sobre o Projeto Rede de Leitura Jangada Literária
para, então, discorrer sobre a entrevista realizada com os mediadores de leitura do projeto.

4.1.1 Projeto Rede de Leitura Jangada Literária

As bibliotecas comunitárias, integrantes da Rede Jangada Literária, desenvolvem diversas
atividades em seus espaços, desde ações intrínsecas à sua função, como incentivo à leitura, até
ações de lazer, como jogos, brincadeiras, entre outros. A mediação de leitura, carro chefe do
Programa Prazer em Ler/Instituto C&amp;A, parceiro dessas instituições, é uma ação desenvolvida em
todas as bibliotecas da Rede. Dentre as atividades realizadas têm-se: a contação de história com o
uso do livro, a contação de história com uso de recursos teatrais, a leitura compartilhada, saraus
literários etc.
Essas bibliotecas também realizam atividades que envolvem a comunidade onde se
localizam, como: seminários sobre a elaboração de políticas públicas que contemplem o livro, a
leitura e a exemplo disto tem-se a construção do Plano Municipal de Livro, Leitura, Literatura e
Biblioteca de Fortaleza; exibição de filmes na rua; aulas de música; oferta de serviços e
informações utilitárias (confecção de currículos, busca por ofertas de trabalho); reuniões de
lideranças comunitárias; palestras com temas de interesse da comunidade, como, por exemplo:
saúde, habitação, alimentação, drogas, o primeiro emprego e pesquisas escolares diversas.
Apesar dessa variedade de serviços ofertados por esses espaços, eles enfrentam alguns

�63

problemas, principalmente no que diz respeito aos territórios onde as bibliotecas escolares se
localizam, pois, muitas vezes, é um lugar de extrema desigualdade social, cujo tráfico de drogas dita
as regras e a violência é sempre presente na vida dos moradores locais, situação que atinge
principalmente os jovens e adolescentes.
Esses grupos não recebem a atenção necessária por parte do poder público, especialmente a
educação de qualidade e o acesso à cultura, fatores imprescindíveis para o desenvolvimento de um
pensamento crítico e uma atitude cidadã. A Rede conta com a assessoria de uma bibliotecária que
acompanha os mediadores de leitura nas bibliotecas, uma vez que esses espaços não possuem
recursos necessários para a contratação de um bibliotecário para cada biblioteca.
Nesse sentido, essa função é assumida pelo mediador de leitura, ou seja, jovens, entre 18 e
29 anos, selecionados da própria comunidade onde a biblioteca se situa. Os mesmos devem estar
cursando nível superior em diversas áreas do conhecimento, principalmente àquelas afins à leitura,
como: Biblioteconomia, Pedagogia, Serviço Social, Administração e Letras. As bibliotecas
integrantes da Rede Jangada Literária situam-se dentro de organizações sociais que desenvolvem
diversas atividades direcionadas para as comunidades onde se localizam, tendo os jovens como
público primordial, uma vez que esses são os mais atingidos pela violência.
A seleção dos mediadores para essas bibliotecas se dá a partir da resolução de um
questionário, em que os mesmos expõem suas habilidades, experiências, vivências, anseios,
objetivos, bem como seus interesses na leitura, seus conhecimentos a respeito de biblioteca e se
frequentam a mesma.
Boa parte desses mediadores diz ter pouco contato com a biblioteca, com os livros e com a
leitura, salvo algumas exceções. Esse quadro, no entanto, começa a mudar gradualmente, pois, a
partir do momento em que começam a atuar nas bibliotecas, aos poucos eles descobrem um novo
mundo, uma oportunidade de se desenvolverem enquanto seres sociais e livres que são.

4.1.2 Análise das entrevistas com mediadores de leitura

Os mediadores de leitura selecionados para esta pesquisa são jovens com idade média entre
20 a 30 anos, sendo dois do sexo feminino e um do sexo masculino. Todos cursam nível superior,
vinculado às áreas de Pedagogia, Serviço Social e Publicidade e Propaganda. A partir das
entrevistas realizadas com os mediadores, identificou-se em suas falas, a importância que a
biblioteca comunitária teve/tem para seu desenvolvimento social, educacional, profissional e
cultural. Foram feitas duas perguntas principais sobre a biblioteca, a saber:

�64

a) Há quanto tempo trabalha na biblioteca comunitária como mediador de leitura? Como
a conheceu e quais suas motivações?
b) Você considera que a biblioteca comunitária contribuiu, de alguma forma, para o seu
crescimento profissional e pessoal, sob quais aspectos?
É perceptível na fala dos mediadores de leitura que a biblioteca conseguiu, de algum
modo, transformar suas vidas, seja no modo de pensar, de agir, de se relacionar com as pessoas e
com o mundo que os cerca. Nossa primeira entrevistada é a jovem mediadora de leitura S.E.A.S,
21 anos, estudante do 6º semestre de Pedagogia, moradora no bairro Presidente Kennedy:
“Atuo como mediadora de leitura desde o ano de 2013. Comecei como voluntária na ONG em 2012, em 2013 a
mesma fez uma parceria que garantiu recurso para contratação de mediadores de leitura, por estar atuando na
organização, a gestora me convidou para trabalhar na biblioteca. Conheço e utilizo a biblioteca desde criança,
sempre participava de oficinas e pegava livros, isso me motivou a oportunizar outras pessoas, pois o espaço
impactou minha vida e eu sempre tive o desejo de que outras pessoas também pudessem ter esse acesso”.

A fala da mediadora S.E.A.S demonstra uma relação de intimidade com a biblioteca, de
como esse contato começou bem cedo, quando ela ainda era criança e o desejo de que outras
pessoas também possam ter o acesso ao universo da biblioteca e sentir o impacto da mesma em
suas vidas. Machado (2008) corrobora a mediadora em destacar o papel dessas bibliotecas para o
desenvolvimento de suas comunidades e seus sujeitos. “Objetivamente, essas bibliotecas devem
criar mecanismos para colaborar no desenvolvimento da sua comunidade, potencializando os
próprios talentos dos indivíduos e das comunidades” (MACHADO, 2008, p. 51).
Ainda em relação à mediadora, foi possível identificar talentos, até então não
desenvolvidos, como escrever, principalmente a escrita de textos poéticos e de cordel, bem como a
criação de um blog para divulgar seus textos. Outra fala significativa da mediadora é o papel da
biblioteca comunitária como ferramenta que propiciou seu ingresso na universidade,
principalmente como fonte de informação e leitura:
“Sempre estudei em escola pública, por isso tive várias lacunas na minha formação, o acesso aos livros, informações
era bastante limitado e a biblioteca comunitária cumpriu um papel essencial, pois preencheu essa lacuna que a escola
deixou. Na biblioteca tive acesso a um vasto mundo de conhecimento, participei de oficinas, conheci gêneros textuais,
passei a ter mais autonomia e pensamento crítico. Eu acredito que só passei em uma universidade pública por conta
da biblioteca e da ONG, nunca fiz cursinho, mas a biblioteca possibilitou esse ingresso, pois impactou diretamente na
minha formação leitora, humana e crítica”.

A segunda entrevistada é E.N.O, 23 anos, estudante do 7º semestre de Serviço Social,
mediadora de leitura na Biblioteca Comunitária Literateca, moradora de São Gonçalo do
Amarante. Ela também ressalta toda a diferença que a biblioteca comunitária lhe proporcionou,

�65

em destaque para seu engajamento social e o empoderamento advindo de seu papel como
mediadora do conhecimento na biblioteca comunitária:
“Trabalho há 4 anos e 5 meses como mediadora, conheci a partir de uma seleção que ia fazer para outro cargo,
como Auxiliar Administrativo da Associação União das Famílias. Acredito que esse espaço é transformador e que
trabalhar como mediadora me torna mais empoderada e engajada socialmente. Muito bom saber que como
mediadora tenho o papel de mediar conhecimento e não somente por obrigação, mas por acreditar que a leitura
muda os homens que consequentemente muda o mundo”.

Assim como a primeira mediadora, a mediadora E.N.O destaca a biblioteca comunitária
como um espaço transformador que lhe proporciona empoderamento e engajamento social
necessários para sua atuação como cidadã, além de frisar o seu papel como mediadora do
conhecimento. Outro destaque que E.N.O dá à biblioteca comunitária, a partir de sua atuação
como mediadora de leitura, é o seu desenvolvimento crítico e seu crescimento pessoal,
profissional e social:
“A partir do meu trabalho na biblioteca pude perceber socialmente e politicamente como as situações funcionam,
cresci e fomentei a minha criticidade a partir das leituras e formações recebidas. Pessoalmente tornei- me mais capaz
de tomar minhas próprias decisões embasada não somente no emocional, mas no racional também. Foi a partir do
meu trabalho como mediadora que interessei-me pelo Serviço Social, pelas causas políticas e pelas causas sociais”.

O terceiro mediador de leitura é W.H.D.B, 28 anos, estudante do 2º semestre de
Publicidade e Propaganda, morador do bairro Presidente Kennedy. Sua experiência com a
biblioteca comunitária, assim como suas colegas mediadoras de leitura, é de intimidade com a
leitura e seu desejo de incentivar outras pessoas a desenvolver esse relacionamento com os livros:
“Trabalho há três anos como mediador de leitura, minha maior motivação é de poder ter o prazer de trabalhar no
universo que eu amo: livros, e saber que de alguma forma estou contribuindo para disseminar e incentivar a leitura e o
ato de ler nas pessoas assim como um dia também alguém me incentivou”.

Para W.H.D.B, sua atuação na biblioteca comunitária lhe permitiu crescer na esfera pessoal
e profissional:
“No âmbito profissional através de qualificação por meio das formações me incentivaram a buscar obter mais
conhecimento e de me qualificar para que eu pudesse ser um profissional qualificado na área que pretendo atuar; no
âmbito pessoal foi o amadurecimento de conceitos, ideias; emocional, o tratar as pessoas e saber se comunicar e ser
entendido por qualquer pessoa, saber me relacionar e conviver com pessoas de opiniões diferentes”.

A partir das falas dos mediadores de leitura, fica claro que as bibliotecas comunitárias
funcionam como espaços de multicultura, onde se desenvolvem diversas atividades direcionadas a
atender um público variado, desde crianças a idosos, podendo influenciar de modo positivo a vida
daqueles que atuam na linha de frente desses espaços, no caso, os mediadores de leitura.

�66

Esses mediadores atuam nessas bibliotecas não como bibliotecários, uma vez que não têm
formação para tal. No entanto, são mediadores entre o conhecimento e a comunidade, em que essas
bibliotecas se localizam, mantendo, assim, seus vínculos identitários e proporcionando a outros o
acesso às riquezas existentes na biblioteca.
Nota-se, ainda, que alguns mediadores, antes de atuarem nas bibliotecas comunitárias,
tinham pouco contato com os livros e a leitura; a biblioteca era um espaço distante de suas
realidades. Todavia, atualmente, a partir de suas atuações nesses espaços, esse quadro mudou. Os
jovens, no momento atual, dispõem de diversas oportunidades, tanto de crescimento profissional,
pessoal, bem como social. Logo, a biblioteca comunitária, agora, é uma parte importante de suas
vidas.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento social e humano dos sujeitos perpassa seu acesso à leitura, à informação
e ao conhecimento, por meio, principalmente, da escola e da biblioteca. Essa última tem um papel
fundamental como ferramenta de inclusão social, em destaque, a biblioteca comunitária, pois ela
proporcionou o acesso à cidadania, seja como espaço de aprendizado, descobertas de habilidades,
ascensão profissional e educacional e como espaço de interação para os mediadores analisados
nesta pesquisa.
Trabalhar com o social é desenvolver habilidades para além da técnica; é entregar-se por
completo numa jornada sem limites, muitas vezes, sem retorno financeiro, mas de uma grandeza
imensurável. A biblioteca comunitária pode ser entendida como uma ferramenta capaz de
desenvolver habilidades e capacitar os sujeitos para os desafios da vida em comunidade, um ponto
de apoio para a tomada de decisões de interesse do coletivo e a mola propulsora de uma cidadania
plena. A partir das entrevistas, pode-se aferir que esses jovens despertaram o gosto literário no ato
de suas atividades, o que demonstra o quanto ações participantes colaboram para o desenvolvimento
tanto do mediador quanto dos leitores.
Além disso, percebe-se que as atividades desenvolvidas nas bibliotecas transformaram a
vida desses jovens, tornando esse momento não somente propício para formação profissional, mas
também para torná-los mais humanos, cientes do poder de transformação que possuem nas mãos. A
missão de mediar a leitura não é tarefa fácil, principalmente, quando se trata de um país de não
leitores; portanto, será sempre um desafio a ser enfrentado.
Dessa forma, ao passo em que os mediadores têm oportunidade de conhecer os serviços de

�67

uma biblioteca e desenvolver novas competências, eles também estão sendo contemplados pelo
programa, já que fazem parte da comunidade e são atingidos por uma série de riscos. Nas
bibliotecas comunitárias, eles desenvolvem o gosto literário, a criatividade, a imaginação e estão em
constante interação com os usuários que fazem parte da mesma comunidade. Demonstra-se,
portanto, a importância de projetos dessa natureza, que visam incluir, socialmente, jovens no
universo leitor e torná-los participantes e cientes dos direitos que possuem.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Bibliotecas públicas e bibliotecas alternativas.
Londrina: Editora UEL, 1997.
BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Zahar,
2003.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues; STRECK, Danilo (Org.). Pesquisa participante: a partilha do
saber. Aparecida: Editora Ideias &amp; Letras, 2006.
FEITOSA, Luiz Tadeu. O poço da draga: a favela e a biblioteca. São Paulo: Annablume;
Fortaleza: Secretaria da Cultura e Desportos, 1998.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
Disponível em: &lt;https://yadi.sk/i/peLbChsk3J7rRs&gt; Acesso em: 02 out. 2017.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Fortaleza. [Cidades – panorama
–Fortaleza]. Disponível em: &lt;https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ce/fortaleza/panorama&gt;. Acesso em:
11 out. 2017.
MACHADO, Elisa Campos. Bibliotecas comunitárias como prática social no Brasil. 2008. 184f.
Tese (Doutorado em Ciência da Informação) - Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação, Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
Disponível em: &lt;http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27151/tde-07012009- 172507/ptbr.php&gt;. Acesso em: 15 dez. 2017.
PERIFERIA. MICHAELIS dicionário brasileiro da Língua Portuguesa. Disponível
em:&lt;http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/periferia/&gt;. Acesso
em: 10 nov. 2017.
PESQUISA RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL. 4. ed. [São Paulo]: Instituto Pró-Livro,
2016. Disponível em:
&lt;http://prolivro.org.br/home/images/2016/Pesquisa_Retratos_da_Leitura_no_Brasil- 2015.pdf&gt;.
Acesso em: 20 fev. 2018.
PETIT, Michèle. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva. São Paulo: Editora 34, 2008.

�68

SOCIOLOGIA. EBAH dicionário de sociologia online. Disponível em:
&lt;http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAGZQAJ/dicionario-sociologia&gt;. Acesso em: 24 set.
2017.
SUAIDEN, Emir José. Biblioteca pública e informação à comunidade. São Paulo: Global, 1995.
TARGINO, Maria das Graças. Biblioteconomia, informação e cidadania. Revista da Escola de
Biblioteconomia da UFMG, Belo Horizonte, v. 20, n. 2, p. 149-160, jul./dez. 1991. Disponível em:
&lt;http://portaldeperiodicos.eci.ufmg.br/reb/&gt;. Acesso em: 15 dez. 2017.
THE INTERNATIONAL FEDERATION OF LIBRARY ASSOCIATIONS AND
INSTITUTIONS. Manifesto da Ifla/Unesco sobre bibliotecas públicas. 1994. Disponível em:
&lt;https://www.ifla.org/files/assets/public-libraries/publications/PL-manifesto/pl-manifesto- pt.pdf&gt;.
Acesso em: 20 out. 2017.

�69

PARTE II

Bibliotecas no fomento à
leitura: o poder
transformador da leitura
em diferentes contextos
da sociedade

�70

CAPÍTULO V
QUARTA DA CONTAÇÃO: HISTÓRIAS CONTADAS POR CRIANÇAS

Karla Karinne Alcoforado Pinho Costa
Laiana Ferreira de Sousa
Edcleyton Bruno Fernandes da Silva
Claudialyne da Silva Araújo

1 INTRODUÇÃO

Neste trabalho, discute-se o leitor que conta histórias e as contribuições advindas dessa
prática para o desenvolvimento de competências leitoras no início da infância. Desse modo, relatase como o ato de contar histórias favorece a aprendizagem e contribui para potencializar o
desenvolvimento da criatividade, da linguagem, da atenção e da memória.
A arte de contar histórias vem se destacando desde a antiguidade, até mesmo antes da
escrita. Hoje, é valorizada e reconhecida por ser um instrumento no processo educativo, pois é uma
excelente estratégia para despertar o gosto pela leitura desde o início da infância.
Infelizmente, a realidade brasileira anda a passos lentos no que diz respeito à formação de
leitores. Muitas vezes, as escolas utilizam metodologias que só afastam as crianças dos livros,
causando consequências desastrosas no aprendizado. Apesar disso, é, principalmente, na instituição
escolar, que o aluno tem o primeiro contato com os livros e com a sala de leitura, o que demonstra a
importância da biblioteca no âmbito da aprendizagem escolar.
É na escola que, na maioria das vezes, é apresentado o livro à criança pela primeira vez, por
isso a importância do desenvolvimento de ações que estimulem o gosto e o prazer da leitura
literária. Além disso, a organização de um lugar propício não somente para o compartilhamento de
livros com as crianças, mas também para a construção de um espaço onde elas se sintam
participantes, protagonizem ações de mediação de leitura e desenvolvam competências leitoras, é de
suma importância.
Foi pensando nisso que o Colégio Ari de Sá, localizado em Fortaleza - Ceará, desenvolveu o
projeto Quarta da Contação, há sete anos, com o objetivo de estimular a leitura nos alunos, de
maneira lúdica e eficaz. Toda quarta-feira, na Biblioteca Infantil, no horário dos intervalos, alunos,

�71

familiares e funcionários da escola se reúnem para contar histórias. Eles têm a oportunidade e a
liberdade de escolher uma história e contá-la para seus colegas.
Diante do exposto, este trabalho busca relatar as ações do Projeto Quarta da Contação, que
visa à formação de leitores das séries iniciais, por meio do protagonismo infantil. O intuito é
evidenciar a importância da contação de histórias para o desenvolvimento da linguagem,
estimulando a imaginação e a fantasia. Além disso, evidencia-se a leitura como instrumento
fundamental para o desenvolvimento educacional de qualquer indivíduo, instrumento esse
fortalecido quando adicionado à biblioteca escolar e às diferentes atividades desenvolvidas por ela,
no âmbito da escola.
Nesse contexto, levanta-se a seguinte questão: quais as contribuições da arte de contar
histórias para o desenvolvimento de competências leitoras nas séries iniciais?
Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa de campo com abordagem qualitativa,
realizada em uma instituição privada de ensino localizada em Fortaleza. Optou-se, também, pela
pesquisa participante, já que uma das autoras deste artigo atua como bibliotecária da instituição
onde o projeto é desenvolvido. Para tanto, além da observação e análise do comportamento dos
alunos que participam do projeto, realizaram-se entrevistas semiestruturadas com professoras do
segundo ano do Ensino Fundamental I, responsáveis pelo processo de letramento dos alunos e
atuantes no Projeto Quarta da Contação. O intuito foi conhecer o impacto desse protagonismo
infantil, no que concerne à prática da contação de histórias, para o desenvolvimento de
competências leitoras, no contexto escolar.
Desse modo, a fim de alcançar a proposta deste artigo, a pesquisa se apresenta em sete
seções. A primeira, que constitui esta introdução, contextualiza a temática abordada e expõe a
justificativa acerca da escolha do tema, os objetivos e a metodologia utilizada. Na segunda parte,
apresenta-se o referencial teórico sobre contação de história e a biblioteca escolar, recorrendo aos
teóricos estudados. A seguir, são apresentadas a metodologia e os resultados obtidos neste estudo e,
finalmente, as considerações finais.

2 CONTANDO HISTÓRIAS NA ESCOLA PARA DESENVOLVER O GOSTO LITERÁRIO

Contar histórias é uma arte que existe desde muitos anos. Antigamente, homens e mulheres
se sentavam ao redor de fogueiras para contar e ouvir histórias, no intuito de trocar experiências,
transmitir ensinamentos, crenças, rituais, costumes, valores e mitos às futuras gerações, e que
pudessem ser perpetuados, conservando a cultura dos pais para os filhos e cultivando, assim, um

�72

laço de afetividade. A arte de contar histórias é um momento de confraternização e, ao mesmo
tempo, de absorver conhecimento.
Considerando as mudanças advindas de um novo paradigma social, marcado pela
conectividade e pelo acesso à informação via recursos digitais, o tempo para se ouvir uma história
já não é mais o mesmo. Hoje, os contadores de histórias apresentam-se nos palcos de espetáculos
com cenários e iluminação. Apesar dessas mudanças, sempre estamos contando histórias, pois,
constantemente, narramos fatos do nosso dia a dia e outras tantas histórias que nos aproximam
daquele antigo contador de história popular (SOUSA; LIMA; CAVALCANTE, 2017).
É notório o prazer nos olhos das pessoas ao ouvir uma boa história. O sujeito que escuta tem
a oportunidade de associar a realidade com a imaginação, pois certas histórias são como um estalo
para o despertar de novas ideias, de novas histórias. Afinal de contas, as “histórias existem para
serem contadas, serem ouvidas e conservarem aceso o enredo da humanidade. O contador narra
para se sentir vivo” (BUSATTO, 2006, p. 25).
Nesse contexto, a contação de histórias vem sendo valorizada e reconhecida como excelente
estratégia para o desenvolvimento da aprendizagem no processo educativo, principalmente devido
ao seu caráter lúdico, proporcionando, assim, o prazer de aprender e a superação de dificuldades de
aprendizagem. Busatto (2006) corrobora ao considerar que:
as histórias são verdadeiras fontes de sabedoria, que têm papel formador da identidade. Há
pouco tempo, elas foram redescobertas como fonte de conhecimento de vida, tornando-se
também um grande recurso para educadores. A tradição oral dos contos, não só não
reapareceu como está ganhando força nos últimos tempos (BUSATTO, 2006, p. 21).

É interessante que a contação de histórias faça parte da vida das pessoas desde a infância,
pois o hábito de ouvir histórias desde cedo auxilia na construção e no desenvolvimento da
identidade. Existe uma troca sensacional entre contador e o ouvinte, fazendo com que toda bagagem
cultural e afetiva dessas crianças aflore. “Contar histórias é uma arte porque traz significações ao
propor um diálogo entre as diferentes dimensões do ser” (BUSATTO, 2003, p. 10).
Além disso, a arte de contar história contribui para estimular a imaginação, já que, devido ao
seu aspecto lúdico,
o contar histórias é fermento para o imaginário. Elas nascem no coração e, poeticamente
circulando, se espalham por todos os sentidos devaneando, gatiando, até chegar ao
imaginário. O coração é o grande aliado da imaginação nesse processo de produção de
imagens significativas. Com o coração, a gente sente e vê com os olhos internos as imagens
que nos fazem bem (BUSATTO, 2006, p. 58).

Assim, a contação de histórias estimula o desenvolvimento social, emocional e cognitivo da
criança. É um momento em que a criança pode sonhar e viajar por lugares incríveis, onde ela pode

�73

ser a mocinha ou guerreira, a princesa ou a bruxa, pode estar no castelo ou num vilarejo, tudo é
possível por meio de uma história lida ou contada, pois a leitura proporciona essa magia.
Autores como Abramovich (1997), Meireles (1984) e Coelho (2002) consideram
fundamental que o contador de histórias desenvolva habilidades do contexto cênico, pois esse
precisa articular expressões e movimentações que se encaixem no enredo da história e, assim,
prender a atenção do ouvinte.
Para contar uma história é preciso saber como se faz, afinal podem se descobrir sons e
palavras novas, e por isso é importante que se tenha uma metodologia específica. É preciso
que quem conte, crie um clima de envolvimento, de encanto, e saiba dar pausas necessárias
para que a imaginação da criança possa ir além e construir seu cenário, visualizar seus
monstros, criar os seus dragões, adentrar pela sua floresta, vestir a princesa com a roupa
que está inventando, pensar na cara do rei... E tantas outras coisas mais...
(ABRAMOVICH, 1994, p. 20).

É importante a preparação do contador de histórias, pois, somente assim, ele poderá fazer
entonações e variações de vozes para dar o efeito necessário ao enredo. Entende-se que o adulto
pode contar qualquer história para as crianças, desde que o livro esteja condizente com a
compreensão, como afirma Abramovich (1997).
Qualquer história pode ser contada, [...] desde que ela seja bem conhecida pelo contador,
escolhida porque a ache particularmente bela ou boa, porque tenha uma boa trama, porque
seja divertida ou inesperada ou porque dê margem para alguma discussão que pretende que
aconteça, ou porque acalme uma aflição... O critério é do narrador... E o que pode se
suceder depois depende do quanto ele conhece suas crianças [...] (ABRAMOVICH, 1997,
p. 20).

No século XVIII, surgiram os primeiros livros direcionados às crianças. Destacaram-se
alguns escritores da época, como La Fontaine e Charles Perrault, focando suas obras no gênero
contos de fada que perpetua até os dias atuais. Seguindo essa linha de gênero, foram surgindo outros
escritores como os irmãos Grimm, Hans Cristian Andersen e também Monteiro Lobato, todos com
obras importantes para a Literatura Infantil.
Nessa época, a Literatura Infantil era considerada como uma mercadoria, principalmente
para a sociedade aristocrática. Mas, com o passar do tempo, esse formato foi sendo modificado com
a industrialização, o crescimento da sociedade e toda a modernização, aumentando,
consequentemente, a produção de livros.
Baseando-se nessa evolução, as escolas passaram a compreender a importância da Literatura
Infantil e do livro na vida escolar das crianças. De acordo com Lajolo e Zilberman (2002, p. 15), “a
escola passa a habilitar as crianças para o consumo das obras impressas, servindo como
intermediária entre a criança e a sociedade de consumo”.
No início do século XX, as obras didáticas produzidas e apresentadas para as crianças
tinham apenas um único objetivo, o de educar e criar um perfil de criança de acordo com as

�74

expectativas dos adultos. Os livros, dificilmente, tinham o objetivo de ser prazerosos e existiam
poucas obras que narravam situações do cotidiano das pessoas.
Atualmente, essas obras tomaram uma dimensão muito mais ampla e importante. Elas
oferecem à criança um desenvolvimento emocional, social e cognitivo inquestionável. De acordo
com Abramovich (1997, p. 25), “quando as crianças ouvem histórias, passam a visualizar, de forma
mais clara, sentimentos que elas têm em relação ao mundo. As histórias trabalham problemas
existenciais típicos da infância, como medos, sentimentos de inveja e de carinho, curiosidade, dor,
perda, além de ensinarem infinitos assuntos”.
Outro fator importante é a escolha do espaço de leitura, o qual deve ser acolhedor,
convidativo e confortável, permitindo que as crianças circulem e falem livremente. Deve ser um
espaço propício não somente para o compartilhamento de livros com as crianças, mas também para
desenvolver teatro com fantoches, encenações com o uso de acessórios adequados, caracterizações
de personagens das histórias ou teatros em que as crianças sejam os personagens.
O uso de artifícios para prender a atenção do ouvinte também merece destaque. A técnica de
repetição é das mais favoráveis para conquistar e manter a atenção e o interesse do pré-leitor, pois,
na primeira vez que a história é contada para a criança, tudo é novidade. A partir da segunda vez, as
crianças já sabem o que acontecerá, então, elas procuram detalhes da história, assim como acontece
com os adultos em um bom livro lido ou em um belo filme visto.
Vale ressaltar que a família tem um papel fundamental nesse processo, pois a contação de
histórias, desde os primeiros meses de vida, influencia no processo de aquisição de leitura por
fruição, estando em segundo lugar a escola como agente educador, oferecendo não somente ações
de estímulos à leitura, mas, muitas vezes, o primeiro contato com o livro. Segundo Sandroni e
Machado (2000, p. 12), “a criança percebe desde muito cedo que livro é uma coisa boa, que dá
prazer”. As crianças pequenas apresentam interesse pelas imagens, sons, formas e figuras que os
livros possuem e, mais tarde, darão significados a elas, identificando-as e nomeando-as. Cumpre
aos adultos oportunizar esse primeiro contato com os livros.
É fundamental que a criança possa vivenciar a palavra e a escuta em todas as suas
possibilidades, explorando diferentes linguagens, capturando-as e apropriando-se do mundo
que a cerca, para que este se desvele diante dela e se torne fonte de interesse vivo e
permanente, fonte de curiosidade, de espantos de desejos e descobertas, numa dinâmica em
que ela se socialize e se manifeste de forma ativa, cri (ativa), participativa em qualquer
situação, não apenas “recebendo” passivamente, mas produzindo e (re) produzindo cultura
(JORGE, 2003, p. 97).

Nesse sentido, quando uma criança tem acesso ao livro desde cedo e percebe o prazer que a
leitura produz, maior será a chance de se tornar um adulto leitor, além de desenvolver uma postura
crítico-reflexiva extremamente relevante à sua formação cognitiva.

�75

Para alguns escritores, o gosto pela leitura está relacionado à questão do acesso ao livro; a
escola, como espaço público, deve favorecê-lo, criando oportunidades para que seja despertado nos
alunos o interesse pela leitura.

3 BIBLIOTECA ESCOLAR: UMA GRANDE ALIADA

A partir do desenvolvimento da imprensa por Gutenberg, no século XV, aumentaram o
número de publicações e, com isso, a importância da biblioteca, local indispensável à formação e ao
desenvolvimento intelectual dos indivíduos. Hoje em dia, as bibliotecas escolares têm sido criadas
para atender as escolas como um recurso de ensino-aprendizagem, pois a ideia de democratização
do saber por meio da leitura confirma a necessidade e a importância dessa instituição.
Na maioria das bibliotecas da Antiguidade, o acesso à leitura e à escrita era restrito a uma
parcela muito pequena da população. Em meados do século XIX, no Brasil, surgiram as primeiras
discussões sobre a necessidade de criação de bibliotecas escolares. Na época, referiam-se à palavra
“biblioteca” apenas como coleções de livros (VÁLIO, 1990).
A concepção que temos de biblioteca vem se transformando e se ajustando por meio da
própria história desse espaço. Para Fonseca (1992, p. 25), um novo conceito “é o de biblioteca
menos como coleção de livros e outros documentos, devidamente classificados e catalogados do
que como assembleia de usuários da informação”. Isso quer dizer que as bibliotecas não devem ser
vistas como simples depósitos de livros, mas devem ter seu foco voltado para as pessoas e ao uso
que essas fazem da informação, oferecendo meios para que essa circule da forma mais dinâmica
possível.
As bibliotecas podem ser classificadas como infantis, especializadas, públicas, nacionais,
comunitárias, de centro cultural, entre outras. Aqui, o foco será a biblioteca escolar. Para Pimentel
(2007, p. 23), a biblioteca escolar,
localiza-se em escolas e é organizada para integrar-se com a sala de aula e no
desenvolvimento do currículo escolar. Funciona como um centro de recursos educativos,
integrado ao processo de ensino-aprendizagem, tendo como objetivo primordial
desenvolver e fomentar a leitura e a informação.

A biblioteca escolar tem uma grande missão. De acordo com o Manifesto da Federação
Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias e da Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e a Cultura (IFLA/UNESCO, 2005), ela promove serviços de apoio à
aprendizagem e livros aos membros da comunidade escolar, oferecendo-lhes a possibilidade de se
tornarem pensadores críticos e efetivos usuários da informação, em todos os formatos e meios.

�76

Segundo Souza et al. (2011, p. 2), “a biblioteca escolar foi criada para desenvolver o ensino formal,
sendo de sua competência, grande parcela no desenvolvimento da capacidade de ler”.
O estímulo à leitura não se trata do incentivo ao isolamento do indivíduo com o livro, mas
trata-se de muni-lo com conhecimento para que possa conviver e relacionar-se com o meio em que
vive. A leitura jamais será um ato isolado, pois carrega consigo vivências e relações que se
misturam e influenciam umas às outras, contribuindo para a interpretação dos textos lidos.
Conforme Lajollo (2005, p. 7), “ninguém nasce sabendo ler, aprende-se a ler à medida que se vive.
Se ler livros geralmente se aprende nos bancos da escola, outras leituras se aprendem por aí, na
chamada escola da vida [...]”. Já Freire (2001) ressalta que a leitura não é somente para a criança,
mas tem sua importância em todas as fases da vida do indivíduo.
A biblioteca escolar, principal espaço mediador da leitura na infância, também se faz
presente como elemento de ligação entre professor e aluno no processo de aprendizagem. Observase, conforme Andrade (2002, p. 13), que “educadores – professores e bibliotecários – que acreditam
na biblioteca como recurso pedagógico eficiente, contam agora com evidências concretas para
mostrar que a biblioteca escolar pode fazer diferença na educação de crianças e jovens”.
Dessa forma, um dos papéis das bibliotecas escolares é proporcionar o desempenho da
prática da leitura como uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da cidadania e da
democratização da informação. Além disso, contribui para o desenvolvimento de atividades em sala
de aula, ao fornecer materiais que reforçam o conteúdo estudado e que proporcionam o
entretenimento. Esses processos possibilitam aos alunos melhor desenvolvimento de seu
aprendizado e o gosto pela leitura.
Uma escola deve ter como aliada uma biblioteca, cujo espaço deve ser atrativo, acolhedor,
com muitas atividades literárias, um acervo adequado à faixa etária e, principalmente, com
profissionais especializados para gerenciar todas as ações do setor. Caldin (2005, p. 1) demonstra
que,
além de despertar o gosto pela leitura como forma habitual de lazer, um dos objetivos da
biblioteca escolar é a formação do cidadão consciente e capaz de um pensamento crítico e
criativo. Isso significa uma maior participação do bibliotecário no processo cultural do qual
fazem parte, também, os professores, pedagogos, escritores e pesquisadores que vêem na
leitura um ato de conscientização do indivíduo.

A existência de uma biblioteca escolar ativa e dinâmica é um fator fundamental para que se
estabeleça o processo de ensino-aprendizagem e o incentivo à leitura, pois é o primeiro contato do
aluno com esse tipo de estabelecimento.

�77

A biblioteca deve ser entendida como um centro de cultura, entretenimento, apoio
pedagógico, enfim, “o coração da escola”. Nela, a leitura deve ser prazerosa, um lazer, uma
diversão, pois existem alunos que não têm nenhum incentivo em casa.
Segundo Pimentel (2007, p. 28), “[...] a biblioteca escolar deve ser encarada como um
espaço dinâmico e indispensável na formação do cidadão”. E, com base nessa citação, surge o papel
do bibliotecário, com muita responsabilidade de se atentar para garantir o acesso à leitura, de
manter a frequência dos alunos em horários livres ou em momentos com a turma e os professores. É
dever desse profissional deixar a biblioteca sempre de portas abertas para qualquer usuário,
envolvendo a participação dos pais, professores, funcionários da escola e toda a comunidade
escolar.

4 METODOLOGIA

A presente seção aborda a metodologia utilizada na elaboração do estudo, cujo objetivo
principal é relatar a experiência do desenvolvimento do Projeto Quarta da Contação. Segundo
Pedron (2001), metodologia é o caminho percorrido para se alcançar determinado fim. Ou seja,
metodologia é o conjunto de métodos e técnicas aplicados para se atingir um determinado objetivo.
O estudo tem caráter exploratório, visto que o “tema escolhido é pouco explorado e torna-se
difícil sobre ele formular hipóteses precisas” (GIL, 2010, p. 43). O objetivo da pesquisa exploratória
é proporcionar visão geral sobre determinado fenômeno, que pode servir de ponto de partida para
novos trabalhos sobre o tema abordado. Desse modo, a etapa inicial da pesquisa envolveu o
levantamento bibliográfico, em que foram consultados livros e artigos sobre o tema selecionado, já
que o levantamento bibliográfico visa ao esclarecimento de conceitos sobre o tema ou problema
estudado.
A pesquisa tem abordagem qualitativa, pois analisa os aspectos subjetivos que qualificam o
problema. O instrumento de coleta de dados utilizado foi a entrevista semiestruturada. O corpus de
análise foi constituído pelos alunos, com o levantamento de dados ocorrendo junto a professores e
educandos.
O universo da pesquisa é composto por aproximadamente 100 alunos e cinco professores.
Para este artigo, selecionou-se uma amostra correspondente a duas professoras do Ensino
Fundamental I e em torno de 60 alunos. Utilizou-se a amostragem intencional por conveniência,
pois as professoras foram escolhidas por estarem na escola no momento da realização da entrevista.

�78

A escolha da escola ocorreu devido a uma das autoras do artigo trabalhar como bibliotecária na
instituição.

5

PROJETO

QUARTA

DA

CONTAÇÃO:

ANÁLISE

DO

COMPORTAMENTO

INFORMACIONAL DE CRIANÇAS CONTADORAS DE HISTÓRIAS

O projeto de leitura e contação de histórias Quarta da Contação foi criado em 2011, na
Biblioteca Escolar do Colégio Ari de Sá Cavalcante, localizado em Fortaleza, com o objetivo de
atender a grande demanda de alunos que frequentavam a biblioteca no intervalo de aula. As
atividades do projeto ocorrem todas as quartas-feiras, momento em que as crianças selecionam uma
história para contar a seus amigos que estão presentes na biblioteca. Para o espetáculo, são
disponibilizados instrumentos de som, ou seja, microfone e caixa de som, além de acessórios, como
fantasias de livre escolha do aluno. Depois da narração, registra-se a presença do aluno com uma
foto sua e o livro de sua escolha para, posteriormente, expor a fotografia num painel da biblioteca. É
comum os alunos convidarem seus pais para visitarem o espaço e verem a exposição de fotos no
painel, momento de grande satisfação.
A partir da experiência com o desenvolvimento do projeto, surgiu o interesse de avaliar o
comportamento dessas crianças juntamente com o auxílio de duas professoras que participam das
ações. O intuito foi conhecer o impacto desse protagonismo infantil, no que concerne à prática da
contação de histórias, para o desenvolvimento de competências leitoras no contexto escolar.
Inicialmente, observaram-se os alunos, tentando entender que histórias eles mais gostavam
de contar para seus amigos. Percebeu-se que a grande maioria das meninas se interessava mais por
histórias de princesas, bailarinas e animais, enquanto os meninos se identificam mais com livros de
dinossauros, animais e comédias. A participação das meninas é bastante representativa, pois elas
frequentam mais o projeto, utilizam mais os acessórios e fantasias, gostam mais de tirar fotos; já os
meninos são mais práticos e objetivos quanto ao uso de acessórios e, geralmente, escolhem um
chapéu ou óculos, dentre outros.
Participa das atividades do projeto uma média de 40 alunos no turno da manhã e 20 alunos
no turno da tarde. Nota-se o desenvolvimento gradativo dos participantes no que concerne à leitura,
pois, no começo do ano, as crianças começam lendo muito devagar e escolhem poucos livros para o
empréstimo e, em pouco tempo, desenvolvem um verdadeiro cotidiano leitor. Foi unânime a fala
das crianças sobre a emoção de contar histórias com o microfone e com os recursos oferecidos para
os seus colegas assistirem: “Eu me sinto uma artista de televisão”.

�79

Muitos comentam que os pais ficam orgulhosos e felizes com a participação deles no
projeto, o que demonstra que esses alunos que contam histórias são também estimulados pelos pais
e familiares. Além disso, as crianças relatam que frequentam livrarias e teatro, o que demonstra a
importância desse estímulo para além da sala de aula. “O primeiro contato da criança com um texto
é feito oralmente, por meio da voz da mãe, do pai ou das avós, contando contos de fadas, trechos da
Bíblia, histórias inventadas...” (ABRAMOVICH, 1995, p. 20).
Em entrevista com as crianças envolvidas no projeto, a grande maioria comentou sobre a
influência das professoras nas salas de aula, que contam histórias em sala e conduzem os alunos até
a biblioteca, estimulando, dessa forma, o prazer pela leitura.
Entrevistando duas das principais professoras que participam desse projeto, as interlocutoras
comentaram sobre a satisfação de colher frutos com suas ações de incentivo à leitura. Falaram da
importância de organizar horários de aula de expressão oral e escrita para acontecerem na
biblioteca, como também reservam um tempo de visita a esse espaço para fazerem alguma leitura
com sua turma.
Segundo a professora Silva, é importante a leitura na vida das crianças, pois elas caminham
para uma formação de qualidade, de modo que se tornam mais criativas nas atividades curriculares
da escola e desenvolvem melhor as argumentações, ocasionando um excelente desempenho escolar.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir desta pesquisa, foi possível acompanhar o projeto Quarta da Contação e avaliar o
desenvolvimento de competências leitoras de alunos do Fundamental I. Nota-se que foi a partir da
ação da biblioteca da escola que o projeto atingiu uma ampla dimensão, com resultados notórios no
desenvolvimento emocional, cognitivo e social dos alunos.
Pensando na formação integral do aluno, a biblioteca propõe, por meio da contação de
história, formar a criança para a prática da liberdade, autonomia e construção da identidade e
personalidade. Quando a criança conta uma história, ela está se divertindo, estimulando a
imaginação, e todo esse desenvolvimento agrega excelentes resultados em sala de aula.
Assim, pode-se dizer que as histórias tratam de questões relativas à vivência social e coletiva
e, ao serem utilizadas na biblioteca, podem fornecer aos educandos formas de se relacionar com as
realidades externas e internas da dimensão humana. Não se trata apenas de entretenimento infantil,
mas também de fontes de conhecimento e imaginação.

�80

A partir do relato das professoras entrevistadas, percebeu-se que o contato com o livro e a
contação de história são essenciais, pois todos esses fatores intensificam o interesse e o prazer das
crianças para o universo literário, refletidos no desempenho dos alunos em sala de aula.
Dessa forma, conclui-se que a contação de histórias responde às necessidades afetivas e
intelectuais das crianças, gerando inúmeros benefícios para o leitor que conta histórias, pois, além
de instigar o gosto literário, amplia o vocabulário, desenvolve a linguagem oral e escrita, exercita o
poder de concentração, educa a atenção, dentre outros. Por isso, assume-se a importância em
desenvolver ações que dinamizem o espaço da biblioteca escolar e promovam o acesso à leitura
literária nas séries iniciais.

REFERÊNCIAS
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. 4. ed. São Paulo:Scipione,
1994.
______. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Spicione, 1997.
______. Literatura infantil: gostosuras e bobices. 5. ed. São Paulo: Scipione, 2001.
______. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 2003.
BUSATTO, Cléo. Contar e encantar: pequenos segredos da narrativa. Petrópolis: Vozes, 2003.
______. A Arte de contar histórias no século XXI: tradição e ciberespaço. Petrópolis: Vozes,
2006.
CALDIN, Clarice Fortkamp. Reflexões acerca do papel do bibliotecário de biblioteca escolar.
Revista ACB, Florianópolis, v. 10, n.2, p. 1-5, 2005.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: teoria, análise e didática. São Paulo: Moderna, 2000.
FREIRE, Paulo. Carta de Paulo Freire aos professores. Estudos avançados, São Paulo, v. 15, n. 42,
2001.
IFLA/UNESCO. Manifesto IFLA/UNESCO para biblioteca escolar. IFLA, 1999. Disponível em:
&lt;http://archive.ifla.org/vii/s11/pubs/portuguese-brazil.pdf&gt;. Acesso em: 24 nov. 2018.
JORGE, L. S. Roda de histórias: a criança e o prazer de ler, ouvir e contar histórias. In: DIAS,
Marina Célia Moraes; NICOLAU, Marieta Lúcia Machado (Org.). Oficinas de sonho e realidade
na formação do educador da infância. Campinas: Papirus, 2003.
LAJOLO, M.; ZILBERMAN, R. Literatura infantil brasileira: história e histórias. 6. ed. São
Paulo: Ática, 1999.

�81

MEIRELES, Cecília. Problemas da literatura infantil. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1984.
PIMENTEL, Graça. Biblioteca escolar: técnico em multimeios didáticos. Brasília: Universidade de
Brasília, 2007.
SILVA, Lésia Fernandes; COSTA, Edna Aparecida da; MELLO, Ana Maria. Os contos que as
caixas contam. In: ROSSETTI-FERREIRA, Maria Clotilde et al. (Org.). Os Fazeres na Educação
Infantil. 11. edição. São Paulo: Cortez, 2009.
SOUSA, L. F.; LIMA, I. F. A.; CAVALCANTE, L. D. E. Vestindo o personagem: o contador de
histórias do século XXI. Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 2017.
SOUZA, Maria Salete Daros de. A conquista do jovem leitor: uma proposta alternativa.
Florianópolis: UFSC, 1993.
VÁLIO, Else Benetti Marques. Biblioteca escolar: uma visão histórica. Transinformação,
Campinas, v. 2, n. 1, jan./abr. 1990.

�82

CAPÍTULO VI
IMPLANTAÇÃO DE BIBLIOTECAS EM TERMINAIS URBANOS DA GRANDE
VITÓRIA-ES: UM RELATO DE CASO9

Maria Aparecida de Mesquita Calmon
Suelen de Oliveira Campos
Jorge Santa Anna

1 INTRODUÇÃO

Os estudos e projetos desenvolvidos sobre leitura têm sido uma constante na vivência de
profissionais e instituições, sobretudo daqueles (daquelas) que lidam com a informação e o
conhecimento para transformação social.
Dentre essas instituições, as bibliotecas se destacam, pois são elas propulsoras da
informação contida nas mais diferenciadas coleções que formam os acervos bibliográficos. Em
meio às atividades de formação e disseminação dos acervos, aliado aos serviços de referência que
atendem diferentes públicos, as bibliotecas e os bibliotecários acabam por estimular a prática da
leitura.
Assim, as bibliotecas se configurarem-se como espaços promotores da leitura. Cientes do
papel da leitura na vida dos indivíduos, seja quanto ao desenvolvimento intelectual, psicológico,
cultural e social, além da contribuição com o entretenimento, as bibliotecas colocam-se a serviço da
leitura, como também na formação de leitores.
Deveras, ao abraçar essa causa, as bibliotecas estão realizando uma atividade nobre para a
sociedade, pois a leitura fomenta a prática cidadã, como discorrido nos estudos de Diniz et al.
(2011) e Santa Anna, Gregório e Gerlin (2014), dentre outros.
Além disso, há de se considerar que ao viabilizar a leitura, bibliotecas e bibliotecários estão
exercendo uma atividade inerente ao seu exercício profissional, mas também, não podemos
9

Os resultados finais deste relato de caso foram publicados no ano de 2016, na Revista Biblionline. Logo, o texto que
aqui se apresenta expõe esses e outros resultados, com algumas adaptações, sobretudo no que tange às mudanças
ocorridas, nos últimos anos, no Sistema de Transporte Rodoviário Urbano (TRANSCOL) da Grande Vitória, estado do
Espírito Santo.

�83

esquecer que elas e eles estão cumprindo o que está expresso em políticas públicas em favor da
leitura no Brasil, de modo a tornar a sociedade cada vez mais leitora.
No âmbito governamental, a criação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) revestese dessa causa, mobilizando ações em prol da promoção da leitura. Assim, torna-se uma tarefa
conjunta, seja de pessoas, organizações e governo em unir esforços no sentido de promover
parcerias e redes de leitura em todo o país (BRASIL, 2011).
As bibliotecas procuram atender as disposições do PNLL, dentre outras determinações
normativas, seja nas esferas municipal, estadual ou federal. O objetivo principal é permitir que a
leitura passe a se manifestar como uma atividade prazerosa, que pode ser realizada em qualquer
ambiente, desmistificando o fato de que as pessoas não lerem por falta de tempo; por não terem
condições de adquirir um livro; porque passam boa parte do tempo no trabalho; porque não vão à
escola ou à biblioteca, dentre outras justificativas.
É com esse propósito que muitas bibliotecas, sobretudo as bibliotecas públicas ou
comunitárias, realizam projetos em que os livros vão ao encontro das pessoas. Esses projetos são
estimuladores, porque rompem as “desculpas” acima mencionadas, e acabam por incentivar as
pessoas ao hábito da leitura.
É comum perceber projetos conduzidos pelas bibliotecas em que os livros são expostos em
ambientes fora da biblioteca. É louvável essa atividade, pois a biblioteca adota uma postura próativa, indo ao encontro dos leitores. Além de irem ao encontro dos leitores, é preciso também,
conforme defendido na tese de Chartier (1994, 1998), conhecer o perfil dos leitores, de modo a
melhorar as condições, para que a prática da leitura se efetive, independente do local que o leitor
esteja.
Pensando nisso, foi implementado o Projeto Biblioteca Transcol, uma parceria firmada entre
a Biblioteca Pública do Estado do Espírito Santo e o Sistema de Transporte Coletivo Metropolitano
(TRANSCOL) da Grande Vitória, estado do Espírito Santo (ES). Uma das ações do projeto foi
instituir acervos bibliográficos nos terminais de ônibus existentes nas cidades que comportam essa
região metropolitana, de modo que as pessoas, ao passarem no local, pudessem retirar um livro e
realizar a leitura, seja em casa, ou dentro dos ônibus.
Acreditamos que esse projeto sustentou-se na estratégia de que, mesmo estando dentro de
um ônibus, e, normalmente, diante de altos engarrafamentos comuns nas cidades brasileiras, as
pessoas pudessem aproveitar o tempo ocioso para recorrer à prática da leitura.
Assim, este estudo disserta acerca dos espaços de leitura instituídos em locais externos às
bibliotecas físicas, haja vista implementar ações de fomento à leitura na sociedade. Objetiva
apresentar o Projeto Biblioteca Transcol, demonstrando a oferta de material informacional

�84

disponibilizado em terminais rodoviários de grande circulação e disponíveis aos usuários que
utilizam o sistema de transporte urbano da região metropolitana de Vitória. Tendo em vista
demonstrar o desenvolvimento do referido projeto, analisam-se as práticas de leitura e o perfil dos
leitores, assim como a percepção dos usuários desses espaços quanto ao material fornecido e as
condições ambientais para concretização da leitura.

2 DIÁLOGO COM A LITERATURA

No intuito de fundamentar as ideias propostas neste artigo acerca da importância da leitura e
da contribuição do bibliotecário e da biblioteca no fomento a essa prática, principalmente quanto à
elaboração de ações que estimulem essas práticas para além dos ambientes tradicionais das
bibliotecas, esta seção destina-se a apresentar reflexões que confirmem a importância e necessidade
em se realizar essas ações.
Assim, nos dois tópicos, a seguir, apresentam-se fundamentação teórica, considerando o
papel da biblioteca e do bibliotecário no estímulo às práticas leitoras, como também os ambientes
em que essa prática pode se realizar e qual o comportamento dos leitores nos mais variados
contextos e ambientes em que a leitura pode ser realizada.

2.1 A CONTRIBUIÇÃO DAS INSTITUIÇÕES E PROFISSIONAIS NO FOMENTO À
LEITURA: O PAPEL DA BIBLIOTECA E DO BIBLIOTECÁRIO

A leitura vem sendo muito questionada ao longo dos tempos, principalmente a partir do
momento que passou a ser vista como uma prática de transformação e desenvolvimento intelectual e
social. É por meio da leitura que se desenvolve a habilidade crítica e reflexiva, o que torna o leitor
capacitado a transformar sua realidade. Portanto, a leitura desperta o conhecimento do mundo,
sendo um instrumento propagador de cidadania (MARINHO, 1993).
Por estar relacionada à cidadania, assim como defende a tese de Marinho (1993), a leitura
torna-se objeto de preocupação de governantes, principalmente nos países de sistema democrático.
Ela ocupa (ou deveria ocupar) um lugar privilegiado nos planos governamentais, o que justifica a
criação de políticas públicas que assegurem a formação de uma sociedade leitora (ROSA;
ODDONE, 2006).

�85

Para que a sociedade se torne leitora, não basta apenas investir no sistema educacional, de
modo a reduzir o analfabetismo. É preciso, segundo Rosa e Oddone (2006), implementar programas
de incentivo à leitura, sendo necessário, também, demonstrar a importância do livro e das
instituições que se colocam a serviço de sua guarda e disseminação, como as bibliotecas.
Especificamente, no Brasil, observa-se um cenário desigual e contraditório, pois, ao mesmo
tempo em que há políticas públicas e programas governamentais em favor da leitura, do livro e das
bibliotecas, muitas medidas não são implementadas, o que transforma o país em uma nação com
poucos leitores (ROSA; ODDONE, 2006).
Segundo essas autoras, transformar o Brasil em um país de leitores constitui um grande
desafio, principalmente com os reflexos da sociedade da informação, em que novos suportes
informacionais surgem, o que demanda conhecimento no uso das novas tecnologias por parte do
leitor, e isso pode acarretar novos problemas na tentativa de incluir o cidadão nesse novo estágio da
sociedade.
Mesmo diante dessas dificuldades, é preciso considerar que a luta por uma sociedade leitora
não constitui apenas missão dos governos, mas também de outras instituições e profissionais
engajados com as causas sociais. Trata-se de um trabalho conjunto, em que esforços devem ser
comungados, assim como dispõe o PNLL, cuja meta principal é criar condições favoráveis para a
formação de leitores e o incentivo à leitura no Brasil (BRASIL, 2011).
De acordo com o referido programa, todo cidadão deve ter acesso ao livro e à leitura,
independente de quaisquer limitações desse sujeito. Portanto, esse programa coloca-se a serviço da
formação cidadã por meio da prática da leitura. Santa Anna, Gregório e Gerlin (2014, p. 79), a
respeito do PNLL, consideram que
o documento legal determina que o país condicione a formação continuada de profissionais,
seja das escolas, seja das bibliotecas. Para atingir esse fim, deve ser viabilizada a produção
e distribuição de materiais de orientação, com vistas a promover parcerias e redes de
leitura. Também se recomenda no texto legal a ampliação e implementação de bibliotecas
escolares e dotação de acervos.

Considerando as reflexões dos autores citados, entende-se que as instituições educacionais,
como as escolas e as bibliotecas, devem ser disseminadoras e incentivadoras das práticas leitoras.
Os profissionais dessas instituições devem comportar-se como agentes educacionais, culturais e
sociais, tendo apoio, incentivo e investimento por parte das autoridades governamentais.
Assim, é necessário repensar o papel da biblioteca, a qual deve adquirir uma dimensão
educativa, como mediadora e formadora de leitores (prática de leitura), além de sua atuação como
agência modificadora “[...] do viver, do sentir e do pensar do indivíduo, ou seja, torná-los
verdadeiramente cidadãos” (MARINHO, 1993, p. 93).

�86

Sendo assim, depreende-se o importante papel que o bibliotecário possui quanto à formação
de uma sociedade leitora. Esse profissional não pode ser visto apenas como guardião dos acervos,
mas sim, como propagador da informação, contribuindo para o desenvolvimento cidadão, tendo em
vista conquistar “[...] igualdade de oportunidades sociais que possibilitem a todos os estudantes o
acesso ao conhecimento registrado” (CALDIN, 2005, p. 163).
Com efeito, o bibliotecário deve ser dinâmico e audacioso, desenvolvendo ações que
interfiram no cotidiano das pessoas. No que se refere ao incentivo à leitura, não resta dúvida de que,
a inovação e criatividade são primordiais para atrair os novos leitores. O bibliotecário deve fazer
com que a biblioteca seja um espaço divertido e agradável para que as pessoas tenham mais vontade
de frequentá-la. Projetos podem ser realizados nas unidades de informação para atrair e manter os
leitores interessados (PITZ; SOUZA; BOSO, 2011).
A adoção de projetos constitui uma forma valiosa para divulgar o trabalho prestado na
unidade de informação. Portanto, no que se refere à leitura, o desenvolvimento de projetos que
viabilizem o contato dos usuários com os materiais informacionais, que despertem o interesse pela
leitura, tais como dramatizações e contações de história constituem atividades criativas e inovadoras
(PITZ; SOUZA; BOSO, 2011).
Outro exemplo de atividades bibliotecárias criativas e inovadoras voltadas à propagação da
leitura diz respeito à construção de espaços de leitura, podendo esses espaços serem estruturados
fora do ambiente físico da biblioteca, o que permite uma atuação bibliotecária além da biblioteca
(SANTA ANNA; GREGÓRIO; GERLIN, 2014).
É evidente que os espaços de leitura criados fora da estrutura física da biblioteca ampliam os
laços de aproximação entre biblioteca e sociedade. Para Santa Anna, Gregório e Gerlin (2014), essa
atuação é, sem dúvida alguma, uma atitude interventiva do bibliotecário, haja vista despertar a
importância e o interesse pela leitura a um número cada vez maior e diversificado de leitores.
Assim, projetos podem ser realizados no sentido de implementar espaços de leitura em diversos
locais de uma comunidade, seja em locais públicos de grande circulação, seja em locais mais
reservados e privativos, como no interior de empresas.

2.2 ALÉM DOS MUROS DAS BIBLIOTECAS: OS ESPAÇOS E PRÁTICAS DE LEITURA E O
PERFIL DO LEITOR

Considerando a atuação da biblioteca além de seu recinto, no que se refere à propagação da
leitura, assim como apontou Santa Anna, Gregório e Gerlin (2014), ao estruturarem um espaço de

�87

leitura em instituição hospitalar, depreende-se que a biblioteca e demais instituições educacionais
devem ser um organismo dinâmico que vai ao encontro da sociedade, desenvolvendo um trabalho
interventivo e de mudanças.
Marinho (1993) reforça o trabalho árduo das escolas e bibliotecas na busca por uma
sociedade leitora. Segundo esse autor, no que se refere à biblioteca, essa unidade possui um caráter
social, e não pode se manter isolada, nem tampouco, restrita a atividades internas de seu recinto. Ao
contrário, ela deve extravasar suas paredes, indo ao encontro de leitores e promovendo ações que
fomentem a leitura em todas as partes e grupos da sociedade.
A biblioteca possui inúmeras contribuições e funcionalidades na sociedade, sendo a
propagação da leitura, uma de suas maiores responsabilidades. Mas essa missão não deve restringirse aos muros das unidades. Ao contrário, as atividades bibliotecárias devem atingir diferentes
contextos e instâncias (SANTA ANNA; GREGÓRIO; GERLIN, 2014). E, essa expansão torna-se
ainda mais fácil com o uso das novas tecnologias, em que a biblioteca se torna universal, sem muros
e até sem lugar específico, o que permite a propagação da biblioteca na sociedade (CHARTIER,
1994).
Promover ações de leitura em ambientes externos às instituições educacionais requer a
gestão de espaços específicos para acomodar os materiais informacionais, assim como proporcionar
condições físicas e adequadas ao leitor para que o processo de leitura se efetive. Os espaços de
leitura, segundo Barreto (2007, p. 44-45), apresentam-se “[...] como o lugar, o ambiente destinado
ao ato de ler, onde o corpo do leitor presentifica-se [...]”.
Por isso, ao se pensar nos espaços de leitura, segundo Santa Anna, Gregório e Gerlin (2014),
deve-se considerar essas estruturas como locais que viabilizam a aprendizagem. Portanto, segundo
esses autores, a prática da leitura não pode ser realizada apenas em ambientes educacionais, na
família ou na biblioteca. Nesse contexto, entende-se que a leitura pode ser realizada por meio da
estruturação de ambientes de aprendizagem “[...] organizados fora do ambiente escolar e/ou da
biblioteca, podendo ser firmada em ambientes onde o público aproveita o tempo ocioso para
consolidação da leitura” (SANTA ANNA; GREGÓRIO; GERLIN, 2014, p. 85, grifo nosso).
Assim, no entendimento desses autores, constata-se que o bibliotecário expande sua atuação
profissional e cumpre sua missão de agente cultural e social ao adquirir competência informacional,
contribuindo, sobremaneira, no gerenciamento desses espaços destinados à leitura e aprendizagem.
Embora pareça um processo simplista, ao arquitetar um espaço de leitura, muitas questões
complexas estão envolvidas, assim como defendeu Chartier e Lebrun (1998). O ambiente que está à
volta do leitor, as condições estruturais oferecidas para acomodar esse sujeito são fatores
interferentes nas técnicas utilizadas por ele durante a realização da leitura. Esses autores também

�88

demonstram que o espaço físico, assim como as tecnologias que materializam os textos (os
suportes) são questões que repercutem na produção de sentido.
No que se refere às tecnologias utilizadas, é consenso na literatura que os recursos
informáticos viabilizam grandes mudanças no processo de leitura, assim como na definição do
perfil do leitor e sua interação com o texto lido e a produção de sentidos. Nesse enfoque das novas
tecnologias, evidencia-se que esses suportes provocam mutações nas práticas de leitura, e o uso da
eletrônica como forma de escrita e comunicação acentuou a capacidade de interação do texto com o
leitor, por conseguinte, aumentaram-se as técnicas e práticas de leitura na sociedade atual,
viabilizando, também, diferentes perfis de leitores (SANTA ANNA; PEREIRA, 2014). Sendo
assim, não resta dúvida de que “a revolução do texto eletrônico será, ela também, uma revolução da
leitura. Ler num monitor não é o mesmo que ler num códice [...]” (CHARTIER, 1994, p. 190).
Vê-se que a trajetória do escrito ao longo dos tempos é suficiente para demonstrar a
pluralidade de formas que podem ser utilizadas para a prática da leitura, o que demonstra ser a
leitura um processo dinâmico, mutante e plural (CHARTIER, 1994). Portanto, as práticas, técnicas
e metodologias de leitura existentes são das mais diferenciadas, tendo o leitor a oportunidade de
optar por um ou outro tipo, considerando questões espaciais, tecnológicas e contextuais
(CHARTIER; LEBRUN, 1998).
Levando em consideração essas questões que permeiam o contexto do leitor, nota-se a
consolidação de diferentes perfis de leitores. A esse respeito, refletem Santa Anna e Pereira (2014,
p. 1693):
O surgimento da escrita representa um grande marco histórico à leitura, condicionando o
surgimento de diferentes práticas de leitura ao longo do desenvolvimento das sociedades. É
graças aos recursos materiais ou suportes tecnológicos que a escrita pôde ser representada
graficamente, por conseguinte, diversificaram-se as técnicas, estratégias e metodologias de
se realizar a leitura, acarretando, outrossim, perfis diferenciados de leitores.

Assim, as diversas técnicas de leitura viabilizadas ao longo dos tempos repercutem na
formação do leitor contemporâneo, o qual deixa de ser um agente receptor, para ser um interagente,
assumindo um papel mais dinâmico e participativo na construção dos significados oriundos do
texto. Logo, diferentes técnicas de leitura podem ser utilizadas, caracterizando diversos perfis de
leitor que podem ser: contemplativo (que realiza leitura detalhada), movente (o qual utiliza variadas
fontes) ou imersivo (utiliza fontes contextualizadas com recursos da internet) (SANTAELLA,
2004).
Em suma, observam-se as complexidades que envolvem os espaços de leitura, logo,
confirma-se a importante missão do bibliotecário ao arquitetar e gerenciar esses ambientes, sendo

�89

necessário constante monitoramento das condições estruturais e contextuais e dos recursos que
permitem que a prática da leitura seja realizada e disseminada de forma efetiva na sociedade.

3 MÉTODO DA PESQUISA

A metodologia utilizada no desenvolvimento deste estudo caracterizou a pesquisa como
descritiva, no que se refere aos objetivos do estudo e pesquisa de campo, no que se refere aos
procedimentos técnicos utilizados.
Consideramos este estudo como descritivo, pois ele analisou a realidade de uma dada
população, ou seja, 32 usuários que frequentam os espaços de leitura estruturados em terminais
rodoviários, espaços esses denominados de Biblioteca Transcol. Também pode ser considerado
como descritivo, uma vez que utilizou como técnica de coleta de dados, formulário com perguntas
fechadas (11 perguntas).
No caso deste estudo, o ambiente de pesquisa delimitado foi o projeto desenvolvido por uma
instituição bibliotecária, denominado de Projeto Biblioteca Transcol, cujo objetivo desse projeto é
disponibilizar acervos de livros para leitores que frequentemente utilizam o sistema de transporte
coletivo, sendo esses acervos caracterizados como espaços de leitura inseridos nos terminais
rodoviários pertencentes ao sistema de transporte coletivo.
Quanto às técnicas para coleta de dados, utilizou aplicação de questionário a leitores das
Bibliotecas Transcol, bem como o estudo de observação junto aos bibliotecários que gerenciam o
projeto, com o intuito de coletar informações sobre a criação, desenvolvimento e monitoramento do
projeto.
No que se refere à abordagem do problema, este estudo classifica-se como qualiquantitativo, pois ao mesmo tempo que se analisam dados concretos e objetivos com base nas
respostas obtidas na aplicação do questionário, recorreu-se à indução, a partir das entrevistas com os
bibliotecários, bem como às reflexões oriundas da fundamentação teórica.

3.1 O PROJETO BIBLIOTECA TRANSCOL

Tendo em vista a fundamentação teórica discorrida, considera-se a Biblioteca Transcol
como um espaço de leitura gerenciado pela Biblioteca Pública do Estado do Espírito Santo, em
parceria com a Companhia de Transportes Urbanos da Grande Vitória (CETURB), empresa essa

�90

que gerencia o sistema de transporte coletivo unificado dessa região, denominado de Sistema
Transcol.
Esse sistema adota a estrutura tronco-alimentadora, interligando diferentes linhas em
diversos terminais rodoviários, dispersos nos cinco municípios que compõem a região
metropolitana. Atualmente, o sistema possui um total de nove terminais interligados, com local
destinado ao embarque e desembarque de passageiros10. No interior dos terminais também há
diferentes lojas que prestam diversos serviços e/ou oferecem produtos variados aos usuários que
utilizam o sistema.
Levando em consideração a quantidade de pessoas que circulam nesses locais diariamente e
o tempo gasto na viagem dentro dos ônibus ou na espera nos terminais, foi instituído um acervo
contendo diferentes literaturas, tendo em vista incentivar a prática da leitura, durante a permanência
das pessoas nos terminais ou dentro dos coletivos.
Esses acervos foram expostos em prateleiras, no interior de uma sala, a qual possui também
computadores com acesso à internet. Esses espaços, denominados de Biblioteca Transcol, estão
presentes em todos os terminais da Grande Vitória. Logo, em 2018, o sistema consta com um total
de nove acervos.
Cada unidade possui em média um total de, aproximadamente, 2500 itens informacionais
(no caso, livros impressos). Esses acervos constam com diversas literaturas, seja ela científica,
acadêmica ou literária. No entanto, a maior parte do acervo está composta por obras de literatura.
Seu acervo é gerenciando pela Biblioteca Pública de Vitória, que é ligada à Secretaria de Estado da
Cultura (SECULT).
Os serviços prestados nesses espaços envolvem desde a consulta local aos materiais, bem
como o empréstimo domiciliar, podendo o usuário ler o livro dentro dos terminais enquanto espera
os ônibus, ou dentro dos ônibus durante o trajeto, ou até mesmo, em sua residência.
A figura 1 ilustra o interior das unidades, com destaque à disponibilização dos livros nas
estantes e computador para uso. A figura 2 apresenta a parte externa da biblioteca.

10

À época da coleta de dados, no ano de 2014, o Sistema Transcol era formado por dez terminais, logo, dez bibliotecas.
No entanto, no ano de 2018, um terminal foi desativado, o Terminal de Itaparica, restando apenas, no sistema, nove
terminais, portanto, nove bibliotecas.

�91
Figura 1 – Interior da Biblioteca Transcol

Fonte: Secretaria de Cultura (2018).
Figura 2 – Parte externa da biblioteca

Fonte: Secretaria de Cultura (2018).

Portanto, o projeto intitulado “Biblioteca Transcol” sustentou-se mediante ações voltadas à
instalação de unidades de locação de livros, nos terminais rodoviários do Sistema Transcol, pois,
nesses circulam parcela significativa do público-alvo do projeto. Os interessados se cadastram nas
próprias bibliotecas, retiram a carteirinha de associado na mesma hora, e podem locar,
gratuitamente, um livro por vez, pelo período de dez dias. Nesse sentido, o projeto está
incentivando a leitura e contribuindo para a melhoria do nível de informação e conhecimento das
populações menos favorecidas.
Fiel ao objetivo delimitado neste estudo, serão analisados, a seguir, os dados coletados em
campo, a partir da aplicação de questionário a 32 usuários-leitores das Bibliotecas Transcol. Entre
nove bibliotecas existentes à época da coleta de dados (2014), foram entrevistados três leitores em
cada uma delas, abordados aleatoriamente no momento da coleta. Em apenas uma biblioteca, por
ela ser maior, entrevistou-se um total de cinco leitores, também abordados aleatoriamente.

�92

Ressalta-se, também, que a partir do ano de 2016, foi adquirido o Software Sophia
Biblioteca para o gerenciamento das obras, gerando, assim, um catálogo sistematizado em rede.
Desse modo, os usuários podem realizar a consulta on-line, por meio de seu cadastro, o que
possibilita uma melhor comunicação efetiva entre a instituição e os seus usuários.
Tendo em vista demonstrar o desenvolvimento do referido projeto, o questionário foi
sistematizado de modo a contemplar três diferentes aspectos, que são: 1 - as práticas de leitura
adotadas pelos leitores desse sistema; 2 – o perfil desses leitores; e 3 - a percepção dos usuários
desses espaços quanto ao material fornecido e as condições ambientais para concretização da
leitura.

3.2 RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.2.1. As práticas, técnicas e estratégias de leitura realizadas na Biblioteca Transcol

Na opinião dos 32 leitores entrevistados, no que se refere ao local mais adequado para
concretização da leitura, as opiniões se divergem. Para três leitores (9,4%), realizam a leitura dentro
dos ônibus, durante os trajetos; para dois leitores (6,2%), o local que eles mais leem é nos terminais,
quando estão à espera dos ônibus; já para 13 leitores (40,6%), a leitura é realizada em casa,
enquanto que para 14 leitores (43,8%), a leitura é realizada em diferentes locais, seja em casa, nos
ônibus ou nos terminais (gráfico 1).
Gráfico 1 – Local em que os leitores realizam a leitura
50
43,8

45

40,6

40
35
30
25
20
15
10

9,4
6,2

5
0
0
dentro dos ônibus

no terminal à
espera dos ônibus

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

em casa

no terminal e
em todos os locais
dentro dos ônibus
acima citados

�93

Percebe-se que a maioria dos entrevistados realiza o processo de leitura em qualquer local,
desde que haja condições para tal, ou seja, que o leitor esteja com tempo ocioso, tendo a leitura um
papel de complementação, assim como afirma Scliar-Cabral (2009), de que, a leitura exerce
influência sobre a mente. Assim, segundo essa autora, lê-se para ocupar a mente, uma forma de
aproveitar o tempo para adquirir novos conhecimentos e despertar o exercício mental.
Quando se indagou a respeito das técnicas, metodologias ou estratégias específicas que os
leitores utilizam, haja vista tornar o processo mais agradável e compreensível, constatou-se que,
para dez leitores (31,25%), prefere-se ler por capítulos, o que viabiliza maior organização das
ideias; já para 12 leitores (37,5%), realiza-se a leitura até que haja cansaço; por fim, novamente dez
leitores (31,25%) disseram que leem enquanto estão com o tempo ocioso (gráfico 2).
Gráfico 2 – Técnicas utilizadas no discorrer da leitura
40
35

37,5
31,25

31,25

30
25
20
15
10
5
0

0

leio por páginas

leio as partes
principais do livro,
como introdução, o
resumo e o final

0
leio por capítulos

leio até ficar
cansado

leio enquanto
permaneço em
tempo ocioso

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

Percebe-se que a maioria dos leitores são verdadeiros “devoradores” de livros, pois leem até
aparecer o cansaço, ou seja, continuam lendo um texto desde que estejam conseguindo assimilar as
ideias. Nesse enfoque, dialogamos com Chartier (1998) ao mencionar Michel de Certeau,
destacando que o leitor nada mais é do que, um caçador que percorre terras alheias. Constatamos
que a maioria dos leitores da Biblioteca Transcol leem por prazer, tornando-se verdadeiros
caçadores de novas ideias dispersas nas linhas e entrelinhas escritas por um autor.
Perguntou-se, também, no âmago das práticas de leitura, a respeito da interação entre o leitor
e o suporte que materializa a escrita, nesse contexto, o livro impresso. Investigou-se a respeito da
utilização de recursos ou instrumentos auxiliares de modo que o processo de leitura fosse melhor

�94

desenvolvido. Assim, para oito leitores (25%), utiliza-se tampão de ouvido; para cinco leitores
(15,6%), prefere-se o uso da régua para delimitação das linhas do texto; também cinco leitores
preferem ler ouvindo música baixa; já dez leitores (31,25%) utilizam o dedo indicador como ponto
de marcação das linhas e palavras; por fim, apenas quatro leitores (12,5%) disseram ler sem o
auxílio de nenhum recurso (gráfico 3).
Gráfico 3 – Utilização de recursos para melhorar o desenvolvimento da leitura
35

31,25

30
25
25
20
15,6

15,6

15

12,5

10
5
0
utilizo tampão de utilizo régua para
ouvino para isolar delimtar as linhas
o barulho externo
da escrita

gosto de ler
ouvindo música
baixa

leio com ajuda
dedo indicador
para marcar as
linhas

leio sem nenhum
recurso auxiliar

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

De acordo com os dados obtidos do gráfico acima, resulta-se que há forte interação entre
texto e leitor, assim como defendeu Chartier (1994), de que o texto (como produto da escrita) e o
leitor estabelecem uma interação, podendo essa ser voltada ao sentido do texto (concentração)
quanto ao contato, considerando as tecnologias envolvidas no suporte textual.
O dedo indicador aparece como o recurso mais utilizado para facilitar a leitura e a grande
minoria não utiliza nenhum recurso. Curioso que alguns leitores preferem ler ouvindo música, já
outros optam pelo silêncio absoluto. Esses resultados confirmam as teorias de Chartier (1994,
1998), quando menciona que, ao longo dos tempos, inúmeras práticas de leituras vêm sendo
utilizadas, desencadeando perfis diferenciados de leitor, um processo integralmente dinâmico e
diversificado.
No entendimento de Hillesheim et al. (2011), é importante mencionar que o texto se constrói
no encontro com o leitor, na relação entre um e outro. Portanto, é evidente que não se pode
dissociar texto e leitor, e nessas relações em que cada leitor possui sua estratégia, sobretudo com os
diversos suportes que registram a escrita, é comum que, constantemente, sejam manifestadas novas
e adversas combinações.

�95

3.2.2 O perfil dos leitores das Bibliotecas Transcol

A princípio, investigou-se a quantidade e tipologia de livros utilizados pelos leitores. No que
se refere à quantidade de livros em que se realiza a leitura por mês, oito entrevistados (25%) leem
apenas um livro; 11 usuários (34,4%) leem um total de dois livros; três respondentes (9,4%) leem
três livros; e dez usuários (31,2%) leem quatro livros ou mais a cada mês (gráfico 4).
Gráfico 4 – Quantidade de livros lida mensalmente pelos usuários da Biblioteca Transcol
40
34,4

35

31,2

30
25
25
20
15
9,4

10
5
0
0
nenhum

um livro

dois livros

três livros

quatro ou mais

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

Quanto às modalidades de literatura lidas pelos usuários, obteve-se que, a grande maioria,
26 leitores (81,25%) procura por romance; dois leitores (6,25%) preferem ler livros de autoajuda;
três leitores (9,37%) escolhem a literatura acadêmica; e, por sua vez, apenas um leitor (3,12%) lê
todas as modalidades de literatura mencionadas no questionário (gráfico 5).
Gráfico 5 – Modalidade de literatura utilizada pelos usuários da Biblioteca Transcol
90

81,25

80
70
60
50
40
30
20
10

6,25

9,37

0

3,12

0
histórias em
quadrinhos

romance

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

livros de autoajuda livros acadêmicos

todos

�96

Por meio da análise aos dois gráficos supracitados, entende-se que o público da Biblioteca
Transcol é um público leitor, sendo que boa quantidade lê quatro livros ou mais por mês, o que
afere um resultado significativo. O tipo de obra mais procurada é o romance, seguido por livros
acadêmicos e de autoajuda.
Recorrendo às reflexões de Chartier (1994, 1998), a partir desses dados, é importante
discorrer acerca da leitura silenciosa e extensiva, muito comum nas sociedades modernas, ao
contrário do que ocorria na sociedade antiga e medieval, em que se optava pela leitura em voz alta e
intensiva. Segundo o referido autor, essa mudança de um tipo de leitura para outra é consequência
provável do crescimento editorial, o qual proporcionou mais facilidade de acesso ao livro e à
leitura, permitindo que as pessoas lessem individualmente (leitura silenciosa) e uma maior
quantidade de livros (leitura extensiva).
O leitor do sistema Transcol realiza a leitura para diversos fins. De acordo com os dados
obtidos na pesquisa, a maioria, 10 respondentes (31,25%), realiza a leitura em casa com fins de
entretenimento; cinco leitores (15,6 %) leem nos ônibus e terminais por necessidades profissionais;
oito leitores (25%) leem nos ônibus e terminais a fim de aproveitar o tempo de espera; outros oito
leitores (25%) leem em casa a fim de adquirem conhecimentos; e, por fim, apenas um leitor
(3,12%) considera que lê por outros motivos (gráfico 6).
Gráfico 6 – Motivo que leva o leitor a utilizar os livros ofertados pela Biblioteca Transcol
35

31,25

30

25

25

25
20

15,6

15
10
3,12

5
0
ler durante
ler nos ônibus e nos ler em casa para
permanência nos
terminais como
admquirir
ônibus e terminais formar a aproveitar conhecimentos
por necessidade o tempo de espera
profissional e
acadêmica

ler em cada para
fins de
entretenimento

outro motivo

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

Esse resultado vai ao encontro do que afirma Brito (2010), de que o leitor busca na leitura
diversos objetivos, tanto de cunho informacional, quanto para se instruir, obter e aprofundar
conhecimentos, entretenimento, prazer, por gosto, comunicabilidade e para melhor compreender o
meio em que se vive. Enfim, o sujeito busca na leitura sua satisfação em meio a diferentes
necessidades.

�97

A figura do leitor aparece no contexto atual repleto de mudanças, como um agente que sofre
interferências de inúmeros fatores externos durante o processo de leitura, fato esse que pode
viabilizar o desvio no real sentido de um texto quando idealizado por seu autor, no momento que é
decodificado pelo processo de leitura (CHARTIER; LEBRUN, 1998).
Para os leitores do Transcol, a maioria, 15 leitores (46,9%), recebe interferências de vários
fatores externos, como: barulho, luminosidade e postura em pé; para cinco entrevistados (15%), o
fator mais presente é o barulho; para 11 leitores (34,5%), o principal fator diz respeito à postura em
pé; e, ao final, para apenas um leitor (3,12%), não existem fatores interferentes (gráfico 7).
Gráfico 7 – Fator mais presente no cotidiano dos leitores da Biblioteca Transcol
50

46,9

45
40
34,5

35
30
25
20

15

15
10
3,12

5

0

0
barulho

luminosidade

postura em pé

todos os fatores
acima de igual
proporção

não existe nenhum
desses fatores

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

Essas interferências nos remetem a afirmar que a leitura constitui um processo dinâmico,
complexo e subjetivo, conduzida e refletida única e exclusivamente pelo leitor que dela se apropria,
sendo expressa por meio de “[...] um gesto, individual ou coletivo, dependente das formas de
sociabilidade, das representações do saber ou do lazer, [e] das concepções da individualidade”
(CHARTIER, 1994, p. 173).
Os fatores externos aliados ao texto refletem diferentes ambiências, o que proporciona
diferentes modalidades de leitor. Na visão de Santaella (2004), na modernidade, existem três
categorias de leitores: o contemplativo, o movente e o virtual. De acordo com os leitores
entrevistados, a maioria, 20 sujeitos (62,5 %), acredita que a ambiência proporcionada pelo sistema
Transcol favorece a consolidação de um leitor contemplativo; para cinco leitores (15,6 %), são
leitores moventes; também cinco acham que são leitores imersivos; e por fim, apenas um
respondente (3,12%) considera ser outro tipo de leitor (gráfico 8).

�98
Gráfico 8 – Tipos de leitor, dadas as condições ofertadas pelas Bibliotecas Transcol
70

62,5

60
50
40
30
20

15,6

15,6

10

3,12

0
leitor contemplativo (que
leitor movente
leitor imersivo (virtual,
lê silenciosmante, de fragmentário (que ler de interativo com as novas
forma independente
forma dinâmica, atento
tecnologias)
aos detalhes,
comparanado o texto
lidocom outros textos

outro tipo de leitor

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

Não resta dúvida de que o texto lido em voz alta ou de forma silenciosa, bem como o texto
materializado em tabletes de argila, papiro, pergaminho ou impresso em papel, assim como, a
ambiência e contexto ideológico na qual o leitor se situa desperta no leitor a transposição de um
mundo imaginário (registrado no suporte) a um mundo real (contextualizado) (CHARTIER;
LEBRUN, 1998).
A partir desse conjunto de fatores que permeiam a ambiência social, diferentes práticas de
leitura vão sendo desenvolvidas, fomentando diversos perfis de leitores. Como o contexto social é
mutante, aferimos que a leitura e suas práticas constituem um processo dinâmico e flexível,
consequentemente, proporcionaram e proporcionam pluralidade de leitores ao longo dos tempos.

3.2.3 A percepção dos leitores quanto às questões estruturais da Biblioteca Transcol

A Biblioteca Transcol foi instituída com o intuito, a priori, de despertar nos usuários do
sistema de transporte o gosto pela leitura, de forma que o tempo gasto nos terminais e nos ônibus
fosse aproveitado em prol da leitura. O acervo das unidades é formado por obras de literatura,
especificamente romances, sejam nacionais quanto estrangeiros. Analisando a percepção dos
leitores a respeito da qualidade dos materiais disponibilizados no acervo dessas unidades, para 21
leitores (65,7%), o material é de excelente qualidade, atendendo suas expectativas; logo, para onze

�99

leitores (34,3%), os materiais são bons, porém recomendam que o acervo poderia ser mais
diversificado (gráfico 9).
Gráfico 9 – Qualidade dos materiais disponibilizados pelas bibliotecas
70

65,7

60
50
40

34,3

30
20
10
0

0

0
Excelente qualidade. Me Não satisfazem minhas Não satisfazem minhas
Materiais são bons,
atendem
necessidades. Conteúdo necessidades. Conteúdo
porém poderiam
superficial
difícil entendimento diversificar mais o acervo
Fonte: Dados da pesquisa (2016).

Por meio desses dados, percebe-se que, o acervo está atendendo as necessidades dos
usuários. Alguns consideram como melhoria a diversificação do acervo. De qualquer forma, é
preciso monitoramento por parte do bibliotecário, sendo indispensável que o profissional conheça
muito bem todo o seu acervo e o perfil de seus usuários, possibilitando satisfação dos leitores e
produção de conhecimento (DINIZ, 2011).
Quando indagados a respeito do que poderia ser feito para que a leitura fosse mais
concretizada, 22 leitores (68,75%) pensam que a unidade poderia oferecer mais materiais; dois
leitores (6,25%) sugerem a disponibilização de espaço com mesas e cadeiras; por fim, oito leitores
(25%) acham importante que o material emprestado tivesse um prazo mais estendido (gráfico 10).
Gráfico 10 – Opções adotadas pela biblioteca que poderiam viabilizar o hábito da leitura
80
70

68,75

60
50
40
25

30
20
6,25

10
0
Oferecer mais materiaias além
dos já disponibilizados
Fonte: Dados da pesquisa (2016).

Disponibilizar espaço com
Estender o prazo de permanência
cadeiras e mesas nos terminais
do material com o leitor

�100

Nota-se que, na opinião dos leitores, a maioria considera como principal fator a ser pensado
na tentativa de incentivar a prática da leitura é diversificar as coleções que formam o acervo. Esse
resultado condiz com o que reza o PNLL ao dispor sobre a necessidade de ofertar livros em
diferentes formatos e que atenda as necessidades do público servido.
As unidades existentes nos terminais possuem acervo composto por livros em estantes e
alguns computadores para consulta ao acervo e para viabilizar acesso à internet. Não há
disponibilização de espaço para leitura com cabines, mesas e cadeiras. Ao perguntar aos leitores
sobre a montagem de um espaço para leitura, contendo mobiliário apropriado, 17 leitores (53,1%)
entendem que seria bom, pois aumentaria o poder de concentração; para seis leitores (18,7%), o
espaço seria bom, pois diminuiria problemas de postura, uma vez que usuários aguardam o
transporte em pé; já para três leitores (9,3%), esse espaço não ajudaria em nada, pois eles fazem as
leituras em suas residências; outros seis leitores também disseram que não ajudaria, pois eles fazem
as leituras nos ônibus (gráfico 11).
Gráfico 11 - Criação de espaços de leitura, com mesas e cadeiras, na biblioteca
60

53,1

50
40
30
18,7

20

18,7
9,3

10
0
Seria bom, pois
Seria bom, pois
aumentaria o poder de diminuiria problema de
concentração
postura

Não me auxiliaria em
nada, pois faça as
leituras em casa

Não me auxiliaria em
nada, pois faça as
leituras dentro dos
ônibus

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

Percebe-se que a maioria considera a estruturação do espaço como viável. Assim, não basta
apenas oferecer as fontes, é preciso também, disponibilizar um espaço adequado e agradável
(BRASIL, 2011). Segundo Santa Anna, Gregório e Gerlin (2014), a fim de despertar o gosto e
motivação dos leitores/educandos, faz-se imprescindível a estruturação de um espaço dinâmico,
interativo e acolhedor, o que exige criatividade e inovação por parte dos profissionais responsáveis
pelo gerenciamento do espaço.

�101

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo apresentou algumas características da Biblioteca Transcol, as práticas de
leitura realizadas, o perfil dos leitores e a percepção dos leitores quanto ao papel dessa unidade no
fomento à leitura. Logo, o objetivo da pesquisa foi atendido. De modo geral, constatou-se ser uma
ação válida a gestão desse projeto, uma vez que atende, em alguns aspectos, as recomendações do
PNLL.
A partir dos dados e das informações teóricas analisadas nesta pesquisa, constatou-se que o
cenário que reveste o imaginário do leitor é diversificado, e a prática da leitura pode ser realizada
em diferentes ambientes, não estando engessada unicamente nos espaços e instituições tradicionais,
como nas residências, nas instituições escolares ou nas unidades de informação. O ato de leitura
desperta no leitor a construção de novas habilidades e viabiliza a consumação do aprendizado, sem
considerar o espaço, a posição, enfim, independente da maneira como a leitura é praticada.
De modo geral, o estudo aplicado a 32 leitores da Biblioteca Transcol demonstrou que, a
grande maioria realiza as leituras em suas residências, com a finalidade de entretenimento. Essa
preferência pode ser justificada pelo fato da grande maioria considerar inúmeros fatores
ergonômicos que interferem no processo de leitura, como: barulho, luminosidade e postura em pé.
No que se refere às práticas de leituras oferecidas pela Biblioteca Transcol, em linhas gerais,
constatou-se que a leitura desenvolvida na referida unidade constitui um processo dinâmico,
mutante, plural e prazeroso, com práticas de leitura diversificadas, tendo o leitor diferentes
comportamentos durante a consolidação do ato ler.
Com efeito, constatou-se, no que se refere aos aspectos voltados ao perfil do leitor, que os
usuários das Bibliotecas Transcol leem diversos livros, tendo preferência por romances. Em linhas
gerais, esses livros são lidos de forma individual e com rapidez, o que caracteriza as leituras como
extensivas, no entanto, mesmo assim, os leitores não perdem a tendência contemplativa.
Os resultados obtidos a partir da percepção dos usuários quanto aos produtos e serviços
prestados pela Biblioteca Transcol permitem afirmar que, de modo geral, os leitores estão satisfeitos
e sendo despertados ao gosto e hábito pela leitura. Sugerem como melhoria a diversificação quanto
às modalidades de livros ofertados e a construção de um espaço específico para acomodar os
leitores.
Este estudo também demonstrou a viabilidade do projeto Biblioteca Transcol, até o
momento, ao adotar práticas que fomentem a leitura em diferentes espaços sociais, atendendo às
políticas públicas voltadas para a formação de leitores, assegurando o exercício da cidadania. O
contexto analisado na pesquisa viabiliza a formação de diferentes leitores, cujos objetivos ao

�102

praticar a leitura é aproveitar o tempo despendido ao se utilizar o transporte urbano na aquisição de
novas informações oriundas com a prática da leitura.
Com o término desta pesquisa e com os resultados obtidos a partir da Biblioteca Transcol,
bem como diante das recomendações propostas pelos planos governamentais a respeito da leitura,
recomenda-se a elaboração de outros projetos dessa natureza, em que a biblioteca seja vista como
um espaço sem fronteiras, no que diz respeito ao fomento à leitura. Sugerem-se pesquisas e projetos
que proponham, por exemplo, a inserção dos espaços de leitura em outros ambientes abertos de
grande circulação, tais como na estação ferroviária, no aeroporto e nos terminais rodoviários
intermunicipais existentes na região da Grande Vitória. A leitura não pode parar, pois se trata de um
processo transformador da realidade social.

REFERÊNCIAS
BARRETO, Angela Maria. Os espaços de leitura. Comunicação e Educação, v. 12, n. 1, p. 41-53,
jan./abr. 2007. Disponível em: &lt;http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/37618&gt;. Acesso
em: 14 fev. 2016.
BRASIL. Decreto n.º 7.559, de 1.º de setembro de 2011. Dispõe sobre o Plano Nacional do Livro e
da Leitura (PNLL) e dá outras providências. Disponível em: &lt;http://www.planalto.gov.br/c civil_
03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7559.htm&gt;. Acesso em: 12 fev. 2014.
BRITO, Danielle Santos de. A importância da leitura na formação social do indivíduo. Revela,
Faculdade Dom Domênico, Guarujá, ano 4, n. 8, jun./2010. Disponível em:
&lt;http://www.fals.com.br /revela12/Artigo4_ed08.pdf&gt;. Acesso em: 12 fev. 2014.
CALDIN, Clarice Fortkamp. Reflexões acerca do papel do bibliotecário de biblioteca escolar.
Revista ACB, Florianópolis, v. 10, n. 2, p. 163-168, 2005. Disponível em:
&lt;http://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/431/549&gt;. Acesso em: 12 fev. 2016.
CHARTIER, Roger. Do códice ao monitor: a trajetória do escrito. Estudos Avançados, v. 8, n. 21,
p. 185-199, 1994. Disponível em: &lt;http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext
HYPERLINK "http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext%20&amp;pi%20d=S010340141994000200012"&amp; HYPERLINK
"http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext%20&amp;pi%20d=S0103-40141994000200012"pi
d=S0103-40141994000200012&gt;. Acesso em: 12 dez. 2015.
CHARTIER, Roger; CAVALLO, G. (Org.) História da leitura no mundo ocidental. São Paulo:
Ática, 1998.
CHARTIER, Roger; LEBRUN, Jean. A aventura do livro: do leitor ao navegador: conversações
com Jean Lebrun. São Paulo: Ed. da UNESP, 1998.

�103

DINIZ, Jaiene Gomes et al. O bibliotecário como agente incentivador da leitura: apresentação do
projeto de extensão Doutores da Leitura. In: ENCONTRO REGIONAL DE ESTUDANTES DE
BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO, CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO E GESTÃO DA
INFORMAÇÃO, 14, Anais eletrônicos. São Luiz: Universidade Federal do Maranhão, 2011.
HILLESHEIM, Betina et al. Leitura: entre leitor e texto. Fractal: Revista de Psicologia, v. 23, n.
2, p. 305-316, maio/ago. 2011. Disponível em:
&lt;http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/Fractal/article/view/398/521&gt;. Acesso em: 16
fev. 2016.
MARINHO, Raimunda Ramos. Leitura: um caminho para a cidadania. Transinformação,
Campinas, v. 5, n. 1, jan./dez. 1993. Disponível em: &lt;http://periodicos.puccampinas.edu.br/seer/index.php/transinfo/article/viewFile/1650/1621&gt;. Acesso em: 14 fev. 2016.
PITZ, Juliana; SOUZA, Vanessa Aline; BOSO, Augiza Karla. O papel do bibliotecário escolar na
formação do leitor. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v. 16, n. 2, p.
405-418, jul./dez. 2011. Disponível em: &lt;http://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/736/pdf_59&gt;.
Acesso em: 14 fev. 2016.
ROSA, Flávia Goullart Mota Garcia; ODDONE, Nanci. Políticas públicas para o livro, leitura e
biblioteca. Ciência da Informação, Brasília, v. 35, n. 3, p.183-193, set./dez. 2006.
SANTAELLA, Lucia. Navegar no ciberespaço: o perfil do leitor imersivo. São Paulo: Paullus,
2004.
SANTA ANNA, Jorge; PEREIRA, Gleice. Os suportes de informação e suas interferências na
formação do leitor. Revista Linha Mestra, n. 24, jan./jul. 2014. Disponível em:
&lt;https://linhamestra24.files.wordpress.com/2014/07/linha_mestra_24_19_cole_06_comunicacoes_i
lsa_josuelene.pdf&gt;. Acesso em: 14 fev. 2016.
SANTA ANNA, Jorge; GREGÓRIO, Elaine; GERLIN, Meri Nadia. Atuação bibliotecária além da
biblioteca: o espaço de leitura do Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (HUCAM).
Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v. 19, n. 1, p. 77-88, jan./jun.
2014.
SECRETARIA DE CULTURA. Biblioteca Transcol. 2018. Disponível em:
&lt;https://secult.es.gov.br/bib-transcol&gt;. Acesso em: 01 dez. 2018.
SCLIAR-CABRAL, Leonor. Processamento da leitura: recentes avanços das neurociências. In:
COSTA, Jorge Campos da; PEREIRA, Vera (Org.). Processamento da leitura: recentes avanços
das neurociências. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2009. p. 48-58.
UNIVERSIDADE PARA TODOS. Projeto Biblioteca Transcol. 2014. Disponível em:
&lt;http://bibliotecatranscol.blogspot.com.br/&gt;. Acesso em: 16 fev. 2015.

�104

CAPÍTULO VII
LETRAMENTO INFORMACIONAL EM BIBLIOTECAS: PARA ALÉM DO PROCESSO
DE ALFABETIZAÇÃO

Rafael Ribeiro Rocha

1 INTRODUÇÃO

O avanço da tecnologia tem propiciado o acesso das pessoas à informação. Desde a chamada
“explosão informacional”, a propagação de conteúdos ganhou espaço na vida de muitos indivíduos
que, sedentos de conhecimento, procuraram fazer parte do mundo em que ocupavam. Afinal, o
pertencimento sempre foi algo urgente na vida de um cidadão e nada mais necessário que a
informação, uma vez que ela abre horizontes e tem a capacidade de mudar a história de toda uma
comunidade ou até mesmo de gerações.
De 1945, fim da Segunda Guerra Mundial, ao ano de 2018, o mundo assistiu as
transformações ocorridas nas variadas formas de armazenamento, organização e divulgação da
informação, sejam elas na propagação de conhecimentos científicos ou por meio dos meios de
comunicação de massa como jornal e revista, rádio e televisão e a internet. Diante disso, o
“comportamento informacional” da sociedade tem mudado consideravelmente, pois se antes as
pessoas adotavam uma postura mais passiva no recebimento da informação, atualmente, os
indivíduos exercem um papel mais participativo, uma vez que o acesso às tecnologias facilita essa
prática.
Sendo assim, é notável que empresas, institutos e bibliotecas têm atuado como repositórios
ou unidades de informação, cujo dever é o de estabelecer a manutenção e a divulgação desses
“objetos informacionais”. Gasque (2012, p.26) pondera que em meio à “difícil missão de formar
cidadãos reflexivos, críticos e autônomos”, a Biblioteconomia tem o intuito de auxiliar os cidadãos,
“usuários e não usuários de bibliotecas e unidades de informação”, na forma com que eles lidam
com as informações.
Os bibliotecários têm o poder não apenas de ser responsável pela gestão informacional, mas
também o de atuar como agente cultural e educacional, proporcionando o desenvolvimento dos
indivíduos, mediante a expertise na propagação da informação e do conhecimento para as pessoas.
A alfabetização, tal qual concebemos, é de extrema importância para a vida de uma pessoa. Afinal,

�105

ela conduz o ser humano à sua autonomia e ao seu respectivo lugar de fala, lugar no mundo. No
entanto, o letramento informacional vai além: ele direciona os usuários aos conteúdos necessários e
elementares para a sua vida. Por meio dessa prática, o bibliotecário ajuda a formar novos leitores,
aprimorar tal prática e a orientar o comportamento de todos que procuram estar inteirados em sua
comunidade ou espaço por meio da informação.
Pode-se considerar esse profissional da Ciência da Informação como o detentor de técnicas
que direcionam as pessoas às fontes corretas de informações em suas variadas formas. No entanto, o
enfoque que se dará, neste capítulo, está no espaço da biblioteca escolar e a importância que o
profissional da unidade de informação exerce na mediação dos usuários ao conhecimento
necessário. Para explicar aos leitores todos os lugares que contam com a presença do bibliotecário,
seria preciso mais de um capítulo, talvez um livro inteiro, mas a bibliografia da área sempre é
agraciada com pesquisas e análises aprofundadas, feitas por estudiosos que investigam com afinco
as nuances presenciadas e surgidas na área. A intenção, aqui, é falar e mostrar como uma prática
tem o poder de modificar para melhor a aproximação do aluno/cidadão à informação. O letramento
informacional tem essa força e o bibliotecário é o principal agente envolvido nessa habilidade.

2 METODOLOGIA

A escolha pelo tema surgiu a partir de um interesse, sobretudo na relação que a biblioteca
exerce com o usuário e vice-versa. Existem estudos primorosos acerca do letramento informacional.
Com isso, os autores citados neste capítulo são aqueles, cujas pesquisas bem fundamentadas
enriqueceram as investigações realizadas na área da Ciência da Informação.
A seção 3 “Letramento Informacional” procura explicar com base nas discussões de Gasque
(2012), Campello (2009) e Caregnato (2000) a origem da expressão ”Information Literacy” e os
caminhos que consolidaram a prática dentro da profissão dos bibliotecários. Além disso, destaca-se
o advento do letramento informacional aqui no Brasil e quais foram os principais pontos
vivenciados desde então pelos atuantes na área.
Já a seção 4 “Revisão de Literatura” traz a temática de forma mais aprofundada, convidando
o leitor a se inteirar de forma completa no assunto. Essa seção abordará os fundamentos teóricos
levantados por pesquisadores brasileiros acerca do letramento informacional. Questões como as
principais linhas de investigação e os problemas serão abordados, de forma bem sucinta,
considerando a abrangência que o tema já ganhara ao longo dos últimos anos.

�106

3 LETRAMENTO INFORMACIONAL
De acordo com Gasque (2012, p. 26), o termo “letramento informacional” foi adotado pela
primeira vez pelo bibliotecário norte-americano Paul Zukowski, em 1974, quando o relatório The
information service enviroment relationships and priorities foi publicado com o intuito de
promover a information literacy (letramento informacional) como ferramenta de acesso à
informação nas bibliotecas do país.
Ao longo dos anos, a preocupação com a forma de recebimento da informação por parte dos
usuários ganhou espaço não apenas nos Estados Unidos, mas em outras partes do mundo. Há que se
destacar um evento que foi o responsável por impulsionar o papel do letramento informacional na
prática educacional e bibliotecária: o National Forum on Information Literacy (NFIL), de 1990,
contando “com a participação de mais de 75 membros de instituições de educação, negócios e
organizações governamentais”. O objetivo principal era o de trazer luz à discussão sobre a
necessidade de conscientização acerca da importância do letramento informacional e de planejar
práticas voltadas para a orientação de aquisição das competências informacionais (GASQUE, 2012,
p. 27).
Segundo Campello (2009, p. 68), os bibliotecários tentavam provar suas influências no
processo de aprendizagem, baseando-se no conceito de information literacy. A pesquisadora ainda
ressalta que muitos desses profissionais já exerciam tal função, uma vez que eles “já vinham
desenvolvendo ação pedagógica mais ampla do que o referido termo implica e tinham consciência
de que esse trabalho exercia influência positiva na aprendizagem”.
Gasque (2012, p. 28) explica que o letramento informacional pode ser correspondido como
um processo no qual ocorre a ação de desenvolvimento de competências que induzem os usuários
na localização, acesso, organização e uso da informação, a fim de que essas etapas gerem
conhecimento, resultando em tomadas de decisão e resolução de problemas.
Embora o termo tenha surgido na década de 1970, a pesquisa sobre essa área ganhou espaço
aqui no Brasil apenas no final do século XX, por meio de uma análise bem detalhada realizada por
Sônia Caregnato sobre o letramento informacional no contexto das bibliotecas universitárias. A
partir de seu estudo, Caregnato abriu precedentes para que outros estudiosos desenvolvessem
pesquisas de extrema importância não só na área da Ciência da Informação, mas também na
Educação, tendo em vista o papel de educador que bibliotecários também exercem na mediação
entre a informação e o estudante/cidadão.

�107

4 REVISÃO DE LITERATURA

A teoria acerca do letramento informacional tem sido discutida de forma incessante nos
últimos anos. Aqui, no Brasil, por exemplo, a primeira vez que esse assunto veio à tona foi através
de um estudo, no qual Caregnato (2000) fez uma revisão acerca dos conceitos ligados à educação
dos usuários em bibliotecas universitárias. Além disso, sua pesquisa procurou evidenciar a
importância acerca da habilidade informacional em um contexto marcado pelo crescimento
considerável das informações no meio digital. Interessante lembrar que a sociedade do final do
século XX e início do XXI assistiu a uma transformação que mudaria para sempre a forma de obter
acesso a diversos conteúdos.
Naquela época, Caregnato (2000, p. 48) já demonstrava o desafio que surgiria com o
aperfeiçoamento das tecnologias da informação e a educação dos usuários frente às suas
necessidades. Caberia, então, às bibliotecas, o papel de conduzi-los por meio de habilidades que os
capacitariam para a “localização, seleção, acesso e utilização da informação”. A pesquisadora já
havia salientado o cenário que se delinearia a partir daquele momento.
No entanto as bibliotecas nem sempre têm cumprido eficientemente este seu papel. Elas
vivem hoje um momento especial, há uma pressão constante para que melhorem a
qualidade dos serviços prestados aos seus usuários, particularmente no momento em que se
observa uma mudança paradigmática em Ciência da Informação e Biblioteconomia, de uma
abordagem centrada em sistemas para uma abordagem centrada no usuário, e quando a
explosão dos recursos e fontes de informação, especialmente as eletrônicas, é esmagadora.
No Brasil, particularmente nas últimas duas décadas, recursos financeiros e humanos das
bibliotecas parecem ter sido primordialmente canalizados para a informatização, como
consequência alguns serviços foram penalizados, dentre eles destacam-se aqueles
relacionados ao atendimento do público, e em particular a educação de usuários. É
impossível discordar do empenho colocado em dominar e aplicar as tecnologias dos
computadores e das telecomunicações nas bibliotecas, pelo contrário, pode-se observar que
muito ainda deve ser realizado neste sentido. No entanto é preciso lembrar que bibliotecas
são instituições provedoras de serviços e todo e qualquer aplicação de tecnologia tem um
único objetivo: oferecer mais e melhores serviços aos usuários. A integração da tecnologia
da informação e educação de usuários, por exemplo, pode oferecer serviços que são
verdadeiramente centrados no usuário (CAREGNATO, 2000, p. 48).

A autora chama a atenção nesse parágrafo destacado quanto à prioridade que muitas
bibliotecas brasileiras passaram a ter com o aperfeiçoamento da informatização das unidades de
informação. No entanto, todo esse cuidado relegou o atendimento de usuários para segundo plano.
Isso postergou a educação do usuário, ou seja, houve uma preocupação acentuada com os
instrumentos e enfoque aquém do esperado com as pessoas que iam até os locais em busca de
informação.
Aproveitando que a abordagem sobre o letramento informacional estava começando a ser
delineado no Brasil, Caregnato (2000) apresentou algumas variantes que faziam referência à prática
da educação de usuários e suas respectivas competências. A pesquisadora comparou, então, as

�108

formas utilizadas ou discutidas por outros estudiosos da Ciência da Informação. O trabalho dos
bibliotecários em induzir os usuários a uma prática satisfatória diante dos conteúdos informacionais
recebeu algumas denominações, contestadas ao longo do tempo. Caregnato (2000) pontua que as
expressões “treinamento de usuários”, “instrução bibliográfica”, “educação de usuários” e
“desenvolvimento de habilidades” foram usadas de uma “forma quase indiscriminada” a fim de
designar tal prática. A utilização de tais termos evidenciava a evolução da compreensão dos teóricos
sobre “os fenômenos associados ao ensino/aprendizado e à informação”.
O estudo de Caregnato representa o pontapé inicial da discussão sobre o letramento
informacional no Brasil. É importante ressaltar que sua contribuição para a Ciência da Informação
abriu precedentes para que outras abordagens fossem realizadas ainda de forma mais ampla, uma
vez que a análise feita por Caregnato encontrou nas bibliotecas universitárias o objeto de estudo
para sua observação.
Diante da necessidade de abrir o leque sobre o letramento informacional, Gasque e
Tescarolo (2010) discutiram a viabilidade e o impacto que tal prática poderia trazer aos estudantes
do ensino básico. Para isso, os autores procuraram reforçar a ideia de que o conhecimento e o
acesso à informação são elementos essenciais para o aprendizado. Os estudiosos utilizaram a análise
de pesquisas realizadas pelo comitê de Desenvolvimento da Ciência e Aprendizagem, cuja
descoberta de três fatores acrescenta importantes pontos no ensino, a saber: conhecimentos prévios
e experiências, conhecimentos factuais e o processo metacognitivo.
A primeira dessas descobertas considera que o conhecimento só é de fato entendido como
tal quando processado a partir de um conhecimento prévio. Dessa forma, a informação
representa um elemento exógeno a ser transformado em conhecimento mediante a
interpretação e a compreensão de cada pessoa. O conhecimento, mesmo reconhecido como
experiência subjetiva, pessoal e intransferível, pode ser exteriorizado como informação para
outro ser humano por meio de símbolos, indícios, sinais, imagens, fala ou escrita. A
informação, incorporada pela aprendizagem, transforma-se em conhecimento que, portanto,
não se reduz ao resultado da experiência direta e imediata do sujeito sobre a realidade
(GASQUE; TESCAROLO, 2004), nem “a uma fórmula matemática ou à instrução para
computador: é arte, conselho, tecnologia, teoria e a motivação que está por trás de toda a
comunicação” (WURMAN, 1991, p. 361). A segunda descoberta refere-se a uma base
sólida de conhecimento factual, em que as relações entre fatos e ideias devem estar bemestruturadas e organizadas, de modo a facilitar a recuperação e aplicação. O planejamento
de tarefas, a percepção de padrões e a capacidade de gerar argumentos e explicações
razoáveis estão mais relacionados ao conhecimento factual do que se acreditava. As pessoas
devem assumir o controle da própria aprendizagem, identificando quando entendem e
precisam de mais informações, uma vez que a “compreensão profunda do assunto
transforma a informação factual em conhecimento utilizável” (BRANSFORD; BROWN;
COCKING, 2007, p. 35). A terceira descoberta reporta-se ao processo de metacognição,
capacidade catalisadora de um conjunto de atividades fundamentais para a aprendizagem,
principalmente a escolar. A metacognição corresponde à competência humana de antevisão
do próprio desempenho nas tarefas cognitivas, possibilitando o monitoramento do método
que se utiliza para se solucionar uma situação-problema ou do nível imediato de
compreensão e de domínio das mais diversas atividades cognitivas. Destaca-se que essa
competência de “identificar os limites do conhecimento que se tem no momento, e então
tomar providências para remediar a situação, é muito importante para aprendizes de todas

�109
as idades” (BRANSFORD; BROWN; COCKING, 2007, p. 74) (GASQUE; TESCAROLO,
2010, p. 49-50).

De acordo com Gasque e Tescarolo (2010), tais descobertas mostram a necessidade do aluno
do ensino básico frente ao aumento considerável da informação. Eles chamam a atenção para o
protagonismo que os estudantes devem ter, a fim de que adquiram estratégias, cuja importância se
dará na forma de seleção de “informações relevantes para torná-las significativas”. Em outras
palavras, é como se as pessoas relacionassem novas informações com o que já faz parte de seu
conhecimento e, a partir disso, fazer uma associação entre elas. Sendo assim, Gasque e Tescarolo
(2010) enfatizam que “quanto mais relações entre as informações o aluno consegue estabelecer,
menos mecânica se torna sua aprendizagem”. A importância do letramento informacional está
justamente nesse quesito, ou seja, ele é importante, a partir do momento em que se têm as
estratégias adequadas para lidar com algum conteúdo de forma satisfatória.
A presença do bibliotecário torna-se imprescindível durante esse processo. Campello (2009,
p. 19) pondera que as funções dos profissionais estão ligadas às práticas de democratizar o acesso
das pessoas à informação; além de tornar os usuários capacitados para o uso crítico dos bens
informacionais, promover condições que permitam a reflexão e a construção de ideias por meio da
leitura. A biblioteca escolar, por sua vez, exerce um papel de suma importância devido ao espaço
adequado para o desenvolvimento do letramento informacional (CAMPELLO, 2009, p. 19).
Embora seja inevitável relativizar a situação das bibliotecas escolares, em função das
múltiplas realidades vivenciadas pelas unidades de informação, algo que não pode passar
despercebido é o exercício da pesquisa escolar como a oportunidade dos bibliotecários para induzir
os alunos aos caminhos do letramento informacional. De acordo com Campello (2009, p. 19), a
pesquisa escolar funciona como uma estratégia didática inerente ao bibliotecário, uma vez que o
aluno pratica essa busca no ambiente da biblioteca. No entanto, evidencia-se uma necessidade de
aperfeiçoamento, tendo em vista que nem todos os usuários alcançavam de fato o que era desejado,
ou seja, recebiam condições para ter acesso à informação necessária. Os motivos levantados pela
pesquisadora foram variados, ora passando pela estrutura pedagógica da escola ora pela incoerência
de alguns professores que nem sequer liam os trabalhos realizados pelos alunos. Além disso, a
pouca motivação dos estudantes também influenciava muito na busca pela informação adequada. O
quesito estrutura também foi trazido para o cerne da discussão. Campello (2009, p. 21) enfatiza que:
Estudo feito em uma biblioteca pública (MARTUCCI, 1997), para investigar o processo de
busca e uso da informação por alunos dos ensinos fundamental e médio que iam à
biblioteca para cumprir tarefas de pesquisa solicitadas por seus professores, confirmou as
fragilidades do processo, ao verificar que o atendimento era feito de forma rápida, para que
o funcionário pudesse atender ao próximo usuário que aguardava sua vez. O aluno ‘recebe
o que lhe é dado e copia mecanicamente. Educar-se, pesquisando, significa copiar um
trecho curto, de um livro didático que lhe foi entregue, exatamente nas páginas indicadas, o

�110
mais rapidamente possível, para logo cumprir sua obrigação escolar’ (MARTUCCI, 1997,
p. 186).

Torna-se urgente o fato de o exercício de letramento informacional não depender somente
dos bibliotecários, mas de uma articulação a ser desenvolvida no espaço pedagógico. Sendo assim,
Campello (2009, p. 22) reitera que tal prática precisa ser pensada como uma atitude coletiva. A
implantação de programas voltados para o letramento informacional nas instituições escolares exige
a participação não apenas dos bibliotecários. A responsabilidade por tal processo também deve ser
atribuída à comunidade escolar com um todo (GASQUE; TESCAROLO, 2007 apud CAMPELLO,
2009, p. 22).
O estudo de Campello (2009) evidencia outras observações realizadas por Gasque e
Tescarolo, cujas análises lançaram luz sobre os desafios prementes e intrínsecos ao letramento
informacional no contexto da biblioteca escolar. A pesquisadora reitera as impressões obtidas por
Gasque e Tescarolo (2010) no que diz respeito aos percalços encontrados na busca pela informação.
Segundo Gasque e Tescarolo (2007 apud CAMPELLO, 2009, p. 22), a partir do momento em que o
desempenho de atividades voltado para a “pesquisa requer a aprendizagem de competências de
busca e uso de informação, os autores ampliaram o entendimento da questão” ao evidenciar os
seguintes desafios: “a dificuldade em mudar a cultura pedagógica, a formação inadequada dos
professores, a concepção de ensino-aprendizagem, a organização do currículo, a ausência de
infraestrutura adequada de informação”.
Dentro do ambiente escolar, o letramento informacional encontra seus desafios, mas a
articulação entre bibliotecários e profissionais da educação pode ser aprimorada cada vez mais.
Campello (2009, p. 28) pondera que a função pedagógica atribuída ao bibliotecário se desenvolveu
ao longo do tempo em um caminho fortalecido por atividades “implementadas em bibliotecas, como
por pesquisas acadêmicas, que possibilitaram a constituição de um aparato teórico/conceitual que
tem sustentado essas práticas”, reforçando o importante papel educacional da classe bibliotecária na
democratização da informação aos seus usuários.
Gasque (2012, p. 152) reforça que, para o letramento informacional ocorrer de maneira
reflexiva e significativa ao usuário, é preciso a presença de uma equipe multidisciplinar para fazer
valer a sua principal função: levar a informação às pessoas de uma maneira que seja propiciada
estratégias para sua utilização satisfatória. Gasque (2012, p. 152) especifica o papel dos envolvidos
nessa prática:
O professor em sala de aula deve implementar projetos conciliando a aprendizagem sobre o
conteúdo a ser pesquisado, por exemplo, ‘corpo humano’, ‘educação no Brasil’, ‘doença de
chagas’, e a aprendizagem dos conteúdos necessários à pesquisa. Exemplos desses
conteúdos são: ‘compreensão da organização da biblioteca’, ‘busca em bancos de dados’,
‘resumos’, ‘esquemas’, ‘estruturação da pesquisa de acordo com as normas da ABNT’,

�111
dentre outros. Por sua vez, o bibliotecário deve atuar inicialmente na formação do corpo
docente da instituição, orientando sobre os conteúdos necessários para realização da
pesquisa. Além da formação dos professores, os bibliotecários devem colaborar com os
projetos educacionais que ocorrem nos vários espaços de aprendizagem (sala de aula, laboratórios, biblioteca). Isso requer disseminar informação, promover palestras, oficinas. Cabe
à direção educacional e coordenadores propiciar e organizar a formação dos profissionais,
orientar e monitorar os processos pedagógicos, bem como propiciar uma abordagem
pedagógica centrada na resolução de problemas.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nota-se uma preocupação iminente em relação aos mecanismos adotados para a prática do
letramento informacional. Reforça-se, a necessidade de conscientização dos bibliotecários em
relação à importância de seu papel na democratização da informação aos usuários. As pesquisas
evidenciam isso e abrem caminhos para novas abordagens, sejam elas realizadas em bibliotecas
universitárias, escolares, especializadas ou especiais.
Bibliotecas são locais ideais para a difusão do conhecimento. Quando dotados de
profissionais empenhados na divulgação dos conteúdos, esses redutos podem modificar a vida de
uma comunidade inteira. Em meio a tantos livros, materiais multimídias, periódicos, cartografias,
entre outros, é importante que se conte com a presença de pessoas que conheçam os meandros da
Biblioteconomia para autenticar a busca pela informação.
Os bibliotecários estão longe de exercer somente suas funções inerentes ao processo técnico,
tão importante para a organização da informação nos mais variados acervos. Todos eles também
atuam na mediação. A divulgação dos conteúdos aos leitores/usuários deve ser pensada de forma a
atingir sua excelência.
Isso significa que as pessoas necessitadas de informação precisam recebê-la de maneira
integral e sem ruídos, ou seja, livre de impedimentos, possibilitando a transformação de suas vidas.
Sendo assim, o profissional de Biblioteconomia tem a premissa social e educacional de utilizar as
estratégicas inerentes ao letramento informacional para democratizar o acesso à informação a todas
as pessoas, independente da cor, da crença, da orientação sexual, do gênero, da origem e da classe
social. Informação é um bem público e todos devem ter o direito de desfrutá-la com eficiência.

REFERÊNCIAS
CAMPELLO, Bernadete Santos. Letramento informacional no Brasil: práticas educativas de
bibliotecários em escolas de ensino básico. 2009. 207f. Tese (Doutorado) – Programa de PósGraduação em Ciência da Informação, Escola de Ciência da Informação, Universidade Federal de

�112

Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009. Disponível
em:&lt;http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/ECID-7UUPJY&gt;. Acesso em: 18
nov. 2018.
CAREGNATO, Sônia Elisa. O desenvolvimento de habilidades informacionais: o papel das
bibliotecas universitárias no contexto da informação digital em rede. Revista de Biblioteconomia e
Comunicação &amp; Comunicação, Porto Alegre, v. 8, 2000. Disponível
em:&lt;https://core.ac.uk/download/pdf/11883861.pdf&gt;. Acesso em: 17 nov. 2018.
GASQUE, K. C. G. D. Letramento informacional: pesquisa, reflexão e aprendizagem. Brasília:
Universidade de Brasília, 2012.
GASQUE, K.C.G.D; TESCAROLO, R. Desafios para implementar o letramento informacional na
educação básica. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 26, n. 1, 2010. Disponível
em:&lt;http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010246982010000100003&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt&gt;. Acesso em: 18 nov. 2018.

�113

CAPÍTULO VIII
LEITURA COMO PROCESSO DE INTEGRAÇÃO ENTRE A SUBJETIVIDADE DO
LEITOR E O CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO

Flávia Ferreira Abreu

1 INTRODUÇÃO

Muito se tem falado, pesquisado e publicado sobre o acesso à informação, sendo a leitura
uma das formas mais propícias de possibilitar esse direito. Um dos desafios desse processo é tornar
o leitor criativo e reflexivo, capacitado a agir com autonomia na sociedade. O leitor deve ser
compreendido como sujeito independente, que faz leituras diversas do texto, seja escrito ou oral, a
partir de seu contexto social, com liberdade de criar as próprias interpretações para os signos com
os quais interage. Mesmo com essa autonomia, a presença do mediador literário se faz necessária,
visto que ele auxilia na formação do leitor.
Para que possa mediar a leitura, o profissional que faz a mediação precisa ter conhecimento
de seu leitor e da literatura, visto que a capacidade de ler envolve todo o processo de saber do
mundo. Em face disso, Freire (1989, p. 11) sinaliza que a “leitura do mundo antecede a das
palavras. Desde o nascimento interagimos com elos culturais que nos proporcionam a construção da
nossa identidade individual e coletiva”.
A identidade coletiva pode ser entendida como “questão de saber quão profundas e
essenciais para a formação do indivíduo são as pressões e influências exercidas por essa sociedade
externa” (ELIAS, 1994, p. 34). Essa relação exercida entre os indivíduos e o mundo permite que
eles se conheçam e a partir das semelhanças e compartilhamentos, sintam-se pertencentes a um
grupo homogêneo, o que caracteriza a cultura coletiva. Já a identidade individual é um projeto de
caracteres próprios e exclusivos que vai sendo construído pelo desenvolvimento do indivíduo, que
lhe permite diferenciar dos demais.
A história da leitura é similar a outras práticas culturais humanas, pois a constituição dela
está relacionada ao contexto histórico que cada leitor se inseriu ao interpretar as variadas tipologias
textuais. Para Silveira e Moura (2007, p. 124), “toda prática de leitura se desenvolve e adquire
sentido a partir de um determinado contexto histórico e espaço temporal, conjugado com a

�114

subjetividade e anseios específicos de cada leitor”. Dessa forma, a leitura pode ser visualizada a
partir de diversos olhares que permitirão uma visão múltipla dos significados das informações.
A leitura permite que os leitores rompam barreiras e possam construir uma viagem pelo
contexto cultural que os unem à sociedade. Na crença de que a leitura se desenvolve a partir das
interpretações dos sujeitos históricos inseridos em um contexto social e temporal, a estética da
recepção se “constitui como um dos esforços mais originais sobre a questão da leitura” (SILVEIRA;
MOURA, 2007, p. 124).
A estética da recepção visa explicar que ao tratar de obras textuais, inacabadas e abertas a
inúmeros olhares interpretativos, a interpretação literária se interage entre o horizonte de
expectativas dos autores e as possíveis significações por seus leitores. Esse conceito “atribui a
leitura um efeito emancipatório que libera o leitor da busca por uma única e perfeita interpretação”
(SILVEIRA; MOURA, 2007, p. 125). Nesse sentido, leitor expõe sua visão interpretativa como
leitor, considerando seu conhecimento prévio, suas crenças, valores e contexto de vida.
Para a Ciência da Informação, a estética da recepção amplia o campo teórico de investigação
da leitura do bibliotecário a partir da especificidade de sua prática leitora, com vistas a uma
intervenção mediadora “[...] entre os signos informacionais presentes nos vários acervos com que
lida, e os inúmeros usuários que os acessa” (SILVEIRA; MOURA, 2007, p. 125). O bibliotecário
mediador está sujeito às interpretações do mundo que o permeia; logo, não busca registrar o original
dos acervos, mas permitir acesso, por meio de representações dos assuntos das obras inseridas na
unidade de informação.
Compreendendo a leitura como prática cultural que se desenvolve a partir da interação entre
a subjetividade de cada leitor e seu contexto social, busca-se analisar como a intertextualidade pode
auxiliar a mediação literária pelo bibliotecário, por meio de bases teóricas da leitura, formação do
leitor e o papel do bibliotecário como mediador social.

2 LEITURA E SEUS CONCEITOS

A leitura é um processo de aprendizado que permite ao indivíduo, à medida que acessa a
informação, conhecer seus direitos e deveres. Dessa forma, cria-se um olhar com uma dimensão
mais reflexiva da vida social, o que promove o exercício da cidadania. A leitura reflexiva será o
diferencial na compreensão do texto, proporcionando ao leitor as possíveis interpretações. Isso é
possível mediante às perspectivas do leitor, geradas por meio de seu conhecimento, o que distingue
a competência interpretativa entre os outros leitores.

�115

Portanto, a leitura manifesta-se como um direito de todos os cidadãos, os quais poderão
ampliar os horizontes críticos e culturais a respeito da vida em sociedade. Nesse sentido, as pessoas
poderiam desenvolver de forma mais efetiva o senso crítico e conquistariam decisões mais
assertivas em seu convívio social. Para Bobbio (2004, p. 17), em relação aos direitos, mesmo eles
estando expressos em princípios, políticas, convenções, dentre outras manifestações nacionais ou
internacionais, é necessário saber qual é “o modo mais seguro para garanti-los, para impedir que
apesar das solenes declarações, eles sejam continuamente violados”.
No que condiz à leitura no Brasil, acredita-se que o acesso a ela está engatilhando. Com
efeito, vale destacar a importância do acesso à informação e a relação desse acesso com a leitura.
Assim,
[...] criação de estruturas e o estímulo ao acesso e uso da informação tornam premente a
capacitação dos sujeitos para acesso aos códigos encerrados pela informação. Em um país
que detém baixos índices em desempenho de leitura e escrita é impraticável que os
cidadãos exerçam seus direitos sociais e políticos, que podem ser viabilizados a partir da
informação, caso não se invista de forma simultânea nos processos educacionais e de
acesso aos códigos da leitura (MARTINS; REIS, 2014, p. 169).

Seguindo essa linha de pensamento, é indispensável que a educação seja mais igualitária a
toda sociedade, de modo que as instituições educacionais tenham estruturas adequadas para o
desenvolvimento pessoal, profissional e social do sujeito. Portanto, é imprescindível que as escolas
tenham bibliotecas, para garantir o acesso à informação e à leitura, equipadas com profissionais
capacitados para que possam orientar os usuários. O papel do bibliotecário vai além da simples
indicação de um livro, mas no sentido da compreensão de ações políticas e interventivas, por meio
de uma leitura crítica da realidade.
Essa ação política, para Martins e Reis (2014, p. 169),
é o caminho fecundo para que os efeitos nocivos do capitalismo e da globalização sejam
minimizados, novos regimes de força se estabeleçam na luta pelo poder e, sobretudo, para
que o exercício dos direitos ou da coletividade decorra, enfim, do seu reconhecimento
necessário como condição de liberdade.

A sociedade, mediante visão e conhecimento críticos da política do país, possibilitados pela
leitura reflexiva e análise críticas do sistema social, terá condições mais efetivas de decidir sobre as
questões da nação, visto que é um direito de todos acessarem as informações públicas do Estado e
contribuírem com o desenvolvimento da nação.
Lajolo (1982, p. 59) concorda com a relação da leitura com o desenvolvimento da
criticidade do sujeito e conceitua o ato de ler como,
uma atividade que está muito além da decifração de signos linguísticos: Ler não é decifrar,
como num jogo de adivinhações, o sentido de um texto. É, a partir do texto, ser capaz de
atribuir-lhe significação, conseguir relacioná-lo a todos os outros textos significativos para

�116
cada um reconhecer nele o tipo de leitura que seu autor pretendia e, dono da própria
vontade, entregar-se a esta leitura, ou rebelar-se contra ela, propondo outra não prevista.

Consoante a essa citação, a leitura não pode ser entendida como decifração, visto que o
leitor não se satisfaz com a superficialidade do texto, mas imerge nas acepções mais profundas dele.
Na condição de sujeito, ele não deve se contentar apenas com uma leitura única; pelo contrário,
deve levantar diversas possibilidades de análise sobre a intenção de quem escreveu o texto e ter
perspicácia suficiente para descobrir o sentido e atribuir-lhe valor (NASCIMENTO, 2014). A
capacidade de o leitor relacionar os textos permite uma leitura intertextual que possibilita a abertura
para novas leituras que se entrelaçam, de forma não linear, mas contextualizada. Assim, o leitor
manifesta-se como agente que, mediante a leitura crítica, é autônomo em tomar decisões, a partir do
que está expresso em um texto.
O ato de ler é altamente dependente da competência do leitor porque essa competência lhe
faculta a possibilidade de realizar suas inferências textuais e intertextuais. Tais inferências
dão condições a ele para que seja autônomo diante das ideias do texto e, frente a isso,
possa aceitar ou rejeitar as intenções do seu autor. Portanto, a leitura, por essa ótica, está
subordinada ao grau de conhecimento do leitor e também à sua capacidade de interpretar e
de inter-relacionar as ideias dos textos (NASCIMENTO, 2014, p. 28, grifo nosso).

Matêncio (1994, p. 42) também segue a linha análoga defendida por Nascimento (2014),
enfatizando acerca da postura ativa e interventiva do leitor, o qual possui conhecimentos prévios,
capazes de contextualizar e atribuir outros sentidos ao texto materializado em um suporte.
[...] A leitura, assim como a escrita, é uma atividade realizada de forma visual, por
movimento de globos oculares. Ao longo desse processo, os olhos não se fixam em cada
uma das palavras, como fariam pressupor as atividades de leitura na escola, mas identificam
um conjunto de palavras. Por outro lado, o leitor não é passivo frente ao texto, mesmo
que a escola o oriente nessa conduta: os sentidos que ele estabelece na leitura são
vinculados aos seus conhecimentos da atividade, da estrutura textual e de mundo; ao
longo desse processo ele cria, confirma ou rebate suas hipóteses acerca do que ali lhe é
exposto (MATÊNCIO, 1994, p. 42, grifo nosso).

Barroso (2006, p. 55) descreve a leitura, em sentido lato, com essas palavras:
[...] é, portanto, um processo de vivência, de observação, de relação e de aprendizagem
realizado pelo interesse do leitor. Assim a leitura é determinada por elementos internos ou
subjetivos e por elementos externos ou objetivos. Ou seja, há que se considerar, nesse
processo, tanto os lados sensitivos e sensoriais-emotivos do indivíduo, quanto as questões
externas a ele, isto é, os estímulos dos meios sociais, culturais e políticos do contexto no
qual está inserido.

Sob uma perspectiva institucional, abordamos o conceito de leitura expresso nos Parâmetros
Curriculares Nacionais, em que a leitura caracteriza-se como
[...] o processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do
texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de
tudo o que sabe sobre a linguagem etc. Não se trata de extrair informação, decodificando
letra por letra, palavra por palavra. Trata-se de uma atividade que implica estratégias de

�117
seleção, antecipação, inferência e verificação, sem as quais não é possível proficiência. É o
uso desses procedimentos que possibilita controlar o que vai sendo lido, permitindo tomar
decisões diante de dificuldades de compreensão, avançar na busca de esclarecimentos,
validar no texto suposições feitas (BRASIL, 1998, p. 69-70).

A partir desses fundamentos teóricos e com base na experiência profissional da autora deste
texto, considera-se a leitura como uma forma do leitor compreender o texto a partir de seu
conhecimento interno e sua relação com o saber que vem adquirindo a partir das diversas leituras
que faz da realidade em que está inserido.

3 LEITURA E LEITOR

Para compreender o escrito, o leitor depende de seus conhecimentos de mundo e de escrita
para decodificar os signos e dar sentido ao que lê. Essa interação da grafia com a leitura do mundo
possibilita a comunicação com o universo intimamente relacionado, seja com a escrita, pintura,
gravura e escultura ou qualquer outro signo que permita a interpretação variada, fruto da
subjetividade do leitor e do contexto histórico cultural em que o signo se originou.
Nessa seara, Antunes (2003, p. 70) acredita que
a atividade da leitura favorece, num primeiro plano, a ampliação dos repertórios de
informação do leitor. Na verdade, por ela, o leitor pode incorporar novas ideias, novos
conceitos, novos dados, novas e diferentes informações acerca das coisas, das pessoas, dos
acontecimentos, do mundo em geral.

O sentido da leitura é uma miscelânea dos novos conhecimentos advindos do texto, dos
saberes iniciais que o leitor já possui em relação ao objeto de que trata o texto. Assim, confirma
Antunes (2003, p. 78) “que não se pode ver no texto o que lá não está nem se pode ver apenas o que
lá está sobre a página. A leitura tem, assim, a dinâmica de qualquer outro encontro: seu sentido é de
agora e é de antes”.
Trata-se, portanto, de uma interação entre o sujeito que lê e o quê o texto lhe proporciona de
novo. À medida que o leitor for penetrando no texto, seus conhecimentos prévios serão
pressupostos básicos para que o sujeito tenha o domínio daquilo que lê. “Ao mergulhar na leitura,
aparece à necessidade de recorrer ao seu repertório intelectual para auxiliá-lo a compreender a
mensagem. É como se andasse para frente, mas, simultaneamente, a voltar seu olhar para trás”
(NASCIMENTO, 2014, p.31).
Souza e Gamba Junior (2002) consideram o encontro entre a leitura e o leitor como algo
mágico; o êxtase do processo de leitura está nessa interação, pois a leitura não é um ato solitário,

�118

mas a interação com as muitas vozes que ecoam no texto de um escritor e que só terão oportunidade
de se manifestar pela colisão marcada entre o leitor e o texto.
A leitura é comunhão, é o momento em que o indivíduo isolado tem a possibilidade de
reconhecer a sua inserção particular na história de uma época. Com base na narrativa de outrem, a
própria identidade do leitor se restabelece. Ler é um modo de viajar e deixar-se impregnar pela
névoa do desconhecido. O desafio maior que enfrentamos, hoje, é preservar a dimensão mágica da
leitura no contexto da utilização da tecnologia. Porém, esse novo modo de leitura instrumental
precisa partilhar com a leitura mágica a possibilidade de submeter-se ao tempo do leitor, a garantia
da atividade crítica, dando uma nova permanência histórica e cultural às narrativas que se
constituem e se renovam na grande temporalidade. O uso da tecnologia nos ambientes de estudos
proporciona o diálogo entre as ferramentas da construção do saber, gerando novas fontes de acesso
à aprendizagem (SOUZA; GAMBA JUNIOR, 2002).
O repertório intelectual conta muito, pois a diversidade de leituras está subordinada ao poder
de interpretação juntamente aos conhecimentos acumulados do leitor, que são decisivos para a
pluralidade de sentidos. Nesse aspecto, “um mesmo texto pode ser lido distintamente por leitores de
graus de conhecimentos diferentes e, de acordo com o ponto de vista de cada um, podem chegar a
conclusões diferentes” (NASCIMENTO, 2014, p. 33).
Todavia, deve-se ter ciência que o texto, mesmo oferecendo uma gama de probabilidades de
leitura, não pode ser lido arbitrariamente, de qualquer maneira, já que o sentido não está apenas no
leitor, nem no texto, mas na interação autor-texto-leitor, cabendo ao mediador literário e ao leitor
traçarem caminhos possíveis de interpretação baseados no texto. Por isso, “é de fundamental
importância que o leitor considere na e para a produção de sentido as sinalizações do texto, além
dos conhecimentos que possui” (KOCH, 2008, p. 217).
Zilberman (1988, p. 146), em face do comentário abaixo, destaca a importância da leitura
literária.
Que a leitura é importante, todos sabemos: a leitura ajuda o indivíduo a se posicionar no
mundo, a compreender a si mesmo e à sua circunstância, a ter suas próprias ideias. Mas a
leitura da literatura é ainda mais importante: ela colabora para o fortalecimento do
imaginário de uma pessoa, e é com a imaginação que solucionamos problemas. Com efeito,
resolvem-se dificuldades quando recorremos à criatividade, que, aliada à inteligência,
oferece alternativas de ação.

Faulstich (2008, p. 23) esclarece o que se deve considerar para que haja o entendimento de
um texto: “Entender um texto é compreender claramente as ideias expressas pelo autor para, então,
interpretar e extrapolar essas ideias”. Nesse momento, o sujeito deve ajustar as informações
contidas no contexto em análise às que ele possui em seu arquivo de conhecimento, baseado em
suas observações, experiências e vivências.

�119

4 FORMAÇÃO DO LEITOR

A proposta principal para formar o leitor é inserir a prática da leitura pela leitura. A partir
dessa prática, é possível viabilizar a formação e transformação de um leitor consciente e capaz de
dialogar com o texto, já que ambos são indissociáveis. O mediador literário pode se valer da
intertextualidade para auxiliar o leitor na busca pela leitura que procura, possibilitando, até mesmo,
a participação desse sujeito, mediante sua capacitação e aquisição de conhecimentos, na gestão da
sociedade, à medida que esse leitor passar a compreender melhor as questões políticas.
Azeredo (2007, p. 25- 26), assim, explica o conceito de intertextualidade.
Nenhum texto veicula informações cem por cento inéditas, assim como nenhum texto é
cem por cento novo no formato, ou gênero pelo qual essas informações são veiculadas.
Qualquer texto lembra, retoma ou evoca, implícita ou explicitamente, outro texto ou parte
de algum texto. A essa propriedade, que é também uma espécie de conhecimento
compartilhado – só que numa dimensão social e histórica -, chamamos intertextualidade,
um importante suporte de coerência.

O texto é uma espécie de ponte lançada entre conexões de saberes que permite ao leitor
visualizar sentidos que estão interligados a outros textos. O mediador, ao conhecer seu leitor,
poderá utilizar dessa relação textual para direcionar o leitor a novas possibilidades de leitura. O bom
leitor deve ter domínio da leitura, condição de convivência do indivíduo na sociedade.
Para Paulino et al. (2001, p. 35), “desde o momento em que aprendemos a ler, entramos no
mundo da escrita e subordinamo-nos às suas leis, reforçando nossa condição social, marcada pela
aquisição da linguagem”. Não é sem razão que estudiosos mostram que a escrita liga-se ao controle,
às leis sociais. Se sei ler, estou pronto para conhecer a lei, não podendo mais desrespeitá-la
impunemente. Por outro lado, estou pronto também para me deixar seduzir pelo texto e pelos
mundos que ele configura. Assim, a sedução e repressão se instalam no próprio processo de
alfabetização e letramento, por meio da capacidade de análise crítica da realidade social, na qual o
leitor está inserido e sujeito a transformar esse meio, por meio do seu poder de decisão de forma
mais consciente.
Portanto, formar um leitor competente supõe formar alguém que compreenda o que lê; que
possa aprender a ler também o que não está escrito, identificando elementos implícitos; que
estabeleça relações entre o texto que lê e outros textos já lidos; que saiba que vários sentidos podem
ser atribuídos a um texto; que consiga justificar e validar a sua leitura a partir da localização de
elementos discursivos que comprovem sua interpretação e compreensão do texto (PAULINO et al.,
2001).
Os autores citados apresentam as características do leitor ideal, fundamentadas numa
concepção de leitura interativa.

�120

Importa perguntar, pois, qual o papel do bibliotecário na formação do leitor. Não o leitor
obediente, que preenche devidamente fichas de livros ou reproduz com propriedade
enunciados textuais. Mas o leitor que, instigado pelo que lê, produz sentido, dialoga com o
texto, com os intertextos e com o contexto, ativando sua biblioteca interna, jamais em
repouso. Um leitor que, paradoxalmente, é capaz de se safar até mesmo das camisas-deforça impostas pela escola e pela sociedade, na medida em que produz sentidos que fogem
ao controle inerente à leitura e à sua metodologia (PAULINO et al., 2001, p. 29).

Destarte, é de suma importância formar leitor capaz de criar sua própria análise, com o uso
do conhecimento do meio social em que vive, mediante uma visão crítica da sociedade e justamente
por ser um processo complexo que a formação de leitores se torna um bem inestimável para o
bibliotecário, pois o domínio da leitura e da informação pode significar libertação e participação
social do indivíduo na sociedade.

5 PAPEL DO BIBLIOTECÁRIO COMO MEDIADOR SOCIAL

O bibliotecário mediador tem um papel social fundamental na formação do leitor crítico, ao
interpretar os conteúdos informacionais que se encontram sistematizados nos acervos das unidades
de informação, na tentativa de tornar mais acessíveis ao usuário as informações que demanda. Esse
profissional torna-se ouvinte do leitor e passa a conhecê-lo melhor, o que possibilita um trabalho
mais efetivo de mediação da leitura, não só pela literatura de ficção, mas pela leitura da sociedade.
Embasado em Soares (2009), assim como os desdobramentos de letramento literário e
letramento visual ajudam-nos a estabelecer estratégias de orientação de leitura, a atuação
bibliotecária se manifesta entre o sujeito que busca e o que pode ser encontrado no acervo, que
atenda as necessidades. Na perspectiva do letramento, observa-se o sujeito que aprendeu a não
apenas ler e escrever, mas adquiriu capacidade em utilizar-se da leitura e da escrita para interagir
criticamente com o seu meio social.
Ampliando esse raciocínio, entendemos que o acesso à leitura literária de qualidade leva o
indivíduo ainda mais longe: permite-lhe conhecer a si mesmo e ao universo do qual faz parte,
sendo, pois, um processo decisivo para o enriquecimento social, afetivo, ético e estético do leitor.
Em outras palavras, à literatura, como a qualquer forma de arte, cabe um papel potencialmente
humanizador do sujeito leitor.
O Projeto Clube da Leitura, desenvolvido em uma escola de Ensino Fundamental e Médio,
em que a autora deste artigo participou, vai ao encontro do pensamento de Soares (2009). O Clube
da Leitura com o objetivo de compartilhar e incentivar leituras percebeu o interesse dos leitores em
se tornar escritores. Para as mediadoras do projeto, essa não era a pretensão, porém, “a intimidade

�121

da escrita trouxe essa grata surpresa” (ABREU; BATISTA; OLIVEIRA, 2014, p. 12). Por
conseguinte, algum tempo depois, o projeto teve um livro publicado em 2014, e mais um em
processo de edição.
Esse projeto se norteia em fundamentos teóricos buscados no campo atual da Sociologia da
Leitura, que procura entender o desenvolvimento do gosto e da prática da leitura junto a crianças e
jovens numa perspectiva centrada no sujeito interessado, a partir do conhecimento e do respeito ao
seu contexto social pelo agente da leitura. Alguns membros do projeto retratam também, por meio
de teatro, suas concepções de vida e resposta ao estilo social a que estão inseridos, como pode ser
observado no Musical Entrilhas do Grupo Formigueiros, cujos próprios atores escreveram e
contracenaram episódios que demonstram a visão crítica deles acerca da sociedade em que vivem.
Refletindo com Orlandi (2012), ressalta-se qual seria a contribuição do bibliotecário nas
atividades de leitura: em relação às leituras previstas para um texto, a contribuição é modificar as
condições de produção de leituras do sujeito leitor, dando oportunidade a que ele construa sua
história de leituras. E, além disso, o leitor tem a possibilidade de estabelecer, quando necessário, as
relações intertextuais, resgatando a história dos sentidos do texto, sem obstruir o curso da história
desses sentidos.
O bibliotecário, sujeito capaz de possibilitar a transformação social por meio da educação,
precisa buscar parcerias que auxiliem na formação do leitor. O envolvimento da família, haja vista
estimular o hábito da leitura, pode ser a base diferencial que facilitaria o gosto literário pelo sujeito
desde a infância. Essa parceria com a família dos leitores, certamente, está de acordo com os
argumentos de Souza (2009), para quem, o ambiente determina as ações que os sujeitos realizarão.
O ato de ler foi de tal forma se afastando da prática individual que a tarefa que hoje se
solicita de profissionais da leitura, como professores, bibliotecários e animadores culturais, é
exorcizar o risco da alienação, muito embora eles possam acabar constituindo elo a mais e
inevitável cadeia de mediação que se interpõe entre o leitor e o significado do texto.
O bibliotecário precisa difundir e divulgar a importância da biblioteca, como unidade de
preservação, que ativa o conhecimento, estimulando a leitura. A biblioteca não pode ser considerada
como apêndice de uma instituição educacional; ela é a própria escola, pois é nesse espaço
informacional que os usuários podem encontrar tudo aquilo que precisam para a formação
acadêmica e cidadã deles, mediante a pluralidade de leituras que podem realizar da vida e do
mundo.
A biblioteca possibilita acesso à leitura e às informações para dar respostas e suscitar
perguntas aos educandos, configurando-se numa instituição, cuja tarefa centra-se na formação não
só instrutiva, como também no apoio informacional ao pessoal docente para atender as necessidades

�122

educacionais e sociais. A biblioteca precisa ser entendida como um espaço demonstrativo em que
interajam usuários e informação. Esse espaço democrático pode ser circunscrito a duas funções: a
função educativa e a formação cultural do indivíduo.

6 REFLEXÕES FINAIS

A partir da revisão teórica, percebeu-se que a leitura do texto não tem um sentindo único,
mas contempla uma construção de entendimento que envolve o conhecimento prévio do leitor - com
base no espaço social-temporal a que está inserido - além das novas ideias que lhe são apresentadas
pelo texto. A teoria da estética da recepção vem confirmar as diversas possibilidades de leitura a
partir da interação do horizonte de expectativas dos autores e as possíveis significações por seus
leitores, deixando claro que a interpretação do texto vai além dos conhecimentos do texto e a
compreensão deve se ater às informações do texto.
A intertextualidade se apresenta como indispensável para a compreensão da leitura e
formação do leitor, na proporção que permeia sobre a leitura do mundo em constante comunicação
com outras leituras realizadas pelo sujeito leitor. Por meio da contextualização intertextual, o
mediador literário pode traçar novos caminhos para atender a demanda dos leitores e direcioná-los a
leituras que permitam uma visão mais crítica da sociedade.
O bibliotecário como mediador social pode utilizar todas as possibilidades que a biblioteca
oferece, haja vista garantir a formação de um sujeito crítico e consciente de seu papel transformador
da sociedade, o que possibilita o exercício da cidadania. Isso é alcançado pelo fato de a biblioteca
configurar-se como um lugar de múltiplas funções, tanto de guarda, preservação, organização e
disseminação do conhecimento de um povo.
Nesse ambiente, o leitor terá contato com o saber, o que lhe garante a formação cultural,
social e identitária, proporcionando um conhecimento da realidade sociocultural, de modo que seja
capaz de tomar decisões mais assertivas em sua vida. Ao bibliotecário cabe, ainda, tornar possível o
acesso de forma eficaz a esse leitor do mundo.
Para que esse processo de acesso à leitura e informação possa se concretizar, é necessário
que haja políticas efetivas e estruturadas, no sentido de preparar os profissionais a caracterizarem-se
como mediadores nos espaços e ambientes de acesso à leitura e informação. Como mediadores, a
orientação é de que os profissionais propiciem a formação de cidadãos capazes de exercer seus
direitos sociais e políticos de maneira consciente.

�123

REFERÊNCIAS

ABREU, Flávia Ferreira; BATISTA, Geisa Mara; OLIVEIRA, Mônica Luiza Lages de (Org.). Hoje
tem clube. Belo Horizonte: Ava Editora, 2014.
ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro &amp; interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
AZEREDO, José Carlos de. Ensino de Português: fundamentos, percursos, objetos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
BARROSO, Maria Veralice. A leitura da literatura no contexto da globalização: uma reflexão
acerca do ensino crítico de literatura nas escolas públicas do Distrito Federal. 2006. 140 f.
Dissertação (Mestrado em Teoria Literária) - Programa de Pós-Graduação em Literatura,
Universidade de Brasília, Brasília, 2006. Disponível em:
&lt;http://repositorio.unb.br/handle/10482/2234&gt;. Acesso em: 10 dez. 2015.
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa. Brasília: Secretaria de Educação
Fundamental, 1998.
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
FAULSTICH, Enilde Leite de Jesus. Como ler, entender e redigir um texto. 2. ed. Petrópolis:
Vozes, 2008.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23. ed. São Paulo:
Cortez; Autores Associados, 1989.
KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. As tramas do texto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
LAJOLO, Marisa. Usos e abusos da literatura na escola república velha: Bilac e a literatura
escolar na república velha. Porto Alegre: Globo, 1982.
MARTINS, Ana Amélia Lage; REIS, Alcenir Soares dos. A informação pública como direito e
acesso ao poder: a Lei 12.527/2011 em debate. In: MOURA, Maria Aparecida (Org.). A
construção social do acesso público à informação no Brasil: contexto, historicidade e
repercurssões. Belo Horizonte: UFMG, 2014. p. 153-172.
MATÊNCIO, Maria de Lurdes Meirelles. Leitura e Produção de Textos e a Escola: reflexão
sobre o processo de letramento. São Paulo: Autores Associados, 1994.
NASCIMENTO, José Carlos Alves do. A prática da leitura no ensino fundamental: uma
abordagem à luz das novas concepções do ensino de língua portuguesa. 2014. 115f. Dissertação
(Mestrado em Ciências da Educação) - Escola de Educação, Administração e Ciências Sociais,
Universidade Lusofona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, 2014.
ORLANDI, Eni Pulcinelli. Discurso e Literatura. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

�124

PAULINO, Graça et al. Tipos de texto, modos de leitura. 2. ed. Belo Horizonte: Formato
Editorial, 2001.
SILVEIRA, Fabrício José Nascimento da; MOURA, Maria Aparecida. A Estética da recepção e as
práticas de leitura do bibliotecário-indexador. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo
Horizonte, v. 12, p. 123-135, 2007. Disponível em: &lt;http://www.scielo.br/pdf/pci/v12n1/09.pdf&gt;.
Acesso em: 17 dez. 2015.
SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
SOUZA, Jessé. A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
SOUZA, Solange Jobim e; GAMBA JUNIOR, Nilton. Novos suportes, antigos temores: tecnologia
e confronto de gerações nas práticas de leitura e escrita. Revista Brasileira de Educação, Rio de
Janeiro, n. 21, p. 104-114, set./dez. 2002. Disponível
em:&lt;http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S141324782002000300009&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt&gt;. Acesso em: 28 dez. 2015.
ZILBERMAN, Regina. A leitura e o ensino da literatura. São Paulo: Contexto, 1988.

�125

CAPÍTULO IX
SISTEMA DE BIBLIOTECAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS:
CRIAÇÃO DO ESPAÇO DE LEITURA PARA O LAZER NO AMBIENTE
UNIVERSITÁRIO

Maria Elizabeth de Oliveira Costa
Taciane Gomes Rodrigues

1 INTRODUÇÃO

A Biblioteca Universitária do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Minas
Gerais (BU-SB/UFMG) caracteriza-se como um órgão suplementar dessa instituição responsável
tecnicamente pelo provimento de informações necessárias às atividades de ensino, pesquisa e
extensão da universidade, como também pela coordenação técnica dos recursos informacionais das
25 bibliotecas que compõem o Sistema de Bibliotecas.
Além da biblioteca universitária, esse sistema é composto por uma biblioteca em cada
unidade acadêmica da UFMG e pelas Bibliotecas do Centro Pedagógico e do Colégio Técnico
(Escolas de Educação Básica e Profissional).
Em linhas gerais, as bibliotecas proporcionam informações específicas relativas às diferentes
áreas do conhecimento, tendo em vista fornecer condições adequadas para o efetivo funcionamento
das atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Embora a biblioteca universitária tenha um aspecto muito particular, visto que coloca-se a
serviço da universidade, sendo considerada por muitos pesquisadores como uma biblioteca
especializada, como mencionado por Accart (2012), há de se considerar que seus serviços podem ir
muito além da instância universitária, sobretudo quanto ao papel desempenhado pela universidade,
no que tange ao desenvolvimento da sociedade.
Nesse contexto, a partir de um momento de reflexão junto à equipe gestora da BUSB/UFMG, pensou-se na possibilidade em instituir um espaço físico que oferecesse acolhimento
para a comunidade externa da UFMG, especificamente, no que tange à oferta de materiais
informacionais e estrutura física para acomodação de leitores.
Assim, houve o desejo da criação de uma biblioteca não acadêmica, com características
interativas e dinâmicas, possuidora de acervo especializado, voltado para o lazer, ou seja, material

�126

lúdico, literatura e entretenimento, os quais seriam utilizados para fomentar a prática da leitura no
ambiente da Biblioteca.
O espaço foi organizado, de modo a contemplar um ambiente alegre, colorido e ao mesmo
tempo acolhedor. A ideia era que a comunidade universitária, nos horários vagos, como horário de
almoço, ou mesmo entre uma aula e outra, pudesse ter o prazer e convívio com uma leitura
diferenciada; logo, a biblioteca cumpriria as funções híbridas necessárias às bibliotecas da
contemporaneidade: funções educativas, informativas, recreativas e culturais, como dito por Santa
Anna (2018).
Além disso, a comunidade externa também poderia usufruir do espaço, com vistas a
estabelecer um vínculo mais aproximado da instituição com a comunidade, viabilizando, portanto, o
compromisso da extensão universitária, como proclamado por Ferreira (2012).
Assim, foi instituído o Espaço de Leitura no prédio da Biblioteca Central 11, cujo objetivo é
proporcionar a leitura de lazer para a comunidade acadêmica e também para o público externo. Esse
espaço foi inaugurado no dia 10 de setembro de 2009, e contava com um acervo de
aproximadamente 2800 exemplares formados por obras de variados gêneros literários como poesia,
romance, literatura clássica, biografia, literatura infantojuvenil e artes, além de jornais, revistas,
informativos e obras em Braille.

2 O ESPAÇO DE LEITURA E SUA CRIAÇÃO

A criação do Espaço de Leitura na Biblioteca Central da UFMG está ancorada às reflexões
propostas na literatura científica até então publicada sobre a importância de adequação dos espaços
das bibliotecas às necessidades das comunidades, além do forte discurso sobre a Biblioteconomia
Social, como um campo emergente para o século XXI.
Em termos específicos, o Espaço de Leitura se incorpora da leitura para promover a busca
por uma sociedade inclusiva e democrática. A leitura aqui é valorizada por sua capacidade de
transformação na vida dos leitores. Isso porque, os leitores, na maioria das vezes, buscam algo que
“[...] sacie o desejo por conhecimento ou apenas por lazer e este objeto desejado muitas vezes tornase obscuro, de difícil acesso, já que nem sempre se pode incluir no dia a dia a leitura” (SANTOS,
2006, p. 1).

11

Biblioteca Central compreende o prédio de quatro andares que abriga a Biblioteca Central, os setores e divisões
técnicas e administrativas da Biblioteca Universitária, coordenadora do Sistema de Bibliotecas da UFMG. O Espaço de
Leitura funciona dentro do prédio da Biblioteca Central.

�127

Assim, é importante criar espaços de leitura em todos os cantos da sociedade, inclusive com
apoio das instituições (SANTA ANNA, 2017). Além disso, considera-se, também, que o leitor é um
agente muito particular, que realiza a leitura de diferentes formas, com diferentes recursos e em
várias localidades, conforme defendido na tese de Roger Chartier (2003).
Em termos práticos, o projeto voltado para criação da Sala de Leitura teve sua gênese, no
ano de 2006, quando em visita à Escola de Ciência da Informação da UFMG, o então candidato a
reitor, professor Ronaldo Tadeu Pena, ouviu da professora Vera Lúcia Furst, que à época era
membra do Conselho12 Diretor do SB/UFMG, a sugestão de criação de um espaço dedicado à
leitura para o lazer da comunidade acadêmica.
Depois de eleito como reitor, o então professor Ronaldo Pena manifestou interesse em
viabilizar a criação desse espaço e, com o apoio da diretora da BU-SB/UFMG, Maria Elizabeth e da
diretora de Cooperação Institucional, Maria Cecília Nogueira Lima, iniciaram-se as atividades de
construção do espaço. Definiu-se que o espaço seria no prédio da Biblioteca Central, a qual possuía
condições de infraestrutura mais adequadas a abrigar o acervo informacional. Definiu-se como local
de instalação, o lado esquerdo do térreo, logo na entrada do prédio, por ser amplo e bem próximo da
portaria, facilitando o acesso.
E assim, em 2007, foi dado início ao processo, contando com a elaboração do projeto
arquitetônico pelas arquitetas Marieta Cardoso Maciel e Valeria Soares de Melo Franco e o projeto
elétrico pelo Departamento de Manutenção e Operação da Infraestrutura da UFMG (DEMAI). A
participação da arquiteta Marieta Cardoso Maciel, que também era membra do conselho diretor da
BU-SB/UFMG, concebeu o projeto visando a redução de gastos com compra de mobiliário e ao
máximo aproveitamento dos recursos existentes.
O mobiliário utilizado foi composto por móveis existentes no prédio e também por cadeiras
doadas pela Escola de Arquitetura, móveis esses que necessitavam de reforma, orçada no valor de
R$ 3.020,00. A compra de mobiliário para esse espaço ficou restrita a vinte e sete estantes, dois
sofás de quatro lugares, duas mesas laterais e uma mesa de centro, conforme figura 1 e 2.

12

O Conselho Diretor é responsável por definir a política de gestão da Biblioteca Universitária – Sistema de Bibliotecas
da UFMG. É formado pela diretora da Biblioteca Universitária - Sistema de Bibliotecas da UFMG; por professores
indicados pela reitora; por representação do corpo técnico e administrativo e do corpo discente.

�128
Figura 1 – Estantes adquiridas para o Espaço de Leitura e Lazer na Biblioteca Universitária

Fonte: Dados da pesquisa (2018).
Figura 2 – Mobiliário para acomodação de leitores no Espaço de Leitura da Biblioteca Central

Fonte: Dados da pesquisa (2018).

A compra das estantes foi realizada pela BU no valor de R$21.036,16. Para economia de
orçamento e como haviam sido doadas pela Escola de Arquitetura da UFMG, vinte e cinco cadeiras
(figura 3) foram reformadas juntamente com seis poltronas, sendo que foram realizados três
orçamentos e a empresa que apresentou o menor preço realizou trabalho de reforma em uma peça
para fins de avaliação, e após, procedeu-se à execução da reforma geral.

�129
Figura 3 – Materiais adquiridos por doação e submetidos a reformas

Fonte: Dados da pesquisa (2018).

No que tange aos materiais informacionais, para composição do acervo, ele foi adquirido
mediante compra, junto a diferentes fornecedores e livreiros. A Biblioteca recebeu e conferiu os
livros que foram patrimoniados e catalogados com a colaboração dos bibliotecários do Sistema.
Também foram adquiridos uma tela para projeções, um projetor, quatro carrinhos para transporte de
livros e cento e sessenta bibliocantos, totalizando R$ 5.974,00. Foram firmados dois contratos para
fornecimento de jornais e revistas.
No que se refere à infraestrutura para acesso físico ao local, há uma rampa para
acessibilidade, conforme ilustrado na figura 4. Salienta-se a importância em se adequar os espaços
das bibliotecas, considerando as pessoas com necessidades especiais. Essa adequação faz da
biblioteca um ambiente de e para todos; trata-se, na verdade, da inserção dessas unidades na
sociedade inclusiva (FIALHO; SILVA, 2012), sociedade essa almejada para as próximas décadas
do século XXI, conforme as determinações da Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas, a
qual foi aderida pela Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA), e
também pela Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários (FEBAB), no intuito de se
viabilizar o desenvolvimento sustentável das sociedades do futuro, como descrito no estudo de
Dutra, Pinto e Geraldo (2017).

�130
Figura 4 – Adequação ao Espaço de Leitura e Lazer da BU/UFMG – rampa de acesso

Fonte: Dados da pesquisa (2018).

E, assim, além da disponibilização de literatura de lazer, cultura e informação a toda
comunidade acadêmica e ao público em geral, o Espaço de Leitura tornou-se um espaço lúdico,
confortável, agradável e convidativo para a comunidade universitária, já logo na sua entrada,
conforme ilustrado na figura 5.
Figura 5 – Biblioteca universitária da UFMG, com destaque ao recinto destinado ao Espaço de Leitura e Lazer

Fonte: Dados da pesquisa (2018).

Por meio da figura 5, depreende-se o quanto é importante adequar o espaço das bibliotecas,
de modo que se transformem em ambientes acolhedores, desmistificando o estereótipo de que são,
tão somente, locais que estocam informação e conhecimento. Além de registrar o conhecimento por
meio dos acervos, as bibliotecas criam e recriam a realidade, por meio de adequações em suas
estruturas e nos serviços prestados, de modo a se reinventar, garantindo satisfação à comunidade
que a ela se dirige.

�131

Portanto, seja como espaço físico, como símbolo de uma ordem cósmica ou social ou como
forma visível da razão humana, as bibliotecas são lugares que guardam histórias e
despertam o fascínio e o encantamento. Lugares onde tais elementos se transmutam,
perturbando e excitando fantasias, irmanando o sonho com a ação, além de provocarem
medo e instigarem reações (SILVEIRA, 2012, p. 152).

Por meio do Espaço de Leitura, é possível entender o quanto a leitura tende a contribuir para
o enriquecimento das bibliotecas. A partir de uma reflexão mais ampla, é provável que esses
espaços transformem a vida das pessoas, pois, ao se sentirem acolhidas, amparadas e mediadas pela
leitura, certamente, manifesta-se o desenvolvimento emocional, intelectual e o fortalecimento da
autoestima e da satisfação humana.
Para Silveira (2014, p. 153), enquanto lugares de práticas culturais e enquanto espaço de
leitura, as bibliotecas e seus acervos adquirem “[...] a capacidade de interferir nos cenários sóciopolíticos em que se inserem, fazendo frutificar o saber acumulado e contribuindo para a preservação
e difusão de todo o legado cultural humano”.
A respeito da prática da leitura, principal atividade proposta e realizada na Sala de Leitura
para o Lazer na BC/UFMG, frisou a importância dessa proposta a ser aderida pelas unidades de
informação, independente se é especializada, pública, universitária e demais. O importante é que
todas as instituições unam esforços para que a leitura seja cada vez mais disseminada na sociedade,
como relatado no artigo de Santa Anna (2017).
Nas bibliotecas universitárias, a leitura deve se manifestar, haja vista o potencial dessa
prática no desenvolvimento crítico dos alunos. Nesse aspecto, instituir espaços que facilitem a
prática leitora é algo indispensável no ambiente universitário, pois, conforme relatado por Oriente,
Souza e Simões (2014, p. 162), a instituição cumpre o papel em “[...] estimular e subsidiar o hábito
e gosto pela leitura como também a pesquisa dos seus usuários [...]”. Portanto, bibliotecários e
demais atores que trabalham na universidade “[...] buscam incentivar cada vez mais a prática da
leitura, já que esta deve ser uma luta constante de toda a sociedade [...]”, em prol de uma sociedade
cada dia mais leitora.
Assim, o Espaço de Leitura foi instituído, configurando-se como um belíssimo espaço, algo
que ainda faltava para completar o Sistema de Bibliotecas com suas 25 bibliotecas acadêmicas. O
objetivo desse local é, em linhas gerais, preencher uma lacuna no atendimento ao grande e
diversificado público que transita diariamente no Campus Pampulha.
Segundo Araújo (2009, não paginado), em entrevista concedida à atual diretora do
SB/UFMG, nesse novo espaço, o usuário terá “[...] acesso a uma leitura descompromissada e
poderá preencher o seu tempo livre e momentos de lazer com a leitura de um best-seller, de uma
revista ou de jornal diário”.

�132

Dessa forma, com o término das atividades de planejamento e execução, em 2009, foi
inaugurado, sendo entregue à comunidade por meio de um ato solene. Nessa cerimônia, fizeram-se
presentes autoridades e pessoas envolvidas com o desenvolvimento do projeto, tais como: prof.
Ronaldo Tadeu Pena, Reitor da Universidade; Pró-Reitor de Planejamento, prof. Nagib Cotrim;
diretora de Cooperação Institucional, Maria Cecília Nogueira Lima; diretora e vice-diretora do
SB/UFMG, as bibliotecárias Maria Elizabeth de Oliveira Costa e Rosemary Tofani Motta; e, por
fim, a bibliotecária coordenadora da BC, Cleide Faria, dentre outros participantes (figura 6).
Figura 6 – Cerimônia de institucionalização do Espaço de Leitura

Fonte: Dados da pesquisa (2018).
– Foto: Diogo Domingues

Por meio da solenidade, o Espaço de Leitura e Lazer se consolida como uma extensão da
universidade, visto que ampliou as possibilidades do Sistema de Biblioteca, em levar informação,
conhecimento e, por que não, lazer e entretenimento para as pessoas. A criação do espaço e a
participação e engajamento dos profissionais, a grande maioria, vinculados à UFMG, demonstram o
quanto as instituições públicas precisam realizar com transparência os seus serviços, e possibilitar
que esses serviços estejam à disposição de toda a população, sem distinções. Isso representa uma
forma de prestação de contas para com a sociedade, acerca dos investimentos realizados com os
recursos públicos (figura 7).

�133
Figura 7 – Entrega e registro do Espaço de Leitura para toda a comunidade

Fonte: Dados da pesquisa (2018).
- Foto: Diogo Domingues

Nesse contexto, entendemos o valor da Biblioteconomia para toda a sociedade. O espaço
inaugurado foi feito pensando em todos os cidadãos, sejam eles vinculados ou não à universidade.
Por ser pública, e mesmo tendo um viés especializado, a instituição concretiza-se como o espaço de
todos os indivíduos, local onde poderão exercer a cidadania, sendo a leitura um direito a ser
exercido por todos os brasileiros.
Pensar no social é romper as desigualdades, é ir para outros locais, extravasando os muros
das instituições. Ir para instâncias onde as pessoas mais precisam de informação e de conhecimento.
É viabilizar o conhecimento universal para todos, independente de cor, classe, condição social,
orientação sexual, dentre outras particularidades do ser humano. Como há muito tempo discursou
Almeida Júnior (1999), as bibliotecas e seus profissionais precisam colocar-se a serviço das classes
sociais, exercendo um papel mais vigoroso frente às causas e aos problemas que permeiam o dia a
dia da sociedade. O intuito dessa intervenção com a sociedade, segundo o autor, é garantir a
consolidação de uma sociedade mais democrática e justa.
Após inauguração do Espaço de Leitura em 2009, foram desenvolvidos projetos para
incentivar o uso desse ambiente diferenciado e também realizada divulgação por meio de fôlderes,
panfletos, notícias no site do SB/UFMG e reportagens no Boletim da UFMG, acerca dos serviços
prestados à comunidade por esse novo espaço, além dos tradicionais serviços que já eram
oferecidos.
Para um efetivo funcionamento desse espaço, segundo Sá e Faria (2013, p. 2), foram
realizadas reuniões com os bibliotecários da Biblioteca Central, no intuito de “[...] desenvolver
projetos que incentivassem o uso desse ambiente diferenciado na universidade e também que
promovesse o incentivo à leitura por lazer [...]”.

�134

Assim, de acordo com as autoras citadas, os profissionais uniram esforços em prol de dar
continuidade à melhoria do ambiente. Portanto, outras ações foram sendo realizadas no decorrer dos
anos, no intuito de tornar o ambiente cada dia mais atrativo e com maior adesão por parte do
público usuário. O quadro 1 especifica alguns projetos realizados e as diversas ações a eles
vinculados, de modo a proporcionar o desenvolvimento e socialização do Espaço de Leitura na
instituição.
Quadro 1 – Projetos e ações desenvolvidas na Sala de Leitura e Lazer
PROJETO
PRINCIPAIS ATIVIDADES
Sugestão de leitura
Orientação e auxílio ao leitor sobre a escolha de livros.
Ciclo de palestras
Organização de palestras sobre obras literárias, autores,
personalidades etc.
Hora do conto e da leitura
Narração de estórias para um público pré-determinado com o
objetivo de incentivar o gosto pela leitura por lazer, promover
autores consagrados e divulgar importantes clássicos da
literatura.
Exposições bibliográficas temáticas
Realizada por meio de mostra em vitrines de obras reunidas
sobre diversos temas literários, políticos e culturais, visando o
incentivo à leitura e à divulgação do acervo do espaço para
toda a comunidade interna e externa da UFMG.
Exposições bibliográficas interativas
Reúne e expõe em vitrines abertas obras literárias e culturais da
biblioteca com datas comemorativas, que convidam o visitante
do Espaço de Leitura a interagir com o acervo, através da
leitura local e empréstimo domiciliar.
Exposições bibliográficas interativas
Proporciona o contato com outras formas de expressão
artísticas e valorização da leitura em diferentes suportes como
pintura, fotografia etc.
Organização de mostras de artes –Projeto Cinema Exibe na última sexta-feira do mês filmes baseados em obras
para Ler
literárias.
Visita ao Espaço de Leitura
Visita orientada ao local e ao acervo e faz descrição das
atividades desenvolvidas no setor para a comunidade interna e
externa da UFMG.
Fonte: Adaptado de Sá e Faria (2013, p. 2-3).

Importante destacar, também, que são utilizadas estratégias para divulgação do espaço, algo
muito importante para demonstrar à comunidade, os diferentes serviços oferecidos no espaço.
Dentre os vários canais de divulgação, cita-se, por exemplo, o Blog do Espaço de Leitura, o qual se
configura como uma rede social que visa a divulgação do espaço e das atividades desenvolvidas
nele e elabora a postagem de resumos, dicas culturais, lançamento de livros etc. (SÁ; FARIA,
2013).
O Espaço de Leitura vem se configurando, cada vez mais, como um espaço da comunidade,
cumprindo com o propósito a que foi criado, ou seja, ser um “[...] espaço de fruição e de lazer, e em
sua essência trata a leitura literária como sua principal função dentro da UFMG [...]” (FERRAZ;
PAIVA; REIS, 2016, p. 11). No entanto, conforme pesquisa realizada por essas autoras, desafios
persistem, o que requer, constantemente, a avaliação do espaço, a fim de identificar pontos fracos e
fortes, para fins de formular estratégias de melhoria. Dentre os pontos fortes, as autoras citam o
potencial em disponibilizar um local para leitura, estudos e ações culturais. Como pontos negativos,

�135

há de se considerar, a necessidade de maior envolvimento da extensão universitária, como também
conscientização do público-alvo acerca das atividades específicas a serem desenvolvidas no local.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Espaço de Leitura e Lazer, localizado na Biblioteca Central da UFMG, tem um acervo
diferenciado do mundo acadêmico com literatura voltada para o entretenimento, ou seja, destina-se,
primordialmente, para manifestação da leitura literária e atividades recreativas. Entende-se que o
próprio ambiente tem uma característica de conforto, colorido, aconchegante, tornando-se propício
para uma leitura descontraída, voltada para o lazer.
A logística do local o diferencia dos demais ambientes tradicionais de muitas bibliotecas
existentes no conjunto das 25 bibliotecas do SB/UFMG, como diferencia também dos demais
ambientes universitários do campus frequentados pela comunidade acadêmica, e também pelo
público externo. Trata-se, portanto, de um ambiente inovador, o qual fortalece o novo papel das
bibliotecas, preconizadas como espaços de interação e convívio, para diferentes públicos e com
múltiplas funcionalidades.
O público externo que busca a instituição e seus serviços diversificados, inclusive os
serviços de bibliotecas, como empréstimos de livros e utilização de salas de leitura para estudo
acadêmico, passa também a conhecer o espaço e os inúmeros serviços por ele oferecidos, como, por
exemplo, o Projeto "Cinema para Ler", cujo objetivo é mostrar a proximidade entre cinema e
literatura e o quanto o cinema pode incentivar a leitura.
Esse projeto, juntamente com as demais atividades realizadas no Espaço de Leitura, é
voltado para o social, ou seja, a Biblioteconomia Social. Os projetos e as atividades do Espaço de
Leitura almejam a democratização e socialização desse ambiente universitário e que não só a
comunidade acadêmica, como também o público externo, pode usufruir do espaço para uma leitura
descontraída e também para os diversos serviços oferecidos como promoção de encontros, eventos,
seminários e palestras.
Em linhas gerais, os serviços oferecidos colocam-se a serviço dos usuários em seus variados
contextos, em suas diferenciadas particularidades, considerando múltiplas necessidades, rompendose, assim, qualquer possibilidade de limitação entre o ser humano e a informação. Portanto, o
Espaço de Leitura manifesta-se como um elemento da Biblioteconomia Social, que encontra na
leitura e no acolhimento, uma forma de vencer desigualdades e promover a democratização da
informação na sociedade.

�136

REFERÊNCIAS

ACCART, Jean-Philippe. Serviço de referência: do presencial ao virtual. Brasília: Briquet de
Lemos/Livros, 2012.
ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis;
APB, 1997.
ARAÚJO, Ana Rita. O prazer de ler por ler. 2009. Disponível em:
&lt;https://www.ufmg.br/boletim/bol1665/3.shtml&gt;. Acesso em: 30 nov. 2018.
CHARTIER, Roger. Leitura e leitores na França do antigo regime. São Paulo: Ed. UNESP,
2003.
DUTRA, Sigrid; PINTO, Marli Dias de Souza; GERALDO, Genilson. Agenda 2030: uma proposta
de advocacy junto às bibliotecas universitárias de Florianópolis-SC. Revista Brasileira de
Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 13, n. especial, p. 2606-2619, 2017. Disponível
em: &lt;https://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/939/959&gt;. Acesso em: 30 nov. 2018.
FERRAZ, Marina Nogueira; PAIVA, Marília Abreu Martins; REIS, Débora Crystina. O Espaço de
Leitura da UFMG: uma biblioteca pública dentro da Biblioteca Universitária. Bibliotecas
Universitárias, Belo Horizonte, v. 3, n. 2, p. 19-32, jul./dez. 2016. Disponível em:
&lt;https://seer.ufmg.br/index.php/revistarbu/article/download/4572/pdf&gt;. Acesso em: 30 nov. 2018.
FERREIRA, Rubens da Silva. Transpondo muros, construindo relações: uma reflexão sobre
bibliotecas universitárias e extensão no Brasil. Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da
Informação, Campinas, v. 9, n. 2, p. 75-88, jan./jun. 2012. Disponível em:
&lt;http://www.brapci.inf.br/index.php/article/download/19934&gt;. Acesso em: 30 nov. 2018.
FIALHO, Janaina; SILVA, Daiane de Oliveira. Informação e conhecimento acessíveis aos
deficientes visuais nas bibliotecas universitárias. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo
Horizonte, v. 17, n. 1, p.153-168, jan./mar. 2012. Disponível em:
&lt;http://www.scielo.br/pdf/pci/v17n1/a09v17n1.pdf&gt;. Acesso em: 30 nov. 2018.
ORIENTE, Alice Pereira do; SOUZA, Ana Claúdia Medeiros de; SIMÕES, Angélica Clementino.
Espaço de livros e leitura: um estudo sobre a sala de leitura da Biblioteca Central da UFPB.
Biblionline, João Pessoa, v. 10, n. 2, p. 154-163, 2014. Disponível em:
&lt;http://www.periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/biblio/article/view/16363/12488&gt;. Acesso em: 30
nov. 2018.
SÁ, Rosilene Moreira Coelho de; FARIA, Cleide Vieira de. Espaço de leitura da Biblioteca Central
da UFMG: um relato de experiência. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA,
DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 25., Florianópolis, Anais Eletrônicos...
Florianópolis: FEBAB, 2013. Disponível em:
&lt;https://portal.febab.org.br/anais/article/download/1582/1583&gt;. Acesso em: 30 nov. 2018.
SANTA ANNA, Jorge. A importância da leitura e as contribuições das instituições: em busca de
uma sociedade leitora no Brasil. Pró-Discente: Caderno de Produção Acadêmico-Científica,
Vitória, v. 23, n. 2, p. 34-53, jul./dez. 2017. Disponível em:
&lt;http://periodicos.ufes.br/PRODISCENTE/article/viewFile/18614/12627&gt;. Acesso em: 30 nov.
2018.

�137

______. A Biblioteca Universitária e sua intervenção no contexto social: fomentando práticas
multifuncionais. Revista Ibero-Americana de Ciência da Informação, Brasília, v. 11, n. 2, p.
449-469, maio/ago. 2018. Disponível em:
&lt;http://periodicos.unb.br/index.php/RICI/article/view/27171/20937&gt;. Acesso em: 30 nov. 2018.
SANTOS, Marcus Vinícius Machado dos. A leitura como prática cotidiana e motivacional: da
infância ao crescimento intelectual e discernimento crítico. Revista ACB: Biblioteconomia em
Santa Catarina, Florianópolis, v. 11, n. 1, jan./jun. 2006.
SILVEIRA, Fabrício José Nascimento da. Um elogio à sedução, ou a biblioteca como espaço de
leitura. Perspectivas em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v. 17, n. 4, p. 142-159, out./dez.
2012. Disponível em: &lt;http://www.scielo.br/pdf/pci/v17n4/09.pdf&gt;. Acesso em: 30 nov. 2018.

�138

PARTE III

A Biblioteconomia em
espaços e contextos de
vulnerabilidade

�139

CAPÍTULO X
PROJETO DE INSTALAÇÃO DO ESPAÇO DE LEITURA EM CLÍNICA PEDIÁTRICA
DE HOSPITAL UNIVERSITÁRIO13

Elaine Gregório

1 INTRODUÇÃO

A leitura se apresenta como uma fonte inesgotável de aquisição de informação e de
produção de conhecimento, sendo necessário, por meio dela, “[...] aprender a ler o mundo, dar
sentido a ele e a nós próprios [...]” (MARTINS, 2007, p. 34), possibilitando, com isso, que se
questione a realidade vivida e, por conseguinte, que se oportunize crescimento social e cultural.
Desse modo,
A leitura é uma atividade essencial a qualquer área do conhecimento e mais essencial ainda
a própria vida do ser humano [...] parece ser o único meio de desenvolver a originalidade e
a autenticidade dos seres que aprendem [...] (SILVA, 2005, p. 42 apud SILVEIRA, 2011, p.
5).

Diversos profissionais trabalham com a criação das práticas de leitura, dentre eles, os
bibliotecários, que, constantemente, lidam com a formação de novos leitores em diversos ambientes
de informação, educação e cultura. Nesse sentido, não apenas a biblioteca torna-se palco de atuação
desse profissional ao desenvolver práticas alternativas interdisciplinares na área de leitura em
diversos espaços e tempos.
Dentre os diversos ambientes de desenvolvimento de práticas de leitura, destacamos o
hospital, que tem como missão promover assistência à saúde e, por consequência, o cuidado com a
vida (MELLO, 2008). Nesse ambiente, percebemos a relevância da dinamização da leitura ao
favorecer o contato com “[...] valores humanitários compartilhados por todos que trabalham na
organização. Isto, por certo, favorecerá a confiança tão almejada pelos pacientes para se deixarem
cuidar” (ZOBOLI, 2008, p. 7).
Podemos citar algumas atividades de leitura em hospitais fazendo com que seja parte de uma
estratégia terapêutica que drible parte dos problemas advindos da hospitalização, como a depressão,

13

Esta pesquisa contempla partes de um Trabalho de Conclusão de Curso de Biblioteconomia, defendido no ano de
2012. Alguns resultados foram apresentados no CBBD, de 2013 e outros publicados na Revista ACB, em 2014.

�140

entre outros sintomas. Nesse contexto de atuação, Caldin (2001 apud ALMEIDA, 2011) apresenta
uma experiência que dá visibilidade ao trabalho de leitura no ambiente hospitalar, ao contextualizar
essa prática como uma estratégia terapêutica que contribui para humanizar o tratamento hospitalar.
Caldin (2001) avalia o projeto Leitura infantil e Medicina pediátrica: como uma
aproximação de integração humana, desenvolvido pela Pontífica Universidade Católica do
Rio Grande do Sul e cinco sub-projetos vinculados ao projeto-matriz Por uma Política de
Incentivo à Leitura, da Universidade de Joinville. Estes projetos, desenvolvidos por
formandos e coordenados por professoras do Curso de Letras das Universidades citadas,
desenvolveram trabalho de terapia por meio da leitura na pediatria de hospitais de Porto
Alegre e de Joinville. Verificou-se que as histórias contadas às crianças diminuíam seu
estado de incapacidade e proporcionaram alívio temporário das dores e dos medos advindos
da doença e do ambiente hospitalar. O resgate do sonho, do imaginário e do lúdico forneceu
um suporte emocional às crianças enfermas. Os registros dos leitores de histórias
legitimaram a eficácia da biblioterapia em cultivar a leitura infantil como integradora no
processo de cura que abrange o corpo e a mente (CALDIN, 2001 apud ALMEIDA, 2011,
p. 5-6).

Como forma de refletir sobre a prática da leitura no ambiente hospitalar, recorremos a uma
experiência na qual se registra a participação de docentes e de graduandos do Curso de
Biblioteconomia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), vinculados ao projeto de
extensão universitária Ideias e Práticas em Informação, Educação e Cultura. Dessa experiência,
também participaram profissionais da área da informação e saúde, que se propuseram a trabalhar
com a criação do projeto de extensão Leitura no ambiente hospitalar, desenvolvido no Ambulatório
Pediátrico do Hospital Cassiano Antônio de Moraes (HUCAM).
Sendo assim, este texto versa sobre uma experiência de leitura em um contexto de alta
complexidade, o ambiente hospitalar. Pretende-se reforçar o fato de que bibliotecas e bibliotecários,
por meio do potencial dos acervos, viabilizam práticas de leitura que podem contribuir com a
melhoria dos pacientes ou, de alguma forma, interferir na pacificação dos demais personagens que
permeiam um ambiente hospitalar, como profissionais da saúde, familiares de pacientes e
acompanhantes.
O presente texto é um relato de experiência, cuja intenção principal é relatar a experiência de
implantação e dinamização da leitura no ambulatório do HUCAM e refletir acerca da atuação do
bibliotecário em projetos de leitura no ambiente hospitalar.

2 IMPLANTAÇÃO DO ESPAÇO DE LEITURA NO AMBIENTE HOSPITAR

As atividades de implantação do projeto de leitura no Ambulatório Pediátrico do HUCAM
iniciaram-se no primeiro semestre do ano de 2010, envolvendo um conjunto de atividades, dentre
elas, reuniões, encontros de formação e grupos de estudos. Ressalta-se, nesse processo, o

�141

estabelecimento de contato com os profissionais do hospital, momento em que se obteve permissão
para a realização do diagnóstico do perfil dos pacientes.
Na fase diagnóstica, resgataram-se, no banco de dados do ambulatório, informações
relacionadas ao atendimento realizado nos meses de fevereiro a dezembro de 2009. Com isso,
identificou-se a procedência de pacientes de todas as regiões do Estado do Espírito Santo (urbanas e
interioranas). Também se registrou o atendimento a usuários provenientes de outros Estados
brasileiros, tais como Minas Gerais (MG) e Bahia (BA).
Ao analisar o fluxo de atendimento (gráfico 1), percebeu-se que não houve registros de
atendimento no mês de janeiro, assim como, identificou-se que no mês de dezembro o ambulatório
funcionava praticamente até a metade do mês. Percebeu-se também que o atendimento
intensificava-se entre os meses de março e novembro.
Gráfico 1 – Atendimento no setor de ambulatório

Fonte: Dados da pesquisa (2012).

As informações sobre o atendimento auxiliaram no processo de planejamento do
cronograma de atendimento do espaço de leitura, da mesma forma que os dados relacionados à
idade (gráfico 2) e ao gênero (gráfico 3) permitiram a identificação de que o público atendido seria
composto, em sua maioria, por crianças e pelo gênero feminino. Entretanto, a equipe não
desconsiderou como um público potencial o gênero masculino, bem como a classe de adolescentes,
jovens e adultos.

�142
Gráfico 2 - Idade dos usuários

Fonte: Dados da pesquisa (2012).

Gráfico 3 - Informações de gênero

Fonte: Dados da pesquisa (2012).

Em seguida, partiu-se para a observação das características da situação física e estrutural do
espaço que se mostraram insuficientes desde a época da implantação. Porém, o espaço foi adaptado
para receber o público-alvo, que seria composto por pacientes, acompanhantes e funcionários do
hospital.
Para garantir o atendimento a esse público, o acervo foi constituído em sua maioria por
obras infantojuvenis cedidas pelo GECHUFES. Também foram recebidas doações dos alunos do

�143

Curso de Biblioteconomia e outros membros da comunidade interna e externa à universidade. Desse
modo, foram acrescentados ao acervo obras de romance, poesia, contos, revistas em quadrinho,
periódicos de diversas áreas, CDs infantis e outros tipos de materiais que garantiram o início do
trabalho.
Após esse processo, a equipe organizou o evento denominado Atividades de formação na
área de leitura e narrativa oral: em busca de práticas diferenciadas. Destaca-se, nessa fase, a
participação de profissionais da saúde, docentes de Biblioteconomia da UFES e bibliotecários
formados que assumiram a função de condutores das discussões dos seguintes temas: humanização
do ambiente hospitalar; leitura e cidadania; narrativa oral; leitura de histórias; dramatização e
musicalização.

2.1 DINAMIZAÇÃO DO ESPAÇO DE LEITURA

A dinamização do espaço de leitura iniciou-se no segundo semestre de 2010, tendo
continuidade até o segundo semestre de 2011. Inicialmente, o espaço foi liberado para o trabalho
em apenas um dia da semana, tendo, com isso, o acompanhamento de uma bolsista do curso de
Biblioteconomia da UFES. Todavia, os profissionais do hospital utilizavam o acervo em outros dias
da semana.
As atividades desenvolvidas, no auditório do Ambulatório Pediátrico, inicialmente,
consistiram na disponibilização do acervo sobre mesas (figura 1), para, assim, facilitar o acesso aos
livros e a outros tipos de materiais disponíveis para as leituras.
Figura 1 - Exposição de partes do acervo do projeto

Fonte: Dados da pesquisa (2012).

�144

A estratégia ocasionou numa boa recepção por parte dos pacientes e acompanhantes,
conforme pode ser observado no relato de uma das bolsistas do projeto:
Os pais aprovaram a iniciativa do projeto e nos disseram que chegam a ficar mais de cinco horas aguardando o
atendimento, e que seria muito bom se estivéssemos lá todos os dias, pois a leitura de livros e revistas ajuda a passar o
tempo de espera.

Assim, percebeu-se a necessidade da ampliação do atendimento no ambiente hospitalar,
tendo em vista que não apenas as crianças e os adolescentes demonstraram prazer ao entrar em
contato com o acervo do projeto. As histórias possibilitaram aos sujeitos desse espaço,
dinamizadores e usuários, diálogos acerca da saúde e da realidade das comunidades de origem.
Com a análise da experiência, percebeu-se que a competência em leitura exercitada naquele
ambiente evidenciou o aprender a ler o mundo e a dar sentido a ele, assim como, aos próprios
sujeitos (MARTINS, 2007).
Desse modo, o diálogo em torno da leitura permitiu aos sujeitos questionar a realidade
vivida e a perceber a importância dela para obter crescimento social e cultural. Segundo relato de
outra bolsista do projeto,
certa feita, uma mãe relatou que gostou muito do projeto, pois a escola em que seus filhos estudavam não possuía
biblioteca, e ali ela pôde vê-los lendo um livro. Ela relatou ainda que também estava lendo alguns livros infantis para
depois contar para seus filhos.

Diante desse contexto, identificam-se circunstâncias que propiciam a precariedade das
práticas de leitura em ambientes de educação e cultura e, por conseguinte, a realidade que é imposta
aos sujeitos cotidianamente.
No contexto da dinamização da leitura no espaço hospitalar (figuras 2 e 3), também foram
registrados diálogos compartilhados perante a situação de adoecimento, a angústia da espera na
instituição hospitalar, de abandono no contexto familiar, bem como, das dificuldades enfrentadas no
dia a dia. A prática vivida, então, em alguns momentos, viabilizada pela leitura dirigida, permitiu
momentos de reflexões e de aprendizagens nesse ambiente.

�145
Figura 2 - Usuários do ambulatório

Fonte: Dados da pesquisa (2012).
Figura 3 - Usuários do ambulatório

Fonte: Dados da pesquisa (2012).

Acerca da atuação dos discentes do Curso de Biblioteconomia da UFES, verificou-se que
trabalharam na revitalização14 do espaço de leitura, organizando, por exemplo, campanhas de

14

Trabalho realizado na disciplina Ação Cultural em parceria com o Projeto Ideias e Práticas em Informação,
Educação e Cultura, ambos ligados ao Departamento de Biblioteconomia da UFES.

�146

doação dos livros que resultaram na melhoria do acervo do projeto e em outras ações que visaram a
sua reestruturação.
Destacam-se ainda, nesse contexto, as atividades para a melhoria do ambiente, como a
confecção de painéis removíveis com temas de contos infantis (figura 4), tornando-o, assim, o
espaço mais atrativo. Os discentes também promoveram momentos de contação de histórias,
seguidos de desenhos que eram articulados com a leitura do texto das narrativas. Também
utilizaram técnicas relacionadas com leitura dirigida individualmente, música e expressão corporal.
Figura 4 - Revitalização do espaço

Fonte: Dados da pesquisa (2012).

O contexto da disseminação registrada nos documentos dos projetos consubstancia o relato
de atividades que foram positivas tanto para o público-alvo quanto para os dinamizadores do
projeto. Além do exposto, a contribuição das ações para a formação do futuro bibliotecário pôde ser
verificada perante o relato de uma das discentes do curso de Biblioteconomia:
Minha participação no projeto foi curta, porém de grande valia para a vida profissional, mostrando uma possibilidade
de atuação do bibliotecário como agente cultural. Apesar de o projeto trabalhar com um público flutuante, a
participação das crianças foi bastante significativa.

Com a exposição da implantação e dinamização descrita até o momento, coexiste a
constatação do desaparecimento de praticamente todo o acervo do projeto no final do segundo
período de 2011. Paralela a essa realidade, evidencia-se o desaparecimento do mobiliário que
atendia ao público infantil no ambiente hospitalar.
Com o número reduzido de livros e a baixa participação do público em detrimento do
desfalque do acervo, restaram apenas poucos periódicos antigos e mutilados. Nos relatórios dos
projetos, registra-se também o extravio de gibis junto com a maior parte dos livros infantis,

�147

ocasionando na falta de interesse por parte dos pacientes e outros usuários em frequentar o espaço
de leitura.
Diante do exposto, no primeiro período de 2012, as atividades do Projeto de Extensão
Leitura no ambiente hospitalar foram transferidas para o Projeto de Extensão Ideias e Práticas em
informação, educação e cultura, com a finalidade de encontrar formas de reestruturar o trabalho,
que, na atualidade, continua sendo desenvolvido em espaços educacionais. Todavia, o interesse dos
alunos pela dinamização da leitura no ambiente hospitalar permanece, ocasionando em estudos de
Trabalho de Conclusão de Curso e em planejamentos de outras atividades extensionistas no
ambiente hospitalar. Por conseguinte, este relato aponta para a necessidade de continuidade do
trabalho, o que requer uma gestão que possa dar conta da dinamização da leitura na instituição
hospitalar.
Nesse sentido, só é possível conceber uma formação que implique ações que se constituam
num processo de construção coletiva com os sujeitos envolvidos. Entende-se que o movimento de
mudança das práticas e da organização do trabalho só se tornará efetivo por meio da
problematização dos modos de cuidar de gerir instituídos, se esses movimentos estiverem
conectados com as práticas de trabalho nos serviços de saúde, com seus trabalhadores e usuários
(HECKERT; NEVES, 2000 apud GUEDES; PITOMBO; BARROS, 2009).
A realidade exposta dá visibilidade à ausência de trabalhos mais efetivos na área do ensino,
da pesquisa e da extensão na universidade, voltados especificamente para essa realidade, tendo
como finalidade promover espaços de leitura na área de interesse da comunidade interna e externa à
instituição de formação. Conforme aponta Yunes (2004, p. 2),
no que toca a questão da leitura, a primeira necessidade de uma comunidade é reconhecer
esta prática como uma atividade que precede a maioria das conquistas sociais de seus
integrantes. Ela é o recurso que lhe permite obter informação sem depender muito de
intermediários e intérpretes, que situa cada um diante de uma série de possibilidades, que
lhe oferece opções para fazer-se um pouco menos autômato e mais responsável por seus
desejos e atitudes.

Nesse sentido, surge a necessidade de criação de políticas que possam prever a participação
do bibliotecário e de outros membros da comunidade, interna e externa à UFES, nesse contexto de
atuação, que se caracteriza como sendo inter e transdisciplinar. Torna-se importante colocar que,
para isso, não existe uma receita pronta e acabada, conforme expõe Yunes (2004, p. 5), mas sim,
possibilidades de conceber “[...] ações assumidas coletivamente em cada comunidade, com decisões
concertadas interinstitucionalmente que acolham as iniciativas e projetos para apoiá-los e expandilos”.

�148

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da experiência vivenciada no hospital universitário descrito neste estudo, percebe-se
o quanto a leitura, por meio das intervenções de bibliotecários, alunos e docentes da área de
Biblioteconomia e campos afins, muito pode contribuir para minimizar as angústias existentes no
ambiente hospitalar. Acreditamos, por meio deste relato, que a Biblioteconomia pode ir muito além
das bibliotecas, atingindo esses locais em que prevalecem instabilidades e sentimentos de medo,
dor, sofrimento, dentre outras sensações que inquietam ou incomodam o ser humano.
A leitura, a educação e a informação fundamentam a construção de uma sociedade crítica, na
qual a cultura é o elemento fundamental para que o desenvolvimento social dos sujeitos seja
efetivado. Questiona-se, então, sobre a importância de práticas de incentivo à leitura, bem como,
para o fato de que ações contribuem para a formação de novos leitores.
A prática da leitura não pode ser realizada apenas em ambientes educacionais, na família ou
na biblioteca. Ela pode ser realizada por meio da estruturação de ambientes de aprendizagem,
organizados fora do ambiente escolar e/ou da biblioteca, podendo ser firmada em ambientes onde o
público aproveita o tempo ocioso para consolidação da leitura. O bibliotecário expande sua atuação
profissional e cumpre sua missão de agente cultural e social ao adquirir competência informacional,
contribuindo, sobremaneira, no gerenciamento desses espaços destinados à leitura e aprendizagem.
A participação do profissional da informação, especificamente o bibliotecário, que lida
diretamente com o objeto livro, pode ser pensada como agente para disseminação e incentivo ao ato
de ler. Com o intuito de refletir acerca das potencialidades da profissão, apresentamos um relato de
experiência no qual se registra a atuação de docentes e discentes do Curso de Biblioteconomia da
UFES no Ambulatório pediátrico do HUCAM, vinculados ao Projeto de Extensão Universitária
Ideias e Práticas e Informação, Educação e Cultura do Departamento de Biblioteconomia dessa
universidade.
A mediação da leitura promovida no espaço pediátrico contribuiu para a discussão acerca da
importância da implantação de espaços como esse que visem a dinamização e o aprendizado em
práticas culturais envolvendo discentes. Espera-se que, com isso, os resultados do presente estudo
possam contribuir para o fomento de políticas dentro na universidade que valorizem o
desenvolvimento de práticas de leitura para crianças e adolescentes, e repensar no papel do
bibliotecário como mediador da leitura no referido contexto social.

�149

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Geyse Maria. A leitura como tratamento: diversas aplicações da biblioterapia. In:
ENCONTRO REGIONAL DE ESTUDANTES DE BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO,
CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO E GESTÃO DA INFORMAÇÃO, 14., Anais Eletrônicos... São
Luiz, MA. 2011. Disponível em:
&lt;http://rabci.org/rabci/sites/default/files/A%20LEITURA%20COMO%20TRATAMENTO%20dive
rsas%20aplica%C3%A7%C3%B5es%20da%20biblioterapia.pdf&gt;. Acesso em: 01 jan. de 2013.
GUEDES, C. R.; PITOMBO, L. B.; BARROS, M. E. B. Os processos de formação na Política
Nacional de Humanização: a experiência de um curso para gestores e trabalhadores da atenção
básica em saúde. Physis, Rio de Janeiro, v. 19, n. 4, 2009.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 2007.
MELLO, Inaiá Monteiro. Humanização da Assistência Hospitalar no Brasil: conhecimentos
básicos para estudantes e profissionais. 2008. Disponível em:
&lt;http://www.hcnet.usp.br/humaniza/pdf/livro/livro_dra_inaia_Humanizacao_nos_Hospitais_do_Br
asil.pdf&gt;. Acesso em: 28 jan. 2013.
SILVEIRA, Letícia da Silva et al. Acessibilidade e Uso da Informação no Ambiente Hospitalar:
um estudo de caso na Sala de Leitura Tabajara Ruas do HCPA. 2011. Disponível em:
&lt;http://www.sbu.unicamp.br/senabraille/apresentacoes/Trabalhos/ArtigoAcessibilidade%20e%20Uso%20da%20Informacao%20no%20Ambiente%20Hospitalar.pdf&gt;.
Acesso em: 04 jan. 2013.
ZOBOLI, Elma; ANUNCIAÇÃO, Alan Lira da. Hospital: valores éticos que expressam sua missão.
Revista da Associação Médica do Brasil, v. 54, n. 6, p. 522-528, 2008. Disponível em:
&lt;http://www.scielo.br/pdf/ramb/v54n6/v54n6a17.pdf&gt;. Acesso em: 28 jan. 2013.
YUNES, E. Políticas públicas de leitura: maneira de fazê-las. Pensar no livro, n. 3, mar. 2004.

�150

CAPÍTULO XI
O BIBLIOTECÁRIO NO CONTEXTO DO ENCARCERAMENTO: DAS INSTITUIÇÕES
ESCOLARES AOS PRESÍDIOS

Eni Maria Zanette

1 INTRODUÇÃO

Ser capaz de aprender, adquirir novos conhecimentos, descobrir, inventar, criar e inovar é
uma necessidade premente do homem moderno. Mais do que ter hábitos aperfeiçoados, é
importante ter flexibilidade e agilidade para adaptar-se às novas mudanças no mundo
contemporâneo. A biblioteca é fundamental para a formação e desenvolvimento humano e social,
constituindo-se como uma fonte propagadora de conhecimento.
Bibliotecas também podem viabilizar o exercício da cidadania, interferindo na formação
consciente do indivíduo, capacitando-o a exercer sua conduta em conformidade com regras,
costumes e demais fatores culturais legalmente aceitos e instituídos. Estando vinculadas a uma
organização específica, as bibliotecas podem exercer a missão socializadora, como acontece nas
bibliotecas prisionais.
Bibliotecas prisionais têm grande importância principalmente para a formação de práticas de
leitura, uma vez que os apenados não têm acesso a jornais, televisão, internet etc. Resta a
possibilidade dos livros como companheiros durante o ócio. No entanto, mesmo sabendo das
contribuições que as bibliotecas prisionais podem proporcionar, a realidade do sistema prisional
brasileiro confirma a falta de gestão e até mesmo a inexistência dessas unidades nos presídios
brasileiros.
Especificamente, refletindo o contexto do Estado do Espírito Santo, segundo o relatório do
Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), de 2008, sobre a situação das bibliotecas no
Sistema Penitenciário, na meta 16, que trata das bibliotecas, descreve que o acervo das bibliotecas
instaladas nas quatro unidades prisionais no Espírito Santo é formado por doações.

Para a

dinamização desse acervo, em geral, é indicado um preso para atuar, que segundo o referido
relatório, conforme transcrito, tal preso é designado para atuar na função de bibliotecário (BRASIL,
2008). Isso vem demonstrar o desconhecimento do Estado quanto ao papel desse profissional e a

�151

importância de sua atuação enquanto mediador e orientador do acesso à informação em sistemas
prisionais.
Esse desconhecimento pode estar relacionado a diferentes fatores, tanto no que se refere à
formação profissional, bem como quanto à divulgação no mercado das novas contribuições que o
profissional pode proporcionar a diferentes espaços que demandem de informação. Sobre essa
questão, faz-se necessário definir um perfil profissional que se deseja, sendo também
imprescindível o desenvolvimento de ações que “[...] divulguem o profissional para o mercado
empregador” (VALENTIM, 2002, p. 118).
Nesse contexto, partiu da seguinte questão norteadora de pesquisa: de que forma a biblioteca
pode contribuir para otimizar a gestão do sistema prisional considerando, em caráter geral, a
realidade nacional e, em caráter particular, a realidade do Espírito Santo? Por decorrência dessa
indagação, o presente texto manifesta-se com a perspectiva de caracterizar as contribuições da
biblioteca contemplando como elemento estratégico a atuação do bibliotecário em ambientes
prisionais, destacando a realidade do sistema prisional brasileiro, em especial, a realidade do Estado
do Espírito Santo.
Metodologicamente, utilizou-se da pesquisa bibliográfica, conduzida por meio da consulta a
livros e artigos científicos que versam sobre esse assunto, tendo em vista buscar embasamento
teórico que justificasse a contribuição do bibliotecário e da biblioteca no contexto prisional.
Além da pesquisa bibliográfica, recorreu-se à pesquisa documental, analisando documentos
jurídicos de natureza primária, os quais fornecem informações para sustentar as atividades a serem
realizadas na unidade prisional. Dentre os documentos primários consultados, citam-se: as regras,
regulamentos, resoluções, portarias, diretrizes e leis do sistema prisional brasileiro e do Estado do
Espírito Santo.

2 CONSIDERAÇÕES SOBRE O SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO

De acordo com a British Broadcasting Corporation Brasil (BBC/BRASIL, 2012), em 28 de
dezembro de 2012, a população carcerária no Brasil obteve o 3º maior aumento do mundo. Nos seis
primeiros meses desse ano, o país apresentou um crescimento de 6% e se continuar com essa
tendência, em breve, será um dos três países do mundo com maior população carcerária absoluta.
Além disso, as condições precárias do sistema prisional brasileiro dificultam a prática de programas
para ressocialização dos presos.

�152

Segundo Kawaguti (2012), o Brasil tem um sistema prisional superlotado, além de um
déficit de vagas de quase duzentos mil. Por meio da fiscalização de Direitos da Organização das
Nações Unidas, o Brasil recebeu como recomendação melhorar as condições das prisões e enfrentar
o problema da superlotação. Conforme levantamento da Pastoral Carcerária para a população
prisional, maior parte dos encarcerados tem baixa escolaridade, é formada por negros ou pardos,
não possui emprego formal e é usuária de drogas.
De acordo com Souza (2008), o perfil do preso brasileiro em sua maioria absoluta é formado
por pessoas pobres. A escolaridade desses compreende 70% com ensino fundamental incompleto e
10,5% de analfabetos. A atividade educativa é desenvolvida por apenas 18%, portanto, 72% estão
em total ociosidade. É uma população jovem, em que mais da metade está na faixa de 18 a 29 anos
entre homens e mulheres. Quase metade dos aprisionados está sob essa condição por causa de
roubos seguidos pelo tráfico de entorpecentes, dentre outros motivos. A reincidência representa
80% dos presos que saem e voltam a cometer crime.
O Sistema Penitenciário Brasileiro apresenta muitas dificuldades e os presos, cada vez mais,
estão convivendo em celas superlotadas, com precárias condições de sobrevivência e com grande
predominância de violência.
Diante disso, percebe-se que o artigo 1°, inciso III, da Constituição Brasileira de 1988, que
dispõe sobre a Dignidade da Pessoa Humana e o artigo 5º, inciso III, ao descrever que “[...]
ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante [...]”, estão sendo
violados (BRASIL, 1988, p. 13).

O sistema penitenciário brasileiro ainda não oferece

possibilidades de apoio para que o detento seja ressocializado.
Ao Estado, compete fazer cumprir essas garantias, que estão asseguradas no artigo 10 da Lei
nº 7.210, de 11 de julho de 1994, conhecida como Lei de Execução Penal (LEP) (BRASIL, 1984).
A Lei 12.245, de 24 de maio de 2010, altera o artigo 83 da Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1994,
para autorizar a instalação de salas de aulas nos presídios (BRASIL, 2010).
Conforme a LEP, em seu artigo 21, em atendimento às condições locais, cada
estabelecimento será dotado de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de reclusos, provida
de livros instrutivos, recreativos e didáticos (BRASIL, 1984).

�153

3 OS SISTEMAS PRISIONAIS E AS BIBLIOTECAS

3.1 DIRETRIZES INTERNACIONAIS
Em 25 de maio de 1984, por meio da Resolução 1984/4715, o Conselho Econômico e Social
da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou treze procedimentos para a aplicação efetiva
das Regras Mínimas, conforme artigo 40 a seguir transcrito: “Cada estabelecimento prisional terá
uma biblioteca para o uso de todas as categorias de presos, devidamente provida com livros de
recreio e de instrução, e os presos serão estimulados a utilizá-la” (UNIVERSIDADE DE SÃO
PAULO, 2013, não paginado). Entre os treze procedimentos, constam a previsão de uma biblioteca
disponibilizada a todos os presos para fins de instrução e recreação.
Em 1985, a Federação Internacional das Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA),
mediante ao Comitê Permanente da La Sección de Bibliotecas para Personas en Condiciones
Desventajosas (LSDP) reconheceu a necessidade de oferecer serviços bibliotecários e de
informação para um número maior de pessoas que cumprem condenação em unidades prisionais em
todo o mundo. Dentro da seção de usuários especiais, criou um grupo de trabalho sobre bibliotecas
prisionais, com o objetivo de elaborar normas internacionais para esse tipo de serviço. Assim,
durante cinco anos seguidos, uma equipe organizou e desenvolveu conferências, oficinas, reuniões
objetivando aumentar os conhecimentos sobre biblioteca prisional e coletar informações como
subsídio na elaboração e publicação das diretrizes (LEHMANN; LOCKE, 2007).
A primeira publicação das Diretrizes para Bibliotecas Prisionais, a Guidelines for Library
Services to Prisoners ou Pautas para serviços bibliotecários para reclusos foi editada pelo francês E.
Kaiser, em 1992, e traduzido para o espanhol, em 1993. Em sua segunda edição, em 1995, já incluía
informações mais específicas sobre os serviços. Em 2001, o Comitê Permanente da LSDP propôs a
atualização das pautas. Um novo grupo de trabalho assumiu o compromisso de examinar como os
sistemas de bibliotecas públicas haviam expandido os serviços para os indivíduos sob condição de
reclusão, devendo realizar as seguintes atividades: atualizar as informações relativas ao estado atual
das bibliotecas prisionais existentes e conhecidas; e, atualizar as informações sobre as normas
existentes e sobre os métodos utilizados para oferta de serviços pelas bibliotecas. Como resultado

15

As Regras mínimas para tratamento de prisioneiros foram adotadas pelo 1º Congresso das Nações Unidas sobre
Prevenção do Crime e Tratamento de Delinquentes, realizado em Genebra (em 1955), e posteriormente, aprovada pelo
Conselho Econômico e Social da ONU, mediante a sua resolução 663 C I (XXIV), de 31 de julho de 1957, aditada pela
resolução 2076 (LXII), de 13 de maio de 1977 (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 2014).

�154

dessa investigação, foi publicada a 3ª edição das diretrizes, em 2007, na versão em língua espanhola
(LEHMANN; LOCKE, 2007).
A IFLA e a Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura
(UNESCO), em seu Manifesto sobre Bibliotecas Públicas, incluíram, em 1994, as diretrizes para a
oferta de serviços e materiais específicos, para usuários que, por algum motivo, não podem ter
acesso aos serviços e materiais, como pessoas hospitalizadas e detentos (IFLA, 2012). Estabeleceu
ainda que, os serviços devem ser fisicamente disponíveis a toda comunidade. A IFLA espera que
seja oferecida a esses grupos uma coleção renovada.
Assim, diante do exposto, pode-se inferir que, no âmbito internacional, as instituições
reconhecem que a biblioteca é um instrumento de reinserção para o recluso. Na descrição das
características das bibliotecas prisionais, em alguns países - apresentada por Garcia-Perez (2001) há situações, em que os bibliotecários tomaram a iniciativa na promoção de ações decisivas para o
crescimento dos serviços. A biblioteca pública tem um papel importante, por meio do serviço
bibliotecário, de renovar o acervo e buscar fundos. Cada país aplica seus próprios critérios, não
existindo uma norma internacional comum a todos, apenas diretrizes.
Lehmann e Locke (2007), editores das diretrizes ou pautas, descrevem que o objetivo das
Pautas para serviços bibliotecários para reclusos é atuar como uma ferramenta para apoiar
projetos, aplicações e a evolução desses serviços para prisioneiros. Essas diretrizes internacionais
adaptadas sem dificuldades em qualquer local revelam uma aceitação dessas propostas pela maioria
dos países, cujas políticas governamentais locais e nacionais apoiem a existência de bibliotecas
prisionais.
As diretrizes são instrumentos para projetos de novas bibliotecas e avaliação das existentes.
Em caso de não haver diretrizes específicas para a região, as diretrizes propostas pela IFLA e
UNESCO podem ser aplicadas. Servem ainda, como uma declaração geral de princípios sobre os
direitos dos reclusos a ler, aprender e ter acesso à informação. Essas diretrizes são aplicadas à
população de cinquenta ou mais reclusos.

Também são extensivas aos bibliotecários,

administradores

prisionais,

de

bibliotecas,

autoridades

legislativas

e

administradores

governamentais e demais autoridades responsáveis pela administração e financiamento das
bibliotecas prisionais.
De acordo com Lehmann e Locke (2007), as diretrizes para bibliotecas prisionais tiveram
contribuição de vários documentos mundiais. Dentre eles, citam-se:


regras mínimas para o tratamento de prisionais - regra 40: dispõe essa pauta que cada
estabelecimento prisional terá uma biblioteca para o uso de todas as categorias de presos,

�155

devidamente provida com livros de recreio e de instrução, e os presos serão estimulados a
utilizá-la;


la Carta del Lector: instituída em 1994, elaborada pelo Comitê Internacional do Livro e a
Associação Internacional de Editores, publicadas pela UNESCO, declarando que a leitura é
um direito universal;



o Manifesto sobre a Biblioteca Pública da IFLA/UNESCO, de 1995: convoca as
bibliotecas públicas a servir seus reclusos;



el Informe Education em La Prisión: escrito pelo Conselho Europeu, firmado em
Estrasburgo, no ano de 1990, incluindo um capítulo sobre biblioteca prisional. Esse
documento recomenda que as bibliotecas prisionais, para funcionarem, precisam seguir os
mesmos padrões profissionais de uma biblioteca da comunidade; devem ser administradas
por um bibliotecário profissional; satisfazer os interesses e necessidades de uma população
heterogênea; e oferecer livre acesso aos detentos e disponibilizar uma variedade de
atividades relacionadas à alfabetização e leitur.
Lehmann e Locke (2007) ainda mencionam que as pautas para serviços bibliotecários

prescrevem:


alcance: sua aplicação se estende a todos os centros onde existam pessoas encarceradas,
presos, prisões, centros preventivos de prisão, centros de detenção, hospitais e outras
instituições prisionais. São diretrizes válidas para adultos e menores;



administração: a redação das diretrizes para a prestação de serviços bibliotecários deve ser
desenvolvida pelas autoridades nacionais ou prisão local. Essa norma deve enunciar, de
forma clara, a missão e objetivos, assim como as fontes de financiamento e
responsabilidades administrativas para os serviços bibliotecários.

As diretrizes para

bibliotecas prisionais devem servir de base para o desenvolvimento de procedimentos
bibliotecários locais, tratando temas como atividades operacionais da biblioteca;


a coleção: o controle da administração e o financiamento para as bibliotecas prisionais
variam para cada país (Ministério da Justiça Nacional, Governo, Município, Biblioteca
Pública, o Sistema de Bibliotecas, Ministério da Educação e Cultura). Em alguns casos,
diversas organizações governamentais dividem essa responsabilidade, tendo um acordo,
contrato legal que explique a contribuição de cada parte e os serviços que oferecem.
Recomendam, ainda, que a coleção disponha de uma quantidade mínima de 100 livros,
sendo possível o empréstimo de dois títulos por semana para cada recluso. Também, há
orientações quanto às instalações físicas e equipamentos;

�156



quadro de pessoal: recomendam que sejam bibliotecários profissionais com preparação e
habilidades adquiridas na universidade. Na pauta 6.2, recomenda-se que todas as prisões que
tenham mais de 500 detentos devem contar com um profissional em tempo integral e para as
unidades que tenham acima de 1000 devem ter em seu quadro dois bibliotecários. Para as
unidades prisionais que tenham uma população menor, podem reduzir o número de horas de
trabalho do bibliotecário da seguinte forma: população de: 0 a 300 – o bibliotecário terá 24
horas de trabalho semanal. Para a população de 301 a 499, o profissional terá a carga horária
de 30 horas. O resto de profissionais para atender ao quadro de pessoal será selecionado de
acordo com as necessidades da unidade;



responsabilidade: a instituição responsável pela biblioteca deve assegurar no seu orçamento
previsão de recursos para cobrir gastos com pessoal, salários, materiais de biblioteca, acesso
às redes etc.
De acordo com Mischiati e Valentim (2005), o bibliotecário deve ser capaz de atuar de

forma criativa e eficaz, identificando demandas de informação de seus usuários. É responsável pelo
processamento de informações nos diversos tipos de documentos e suportes, existentes no acervo, e
deve dispensar todo conhecimento no tratamento, armazenamento, disseminação, busca e
recuperação da informação. Ainda, segundo as autoras citadas, esse profissional deve ser
conhecedor de novas tecnologias, pois cabe a ele o desenvolvimento de novos serviços, e ser capaz
de atender às expectativas de seus usuários.

3.2 REGULAMENTAÇÃO EM ÂMBITO NACIONAL

No Brasil, inexistem diretrizes ou regulamentação específica sobre características de
bibliotecas em sistemas prisionais, mesmo havendo previsibilidade em diversas legislações e
regulamentações. Durante a pesquisa documental, identificaram-se documentos de amplo alcance,
como a Constituição e a própria Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, a qual estabelece as
Diretrizes e Bases da Educação, a (LDB), dentre outras legislações que, em sua funcionalidade,
oferecem garantias quanto ao usufruto de direitos considerados universais. Analisaram-se, também,
documentos de âmbito internacional com efeito direto nas práticas nacionalmente adotadas pelo
sistema prisional brasileiro, no que se refere, principalmente, à educação e à existência de
bibliotecas.

�157

Na Constituição de 1988 (BRASIL, 1988), reconhecem-se os direitos sociais, dentre eles o
direito à educação, estendido de forma universal aos sujeitos. Esse direito social também alcança o
recluso, incluindo aqueles que não o alcançaram na idade própria.
Sobre a sua regulamentação no Brasil a partir da LDB, cabe salientar a recomendação
prescrita aos sistemas de ensino de assegurar aos jovens e adultos oportunidades educacionais
apropriadas às condições de existência: de vida e de trabalho (CONSELHO NACIONAL DE
EDUCAÇÃO, 2010).
Conforme descreve Claude (2005), educação é a ferramenta indispensável para o
crescimento pessoal, amplia o conhecimento, o saber e o discernimento. É um direito social,
porque, no contexto da comunidade, promove o desenvolvimento da personalidade humana.
Representa um direito econômico, porque favorece a autossuficiência econômica, mediante ao
trabalho. É cultural, porque a comunidade internacional orientou a educação no sentido de construir
uma cultura universal de direitos humanos. A educação é o pré-requisito fundamental para o
indivíduo atuar plenamente como ser humano na sociedade moderna.
Nesse contexto, é bem-vinda a afirmação de Muakad (1990, p. 25), quando discursa que “a
prisão deve ter o mesmo objetivo que tem a educação da infância na escola e na família: preparar o
indivíduo para o mundo a fim de subsistir ou conviver tranquilamente com seus semelhantes”.

3.2.1 Decisões do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP)

As Regras Mínimas para o Tratamento do Preso no Brasil foram regulamentadas pela
Resolução nº 14, de 11 de novembro de 1994, do Conselho Nacional de Política Criminal e
Penitenciária (CNPCP), consolidada em reunião de 17 de outubro de 1994 e considerando a decisão
do Comitê Permanente de Prevenção ao Crime e Justiça Penal das Nações Unidas, do qual o Brasil
é membro e considerando ainda o disposto na Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 (Lei de
Execução Penal).
Essas Regras Mínimas para o Tratamento do Preso no Brasil obedecem aos princípios da
Declaração Universal dos Direitos do Homem, aos tratados, convenções e regras internacionais de
que o Brasil é signatário (CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E
PENITENCIÁRIA, 1994).
As instruções para a assistência educacional estão previstas na resolução CNPCP nº 14/94,
nos artigos 38 ao 42. Compreendem a instrução escolar na formação profissional do preso,
prescrevendo que instrução primária e cursos de alfabetização são obrigatórios a todos os presos

�158

que não as possuem. A regra 41 determina que os estabelecimentos prisionais estejam constituídos
de biblioteca organizada com livros de conteúdo informativo, educativo e recreativo, adequados à
formação cultural, profissional e espiritual do preso. No artigo 42 está previsto o direito ao preso
participar de cursos por correspondência, rádio ou televisão (CONSELHO NACIONAL DE
POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA, 1994).
A Resolução nº 1, de 20 de março de 1995, também do CNPCP, viabiliza a aplicação das
Regras Mínimas para o Tratamento do Preso no Brasil, em todos os Estados e no Distrito Federal
em cumprimento à orientação ditada pela Resolução n. 2.858, de 20 de dezembro de 1971, da
Assembleia Geral da ONU e em conformidade com a Resolução CNPCP nº 01/95 (CONSELHO
NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA, 1995).
O artigo 1º da resolução CNPCP nº 01/95 recomenda às secretarias, responsáveis pelos
assuntos penitenciários nos Estados e no Distrito Federal, a adequação de seus Estatutos,
Regulamentos ou Regimentos Penitenciários, em conformidade com a Resolução CNPCP nº 01/95
(CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA, 1995).
Em seu artigo 2º, solicita aos Conselheiros Penitenciários dos Estados e do Distrito Federal
que implementem ações e medidas no sentido de efetivar a aplicação das Regras Mínimas para o
Tratamento do Preso no Brasil, considerando que a atuação do Poder Executivo e a assistência do
Poder Judiciário, com apoio do Ministério Público, são imprescindíveis para o êxito social do
cumprimento da pena ou da medida de segurança, na dinâmica do diálogo entre os seus
destinatários e a comunidade (CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E
PENITENCIÁRIA, 1995).
A Resolução nº 3 do CNPCP, de 11 de março de 2009, dispõe sobre as Diretrizes Nacionais
para a Oferta de Educação nos estabelecimentos penais. Tal resolução levou em consideração:


as propostas encaminhadas pelo Plenário do I Seminário Nacional de Educação nas Prisões
(de 2006);



o protocolo de intenções firmado entre os Ministério da Justiça e da Educação com o
objetivo de fortalecer e qualificar a oferta de educação nas prisões;



a responsabilidade dos Ministérios da Educação e da Justiça quanto ao fomento e indução de
políticas públicas de Estado no domínio da educação nas prisões, estabelecendo as parcerias
necessárias junto aos Estados, Distrito Federal e Municípios;



o disposto na Constituição Federal de 1988, na Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984, bem
como na Resolução nº 14, de 11 de novembro de 1994, desse Conselho, que fixou as Regras
Mínimas para o Tratamento do Preso no Brasil; e

�159



o Projeto Educando para a Liberdade, fruto de parceria entre os Ministérios da Educação e
da Justiça e da Representação da UNESCO no Brasil (CONSELHO NACIONAL DE
POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA, 2009).
Considerando os documentos antecedentes, tal resolução constitui-se como uma referência

fundamental para subsidiar o desenvolvimento de uma política pública de educação no contexto
prisional, feita de forma integrada e cooperativa, e representa novo paradigma de ação a ser
desenvolvido no âmbito da Administração Penitenciária.
Em seu artigo 2º, garante que as ações de educação no contexto prisional devem estar de
acordo com a legislação educacional em vigor e na Lei de Execução Penal. No artigo 3º e inciso I,
deve-se atender aos eixos pactuados no Seminário Nacional pela Educação nas Prisões, ocorrido em
2006 (CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA, 2000). Os
eixos propostos nesse evento devem contemplar:


gestão, articulação e mobilização;



formação e valorização dos profissionais envolvidos na oferta de educação na prisão; e



aspectos pedagógicos.
Em seu inciso IV – trata do quesito biblioteca, recomendando que essa unidade deve “[..]

estar associada às ações de fomento à leitura, tendo em vista atender a população carcerária e aos
profissionais que trabalham nos estabelecimentos penais” (CONSELHO NACIONAL DE
POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA, 2009).
Prevê, ainda, que sempre que possível, devem ser promovidos vínculos entre comunidade e
familiares do preso, ações de inclusão, acessibilidade, respeito ao gênero e às etnias etc. Essa
Resolução faz registro sobre aspectos da gestão da educação no contexto prisional, responsabiliza as
autoridades dos estabelecimentos a propiciar espaços físicos adequados às atividades educacionais
(salas de aula, bibliotecas, laboratórios etc.) e integrar as práticas educativas às rotinas da unidade
(CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA, 2009).

3.2.2 Decisões do Conselho Nacional de Educação

A Resolução nº 2, de 19 de maio de 2010, da Câmara de Educação Básica do Conselho
Nacional de Educação (CEB/CNE), definiu as principais Diretrizes Nacionais para a oferta de
educação para jovens e adultos em situação de privação de liberdade nos estabelecimentos penais.
Com essa resolução, a responsabilidade de oferecer educação é atribuição direta do órgão
responsável pela educação nos Estados, no Distrito Federal (Secretaria de Educação ou órgão

�160

equivalente) e deverá ser realizada em articulação com os órgãos responsáveis pela sua
administração penitenciária, exceto as penitenciárias federais, que são de responsabilidade do
Ministério da Educação (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2010).
No artigo 3º dessa resolução, estão as orientações para a oferta de educação para jovens e
adultos em estabelecimentos penais. O inciso II indica as fontes de financiamento, delegadas ao
Ministério da Educação, privilegiando os recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento de
Educação Básica (FUNDEB) e outras estaduais e federais. O inciso III, abaixo transcrito, salienta a
importância das ações complementares, incluindo–se a implementação, recuperação e manutenção
de bibliotecas:
[...] estará associada às ações complementares de cultura, esporte, inclusão
digital, educação profissional, fomento à leitura e a programas de implantação,
recuperação e manutenção de bibliotecas destinadas ao atendimento à população privada
de liberdade, inclusive as ações de valorização dos profissionais que trabalham nesses
espaços (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2010, não paginado, grifo nosso).

O artigo 9º prescreve que a oferta de educação profissional nos estabelecimentos penais
deve seguir as Diretrizes Curriculares Nacionais definidas pelo Conselho Nacional de Educação,
inclusive com relação ao estágio profissional supervisionado concebido como ato educativo. O
artigo 11º, seguidamente, prescreve ações exclusivas para educadores, gestores e técnicos que
atuam nos estabelecimentos penais. O parágrafo primeiro do artigo 11º apresenta as orientações
para os docentes que atuam nos espaços penais e as recomendações quanto à habilitação, porém não
consta nenhuma recomendação para o profissional de Biblioteconomia para atuar na biblioteca
(CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2010).
De forma complementar à Resolução CEB/CNE nº 04/2010, que define as Diretrizes
Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica, o artigo 21º define as etapas da educação básica
e prevê no inciso VII, a garantia para as pessoas em situação de privação de liberdade, “[...] de
adolescentes em regime de acolhimento ou internação, jovens e adultos em situação de privação de
liberdade nos estabelecimentos penais” (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2010, não
paginado).

3.2.3 Decisões de âmbito federal

A Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 (LEP), em seus artigos 17º ao 21º, também trata da
assistência educacional, prescrevendo a criação de bibliotecas. A biblioteca está confirmada no
artigo 21º, quando dispõe que: “em atendimento às condições locais, dotar-se-á cada

�161

estabelecimento de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros
instrutivos, recreativos e didáticos” (BRASIL, 1984, não paginado).
Refletindo sobre o teor do artigo 21º da LEP, entende-se que, em atendimento às condições
locais, dotar-se a cada estabelecimento de uma biblioteca, refere-se a uma biblioteca formada dentro
das recomendações legais com previsão de um bibliotecário para a gestão dessa biblioteca, levando
em consideração o tipo de usuário específico e o gerenciamento do acervo, adentrando-se ao perfil
dos usuários.

Esse profissional deve facilitar o acesso e a disseminação da informação com

consciência de seu papel social.
No artigo 10º da LEP, está a responsabilidade do Estado, que é oferecer “[...] assistência ao
preso e ao internado [...], objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em
sociedade”. No artigo 11º – inciso IV, encontra-se a garantia da assistência educacional ao preso,
com destaque para os seguintes aspectos:


previsão para a instrução escolar e a formação profissional do preso e do internado
(conforme artigo 17);



obrigatoriedade na oferta do ensino de 1º grau e integrado ao sistema escolar (conforme o
artigo 18);



ensino profissional ministrado em níveis de iniciação e aperfeiçoamento técnico (artigo 19);



ensino profissional para a mulher (conforme artigo 19, parágrafo único);



previsibilidade de convênios com entidades públicas e privadas para a oferta de atividades
educacionais (conforme artigo 20) (BRASIL, 1984a).
Em maio de 2010, a Lei 12.245, de 24 de maio de 2010, alterou o artigo 83 da LEP, para

autorizar a instalação de salas de aula nos presídios (BRASIL, 2010).
A LEP significou um avanço sendo fortalecida por outras resoluções e diretrizes, tornandose um grande desafio para que seja proporcionado e exigido das autoridades competentes, o seu
cumprimento. Embora a LEP não mencione o bibliotecário para atuação nas bibliotecas prisionais,
entende-se a necessidade desse, uma vez que há escolas em funcionamento. Cabe ao conselho de
classe lutar pela ocupação desse profissional nas escolas prisionais.

3.2.4 Regulamentação de âmbito estadual: o caso do Estado do Espírito Santo

O Sistema Prisional do Estado do Espírito Santo, em relação à etnia dos detentos, indica que
o percentual de pardos e negros representa 78% do total dos detentos e 4,6% são procedentes da
zona rural (BRASIL, 2012).

�162

Em relação à existência de bibliotecas em unidades prisionais desse Estado, consta
registrado no Relatório da Situação Atual do Sistema Penitenciário - Bibliotecas, produzido pelo
Ministério da Justiça (BRASIL, 2008), a existência de quatro bibliotecas. Porém, consta no relatório
do CNMP de 2013 que, das 37 instituições prisionais, há 32 bibliotecas instaladas (CONSELHO
NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO, 2013).

Não há relato das atividades que são

desenvolvidas na biblioteca, nem referências dos profissionais que atuam nesses ambientes.
Por iniciativa da Secretaria de Justiça (SEJUS), o Programa Educacional Portas Abertas
para a Educação promove campanha de doação de livros (Livro Aberto), desde 2009. O acervo de
livros das bibliotecas prisionais é proveniente dessa campanha permanente. As bibliotecas das
unidades prisionais do Estado do Espírito Santo têm o objetivo de estimular a leitura e democratizar
o acesso aos livros e suporte para os detentos que estudam nessas unidades (PORTAL DO
GOVERNO DO ES, [2009?]).
Essas bibliotecas contribuem para o trabalho educacional que está sendo desenvolvido nos
ambientes prisionais como reeducação e garantia da remição da pena pela educação.
Essa situação de quase inexistência de bibliotecas funcionando de forma efetiva como um
recurso ressocializador, formador e de incentivo à leitura também foi identificada em recente
pesquisa produzida pelo Instituto de Atendimento Sócio-Educativo do Espírito Santo (IASES,
2013), especificamente observando as práticas de leitura e condições da biblioteca disponibilizada
na Unidade de Internação Metropolitana (UNIMETRO), situada no município de Vila Velha (ES),
com capacidade para 120 socioeducandos, entre 17 a 20 anos e 11 meses.
Os resultados obtidos nessa pesquisa indicaram que as práticas de leitura subsistem “[...]
muito mais por força e interesse do agente e da equipe pedagógica, do que propriamente por
iniciativa e política explícita do órgão”. Os dados também coletados, por meio de pesquisa
documental e entrevista realizada com a equipe pedagógica indicaram a ausência de investimentos
regulares, de recursos financeiros e de profissionais habilitados. Sobre a situação da biblioteca, os
dados apontaram para a existência de um espaço adaptado designado Espaço Livre Reconstruir,
composto de estantes, livros, filmes e DVD’s doados, uma mesa e poucas cadeiras plásticas e um
sofá.
Essa realidade evidenciada nos órgãos gestores responsáveis pela ressocialização de
adolescentes e jovens em conflito com a lei anuncia e retrata a situação caótica do sistema prisional
brasileiro, especialmente a realidade do Estado do Espírito Santo. O nosso jovem em conflito com a
lei também não tem sido contemplado em seus direitos fundamentais.
No que se refere à regulamentação dos estabelecimentos penais para o Estado do Espírito
Santo, essa menção está prescrita na Portaria nº 332-S, de 2 de julho de 2003, que constitui o

�163

Regimento Padrão dos Estabelecimentos Prisionais do Estado do Espírito Santo e atende
rigorosamente os Princípios Gerais da Lei de Execução Penal e as Regras Mínimas para Tratamento
dos Presos, instituídas pela ONU (ESPÍRITO SANTO, 2003).
De acordo com o Regimento Padrão dos Estabelecimentos Prisionais do Estado do Espírito
Santo, as unidades prisionais do Estado constituem-se em Sistema Administrativo de Execução da
Pena, administrado pela Diretoria Geral dos Estabelecimentos Penais (DIGESP).
Conforme disposto no art. 3º, os regimes de execução administrativa da pena são
desenvolvidos, por meio de:


I - unidade de Segurança Máxima;



II - unidade de Segurança Média;



II - unidade de Segurança Mínima;



IV - unidade de Custódia e Tratamento Psiquiátrico.
No capítulo I, seção IV, trata da Assistência Educacional e Qualificação Profissional. De

acordo com os artigos 79º e 80º, a assistência educacional compreenderá a instrução escolar, até o
primeiro grau, educação de base, profissionalização rural e urbana e desenvolvimento sóciocultural. O programa de educação será mais diretivo e intensificado nas unidades prisionais de
regime fechado. De acordo com o parágrafo único do art. 80º, o preso em regime semiaberto terá
acesso, por opção, a cursos de segundo grau e superior, obedecendo a legislação em vigor
(ESPÍRITO SANTO, 2003).
O Regimento Padrão prevê ainda em seu art. 81º, que o ensino de primeiro grau será
obrigatório, integrando-se ao sistema escolar da unidade federativa, em consonância com o regime
de trabalho da unidade prisional e as demais atividades socioeducativas e culturais. O parágrafo
único desse artigo trata do ingresso ao sistema prisional e a triagem escolar (ESPÍRITO SANTO,
2003).
Em seu artigo 82º, trata das atividades educacionais, que podem ser objeto de ação integrada
ao Fundo de Amparo ao Preso (FUNAP) e conveniadas com outras entidades públicas, mistas e
particulares, que se disponha a instalar escolas, cursos e oficinas profissionalizantes nas unidades
prisionais (ESPÍRITO SANTO, 2003).
O ensino profissionalizante é tratado no artigo 83º do referido regimento e poderá ser
ministrado em nível de iniciação ou de aperfeiçoamento técnico, atendendo às características da
população urbana e rural, segundo aptidões individuais e demanda do mercado. Assim, dispõe o
referido Diploma:
Art. 84º. A unidade prisional disporá de biblioteca para uso geral dos presos, providas de
livros de literatura nacional e estrangeira, técnicos, didáticos e recreativos.

�164
Parágrafo Único. A unidade prisional, através dos órgãos competentes, poderá promover
convênio com entidades públicas ou particulares para ampliação da biblioteca, com a
doação de livros ou programas de bibliotecas volantes (ESPÍRITO SANTO, 2003, não
paginado).

O Regimento Padrão dispõe nos artigos 127º e 128º as recomendações para uso da
biblioteca. Assim, está descrito:
Art. 127º. A unidade prisional disporá de uma biblioteca e o acesso do preso ao acervo darse-á:
I - para uso na própria biblioteca;
II - para uso na própria cela.
Art. 128º. Os livros deverão ser cadastrados, utilizando-se fichas para consultas no local e
nas retiradas para leitura em cela.
§ 1º Qualquer dano ou desvio será ressarcido na forma prevista neste Regimento Padrão,
sem prejuízo da sanção disciplinar correspondente.
§ 2º Durante o cumprimento da sanção disciplinar poderão ser retirados os livros
pertencentes à biblioteca que se encontrarem na posse do infrator.
§ 3º Quando das saídas, sob quaisquer modalidades, o preso deverá devolver os livros em
seu poder (ESPÍRITO SANTO, 2003, não paginado).

O capítulo 3, em seu artigo 129º, trata dos meios de comunicação e recomenda que o recluso
possa ter acesso à leitura e outros meios de comunicação adquiridos às expensas próprias ou por
visitas, desde que submetidos à apreciação da direção da unidade prisional, que avaliará a sua
contribuição ao processo educacional e ressocializador (ESPÍRITO SANTO, 2003).
Tendo como base o aspecto legal do Regimento Prisional do Estado do Espírito Santo e a
alta quantidade de detentos existentes nos presídios capixabas, conforme o regime, é possível
observar que há um grande número de detentos que podem ser incentivados com a leitura.

4 PRÁTICAS DO BIBLIOTECÁRIO NO CONTEXTO PRISIONAL

Morigi, Vanz e Galdino (2002, p. 140), descrevendo sobre o bibliotecário e suas práticas na
cidadania, concluíram que a educação é um fator decisivo para que o cidadão possa lutar pelo
exercício e respeito de sua cidadania. O bibliotecário deve ter a responsabilidade social de
proporcionar, como educador, o acesso à informação para que a cidadania efetive-se. Recomendam
que o bibliotecário não deve priorizar apenas as atividades técnicas, mas que busque elementos
teóricos ligados às ciências humanas, para que possa exercer sua atividade profissional de forma
consciente e ética.
Reafirmam que o conhecimento é adquirido, por meio da aprendizagem tácita com a
interação dos sujeitos com o mundo em que vivem. À escola, cabe proporcionar o conhecimento
formal, em que o indivíduo recebe as mais variadas informações. Para Targino (1991, p. 155), não
há exercício da cidadania sem informação, pois para que se possam cumprir deveres e reivindicar os

�165

direitos políticos, sociais e civis, é indispensável a posse da informação. A informação é um bem
comum a todos e faz parte do processo educativo.
O bibliotecário é o profissional que trabalha e trata a informação para torná-la acessível ao
usuário. É responsável pela organização, tratamento e disseminação das informações, garantindo as
boas condições dos materiais armazenados e facilitando o acesso à informação. É ele quem oferece
suporte e disponibiliza informação para a tomada de decisão.
A Biblioteconomia preconiza ações de competência do profissional bibliotecário, um
conjunto de práticas orientadas para que possa trabalhar nos dias atuais em que as transformações
sociais e tecnológicas ocorrem com grande rapidez.
De acordo com o Código de Ética do Bibliotecário, em seu art. 7º, o qual dispõe que o
bibliotecário deve, em relação aos usuários e clientes, observar as seguintes condutas:
[...] a) aplicar todo zelo e recursos ao seu alcance no atendimento ao público, não se
recusando a prestar assistência profissional, salvo por relevante motivo; b) tratar os
usuários e clientes com respeito e urbanidade; c) orientar a técnica da pesquisa e a
normalização do trabalho intelectual de acordo com suas competências (CONSELHO
FEDERAL DE BIBLIOTECONOMIA, 2002, não paginado).

A Special Libraries Association (SLA), uma organização de bibliotecários especializados,
elaborou um estudo sobre as competências e as habilidades que os bibliotecários devem apresentar
para trabalhar nos dias atuais, considerando as grandes transformações sociais e tecnológicas que
vêm ocorrendo. Segundo o citado estudo, as principais competências que os bibliotecários do século
XXI devem possuir são: conhecimento profundo em recursos informacionais, impressos e
eletrônicos e a capacidade de administrar serviços de informação para atender as necessidades dos
usuários (COMPETÊNCIA PARA OS BIBLIOTECÁRIOS DO SÉCULO XXI, 2012).
Especificamente sobre as atribuições e competências de um bibliotecário que atua em
sistemas prisionais, podemos citar três documentos orientadores:
[...] a American Library Association (ALA) editou o “Library standards for adult
correctional institutions” em 1992, a Library Association (LA) editou as “Guidelines for
Prison Libraries” em 1997 e a International Federation of Library Associations and
Institutions (IFLA) editou em 2005 a última versão das “Internacional Guidelines for
Library Services to Prisoners”. Para além de competências mais específicas ou adaptadas à
realidade do meio prisional, as competências destes bibliotecários são semelhantes às do
bibliotecário da Biblioteca Pública presentes no Manifesto da UNESCO (1994),
relacionadas com a informação, a literacia, a educação e a cultura (EIRAS, 2007, p. 4).

Conforme Perez-Pulido (1997), o início dos programas de leitura nas prisões ocorreu em
1870, a partir do Congresso Nacional de Prisões, em Cincinatti, nos Estados Unidos. As primeiras
normas para biblioteca em prisões americanas surgiram em 1915 publicadas pela American Library
Association (ALA), e atualizadas em 1981, definindo o serviço bibliotecário das prisões como um
suporte e oportunidade para o programa de reabilitação.

�166

Ainda, segundo a autora, em 1981, a Britânica Library Association (LA) publica normas
nacionais para avaliar os níveis do serviço inglês. Países como Canadá, Holanda e Tailândia
possuem normas reguladoras para o serviço bibliotecário nas prisões, o contrário da maioria de
outros países (PEREZ-PULIDO, 1997).
Especificamente, no que se refere às atividades que o bibliotecário pode desenvolver no
âmbito da biblioteca prisional, Carvalho (2016) menciona o desenvolvimento de práticas que
viabilizem o acesso à informação para a comunidade usuária. O acesso à informação constitui uma
das mais importantes missões das bibliotecas, seja elas de natureza prisional, pública, escolar,
comunitária e/ou especializada.
Segundo Carvalho (2016), as bibliotecas prisionais podem funcionar como interlocutoras
com as demais modalidades de bibliotecas, de modo a promover o acesso à informação,
considerando a diversidade de perfis de usuários, os quais se manifestam como os sujeitos da
informação. Essa articulação entre as diversas modalidades de bibliotecas formaria uma prática
reticular de bibliotecas.
Em síntese, é possível elencar quatro categorias de atuação informacional no âmbito da
biblioteca inserida em presídios, conforme demonstrado no quadro 1.
Quadro 1 – Categorias e formas de atuação do bibliotecário na biblioteca prisional
Categoria
Principais formas de atuação (atividades)
Alfabetização/Letramento Informacional
Uso do acervo; Serviço de referência, dentre outras.
Trabalho/Profissão/Emprego
Criação de guias, cartilhas, folhetos e demais
materiais sobre emprego e trabalho; Serviço de
informação utilitária, dentre outras.
Entretenimento e Lazer
Ação cultural; Identificação dos principais interesses
culturais dos sujeitos/usuários como teatro, dança,
desenho, pintura, música etc., visando oferecer
materiais específicos, dentre outras.
Relações Humanas
Transmissão de mensagens, conteúdos e materiais
sobre relações humanas; Criação de guias, cartilhas,
manuais, folhetos, folders, índices e outros materiais
sobre relações humanas, dentre outras.
Fonte: Adaptado de Carvalho (2016).

As quatro categorias descritas por Carvalho (2016) correspondem à somatória de atividades
que podem ser realizadas pelo bibliotecário, tendo em vista promover, de forma criativa e
inovadora, a concretização do que é proposto em cada categoria, consolidando o potencial da
biblioteca para com seu público-avo, o que condiciona, nesse contexto, a consolidação da cidadania.
Sobre a contribuição do bibliotecário para a inclusão social, de acordo com Vicentini e
Mileck (2000) citado por Viapiana (2008), é necessário que os profissionais da informação estejam
capacitados no uso das tecnologias de informação disponíveis e receptivos para trabalhar em
equipes multidisciplinares.

�167

Conforme Eiras (2007, p. 6), o bibliotecário dentro do ambiente prisional enfrenta muitos
desafios e encontra também muitas oportunidades, devido à grande intervenção social. Para o autor,
é na biblioteca prisional que o bibliotecário irá exercer seu papel social, enquanto mediador e
orientador no acesso à informação e conhecimento. A atuação desse profissional, mediante
atividades educativas desenvolvidas nesse espaço na tentativa de ressocializar os usuários, fá-lo um
agente transformador na vida de cada detento.
O bibliotecário é o elemento chave dentro da biblioteca prisional, e para sua atuação,
algumas competências são indispensáveis. Eiras (2007) apresenta as mais necessárias para esse
ambiente, como: ter equilíbrio emocional, postura dinâmica, ter cultura geral relevante, ser uma
pessoa com grande capacidade de adaptação e ser um bom comunicador (dependendo do país, deve
ter conhecimento em outra língua, pois no ambiente prisional há pessoas de outros países). A
liderança é indispensável para trabalhar com esse tipo de usuário, além de ser indispensável ter
criatividade, gostar do que faz, ser um profissional que explore as diversidades culturais e étnicas,
ser criativo, ter boa atenção e possuir conhecimento em legislação penal.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A biblioteca no ambiente educacional é de suma importância, pois tem sido o elo facilitador
para o ensino e para a aprendizagem. Para isso, seu acervo deve atender aos objetivos da instituição
mantenedora, ser diversificado, ter quantidade suficiente e ser adequado ao perfil do usuário que se
pretende atender. Além disso, deve estar organizado de acordo com as normas biblioteconômicas e
disposto em ambiente agradável.
As bibliotecas prisionais não são conhecidas como outras modalidades, mas independente da
sua especialidade é como qualquer outra biblioteca que oferece informação, cultura e lazer. A
criação dessas bibliotecas está em crescimento contínuo. A inserção em regulamentos, leis
internacionais, nacionais e estaduais indicam as tendências à concretização dessa realidade.
Observa-se a mudança de pensamento das pessoas em relação à reeducação prisional e
conscientização da contribuição que a biblioteca pode proporcionar a esses usuários, embora o
despertar para a necessidade de um profissional da área de Biblioteconomia ainda não tenha
acontecido. Tanto em âmbito brasileiro quanto no Estado do Espírito Santo, a concretização das
recomendações legais, no que tange à consolidação de bibliotecas prisionais, contendo bibliotecário
como gestor da informação ainda constitui uma utopia, mesmo possuindo uma legislação
transparente e fundamentada quanto a essa questão.

�168

Durante o levantamento bibliográfico, foi verificado que há exigências legais para a criação
de bibliotecas e vaga informação para o perfil do preso que atua no espaço da biblioteca e nenhuma
informação quanto à capacitação para o detento responsável pela biblioteca. Não identificamos
dados sobre os serviços oferecidos e, segundo as informações coletadas, concluiu-se que os serviços
bibliotecários não estão atendendo aos seus usuários com a qualidade necessária e recomendada
pelas diretrizes devido à falta de profissional qualificado em Biblioteconomia.
O avanço da educação prisional e sua regulamentação constante na legislação sinalizam para
a necessidade de debates, discussões, fóruns, no intuito de despertar os dirigentes e autoridades
competentes quanto à compreensão do verdadeiro trabalho do bibliotecário e o comprometimento
de sua inserção no ambiente prisional.
A Lei nº. 12.244, de 24 de maio de 2010, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas
nas instituições de ensino do Brasil, prevê a instalação de bibliotecas em todas as instituições de
ensino públicas e privadas do país, considerando biblioteca escolar a coleção de livros e outros
materiais bibliográficos independente do suporte destinado à consulta, pesquisa, estudo e leitura.
Em seu parágrafo único do artigo 2º, prevê a obrigatoriedade de um acervo mínimo na biblioteca
para cada aluno matriculado e em seu artigo 3º, confirma o respeito à profissão do bibliotecário
(BRASIL, 2010).
Entende-se que, se no ambiente prisional já se encontra a escola, a biblioteca e os alunos,
porém falta o profissional bibliotecário para auxiliar na gestão educacional e contribuir com a
gestão administrativa com a reeducação desse interno, oportunizando o acesso à leitura e
informação (BRASIL, 2010).
Foi possível mediante a literatura analisada, verificar o desconhecimento dos dirigentes
quanto à formação da coleção do acervo, bem como as políticas que norteiam o trabalho nesse
ambiente. De acordo com as informações coletadas, ficou claramente demonstrado que a
composição do acervo é feita apenas de doações, sem apresentar os critérios relevantes para um
bom desenvolvimento da coleção e o conhecimento das características de seus usuários, seus
interesses culturais, educacionais etc.
A biblioteca prisional deve ter em seu objetivo principal a reintegração social dos detentos
por meio das atividades educacionais que serão desenvolvidas e de apoio à formação escolar. Deve
viabilizar o acesso à informação e à educação. Deve promover a leitura como uma forma de
reintegração social e fortalecimento de vínculos da comunidade prisional e seus familiares.
Portanto, a atuação do bibliotecário no espaço prisional deve ser de apoio à gestão prisional, pois é
ele o orientador para o acesso ao conhecimento.

�169

Assim, infere-se que a inserção de um bibliotecário no quadro de funcionários do sistema
prisional, melhoraria o acesso às bibliotecas, devido ao conhecimento da área, podendo serem
criados vários espaços de leitura e diversas atividades de incentivo à leitura. Desse modo, acreditase que deva ser pensado na organização desse espaço chamado de biblioteca e na formação da
coleção que irá compor o acervo, bem como suas políticas.
A questão inicial que norteou a presente pesquisa objetivou caracterizar a contribuição
potencial da biblioteca na gestão de sistemas prisionais. Após exaustivas consultas a documentos e
literatura de natureza técnico-científica, principalmente ligada ao campo da Biblioteconomia,
identificaram-se dois conjuntos de recomendações e de possibilidades de ações típicas ou
apropriadas para esse ambiente: a) as diretrizes recomendadas por organismos internacionais
governamentais ou não, que prescrevem parâmetros desejáveis de ações a serem implementadas; e
b) os relatos de experiência que descrevem práticas bem sucedidas de instituições e profissionais.
Portanto, com base na consulta a diferentes materiais publicados na literatura especializada
ou instituídos no contexto prisional, é possível concluir que a biblioteca tem o potencial de
funcionar como um organismo ou departamento da unidade prisional que condiciona, por meio de
práticas em prol da cidadania, a ressocialização dos usuários do presídio. Sendo assim, o
bibliotecário assume o compromisso em atuar de forma criativa, por meio de atividades que
despertem aos usuários a alfabetização/letramento, a inserção no mercado de trabalho, o
entretenimento e lazer, e, por fim, práticas em prol da humanização nas relações sociais.
Quando ao final desta pesquisa, após análise a uma ampla lista de ações possíveis e
desejáveis, compreende-se que, no contexto prisional brasileiro, especificamente no Estado do
Espírito Santo, há muito que fazer, pois se tem a previsibilidade legal da biblioteca, mas não se tem,
de fato, essa realidade amplamente implementada ou viabilizada a sua potencialidade.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado
Federal Subsecretaria de Edições Técnicas, 2007.
______. Departamento Penitenciário Nacional. Formulário categoria e indicadores preenchidos:
Espírito Santo - ES. 2012. Disponível em: &lt;http://portal.mj.gov.br/ main.asp?View={D574E9CE3C7D-437A-A5B6-22166AD2E896} &amp;BrowserType=IE&amp; LangID=ptbr&amp;params=itemID%3D%7BC3 7B2AE9%2D4C68 %2D4006%2D8B16%
2D24D28407509C%7D%3B&amp;UIPartUID=%7B2868BA3C%2D1C72%2D4347%2DBE11%2DA2
6F70F4CB26%7D&gt;. Acesso em: 16 jul. 2013.

�170

______. Departamento Penitenciário Nacional. Relatório da situação atual do sistema
penitenciário nacional: bibliotecas. Brasília, 2008. Disponível em:
&lt;http://www.govome.com/web/?q=relatorio+da+situa%C3%A7%C3%A3o+atual+do+sistema+pen
itenciario+bibliotecas&amp;hl=br&gt;. Acesso em: 05 jun. 2013.
______. Lei Federal n° 7.210, de 11 de julho de 1984a. Institui a Lei de Execução Penal. Brasília,
11 de julho de 1984. Disponível em:
&lt;http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L7210.htm &gt;. Acesso em: 15 fev. 2013.
______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação
Nacional. Disponível em: &lt;http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/lei9394_ldbn1.pdf&gt;. Acesso
em: 01 ago. 2013.
______. Lei nº 12.245, de 24 de maio de 2010. Altera o art. 83 da Lei no 7.210, de 11 de julho de
1984. 2010a. Disponível em: &lt;http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato20072010/2010/Lei/L12245.htm&gt;. Acesso em: 10 jun. 2013.
CARVALHO, Jonathas. Bibliotecas prisionais: perspectivas pedagógicas de atuação
biblioteconômica. Revista Biblioo: Cultura Informacional, Rio de Janeiro, jul. 2016. Disponível
em: &lt;http://biblioo.cartacapital.com.br/bibliotecas-prisionais/&gt;. Acesso em: 19 set. 2017.
CLAUDE, Richard Pierre. Direito à educação e educação para os direitos humanos. Revista
Internacional de Direitos Humanos, São Paulo, ano 2, v. 2, n. 2, p. 36-63. 2005.
COMPETÊNCIA para os bibliotecários do século XXI. Adaptado do relatório Competencies for
Special Librarians of the 21st Century" da SLA. 1996. Disponível em:
&lt;http://anawanessabbastos.blogspot.com.br/2012/07/competencias-para-os-bibliotecarios-do.html&gt;.
Acesso em: 05 ago. 2013.
CONSELHO FEDERAL DE BIBLIOTECONOMIA. Resolução CFB nº 42 de 11 de janeiro de
2002. Dispõe sobre o Código do Ética do Conselho Federal de Biblioteconomia. Disponível em:
&lt;http://www.crb14.org.br/UserFiles /File/C%c3%b3
digo%20de%20%c3%89tica%20Bibliotec%c3%a1rio.pdf&gt;. Acesso em: 12 ago. 2013.
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Câmara de Educação Básica (Brasil). Resolução nº
4, de 14 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica.
Disponível em: &lt;http://www.profdomingos.com.br/federal_resolucao_cne_ceb_04_2010.ht&gt;.
Acesso em: 03 ago.2013.
CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA (Brasil). Resolução
nº 14, de 11 de novembro de 1994. Publicada no D.O.U de 2 de dezembro de 1994. Disponível
em: &lt;http://portal.mj.gov.br/main.asp?View={E9614 C8C-C25C-4BF3-A23898576348F0B6}&amp;BrowserType=NN&amp;LangID=pt-br&amp;params=itemID%3D%7B
D4BA0295%2D587E%2D40C6%2DA2C6%2DF741CF662E79%7D%3B&amp;UIPartUID=%7B2868
BA3C%2D1C72%2D4347%2DBE11%2DA26F70F4CB26%7D&gt;. Acesso em: 10 jun. 2013.
CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA (Brasil). Resolução
nº 3, de 11 de março de 2009. Publicada no D.O.U de 5 de março de 2009. Disponível em:
&lt;http://ws.mp.mg.gov.br/biblio/informa/030411637.htm&gt;. Acesso em: 02 jul. 2013.

�171

CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA (Brasil). Resolução
nº 1, de 20 de março de 1995. Aplicação das Regras Mínimas para o Tratamento do Preso no
Brasil. Publicada no D.O. U. em 23 de março de 1995. Disponível em:
&lt;http://portal.mj.gov.br/main.asp?View={E9614C8C-C25C-4BF3-A238-98576348F0B6}
&amp;BrowserType=NN&amp;LangID=pt-br&amp;params=itemID%3D%7 BD4BA0295%2D587E
%2D40C6%2DA2C6%2DF741CF662E79%7D%3B&amp;UIPartUID=%7B2868BA3C%2D1C72%2D
4347%2DBE11%2DA26F70F4CB26%7D&gt;. Acesso em: 05 ago. 2013.
CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. A visão do Ministério Público
brasileiro sobre o sistema prisional brasileiro. Brasília: Conselho Nacional do Ministério
Público: CNMP, 2013. Disponível em:
&lt;http://www.govome.com/web/?q=visao+do+ministerio+p%C3%BAblico+brasileiro+sobre+o+sist
ema+prisional&amp;hl=br&gt;. Acesso em: 31 ago. 2013.
EIRAS, Bruno Duarte. Uma janela para o mundo: biblioteca e bibliotecário em meio prisional. In:
CONGRESSO NACIONAL DE BIBLIOTECÁRIOS, ARQUIVISTAS E DOCUMENTALISTA,
9., 2007, Ponta Delgada (Açores). Anais... Lisboa: BAD, 2007. Disponível em:
&lt;http://www.apbad.pt/Downloads/congresso9/COM59.pdf&gt; Acesso em: 15 fev. 2013.
ESPÍRITO SANTO (Estado). Portaria nº 332-S, de 2 de julho de 2003. Regimento Padrão dos
Estabelecimentos Prisionais do estado do Espírito Santo. Vitória, 2003. Disponível em:
&lt;http://www.sejus.es.gov.br/download/Portaria_322_S.pdf&gt;. Acesso em: 20 jul. 2013.
FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DAS ASSOCIAÇÕES E INSTITUIÇÕES BIBLIOTECÁRIAS
(IFLA). Diretrizes da IFLA para bibliotecas públicas. Brasília: Brinquet de Lemos, 2012.
GARCIA-PEREZ, Maria Sandra. Um acercamiento a las bibliotecas de los centros penitenciários.
Boletim de la Asociación Andaluza de Bibliotecarios, n. 62, p. 79-89, mar. 2001. Disponível em:
&lt;http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?cod igo=113356&gt;. Acesso em: 10 abr. 2013.
INSTITUTO DE ATENDIMENTO SÓCIO-EDUCATIVO DO ESPÍRITO SANTO (IASES).
Violações de direitos humanos no sistema prisional do Espírito Santo. 2013. Disponível em:
&lt;http://global.org.br/wp-content/uploads/2011/06/SistemaPrisionalES_2011.pdf&gt;. Acesso em: 10
ago. 2014.
KAWAGUTI, Luis. Brasil tem 4ª maior população carcerária do mundo e deficit de 200 mil vagas.
BBC Brasil, São Paulo, maio 2012. Disponível em:
&lt;http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/05/120529_presos_onu_lk.shtml&gt;. Acesso em: 31
maio 2013.
LEHMANN, Vibeke; LOCKE, Joanne. Pautas para serviços bibliotecários para reclusos. La
Haya, IFLA Headquarters. 2007. Disponível em:
&lt;http://new.pensamientopenal.com.ar/16022009/situacion13.pdf&gt;. Acesso em: 24 ago. 2013.
MISCHIATI, Ana Cristina; VALENTIM, Marta Lígia Pomim. Reflexões sobre a ética e a atuação
profissional do Bibliotecário. Transinformação, Campinas, n. 17, v. 3, p. 209-220, set./dez. 2005.
MUAKAD, Irene Batista. Prisão albergue. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1990.
MORIGI, Valdir José de; VANZ, Samile Andréa de Souza; GALDINO, Karina. O bibliotecário e
suas práticas na construção da cidadania. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina,

�172

Florianópolis, v. 7, n. 1, p. 134-147, jan./jul. 2002. Disponível em:
&lt;http://revista.acbsc.org.br/index.php/racb/article/viewArticle/390/479&gt;. Acesso em: 12 out. 2011.
PEREZ-PULIDO, Margarita. Averca de lãs bibliotecas de prisiones y sus servicios. Educacion y
Biblioteca, Madri, n. 85, p. 40-44, dez. 1997. Disponível em:
&lt;http://gredos.usal.es/jspui/bitstream/10366/113436/1/EB09_N085_P40-44.pdf&gt;. Acesso em: 27
jun. 2013.
PORTAL DO GOVERNO DO ES. Programa educacional da secretaria da justiça promove
campanha para arrecadar livros. [2009?]. Disponível em: &lt;http://goves.jusbrasil.com.br/politica/1423701/programa-educacional-da-secretaria-da-justica-promovecampanha-para-arrecadar-livros&gt;. Acesso em: 05 ago. 2013.
SOUZA, Fátima. Como funcionam as prisões. 2008. Disponível em:
&lt;http://pessoas.hsw.uol.com.br/prisoes4.htm&gt;. Acesso em: 31 maio 2013.
TARGINO, Maria das Graças Leite. Olhares e fragmentos: cotidiano da biblioteconomia e ciência
da informação. Teresina: EDUFPI, 2006.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP). Regras Mínimas para o Tratamento de reclusos.
2014. Disponível em: &lt;http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Direitos-Humanos-naAdministra%C3%A7%C3%A3o-da-Justi%C3%A7a.-Prote%C3%A7%C3%A3o-dos-Prisioneirose-Detidos.-Prote%C3%A7%C3%A3o-contra-a-Tortura-Maus-tratos-e-Desaparecimento/regrasminimas-para-o-tratamento-dos-reclusos.html&gt;. Acesso em: 30 jul. 2014.
VALENTIM, Marta Lígia Pomim. Formação: competências e habilidades do profissional da
informação. In:______ (Org.). Formação do profissional da informação. São Paulo: Polis, 2002.
p. 117-132.
VIAPIANA, Sueli. A contribuição do profissional bibliotecário nos desafios da inclusão social.
Sociedade e Cultura, 2008. Disponível em: &lt;http://www.webartigos.com/artigos/a-contribuicao-doprofissional-bibliotecario-nos-desafios-da-inclusao-social/8540/#ixzz2cYwOCJ8f&gt;. Acesso em: 20
ago. 2013.

�173

CAPÍTULO XII
PRÁTICAS INFORMACIONAIS DE PRESAS GESTANTES DO CENTRO DE
REFERÊNCIA A GESTANTE PRIVADA DE LIBERDADE DO MUNICÍPIO DE
VESPASIANO-MG: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

Andreza Gonçalves Barbosa
Adriana Bogliolo Sirihal Duarte

1 INTRODUÇÃO
[...] a informação não é somente determinada por um fator externo que se ajusta
perfeitamente às necessidades, de acordo com o estudo do Comportamento informacional
propõe, há um conjunto de fatores humanos, pessoais, individuais, coletivos que
determinam sua aderência, de maneira que suas características são microssociológicas,
melhor dizendo, propondo-se ao exercício de olhar para o micro para responder ao
macrossocial (BERTI; ARAÚJO, 2017, p. 395).

O texto aqui apresentado é fruto de dissertação de Mestrado defendida em vinte de
dezembro de 2017 no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Escola
de Ciência da Informação (ECI) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Procuramos
compreender as práticas informacionais de mulheres grávidas e mães presas de um Centro de
detenção específico para elas em Minas Gerais.
Sabemos que no cárcere microsociedades são formadas. Dessa maneira, assim como
acontece fora dos muros da prisão, os sujeitos cativos são produtores e disseminadores de
informação. Ressalta-se que por meio de aparatos legais contidos, por exemplo, na Lei n. 7210, Lei
de Execução Penal (LEP), de 1984, cujo objetivo é humanizar o sistema, por meio de medidas
socioeducativas e ressocializadoras, os cativos têm acesso dentre outros à assistência educacional.

2 BREVE HISTÓRICO

O Centro de Referência a Gestante Privada de Liberdade (CRGPL) foi fundado em 2009, e é
modelo de referência nacional no que tange aos cuidados com mulheres presas mães e gestantes. O
local tem capacidade para receber até oitenta mulheres. À época da pesquisa, o quantitativo de
internas era de 42 mulheres entre 19 a 46 anos de idade. Ao completarem o quinto mês de gravidez

�174

nas prisões tradicionais, essas mulheres são encaminhadas para o Centro para receberem um
tratamento mais humanizado durante a gestação. Caso a criança complete um ano e a mãe não
tenha cumprido sua pena, a guarda da criança é concedida à família. Quando há recusa dos
familiares em receber a criança, ou mesmo quando a presa não possuir familiares que possam
assistir o filho, ele é encaminhado para um abrigo e lá permanecerá durante o período de reclusão
da mãe podendo, conforme o caso, serem adotados.
Alguns postos de trabalho são oferecidos por empresas dentro do Centro. No momento da
pesquisa, duas empresas estavam instaladas no local, sendo uma de etiqueta e uma de lacre. Além
disso, algumas presas trabalhavam na cozinha ou em atividades de limpeza. Algumas presas
exerciam função de cuidadora, ou seja, eram responsáveis pelos cuidados dos filhos de outras
presas, enquanto trabalhavam ou estudavam. A presa que necessita do serviço arca com a
remuneração da cuidadora, pagando por isso o valor de sessenta reais mensais.
O Centro conta com uma mini-biblioteca denominada "Vovozona", nome escolhido pelas
apenadas. A biblioteca conta com livros de assuntos variados, além de uma Caixa Estante, projeto
idealizado pela Superintendência de Bibliotecas Públicas de Minas Gerais. Conforme a necessidade,
os livros contidos na caixa podem ser trocados mediante solicitação da direção à Biblioteca Pública
Estadual de Minas Gerais.
A mini-biblioteca é cuidada por uma apenada que fica responsável pela organização do
espaço, empréstimo e cobrança de livros. No CRGPL existe um local destinado ao apoio jurídico.
Ademais, um defensor público visita mensalmente o Centro e chama as presas para falar de seus
casos. Elas também têm acesso a atendimento médico e psicológico. No Centro, são realizadas
algumas palestras voltadas para saúde e cuidados com bebê/criança.
A maioria das apenadas do Centro são oriundas de famílias de baixa renda, advindas de
ambientes de alto risco social. A maioria dos crimes cometidos está relacionado a drogas. O quadro
abaixo apresenta o perfil das onze entrevistadas. Ordenamos o quadro por ordem de entrevista.

�175
Quadro1 - Perfil das entrevistadas
Nome
Idade
Escolaridade

Crime

Condenação

Primeira
Gravidez?

Quantidade de
Filhos

Flor do
Campo

47

F1

Homicídio

13 anos

Não

3

Girassol

20

F2

Tráfico

5 anos e 10 meses

Não

3

Tulipa

25

F2

Latrocínio

13 anos

Não

2

Copo de Leite

21

EM

Tráfico

4 anos e 2 meses

Sim

-

Antúrio

19

EM

Tráfico e
Munição

NI

Sim

1

Alfazema

25

EM

Tráfico

NI

Não

1

Magnólia

21

EM

Tráfico

4 anos e 2 meses

Sim

-

Violeta

32

F1
EM

NI

4anos e 6 meses

Não

5

Rosa

21

Tráfico

12 anos

Não

2

Crisântemo

21

Tráfico e
Homicídio

13 anos

Não

1

Gardênia
29
EM
Tráfico
NI
Não
Fonte: Elaborado pelas autoras
Legenda: F1= Fundamental 1; F2 = Fundamental 2; EM = Ensino Médio; NI = Não Informado.

3

F2

Partindo do pressuposto de que informação e conhecimento são condições sine qua non para
melhoria de vida das pessoas, buscamos compreender as práticas informacionais dessas mulheres
no que tange ao acesso, busca e compartilhamento de informação em um contexto que, apesar de
exclusivo às mães e futuras mães, mostra-se frágil e adverso na busca de reabilitação e,
concomitantemente, analisar as barreiras encontradas por essas mulheres na busca por informação,
sobretudo informações que elas julgassem serem úteis e necessárias às suas vidas no cárcere.
Utilizamos das técnicas de entrevista semiestruturada e observação participante para
compreendermos melhor o contexto estudado.

3 PRÁTICAS INFORMACIONAIS

As práticas informacionais estão inseridas no terceiro paradigma da Ciência da Informação
descrito por Capurro (2003) como paradigma social, abordagem essa originada por meio dos
estudos de Jesse Shera sobre a epistemologia social da informação, confrontando os estudos
anteriores focados nos paradigmas físico e cognitivo. O termo começou a aparecer na literatura de

�176

information seeking em meados das décadas de 1960 e 1970, porém estudos mais aprofundados
sobre o tema se iniciaram a partir da primeira década do século XXI (SAVOLAINEN, 2007).
Essa abordagem salienta a importância de enxergar o indivíduo comum, inserido em um
contexto social e que necessita e busca informação para o seu dia a dia na vida cotidiana. Ou seja,
fora do ambiente de trabalho os indivíduos precisam estar informados e, pensando nessa perspectiva
inserida na Ciência da informação, faz se necessário compreender as práticas informacionais e as
diferentes formas de interação entre as pessoas com o objetivo de entender como elas se informam.
Savolainen (2007) define as práticas informacionais como a investigação de elementos de
busca, uso e compartilhamento de informação, segundo o contexto dos indivíduos. Para Talja
(2005), a diferença existente entre práticas informacionais e comportamento informacional é que a
primeira está voltada para estudos relacionados a pesquisas mais centradas nos campos sociológico
e contextual.
Por não existir uma definição única para o termo, alguns autores vêm desenvolvendo
algumas conceituações em seus estudos. Para Marteleto (1995, on-line), as práticas informacionais
são "mecanismos mediante os quais os significados, símbolos e signos culturais são transmitidos,
assimilados ou rejeitados pelas ações e representações dos sujeitos sociais em seus espaços
instituídos e concretos de realização". Para Araújo (2017),
estudar as práticas informacionais constitui-se num movimento constante de capturar as
disposições sociais, coletivas (os significados socialmente partilhados do que é
informação, do que é sentir necessidade de informação, de quais são as fontes ou recursos
adequados) e também as elaborações e perspectivas individuais de como se relacionar com
a informação (a aceitação ou não das regras sociais, a negociação das necessidades de
informação, o reconhecimento de uma ou outra fonte de informação como legítima,
correta, atual), num permanente tensionamento entre as duas dimensões, percebendo como
uma constitui a outra e vice-versa (ARAÚJO 2017, p. 221).

Percebe-se nos conceitos elencados, a prevalência de que existe uma dimensão coletiva na
ação de cada sujeito, possibilitado por meio das interações sociais e em determinados contextos.
Dessa maneira, esse sujeito recebe, usa, produz, dissemina e compartilha informação.

4 DIÁRIO DE CAMPO

Elaboramos um diário de campo explicitando o dia a dia da pesquisa. Optamos por escrevêlo em primeira pessoa para aproximarmos o leitor da experiência vivenciada. Todos os nomes
constantes a seguir são fictícios para preservar a identidade das entrevistadas. Atribuímos a elas
nomes de rosas ou flores.

�177

O CRGPL está situado na região rural de Vespasiano. Para quem vai de transporte coletivo duas linhas de ônibus realizam o trajeto partindo da estação Morro Alto, já em Vespasiano. O ponto
de parada do ônibus situa-se às margens da Linha Verde, num local com poucas residências. Após
atravessar uma grande passarela, avista-se uma rua estreita. De um lado existe uma clínica de saúde
mental, e do outro, algumas casas similares a chácaras.
Enquanto seguia por essa rua, observei que vários moradores chegavam com muitas sacolas
de compras realizadas em outros bairros, pois próximo ao CRGPL não há estabelecimentos
comerciais. Após alguns minutos de caminhada, avistei o grande muro rosa do Centro. Adiante,
subi uma rampa e bati no portão de ferro, portão esse que contava com uma pequena abertura na
parte superior. Um agente me atendeu e solicitou que lhe entregasse um documento de
identificação, o Registro Geral (RG) para conferência. O sol estava forte e ali permaneci
aguardando por um bom tempo. Quando o portão se abriu, fui recebida com um bom dia até
animado. Como estava de mochila, o agente pediu para que eu retirasse apenas o material que
utilizaria, ou seja, agenda, gravador, caneta e uma garrafa de água. Quanto ao celular, tive que
deixá-lo em um armário, juntamente com meu RG.
Após passar pela porta, cujos funcionários identificam se possuímos ou não algum objeto de
metal, fui conduzida pelo agente até a lateral da entrada onde me deparei com uma agente feminina.
Como estava na condição de pesquisadora, não passei pela revista íntima. Dessa forma, entrei em
um pequeno quarto onde as revistas acontecem. A agente passou um detector de metal em meu
corpo e solicitou-me que retirasse o tênis e levantasse a blusa.
Quando estive na Secretaria e Defesa Social (SEDS), pediram-me para que nos dias da
pesquisa, não vestisse roupas vermelhas. Caso estivesse usando brincos, o mesmo teria que ser bem
pequeno. A não utilização de saias ou vestidos também foi uma exigência. Tive que assinar um
caderno de controle, onde foram anotados todos os pertences que precisei para conduzir as
entrevistas.
Após esse procedimento, levaram-me a uma sala e pediram que eu aguardasse a pedagoga,
pois ela iria me acompanhar todos os dias. Ao avistar a pedagoga, lembrei-me de que já a conhecia,
pois ela já trabalhava no Centro desde 2016, época em que fui explicar e esclarecer questões
relativas à pesquisa para a direção. Foi naquele mesmo ano que participei de uma palestra realizada
no pátio coberto do Centro. À época, o ginecologista que atendia as presas falava sobre gravidez e
higiene. Sentei-me junto delas e, quando surgiam dúvidas, conversava com algumas delas acerca do
assunto da palestra. Determinados assuntos causavam muitas gargalhadas, outros descontentamento
e reclamações. Ressalto que em nenhum momento fui identificada como pesquisadora às presas;
isso só ocorreu quando realizei a primeira entrevista.

�178

Saindo da sala da pedagoga, a primeira porta permite o acesso a um dos pátios do Centro,
cercado por uma tela espessa e por um portão. O primeiro pátio me fez recordar dos pátios de
escola, com algumas mesinhas para a turma se reunir. Tal espaço é reservado para os dias de visita.
Entramos novamente em outro corredor onde estavam agentes à porta. Novamente, tive de assinar
outro caderno de controle. Depois de alguns minutos, o cadeado do portão que dá acesso à primeira
ala foi aberto. Logo na entrada, avistei a biblioteca "Vovozona" que estava com as portas abertas.
Defronte à biblioteca estavam duas presas. Cumprimentamo-nos com um bom dia e uma
delas estava com uma menina no colo, bem alegre, que logo quando me avistou, pediu-me colo.
Nesse momento, olhei para a pedagoga com um olhar de quem procura permissão e ela acenou
permitindo que eu carregasse a criança. Entrei na biblioteca com a criança no colo e percebi que o
local estava organizado.
A presa Tulipa cuida do espaço e disse gostar muito do trabalho. Quando saí, Flor do
Campo, mãe da criança que estava comigo, chegou, pois havia ido buscar sua filha para prepará-la
para o almoço. Flor do Campo foi mãe aos 46 anos no Centro. Além da filha que completaria um
ano de idade em alguns dias, ela tinha outros dois filhos. Flor do Campo nasceu e foi criada na roça,
acostumada a lidar com a terra; disse sentir muita falta da mãe e dos irmãos.
Como a hora do almoço se aproximava e simultaneamente iniciaria o procedimento16, a
pedagoga pediu para voltarmos à sala dela até o término do horário do primeiro almoço. No
primeiro horário, as presas acompanhadas de seus filhos saem das alas e almoçam no refeitório. As
presas que estão grávidas recebem os alimentos (marmitex) nos quartos. Perguntei o porquê da
separação de horário e o porquê de algumas poderem almoçar no refeitório e outras receberem o
marmitex. A pedagoga me explicou que muitas crianças estão em idade de comer alimentos sólidos,
por isso faz-se necessário o trituramento desse alimento até formar uma espécie de “papinha”, o que
não seria possível fazer nos quartos. Outra justificativa é o fato de o espaço ser pequeno e não
comportar muitas pessoas. Após o almoço das internas, é servido o almoço dos funcionários. Fui
convidada para almoçar com eles.
A comida nos foi servida pela janela da cozinha e com a porta fechada. Lá dentro trabalham
algumas presas e uma chefe de cozinha que não é presa. O Centro conta com uma nutricionista que
monta o cardápio da semana. Cheguei até a janela, uma das internas me recebeu com um sorriso e
perguntou-me o que gostaria que colocasse no prato. No dia foi servido arroz, feijão, salada e um
tipo de carne. Como sou vegetariana, não me interessei em saber qual carne seria. Peguei o prato e
os talheres quando a interna que me serviu gritou perguntando se eu não queria a sobremesa. Voltei

16

O procedimento é o nome dado à hora em que o Centro está com poucas agentes de vigia, devido a saída ou retorno
de almoço e/ou outras atividades.

�179

para pegar e ela me entregou um pudim de chocolate que estava em uma embalagem de plástico
fechada com uma tampa. Enquanto almoçava, observava as conversas das agentes e outros
funcionários. O assunto era sobre situações cotidianas, novelas, festas, roupas; tudo ocorria entre
olhares e sorrisos comedidos.
Após o almoço, entramos novamente no primeiro corredor, mas não pude iniciar a entrevista
imediatamente devido ao procedimento. Como a pedagoga tinha outras atividades a fazer, ela me
deixou na primeira ala até que conseguíssemos autorização para, assim, começar a entrevista. Iniciei
uma conversa com as agentes do portão; conversamos sobre o Centro. Quando passava alguma
interna no corredor, elas me falavam: aquela é fulana, aquela é sicrana, e começavam a me contar
sobre o delito por elas cometido.
Aproveitei e pedi para caminhar pelo corredor e pátio até que a pedagoga retornasse. Obtive
autorização e assim o fiz. Andei devagar, entrei nos quartos, cumprimentava as internas, escutava
muito ruído de criança e perfume de sabonete de bebê, pois muitos, naquela hora, estavam tomando
banho. Cada passo que eu dava era acompanhado por olhares atentos das agentes.
Precisei encher minha garrafa de água. Ao perguntar a uma agente onde poderia encontrar
um bebedouro, ela me olhou com um olhar de desconfiança, e antes de me apontar o lugar, pediu
para verificar minha garrafa. Entreguei-lhe a garrafa, ela a balançou, abriu a tampa, e depois me
indicou o bebedouro. Sei que medidas de segurança devem ser seguidas no cárcere, mas, naquela
hora, senti uma angústia e comecei a pensar como deveria ser difícil suportar uma vida confinada
sob vigia.
Em seguida, a pedagoga apareceu e disse que, naquela hora, poderíamos iniciar as
entrevistas. No corredor apareceu Flor do Campo e a pedagoga perguntou se ela gostaria de fazer
parte da entrevista. Meio desconfiada, Flor do Campo aceitou. Fomos ao refeitório, nos sentamos
em uma das mesas. A pedagoga e uma agente ficaram próximas, a uma distância suficiente para
escutar o que conversávamos.
Quando me vi de frente a Flor do Campo, minha primeira entrevistada, a aparente
tranquilidade deu espaço a certa ansiedade. Por mais que tivesse me preparado para aquele
momento, ainda assim me senti um pouco perdida. Tentei demonstrar estar o mais tranquila
possível. Apresentei-me, expliquei do que se tratava a pesquisa e pedi a ela para ler o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Ela me disse que não precisava, pois confiava em mim.
Todavia, enfatizei sobre a importância de ler o documento, pois ele detalhava elementos
importantes sobre a pesquisa, inclusive podendo ela, a qualquer momento, desistir da entrevista. Ela
concordou e leu todo o documento, assinou e iniciamos a entrevista. Flor do Campo era dona de um

�180

par de olhos extremamente azuis, seus cabelos já brancos ultrapassavam a altura da cintura; isso
ficava mais evidente por ela ser uma mulher de baixa estatura.
Pedi a ela que me contasse um pouco sobre sua história de vida. Ela disse que era da roça,
que quando foi presa estranhou muita coisa que ela antes nem sabia que existia.
Quando falava da família, principalmente da mãe, seus olhos ficavam marejados. Parávamos
um pouco até que ela se recomposse e continuávamos após alguns instantes. Durante a entrevista,
ela chegou a me perguntar se eu não havia conhecido seu pai, o Sr. (nome do pai). Segundo ela, ele
tinha um problema mental e perambulava pelo mundo aos berros. Flor do Campo já é avó de um
menino que mora no interior de Minas. Segundo relatou, toda a família, exceto uma irmã, ainda
mora na cidade em que ela nasceu. Flor do Campo, seu filho e o marido encontram-se presos pelo
mesmo crime, homicídio; teriam assassinado uma mulher que ameaçava sua sogra. Ela afirma que
todos são inocentes.
Começamos a falar sobre escola e ela disse que estava prestes a se formar na quarta série do
ensino fundamental. A formatura aconteceria na sexta-feira, último dia da pesquisa. Fiquei curiosa
pra saber como seria a cerimônia. Ela estava feliz e ansiosa para o momento, pois como ela mesma
ressaltou, o que aprendeu ninguém poderia tirar-lhe, e por isso, era muito grata a todos do Centro.
Com relação à saúde dela e da filha, Flor do Campo contou que sua gravidez foi de alto risco e que
todos da área de saúde do Centro, assim como agentes e direção, eram muito atenciosos com ela, e
que, se estivesse na roça, não teria acesso a um bom hospital no momento do parto.
Flor do Campo disse, durante a entrevista, que estava passando por momentos tristes, pois
em poucos dias aconteceria a separação dela e da filha. A filha seria entregue à sua irmã que
morava em outra cidade. Como a filha iria completar um ano em poucos dias, uma festinha de
aniversário seria oferecida no Centro, o que poderia, por alguns instantes, amenizar a dor da
separação. Como Flor do Campo é uma presa com bom comportamento e esforçada, a direção
estava tentando transferi-la para uma Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (APAC),
que funciona como um modelo alternativo ao sistema carcerário tradicional.
Essas unidades não possuem celas, assemelhando-se bastante com o modelo do Centro. Ao
término da entrevista, Flor do Campo disse sonhar com a liberdade e, assim que estiver livre,
voltará para a roça para criar a filha e ficar junto da família.
Durante aquele dia, realizei outras entrevistas. Ao passar pelos corredores e pátios, muitas
presas me cumprimentavam como dona ou senhora. Boa tarde dona, boa tarde senhora. Achei
curioso e perguntei à pedagoga se aquela abordagem era normal. Ela me disse que era uma maneira
respeitosa de tratamento. Já passava das 15 horas e mudamos o local das entrevistas; fomos para o
segundo pátio. Logo na entrada, percebi algo não notado: uma citação grafada numa parede do pátio

�181

"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta. Não há ninguém que explique e ninguém
que não entenda" e abaixo, a autoria: Cecília Meireles. Achei impactante, pois no cárcere uma das
palavras mais escutadas é liberdade.
O pátio encontrava-se cheio, a televisão é ligada e o lanche da tarde servido. No Centro as
presas podem assistir TV pela manhã, à tarde e à noite. Os aparelhos são dispostos em dois pátios,
no pátio coberto da primeira ala e no coberto da segunda ala. Elas assistem à novela da tarde e aos
filmes veiculados após a novela. À noite, assistem à novela das vinte horas. Devido à mudança de
horário, as presas solicitaram à direção que a TV ficasse ligada por mais uma hora, pois a novela
acabava por volta de 22:30. O pedido foi aceito e após o horário fixado, a TV é desligada. A novela
sensação do momento era "A Força do Querer", cujo assunto central da trama tratava de uma
mulher casada, mãe de família, que ao ter o marido preso por tráfico, também se envolve com o
crime para ajudá-lo. Essa é a história vivida pela maioria das presas, e talvez, por isso, era a mais
assistida no Centro. Eis a arte imitando a vida.
Ao término do primeiro dia, fui até a direção e perguntei se poderia participar da formatura.
A diretora me autorizou e disse que a cerimônia aconteceria na sexta-feira, às nove da manhã.
No segundo dia, passei pelos mesmos procedimentos. Como já me tornara uma figura
conhecida no Centro, já era cumprimentada com sorrisos mais largos e olhares mais amenos. Ao
passar por uma interna que havia entrevistado no dia anterior, cumprimentei-a pelo seu nome. Nesse
momento ela se virou, olhou para mim e disse: “Dona! a senhora lembra do meu nome?” - e saiu
falando para as outras presas próximas sobre o ocorrido. Naquele momento, vivi na pele o que até
então tinha lido somente em livros e artigos, a questão da importância do nome. O nome nos dá
identidade, nos torna importantes. Ao adentrar o cárcere, uma das primeiras coisas que o sujeito
perde é o nome, passando a ganhar um número de Levantamento Nacional de Informações
Penitenciárias (INFOPEN) que o seguirá por toda a estadia no cárcere.
Nesse dia, as entrevistas foram realizadas em uma pequena sala, onde as agentes
responsáveis pelo local guardam seus pertences. Para chegar ao local, passei por um corredor e
dentro de uma sala encontravam-se algumas presas fazendo crochê. Descobri que elas fazem
trabalhos manuais que são expostos e vendidos em uma feira realizada na Cidade Administrativa
(Sede do Governo do estado). O dinheiro arrecadado com as vendas é dividido entre aquelas que
participam das oficinas.
Durante uma das entrevistas, escutei um burburinho vindo do pátio. Perguntei a entrevistada
o motivo do alvoroço e ela disse que era dia de entrega do papel higiênico. Parei a entrevista para
ela pegar o dela; fiquei na porta observando como tudo acontecia. As agentes chegam com um
carrinho de compras e chamam cada presa para pegar dois rolos. A entrevistada, ao retornar, falou-

�182

me que aquele era um bom dia, pois estavam recebendo dois, pois, às vezes, recebiam apenas um
rolo que deveria durar 15 dias. Segundo informações do Centro, as presas recebem um kit a cada 15
dias, composto por sabão em barra, absorvente, creme dental e sabonete.
Nesse dia em específico, tive que esperar para dar continuidade às entrevistas devido ao
procedimento. Enquanto aguardava, aproveitei para explorar outros locais como a sala de trabalho
artesanal e as salas onde as aulas eram ministradas; corri e fui até a biblioteca para dar mais uma
olhada nas obras. Percebi que havia muitos livros de autoajuda, alguns espíritas de Zibia Gasparetto
e Chico Xavier, algumas bíblias, livros de literatura variados e lá estava ela, a Caixa Estante,
trancada. Fiquei curiosa para ver os livros nela contidos, mas nesse dia as duas diretoras já haviam
ido embora. Sabia que não teria oportunidade de vê-la aberta até o final da pesquisa, pois já estava
atrapalhando bastante a rotina do Centro. Senti-me como intrusa em certos momentos, pois, para a
realização das entrevistas, mudou-se um pouco a rotina do Centro, e nem todos viam tal mudança
com bons olhos.
Durante a pesquisa, descobri que o Centro era uma das primeiras unidades a receber o
projeto Rodas de Leitura do Serviço Voluntariado de Assistência Social (SERVAS) em Parceria
com a Secretaria de Estado de Administração Prisional (SEAP). Nesse projeto, voluntários ensinam
aos presos resenhar um livro. O objetivo principal do projeto é incentivar o gosto pela leitura para
que essa passe a ser uma constante na vida dos internos. No final de cada ciclo, que dura um mês,
os presos têm que fazer a resenha do livro e, caso o juiz daquela comarca aceite, e desde que o preso
(a) consiga tirar uma nota mínima, ele pode remir quatro dias de pena. Achei interessante a
iniciativa e no mesmo dia liguei para a coordenadora do projeto que permitiu minha participação,
desde que conseguisse autorização da diretoria.
Consegui autorização da direção e, nesse dia, fiz as entrevistas pela manhã para que às 14h
horas pudesse participar do Projeto Rodas de Leitura. Fui para a entrada do Centro, pois quis
acompanhar todo o processo desde o início. Às 14h em ponto, duas voluntárias chegaram, passaram
pelo mesmo procedimento na entrada. Apresentei-me a elas, que já sabiam da minha participação, e
nos dirigimos até a sala de aula, onde oito internas já nos aguardavam. Duas estavam carregando as
crianças de quem elas eram cuidadoras. As crianças estavam inquietas. Com o intuito de ajudar, me
ofereci para carregá-las enquanto elas assinavam a lista de presença. Nesse dia, elas aprenderam a
fazer a introdução de uma resenha.
No mesmo dia, conheci Gardênia, mulher falante, que se identificou com algumas partes do
livro trabalhado "Cinderela Pop". Como ela foi uma das primeiras a terminar a introdução,
conversei um pouco com ela, que me disse que também se formaria na sexta-feira; ela iria
completar o nono ano. Perguntei a Gardênia se ela aceitaria participar da minha pesquisa após a

�183

formatura, ela aceitou o convite. Às 15:30 h, as internas foram liberadas, pois o carro do Servas que
leva os voluntários já estava estacionando em frente ao Centro.
Os dias se passaram e, enfim, o dia da formatura havia chegado. Compareci ao Centro,
conforme combinado, bem cedo, pois a formatura começaria às nove da manhã. Logo atrás de mim,
chegou o músico que já havia sido professor das presas e que, nas formaturas, atuava como
voluntário, bem como a diretora do sistema de educação, professores e um pastor. Demoramos
muito para entrar nesse dia, pois os instrumentos do músico foram quase completamente
desmontados na revista.
Quando entrei, encontrei-me com a pedagoga que estava numa correria, pois ela era a pessoa
encarregada a organizar a cerimônia. O dono de uma loja de aluguel de becas estava chegando,
entregou a sacola para ela. A pedagoga pediu para que eu ficasse ao seu lado em todos os
momentos, a fim de evitar alguma confusão, pois o Centro, naquele dia, estava cheio. Seguimos
rumo ao almoxarifado e lá estava Flor do Campo, sentada, sendo maquiada por uma agente. Os
cabelos foram trançados com cuidado. Todas estavam preocupadas em fazer uma maquiagem
perfeita para a ocasião.
A pedagoga pegou a beca e a deixou sobre a mesa. Alguém havia solicitado a presença dela
em outro setor e ela me pediu para ficar ali, na maquiagem, aguardando seu retorno. Flor do Campo
já estava com a maquiagem feita. Faltava apenas vestir a beca. Quando começaram a vesti-la, viram
que a beca tinha ficado muito longa para ela. Pronto, naquele momento, a relativa tranquilidade deu
lugar ao desespero. Procuraram por linha e agulha para ajustarem a roupa, mas nada encontraram.
No intuito de ajudar, peguei um grande grampeador e perguntei se poderia ajudar. Elas deixaram e
fui grampeando a barra da beca com muito cuidado para um lado não ficar maior do que o outro e
para que os grampos ficassem escondidos. Flor do Campo já estava pronta. Faltava a outra
formanda, Gardênia.
A agente me chamou para segui-la e, quando chegamos no outro pátio, deparamo-nos com
um problema. Gardênia ainda estava escovando os cabelos. Sua colega de ala tentava escová-los o
mais rápido possível, mas seu cabelo, apesar de pouco cumprimento, era bastante volumoso. Ela
começou a chorar dizendo que sem os cabelos bem escovados não participaria da formatura. Em seu
dia especial, queria estar bonita. Fizemos um mutirão para ajudá-la, pois os convidados já estavam
inquietos e a hora estava passando. Foi um “segura cabelo” ali, segura aqui, enquanto a agente
começava a maquiá-la.
Após tanto sufoco, trabalho terminado. Gardênia ainda se sentia triste com a franja de seu
cabelo que, segundo ela, tinha ficado mal escovada. Como não tínhamos espelho (proibido no local)
para mostrar-lhe o bom resultado da escova, fiquei pensando em um modo de ajudar. Se ao menos

�184

estivesse com meu celular, poderia tirar uma foto e mostrar-lhe como ficou. Olhei para a mão da
pedagoga, ela portava uma câmera profissional. Sugeri que ela tirasse uma foto de Gardênia para
mostrar-lhe o cabelo. E assim fizemos. Após ver sua foto, ela se acalmou um pouco e seguimos
correndo para a cerimônia.
Quando chegamos ao pátio da cerimônia, era visível o descontentamento no rosto de todos,
decorrente do atraso, com certa razão, pois foram quase 40 minutos de espera. A cerimônia foi
iniciada com o Hino Nacional tocado no saxofone. Todas as presas estavam presentes para
prestigiarem as colegas formandas. Gardênia estava tão emocionada, que lágrimas se misturaram a
sorrisos. Aliás, de todos os presentes, ela foi a única que cantou em alto e bom tom todo o Hino.
Quando o pastor começou a proferir a bênção, a comoção foi geral. A presença da religião
evangélica no cárcere é algo comum. Mesmo quem não se converte à religião costuma frequentar os
cultos que são realizados em dias específicos. As formandas, ao fim da cerimônia, receberam alguns
presentes. Em seguida, muitas fotos e gritos de comemoração e alegria ecoavam no ambiente. A
cerimônia de formatura é também um incentivo para que outras presas comecem a estudar.
Quando o pátio já estava vazio, iniciei a entrevista com Gardênia, que ainda estava
preocupada com a franja e a todo momento me perguntava se eu achava se ela tinha "saído bem na
foto". Por alguns instantes, caímos na gargalhada relembrando o sufoco do dia. Após a entrevista,
fiquei sabendo que aquele também era o “dia da beleza”.
O dia da beleza acontece às quintas-feiras para as mães, e às sextas-feiras para as gestantes.
Nessas ocasiões, elas podem utilizar secadores e chapinhas disponibilizados pelo Centro, assim
como fazer as unhas utilizando alicates e esmaltes de uso pessoal. Elas recebem também uma
lâmina para poderem se depilar. Aos sábados, todas as presas que trabalham no Centro podem
utilizar secador e chapinha. Todos os materiais são distribuídos e conferidos no dia. No caso da
lâmina, após a devolução, confere-se se esse objeto está completo.
Minha última entrevistada foi Crisântemo, moça nova, que a todo instante queria me
intimidar, mostrando-se superior às outras, dizendo-se destemida de tudo e de todos. O que percebi,
no entanto, é que chega um momento em que, devido ao tempo de convivência, parece que
começamos a nos habituar com o lugar. É como se as coisas que ali acontecem não fossem mais
novidade, passando a ser consideradas comuns. Diante disso, não me intimidei e prossegui com a
entrevista. No meio da entrevista, a cuidadora do filho de Crisântemo entregou o filho à mãe, pois
teria aula naquele instante. A partir daí, o semblante da mãe mudou, e a entrevista que até então se
resumia a respostas curtas e ríspidas, transformou-se numa conversa amorosa, envolvendo mãe e
filho. A entrevista tornou-se mais amena, e em determinado momento, Crisântemo disse que se

�185

alguém na sua infância tivesse lhe ensinado o que era certo e errado, ela poderia ter trilhado um
caminho diferente. Refleti e pensei em quantas Crisântemos existem por aí.
Ao final das entrevistas, fui aos setores para agradecer a atenção e a ajuda. No último
momento, caminhei também pelos corredores com o intuito de agradecer novamente a cada presa
participante da pesquisa, mas, devido à dinâmica do local, não foi possível rever todas elas.
Enquanto me retirava do pátio, uma delas gritou: "Tchau, dona Andreza! Vá com Deus! Boa
sorte!”.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como o objetivo da pesquisa era compreender as práticas informacionais dessas mulheres
no que tange ao acesso, busca e apropriação de informações que lhes fossem úteis, concluímos que
o acesso à informação é mediado pelos setores jurídico, psicológico, médico, pelos agentes
penitenciários, pela família durante as visitas e também entre as próprias presas, principalmente as
que tinham mais experiência de cárcere.
Percebemos, por meio da análise de dados realizada mediante aos relatos, que as presas são
mulheres ativas no que tange à busca por informação. Durante as visitas que acontecem aos
domingos, elas mantêm-se informadas sobre outros familiares, sobre os filhos que geralmente estão
sob os cuidados das avós maternas, sobre as novidades do ambiente externo e a respeito dos
companheiros que, geralmente, encontram-se presos em unidades prisionais da Região
Metropolitana de Belo Horizonte.
Quesito importante observado refere-se à atenção dessas mulheres em relação às penas que
lhes serão infligidas, especialmente pelo fato de serem mães ou gestantes – e também com a saúde
dos seus filhos (as). Para isso, recorrem ao setor de saúde disponível no Centro.
Para garantirem seus direitos e manterem-se informadas sobre eles, elas recorriam ao setor
jurídico que, segundo os relatos, apesar de alguns entraves, conseguiam suprir suas necessidades
informacionais jurídicas. Ainda, segundo os relatos, as barreiras encontradas por elas na obtenção
de informação jurídica dizem respeito à dificuldade em obter contato com os defensores públicos;
reclamaram da troca recorrente dos defensores responsáveis por seus casos, pois isso acarretava no
atraso dos processos das mesmas. Apesar de o Centro oferecer palestras sobre saúde, higiene e
cuidados com a criança, as presas disseram ser importante inserir na programação palestras que
explanassem sobre questões jurídicas, de modo a esclarecer algumas dúvidas.

�186

Constamos que havia grande empenho por parte da direção local e da pedagoga em
incentivar as presas na continuidade dos estudos. Participar das atividades escolares, além de
permitir a remição de pena, tornou-se uma prática expressiva para reduzir o ócio no cárcere.
No que tange às práticas de leitura e ao uso da biblioteca, as apenadas disseram que o faziam
como um passatempo nas horas livres, ou, às vezes, eram incentivadas por outras presas que
indicam-lhes obras que tivessem lido e gostado. A leitura da Bíblia servia como um acalanto nas
horas de tristeza, saudade e solidão. Os livros mais procurados eram os de romance e religiosos. Foi
interessante observar em alguns relatos, que algumas presas já possuíam o hábito da leitura no
cotidiano, antes de serem presas, chegando a indicarem alguns livros durante a entrevista. Outras
disseram que a leitura, além de remir pena conforme rege a Regulamentação 44/2013 17 do Conselho
Nacional de Justiça (CNJ), era importante para obterem conhecimento e que assim poderiam
conhecer um novo mundo.
Concluímos que a privação do convívio externo, principalmente familiar, faz com que essas
mulheres lutem para terem de volta aquilo que foi perdido, sobretudo a liberdade e, para isso, elas
utilizam dos aparatos que lhes são oferecidos no Centro como, por exemplo, o apoio jurídico. Dessa
maneira, por mais hostil que o ambiente prisional possa parecer, a realização de práticas para
suprirem as necessidades informacionais das apenadas não deixam de acontecer.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Carlos Alberto Ávila. O que são "práticas informacionais"? Informação em Pauta,
Fortaleza, v. 2, número especial, p. 218-236, out. 2017. Disponível em:
&lt;http://periodicos.ufc.br/informacaoempauta/article/view/20655/31068.&gt;. Acesso em: 24 out. 2018.
BERTI, IIemar Christina Lansoni Wey; ARAÚJO, Carlos Alberto Ávila de. Estudos de usuários e
práticas informacionais: do que estamos falando? Informação &amp; Informação, Londrina, v. 22, n.
2, p. 380-401, maio/ago. 2017. Disponível em:
&lt;http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/31462/22020&gt;. Acesso em: 04
out.2018.
BRASIL. Lei nº 7210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de Execução Penal. Diário Oficial [da]
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 13 jul. 1984. Disponível em:
&lt;http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L7210.htm&gt;. Acesso em: 02 out. 2018.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Recomendação Nº 44 de 26/11/2013. Dispõe sobre
atividades educacionais complementares para fins de remição da pena pelo estudo e estabelece

17

Ementa: Dispõe sobre atividades educacionais complementares para fins de remição da pena pelo estudo e estabelece
critérios para a admissão pela leitura, conforme estabelecido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

�187

critérios para a admissão pela leitura. Disponível em: &lt;http://www.cnj.jus.br/busca-atosadm?documento=1235&gt;. Acesso em: 15 out. 2018.
CAPURRO, Rafael. Epistemologia e ciência da informação. In: ENCONTRO NACIONAL DE
PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 5., 2003, Belo Horizonte. Anais... Belo
Horizonte: ANCIB, 2003. Disponível em: &lt;http://www.capurro.de/enancib_p.htm&gt;. Acesso em: 23
out. 2018.
MARTELETO, Regina Maria. Cultura informacional: construindo o objeto informação pelo
emprego dos conceitos de imaginário, instituição e campo social. Ciência da Informação, Brasília,
v. 24, n. 1, jan./abr. 1995. Disponível em:
&lt;http://www.brapci.inf.br/index.php/article/view/0000000810/7a0cb81963a4bbfe41e9b1dd8b0a3d8
f/&gt;. Acesso em: 27 out. 2018.
SAVOLAINEN, Reijo. Information behavior and information practice:
reviewing the “umbrella concepts” of information-seeking studies.TheLibrary
Quarterly, Chicago, v. 77, n. 2, p. 109-132, 2007. Disponível em:
&lt;http://www.journals.uchicago.edu/doi/pdfplus/10.1086/517840&gt;. Acesso em: 23 out. 2018.
TALJA, Sanna. The domain analytic approach to scholar's information
practices. In: FISHER, Karen; ERDELEZ, Sanda; MCKECHNIE, Lynne (Ed.).
Theories of Information Behavior. Medford: Information Today, 2005. p. 123-127.

�188

CAPÍTULO XIII
A REMIÇÃO DE PENA PELA LEITURA: O LUGAR DA BIBLIOTECA PRISIONAL NO
PROCESSO DE RESSOCIALIZAÇÃO

Ana Karisse Valença Silva Azevedo
Edivanio Duarte de Souza
"Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como
sendo-o vós mesmo também no corpo”.
(HEBREUS, 13:1).

1 INTRODUÇÃO

A sociedade se organiza numa rede complexa de pessoas, cada uma com sua razão de
existência e, por conseguinte, exercendo papel fundamental para o seu funcionamento. As
diferentes instituições são responsáveis, segundo Lakatos e Marconi (2010), pela definição de
normas e valores específicos dessa conformação social, considerando contextos e finalidades.
A relação entre as pessoas e as instituições mantém e transforma as estruturas sociais. O
homem, na concepção de Durkheim (1978), não pode ser humano senão vivendo em sociedade,
pois é ela que leva os diversos sujeitos a considerar os interesses coletivos e não apenas os
individuais. Isso significa, essencialmente, aprender a viver em comunidade, neutralizar as paixões
e os instintos, obedecer à lei e, em sentido amplo, atender ao contrato social.
A escola e a família, historicamente, procuram formar sujeitos moral e eticamente
comprometidos com o ideal de sociedade. Com efeito, para Setton (2005), as principais instituições
que participam da formação sociocultural da criança são a escola e a família. A falha de qualquer
uma dessas instituições pode ser definitiva para um lapso na construção do caráter humano. O fato
de essas serem essenciais, contudo, não significa que estejam disponíveis a todos, o que pode afetar
na formação de parcela da sociedade, acarretando formas de agir incompatíveis com o que se
considera aceitável e/ou de acordo com a lei, levando-a a situações legitimamente desaprovadas e
passíveis de penalidades legais.
As necessidades básicas do sujeito nessa situação precisam ser supridas pelo Estado, que
deve promover as condições necessárias para a sobrevivência, sem comprometer sua dignidade, e
reeducação para o convívio nos limites do contrato social. A situação de superlotação em que se
encontram os presídios não permite, porém, que o tratamento do preso seja individual e

�189

personalizado, impedindo, em grande medida, a otimização dos resultados no que diz respeito à
ressocialização. Com o objetivo de não deixar essas pessoas à mercê da própria sorte, o sistema
penitenciário tem se utilizado de medidas reintegradoras que incentivam o sujeito a se redescobrir
como cidadão consciente de suas ações e ser racional com capacidade para refletir e decidir acerca
de sua própria vida.
A Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984, mais conhecida como Lei de Execução Penal (LEP),
busca tornar esses sujeitos úteis a si mesmos e à sociedade. As formas de reintegração têm ocupado
lugar de importância considerável nos debates acerca do cárcere, numa tentativa de afastamento da
reincidência na criminalidade e de reinserção do apenado no convívio social (BRASIL, 1984). Essa
reinserção exerce papel fundamental na formação social, política e econômica dos sujeitos. A
efetividade das medidas capazes de auxiliar na reintegração desses sujeitos à sociedade deve,
portanto, ser de interesse do Estado e da sociedade como um todo.
Nesse horizonte, a leitura é uma prática vista como alternativa para a erradicação da
reincidência criminal, que hoje não é apenas um agravante da criminalidade primária, mas passa a
ser a “espinha dorsal” das carreiras criminais (FANDIÑO MARIÑO, 2002). É importante
considerar, a partir de Freire (1997, p. 11), que o ato de ler “[...] não se esgota na decodificação pura
da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do
mundo”. E mais: “[...] a educação modela as almas e recria os corações, ela é a alavanca para as
mudanças sociais” (FREIRE, 1997, p. 28).
Então, por intermédio da leitura, os apenados poderão alcançar a consciência plena dos atos
praticados, assim como de suas consequências, pois essa é capaz de renovar o sujeito e mostrar que
o conhecimento liberta (OLIVEIRA, 2013, p. 92) e abre espaço para experiências culturais,
exercendo o papel de agente transformador de fundamental importância.
Pensando nisso, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por meio da Recomendação nº 44,
de 26 de novembro de 2013, instaura a inserção da remição de pena pela leitura no Brasil, que
incentiva os tribunais em todo país a instituírem esse tipo de projeto nos estabelecimentos penais
correspondentes (BRASIL, 2013).
De acordo com o CNJ, essa recomendação já está consolidada em quase todo o país com o
objetivo de contribuir com a promoção da cultura de paz nos estabelecimentos penitenciários,
oportunizando aos apenados o direito ao conhecimento, à educação, à cultura e ao desenvolvimento
da capacidade crítica, por meio da leitura e da produção de resenhas, e, por conseguinte, possibilitar
a remição pelo estudo (BRASIL, 2015). Infelizmente, por causa da ausência de informação e
conhecimento, nem todos os encarcerados reconhecem os benefícios que a leitura traz para suas
próprias vidas.

�190

Sobre isso, Setton (2005) afirma que a prática educativa não é apenas um processo de
aprendizagem formal e sistemático, mas uma prática que influencia diretamente no cotidiano das
relações sociais, possibilitando o crescimento da circulação de informações. Destarte, o sistema
prisional que tem como finalidade reformar sujeitos se utiliza da informação para reinseri-los na
comunidade.
O fato é que promover o acesso à informação é uma tarefa que pode parecer fácil, mas
carrega a complexidade de escolhas adequadas, principalmente, na instituição penitenciária, que
lida com um público específico e cujo acesso à leitura indiscriminada não é adequado. Para que a
circulação de informações ocorra de forma a contribuir com o processo de ressocialização e a
leitura possa cumprir seu objetivo no meio carcerário, se fazem necessárias algumas condições.
Nesse conjunto, destaca-se a disponibilidade de biblioteca e profissionais especialistas em
informação, que tracem estratégias para promover o uso de fontes e recursos informacionais
diversos, considerando o projeto ressocializador.
A mediação do bibliotecário se torna indispensável para que ele seja a ponte entre o livro e o
leitor. Desta forma, a leitura não será apenas uma obrigação ou uma forma de sair dos limites do
presídio, mas de introduzir o apenado em um mundo diferente que trará de volta sua humanidade e
as condições para uma vida nova.
Este capítulo, organizado em cinco seções, tem como finalidade abordar a prática de remição
de pena pela leitura no processo da ressocialização. A primeira seção aborda a contextualização
temática, a delimitação e os apontamentos da discussão. A segunda seção discute sobre a
responsabilidade da sociedade e do governo com a vida e a dignidade das pessoas que se encontram
encarceradas, visto que sua ressocialização trará benefícios para todos. A terceira seção aborda os
benefícios da prática da leitura, principalmente, dentro do cárcere, destacando como ela pode
contribuir na reestruturação das vidas desses sujeitos. A quarta seção discute a importância da
instituição biblioteca e do bibliotecário como agentes ressocializadores dos sujeitos em situação de
cumprimento de pena. Por fim, na quinta seção, são apresentadas algumas considerações e
perspectivas de aprofundamento da temática em discussão.

2 A RESSOCIALIZAÇÃO COMO INTERESSE SOCIAL

Para que a sociedade funcione de maneira adequada, torna-se necessário que os
componentes desta organização descubram em que setor eles poderão se inserir, exercendo sua
função social, política e econômica. A rigor, faz-se necessário que a sociedade disponha de espaços

�191

para que todos os cidadãos operem em sintonia com sua finalidade, realizando atividades
consideradas lícitas, de forma a não ferir as diretrizes da comunidade. O primeiro obstáculo para o
alcance deste ideal é justamente o fato de que o sistema econômico capitalista utilizado em grande
parte do mundo contemporâneo, incluindo no Brasil, não dispõe de espaço para a inserção
igualitária de todos os sujeitos nos diversos meios de produção.
Nesse contexto, Figueiredo Neto et al. (2005) esclarecem que a classe social é uma divisão
gerada pela distribuição desigual de influência sobre os recursos relevantes de uma sociedade. A
posse dos ativos produtivos determina o que as pessoas obtêm, o chamado bem-estar material, e o
que devem fazer para conseguir o que obtêm, que seriam as oportunidades. E mais, o que se tem
implica diretamente naquilo que se pode vir a ter, gerando um círculo vicioso do qual poucos
conseguem se safar.
Os sujeitos que se encontram encarcerados, em sua maioria, são resultado deste sistema que
agride o ideal de sociedade, marginalizando parte da sociedade.
O desenvolvimento preconizado pela sociedade capitalista esteve amparado na economia,
ou seja, no aumento de riquezas materiais. Tal processo garantiu progresso considerável na
ampliação tecnológica e no bem-estar de parcela da sociedade. Em contrapartida, provocou
extremos de privação, pobreza e marginalização social para grande parcela da população
dessa mesma sociedade (CUNHA, 2010, p. 158).

Além disso, a violência instaurada no Brasil, nos últimos anos, resulta em penitenciárias
cada vez mais parecidas com depósitos de infratores, que entram e saem do sistema sem mudança
alguma na forma de pensar e de agir. Assim, o Estado perde o controle financeiro e logístico dos
presídios, o que pode acarretar na privação de alguns direitos previstos em lei, tais como
alimentação, saúde, segurança, trabalho, remuneração, previdência social, descanso, recreação, e
exercício de atividades profissionais, intelectuais, artísticas e desportivas, desde que compatíveis
com a execução da pena.
A forma de ver e de aplicar a pena sofreu várias alterações ao longo dos anos, na medida em
que a delinquência deixa de ser vista como um comportamento natural ou uma característica
biológica do sujeito e, por conseguinte, sua reintegração social deixa de ser vista como uma forma
de tratamento adequado relativa a outro tipo de doença. No século XXI, o conceito de pena tem
como referência o castigo daqueles que ferem os preceitos morais de uma sociedade instituída. A
pena pode ser privativa de liberdade, restritiva de direitos ou de multa (MIRABETE; FABBRINI,
2015). De modo geral, seja como for, a pena obriga o sujeito a reparar seus atos de forma que
pareça justa ao ofendido.
Para Faustino e Pires (2009), a punição entendida como vingança e tendo como alvo
prioritário o corpo do condenado não era mais suficiente, do ponto de vista social, político e

�192

econômico. Desta forma, diferentemente dos tempos mais remotos, cujas primeiras prisões foram
inspiradas no sistema de mosteiros da Idade Média e impunham ao condenado o silêncio e a leitura
da Bíblia, a ressocialização agora seria resultado de um processo individual de reflexão e de
arrependimento que o infrator efetivaria sobre si mesmo. Esse processo seria possível pelo fato de
que, sendo ele um ser racional e consciente, também poderia, racional e conscientemente,
arrepender-se do mal praticado e, por conseguinte, empreender autotransformações (FAUSTINO;
PIRES, 2009). O sujeito, então, seria protagonista de sua transformação e único responsável por sua
readaptação, numa relação consigo mesmo, utilizando-se dos poucos recursos disponibilizados para
esse fim.
O resultado dessa mudança de entendimento é que as prisões se transformam em ambientes
que buscam tornar os apenados conscientes de seus direitos e deveres, e prontos para o retorno ao
convívio em sociedade, em que a reintegração social do apenado é uma das preocupações centrais.
O sistema penitenciário, nesse contexto, passa a ter um papel determinante na reinserção adequada
do cidadão na sociedade com o restabelecimento de seus direitos e deveres, sem que haja o retorno
à prática de delitos. Por outro lado, se, mesmo após a liberação do sujeito do sistema prisional, não
é possível constatar mudanças positivas de comportamento, isso condiciona a população a pensar
que o sistema prisional é realmente “A escola do crime”, que é cada vez menos visto como lugar de
reintegração.
Existem dois grandes problemas em a prisão assumir esse papel. O primeiro é um dos
princípios fundamentais da Constituição da República Federativa do Brasil, a “dignidade da pessoa
humana” (BRASIL, 1988), conforme o qual, mesmo sendo delinquentes, os sujeitos encarcerados
continuam sendo seres humanos que necessitam de cuidados e atenção. O segundo, por sua vez, é
de ordem estrutural e física, na medida em que é constantemente constatada a incapacidade que os
presídios brasileiros têm de comportar todas essas pessoas. O

conceito

de

reinserção,

para

Figueiredo Neto et al. (2009), diz respeito ao conjunto de atributos que permitem ao sujeito tornarse útil a si mesmo, à sua família e à sociedade. Com efeito, é importante considerar que o
fundamento da prática de reintegração é a assistência na aquisição de meios necessários para a
reinserção do sujeito na sociedade.
Desse ponto de vista, tanto as oportunidades de trabalho quanto os programas educativos e
de treinamento ocupacional para os apenados devem, em tese, reduzir a reincidência e ajudar o
apenado a se preparar para a procura de emprego quando liberado. Pode ser lembrado que o ócio
prisional é, frequentemente, visto como um fator estimulador de recidivismo (FANDIÑO
MARIÑO, 2002).

�193

Nesse contexto, devem ser pensadas políticas públicas que minimizem os efeitos agressivos
do aprisionamento, levando-se em conta que a pessoa condenada perde seu segundo maior bem, o
direito à liberdade, considerando-se que o primeiro é o direito à vida.
Com essa nova perspectiva, pode-se perceber e incentivar a valorização do sujeito, e de sua
capacidade de (re)adaptação de maneira positiva, o que acarretará em benefícios para ele, para a
sociedade e para o Estado. Segundo Faustino e Pires (2009), então, a finalidade da pena não está
apenas ligada à economia, mas também à esfera política, que visa ao controle e disciplina do
apenado, estando os dois vinculados, contribuindo para o mesmo objetivo, a saber, o entendimento
e aceitação das relações sociais vigentes.
As penitenciárias são, quase sempre, caracterizadas por falta de espaço, submissão de muitos
a poucos que detêm o “poder” interno, poucas condições que possibilitem a preferência por um
caminho alternativo e um sistema que os encaminha de volta ao ponto de onde partiram. Essa
situação, muitas vezes, agrega atributos intensificadores do comportamento inadequado que já
apresentavam. Fandiño Mariño (2002) afirma que a prisão tem induzido, ao invés de reduzido a
reincidência de prática delituosas, o que demonstra a falha da efetividade da prisão, que visa
recuperar esses sujeitos e reintegrá-los à sociedade.
Problemas de inúmeras ordens afetam diretamente todas as tentativas de reinserção dos
apenados e instauram a situação calamitosa que frequentemente assola os sistemas prisionais do
Brasil, que sobrevivem em condições precárias. A reincidência criminal é um dos grandes
problemas do sistema penitenciário e da sociedade como um todo. Para diminuí-la, o Estado se
utiliza das chamadas medidas ressocializadoras para os apenados tomarem consciência de si
mesmos e da sociedade em que se encontram inseridos.
A ressocialização, portanto, é de importância essencial para o Estado, visto que a
reincidência criminal afeta todos os setores da sociedade, inclusive o econômico. Porém, esta não é
uma preocupação que cabe somente ao ente estatal, embora as pessoas que vivem na sociedade
sigam como se o que acontece dentro das penitenciárias não fosse do interesse de todos, mas
exclusivamente a responsabilidade do Estado de punir aqueles que não merecem ser parte da
comunidade.
A ressocialização tem a potencialidade de devolver a dignidade humana àqueles que, dadas
as condições sociais, sequer acreditavam que um dia a possuíram. Por este motivo, a reintegração
do apenado é um dever de todos, cabendo, por conseguinte, averiguar se ela está sendo bem
planejada e aplicada, posto que, com medidas efetivas, pode-se começar a observar diminuição da
reincidência que envergonha o sistema prisional brasileiro.

�194

3 A LEITURA NO CÁRCERE: UMA PRÁTICA RESSOCIALIZADORA

Dadas as condições dos presídios brasileiros, as medidas ressocializadoras são alternativas
para impedir, ou pelo menos diminuir, o retorno dos sujeitos que cumpriram pena à prática
criminosa.
A leitura tem sido vista como uma medida ressocializadora que assume o papel de agente
restaurador ou até mesmo formador de estruturas basilares da educação de pessoas encarceradas.
Ocorre que muitos nunca tiveram acesso a um livro ou se viram capazes de ler, visto que a leitura é
largamente tida como prática e costume de pessoas afortunadas, sábias e inteligentes. Barroco
(2004, p. 83) afirma que “a leitura é, acima de tudo, uma construção de significados, apresentandose, portanto, a decodificação de grafemas apenas como um meio de acesso ao texto”. Essa
construção de significados é responsável por dotar a leitura de resultados positivos em ambientes de
ensino.
No cárcere, a leitura encontra morada por vários fatores; o principal deles é a superação do
ócio, dada a situação em que pouco ou nada se tem a fazer, contrapondo ao tempo longo em que
muitos presos permanecerão nesse ambiente. Por esse motivo, seguindo a já anteriormente citada
Recomendação nº 44 do CNJ, os sistemas prisionais em todo país têm instaurado a remição de pena
pela leitura. Mesmo que a principal intenção dos apenados, no início, seja apenas se livrar de uma
pena e esta não ser a ideal, é suficiente para que os benefícios da leitura comecem a aparecer.
Para além dos limites do ócio, Oliveira (2013) apresenta como benefícios da leitura a
otimização, a compreensão, o aprendizado e a experiência. O ato de ler amplia os horizontes e ajuda
na compreensão do porquê das coisas, tem a ver com as formas de expressão do sujeito, e é
responsável por ligar historicamente o leitor ao que é lido. Dessa forma, a leitura é um processo de
compreensão sensorial, emocional, intelectual, fisiológico, neurológico, cultural, econômico e
político. Trata-se de uma experiência pessoal e intransferível, sendo, portanto, a interpretação
submetida ao conhecimento, às experiências e à sensibilidade de cada um.
A leitura, então, transforma convicções subjetivas do leitor, mesmo aquelas que não se
mostram cotidianamente, mas que afetam consideravelmente sua forma de existir e ver o mundo, o
que, consequentemente, dirige suas ações e relações consigo mesmo e com a sociedade à que
pertence. Isso significa a compreensão de que uma das formas possíveis para recuperar a dignidade
outrora perdida pelos apenados é por meio da leitura, que auxilia no desenvolvimento do senso
crítico, na medida em que vai além da escolarização, mas faz com que os sujeitos envolvidos com
esse processo produzam sentido para suas vidas e construam conhecimento individual, de acordo
com a vivência de cada um.

�195

O ato de ler concretiza-se através da busca da velha informação e da nova informação. A
velha informação está directamente ligada aos designados schemata (esquemas cognitivos
associados a um dado conhecimento já armazenado e organizado), sendo o processo da
inferência que decide os esquemas a revelar para tratamento da nova informação
(BARROCO, 2004, p. 85).

Por esse motivo, apesar de algumas fragilidades porventura existentes nos projetos e nas
práticas de remição de pena pela leitura, podem-se considerar alguns resultados positivos do que a
leitura pode fazer por reeducandos em todo o Brasil. A leitura viabiliza junto aos apenados
reflexões acerca de como o mundo e a sociedade funcionam; é capaz de fazê-los entender que,
apesar de ser difícil encontrar espaço num sistema que parece repeli-los, é possível e
recompensador. O ato de ler é capaz de quebrar as correntes sociais a que eles estão presos e incitálos a almejar suas autonomias.
Para além da formação, a leitura pode afetar positivamente os sujeitos encarcerados em seu
processo de reformação. Por esse motivo, é importante que o Estado garanta as condições ideais, ou
o mais próximo disso, para que a leitura aconteça e possa cumprir seu papel. Essas condições são
compostas, entre outros, por materiais de trabalho, fontes de informação adequadas e tecnologias
que facilitem a prática de leitura. Além disso, os recursos humanos utilizados também são
importantes para que a leitura seja eficaz, ou seja, a presença de profissionais adequados para que
haja o incentivo à leitura, a seleção adequada de títulos, a organização e a disseminação dessa
literatura.
Com efeito, esta situação só pode ser concretizada diante de um estudo de usuários
igualmente bem elaborado e aplicado para que as fontes de informação sejam adequadamente
adquiridas, tornando-se indispensável a presença do bibliotecário. Além desse, se faz necessário o
espaço físico da biblioteca, que seja apresentado como local responsável por assegurar o saber,
promover a cultura, proporcionar o ócio e o lazer, e educar e formar (BARROCO, 2004). Com essas
condições, a leitura se torna um agente ressocializador de importância imensurável para aqueles que
almejam a reintegração na sociedade.

4 AGENTES RESSOCIALIZADORES NO CONTEXTO DA LEITURA

Conforme já discutido, a ressocialização dos apenados é um interesse de todos e a leitura,
um instrumento eficaz nesse processo. Nesse mesmo horizonte, as bibliotecas prisionais se tornam
indispensáveis para que o trabalho seja completo e os resultados, correspondentemente satisfatórios.

�196

Além dos benefícios para a sociedade, a biblioteca é um direito previsto por lei aos presos.
“[...] Em atendimento às condições locais, dotar-se-á cada estabelecimento de uma biblioteca, para
uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos”
(BRASIL, 1984). Tendo o Estado reconhecida a importância das bibliotecas em lei, deve-se,
portanto, manter sua posição e contribuir com as condições para implantá-las.
A biblioteca prisional é vista por muitos como um favor desmerecido aos apenados. Essa
infeliz perspectiva acaba por perpetuar o afastamento da responsabilidade do Estado e da sociedade
para com a ressocialização dos que se encontram encarcerados. Isso acontece porque, para muitos, a
biblioteca, num estabelecimento prisional, é um luxo a que a própria população livre não tem
acesso. E, talvez, por esse motivo, a biblioteca prisional como um direito dos presos é pouco ou
nada discutida. Esse estado de carência acarreta a sensação de que as penitenciárias que a possuem
receberam um favor do Estado, quando na verdade é apenas este ente cumprindo sua obrigação na
ressocialização do preso. Não se pode perder de vista que:
o direito à educação pressupõe de imediato o direito ao acesso à informação, uma vez que a
informação é parte do processo educativo. [...] A informação é um direito social do
indivíduo e o acesso a ela é exatamente esse direito de ser informado, o direito de saber das
coisas, numa linguagem muito simples (MORIGI; VANZ; GALDINO, 2002, p. 142).

Reconhecido o importante papel da leitura em ambientes prisionais, vem o questionamento
da necessidade de uma biblioteca. Afinal, para que tirar os presos das celas? A entrega dos livros
nas celas não é suficiente? Ocorre que a biblioteca não é apenas um local de guarda de livros, mas
um espaço de disseminação de informação e de cultura, que permite aos apenados um (re)acesso à
sua cidadania e à sua dignidade.
Apesar de se referir a bibliotecas públicas, é importante mencionar o amplo e fundamental
papel desta instituição apontado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura18 (UNESCO, 1994), ao afirmar que as bibliotecas devem promover a democracia, a paz, o
bem-estar, o repouso espiritual dos cidadãos, a tolerância, a pluralidade de pensamentos, a educação
para todos e o acesso a informações diversas.
Pode-se afirmar que, respeitando os limites do que é permitido para sujeitos em situação de
cárcere, os objetivos citados acima devem ser cumpridos também pela biblioteca prisional. A
relevância dessa instituição é reafirmada quando a LEP coloca como ponto a ser mensurado em

18

Acrônimo de United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. A UNESCO é uma agência
especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), fundada em 4 de novembro de 1946 e sediada em Paris, com
a finalidade de contribuir com a paz e segurança no mundo por intermédio do desenvolvimento e da implementação de
planos, projetos e ações de educação, ciência e cultura.

�197

censos penitenciários “[...] a existência de bibliotecas e as condições de seu acervo [...]” (BRASIL,
1984).
Outro ponto que vale a pena destacar é a Lei Federal de nº 13.163, de 9 de setembro de 2015,
que modifica a LEP e estabelece a oferta do Ensino Médio nas Penitenciárias. Por esse lado,
começa-se a pensar nos benefícios não apenas de uma biblioteca prisional para apenados, mas
também tudo que a biblioteca escolar pode fazer por eles na condição de alunos (COSTA et al.,
2016). O fato é que, sob essa perspectiva, esta biblioteca, agora com carga dupla de
responsabilidade, tem o dever de formar e reformar sujeitos por intermédio, respectivamente, da
assistência educacional e da reinserção social.
A biblioteca prisional não pode atuar como um repositório de livros; é preciso que seja um
organismo em crescimento, na concepção da quinta Lei de Ranganthan (2009) 19 e, por isso,
necessita passar por todos os processos técnicos e administrativos próprios de uma biblioteca, assim
como pelo trabalho de estudo de usuário e desenvolvimento de coleções.
É importante considerar que, além da biblioteca, faz-se necessária a presença de um
bibliotecário. Essa constatação decorre, além da existência de atividades privativas desse
profissional, da prática de complexos processos informacionais que envolve este tipo de instituição.
As bibliotecas que atendem a leitores em ambiente prisional, levando em consideração os
diferentes níveis de literácia e as condições em que se encontram, devem servir como
centros de informação, fornecendo recursos que supram as necessidades básicas de
informação, que compreendem a recuperação da informação, a leitura recreativa e a
aprendizagem. Tomando como referências as características da clientela, faz-se necessário
formar suas coleções, levando em consideração a questão da censura em relação ao direito
dos presos e, concomitante, a escolha adequada, de modo que esses conteúdos sejam úteis
no processo de transição do apenado ao convívio da sociedade (TONIN; SOUZA, 2014, p.
49).

Um leitor que se forma dentro do sistema prisional, possivelmente, será um leitor fora dele,
que procurará aprimoramento de seus conhecimentos e continuar ampliando seu acesso à
informação.
Morigi, Vanz e Galdino (2002, p. 141) chamam a atenção para a responsabilidade social da
biblioteca, mas também do bibliotecário, quando afirmam que “a informação é considerada um bem
simbólico e o seu acesso é essencial para que a cidadania se efetive de forma plena, sendo assim o
profissional deve colocar-se de forma ativa diante de sua responsabilidade social como educador”.
O bibliotecário precisa se colocar num local de agente transformador na atuação da biblioteca como
espaço de ressocialização dos sujeitos.

19

Também conhecidas como as Leis da Biblioteconomia, Ranganathan, a partir de estudos sobre as condições das
bibliotecas, desenvolveu cinco leis, a saber: os livros são para serem lidos, todo leitor tem seu livro, todo livro tem seu
leitor, poupe o tempo do leitor, e uma biblioteca é um organismo em crescimento (RANGANATHAN, 2009).

�198

Apesar de não constar explicitamente a necessidade de um bibliotecário em bibliotecas
prisionais, em seu art. 21, cap. V, a LEP se preocupa com as condições dos acervos de bibliotecas
penitenciárias como fator a ser observado nos censos sobre educação em prisões, visto que aquelas
seriam primordiais para o desenvolvimento dessas, e para o auxílio do preso em sua ressocialização
(BRASIL, 1984). Dessa forma, considera-se que, para a reeducação ser bem-sucedida dentro da
prisão, se faz necessária a presença do bibliotecário, pois ele é o profissional que consegue manter
um acervo em condições ideais para uso devido e melhor aproveitamento.
Assim como qualquer outra biblioteca, a prisional precisa realizar diversos serviços de
qualidade, tais como formação e desenvolvimento de coleções (seleção, aquisição, avaliação e
desbastamento), estudos de uso e de usuários, catalogação, classificação, atendimento aos usuários e
empréstimos, entre outros.
Não se pode perder de vista que os presos têm preferências literárias e se faz necessário o
incentivo, por meio de obras que possam ser de seu interesse. Por isso, é preciso uma seleção de
livros adequados baseada num estudo de usuário que leve em consideração a situação peculiar em
que se encontra cada um deles, mas, acima de tudo, que os leve para o caminho do que é
considerado correto, que os incentive a procurar uma nova forma de viver e os leve a reflexões de
onde estão e para onde querem ir.
Coincidência ou não, um dos livros mais requisitados pelos internos das quatro
penitenciárias federais é “Crime e castigo”, de Dostoiévski. Um clássico da literatura
mundial, a obra conta a história de um jovem que enfrenta dilemas morais e existenciais
após decidir matar uma agiota. “Nota-se, nessa obra, a que ponto o ser humano pode chegar
por causa do dinheiro”, escreveu um detento em uma resenha sobre o livro. “Crime e
castigo” foi a primeira obra a ser doada para o projeto, que foi criado em 2009 na
Penitenciária Federal de Catanduvas (PR). A doação partiu de juízes federais do Paraná.
Desde então, se espalhou por diversas cadeias pelo país (LINDEMANN, 2017).

É reconhecida a relevância de estudo de usuário completo que leve em consideração as
condições de privação, mas ainda que faça com que o gosto do leitor tenha relevância. O
bibliotecário possui duas principais atribuições em bibliotecas: primeiro, e mais conhecida (ainda
que aquém do ideal), é a técnica, por meio de atividades como as já citadas; a segunda tem a ver
com o trabalho social do bibliotecário, que vai desde a promoção do acesso à informação, passando
pelo fomento da leitura e a formação de leitores, à potencialização do resgate da autonomia e da
construção da cidadania (COSTA et al., 2016).
Os serviços bibliotecários permitem aos prisioneiros o uso mais proveitoso de seu tempo,
como também lhes possibilitam ampliar seus desenvolvimentos pessoais e obter conhecimentos
gerais que contribuam para aliviar a tensão do enclausuramento. Porém, até os próprios
bibliotecários parecem desconhecer esse fato, e agem como se suas obrigações fossem meramente
técnicas e como se a sua própria responsabilidade social fosse nula.

�199

A falta de um bibliotecário fere o processo de ressocialização e faz com que o trabalho da
biblioteca e, consequentemente, da leitura seja sofrido e que atue de forma superficial, e, ainda, que
alguns objetivos sejam alcançados. Assim, sem a atuação profissional, não é possível a
consolidação do papel desses para a ressocialização em larga escala, atingindo a totalidade dos
presos que se propõem a ler.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ressocialização dos sujeitos em cumprimento de pena é a medida a ser tomada para a
redução do recidivismo criminal, pois é por meio dela que os sujeitos serão realocados na sociedade
e encontrarão seu espaço de forma legal. O sucesso da ressocialização dentro dos presídios
influencia a sociedade como um todo de forma positiva, pois, além de desafogar o sistema prisional,
devolve a dignidade do apenado, diminui custos do governo e diminui a criminalidade na
comunidade, visto que o ex-apenado não será mais um perigo para a sociedade, desde que o
processo de reinserção seja efetivo.
Na medida em que a ressocialização é um benefício de todos, passa a ser responsabilidade
não só do sistema prisional, mas da sociedade em geral. Primeiro, o Estado na condição de provedor
deve munir o sistema das condições necessárias para a efetivação dos processos necessários. A
sociedade tem o papel de acompanhar e cobrar do Estado medidas e condições melhores na
execução do processo. E, complementarmente, os apenados, que devem utilizar todos os benefícios
que lhes são oferecidos de forma responsável, para melhor aproveitamento dos recursos do Estado.
A leitura, nesse processo, é vista sob uma perspectiva de prática transformadora de caráter e,
consequentemente, de vidas e destinos, na medida em que, por intermédio dela, o preso encontra
libertação mental, quando consegue se ver fora dos muros do encarceramento a partir de sua
imaginação. A leitura proporciona conhecimento, entretenimento, resgate à dignidade, incentivo à
educação, melhora no vocabulário e aprimoramento da escrita dos sujeitos encarcerados. Além de
promover a reflexão acerca de suas condições e do ambiente em que se encontra, a leitura pode
auxiliar o sujeito na compreensão da sociedade em que se insere, do papel que ele assumia como
delinquente e, como contraponto, do papel que ele pode vir a assumir na condição de sujeito
reformado pelo Estado. Por esses e outros motivos, a leitura é considerada uma das medidas
eficazes de ressocialização de apenados em todo o país.
A biblioteca e o bibliotecário se apresentam como componentes das condições necessárias à
efetiva ação da leitura como medida ressocializadora. A biblioteca atua como local de reinserção na

�200

cultura, cujos apenados conseguem exercitar sua capacidade de escolha e seu senso de
responsabilidade para com o patrimônio estatal. Com a visita à biblioteca, o preso começa a se
familiarizar com o convívio fora das celas e tem acesso aos serviços oferecidos pela biblioteca
prisional, que pode ser uma biblioteca escolar, visto que muitos dos apenados concluem seus
estudos dentro da prisão.
O bibliotecário, por sua vez, vem como um agente capaz de possibilitar o melhor
aproveitamento do espaço da biblioteca e da leitura, visto que sua presença otimiza o tempo do
leitor, por meio de diversos serviços. A atuação desse profissional é de importância fundamental
para a prática da leitura, desde a seleção de títulos que sejam adequados e desejáveis, até a atuação
social do profissional, que ajudará a devolver a dignidade desses sujeitos.
A biblioteca, o bibliotecário e a leitura considerados em conjunto podem fazer com que a
experiência carcerária seja menos ociosa, e mais proveitosa, na forma como incentiva os presos ao
encontro com a informação que necessitam, que os levará para reflexões e lugares que antes não
tiveram oportunidade de estar. Há, contudo, um processo de exclusão, porque, embora querendo
participar, o sujeito não encontra em si mesmo condições para isso, por não saber ler, escrever ou
até organizar as ideias em um texto. A rigor, alguns apenados permanecem sem oportunidade de
recuperar o tempo e a informação que perderam. Dessa forma, os projetos de remição de pena pela
leitura não podem ser desvinculados da educação básica, na medida em que ela dará condições
necessárias para essa participação.
Para aperfeiçoamento dos projetos de remição de pena pela leitura, é imprescindível a
participação do bibliotecário para que, numa relação interdisciplinar entre Biblioteconomia, Ciência
da Informação, Direito, Psicologia, Serviço Social e áreas afins, considere-se o contexto cultural e o
regime de informação do ambiente prisional. Essas condições, certamente, promoveriam a melhor
qualificação e o maior aprofundamento na execução dos projetos, sendo possível, assim, o alcance
de resultados melhores e de maior abrangência.

REFERÊNCIAS

BARROCO, J. A. Bibliotecas escolares e formação de leitores. Braga, 2004.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF:
Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.
BRASIL. Presidência da República. Decreto-lei nº 12.433, de 29 de junho de 2011. Altera a lei
7.210 de 11 de julho de 1984. Disponível em: &lt;http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20112014/2011/lei/l12433.htm&gt;. Acesso em: 16 dez. 2018.

�201

BRASIL. Presidência da República. Lei nº. 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de
Execução Penal. Disponível em: &lt;http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L7210.htm&gt;. Acesso
em: 22 ago. 2018.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Recomendação nº 44, de 26 de novembro de 2013.
Dispõe sobre atividades educacionais complementares para fins de remição da pena pelo estudo e
estabelece critérios para a admissão pela leitura. Brasília, DF, 2013. Disponível em:
&lt;http://www.cnj.jus.br/busca-atos-adm?documento=1235&gt;. Acesso em: 15 abr. 2018.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Remição pela leitura já é realidade em diversos presídios
brasileiros. CNJ Conselho Nacional de Justiça, 30 jun. 2015. Disponível em:
&lt;http://cnj.jus.br/noticias/cnj/79760-remicao-pela-leitura-ja-e-realidade-em-diversos-presidiosbrasileiros&gt;. Acesso em: 15 dez. 2018.
COSTA, A. et al. Bibliotecas prisionais catarinenses e ausência do bibliotecário. Revista ACB:
Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v. 21, n. 3, p. 874-886, ago. 2016. Disponível
em: &lt;https://revistaacb.emnuvens.com.br/racb/article/view/1256/pdf&gt;. Acesso em: 09 dez. 2018.
CUNHA, E. L. Ressocialização: O desafio da educação no sistema prisional feminino. 2010. 21f.
Tese (Doutorado) - Curso de Letras, Universidade Estadual Paulista, Campinas, 2010. Disponível
em: &lt;http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v30n81/a03v3081.pdf&gt;. Acesso em: 18 jun. 2018.
DURKHEIM, E. Educação e Sociologia. Rio de Janeiro: Melhoramentos e Fundação Nacional de
Material Escolar, 1978.
FADIÑO MARIÑO, J. M. Análise comparativa dos efeitos da base socioeconômica dos tipos de
crime e das condições de prisão na reincidência criminal. Sociologias, Porto Alegre, n. 8, p. 220244, jul. 2002. Disponível em: &lt;http://www.scielo.br/pdf/soc/n8/n8a10&gt;. Acesso em: 07 jun. 2018.
FAUSTINO, E. R.; PIRES, S. R. A. A ressocialização como finalidade da prisão: algumas
considerações sobre seu significado. Sociedade em debate, Pelotas, v. 2, n. 15, p. 91-109, jun.
2009. Disponível em: &lt;http://revistas.ucpel.tche.br/index.php/rsd/article/view/355/312&gt;. Acesso
em: 15 dez. 2018.
FIGUEIREDO NETO, M. V. et al. A ressocialização do preso na realidade brasileira: perspectivas
para as políticas públicas. Âmbito jurídico, Rio Grande, 2009. Disponível em:
&lt;http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&amp;artigo_id=6301&gt;. Acesso em: 19
ago. 2018.
FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 32. ed. São Paulo:
Cortez, 1996.
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Sociologia geral. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
LINDEMANN, C. Livros que libertam: detento bate record no Programa Remição pela Leitura.
Biblioteconomia social, maio, 2017. Disponível em:
&lt;https://biblioteconomiasocial.blogspot.com/2017/05/livros-que-libertam-detento-baterecord.html&gt;. Acesso em: 07 dez. 2018.
MIRABETE, J.; FABBRINNI, R. N. Manual de direito penal. 31. ed. São Paulo: Atlas, 2015.

�202

MORIGI, V. J.; VANZ, S. A. S.; GALDINO, K. O bibliotecário e suas práticas na construção da
cidadania. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v. 7, n. 1, p.134-147,
jan. 2002. Disponível em: &lt;http://www.brapci.inf.br/index.php/article/download/11082&gt;. Acesso
em: 11 dez. 2018.
OLIVEIRA, R. H. S. Leitura que liberta: uma análise sob a ótica da portaria conjunta 276/12 de
remição pela leitura. Cadernos da Escola de Direito e Relações Internacionais, Curitiba, v. 1, n.
19, p.66-94, jan. 2013. Disponível em:
&lt;http://portaldeperiodicos.unibrasil.com.br/index.php/cadernosdireito/article/view/3028&gt;. Acesso
em: 20 jan. 2018.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA
(UNESCO). Manifesto da IFLA/UNESCO sobre as bibliotecas públicas 1994. Paris, 1994.
RANGANATHAN, S. R. As cinco leis da Biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos/Livros,
2009.
SETTON, M. G. J. A particularidade do processo de socialização contemporâneo. Tempo social:
revista de sociologia da USP, São Paulo, v. 17, n. 2, p. 335-350, nov. 2005. Disponível em:
&lt;http://www.scielo.br/pdf/ts/v17n2/a15v17n2&gt;. Acesso em: 12 set. 2018.
TONIN, J. H. C.; SOUZA, E. D. A seleção de fontes de informação em bibliotecas prisionais do
Estado de Alagoas: do direito às condições de acesso à informação do usuário apenado. Ciência da
Informação em Revista, Maceió, v. 1, n. 1, p. 47-63, jan./abr. 2014. Disponível em:
&lt;http://www.seer.ufal.br/index.php/cir/article/download/1303/904&gt;. Acesso em: 15 abr. 2018.

�203

CAPÍTULO XIV
A FUNÇÃO DA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA NAS REGIÕES INACESSÍVEIS AO
CONHECIMENTO

Igor de Souza Bento
Ana Carolina Silva da Cunha
Gleice Pereira

1 INTRODUÇÃO

Na antiguidade, o homem já criara meios de registrar o conhecimento para que auxiliasse as
gerações futuras na sobrevivência e no desenvolvimento. A informação com o passar do tempo e
com o avanço tecnológico teve vários tipos de formatos, desde seu início com pinturas rupestres até
a atualidade com documentos digitais.
Vivemos na sociedade do conhecimento, em que a mesma pessoa o consome, produz e
disponibiliza em rede via youtube, facebook, twitter ou outras ferramentas, as quais criam novos
valores, porém, o conhecimento encontra-se fragmentado. Segundo Morin (2013), em tais
condições, as mentes jovens perdem suas aptidões naturais para contextualizar os saberes e integrálos em seus conjuntos.
Por meio da análise à história da humanidade, a biblioteca se mostrou palco das mudanças
de pensamento da sociedade e até a atualidade seu poder não pode ser despercebido mesmo perante
uma sociedade permeada de links e informações que aumentam “vertiginosamente nos bancos de
dados, nos hipertextos e nas redes” (LÉVY, 1999, p. 13).
Para isso, precisamos traçar um panorama da sociedade atual e os desafios contemporâneos
e como a biblioteca pode auxiliar nas incessantes mudanças da humanidade. A biblioteca
comunitária é um importante centro de disseminação da informação, incentivo à leitura e de acesso
democrático.
Também possui grande potencial incentivador de desenvolvimento da fala e escrita de
crianças e adultos de uma comunidade, além de, no caso de biblioteca já informatizada, ser uma
grande chance de inclusão digital para seus frequentadores. A biblioteca comunitária fornece a seus
usuários espaço para pesquisa e estudo; oferece o resgate da cultura popular e proporciona
autonomia na busca, cabendo somente ao usuário avaliar o que é mais relevante para a sua pesquisa.

�204

A biblioteca comunitária quando bem estruturada e com o acervo atualizado para atender
todas as possibilidades de busca, tende a cativar o leitor e conquistar sua frequência no ambiente.
Nesse espaço, é importante que o mediador se mostre sempre solícito e disposto a oferecer um
serviço de qualidade. Desse modo, o usuário adquire, cada vez mais, independência em suas buscas,
podendo realizá-las posteriormente sem supervisão. A biblioteca comunitária valoriza a
comunidade, promove o exercício da cidadania, não há diferença social, todos possuem o mesmo
acesso à informação, o que incentiva a educação.
Objetiva-se, neste estudo, conceituar o que vem a ser uma biblioteca comunitária, buscando
analisar a potência dessa unidade de informação como disseminadora, e realizar um breve relato
acerca da realidade de uma dessas instituições e o acesso à informação que a mesma oferece.
O interesse pela abordagem do tema biblioteca comunitária surgiu ao realizarmos no ano de
2015 uma visita técnica à Biblioteca Comunitária do Bairro Laranjeiras, cidade de Serra, Estado do
Espírito Santo, em que foi possível presenciar, no momento da visita, o admirável trabalho sendo
realizado, e vimos a importância dessa biblioteca para a comunidade, na qual está localizada, e o
número significativo de usuários atendidos diariamente.
Assim, buscou-se realizar um estudo de caso na biblioteca comunitária de Laranjeiras,
utilizando o método de entrevista estruturada, com visita in loco para realizar a coleta de dados,
sendo a análise dos dados de teor qualitativo.

2 DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO À INFORMAÇÃO

Dilúvio, assim exemplifica Lévy (1999), relacionando o evento bíblico a atual quantidade de
informação acessível à maioria das pessoas. Do século XX voltado para produção de tecnologia, a
sociedade da informação passou a ser a sociedade do conhecimento no século XXI, produzindo
conhecimento em tempo real, desfazendo antigas estruturas de poder, ao mesmo tempo em que deu
luz às novas.
Mesmo com grandes avanços tecnológicos e científicos, com dados tão importantes sendo
acessados, desaprendemos lidar com a vida e nosso relacionamento com os outros, ao buscarmos
respostas às dificuldades enfrentadas; notamos que cada tempo do saber aponta uma direção; esse
fenômeno ocorre, pois, o conhecimento produzido encontra-se fragmentado e desconexo e mesmo
utilizando ferramentas de alto poder de recuperação, selecioná-las de forma adequada se torna um
desafio (MORIN, 2001; MOSÉ, 2013).

�205

Além do aumento de informação, há o aumento populacional, aproximando, cada vez mais,
os excluídos. Observamos, assim, os desdobramentos de um movimento que começou há muitos
anos em todas as esferas da sociedade. Portanto, cabe a nós,
[...] apenas que permaneçamos abertos, benevolentes, receptivos em relação à novidade,
que tentemos compreendê-la, pois a verdadeira questão não é ser contra ou a favor, mas sim
reconhecer as mudanças qualitativas na ecologia dos signos, o ambiente inédito que resulta
da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural (LÉVY, 1999, p.
12).

Morin (2003) enfatiza a necessidade de “uma cabeça bem-feita”, que não devemos apenas
acumular o saber sem primeiro selecionar e organizar de forma que tenha sentido, e em vez de
acumular o saber, o que realmente importa é dispor ao mesmo tempo de aptidão geral para colocar e
tratar os problemas e de princípios de organização que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido.
Criada junto com a democratização do acesso à informação e produção de conhecimento, a
proposta do sistema de ensino tem induzido a redução e fragmentação da complexidade ao simples,
pois fraciona os problemas, eliminando, assim, as oportunidades de um julgamento corretivo ou de
uma visão a longo prazo.
A informação é a base do conhecimento; sem ela não adquirimos o saber. Segundo Barreto
(1994, p. 1),
a informação, quando adequadamente assimilada, produz conhecimento, modifica o
estoque mental de informações do indivíduo e traz benefícios ao seu desenvolvimento e ao
desenvolvimento da sociedade em que ele vive.
Assim como agente mediador na produção do conhecimento, a informação qualifica-se, em
forma e substância, como estruturas significantes com a competência de gerar
conhecimento para o indivíduo e seu grupo.
A questão que se coloca agora é a de como se trabalhar com a informação enquanto
estruturas significantes, no sentido de direcioná-la ao seu propósito de produtora de
conhecimento para a sociedade. Como se organiza, controla e distribui de maneira correta,
política e socialmente, a informação, considerando a sua ingerência na produção do
conhecimento.

As bibliotecas públicas, incluindo, é claro, a biblioteca comunitária, tem um papel enorme
na educação de seus usuários, visto que é um espaço onde se encontra acesso à informação para o
desenvolvimento do conhecimento. Dessa forma, a biblioteca contribui para o letramento
informacional, que surge a partir do momento que se observa a demanda de auxiliar as pessoas a
desenvolver habilidades e competências na busca e recuperação da informação, tornando-as capazes
de aprender de forma autônoma ao longo da vida.
Serviços de referência e de educação de usuários foram criados para auxiliar os leitores a
entender a estrutura peculiar daquele espaço e a lidar com as fontes de informação ali existentes.
Segundo Campello (2009), focalizar as competências das pessoas e não no serviço da biblioteca,
contribui para a aprendizagem. Esse cuidado do bibliotecário é refletido na maneira como a

�206

informação é disponibilizada ao usuário, e seu interesse em conhecer como seu público acessa
aquela informação.
“O desenvolvimento da inteligência geral requer que seu exercício seja ligado à dúvida,
fermento de toda atividade crítica [...], o conhecimento comporta, ao mesmo tempo, separação e
ligação, análise e síntese” (MORIN, 2003, p. 22-24). A leitura crítica pode propiciar esse ambiente
de desenvolvimento.
A leitura verdadeira me compromete de imediato com o texto que a mim se dá, e a que me
dou, e cuja compreensão fundamental me vou tornando também sujeito. Ao ler não me
acho no puro encalço da inteligência do texto como se fosse ela produção apenas de seu
autor ou de sua autora (FREIRE, 1996, p. 15).

A partir do momento em que nos envolvemos com novos pontos de vista, por meio da
leitura, adentramos em um “mundo novo”. A esse respeito, Sartre (2008, p. 78) declara que:
[...] quando todos os caminhos estão barrados, a consciência precipita-se no mundo mágico
da emoção, precipita-se por inteiro, degradando-se, ela é nova consciência diante do mundo
novo, com essa presença a si mesma, sem distância, de seu ponto de vista sobre o mundo.

É necessário, portanto, estar em contato com os mais diferentes tipos de conhecimento. As
bibliotecas, que por décadas se mostraram símbolo do saber para uma minoria rica e dominante, por
volta do século VXIII, passa a abrir as suas portas a todos. Para Foucault (1997 apud
LAPLANTINE, 2006, p. 1),
antes do final do século XVII, o homem não existia, como também o poder da vida, a
fecundidade do trabalho ou a densidade da linguagem, é uma criatura muito recente que o
demiurgo do saber fabricou com suas próprias mãos há menos de duzentos anos [...] uma
coisa em todo caso é certa, homem é uma invenção e a arqueologia de nosso pensamento
mostra o quanto é recente, e quão próximo talvez seja seu fim.

Dentre os vários tipos de bibliotecas, destacamos a biblioteca comunitária pela proximidade
com os usuários e pela característica de surgir ou ser implantada no bojo de uma comunidade que,
em um dado momento, conscientizou-se que a informação traria mudanças significativas a seus
utilizadores.

3 BIBLIOTECA COMUNITÁRIA: O QUE É?

Primeiramente, para que se discorra sobre biblioteca comunitária é necessário entendermos
o que viera ser uma comunidade, e, por definição, comunidade é estado do que é comum, ou seja,
um agrupamento social que se caracteriza por acentuada coesão baseada no consenso espontâneo
dos indivíduos que o constituem. Bauman (2003, p. 7-8) define comunidade como:

�207

[...] um lugar “cálido”, um lugar confortável e aconchegante [...] lá fora, na rua, toda sorte
de perigo está à espreita, temos que estar alertas quando saímos, prestar atenção com quem
falamos e a quem nos fala, estar de prontidão a cada minuto [...] Aqui, na comunidade
podemos relaxar – estamos seguros, não há perigos ocultos em cantos escuros (com certeza,
dificilmente um “canto” aqui é “escuro”).

No delinear da história, foi notada a necessidade de reunir as informações, com o fim de
produzir conhecimento. Com isso, surgiu a biblioteca, uma organização de caráter cultural com
acervo de informação organizado e que presta serviços informacionais à comunidade, que
corresponde ao alvo de seu trabalho (CAVALCANTI; CUNHA, 2008). Na definição tradicional, é
um espaço físico em que se guardam livros, porém a mesma possui uma complexidade superior a
essa definição: a biblioteca é todo espaço – físico, virtual ou híbrido – destinado a uma coleção de
informações que se encontra nos mais diversos formatos como o impresso, digital, 3D, dentre
outros.
As tipologias ou modalidades de unidade de informação são determinadas pelas funções e
serviços ofertados pela mesma, pela comunidade a que se destina, e pela instituição em que ela está
vinculada. Essas unidades podem ser de critério multidisciplinar, ou seja, aquelas que atendem o
público em geral, ou podem ser específicas e possuir conteúdo especializado em determinada área
do conhecimento e atingir um público-alvo, também, bem delimitado. Dentre os principais tipos de
bibliotecas existentes, podemos listar a pública, universitária, comunitária, escolar e especializada.
Segundo Machado (2008), as bibliotecas comunitárias e os espaços públicos de informação
foram as maneiras com que a comunidade encontrou para levar acesso à informação para seus
membros e também de combater as desigualdades sociais.
A biblioteca comunitária é um importante agente social, que auxilia no desenvolvimento
intelectual da comunidade, pelo fato de possuir interface de atendimento direto com os usuários e
permitir uma interação dos mesmos no que diz respeito ao acesso, trazendo, assim, possíveis
crescimentos pessoais, intelectuais e profissionais para os freqüentadores, a maioria, membros
pertencentes à comunidade.
De acordo com Machado (2009, p. 6),
objetivamente, essas bibliotecas devem criar mecanismos para colaborar no
desenvolvimento da sua comunidade, potencializando os próprios talentos dos indivíduos e
das comunidades, constituindo-se como espaços públicos voltados para emancipação, onde
a prática cidadã possa aflorar de forma inovadora, criativa e propositiva. Nessa linha de
pensamento, pudemos identificar algumas particularidades que as distinguem da biblioteca
pública: a forma de constituição: são bibliotecas criadas efetivamente pela e não para a
comunidade, como resultado de uma ação cultural; a perspectiva comum do grupo entorno
do combate à exclusão informacional como forma de luta pela igualdade e justiça social; o
processo de articulação local e forte vínculo com a comunidade; a referência espacial:
estão, em geral, localizadas em regiões periféricas; e, o fato de não serem instituições
governamentais, ou com vinculação direta aos Municípios, Estados ou Federação.

�208

Cidadania é um status concedido àqueles que são elementos integrais de uma comunidade
(TARGINO, 1991). Observamos, porém, que não há mais limites Estado-nação; podemos dizer que,
atualmente, há um cidadão do mundo proveniente da globalização e relação diferente de espaço.
Sobre a reforma do pensamento,
[...] além disso, todos os problemas particulares só podem ser posicionados e pensados
corretamente em seus contextos, e o próprio contexto desses problemas deve ser
posicionado, cada vez mais no contexto planetário (MORIN, 2003, p. 14).

A aprendizagem também deve oferecer a possibilidade de contextualizar, ter espaço ao
debate e também deve contribuir para o enraizamento de cada sujeito na sua história e cultura
vinculando-o a história da humanidade e do próprio mundo. O sistema capitalista em seu estímulo
ao consumo continua a cercear a informação apenas para os que possam pagar por ela. A biblioteca
deve acentuar seu caráter cultural, diversificando seus serviços e dispondo de informação utilitária,
para benefício de seu público-alvo. Como nos lembra Targino (1991, p. 1),
[...] é preciso conscientizar o bibliotecário de que o objeto de sua profissão é a informação e
de que ele deve agir como catalisador e difusor do conhecimento dentro da comunidade,
advindo daí seu potencial político como autor de mudanças sociais. É urgente transformar o
bibliotecário em instrumento de democratização da informação [...] cumpre-nos então,
neste momento, exercer nossa função de educador, dentro de determinados objetivos
definidos democraticamente pela comunidade [...].

Apesar dos autores pioneiros no tema bibliotecas comunitárias contextualizarem sobre o
fato de a biblioteca comunitária ser criada a partir de insumos da própria comunidade, Todêska
(1984, p. 18) afirma que “[...] são raríssimos no país inteiro os casos de bibliotecas que tenham, de
fato nascido por iniciativa da comunidade, e mais ainda, tenham-se desenvolvido de acordo com os
interesses e necessidades dessa mesma comunidade”.
Em meio a esses raríssimos casos, podemos destacar a biblioteca comunitária de Laranjeiras,
pois, a mesma, segundo relatos de profissionais que ali atuam desde seu nascimento, surgiu por total
interesse da própria comunidade, ou seja, feito pelos moradores para atender as necessidades da
própria comunidade.

4 BIBLIOTECA COMUNITÁRIA DE LARANJEIRAS

A história do bairro Parque Residencial Laranjeiras começou com a chegada dos primeiros
moradores no final do mês de abril de 1978, ocasião em que as unidades habitacionais começaram a
ser entregues aos seus compradores, nesse caso, denominados de cooperativados.

�209

É necessário notar a natureza de cooperativa habitacional desse conjunto residencial, tendo
como

órgão

administrador

a

Cooperativa

Habitacional

dos

Trabalhadores

Capixabas

(COOPHABCAP), estando a orientação técnica dessa cooperativa a cargo do Instituto de
Orientação às Cooperativas Habitacionais do Espírito Santo (INOCOOPES) - que dirigiu, no caso,
o processo de formação dessa cooperativa.
Logo no primeiro mês de vivência, a população residente, de forma espontânea, começou a
fazer referência aos problemas de infraestrutura existentes, tais como: transporte coletivo deficiente,
água potável em condições inadequadas ao consumo, segurança pública, telefones públicos,
ausência de calçadas nas ruas, áreas públicas de lazer, escola pública, manutenção de áreas verdes,
asfaltamento deficiente, dentre outros problemas de importância para comunidade. Assim,
convocou-se uma reunião para que os moradores discutissem essas questões e apontassem formas
mais eficientes de encaminhamento. Nessa primeira reunião, constatou-se a necessidade de
organizar a população em torno de uma associação dos moradores. Inicialmente, foi formada uma
comissão provisória de seis membros para já encaminhar as reivindicações levantadas, proceder a
organização da associação dos moradores e apresentar um anteprojeto de Estatutos.
A Associação de Moradores do Parque Residencial Laranjeiras foi oficialmente fundada no
dia 23 de julho de 1978, cujo objetivo principal era o de assegurar os moradores do bairro a
efetivação dos seus direitos fundamentais, buscando solução dos problemas, promovendo o seu
desenvolvimento comunitário e proporcionando a seus associados condições para realização das
funções de habitar, trabalhar, recrear, desenvolver e manifestar.
Pela necessidade expressa pelos próprios moradores, surgiu a ideia inicial da criação de uma
biblioteca no centro comunitário, que seria um espaço para leitura, pesquisa e empréstimo.
Aprofundando-se mais da necessidade da comunidade, entendeu-se que o tipo de biblioteca a ser
desenvolvida não poderia ser da forma tradicional e sim, uma biblioteca viva, dinâmica,
participativa, vinculada a todas as iniciativas culturais e reivindicativas do bairro.
Estipulou-se como objetivo de a biblioteca ser realmente comunitária, participando das lutas
contra tudo aquilo que causasse impedimento da realização cultural da comunidade. A intenção foi
de transformar a biblioteca comunitária no centro cultural do bairro, onde se concentrasse todas as
iniciativas da comunidade e apoio às novas manifestações culturais populares.
Quando se tornou difundida a ideia da criação da biblioteca comunitária, obteve-se todo o
apoio do bairro e de pessoas de fora, materializando em inúmeras doações de livros, bem como, o
incentivo e a colaboração, não só com doações de livros, mas também, com conhecimentos técnicos
oriundos da Biblioteca Pública Estadual e da Associação dos Bibliotecários.

�210

Em 31 de outubro de 1981, foi realizada, no Centro Comunitário da Associação de
Moradores, uma festa para o ato de fundação da Biblioteca comunitária, que contou com o apoio do
Departamento Estadual de Cultura e uma programação com diversas apresentações culturais.
Em sua estrutura real, a biblioteca comunitária pertence à associação de moradores, é
patrimônio do bairro, politicamente livre, independentemente de qualquer conotação políticopartidária, sendo que as decisões tomadas para seu fundamento e administração partem da própria
comunidade.
O movimento diário é constante, pois todos os integrantes da comunidade podem fazer uso dos
serviços dessa unidade de informação, desde o empréstimo ao uso de internet gratuita.

5 O COTIDIANO DA BIBLIOTECA

Foi realizada uma entrevista estruturada com uma colaboradora da Biblioteca Comunitária
de Laranjeiras, buscando ouvir relatos sobre o nascimento da biblioteca e a sua jornada de atuação
até os dias de hoje. Os resultados dessa investigação são apresentados, a seguir.

- Porque as bibliotecas comunitárias, em geral, têm dificuldades em se firmarem?
- Porque no geral elas são mantidas pela associação de moradores; no entanto, quando muda a chefia da associação
surgem novos interesses; alguns têm consciência da importância da biblioteca, e outros não. Um exemplo claro deste
fenômeno pode ser constatado no bairro Feu Rosa do mesmo município; existia a biblioteca comunitária, mas, quando
mudou a chefia da presidência do bairro houve conflitos de interesses e a biblioteca foi fechada, pois na visão da nova
gestão, a mesma não era relevante.

- A política interfere na criação e mantenimento dessas bibliotecas?
- Infelizmente em sua normalidade a política do nosso país não favorece a educação. Em diversas questões podemos
constatar a influência da mesma na educação e no acesso à informação, e com pesar digo que ela tem grande
influência e na maioria das vezes não favorável. Também existem muitas disputas de poder de ego.

- A que se atribui a longa permanência da biblioteca aqui no bairro Laranjeiras?
- A biblioteca nos primórdios de sua existência era administrada pelos próprios moradores do bairro. Em seguida por
necessidade e exigência da chefia da associação de moradores da época foi contratado um bibliotecário, que teve
grande influência no desenvolvimento da biblioteca. Passado algum tempo com a mudança da chefia da associação, o
profissional foi desligado; logo em seguida fui convidada a atuar nessa unidade, e com bastante louvor me orgulho do
trabalho que aqui exerço até os dias atuais. Fui muito bem recebida pela comunidade; pude contar com o apoio de
todos. Grande foi minha satisfação ao atuar na Biblioteca Comunitária de Laranjeiras; já tive a oportunidade de me
aposentar, porém, devido ao amor às atividades que exerço, não o fiz; ainda não estou pronta para me desvincular da
biblioteca, e o fato de não haver outro profissional preparado para me substituir pesou na minha decisão de adiar

�211
minha aposentadoria. Existem profissionais contratadas da associação que me auxiliam durante determinado período
de funcionamento da biblioteca. Retomando o foco da pergunta, acredito eu que a biblioteca permanece em
funcionamento até os dias de hoje devido ao grande interesse por parte da própria comunidade.

- Sobre o acervo...
- A biblioteca recebe doações entregues diretamente nela. No início seus colaboradores eram os próprios moradores
por meio de ações voluntárias, pois nas esquinas das ruas do bairro eram colocadas caixas, e os moradores
depositavam ali os livros doados, e a associação disponibilizava um veículo que passava recolhendo as doações. Logo
mais adiante com a mudança da liderança da associação de moradores, foi percebida a importância da biblioteca e a
necessidade de um profissional da informação para gerenciar essa unidade. 90% do acervo da biblioteca é constituído
por doações.

- Como é feita a manutenção da biblioteca e do seu acervo?
- Não há verba disponibilizada diretamente para investir na biblioteca. No início, a prefeitura financiava as
assinaturas de jornal, porém este benefício foi cortado. Atualmente, a biblioteca consegue manter as assinaturas
graças a uma máquina de xerox, que é cobrado um valor simbólico pelo serviço de cópias e isso contribui na renda da
biblioteca; os demais custos de funcionamento são custeados pela associação de moradores; não é direciona verba
periodicamente para renovação de acervo e manutenção da estrutura física da biblioteca, sendo os frutos do lucro com
o serviço de cópias revertidos em pequenos reparos e aquisição de alguns livros para compor o acervo.

- Como é o dia-a-dia da biblioteca? Existe algum quantitativo de usuários atendidos
diariamente?
- Em média são atendidas cerca de oitenta pessoas por dia. O atendimento ao usuário desta unidade se diferencia de
certa forma das tradicionais unidades de informação. O primeiro paradigma quebrado é que não existe silêncio na
biblioteca, pois, para que seja funcional, a mesma precisa ser atrativa para seus usuários; na maioria dos casos os
atendimentos aos usuários são todos bem-sucedidos.

- Qual o diferencial no atendimento aos seus usuários?
- O nosso acervo é organizado de maneira a atender com exatidão e rapidez os nossos usuários, por exemplo, um livro
de biografia que são “romanceados”, mas, a biografia é pouco procurada, e a partir da experiência diária sei que o
mesmo fica melhor localizado em um local destinado a baixa demanda, então o coloco nas estantes menos utilizadas
objetivando a dinamização do acervo e a economia de espaço nas estantes com localização mais estratégica. Outro
exemplo para que se compreenda a organização do nosso acervo, seria o da seção de ocultismo, que possui
determinada localização, porém, devido a tendências momentâneas os romances mediúnicos começaram a chegar em
grande quantidade, e com o objetivo de facilitar a recuperação do material para o usuário, desvinculamos estes
romances da sessão de ocultismo, os reclassificamos e os disponibilizamos nas estantes mais visíveis; com isso,
obtivemos grande agilidade no atendimento ao usuário.

- Nos dias atuais contamos com o acesso à internet. Qual era a realidade da biblioteca antes do
advento das tecnologias em redes?

�212
Sempre houve muito empenho no atendimento ao usuário, tanto agora quanto no início, por exemplo, quando um
usuário buscava por determinado assunto fazíamos o serviço de referência de forma manual, pegávamos os livros nas
estantes e procurávamos o assunto desejado, e quanto mais se conseguia localizar materiais pertinentes para os
usuários mais satisfação, nós, colaboradores, tínhamos. Depois do advento da internet, houve uma queda na demanda
de pesquisas, apesar do ambiente aconchegante que temos a oferecer aos nossos usuários.

- A biblioteca comunitária de Laranjeiras possui parceiros?
Temos parceria com o projeto Sol Nascente da Rede Aica, inaugurado em 2002. O projeto atende adolescentes e jovens
que, por terem cometidos atos infracionais, receberam, pelo Juizado da Infância e da Juventude, a liberdade assistida
comunitária e a prestação de serviço à comunidade, medidas socioeducativas previstas pelo Estatuto da Criança e do
Adolescente como alternativa à privação da liberdade. Nessa parceria, recebemos os jovens infratores para estagiarem
na biblioteca; o intuito é a reintegração social desses jovens, na maioria das vezes são jovens competentes e dedicados,
muitos pedem autorização para atuarem uma carga horária além da que lhes foi dada como sentença, pois se
identificam com o trabalho e com nosso acolhimento; aos usuários são apresentados como colaboradores da biblioteca
e não como infratores que estão cumprindo medida; eles nos auxiliam bastante no dia-a-dia. Infelizmente, no atual
momento, só possuímos esse parceiro. Uma coisa que me chateia um pouco é a falta de eventos; acredito que deveria
ter uma equipe específica para elaboração dos mesmos, pois não sou dinâmica o suficiente para fazer as atividades
rotineiras da biblioteca e cuidar de eventos.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Foi possível constatar, neste estudo, que a procura dos cidadãos por um espaço onde possam
adquirir informações para aprimorar seus conhecimentos é progressiva. A biblioteca comunitária é
um exemplo de inserção das classes menos favorecidas, pois os usuários possuem acesso
democrático à informação, além de contribuir moral e eticamente para o desenvolvimento dos
cidadãos. O conceito de cidadania para jovens de comunidades pobres ainda é algo abstrato e é
essencial que a comunidade trabalhe isso. A implantação da Biblioteca Comunitária no Bairro
Parque Residencial Laranjeiras contribuiu para a formação cidadã dos seus moradores.
As bibliotecas comunitárias, diferentemente das escolares, não fazem parte de um projeto
pedagógico; elas proporcionam a seus usuários um mundo de informações diferenciadas. Seguindo
essa linha de raciocínio, a Biblioteca Comunitária de Laranjeiras tem exercido com maestria seu
papel social, pois seu acervo é multidisciplinar e seus usuários, apesar de serem membros da mesma
comunidade, demandam diferentes necessidades informacionais.
Empiricamente, se analisarmos à risca a definição de letramento informacional, veremos que
o mesmo discorre sobre formação e desenvolvimento de competências e habilidades que tornem os
usuários autônomos pesquisadores de informação. Logo, a partir desse conceito, podemos dizer que

�213

a unidade de informação aqui trabalhada não realiza essa atividade, pois não existem políticas ou
ações voltadas para esse seguimento. É possível constatar algumas das questões que motivem à falta
dessas atividades: a primeira delas é a falta de profissionais com formação acadêmica adequada, e a
segunda diz respeito à ausência de políticas específicas, com equipes de trabalho direcionadas a
ampliar os serviços oferecidos.

REFERÊNCIAS

BADKE, T. Biblioteca popular: uma experiência no bairro das Laranjeiras. Palavra-Chave, São
Paulo, n. 4, p. 18-9, maio, 1984.
BARCELLOS, B. F. Ação Cultural em Biblioteca especializada: relato de estágio. In: ENCONTRO
REGIONAL DE ESTUDANTES DE BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO, CIÊNCIA DA
INFORMAÇÃO E GESTÃO DA INFORMAÇÃO, 14., Anais Eletrônicos. . . [S.l.]: [s.n.], 2011.
BAUMAN, Z. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: J. Zaha, 2003.
BERNARDINO, M. C. R.; SUAIDEN, E. J. O papel social da biblioteca pública na interação entre
informação e conhecimento no contexto da ciência da informação. Perspectivas em Ciência da
Informação, Belo Horizonte, n. 16, p. 29-41, out./dez. 2011.
BLANK, C. K.; SARMENTO, P. S. Bibliotecas comunitárias: uma revisão de literatura.
Biblionline, João Pessoa, v. 6, n. 1, p. 142-148, jan./jun. 2010.
BRETTAS, A. P. A biblioteca pública: um papel determinado e determinante na sociedade. Biblos:
Revista do Instituto de Ciências Humanas e da Informação, Rio Grande, v. 24, n. 2, p. 101-118,
jul./dez. 2010.
CAMPELLO, B. Letramento informacional: função educativa do bibliotecário na Escola. Belo
Horizonte: Autêntica, 2009.
COMUNIDADE. Que conceito. São Paulo. Disponível em:
&lt;http://queconceito.com.br/comunidade.&gt; Acesso em: 12 out. 2017.
CUNHA SALASÁRIO, M. G. Biblioteca especializada e informação: da teoria conceitual à prática
na biblioteca do laboratório de mecânica de precisão. Revista ACB, Florianópolis, v. 5, n. 5, 2000.
FIGUEIREDO, N. Serviços oferecidos por bibliotecas especializadas: uma revisão da literatura.
Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 3/4, n. 11, p. 155-168,
jul./dez. 1978.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica educativa. São Paulo: Paz e
Terra, 1996.
LAPLANTINE, F. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2006.

�214

LEVY, P. Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999.
MACHADO, E. C. Bibliotecas comunitárias como prática social no Brasil. In:
ENCONTRONACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 10., 2009, João
Pessoa. Anais Eletrônicos... João Pessoa: UFPB, 2009.
______. Uma discussão acerca do conceito de biblioteca comunitária. RDBCI: Revista Digital de
Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, v. 7, n. 1, p. 80-94, ago. 2009.
______; VERGUEIRO, W. Bibliotecas Comunitárias como prática social no Brasil. CRB-8 Digital,
São Paulo, v. 3, n. 1, p. 3-11, ago. 2010.
MACHADO, Frederico Borges; SUAIDEN, Emir José. O papel da biblioteca pública e seus
desafios frente aos avanços tecnológicos. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE
BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 25., 2013,
Florianópolis. Anais Eletrônicos... Florianópolis: FEBAB, 2013.
MORIN, E. A Cabeça Bem-Feita. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
MOSÉ, V. A escola e os desafios contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
PASCON, G. M. F. S.; SANTOS, S. G. Biblioteca Especializada: uma avaliação qualitativa. CRB8 Digital, São Paulo, v. 4, n. 1, p. 31-39, abr. 2011.
RUSSO, M.; SILVA, S. S. A. Biblioteca pública em ação: o estudo de caso da Biblioteca Parque
Manguinhos. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO
E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 25., 2013, Florianópolis. Anais Eletrônicos... Florianópolis:
FEBAB, 2013.
SANTOS, M. B. Biblioteca universitária: acesso à informação e conhecimento. In: SEMINÁRIO
NACIONAL DE BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS, 17., 2012, [S.l.]. Anais Eletrônicos... [S.l.]:
[s.n.], 2012. p.1 – 12.
SOUSA, M. M. A biblioteca universitária como ambiente de aprendizagem no ensino superior.
2009. Dissertação (Mestrado em Ciência da Computação) - Escola de Comunicações e Artes,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
TARGINO, Maria das Graças. Biblioteconomia, informação e cidadania. Revista da Escola de
Biblioteconomia da UFMG, Belo Horizonte, v. 20, n. 2, p.149-160, jul./dez. 1991.

�215

CAPÍTULO XV
“O ESSENCIAL É INVISÍVEL AOS OLHOS”20: SALA BRAILLE DA BIBLIOTECA
PÚBLICA DE LAGOA SANTA-MG

Paula Mariano
Tatiana Brandão

1 INTRODUÇÃO

A sociedade contemporânea vem passando por várias transformações ao longo do tempo em
relação ao uso da informação. É essencial um profissional que possua habilidades e competências
que viabilizem aos usuários um serviço que contribua para a transformação social, por meio da
democratização do acesso à informação. O bibliotecário deve ser um profissional atuante nessa
sociedade, cuja informação é fundamental para o seu desenvolvimento em que deve gerir a
informação e o conhecimento, atuando tanto como mediador informacional, quanto educacional,
conforme explica Píres (2013, p. 3):
[...] os bibliotecários podem contribuir, ajudando na formação do intelectual do leitor,
promovendo o hábito da leitura e incentivando a cultura, visando informar e educar o
usuário no uso da informação, facilitando o processo de construção do conhecimento uma
vez que esse se dá pela função da disseminação da informação e dando condições de
autonomia ao consulente capacitando, orientando quando ao uso da informação, usando
também os produtos e serviços da biblioteca, pois, esta tem a informação como seu objeto
de trabalho e que são de suma importância para o aprendizado [...].

Atualmente, um dos maiores desafios dos bibliotecários diz respeito ao seu papel como
agente transformador na sociedade. Por meio do enfoque informacional e das mudanças ocorridas
na sociedade, o profissional da informação assume suas competências adotando e disseminando
práticas transformadoras na sociedade. Sobre o papel do bibliotecário, Píres (2013, p. 6) enfatiza
que:
como líder de uma unidade informacional trabalha constantemente para melhorar os
aspectos sociais e educacionais da sociedade contemporânea. O bibliotecário deve estar
consciente dessa sua missão e consciente que é um agente de mudanças ou que pode tornarse transformador social, por meio do correto tratamento da informação, pois, conforme
Barreto (2002, p. 56) “[...] quando corretamente transmitida tem o poder de modificar o
estoque mental de saber do indivíduo trazendo benefícios para o seu desenvolvimento e
para o bem estar da sociedade em que vive”, o que implica em uma formação social
perfeitamente contemplada no seu escopo.

20

SAINT-EXUPERY, Antoine. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

�216

O bibliotecário é, então, dentro da sua área de atuação profissional, agente transformador da
sociedade, uma vez que contribui de maneira efetiva para uma formação social dos indivíduos,
disseminando a informação, sendo um facilitador no processo de construção do conhecimento do
indivíduo.
Em relação à democratização do acesso à informação no Brasil, a atuação das Bibliotecas
Públicas é fundamental: "As bibliotecas públicas são o único meio de acesso, para a maioria dos
brasileiros sem recursos, a livros, revistas e jornais, indispensáveis para sua inclusão e participação
na sociedade da informação e do conhecimento” (LIRA, 2007, p. 11).
A inclusão de todos os indivíduos na sociedade da informação está no cerne das Bibliotecas
Públicas, conforme preconizado pela Federação Internacional de Associações e Instituições
Bibliotecárias (IFLA) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura
(UNESCO):
os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de
acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou
condição social. Serviços e materiais específicos devem ser postos à disposição dos
utilizadores que, por qualquer razão, não possam usar os serviços e os materiais
correntes, como, por exemplo, minorias linguísticas, pessoas deficientes, hospitalizadas ou
reclusas (IFLA; UNESCO, 1994, p. 1, grifo nosso).

Sobre o processo de inclusão, Malheiros e Cunha (2018, p. 154) enfatizam que o acesso à
informação é fundamental e destacam que “a participação das bibliotecas no processo de inclusão
social traz autonomia, permitindo que a pessoa tenha a liberdade de escolha das informações de que
necessita”.
Nesse contexto, a Biblioteca Pública Municipal de Lagoa Santa possui um serviço específico
para um grupo que está à margem da sociedade da informação: os deficientes visuais. Para que esse
serviço se concretizasse e tivesse seus objetivos alcançados, foi necessário que as bibliotecárias
fizessem mais do que reunir e colocar material acessível à disposição; era preciso fazer com que
esses leitores fossem à biblioteca.
Foi fundamental que o bibliotecário fosse ao encontro das pessoas com deficiência visual,
uma vez que se tratava de um leitor especial, que em sua maioria, até então, não tinha acesso aos
livros e nunca havia ido até a biblioteca. O primeiro contato foi feito pessoalmente em suas
residências, uma entrevista a domicílio para estudo de usuários potenciais. O desafio era então
tornar a pessoa com deficiência usuária e frequentadora regular da Biblioteca Pública, otimizando o
acesso aos recursos especializados. Foi preciso oferecer meios que atraíssem o leitor para dentro da
biblioteca, colocando-o em contato direto com o material acessível, oportunizando o acesso ao
livro, à leitura e à informação. Para isso, foi disponibilizado transporte fornecido pela prefeitura, ida

�217

e volta, uma vez por semana. Essa medida garantiu a frequência assídua desse grupo, permitindo a
continuidade na evolução e acompanhamento de cada leitor de acordo com suas peculiaridades.
Nesse momento, o bibliotecário, como agente disseminador de informação e transformador
social, assume um importantíssimo papel na formação de leitores, dando oportunidade de acesso à
informação para indivíduos totalmente à margem da sociedade da informação e do conhecimento.
Foi oferecido um ambiente favorável ao gosto pela leitura, tornando-os leitores reais. A criação de
um ambiente agradável e funcional foi possível, por meio dessa relação estabelecida na primeira
abordagem, feita pessoalmente no início do projeto na casa da pessoa com deficiência, que vem se
fortalecendo ao longo dos anos.
Percebe-se que é um desafio suprir as reais necessidades dos deficientes visuais e apresentar
soluções que mudem as questões dos fatores que limitam o acesso à informação por parte das
pessoas com deficiência visual e propor soluções que mudem de fato essa realidade. Foi preciso que
se fizesse uma adequação da biblioteca às necessidades das pessoas com deficiência visual:
aquisição de acervo acessível e de equipamentos com recursos de tecnologia assistiva; adequações
do espaço físico e oferecer atendimento especializado. A importância do bibliotecário nessa
adequação ao ambiente para esse tipo de usuário está diretamente relacionada aos resultados
alcançados. Na prática, as mudanças adotadas nos diversos contextos tornaram acessíveis as
informações em seus diversos formatos aos deficientes visuais, proporcionando-lhes uma
transformação em sua vida, sua realidade e sua atuação na sociedade.

2 BREVE HISTÓRICO DA SALA BRAILLE

A Biblioteca Pública Municipal Padre Agenor de Assis Alves Pinto, localizada no município
de Lagoa Santa, Minas Gerais, vem se destacando pelas ações de inclusão desenvolvidas
especialmente na Sala Braille. Esse setor é resultado do empenho de sua equipe para ofertar livros
acessíveis para as pessoas com deficiência visual da cidade.
Em 2008, a Biblioteca Pública de Lagoa Santa recebeu a visita de um jovem com deficiência
visual, morador da zona rural, que procurava livros para estudar. Esse jovem levou livros em tinta
para que outra pessoa pudesse ler para ele. A força de vontade dele para vencer as dificuldades e
seguir com seus sonhos de fazer uma faculdade comoveu a equipe da Biblioteca Pública que desde
então, passou a empreender esforços para que livros acessíveis destinados às pessoas com
deficiência visual fossem ofertados pela Biblioteca Pública.

�218

Foram feitas pesquisas sobre aquisição de livros acessíveis, como fazer atendimento às
pessoas com deficiência visual, visitas técnicas a instituições especializadas e entrevistas com
potenciais usuários de um Setor Braille. Os recursos existentes na Biblioteca e na prefeitura foram
direcionados para o Projeto Sala Braille; recursos junto à iniciativa privada também foram
levantados. Uma Sala na Biblioteca foi disponibilizada para abrigar o acervo acessível e para
receber as pessoas com deficiência.
Assim, nasceu o projeto: "O essencial é invisível aos olhos: Sala Braille da Biblioteca
Pública" que vem sendo desenvolvido desde 2011 e atende crianças, jovens e idosos da comunidade
com qualquer grau de deficiência visual.
Além do empréstimo de livros acessíveis, são oferecidas diversas atividades visando à
inclusão social e à acessibilidade na biblioteca: sessões de cinema com recurso acessível
(audiodescrição); roda de leitura; inclusão digital para pessoas com deficiência visual (Dosvox,
NVDA, internet); oficina de iniciação ao alfabeto braile; e excursões a instituições culturais.
O objetivo geral do projeto é promover a inclusão de pessoas com deficiência visual da
cidade de Lagoa Santa, por meio da democratização do acesso à informação, cultura e leitura. Entre
os objetivos específicos destacam-se: fomentar ações de incentivo à leitura para pessoas com
deficiência visual ofertando livros acessíveis (braile e audiolivros) e promover atividades de
incentivo como Hora da História, Palestras e Saraus; promover a inclusão digital para pessoas cegas
ou com baixa visão: realizando oficinas por meio de programas de leitores de tela disponíveis para
download gratuito como Dosvox e NVDA para digitação e uso da internet; democratizar o acesso à
cultura e à arte, promovendo sessões de cinema com recurso acessível, organizando excursões a
instituições culturais como: museus, teatros, galerias de arte e ser um espaço de convivência e
interação, referência para pessoas com qualquer grau de deficiência visual da comunidade.
A Sala Braille da Biblioteca Pública Padre Agenor de Assis Alves Pinto é o único espaço
destinado a pessoas com deficiência visual na cidade de Lagoa Santa, e se tornou um local de
encontro, espaço de convivência e interação social. Com isso, está se tornando também uma
referência para outros municípios que desejam promover a acessibilidade em suas bibliotecas
públicas, especialmente para atender pessoas com deficiência visual.

3 CRIAÇÃO E IMPLATAÇÃO DA SALA BRAILLE

O processo de criação e implantação do Projeto "O essencial é invisível aos olhos: Sala
Braille da Biblioteca Pública" passou pelas seguintes etapas: aquisição do acervo acessível;

�219

diagnóstico dos usuários potenciais; capitação de recursos e otimização dos já existentes;
catalogação, indexação e disponibilização dos itens para o empréstimo; inauguração da Sala Braille
da Biblioteca Pública; e monitoramento e avaliação dos resultados. Duas bibliotecárias,
funcionárias da Biblioteca Pública Municipal, formaram uma equipe e coordenam o Projeto. O
primeiro passo foi realizar visitas técnicas nas instituições especializadas e referências estaduais que
atendiam pessoas com deficiência visual: Setor Braille da Biblioteca Pública Estadual Luís de Bessa
e o Instituto São Rafael, ambos situados em Belo Horizonte, Minas Gerais. Essa etapa foi
fundamental para iniciarmos o projeto.

3.1 DIAGNÓSTICO DOS USUÁRIOS POTENCIAIS

Segundo Malheiros e Cunha (2018, p. 154), para oferecermos as informações adequadas aos
usuários, é necessário identificarmos quais são as demandas informacionais por meio dos estudos de
usuários e complementam: "no caso dos usuários com deficiência visual, o compromisso do
profissional da informação e o valor do seu trabalho são essenciais pelas dificuldades enfrentadas
por esses usuários, pois na sua quase totalidade as informações não são adaptadas às suas
necessidades especiais”. Após as visitas técnicas em instituições especializadas no atendimento a
pessoas com deficiência visual, a etapa seguinte foi levantar o diagnóstico dos usuários potenciais
da Sala Braille. Foi realizado um levantamento do número de pessoas com deficiência na cidade de
Lagoa Santa. A equipe visitou a residência, traçou o perfil dos usuários e fez o cadastramento de 45
pessoas com deficiência visual no município. Foram levantados dados, mediante aplicação de um
questionário que apontou as necessidades específicas de cada um dos entrevistados.
Há casos de cegueira total e baixa visão decorrentes de doenças como: toxoplasmose,
diabetes, glaucoma e catarata congênita. Detectamos um alto índice de depressão, muitos não saíam
de casa, o que agravava o estado emocional e físico. Muitos não utilizavam bengalas, por não
saberem usar ou não poderem comprar ou por possuírem alguma resistência. Perguntamos aos
entrevistados quais seriam suas expectativas, sonhos e desejos. Constatamos que alguns tinham o
desejo de voltar a estudar, outros de aprender a usar o computador, ter ou retomar o contato com a
leitura, ir a um local de convivência e troca de experiências na cidade, sair de casa e ter atividades
de lazer como passeios a museus, cinema e teatro. Todos os entrevistados foram cadastrados nos
registros de leitores da Biblioteca Pública.
A programação de atividades da Sala Braille foi estruturada em função das expectativas,
desejos e sonhos das pessoas com baixa visão ou cegueira total. Constatou-se a necessidade de se

�220

ofertar oficinas de locomoção e mobilidade para pessoas com deficiência visual, excursões
culturais, curso de inclusão digital, oficinas de iniciação ao alfabeto Braile e de arte, roda de leitura,
palestras, entre outras.

Ao poucos, todas essas atividades foram sendo incorporadas à rotina da

Sala Braille, à medida que conseguíamos os recursos necessários junto à Prefeitura Municipal,
empresas, ONGs e outras instituições especializadas.

3.2 ACERVO: AQUISIÇÃO DE MATERIAL ACESSÍVEL

Até então, o acervo da biblioteca pública municipal não contatava com nenhum título de
livro acessível para pessoas com deficiência visual. Para iniciarmos a aquisição de materiais
acessíveis, foi realizado o cadastro da Biblioteca Pública de Lagoa Santa na Fundação Dorina
Norwill, ONG de São Paulo, que produz e distribui livros Braille, falados e digitais acessíveis
gratuitamente para bibliotecas e outras organizações de todo o Brasil.
Outro cadastro foi feito no Instituto Benjamim Constant (IBC), com sede no Rio de Janeiro,
que é o centro de referência nacional para questões relativas à deficiência visual. O Instituto
capacita profissionais da área da deficiência visual, assessora escolas e instituições em geral e
oferece reabilitação física. Dessa instituição, a Sala Braille recebeu placas em thermoform
(esquemas, mapas e tabelas em alto relevo para pessoas com deficiência visual), alguns materiais
didáticos acessíveis para o ensino do alfabeto Braile, ciências, matemática, português e audiolivros.
A Biblioteca Pública ainda participou do edital do Programa de Doação e Patrocínio da
Cimentos Liz, empresa que atua na cidade. Foi contemplada em duas edições seguidas neste
Programa, em 2011 e 2012. Isso permitiu a compra de audiolivros e mobiliário para armazená-los.
Foram adquiridos clássicos da literatura nacional, estrangeira e infantojuvenis.
Como foi diagnosticado que boa parte dos deficientes visuais da cidade não sabia ler em
Braile ainda, a aquisição de audiolivros foi fundamental para ampliar e diversificar o acervo
acessível da Sala. Para efetuar o cadastro nas instituições referidas e participar do edital da
Cimentos Liz, foi obrigatório apresentar os dados dos usuários cadastrados que seriam beneficiados
pelo projeto.

�221

3.3 CATALOGAÇÃO, INDEXAÇÃO E DISPONIBILIZAÇÃO PARA O EMPRÉSTIMO

Adquiridos os itens da coleção acessível, todo o material passou pelo processo de
catalogação, indexação e preparo para o empréstimo. O catálogo é automatizado, o software
utilizado é livre, o Openbiblio.

3.4 OTIMIZAÇÃO DOS RECURSOS JÁ EXISTENTES

Todos os recursos já existentes e disponíveis na Biblioteca Pública e na Prefeitura Municipal
de Lagoa Santa que seriam necessários para o projeto foram otimizados e direcionados para esse
fim: recursos humanos, espaço físico e mobiliário, transporte e lanche.

3. 4. 1 Espaço Físico e Mobiliário

Para implantação da Sala Braille foi disponibilizada uma sala no prédio da Biblioteca com
acesso independente que foi adaptada para receber as pessoas com deficiência visual. Outros
recursos já existentes foram utilizados na sala, como: mobiliário, computadores para uso individual,
data show, tela de projeção, aparelho de som, caixa de som amplificadora e material de escritório.

3.4.2 Recursos humanos

A equipe é composta por funcionários efetivos da Biblioteca Pública Municipal de Lagoa
Santa, que são:


duas bibliotecárias: idealizadoras e coordenadoras do projeto, as quais são funcionárias
efetivas do município, o que garante continuidade e estabilidade do trabalho que vem sendo
desenvolvido desde 2011;



um agente administrativo: funcionário efetivo portador de deficiência visual com
conhecimentos em Braile e recursos em tecnologia assistiva: Dosvox e NVDA;



duas monitoras acompanhantes dos usuários: funcionárias efetivas, dinâmicas e pró-ativas e
muito atenciosas com o público atendido.

�222

A equipe da Sala Braille procura participar sempre que possível de cursos voltados para a
questão da Acessibilidade em Bibliotecas Públicas para aprimorar o atendimento e oferecer novos
serviços.

3.4.3 Transporte

As dificuldades em relação à mobilidade urbana são um obstáculo ainda maior para as
pessoas com deficiência, e acabam limitando a interação social; muitos evitam sair de casa, e esse é
um dos motivos.

Assim, um recurso fundamental para o desenvolvimento do projeto foi o

transporte fornecido pela Prefeitura Municipal, uma vez por semana. Uma kombi com duas
monitoras busca os usuários cadastrados interessados em casa e após três horas de atividades
individualizadas são levados para suas respectivas residências. Oferecer transporte foi fundamental,
pois facilita o deslocamento dos usuários da Sala com segurança, comodidade e gratuidade,
garantindo frequência dos interessados. O transporte trouxe ainda um impacto muito importante ao
garantir a frequência regular, sendo possível registrar a evolução dos participantes e o impacto do
projeto em suas vidas; a maioria dos frequentadores mais assíduos estão no projeto desde 2011.

3.4.4 Lanche

Pelo perfil socioeconômico do grupo atendido pela Sala Braille, identificamos a necessidade
de se ofertar lanche para os usuários. É servido suco, leite, biscoitos e café, toda terça-feira, antes de
se iniciar as atividades programadas com duração de três horas dentro da Sala Braille. É também
um momento em que o grupo confraterniza e conversa sobre suas rotinas e vivências.

4 INAUGURAÇÃO DA SALA BRAILLE DA BIBLIOTECA PÚBLICA

Após todo esse processo de organização e implantação, a Sala Braille da Biblioteca Pública
de Lagoa Santa foi inaugurada em outubro de 2011 e foi instituída pela Lei Municipal n. 3482/2013,
que regulamenta o funcionamento e a instalação da Sala Braille da Biblioteca Pública, legitimando
e contribuindo para a continuidade e manutenção do projeto, assegurando que todo material

�223

adquirido para esse projeto por meio de doação, compra ou prêmios, permaneça e seja destinado
exclusivamente à Sala Braille.
Ao longo do tempo, o projeto Sala Braille foi sendo consolidado e reconhecido pelo trabalho
desenvolvido e resultados alcançados. Foi um dos agraciados pelo 8º Prêmio Viva Leitura Categoria Bibliotecas Públicas - 2016 (PNLL); vencedor do 22º Concurso FNLIJ - Os Melhores
Programas de Incentivo à Leitura junto a Crianças e Jovens de Todo o Brasil – 2017; recebeu
menção honrosa no IX SENABRAILLE - Federação Brasileira de Bibliotecários. É um projeto
reconhecido e acolhido pela comunidade local. A Sala Braille se tornou um espaço, um lugar de
convivência e interação social para as pessoas com deficiência visual da cidade.

5 ATIVIDADES OFERECIDAS

O atendimento aos participantes do projeto é individualizado, buscando atender as demandas
e respeitar as especificidades e necessidades de cada frequentador. Atualmente, a Sala Braille da
Biblioteca Pública de Lagoa Santa presta às pessoas com qualquer grau de deficiência visual da
cidade os seguintes serviços:
1. empréstimo de livros acessíveis: áudio livro e livros em braile; edições em fonte ampliada;
2. curso de informática para pessoas com deficiência visual: uso dos leitores de tela programas
(Dosvox e NVDA) e internet;
3. roda de leitura;
4.

palestras de temas de interesse do público atendido (saúde, alimentação, direitos da pessoa
com deficiência);

5. sessão de cinema com recursos acessíveis: audiodescrição;
6. oficinas de artes que desenvolvem aspectos sensorial, sócio afetivo, motor e cognitivo;
7. excursões culturais: visita a museus, teatro, universidades etc.;
8. orientações para locomoção e mobilidade (uso da bengala);
9. serviço de informação utilitária: disponibiliza informação e orienta sobre formas de acesso
aos direitos das pessoas com deficiência e aos programas sociais do governo.

A Sala Braille segue o horário de funcionamento da Biblioteca Pública Municipal: segunda a
sexta-feira das 7:30h às 18:00h. Sempre nas manhãs de terças-feiras, acontece o atendimento
personalizado, com acompanhamento individual dos monitores quando são oferecidas as atividades
como: oficina de inclusão digital para pessoas com deficiência visual, oficinas de arte, sessões de

�224

cinema com audiodescrição, entre outras, de acordo com a programação mensal da Sala Braille. Os
usuários da Sala Braille têm também a opção de agendar dia e horário para serem atendidos e
buscarem livros a serem emprestados. A equipe empreende todos os esforços possíveis para
adequar os atendimentos à disponibilidade de horário dos usuários da Sala.

6 AVALIAÇÃO E MONITORAMENTO DE RESULTADOS

A avaliação e o monitoramento do trabalho desenvolvido são feitos mensalmente. A equipe
se reúne em um primeiro momento com os frequentadores da sala, depois a equipe faz sua análise e
promove as adequações necessárias.
O trabalho desenvolvido é individualizado, e buscamos atender as necessidades específicas
de cada um dos usuários da Sala Braille. Assim, apresentaremos alguns casos dos frequentadores
mais assíduos da sala, apontando como evoluíram durante o projeto para descrever alguns
resultados (quadro 1).
Quadro 1 - Avaliação e resultados
CASO 1:
Dona Isabel
62 anos de idade

Diagnóstico: 2011

Evolução: 2018

Cegueira total decorrência da Diabetes.
Bordadeira aposentada. Escolaridade: nível
médio.
Saía pouco de casa.
Não sabia utilizar computador.

Digita, imprime, envia e recebe e-mails,
pesquisa na internet.
Escreveu um livro utilizando o programa
Dosvox.
Frequenta diariamente a Sala Braille.
Atualmente, está aprendendo a utilizar as redes
sociais.
Evolução: 2018

Diagnóstico: 2011

CASO 2:
Eliane

Cegueira total retinose.
Nível
de
escolaridade:
fundamental
incompleto. Depressão. Não saía de casa.
Sem noção de informática. Sem acesso aos
benefícios sociais, mesmo tendo direito.

Aluna da EJA, concluindo o ensino médio.
Mais comunicativa, mais integrada na
sociedade. Recebe benefício LOAS. Utiliza a
internet para ouvir aulas sobre os temas e
disciplinas estudados em sala de aula. É
considerada a melhor aluna de sua classe.
Apresenta ótimas notas.
Atualmente, tem pretensão de prestar ENEM
para cursar faculdade de Administração.

Diagnóstico: 2011

Evolução: 2018

Cegueira total. Não utilizava computador.
Não conhecia o programa Dosvox.

Leva livros em Braile semanalmente. Digita e
imprime textos e acessa a internet para escutar
vídeos no Youtube.

Diagnóstico: 2011

Evolução: 2018

40 anos de idade

CASO 3: Maria
Fernanda
10 anos de idade

CASO 4:
Dona
Mercês

Maria

Cegueira Retinose.
Analfabeta. Não saía de casa.

Não tem interesse em aprender informática nem
Braile, mas participa de algumas atividades
culturais promovidas pela Sala: Sarau e Cine

�225
69 anos de idade
Diagnóstico: 2015

Braile, palestras.
Gosta de ouvir os audiolivros.
Evolução: 2018

CASO 5: Anísio
Baixa visão, perda progressiva: Meningite.
Nível médio. Aposentado. Não tinha noção
de informática.
Saía pouco de casa.
Fonte: Elaborado pelas autoras (2018).
35 anos de idade

Aprendendo digitação. Mais comunicativo,
interage bem com os demais frequentadores.
Utiliza e conhece o Dosvox.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entre as etapas de implantação do Projeto, o levantamento do diagnóstico dos possíveis
frequentadores foi fundamental. Fazer a primeira abordagem pessoalmente em domicílio foi
essencial no processo. A partir desse momento, os entrevistados sentiram-se seguros e motivados
para participarem do Projeto e frequentarem a Biblioteca Pública. Para a equipe da Biblioteca, foi
importante direcionar os serviços, de acordo com os anseios e expectativas do público-alvo, ficando
claro, naquele momento, que o trabalho deveria ser individualizado. Sendo um leitor especial, era
necessário criar o elo de confiança e de credibilidade, que foi fortalecido ao longo do tempo,
mediante ao atendimento especializado.
Dar voz e ouvir os usuários é imprescindível para conhecer e atender suas demandas. É o
próprio público-alvo que vai indicar o caminho a ser seguido, pois são eles que indicam o que
precisam, de acordo com a demanda pessoal, uma vez que, em linhas gerais, o ‘público-alvo’ é
singular. Quando se trata de inclusão, é preciso estar atento às especificidades e particularidades de
cada uma das pessoas atendidas; é um trabalho individualizado.
Além disso, disponibilizar transporte gratuito, com monitores, garantiu a frequência dos
interessados no Projeto. A questão da mobilidade urbana que apresenta inúmeras dificuldades é
ainda mais complexa para as pessoas com deficiência. Oferecer essa alternativa para sanar esse
dificultador foi essencial para garantir a regularidade da frequência, garantindo que a evolução dos
participantes acontecesse de forma gradativa e que os resultados fossem monitorados e registrados.
Vivemos em uma sociedade que, infelizmente, não é inclusiva, nem acessível. Grupos
minoritários vivem marginalizados, enfrentam ainda mais obstáculos do que a maioria para terem
acesso a direitos básicos. Os bibliotecários, no exercício de sua profissão, podem contribuir de
maneira efetiva para transformar essa realidade. Eles são os profissionais responsáveis por
disseminar a informação, oportunizando a formação social do indivíduo de forma autônoma para o
pleno exercício de sua cidadania. Os bibliotecários são facilitadores no processo de construção do

�226

conhecimento, dentro da sua área de atuação profissional, cujo objetivo principal é a
democratização do acesso à informação para todos.

REFERÊNCIAS

FUNDAÇÃO DORINA NOWILL. A fundação. 2018. Disponível em:
&lt;https://www.fundacaodorina.org.br/&gt;. Acesso em: 24 set. 2018.
IFLA; UNESCO. Manifesto sobre bibliotecas públicas 1994. Disponível em:
&lt;https://www.ifla.org/files/assets/public-libraries/publications/PL-manifesto/pl-manifesto-pt.pdf&gt;.
Acesso em: 28 ago. 2018.
INSTITUTO BENJAMIN CONSTANT. Sobre o IBC. 2018. Disponível em:
&lt;http://www.ibc.gov.br/&gt;. Acesso em: 24 set. 2018.
LAGOA SANTA (município). Lei Municipal n. 3482, de 2013. Institui a Sala Braille da Biblioteca
Pública de Lagoa Santa. 2013. Disponível em:
&lt;https://www.lagoasanta.mg.gov.br/index.php/educacao-noticias/4823-biblioteca-publica-de-lagoasanta-recebe-premio-nacional-viva-leitura-2&gt;. Acesso em: 24 set. 2018.
LIRA, Guilherme de Azambuja. Biblioteca Nacional: desenvolvimento do modelo brasileiro de
biblioteca acessível para pessoas com deficiência e idosos. Inclusão Social, Brasília, v. 2, n. 2,
p.10-13, abr./set. 2007. Disponível em:
&lt;http://www.brapci.inf.br/_repositorio/2010/05/pdf_4da4622c1f_0010180.pdf&gt;. Acesso em: 21
ago. 2018.
MALHEIROS, Tânia Milca; CUNHA, Murilo Bastos da. As bibliotecas como facilitadoras no
acesso à informação por usuários com deficiência visual. RDBCI: Revista Digital de
Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, v. 16, n. 1, p. 146-170, out. 2017. Disponível
em: &lt;https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rdbci/article/view/8650318&gt;. Acesso em: 28
ago. 2018.
PIRES, Erik André de Nazaré. O bibliotecário como agente transformador social: sua importância
para o desenvolvimento da sociedade informacional através da disseminação da informação.
Múltiplos Olhares em Ciência da Informação, Belo Horizonte, v. 3, n. 2, 2013. Disponível em:
&lt;http://portaldeperiodicos.eci.ufmg.br/index.php/moci/article/view/2202&gt;. Acesso em: 21 ago.
2018.
SAINT-EXUPERY, Antoine. O pequeno príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2005.
SUPERINTENDÊNCIA DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS E SUPLEMENTO LITERÁRIO DE
MINAS GERAIS. Sistema Estadual de Bibliotecas. 2018. Disponível em:
&lt;http://www.bibliotecapublica.mg.gov.br/index.php/pt-br/&gt;. Acesso em: 24 set. 2018.

�227

CAPÍTULO XVI
A INFORMAÇÃO UTILITÁRIA COMO UM DIREITO DO CIDADÃO: DAS
BIBLIOTECAS PÚBLICAS AOS CENTROS DE REFERÊNCIAS21

Helba Aparecida Borges
Maria de Lourdes Franklin Maia

1 INTRODUÇÃO

A informação utilitária como o nome sugere é a informação que conduz o cidadão em um
determinado contexto ou situação, definida como um conjunto de “[…] informações de ordem
prática, que auxiliam na solução de problemas que normalmente aparecem no cotidiano das
pessoas, em todos os sentidos […]” (CAMPELLO, 1998, p. 35). O conhecimento da informação
utilitária é primordial para que todos possam exercer plenamente seus direitos e deveres, desde o
mais simples como horário de ônibus à complexidade de leis das quais se possa colher benefícios
constitucionais a seu favor. Dentro das bibliotecas comunitárias, essa informação pode ser definida
como “[…] uma prática coletiva desenvolvida não somente PARA a comunidade, mas COM a
comunidade […]” (CARVALHO, 2014, p. 1).
Nessa perspectiva, a falta da informação utilitária em nossas unidades de informação nos
leva a constatar uma lacuna latente e dada a relevância da ausência da informação utilitária, surge o
motivo de inquietação deste estudo.

Partindo desse princípio, se fez necessário um trabalho de

pesquisa, a fim de expor a temática e investigar o quanto nossas unidades de informação estão
sensíveis a esse quesito.
Campello (1998, p. 35) menciona que a expressão informação utilitária tem sido empregada
por bibliotecários com vistas a auxiliar na solução de problemas que normalmente aparecem no
cotidiano das pessoas, envolvendo “[...] desde os mais simples aos mais complexos, abrangendo,
por exemplo, assuntos ligados à educação, emprego, direitos humanos, saúde, segurança pública e
outros”. Almeida Júnior (1997), além de concordar com Campello (1998), destaca que a realidade
das bibliotecas públicas demonstra o não oferecimento desse tipo de informação aos seus usuários;

21

Texto originalmente publicado na Revista ACB, em 2015. Adaptações foram realizadas, sobretudo no que tange aos
conceitos teóricos e ampliação dos resultados.

�228

as bibliotecas, em geral, se restringem, apenas, a oferecer materiais bibliográficos e auxiliando
alunos, pesquisadores e consulentes em pesquisa.
A falta da informação utilitária atingiu diretamente as autoras deste texto, pois, por uma
delas ser portadora de necessidades especiais (PNE), e ao ter ciência de alguns direitos concedidos
por Lei às PNE para aquisição de um veículo, fez-se necessário dar início aos procedimentos e
assim usufruir e consequentemente fazer valer seu direito de ir e vir já fragilizado por pertencer ao
grupo PNE.
A Lei nº 8.989/1995 isenta as PNEs de alguns impostos, tais como Impostos sobre Produtos
Industrializados (IPI), Impostos sobre Operações Financeiras (IOF), perfazendo, aproximadamente,
23% de Impostos sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS).
Com a alegria de ter esses direitos adquiridos, Helba Aparecida Borges, por ser (PNE),
recorreu ao processo de isenção e descontos para aquisição de sua Carteira Nacional de Habilitação
(CNH) e posteriormente um carro. Nesse ponto, o saber onde achar a informação utilitária é
primordial, evitando momentos embaraçosos. Porém, o caso descrito neste texto não foi de fácil
acesso e essa lacuna no saber onde encontrar ou a quem recorrer para conseguir tais informações
acabou por trazer, à época, grande transtorno, pois envolveu um conjunto de regras, inúmeros
procedimentos, pormenores burocráticos e enfadonhos, gerando uma sensação de fragilidade,
desgaste emocional e físico, acompanhado de muito constrangimento, por parte da requerente.
A constatação dessa lacuna foi o combustível que impeliu este estudo, a fim de demonstrar a
exposição da ausência da informação utilitária, nas unidades de informação. Para tanto, se fez
necessário elencar um tipo de unidade de informação, sendo o objeto do nosso estudo, a Biblioteca
Pública Estadual do Estado do Espírito Santo.
Com base na democratização da informação, o estudo tem o objetivo geral de verificar como
a literatura e bibliotecas públicas estaduais abordam o tema “Democratização da informação
utilitária”, elencando, também, os conceitos relativos à democratização da informação e informação
utilitária.

2 CONTEXTO DAS BIBLIOTECAS PÚBLICAS

Mantidas pelo poder público, as bibliotecas públicas tem como objetivo prestar serviço de
informação a todos sem restrição, concordando com as disposições do Manifesto da Federação
Internacional de Bibliotecas (IFLA) e da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e
Cultura (UNESCO).

�229
Todos os grupos etários devem encontrar documentos adequados às suas necessidades. As
coleções e serviços devem incluir todos os tipos de suporte e tecnologias modernas
apropriados assim como fundos tradicionais. É essencial que sejam de elevada qualidade e
adequadas às necessidades e condições locais. As coleções devem refletir as tendências
atuais e a evolução da sociedade, bem como a memória da humanidade e o produto da sua
imaginação. As coleções e os serviços devem ser isentos de qualquer forma de censura
ideológica, política ou religiosa e de pressões comerciais (IFLA, 1994, não paginado).

Fonseca (2007) estabelece que as bibliotecas públicas viabilizam o acesso à leitura e a
formação de leitores, sendo assim um espaço de desenvolvimento das práticas leitoras, formando
leitores críticos com grande contribuição para cidadania. Portanto, cabem às bibliotecas públicas,
proporcionar “[...] a igualdade de acesso para todos sem restrição de idade, raça, orientação sexual,
status social etc. e na disponibilização à comunidade de todo tipo de conhecimento [...]”
(BIBLIOTECA NACIONAL DO BRASIL, 2000, p. 1).

2.1 A DEMOCRATIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO

As principais funções da democracia são a proteção dos direitos humanos fundamentais,
como as liberdades de expressão, de religião, a proteção legal e as oportunidades de participação na
vida política, econômica e cultural da sociedade. O Brasil é regido por sistema democrático, em que
todos têm direito de opinião, de expressão das próprias opiniões e de acesso às informações
(ESCOBAR, 2014). Sendo assim, democratizar a informação nada mais é do que tornar a
informação acessível a todos.
A democratização da informação, tão fortemente evidenciada através da Sociedade da
Informação, realçou a importância do papel social da Biblioteca Pública e seu contributo
para a formação de uma sociedade mais democrática, os conceitos de Democracia e
Cidadania, Aprendizagem ao Longo da Vida, Desenvolvimento Econômico e Social, bem
como a Diversidade Cultural e Linguística, estão evidenciados em muitos documentos
produzidos nos últimos anos que destacam o papel da Biblioteca Pública na Sociedade da
Informação (BEZERRA, 2013, p. 3-4).

O ser humano, em geral, vive em sociedade, em que a informação é ferramenta básica para
sobrevivência. Uma simples informação, como horário de transporte, vagas de emprego, ou
aspectos mais amplos e complexos, como as dificuldades de entendimento aos direitos expostos nas
legislações, são alguns tipos de informações essenciais para garantir a convivência em um meio
social. Essas informações, segundo Campello (1998) e Almeida Júnior (1997), são caracterizadas
como informação utilitária.
Segundo Campello (1998), esse tipo de informação surgiu nos Estados Unidos, em meados
do século XX, também recebendo o nome de informação para a sobrevivência, por estar, naquele
momento, muito ligada à população de baixa renda, cujos meios de acesso à informação eram

�230

escassos e restritos a pequena parcela populacional, informações essas consideradas as mais
importantes e básicas para os usuários, auxiliando-os a resolverem situações problemáticas, tais
como: conhecer seus direitos como cidadãos, utilizar um serviço público, identificar oportunidades
de emprego, entre outras.
Para Figueiredo (1992), a informação utilitária foi apresentada primeiramente pelas
bibliotecas norte-americanas, com sua gênese atrelada ao período pós-segunda guerra mundial. No
entanto, ao longo do tempo, ela se estendeu às bibliotecas públicas de diversos países, porque,
segundo a autora, naquele momento, as nações estavam em crise e os cidadãos viviam momentos
caóticos como: desemprego, falta de serviços, saúde, assistência hospitalar, educação, dentre muitos
outros problemas.
Na visão de Suaiden (1995, p. 63), a informação utilitária pode ser conceituada como:
[...] um serviço que pode ser prestado pela biblioteca pública, objetivando a disseminação
de informações para que as pessoas possam resolver problemas diários como tirar
documentos, conseguir bolsas de estudos, matricular seus filhos na escola, conseguir
emprego, saber a programação de cinema, teatro, televisão e outras atividades culturais,
conseguir informações sobre as atividades do governo etc.

A informação utilitária torna-se de crucial importância, sendo um objeto de estudo não
apenas das bibliotecas públicas, mas abrangendo todas as áreas da Ciência da Informação, conforme
enfatizado por Monteiro e Silva (2014, p. 66):
na área de Ciência da Informação, os estudos voltados para Serviços de Informação
Utilitária ainda são carentes. Tendo em vista a sua importância para a sociedade, isso não
deveria ocorrer, já que a atuação pretendida pelos serviços de informação utilitária é a que
melhor aproxima essa área com a sociedade.

Monteiro e Silva (2014) ainda destacam que a informação utilitária desempenha um papel
primordial na sociedade, já que a sua promoção, por meio de serviços próprios denominados de
Serviços de Informação Utilitária, tem em seu escopo funcional, informações de ordem prática que
são de fácil compreensão e alvitram atender um público interessado em cessar sua necessidade por
informações que serão utilizadas em um momento desejado.

3 INFORMAÇÃO UTILITÁRIA EM BIBLIOTECA PÚBLICA: ESTUDO EM CAMPO

Embora seja comprovada a necessidade das bibliotecas brasileiras também terem em seu
acervo assuntos de natureza utilitária, o que se constata, na atualidade, é a escassez de materiais
informacionais dessa natureza. Apesar de o seu surgimento ser datado do século XX, Campello
(1998, p. 7) constatou que, no cenário brasileiro, poucas tentativas foram realizadas no intuito de

�231

implementar serviços de informação utilitária, e as poucas iniciativas realizadas não foram
suficientes para tornar esses serviços parte integrante da biblioteca e nem para desenvolver nos
bibliotecários a consciência de sua importância.
Conforme sinaliza a autora,
[...] algumas experiências têm sido relatadas, mas são casos isolados. Não se pode ignorar
que a implantação de um serviço deste tipo exige mais do que reunir uma coleção de fontes,
mesmo que relevantes e atualizadas; o comprometimento da equipe com o auxílio efetivo
ao usuário talvez seja o fator mais importante para o sucesso do serviço (CAMPELLO,
1998, p. 7).

Assim sendo, para saber como uma biblioteca pública estadual dissemina a informação
utilitária foram elaboradas questões, mediante aplicação de entrevista junto ao bibliotecário gestor
da unidade visitada. O objetivo dessa investigação foi o de verificar como a literatura e bibliotecas
públicas estaduais abordam o tema “Democratização da informação utilitária”.
O estudo em campo representa uma verificação e análise in loco, cujo objetivo é estudar a
realidade dos indivíduos, grupos, comunidades, instituições, entre outros segmentos (GIL, 2010).
No que diz respeito à técnica de entrevista, segundo Marconi e Lakatos (1999, p. 94), ela pode ser
compreendida como o “[...] encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha
informações a respeito de um determinado assunto [...]”.

3.1 ANÁLISE E DISCUSSÕES DE RESULTADOS

Com intuito de elucidar o objetivo da pesquisa, foi elaborado um roteiro contendo perguntas
abertas e fechadas a serem respondidas pelo bibliotecário responsável pela gestão da biblioteca
pública, em face de dois aspectos: coletar dados a respeito dos propósitos da unidade de
informação, e dados referentes à informação utilitária, descrevendo como esse tipo de informação é
considerado tanto pelos profissionais quando pelo usuário que usufrui dos produtos e serviços
biblioteconômicos oferecidos pela unidade. As respostas obtidas e analisadas estão dispostas a
seguir.

ASPECTOS RELACIONADOS À UNIDADE DE INFORMAÇÃO

A primeira pergunta teve a intenção de indagar sobre a proposta principal da biblioteca
pública, de modo a identificar quais seus objetivos e interesses básicos (quadro 1).

�232
Quadro 1 - Objetivo principal da biblioteca
PERGUNTA

RESPOSTA DO BIBLIOTECÁRIO
ENTREVISTADO

Qual o objetivo principal da biblioteca pública ao Independente de todas as atividades bibliotecárias
prestar serviços e produtos à população capixaba?
realizadas pela unidade, o objetivo maior que perfaz
todos os demais está relacionado às necessidades
demandadas pela comunidade na qual a biblioteca
atende.
Fonte: Dados da pesquisa (2018).

Atender o usuário é o principal objetivo do profissional de Biblioteconomia e Ciência da
Informação, sendo que essa preocupação se vê amplamente traduzida na literatura da área. Embora
muitas atividades bibliotecárias sejam de suma importância para que a qualidade dos produtos e
serviços oferecidos seja alcançada, de modo geral, tudo é realizado em prol de um único objetivo:
atender necessidades da comunidade usuária (ALMEIDA JÚNIOR, 2003).
A segunda pergunta indagou a respeito do foco principal das atividades realizadas pelos
profissionais (quadro 2).
Quadro 2 – Foco principal da unidade
PERGUNTA

RESPOSTA DO BIBLIOTECÁRIO

Qual o foco principal das atividades realizadas pelos
profissionais?

A unidade de informação está sustentada no
paradigma do usuário, com vistas a considerar suas
necessidades no momento de elaborar os produtos e
serviços de informação.

Fonte: Dados da pesquisa (2018).

Essa constatação é proclamada com louvor por inúmeros teóricos, pois observando essa
filosofia, a unidade torna-se um organismo útil, logo, torna-se valorizada pela sociedade. Com
efeito, ao desvincular as atenções, tão somente, para o acervo, os serviços de atendimento e
acolhimento ao usuário tende a se tornar uma das atividades mais comuns das bibliotecas públicas.
Assim, o serviço de referência é atividade central para que usuários encontrem as informações de
que desejam, bem como uma alternativa estratégica utilizada pela unidade para conhecer seus
usuários. Desse modo que,
[...] os bibliotecários de referência são profissionais que atuam na linha de frente, como
mediadores da informação, ou seja, no atendimento às necessidades de informação dos
usuários, que possuem conhecimentos sobre o perfil dos usuários, sobre as fontes de
informação e sobre as principais estratégias de busca para obter a informação solicitada
(ROSTIROLLA, 2006, p. 18).

Por meio dos serviços de atendimento/acolhimento, o perfil do usuário e suas necessidades
são manifestados aos profissionais. A esse respeito, quando questionado sobre quem são os usuários

�233

que frequentam a unidade, a respondente declara serem pessoas à procura de informações para
estudo e lazer (quadro 3).
Quadro 3 – Público-alvo da biblioteca
PERGUNTA

RESPOSTA DO BIBLIOTECÁRIO
ENTREVISTADO

Qual o público real (que frequenta assiduamente) desta
unidade? Além do público real, a biblioteca está
preparada para atender usuários potenciais (outros
usuários que não frequentam)?

O público que frequenta assiduamente a biblioteca está
relacionado a jovens e adultos que buscam consultas e
empréstimos para estudo e lazer. A biblioteca tem
condições físicas de atendimento a outros usuários
potenciais e tem prestado serviço ao público
diferenciado como os de deficiência visual e especiais
por parceria entre a APABB, haja vista que o espaço
poderá sim atender a novos projetos e programas
fundamentalmente.

Fonte: Dados da pesquisa (2018).

No momento atual, a biblioteca atende em maior quantidade estudantes e pesquisadores,
além de leitores que encontram na leitura o exercício do lazer. Contudo, é importante refletir acerca
da preocupação da unidade em inovar com projetos direcionados a outros públicos, sobretudo
àqueles que possuam dificuldades em alocar-se ao recinto da biblioteca, como os portadores de
necessidades visuais, de modo a oferecer condições ergonômicas mais apropriadas, atentando-se às
dificuldades enfrentadas pela comunidade (quadro 4).
Quadro 4 - Preocupações com a comunidade
PERGUNTA

RESPOSTA DO BIBLIOTECÁRIO

Existe alguma preocupação (ou projeto) direcionada
aos problemas enfrentados pelos cidadãos da
comunidade? Em caso positivo, relate.

Sim. Temos atendimento a pessoas de públicos
diferenciados como os deficientes visuais pelo setor
Braille e também cedemos espaço para as reuniões e
oficinas para os usuários da APABB que atuam
semanalmente no setor infantil.

Fonte: Dados de pesquisa (2018).

A reestruturação dos espaços físicos e dos serviços bibliotecários, de modo geral, está
relacionada não apenas às informações a serem oferecidas, mas também, à garantia de acesso e de
conforto para quem utiliza o espaço e os serviços prestados. Assim, aferimos que a biblioteca
pública precisa se adequar ao uso por parte do deficiente visual, dentre outras necessidades
especiais apresentadas pelos usuários, com o fim de desenvolver um atendimento com qualidade,
objetivando, consequentemente, abrir as portas a todos os cidadãos, independente de qualquer
especificidade apresentada pelos indivíduos que frequentam o espaço.

�234

ASPECTOS RELACIONADOS À INFORMAÇÃO UTILITÁRIA

A respeito dos tipos de informação oferecidos à comunidade, evidenciou-se, com base nas
respostas da entrevistada, que, a informação para estudo e pesquisa é a única modalidade de
informação oferecida, não sendo encontrada nenhuma informação e/ou serviço úteis ao dia a dia do
cidadão (quadro 5).
Quadro 5 – Informação oferecida à comunidade
Que tipo de informação é oferecido à comunidade?
ALTERNATIVAS
Informação bibliográfica.
Informação para estudo e pesquisa.
Informação referente ao cotidiano do cidadão
(emprego, saúde, previdenciárias, FGTS, PIS, etc.).
Serviço de informação ao cidadão (SIC).
Informações para esclarecimento rápido e preciso
para resolução de problemas do cotidiano do
cidadão.
Outros. Especificar.
Fonte: Dados da pesquisa (2018).

RESPOSTA DO BIBLIOTECÁRIO
ENTREVISTADO
X
X

Constata-se que a unidade não oferece informação utilitária; vale lembrar que a não oferta
desse tipo de informação ou serviço pode ser um dos motivos que torna as bibliotecas com baixa
frequência de usuários (ALMEIDA JÚNIOR, 1997).
Nota-se que a informação mais procurada é a informação bibliográfica, informação
direcionada a trabalhos escolares e pesquisas universitárias. A biblioteca pública, ao oferecer
somente essas modalidades de informação, segundo Almeida Júnior (1997), passa a suprir uma
deficiência da biblioteca escolar, pois os usuários ao não encontrar o atendimento que desejam
nessas unidades recorrem à biblioteca pública em busca da informação para estudo e pesquisa.
O fato de que a informação utilitária é pouco procurada nessa unidade de informação não
deve ser pretexto para que esse tipo de informação não seja ofertada. Faz-se necessário, nesse
contexto, que os serviços e produtos informacionais oferecidos pelas bibliotecas sejam divulgados,
de modo que os indivíduos saibam das inúmeras possibilidades e da agregação de valor que as
bibliotecas e seus profissionais podem proporcionar à sociedade (SUAIDEN, 1995).
Adentrando-se a serviços específicos de informação utilitária, em muitas localidades,
sobretudo em comunidades carentes, é comum notar os chamados Serviços de Informação ao
Cidadão, também denominado por muitos como “Centros de Referências”. Na visão de Almeida
Júnior (1997), a construção desses espaços deve-se ao fato da biblioteca não cumprir seu papel
social, não oferecendo informação utilitária para o cidadão. O mesmo autor defende a necessidade
de construir espaços no interior das bibliotecas, a fim de oferecer serviços de informação utilitária,
tornando a unidade, um elo entre cidadão e sociedade.

�235

Nesse contexto, ao indagar-se ao respondente: “Qual a preocupação maior para esta
unidade em relação às necessidades emergenciais do cidadão, consideradas como utilitárias?
Aqui, nesta unidade, prioriza-se o Serviço de Informação ao Cidadão (SIC)?”. Com essa pergunta,
obteve-se a seguinte resposta:
“A preocupação maior atualmente da biblioteca está relacionada ao atendimento de usuários em geral, considerando
que os programas e projetos são desenvolvidos de acordo com a procura dos serviços; em consideração a serviços de
informação utilitária ainda não há projeto específico para este fim”.

Ora, se a biblioteca não oferece esse tipo de informação, constatamos uma lacuna por ela
consumada. A esse respeito, o papel social do bibliotecário não é cumprido. Ao contrário, a
biblioteca como instituição social deveria atuar de forma ampla, rompendo os “muros” das
tradicionais bibliotecas físicas e prestando assistências em diversos espaços, garantindo com a
socialização do conhecimento (CARVALHO, 2012).
Os SICs desenvolvidos em espaços além das unidades de informação, certamente serão
melhores gerenciados se contar com a participação de profissionais específicos e adequados às
atividades da disseminação da informação. Portanto, ao ser questionada sobre o fato de não se ter a
presença do bibliotecário, em órgãos do governo, como o Centro de Referência e Assistência Social
(CRAS) e a Casa do Cidadão, em Vitória, ambos disseminadoras de informação utilitária, a
bibliotecária entrevistada considera que
“[...] se tivesse um bibliotecário nesses espaços contribuiria bastante para a organização da informação e surgimento
de novos serviços entre as secretarias de ação social, educação e cultura”.

Nota-se que os bibliotecários possuem conhecimento acerca do valor que a informação
utilitária pode desempenhar à sociedade. Presume-se que, o fato da unidade não oferecer
informação utilitária ao público, deve-se não ao desconhecimento do profissional, mas sim, a
inúmeros outros fatores de ordem pública, falta de recursos, de infraestrutura, dentre outros entraves
vivenciados pelas bibliotecas mantidas pela administração pública brasileira.
Desse modo, questionou-se a respeito de como inserir essa nova preocupação nos fazeres
biblioteconômicos, que deverão adentrar-se também a serviços de informação utilitária. Perguntouse: “De modo geral, vocês consideram como válido a preocupação das bibliotecas com os
problemas sociais? Acreditam que as bibliotecas poderiam contribuir para a construção da
cidadania ao viabilizar a democratização da informação? De que forma esse processo poderia ser
concretizado? Relate”. Assim, obteve-se a seguinte resposta:
“Sim, acredito que a Biblioteconomia pode contribuir em várias áreas devido a sua transversalidade e um ponto de
partida para este processo seria o engajamento dos profissionais nos assuntos ligados a democracia exercendo
atividades em associações, ONGs e também em conselhos representativos da sociedade civil”.

Constata-se a visão moderna da profissional, possuindo conhecimento acerca dos serviços
bibliotecários que não devem se resumir tão somente aos espaços de bibliotecas, mas sim, serem

�236

ampliados para outros segmentos sociais, podendo o profissional atuar em outras organizações,
sobretudo em empresas do terceiro setor, atuando, seja como consultor, como mediador da
informação ou como agente histórico/cultural, garantindo para sua inserção e contribuição na
construção de uma sociedade inclusiva (RIBAS; ZIVIANI, 2007).
A fim de concluir a entrevista, a partir dos dados até então coletados, indagou-se como a
informação utilitária poderia ser melhor gerenciada por esta unidade de informação. Segundo a
respondente:
“Sim, mas essa questão está ligada ao organograma da política pública, onde dividem as funções de cada
departamento ou setor, neste conceito a informação utilitária fica sob as responsabilidades das secretarias de ação
social e não das pastas de educação e cultura, que normalmente são gestoras de bibliotecas públicas”.

Novamente, percebem-se as mazelas do serviço público, de modo especial, a falta de uma
gestão efetiva que assegure aos profissionais da informação, a garantia de trabalho, em que haja
necessidade de um árduo, íntegro e consistente tratamento, gerenciamento e disseminação da
informação registrada, de modo que seja viabilizado o uso da informação.
Os profissionais da informação possuem competências e habilidades para desempenhar
funções relativas ao uso da informação pela sociedade, favorecendo a produção de novos
conhecimentos, bem como a consolidação do exercício da cidadania, garantindo melhores
condições de vida a todos os cidadãos (RIBAS; ZIVIANI, 2007). Se não há projetos voltados para a
inserção dos serviços de informação utilitária no bojo das unidades de informação, faz-se necessário
levar os profissionais da informação até os espaços produtores dessa modalidade de informação.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo apontou que na biblioteca pública analisada há distância entre a unidade e o
oferecimento de informação utilitária, estando a biblioteca equiparada, tão somente, à preparação e
disseminação de informações voltadas para estudo, pesquisa e lazer, não tendo atenção especial da
administração pública na elaboração de projetos em prol da construção de serviços de informação
utilitária no espaço da unidade.
A pesquisa detecta que o bibliotecário possui conhecimento a respeito das funcionalidades
da informação utilitária, além de ter uma visão do campo de atuação em outros espaços,
especialmente junto a secretarias e órgãos que lidam com informação de ordem utilitária, e que
deveriam ser disseminadas para todas as comunidades, favorecendo o despertar da função social do
profissional da informação, agregando valor no cotidiano de vida dos indivíduos.

�237

Por isso, dialogamos com Almeida Júnior (1997), ao propor a construção dos Centros de
Referência em comunidades, de modo que nesses espaços sejam oferecidas informações
direcionadas à vivência e convivência das pessoas, em um contexto social. Os Centros de
Referência passam a ser considerados como extensões das bibliotecas, levando aos locais mais
distantes das regiões centrais, muitas das vezes, locais considerados como zonas de risco ou de
grande vulnerabilidade social, informações que as pessoas precisam para exercer seus direitos,
como cidadãos de um país democrático.
Desse modo, os serviços de informação utilitária podem ser oferecidos no próprio recinto da
biblioteca, em conjunto com os serviços de cunho educacional, como também podem ser
estruturados em locais externos. Reforçamos, por meio deste texto, a importância em se construir e
gerenciar esses serviços nos locais mais afastados, como em periferias e zonas rurais, como também
adjacentes aos locais onde os órgãos públicos oferecem os serviços de apoio à população.
No intuito de se construir e gerenciar esses serviços, consideramos viável a necessidade de a
biblioteca conhecer a realidade dos cidadãos e discriminar as informações caracterizadas como de
natureza utilitária. Assim, na construção dos serviços, o modelo proposto por Monteiro e Silva
(2014) (figura 1) pode ser utilizado, em que a biblioteca conduz todo o processo, desde o
conhecimento das necessidades, até a diferenciação dos tipos de informações e sua distribuição em
diferentes formas de prestar os serviços.
Figura 1 – Modelo para gestão dos serviços de informação utilitária

Fonte: Monteiro e Silva (2014, p. 64).

Em suma, com base nesses relatos e segundo o estudo de Monteiro e Silva (2014), confirmase, aqui, a responsabilidade social da Biblioteconomia e da Ciência da Informação e seus
profissionais modernos, tendo eles a missão de transmitir o conhecimento para aqueles que
necessitam, constituindo uma responsabilidade social, e essa responsabilidade parece ser o
verdadeiro

fundamento

dessas

áreas,

viabilizando

a

participação

do

profissional

no

desenvolvimento humano e social. Souza (2013) sinaliza que a biblioteca na contemporaneidade

�238

deve estruturar-se em prol da comunidade servida, rompendo toda e qualquer barreira que impeça o
acesso à informação, tornando-se, assim, um espaço democrático, que se adéqua às necessidades da
população, colocando-se a favor das causas sociais, sobretudo em defesa das classes menos
favorecidas.
Reforçamos, por meio da reflexão descrita neste texto, que a Biblioteconomia é uma área
que muito pode oferecer às pessoas que se encontram, de alguma forma, “às margens” da sociedade.
E, viabilizar serviços de informação utilitária já representa o primeiro passo que promova
estratégias para eliminar as desigualdades sociais, e construir uma sociedade mais humana,
eliminando quaisquer formas de preconceitos, discriminação e diferenças culturais, raciais,
econômicas e sociais.

REFERÊNCIA

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e biblioteconomia. São Paulo: Polis,
1997.
______. Biblioteca Pública: avaliação de serviços. Londrina: Eduel, 2003.
BERNARDINO, Maria Cleide Rodrigues; SUAIDEN, Emir Jose. O papel social da biblioteca
pública na interação entre informação e conhecimento no contexto da ciência da informação.
Perspectivas em Ciência da Informação, v. 16, n. 4, p. 29-41, out./dez. 2011. Disponível em:
&lt;&amp;lt;http://www.scielo.br/pdf/pci/v16n4/v16n4a04.pdf&amp;gt;&gt;. Acesso em: 28 jul. 2014.
BEZERRA, Fabíola Maria Pereira. A biblioteca pública e a infoinclusão: democratização da
informação para usuários idosos. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA,
DOCUMENTO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 25., Anais eletrônicos.... Florianópolis:
FEBAB, 2013. Disponível em: &lt;&amp;lt;file:///C:/Users/aluno-ccje/Desktop/1284-1297-1-PB.pdf&amp;gt;&gt;.
Acesso em: 01 jun. 2014.
BIBLIOTECA NACIONAL DO BRASIL. Biblioteca Pública: princípios e diretrizes. Rio de
Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, Dep. de Processos Técnicos, 2000.
BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO. História da
instituição. 2014. Disponível em:
&lt;&amp;lt;http://www.secult.es.gov.br/?id=/espacos_culturais/hotsites/biblioteca_publica/instituicao/hito
ria/&amp;gt;&gt;. Acesso em: 28 jul. 2014.
BRASIL. Lei nº 8.989 de 1995. Dispõe sobre a Isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados
- IPI, na aquisição de automóveis para utilização no transporte autônomo de passageiros, bem como
por pessoas portadoras de deficiência física, e dá outras providências. Disponível em:
&lt;&amp;lt;http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8989.htm&amp;gt;&gt;. Acesso em: 25 jul. 2014.
CAMPELLO, Bernadete Santos. Fontes de informação utilitária em bibliotecas públicas. Revista
de Biblioteconomia de Brasília, v. 22, n.1, p.35-46, 1998. Disponível em:

�239

&lt;&amp;lt;http://www.brapci.inf.br/_repositorio/2010/03/pdf_8c5db462f9_0008815.pdf&amp;gt;&gt;. Acesso
em: 28 jul. 2014.
CARVALHO, Jonathas Luiz. Necessidades de informação e satisfação do usuário: algumas
considerações no âmbito dos usuários da informação. InCID: Revista Ciência da Informação e
Documentação, Ribeirão Preto, v. 3, n. 2, p. 102-123, jul./dez. 2012. Disponível em:
&lt;&amp;lt;http://www.revistas.usp.br/incid/article/view/48656/52727&amp;gt;&gt;. Acesso em: 20 dez. 2012.
ESCOBAR, Juliana Lúcia. A Internet e a Democratização da Informação: proposta para um estudo
de caso. In: ENCONTRO DOS NÚCLEOS DE PESQUISA DA INTERCOM, 5., Anais... [S.l.]:
[S.n.], 2014. Disponível em:
&lt;&amp;lt;http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/R1363-1.pdf&amp;gt;&gt;. Acesso em:
01 jun. 2014.
FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE BIBLIOTECÁRIOS - IFLA. Manifesto da
ifla/unesco sobre bibliotecas públicas. 1994. Disponível em: &lt;&amp;lt;
http://archive.ifla.org/VII/s8/unesco/port.htm&amp;gt;&gt;. Acesso em: 01 jun. 2014.
FIGUEIREDO, Nice Menezes de. Serviços de referência e informação. São Paulo: Polis, 1992.
FONSECA, Edson Nery da. Introdução à biblioteconomia. 2. ed. São Paulo: Briquet de Lemos,
2007.
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
MACHADO, Frederico Borges; SUAIDEN, Emir José. O papel da biblioteca pública e seus
desafios frente aos avanços tecnológicos. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE
BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 25., Anais
eletrônicos.... Florianópolis: FEBAB, 2013. Disponível em: &lt;&amp;lt;file:///C:/Users/alunoccje/Desktop/1284-1297-1-PB.pdf&amp;gt;&gt;. Acesso em: 01 jun. 2014.
MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de Pesquisa: planejamento e
execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisa, elaboração, análise e interpretação de
dados. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
MARTINS, Wilson. A palavra escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca. 3. ed. São
Paulo: Ática, 2001.
MONTEIRO, Samuel Alves; SILVA, Jonathas Luiz Carvalho. Serviços de informação utilitária em
bibliotecas universitárias. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v. 19,
n. 1, p. 61-68, jan./jun. 2014. Disponível em:
&lt;&amp;lt;http://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/918/pdf_87&amp;gt;&gt;. Acesso em: 01 jun. 2014.
RIBAS, Claudia; ZIVIANI, Paula. O profissional da informação: rumos e desafios para uma
sociedade inclusiva. Informação &amp; Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 17, n. 3, p. 47-57, set./dez.
2007. Disponível em: &lt;&amp;lt; http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/638&amp;gt;&gt;. Acesso
em: 11 maio 2014.
ROSTIROLLA, Gelci. Gestão do conhecimento no serviço de referência em bibliotecas
universitárias: uma análise com foco no processo de referência. 2006. 174 f. Dissertação

�240

(Mestrado em Ciência da Informação)– Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação,
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006.
SOUZA, Maria Aparecida Lemos. Biblioteca Pública inclusiva: adaptar para Renovar. CRB-8
Digital, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 33-41, ago. 2013. Disponível em:
&lt;&amp;lt;http://www.crb8.org.br/UserFiles/File/Artigo_Biblioteca%20P%C3%BAblica%20inclusiva%
20adaptar%20para%20renovar.pdf&amp;gt;&gt;. Acesso em: 27 jul. 2014.
SUAIDEN, Emir. Biblioteca pública e informação à comunidade. São Paulo: Global. 1995.

�241

CAPÍTULO XVII
O PAPEL SOCIAL DA BIBLIOTECA PÚBLICA ESTADUAL DE MINAS GERAIS: UMA
BIBLIOTECA PARA TODOS

Alessandra Soraya Gino Lima
Gildete Santos Veloso

1 INTRODUÇÃO

Historicamente, as bibliotecas sempre estiveram relacionadas às necessidades da
comunidade em que estão inseridas.
Em Nipur, há mais de 5 mil anos, surgia a primeira biblioteca formada por uma coleção de
tábulas de argila que representavam o formato físico dos documentos da época.
Foram surgindo, então, diversas bibliotecas até a lendária Biblioteca de Alexandria, marcada
por vários ataques e culminando com sua destruição por um incêndio.
O Clero controlava o acesso à informação durante a Idade Média e as bibliotecas
funcionavam em mosteiros. No século XVIII, surgiram as primeiras bibliotecas universitárias. As
bibliotecas públicas vêm do século XIX, sob a ótica moderna de disponibilizar gratuitamente
grandes acervos sobre temas variados.
Em Portugal, a Biblioteca Nacional, localizada em Lisboa, criada em 1796, contrariava a
tendência da época em funcionar apenas para os eruditos, oferecendo seus serviços ao público em
geral.
As bibliotecas brasileiras surgiram em 1550, situadas nos colégios jesuítas. A Biblioteca
Nacional, fundada em 1810, com um acervo de 70 mil volumes vindos de Portugal, era consultada
apenas pelos nobres. Em 1814, ela foi aberta a todos, mas a consulta permaneceu para a nobreza,
uma vez que a maioria da população era analfabeta.
Segundo Santos e Rodrigues (2013), a Biblioteconomia acompanha as bibliotecas desde
então, por isso pode ser considerada como uma das disciplinas mais antigas, cujo propósito é
sistematizar

conhecimentos

relativos

disseminação, acesso e uso da informação.

à

seleção,

aquisição,

armazenamento,

tratamento,

�242

Desse modo, podemos dizer que a função social está intrínseca à Biblioteconomia,
bibliotecas públicas e bibliotecários. Trabalha-se alicerçado nas demandas que a sociedade impõe,
mediando o acesso à informação de forma igualitária.

2 BIBLIOTECAS PÚBLICAS

As bibliotecas públicas cumprem importante papel social, pois são agentes transformadores
que conseguem atuar em locais onde a leitura, a informação e a cultura não chegam facilmente, o
que proporciona o uso dos seus serviços de extensão a esses locais.
Comungam com o Manifesto da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e
Cultura (UNESCO), para Bibliotecas Públicas, em que estão atrelados, os seus objetivos
institucionais:


criar e fortalecer os hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância;



apoiar a educação individual e a auto-formação, assim como a educação formal a todos os
níveis;



assegurar a cada pessoa os meios para evoluir de forma criativa;



estimular a imaginação e criatividade das crianças e dos jovens;



promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e
inovações científicas;



possibilitar o acesso a todas as formas de expressão cultural das artes do espetáculo;



fomentar o diálogo inter-cultural e a diversidade cultural;



apoiar a tradição oral;



assegurar o acesso dos cidadãos a todos os tipos de informação da comunidade local;



proporcionar serviços de informação adequados às empresas locais, associações e grupos de
interesse;



facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e a informática;



apoiar, participar e, se necessário, criar programas e atividades de alfabetização para os
diferentes grupos etários.
Segundo Cesarino (2007, p. 7), os serviços da biblioteca pública devem ser gratuitos,

apoiados por uma legislação específica e financiados pelo poder público. A biblioteca pública
configura-se em componente essencial de uma estratégia a longo prazo para o desenvolvimento
cultural do país, do estado e do município. Desempenha papel fundamental, específico e

�243

complementar às bibliotecas comunitárias, escolares, universitárias e especializadas, formando, com
elas, uma rede de acesso à informação e à leitura.
Além disso, há de se considerar, também, que as bibliotecas públicas incorporaram em suas
funções, o atendimento aos objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS), conforme
determinado pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da agenda 2030, acerca do
desenvolvimento das nações nas primeiras décadas do século XXI.
A agenda 2030 é um documento elaborado pela ONU, em 2015, com intuito de nortear os
trabalhos das organizações em relação à economia, ao meio ambiente e ao desenvolvimento social
até o ano de 2030. Além dos países membros, diversas outras organizações da sociedade civil
auxiliaram por mais de dois anos na criação e revisão do texto, incluindo a Federação Internacional
de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA). Nesse documento, são listados 17 objetivos
gerais e, a partir de cada um deles, diversos objetivos específicos, nos quais as autoridades
nacionais se baseiam para implementar mudanças em seus países, formando um movimento global
de melhoria social.
Segundo a IFLA (2015), as bibliotecas podem servir de apoio para o cumprimento de
diversos objetivos da agenda, pois são instituições públicas com um papel importante no
desenvolvimento da sociedade. De acordo com Pires (2015) e outras instituições, os principais
objetivos que podem ser implantados pelas bibliotecas, especialmente as públicas, são os seguintes:
a) Objetivo 1 – erradicação da pobreza: proporcionar acesso público à informação e recursos que
geram oportunidades de melhoria de vida da população; capacitação das pessoas possibilitando a
aquisição de novas habilidades necessárias para a educação e o emprego.
b) Objetivo 3 – saúde e bem-estar: tornar públicas informações sobre saúde, bem-estar, segurança
alimentar e prevenção de doenças por meio de intervenções, preferencialmente em regiões de
vulnerabilidade social, como palestras, campanhas de conscientização, rodas de conversa e
divulgação de material de pesquisa, sobretudo do Guia Alimentar para a População Brasileira
(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2014), contribuindo para que todas as famílias sejam saudáveis.
c) Objetivo 4 – educação de qualidade: oferecer um ambiente seguro, confortável e acessível para
estudantes, com equipes que apoiem a educação continuada e que auxiliem na busca pela
informação de todos os estudantes.
d) Objetivo 5 – igualdade de gênero: disponibilizar um local seguro e confortável para encontros e
discussões sobre o tema; informar e conscientizar mulheres de todas as idades a respeito de seus
direitos e de situações abusivas vivenciadas por elas no dia a dia; executar projetos de alcance
externo ao ambiente da biblioteca, cujo objetivo seja apoiar e informar mulheres sobre a
importância da luta pela liberdade das mulheres e pela igualdade de gênero.

�244

e) Objetivo 9 – indústria, inovação e infraestrutura: oferecer à comunidade espaços agradáveis e
inclusivos, em que custos não sejam barreiras para a adaptação do ambiente e, de modo geral, para
aquisição de informação; disponibilizar acesso aos meios tecnológicos, como internet e
computadores.
f) Objetivo 10 – redução das desigualdades: proporcionar acesso equitativo à informação
promovendo inclusão social, política e econômica.
g) Objetivo 13 – ação contra a mudança global do clima: difundir o acesso a informações sobre o
assunto para motivar a população a uma mudança de hábitos, bem como uma participação ativa nas
decisões políticas e administrativas de suas cidades para fiscalizar as medidas tomadas por elas.
h) Objetivo 16 – paz, justiça e instituições eficazes: oferecer para toda população, principalmente
as de regiões mais carentes, meios de acompanhamento das medidas propostas e aprovadas pelo
governo, sociedade civil e outras instituições; capacitar as pessoas para que compreendam e
desenvolvam as habilidades necessárias para a utilização dessas informações; oferecer espaços para
que as pessoas possam se reunir e se organizar em movimentos com esses fins.

2.1 BIBLIOTECA PÚBLICA ESTADUAL DE MINAS GERAIS

Frente a essas considerações feitas pela IFLA, torna-se evidente as funções das bibliotecas
públicas no Brasil de hoje – como as mais democráticas instituições de caráter cultural e
educacional as quais, sem dúvida alguma, tem a vocação nata para exercer um papel social de
grande relevância na inserção da sociedade brasileira na modernidade globalizada e informada. Em
Minas Gerais, não seria diferente. Diante desse panorama, a Biblioteca Pública Estadual de Minas
Gerais procura vincular suas atividades aos objetivos propostos pela Agenda 2030. Dentre os
objetivos já incorporados nas ações ali desenvolvidas, destacamos:
a) Objetivos 1, 4 e 8 – Erradicação da pobreza, Educação de qualidade e Trabalho decente e
crescimento econômico: existem projetos como o do Curso de Braille e o Bordados e Teatros que
são de cunho educativo que visam a capacitação da população gerando novas oportunidades de
emprego e de geração de renda, bem como os grupos de estudos de inglês, direito e português que
acontecem no Setor Braille.
b) Objetivo 5 – Igualdade de gênero: são organizadas exposições com o intuito de conscientizar e
empoderar mulheres e meninas, como a exposição “Violência: não se acostume com essa ideia” e as
exposições temáticas dos setores, por exemplo, a de “Protagonistas e Heroínas”, do Setor
Infantojuvenil.

�245

c) Objetivo 9 – indústria, inovação e infraestrutura: os dois prédios que compõem a Biblioteca
Pública Estadual de Minas Gerais, a Sede Luiz de Bessa e o Anexo Professor Francisco Iglésias, são
acessíveis a pessoas com deficiência; além disso, o Laboratório de Informática do Prédio Anexo
oferece à população computadores conectados à internet.
d) Objetivo 10 – redução das desigualdades: a Biblioteca desenvolve projetos de extensão que
levam acesso à leitura, informação e cultura a comunidades de regiões com vulnerabilidade social
de Belo Horizonte e a Região Metropolitana, como a Caixa Estante e o Carro Biblioteca.
e) Objetivo 13 – ação contra a mudança global do clima: promove hábitos mais sustentáveis e
conscientiza a população por meio de palestras, exposições com essa temática e ao dar
protagonismo a esse tema na elaboração de projetos.
f) Objetivo 16 – paz, justiça e instituições eficazes: é desenvolvido o projeto Jornada do Direito
que possibilita a interação entre pessoas leigas e profissionais e estudantes da área, levando essas
pessoas a adquirir noções básicas a respeito de conhecimentos jurídicos.
O alinhamento dos objetivos gerais das bibliotecas, em especial das bibliotecas públicas,
com as ações propostas pela IFLA para o cumprimento da Agenda 2030 e o desenvolvimento
sustentável se faz necessário, uma vez que suas ações de promoção cultural têm um caráter
universal, pois atingem todos os âmbitos da sociedade, a exemplo os projetos desenvolvidos pela
Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais que sempre visam à democratização do acesso ao
conhecimento.
Vamos, então, destacar as ações desenvolvidas pela Biblioteca Pública Estadual de Minas
Gerais realizadas em seus diversos setores, tais como: Setor Infantojuvenil, Coleções Especiais,
Setor Braille, Galeria Paulo Campos Guimarães e Passarela Cultural, Setor de Referência e Estudos,
Carro-Biblioteca e Caixa-Estante, assim como a Diretoria do Sistema Estadual de Bibliotecas
Públicas Municipais. Ao longo de seus 64 anos de existência, a Biblioteca vem atendendo
demandas bastante significativas que promovem a inclusão sociocultural de diversas camadas da
sociedade e cumprem importante papel no cenário cultural de Belo Horizonte, por meio de cerca de
400 atividades por ano. Algumas atividades já contam com recurso de acessibilidade. Elas já estão
consolidadas e têm mais de cinco anos de continuidade, fazendo parte da programação fixa da
instituição.


Aula na Biblioteca: criado em 2009, esse projeto tem por finalidade ser uma ponte entre a

universidade e a comunidade, em especial aos jovens em formação. Promove o encontro entre
professores e profissionais de diversas áreas do conhecimento, promovendo palestras e debates com
temas contemporâneos, a fim de despertar para a diversidade cultural existente no acervo da
Biblioteca e que está ao alcance de todos por meio da leitura.

�246



Jornada do Direito: ciclo de palestras e debates sobre vários temas ligados à área jurídica

em linguagem que possa atender a comunidade em geral. Os palestrantes convidados são
professores universitários especialistas nas áreas que vão abordar.


Em Destaque: exposição mensal temática de livros, entre outros materiais que forneçam

informações e referências sobre determinado tema, visando despertar o interesse e a curiosidade dos
usuários em um espaço pensado e organizado para permitir que se consultem livremente as obras
em exposição. Bimestralmente, são realizadas intervenções culturais que abordam o tema exposto
no mês em curso, como: palestra, mesa redonda, apresentação musical, cinema etc. O tema pode
estar ligado ao calendário cultural de Minas Gerais, mas permite a inserção de outros enfoques,
como: sugestões de leitores, instituições de ensino e do Comitê de Educação do Circuito Liberdade,
onde a Biblioteca está inserida.


MUMIA: a Biblioteca participa da Mostra Udigrudi Mundial de Animação – MUMIA,

desde 2012. O festival reúne diversos filmes de animação (cerca de 34 países participantes).


Visitas Guiadas: em atividade desde 2006, as visitas têm uma trajetória particular no campo

de ações ligadas à cultura; seu êxito deve-se à cooperação que se estabeleceu entre a Biblioteca
Pública e setores da sociedade interessados em participar de iniciativas em favor da leitura. O
visitante encontrará um espaço organizado, de acesso fácil aos livros e um ambiente estimulante de
promoção da leitura. A visita apresenta e situa o usuário potencial dentro do espaço da Biblioteca
Estadual de Minas Gerais, as dimensões do uso dos seus serviços e a importância de tudo que ela
oferece.


Clube de Leitura de Quadrinhos: encontro de leitores de uma mesma obra em quadrinhos

para expressarem suas opiniões e críticas sobre ela.


Encontros com a Leitura: ciclo de palestras com especialistas, pessoas de renome e

escritores com o objetivo de buscar, por meio da discussão, a reflexão e valorização do espaço da
biblioteca, do livro e da leitura. Destinado a profissionais que atuam com o incentivo à leitura e
literatura como professores, bibliotecários, mediadores de leitura, estudantes entre outros.


Hora do Conto e da Leitura: narração e leitura de histórias que visa dinamizar o uso do

acervo da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, aproximando crianças e adolescentes do
universo literário e contribuindo para a formação de leitores. Setores: Caixa-Estante, CarroBiblioteca e Infantojuvenil.


Roda de Leitura: atividade conduzida por um leitor-guia (professor, escritor...) com o

objetivo de aproximar crianças, adolescentes e adultos de textos literários, por meio de um diálogo
que explore os aspectos vivenciais presentes na literatura. Uma troca de experiências de leitura
entre os participantes. Setores: Carro-Biblioteca e Infantojuvenil.

�247



Clube de Leitura: encontro de leitores de uma mesma obra para expressarem suas opiniões

e críticas sobre ela, explorarem o gênero literário em questão e conhecerem outros autores e livros
afins, com o intuito de incentivar o gosto pela leitura. Setores: Braille, Caixa-Estante, CarroBiblioteca e Infantojuvenil.


Encontro com o Escritor: bate-papo com escritores de literatura infantil, juvenil e adulta

com vistas a aproximar o leitor do autor, promovendo um diálogo sobre o processo de criação de
livros, bem como sobre a obra, estilo, motivações e experiências de leitura dos escritores. Um
encontro também que oferece a oportunidade de os leitores ouvirem dos próprios autores a leitura
de seus textos publicados. Setores: Braille, Caixa-Estante, Carro-Biblioteca e Infantojuvenil.


Apresentações Teatrais: apresentações teatrais inspiradas e livros de literatura

infantojuvenil e adulta existentes no acervo da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais.
Setores: Braille, Caixa-Estante, Carro-Biblioteca e Infantojuvenil.


Livro Fora da Estante: exposições que destacam mensalmente um tema de interesse

cultural. As publicações relativas ao tema são retiradas de seus lugares nas estantes, e reunidas em
uma só prateleira temática, com o objetivo de chamar a atenção do leitor para o assunto proposto.
Setor: Carro-Biblioteca.


Exposição Temática: exposições de livros com o objetivo de divulgar o acervo e autores

específicos. Setor: Infantojuvenil, Empréstimo Domiciliar e Hemeroteca Histórica.


Exposições de Artes: exposições de artes visuais e literárias, selecionadas por meio de

Edital Público, contando ainda com escritores para lançamentos de livros, com o objetivo de
mostrar e divulgar trabalhos de novos artistas. Setor: Galeria de Arte Paulo Campos Guimarães e
Passarela Cultural.


Painel Descobrindo o Autor: espaço destinado para destacar autores e ilustradores da

literatura infantojuvenil, cujos leitores têm a oportunidade de conhecer mais o seu autor/ilustrador
preferido, seus trabalhos, biografias, leituras, motivações, livros publicados e ampliar suas
possibilidades na escolha de livros. Setor: Infantojuvenil.


Oficina de Origami: após contação de histórias os participantes fazem personagens,

animais, flores e o que mais imaginarem com a técnica origami. Setor: Caixa-Estante.


Inventar e brincar: é só começar!: apresentação de repertório de brinquedos e brincadeiras

e abordagem da importância do brincar para o desenvolvimento da criança. Setor: Infantojuvenil.


Lançamento de Livros: os setores da DEAR oferecem a possibilidade de reserva de seus

espaços para receberem escritores em eventos de lançamentos de livros. Setores: Braille, CaixaEstante, Carro-Biblioteca e Infantojuvenil.

�248



Curso: promoção de cursos com temas de interesse para os leitores e também para os

servidores da Biblioteca. Os cursos são ministrados pela própria equipe da Biblioteca e também por
profissionais reconhecidos no mercado. Setores: Braille, Caixa-Estante, Carro-Biblioteca e
Infantojuvenil.

Desde a sua fundação, em 1954, a Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais tem como
premissa a acessibilidade e a inclusão.
A década de 1960 foi muito importante para o fortalecimento da Biblioteca. Foram
instituídos os serviços de maior alcance social. Surgiram o Carro-Biblioteca, o setor Infantojuvenil,
as primeiras ações institucionalizadas do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas Municipais e o
Setor Braille. Esse foi criado em 1965 tornando-se um equipamento importante para a prática da
leitura acessível, não só na Capital, mas também em toda a região metropolitana de Belo Horizonte,
tendo como diferencial o fato de possuir em seu quadro funcional pessoas com deficiência visual,
aptas a melhor perceber as demandas dos usuários.
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146, de 6 de julho de 2015)
define:
Art. 3o Para fins de aplicação dessa Lei, consideram-se:
I - acessibilidade: possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e
autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e
comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações
abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural,
por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida;
II - desenho universal: concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem
usados por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou de projeto específico, incluindo os
recursos de tecnologia assistiva;
III - tecnologia assistiva ou ajuda técnica: produtos, equipamentos, dispositivos, recursos,
metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada
à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando a sua
autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social.

�249

2.1.1 Setor Braille

O Setor Braille se caracteriza por ser um espaço de trabalho e convivência, cujos princípios
são fundamentados na promoção humana, no voluntariado e na inclusão social. O Setor possui
como objetivo oferecer às pessoas com deficiência visual o acesso irrestrito à cultura e informação,
por meio de livros acessíveis em braille, audiolivros, equipamentos adaptados, bem como pela
realização de atividades de incentivo à leitura e trabalho voluntário.
Configura-se numa referência em acessibilidade para bibliotecas e outros espaços culturais,
num trabalho caracterizado pela permanência e continuidade dos serviços oferecidos e por isso
mesmo garantindo uma credibilidade junto à comunidade como um todo.
Mensalmente, o Setor atende cerca de 1.000 pessoas com deficiência visual (cegos e baixa
visão). É um público muito heterogêneo, que abrange classes sociais variadas, múltiplas faixas
etárias (adolescentes, jovens, adultos e idosos), diversificados gêneros, tendo cada indivíduo desse
coletivo, demandas individuais bem distintas (estudo para concursos, leitura de materiais
científicos, leitura de textos em formatos digitais, gravação de apostilas, empréstimos de livros em
braille, audiolivros e filmes com audiodescrição, uso de tecnologias assistiva, inscrição para
concursos etc.).
O Setor Braille possui um acervo diversificado composto por obras literárias de autores
brasileiros e estrangeiros nos mais variados formatos (cerca de 2000 títulos em braille, 1800
audiolivros e, aproximadamente, 60 filmes com audiodescrição), abrangendo as diversas áreas do
conhecimento.
O Setor também promove atividades inclusivas de incentivo à leitura que estimulam o gosto
e o hábito de ler entre os seus usuários, norteadas pelos princípios da acessibilidade, a saber:


Cine Braille: atividade desenvolvida a cada dois meses, que tem como objetivo exibir
filmes com audiodescrição para pessoas com deficiência visual, no teatro da biblioteca
pública. No final de cada sessão, o voluntário do Setor, Ronaldo Toledo, conduz uma
discussão sobre os aspectos do filme. São realizados, mais ou menos, seis encontros por ano.



Curso de Braille: ministrado pelo servidor Alexandro Alves Lima, tem o objetivo de
proporcionar aos voluntários cadastrados no Setor e às pessoas com deficiência visual e seus
parentes a oportunidade de aprender a ler e escrever por meio do Sistema Braille. O referido
curso tem carga horária de 60 horas, com duração de seis meses. É promovido um curso por
ano.

�250



Serviço Voluntário: leitura viva voz de voluntários para os usuários do setor, de materiais
para estudos de educação continuada, concursos públicos e didáticos que não são
disponíveis em braille.



Café com Poesia: narração e leitura de poesias para pessoas com deficiência visual.



Tempo para Ler: apresenta textos curtos de determinado autor fomentando discussão sobre
literatura.

2.1.2 Carro-Biblioteca

O Carro-Biblioteca e a Caixa-Estante são os serviços de extensão da Biblioteca Pública
Estadual de Minas Gerais. Criado em 1960, o Carro-Bilioteca possui como maior premissa a
democratização do acesso à leitura para comunidades em condições socialmente vulneráveis que
não possuem bibliotecas ou equipamentos culturais. Por meio de sua atuação, são desenvolvidas
atividades de incentivo e mediação de leitura junto a cinco bairros de Belo Horizonte, atendidos
semanalmente no período da manhã. Conta com um acervo de aproximadamente 25.000 livros,
dentre eles literatura brasileira, estrangeira e infantojuvenil, além de revistas adultas e infantis.
Desde sua implantação, o Carro-Biblioteca atendeu as necessidades de leitura e informação
de diversas comunidades e promoveu ações culturais em vários formatos e temáticas. Foram mais
de 37 comunidades contempladas ao longo desses 58 anos de atuação. Por isso, o serviço do CarroBiblioteca tornou-se uma referência cultural, nesse cenário.

2.1.3 Caixa Estante

Já o serviço de Caixa-Estante foi criado em 1969 e, desde então, tem possibilitado o
convívio com os livros fora dos muros da Biblioteca, por meio do atendimento a instituições
públicas e não governamentais de Belo Horizonte e região metropolitana. Hoje, a Caixa-Estante
está presente em 15 instituições, tais como creches, penitenciárias, centros socioeducativos, casa de
semiliberdade, Lar dos Meninos e APAE.
Possui um acervo de aproximadamente oito mil títulos, contemplando literatura brasileira,
estrangeira e infantojuvenil, além de revistas adultas e infantis.

�251

A Caixa-Estante permanece nas instituições por três anos e, além da democratização da
leitura e do acesso à informação, tem como objetivo sensibilizar as instituições as quais atende, no
intuito de que elas criem suas próprias bibliotecas.
As ações voltadas para a promoção da leitura desses dois serviços de extensão estão em
consonância com as recomendações da UNESCO e do Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura
e Bibliotecas de Minas Gerais, principalmente, em atendimento ao eixo 1, que trata da
democratização do acesso à leitura e ao eixo 2, o qual discorre sobre o fomento à leitura e à
formação de mediadores.

3 CONCLUSÃO

O espaço democrático da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, com toda sua
diversidade de público e de atividades, constitui um ambiente propício ao desenvolvimento social
dos indivíduos. O processo de inclusão sociocultural acontece quando, nesse ambiente, asseguramos
a democratização do acesso à informação, contribuindo com a diminuição das desigualdades sociais
e estimulando, cada vez mais, o uso da biblioteca como forma de ampliação de conhecimento.
Guimaraens (2018) reflete o trabalho desenvolvido na Biblioteca Pública Estadual de Minas
Gerais quando assegura:
A biblioteca pública é o centro local de informação, tornando prontamente acessíveis aos
seus utilizadores o conhecimento e a informação de todos os gêneros:
Os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso
para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição
social. Serviços e materiais específicos devem ser postos à disposição dos utilizadores que,
por qualquer razão, não possam usar os serviços e os materiais correntes, como, por
exemplo, minorias linguísticas, pessoas deficientes, hospitalizadas ou reclusas. Todos os
grupos etários devem encontrar documentos adequados às suas necessidades. As coleções e
serviços devem incluir todos os tipos de suporte e tecnologias modernas apropriados assim
como fundos tradicionais. É essencial que sejam de elevada qualidade e adequadas às
necessidades e condições locais. As coleções devem refletir as tendências atuais e a
evolução da sociedade, bem como a memória da humanidade e o produto da sua
imaginação. As coleções e os serviços devem ser isentos de qualquer forma de censura
ideológica, política ou religiosa e de pressões comerciais.

REFERÊNCIAS

BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL). Coordenadoria do Sistema Nacional de Bibliotecas
Públicas. Sociedade de amigos da Biblioteca Nacional. Um olhar diferenciado sobre a
Biblioteca Pública: impactos da gestão inovadora: manual do participante. Rio de Janeiro:
Fundação Biblioteca Nacional, 2009.

�252

BRASIL. Decreto n. 6.949, de 16 de agosto de 2009. Promulga a Convenção Internacional sobre os
Diretos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30
de março de 2007. Diário Oficial da União, Brasília, 26 Ago. 2009. Disponível em:
&lt;www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/.../decreto/d6949.htm&gt;. Acesso em: 24 jul. 2015.
BRASIL. Lei 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília. 2000. Disponível em:
&lt;HTTP://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L10098.htm&gt;. Acesso em: 09 nov. 2018.
CABRAL, Ana Maria; REIS, Alcenir Soares dos. Democratização da informação e da leitura:
desafios do Carro-Biblioteca. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE EXTENSÃO
UNIVERSITÁRIA, 2., Anais... Belo Horizonte: UFMG, 2004.
CASTRO, César. História da biblioteconomia brasileira. Brasília: Thesaurus, 2000.
CESARINO, Maria Augusta da Nóbrega. Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa: 50 anos de
cultura. Belo Horizonte: Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, Superintendência de
Bibliotecas Públicas, 2006.
FONSECA, C. R. et al. Acessibilidade em bibliotecas: um estudo de caso. Porto Alegre: UFRS,
2012.
GUIMARAENS, Lucas. Bibliotecas e o diálogo transcultural. [S.l.]: [S.l.], 2018.
IFLA. As bibliotecas podem promover a implementação da agenda 2030. 2015. Disponível em:
&lt;https://www.ifla.org/files/assets/hq/topics/libraries-development/documents/sdgs-insert-pt.pdf&gt;.
Acesso em: 01 dez. 2018.
INTERNATIONAL FEDERATION OF LIBRARY ASSOCIATIONS AND INSTITUTIONS. Os
servicos da Biblioteca Pública: directrizes da IFLA/UNESCO. [S.l.]: Liberpolis; Caminho, 2003.
LINDERMANN, Catia et all. Por uma Biblioteconomia mais social: interfaces e perspectivas.
Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v. 21, n. 22, p. 707-723,
ago./nov. 2016.
MAZZONI, A. A. et al. Aspectos que interferem na construção da acessibilidade em bibliotecas
universitárias. Ciência da informação, Brasília, DF, v. 30, n. 2, p. 29-34, maio/ago. 2001.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para
o Desenvolvimento Sustentável. 2015. Disponível em:
&lt;http://www.itamaraty.gov.br/images/ed_desenvsust/Agenda2030completoportugus12fev2016x.pdf
&gt;. Acesso em: 02 dez. 2018.
PIRES, Fernando. Agenda 2030 da ONU e as bibliotecas. Tecnologias e Ciências da Informação,
ago. 2015. Disponível em: &lt;http://tci.fernandop.info/agenda-2030-da-onu-e-as-bibliotecas/&gt;.
Acesso em: 09 dez. 2018.
RABELLO, Odília Clark Peres. O deficiente visual e a Biblioteca Pública Estadual Luiz de
Bessa. Belo Horizonte: UFMG, 1989.
SANTOS, Ana Paula Lima dos. Biblioteconomia: gênese, história e fundamentos. Revista
Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 9, n. 2, p. 116-131, jul./dez. 2013.

�253

SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA DE MINAS GERAIS. Superintendência de
Bibliotecas Públicas de Minas Gerais. Disponível em: &lt;http://www.cultura.mg.gov.br&gt;. Acesso
em: 06 out. 2012.
SUAIDEN, Emir José. Biblioteca pública brasileira: desempenho e perspectivas. São Paulo: Lisa;
INL, 1980.
TOJAL, Amanda Pinto da Fonseca et al. Caderno de acessibilidade: reflexões e experiências em
exposições e museus. São Paulo: Expomus, 2010.

�254

PARTE IV

Práticas bibliotecárias
em face do movimento
associativo

�255

CAPÍTULO XVIII
POR UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA E IGUALITÁRIA: O PAPEL DO MOVIMENTO
BIBLIOTECÁRIO NA DEMOCRATIZAÇÃO DO CONHECIMENTO

Jorge Santa Anna

1 INTRODUÇÃO

A evolução da sociedade tem sido acompanhada pela manifestação de diferentes tendências
no decorrer da história humana que proporcionam a delimitação ou divisão do espaço social em
relação ao tempo ou momento histórico vivenciado, determinado por hábitos, culturas, formas de
organização social e política, dentre outros elementos que, em conjunto, caracterizam a
heterogeneidade das práticas humano-sociais.
A heterogeneidade é, talvez, o traço mais marcante e peculiar do ser humano e das relações
sociais que estabelece com seus semelhantes. E são essas diferenciações que possibilitam as
transformações, consideradas como impulsos promotores da mudança, em que concepções e
paradigmas vão sendo questionados e repercutem na ruptura desses e, por conseguinte, formação de
novas ideologias.
A ruptura de determinadas crenças e propósitos é fruto da inquietação do ser humano acerca
do sistema que rege a sociedade em um determinado momento, não sendo, portanto, uma atividade
simples e súbita. Contempla, normalmente, um longo período, em que as práticas sociais, sobretudo
no que tange ao sistema de controle social, vão sendo rejeitadas, determinando a formação de novas
ideologias, apoiadas por grupos e forças que acabam, em determinado momento, estabelecendo uma
forma de controle hegemônico sobre os demais grupos.
Sob uma perspectiva histórica, econômica e política, as sociedades buscam estabelecer
formas de organização social, e, para essa organização, manifestam-se as formas de controle, as
quais são geradas e conduzidas por meio de grupos que exercem, sob uma determinada condição, a
autoridade sobre o sistema social. Surge, especificamente, o sistema político, representado por
indivíduos que, por possuírem similaridades de pensamento sobre determinadas crenças, valores e
acepções, organizam-se para defender interesses em comum e estabelecer as formas de controle sob
o que acreditam para melhoria da sociedade.

�256

No âmago do sistema político da contemporaneidade, não resta dúvida acerca do papel
desempenhado pela democracia, em que a autoridade está no povo e para o povo, sendo os líderes
políticos, em quaisquer contextos, escolhidos mediante o direito de indicação de cada indivíduo. As
sociedades democráticas, portanto, possibilitam alternativas que tendem a eliminar opressões e
desigualdades. Isso é alcançado, certamente, mediante a universalização dos direitos e por meio da
ampliação de acesso à educação e ao conhecimento.
A democratização do conhecimento é uma das maiores conquistas das sociedades
democráticas, sendo acelerada, no decorrer das últimas décadas do século XX, por meio da
passagem de uma sociedade que restringia o conhecimento às classes elitizadas, para uma sociedade
que pluralizou as formas de acesso e, dessa maneira, abriu espaços para a participação de todos os
indivíduos, independente de condição social, na construção do conhecimento e, por decorrência, no
desenvolvimento intelectual e crítico dos cidadãos.
Democratizar o conhecimento não é, simplesmente, disponibilizá-lo, mediante estratégias de
divulgação. Trata-se de um fazer muito mais complexo, que envolve comprometimento de
profissionais, haja vista promover o controle e a gestão, permitindo, o uso efetivo e lícito do
conhecimento. Além do empenho e engajamento de profissionais, faz-se necessária a participação
dos agentes governamentais, no intuito de promover políticas de apoio e garantir maiores
investimentos para as classes envolvidas com essa causa.
O movimento político a favor dos direitos dos cidadãos e, especificamente, a defesa da
prática profissional se consolida por meio da formação de grupos envolvidos com os interesses das
classes profissionais. Os profissionais envolvidos com a democratização do conhecimento, como os
bibliotecários, merecem destaque nesse contexto de lutas e defesas de direitos, pois, são eles que
gerenciam o fluxo da informação que possibilita a geração de conhecimento.
Além de atuarem com as práticas de organização do conhecimento, normalmente realizada
em unidades e serviços de informação, como bibliotecas, arquivos, centros culturais, dentre outros,
os bibliotecários também possibilitam práticas de disseminação do que é produzido, permitindo, por
decorrência, o uso do conhecimento, para fins de desenvolvimento individual e social.
Essas difíceis e louváveis atividades, essenciais para consolidar a democratização do
conhecimento - considerada como o alvo das sociedades democráticas – a fim de serem melhores
realizadas, requerem maior valorização e reconhecimento por parte das autoridades políticogovernamentais e da própria sociedade, o que justifica a inserção dos bibliotecários no âmbito
político, uma causa urgente e necessária.
Discorrer sobre democratização do conhecimento permite reforçar a contribuição das
práticas biblioteconômicas na gestão e disseminação do conhecimento na sociedade. Com efeito,

�257

não é possível refletir sobre o papel desse profissional, sem destacar a contribuição do movimento
associativo, o engajamento de grupos, com propósitos semelhantes e que unem-se em defesa dos
direitos da classe, garantindo, portanto, melhorias ao fazer profissional, e, como consequência,
viabilizando condições adequadas para a prática cidadã, também considerada como fruto e essência
da democracia.
No âmbito bibliotecário, acreditamos ser de suma importância o discurso acerca da
participação desses profissionais com as causas sociais, sobretudo em sociedades democráticas. É
essa participação que possibilita o acesso e uso democrático ao conhecimento e a mudança de vida
das pessoas. Por sua vez, essa participação se intensifica por meio do engajamento de grupos ou
lideranças, ligadas à classe. Assim, é indissociável a relação estabelecida entre democratização,
movimento bibliotecário em defesa da classe e o alcance de uma sociedade mais justa e igualitária.

2 DEMOCRATIZAÇÃO DO CONHECIMENTO E O MOVIMENTO BIBLIOTECÁRIO:
LUTAS EM FAVOR DA CLASSE PARA UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA E
IGUALITÁRIA

A história e evolução do conhecimento na sociedade, ao longo dos tempos, têm revelado o
quanto esse elemento tem interferido nas formas de relacionamento e o estabelecimento do poder
entre os grupos sociais. Acontecimentos históricos marcantes, como a invenção da imprensa, a qual
possibilitou novas formas de socialização do conhecimento (BURKE, 2003), como também, o
desenvolvimento das tecnologias digitais, as quais promoveram o compartilhamento e participação
coletiva mais intensa na construção do conhecimento (BURKE, 2012), foram decisivos para
viabilizar o acesso universal e democrático ao saber humano.
A democratização do conhecimento não pode ser considerada, tão somente, como uma
prática ou fazer relativo à disponibilização ou disseminação do que é gerado com o conhecimento.
Trata-se de um processo mais abrangente, visto que permite garantir, de forma universal eliminando-se quaisquer limitações - o acesso ao conhecimento. Ademais, ao democratizar, são
oferecidas condições para que as pessoas possam participar, de forma interventiva, na construção de
novos conhecimentos e agregação de valor para a evolução da sociedade (TEIXEIRA, 2001).
O processo de democratizar o conhecimento envolve diversos agentes, pois sustenta-se em
práticas diversificadas, realizadas em inúmeros espaços da sociedade. Além do aparato tecnológico
que vem contribuindo, cada vez mais, para garantir o acesso ao conhecimento, é preciso que outros

�258

fazeres sejam realizados, envolvendo, também, ações pedagógicas que viabilizem a aprendizagem e
o desenvolvimento dos indivíduos (RAMOS; ROSSATO, 2017).
Em uma primeira instância, a democratização é promovida por meio do acesso à
informação, considerando os registros gráficos armazenados em acervos documentários, os quais
precisam ser gerenciados, a fim de tornarem-se passíveis de recuperação. Essa constitui a essência
dos serviços e das unidades de informação, em que o bibliotecário, na condição de agente
informacional, propicia condições para garantir a transferência do que está contido nos acervos para
os utilizadores (BARROS, 2003).
Como

agentes

de

disseminação

do

conhecimento,

os

bibliotecários,

atuantes

tradicionalmente em bibliotecas, centros de informação e em variados locais que demandem
serviços informacionais, cumprem o papel de promover a formação instrutiva e crítica dos sujeitos,
mediante práticas pedagógicas, comunicativas e de assistência às necessidades específicas dos
usuários. Em linhas gerais, essas funções realizadas por esses agentes possuem uma dimensão
social, que vai muito além de procedimentos técnicos e operacionais. Isso porque, no exercício da
função bibliotecária, independente do contexto de manifestação dessas funções, há necessidade de
promover o acesso e mediação da informação, em diferentes mídias, no intuito de que “[...] as
pessoas sejam capazes de refletir e desenvolver um senso crítico para exercer seus direitos, sua
cidadania e viver em uma sociedade mais justa e igualitária [...]” (LINDEMANN; SPUDEIT;
CORRÊA, 2016, p. 707, grifo nosso).
Em uma instância mais profunda, a democratização se concretiza quando são realizadas
intervenções que contribuem para o uso da informação e a transformação dela em conhecimento,
uma tarefa que acarreta melhorias no contexto de vida dos sujeitos. Isso envolve um conjunto de
ações promovidas pelo sistema social, haja vista desencadear oportunidades que viabilizem
melhores condições de vida. Logo, mediante ao uso da informação e seu valor para a cidadania,
desperta-se o crescimento econômico (ROCHA, 1999).
Acreditamos que os bibliotecários, nas múltiplas atividades que realizam, exercem
contribuições para a democratização do conhecimento, seja em termos de disseminação quanto ao
uso da informação para manifestação da cidadania. Por consequência desse processo, há relação
entre fazer bibliotecário e desenvolvimento pessoal e social. Mais que isso, em uma sociedade
altamente competitiva da pós-modernidade, e diante dos ideais democráticos e valores humanos que
visam a ordem mundial, para o progresso das nações futuras, é possível constatar o contributo do
fazer bibliotecário com o desenvolvimento sustentável da sociedade.
O aprofundamento acerca dessa relação tem sido acatado em âmbito internacional, tendo
destaque as ações e propostas acatadas pela Federação Internacional de Associações e Instituições

�259

Bibliotecárias (IFLA), a qual reconhece o papel das bibliotecas e dos profissionais, para o alcance
dos propósitos do desenvolvimento sustentável para o mundo, conforme proposto na Agenda 2030
da Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com os ideais da ONU, para o
desenvolvimento futuro do planeta, a IFLA convoca toda a classe bibliotecária e as unidades e
serviços que envolvem os bibliotecários colocarem-se a serviço dessa causa. O quadro 1 expõe os
principais objetivos do desenvolvimento sustentável e as principais ações a serem desenvolvidas
pela prática bibliotecária.
Quadro 1 – A prática bibliotecária em favor do desenvolvimento sustentável
Objetivos do desenvolvimento sustentável
Principais ações bibliotecárias
Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em - Acesso público à informação e recursos que geram
oportunidades para melhorar a vida das pessoas;
todos os lugares
- Capacitação para adquirir novas habilidades
necessárias para a educação e o emprego;
- Informação para apoiar o processo de tomada de
decisões para combater a pobreza por parte dos
governos, da sociedade civil e do setor empresarial.
Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e - Pesquisas e dados agrícolas para que os cultivos sejam
melhoria da nutrição e promover a agricultura mais produtivos e sustentáveis;
- Acesso público para produtores agrícolas a recursos
sustentável
em rede, como, por exemplo, preços de mercado local,
informes meteorológicos e novos equipamentos.
Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar Pesquisas disponíveis em bibliotecas médicas e
hospitalares que apoiem a educação e melhorem a
para todos, em todas as idades
prática médica dos provedores de cuidados médicos;
-Acesso público à informação sobre saúde e bem-estar
nas bibliotecas públicas para contribuir com que todas
as pessoas e famílias sejam saudáveis.
Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de - Equipes dedicadas que apoiem a educação na primeira
qualidade,
e
promover
oportunidades
de infância (educação continuada); - Acesso à informação
e à pesquisa para estudantes em todo o mundo;
aprendizagem ao longo da vida para todos
- Espaços inclusivos onde os custos não sejam uma
barreira para adquirir novos conhecimentos e
habilidades.
Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as - Espaços de encontro seguros e agradáveis; Programas e serviços pensados para satisfazer as
mulheres e meninas
necessidades de mulheres e meninas como direito e
saúde;
- Acesso à informação e tecnologias que permitam as
mulheres desenvolver habilidades no mundo dos
negócios.
Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da - Acesso à informação de qualidade sobre boas práticas
que permitam desenvolver projetos locais de gestão da
água e saneamento para todos
água e saneamento;
- Acesso livre e seguro à eletricidade e iluminação para
ler, estudar e trabalhar.
Construir infraestruturas resilientes, promover a - Uma ampla estrutura de bibliotecas públicas,
industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a especializadas e universitárias e com profissionais
qualificados;
inovação
- Espaços agradáveis e inclusivos;
- Acesso a tecnologias digitais, como por exemplo, com
internet de alta velocidade que não se encontra
disponível em todo lugar.
- Espaços neutros e agradáveis que permitam a
Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles
aprendizagem para todos, incluindo os grupos
marginalizados, como os imigrantes, os refugiados, as

�260

Tornar as cidades e os assentamentos humanos
inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis

minorias, os povos indígenas e pessoas com deficiência;
- Acesso equitativo à informação que promova a
inclusão social, política e econômica.
- Instituições confiáveis dedicadas a promover a
inclusão e o intercâmbio cultural;
- Documentação e conservação do patrimônio cultural
para as futuras gerações.

Fonte: Adaptado de IFLA (2016).

A Agenda 2030 da ONU tem sido acatada pela IFLA, como também vem sendo refletida no
âmbito brasileiro, sendo transmitida a todos os profissionais e demais agentes, a contribuição da
biblioteca para uma sociedade desenvolvida economicamente, instrutivamente, culturalmente,
enfim, socialmente. No Brasil, a Federação Brasileira das Associações de Bibliotecários (FEBAB)
destaca-se como pioneira e incentivadora dessa causa para todas as instâncias do país.
A responsabilidade da Biblioteconomia, portanto, transcende as funções técnicas e
operacionais que há muito tempo permeou a profissão. Abrem-se, nesse contexto, um debate mais
profundo e fecundo, com vistas a consolidar o campo da Biblioteconomia Social, ou seja, como
descrito por Almeida Júnior (1997), esse campo contempla as questões sociais, que vão além dos
muros das instituições.
Todavia, é preciso considerar que essa abrangência nas práticas bibliotecárias não depende,
apenas, de profissionais da documentação e informação. É preciso engajamento da classe, o que
depreende o fortalecimento das questões políticas, as quais viabilizarão maiores investimentos
públicos, construção de políticas sociais, reconhecimento profissional, fiscalização, dentre outras
ações a serem realizadas pelos bibliotecários que se inserem nos movimentos defensores dos
direitos da classe, como: movimentos associativos, entidades de classe, conselhos de classe, dentre
outras entidades que promovem o fortalecimento e a jurisdição da prática profissional.
Confirmamos, aqui, o engajamento dos bibliotecários com as causas sociais,
especificamente, no âmbito daqueles que se inserem na luta pela democracia, considerando
propósitos em comum, haja vista, condições adequadas para o desenvolvimento da Biblioteconomia
na sociedade. Acerca dos agentes envolvidos com a causa política em defesa da profissão, não se
trata de anarquismo, mas do atendimento aos ideais e princípios norteadores do Estado Democrático
de Direito, que busca gerar condições para uma sociedade mais justa e igualitária a todos os
cidadãos.
Essas lutas nascem da percepção de que determinadas situações e práticas sociais são
desrespeitosas. Quando os sujeitos percebem que as condições de autorrealização, em
alguma de suas dimensões, são-lhes cerceadas pelos atos de outros seres humanos, tendem
a sentir-se indignados e esse sentimento pode desencadear ações políticas. Isso não
significa que o desrespeito conduza necessariamente à indignação e à luta [...]
(MENDONÇA, 2012, p. 121).

�261

Na Biblioteconomia, confirmamos o quanto faz-se necessário o engajamento com as
questões políticas, de modo que a profissão esteja resguardada juridicamente, como também, sejam
direcionados recursos para manutenção das bibliotecas e apoio aos serviços bibliotecários, os quais
visam, em linhas gerais, a democratização do conhecimento, com vistas a romper desigualdades e
alcançar o desenvolvimento sustentável.
Embora o engajamento político na área da Biblioteconomia seja necessário, no Brasil, a
vivência cotidiana permite constatar uma participação ainda pouco representativa. Como discorrido
na obra de Almeida Júnior (1997), acerca da Biblioteconomia e a relação com a sociedade, os
bibliotecários não podem ser apolíticos. Ou melhor, precisam formar grupos que denunciem
injustiças e cobrem investimentos e valorização por parte das autoridades. Ademais, “nós
precisamos atingir a população carente, a população carente de informações. Não será com essa
postura apática, passiva e reacionária da biblioteca de hoje que o conseguiremos [...]” (ALMEIDA
JÚNIOR, 1997, p. 92).
Trata-se de assumir uma postura pró-ativa, interventiva, de envolvimento com a sociedade,
que transcenda os limites físicos das bibliotecas e dos acervos. Esse deve ser o perfil almejado para
o profissional deste século. Isso quer dizer, também, que não basta apenas criar bibliotecas em toda
parte. Essa ação apenas é vazia, visto que atitudes de mudança e de gestão precisam ser instituídas.
Por fim, “[...] é preciso que o bibliotecário que atuar nessas bibliotecas [...] seja consciente da sua
real função social; [...] que saiba que o seu trabalho pode e deve alterar pensamentos e
comportamentos [...]” (ALMEIDA JÚNIOR, 1997, p. 92, grifo nosso).
[...] é preciso que ele vá até a população, que ele procure o povo, que ele trabalhe com a
comunidade. Nós precisamos de uma Biblioteconomia subversiva. Nós precisamos de uma
Biblioteconomia guerrilheira, que subverta a ordem das atuais prioridades; que procure,
busque, constantemente, os interesses populares, que esteja voltada para os oprimidos
(ALMEIDA JÚNIOR, 1997, p. 92).

A difícil tarefa social direcionada aos bibliotecários justifica a participação dos movimentos
políticos em defesa da classe. No âmbito profissional, esse movimento representa formas de
organização social, pautadas em princípios comuns, e comungados pelos membros do grupo, que
estabelecem medidas de controle e intervenções que garantam a legitimidade, autoridade, jurisdição
e reconhecimento do fazer profissional na sociedade (ABBOTT, 1988).
No Brasil, destacam-se como principais grupos inseridos na causa política (órgãos de classe)
em defesa da profissão:


FEBAB: tem a missão de defender e incentivar o desenvolvimento da profissão, cujos
objetivos principais são: congregar as entidades para tornarem-se membros e instituições

�262

filiadas; coordenar e desenvolver atividades que promovam as bibliotecas e seus
profissionais; e apoiar as atividades de seus filiados e dos profissionais associados (FEBAB,
2018);


Sistema Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) e Conselhos Regionais de
Biblioteconomia (CRBs): constitui uma estrutura administrativa criada para favorecer o
planejamento e a execução de ações articuladas dirigidas à fiscalização do exercício da
profissão de bibliotecário, no Brasil (CFB, 2018);



Associações profissionais: corresponde a uma sociedade civil sem fins lucrativos, de
âmbito regional, que congrega entidades e pessoas físicas, atuantes na área da
Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação (CFB, 2017);



Sindicatos: têm como alguns objetivos: defender os direitos dos bibliotecários, estimulando
a sua organização; participar das negociações coletivas de trabalho, garantindo o
cumprimento dos acordos coletivos; lutar pelo fortalecimento da categoria e pela
consciência da classe; colaborar com o poder público e o setor privado na solução dos
problemas da categoria. Esses objetivos podem variar de entidade para entidade (CFB,
2017).

A união de esforços desses órgãos - considerados como grupos sociais que se inserem em
prol da causa da profissão bibliotecária – representa, conforme mencionado na teoria abbottiniana,
forças emergentes do campo profissional, cujo objetivo é demonstrar, perante a sociedade,
sobretudo diante das demais profissões, o campo de atuação profissional, evitando forças
antagônicas, que ameacem a existência da profissão (ABBOTT, 1988).
O esquema representado na figura 1 demonstra a interação desses grupos em prol de um
objeto comum: viabilizar condições para o desenvolvimento da profissão bibliotecária.

�263
Figura 1 – Representatividade dos órgãos de classe em favor da causa bibliotecária

CRBs

FEBAB

Sindicatos

Bibliotecários,
práticas
bibliotecárias e
bibliotecas

Associações

CFB

Fonte: elaborado pelo autor (2018).

No âmbito do associativismo, há controvérsias acerca da concepção política propriamente
dita, visto que, como dito por Kerstenetzky (2003, p. 132), a participação associativa, por si só, “[...]
não seja capaz de neutralizar os efeitos negativos das desigualdades socioeconômicas sobre a
igualdade política, bem como seja em si mesma uma incubadeira de discursos politicamente
abrangentes [...]”. De qualquer forma, seja como for, acreditamos que, mesmo implicitamente, esse
movimento intensifica e fortalece o compromisso profissional e, portanto, insere-se nas causas
sociais, em prol da melhoria de grupos sociais, aqui, representados pelos bibliotecários. Além disso,
a cobrança junto aos órgãos governamentais, como também, as práticas de fiscalização exercidas
pelos órgãos de classe caracteriza uma missão política dos envolvidos, que viabiliza, diretamente, a
legitimação de uma profissão, como também, indiretamente, propicia a democratização do
conhecimento e, por conseguinte, a busca pelo desenvolvimento sustentável, como proposta da
Agenda 2030 da ONU.
Com o intuito de se alcançar a democratização do conhecimento, por tratar-se de um
processo complexo, como descrito por Ramos e Rossato (2017), as instituições, profissões, agentes
políticos, representantes governamentais, dentre outros personagens e entidades precisam trabalhar
de forma conjunta, para que a sociedade viabilize a prática cidadã, alcance o desenvolvimento
sustentável e a democracia atinja seus propósitos.
Bibliotecas são espaços de informação e conhecimento que sempre estiveram ligadas à
evolução das sociedades. Logo, o fazer dos agentes envolvidos com elas precisa, também, ser
respaldado e valorizado. O novo modelo de biblioteca, aberta, acessível, livre de censura,
direcionada a todas as classes sociais é uma conquista da sociedade moderna, a qual tem como mola
propulsora dessa conquista, o sistema social democrático (BURKE, 2003).

�264

Os espaços de informação e as práticas realizadas em prol da disseminação que vise gerar
conhecimento e agregar valor aos cidadãos é um dos maiores compromissos dos agentes públicos
que se colocam a serviço da democracia. Portanto, tanto a biblioteca e os personagens a ela
relacionados precisam estar engajados com a democratização do conhecimento e exercendo a
responsabilidade social almejada pela democracia (SOUSA et al., 2014).
Assim, reforçamos o papel desempenhado pela Biblioteconomia, no processo de
democratização do conhecimento, considerando, principalmente, o envolvimento e atuação
politizada de muitos grupos de bibliotecários. Essa atuação manifesta-se como uma prática
mediadora entre as necessidades do fazer bibliotecário e o compromisso da sociedade em viabilizar
condições adequadas para o fortalecimento da área e a melhoria contínua dos produtos, serviços,
práticas e unidades informacionais. Por meio da leitura à figura 2, é possível visualizar essa relação
entre os agentes de controle social (o Estado) e engajamento dos órgãos de classe bibliotecária para
benefícios da profissão, haja vista atingir a democratização do conhecimento e, por conseguinte, o
desenvolvimento sustentável das nações.
Figura 2 – Órgãos de classe atuando junto ao Estado para fortalecimento das práticas bibliotecárias
-Poder governamental
Recursos públicos
Administração pública
Políticas públicas
Legislação

- Entidades de classe
- Conselhos de classe
- Associações

- Democratização do
conhecimento

- Serviços de informação
- Centros de documentação
- Centros de referência
- Ações culturais
- Bibliotecas públicas
- Bibliotecas especializadas
- Bibliotecas acadêmicas
- Bibliotecas escolares
-Bibliotecas itinerantes

- Desenvolvimento
sustentável
Fonte: elaborado pelo autor (2018).

Conforme reforçado por Sousa et al. (2014, p. 37), os bibliotecários, como profissionais da
informação, tem uma participação acentuada com a gestão da informação para promoção e uso do
conhecimento. Esses profissionais têm a função de “[...] contribuir para a reversão das realidades de
exclusão, e assegurar a igualdade do acesso à informação, a promoção da cidadania e do
conhecimento a todos os cidadãos”.
O compromisso social é, portanto, o que sustenta o fazer dos bibliotecários. E esse
compromisso com a sociedade perfaz pela democratização do conhecimento, para garantir a
cidadania e o desenvolvimento sustentável. Essa responsabilidade atribuída à classe e todas as
estruturas e serviços a ela pertencentes somente é alcançada com a valorização, legitimação,

�265

reconhecimento e a oferta de recursos adequados advindos do Estado. E é nesse contexto que
grupos se formam, em prol de uma atuação política para mediar essa relação do Estado e da própria
sociedade com a classe bibliotecária.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A participação do bibliotecário na democratização do conhecimento é um compromisso
muito mais abrangente do que a mera gestão de acervos informacionais. Envolve a preocupação e
responsabilidade com as causas sociais, o que demanda, além da disseminação da informação,
desenvolver mecanismos para uso do conhecimento e transformação da vida dos cidadãos,
proporcionando, portanto, o desenvolvimento da sociedade.
O movimento bibliotecário promove inúmeras práticas profissionais, sendo que, na atual
conjuntura, a partir dos princípios democráticos, são cobradas ações mais abrangentes por parte da
classe, sobretudo no que tange à eliminação das desigualdades sociais e à consolidação da
cidadania. É nesse contexto de mudanças e, ao mesmo tempo, cobranças, que precisa surgir um
comprometimento mais politizado de alguns profissionais, com maior engajamento junto aos órgãos
de classe, de modo a fortalecer a classe bibliotecária, no intuito de que possa exercer as funções que
lhe são exigidas.
O movimento político direcionado aos bibliotecários envolve a participação desses
profissionais junto aos órgãos de classe, como também, em instâncias governamentais, ocupando
cargos políticos, seja no âmbito municipal, estadual ou federal, ou atuando em ministérios e
secretarias do governo, com cargos de apoio às atividades públicas. Salientamos que essa
participação é necessária, pois, é dessa forma, que a profissão estará respalda, uma vez que é
representada politicamente, sendo direcionados recursos e demais benefícios que garantam a sua
sobrevivência, desenvolvimento e cumprimento de suas responsabilidades junto à sociedade.
Ao findar este texto, espera-se que ele seja capaz de promover uma reflexão mais profunda,
com vistas a despertar o engajamento dos bibliotecários com as causas sociais. A missão do
bibliotecário precisa ser revista e reformulada, de modo que as questões sociais sejam fundidas ao
fazer técnico e operacional, tornando-se uma prática mais abrangente que viabilize a transformação
individual e social, rumo a uma sociedade mais justa, igualitária e, por fim, que resulte no
desenvolvimento sustentável das nações. Também espera-se o aumento da participação nos
movimentos políticos, visto que a omissão a essa causa tende a comprometer o desenvolvimento da
área e o cumprimento das funções bibliotecárias exigidas pela sociedade democrática.

�266

REFERÊNCIAS
ABBOTT, Andrew. The system of professions: an essay on the division of expert labor. Chicago:
The University of Chicago Press, 1988.
ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis;
APB, 1997.
BARROS, Maria Helena. Disseminação da informação: entre a teoria e a prática. Marília: [s.n.],
2003.
BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2003.
______. Uma história social do conhecimento II: da enciclopédia à wikipédia. Rio de Janeiro:
Zahar, 2012.
CONSELHO FEDERAL DE BIBLIOTECONOMIA (CFB). Bibliotecários: legislação e órgãos de
classe. 2017. Disponível em: &lt;http://www.cfb.org.br/wpcontent/uploads/2017/01/1SlideInicial.pdf&gt;. Acesso em: 07 nov. 2018.
______. Regimento interno. 2018. Disponível em: &lt;http://www.cfb.org.br/institucional/regimentointerno/&gt;. Acesso em: 07 nov. 2018.
FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE BIBLIOTECÁRIOS (FEBAB). Missão e
histórico. 2018. Disponível em: &lt;http://www.febab.org.br/sobre/historico/&gt;. Acesso em: 07 nov.
2018.
FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE ASSOCIAÇÕES E INSTITUIÇÕES BIBLIOTECÁRIAS
(IFLA). As Bibliotecas podem promover a implantação da Agenda 2030. 2016. Disponível em:
&lt;https://www.ifla.org/files/assets/hq/topics/libraries-development/documents/sdgs-insert-pt.pdf&gt;.
Acesso em: 09 nov. 2018.
KERSTENETZKY, Celia Lessa. Sobre associativismo, desigualdades e democracia. Revista
brasileira de ciências sociais, v. 18, n. 53, p. 131-180, 2003. Disponível em:
&lt;http://www.scielo.br/pdf/rbcsoc/v18n53/18082.pdf&gt;. Acesso em: 07 nov. 2018.
LINDEMANN, Catia; SPUDEIT, Daniela; CORRÊA, Elisa Cristina Delfini. Por uma
Biblioteconomia mais social: interfaces e perspectivas. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa
Catarina, Florianópolis, v. 21, n. 22, p. 707-723, ago./nov. 2016. Disponível em:
&lt;https://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/1211/pdf&gt;. Acesso em: 07 nov. 2018.
MENDONÇA, Ricardo Fabrino. Democracia e desigualdade: as contribuições da teoria do
reconhecimento. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, v. 1, n. 9, p. 119-146, set./dez.
2012. Disponível em: &lt;http://www.scielo.br/pdf/rbcpol/n9/05.pdf&gt;. Acesso em: 07 nov. 2018.
RAMOS, Wilsa Maria; ROSSATO, Maristela. Democratização do acesso ao conhecimento e os
desafios da reconfiguração social para estudantes e docentes. Revista Eletrônica de Educação, v.
11, n. 3, p. 1034-1048, set./dez. 2017. Disponível em:
&lt;http://www.reveduc.ufscar.br/index.php/reveduc/article/viewFile/1906/655&gt;. Acesso em: 07 nov.
2018.

�267

ROCHA, Marisa Perrone Campos. A questão cidadania na sociedade da informação. Ciência da
Informação, Brasília, v. 29, n. 1, p. 40-45, jan./abr. 2000. Disponível em:
&lt;http://www.scielo.br/pdf/%0D/ci/v29n1/v29n1a4.pdf&gt;. Acesso em: 07 nov. 2018.
SOUSA, Ana Lívia Mendes de et al. A ação do bibliotecário na garantia do acesso e do direito à
informação nas bibliotecas públicas. Biblos: Revista do Instituto de Ciências Humanas e da
Informação, v. 28, n. 2, p. 37-45, jul./dez. 2014. Disponível em:
&lt;https://periodicos.furg.br/biblos/article/download/4262/3334&gt;. Acesso em: 09 dez. 2018.
TEIXEIRA, Adriano Canabarro. Internet e democratização do conhecimento: repensando o
processo de exclusão social. 2001. 129f. Dissertação (Mestrado em Educação), Departamento de
Educação - Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, 2001. Disponível em:
&lt;http://usuarios.upf.br/~teixeira/livros/Livro.pdf&gt;. Acesso em: 07 nov. 2018.

�268

CAPÍTULO XIX
VIVÊNCIAS E PRÁTICAS NO ÂMBITO DO CONSELHO REGIONAL DE
BIBLIOTECONOMIA

Álamo Chaves de Oliveira Pinheiro

1 INTRODUÇÃO
As sociedades – nas idades antiga, média e moderna – desenvolveram formas de
organização para tornar possível a vida em grupo e a coexistência de diferentes grupos. As
sociedades se organizam em torno de interesses e aspectos comuns, visando a vida e a segurança
coletiva.
Se pensarmos historicamente, podemos dizer que a primeira forma conhecida de
organização da sociedade está descrita nos livros bíblicos. O personagem Abraão possuía um filho –
Ismael – gerado pela sua criada Agar e outro filho – Isaque – gerado pela sua esposa Sara. A certa
altura, Sara exige que o patriarca expulse a criada e o filho de suas terras, uma vez que Agar a tem
destratado. Abraão diz à criada que ela deve ir embora com o filho. Eles partem dali e se
estabelecem no deserto. A história diz que Isaque deu origem ao povo hebreu ao passo que Ismael
originou as nações árabes. A passagem bíblica que relata a construção e a destruição da Torre de
Babel é outra história que nos dá conta de formas de organização social: segundo o livro de
Gênesis, a humanidade falava um único idioma em toda a Terra. Após o episódio conhecido como o
Grande Dilúvio, parte da humanidade ruma para as terras do Oriente e, ali, decidem construir uma
grande torre que tornasse possível ao homem alcançar o céu. Para evitar esse tipo de
empreendimento humano, diz a história bíblica que Deus teria descido dos céus e misturado as
vozes dos homens para que eles se confundissem e não pudessem entender uns aos outros. Dessa
forma, os homens se dispersam por todo o mundo. Embora não esteja explícito no livro bíblico,
pressupõe-se que homens que falavam uma mesma nova língua se juntaram e formaram novas
comunidades baseadas nos novos grupos linguísticos.
Esses exemplos bíblicos mostram formas macro de organização da sociedade, uma vez que
estão ligadas à origem de povos e nações. Entretanto, quanto mais uma sociedade se desenvolve,
mais ela irá dispor de formas de micro organização, uma vez que estarão ligadas aos interesses dos
indivíduos em si, dentro de um plano maior, como um povo ou uma nação. Essas formas de

�269

organização em um ambiente micro podem se constituir em razão do interesse comum de um
ajuntamento de pessoas. Por exemplo: grupos de pessoas com pensamentos políticos similares
podem formar partidos políticos. Pessoas que seguem uma mesma fé podem se agrupar numa única
religião.
Alguns grupos são formados no século XIX, no Ocidente. Entretanto, outras formas de
organização social são formadas no início do século XX no formato pelo qual são conhecidos nos
dias de hoje. Algumas dessas formas de organização são conhecidas como movimentos
associativos. A partir de 1950, assistimos a um salto nos avanços tecnológicos. É quando se inicia a
era Moderna. É também quando as formas de organização da sociedade se fortalecem e se
expandem.
No Brasil, surgem sindicatos, grêmios, associações, entre outros movimentos associativos, e
instituições que já existiam – como os partidos políticos –, que se tornam mais robustas e se
multiplicam.

2 UM BREVE HISTÓRICO

Em 1808, D. João VI chegou ao Brasil fugindo das invasões napoleônicas que ocorriam na
Europa. Em sua comitiva estava a então Real Biblioteca. Um decreto expedido em 29 de outubro de
1810 determina a fundação da Real Biblioteca no Brasil, hoje denominada Fundação Biblioteca
Nacional (FBN) e localizada no Rio de Janeiro. Atualmente, a Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) a considera uma das dez maiores bibliotecas
nacionais do mundo. A FBN também detém o título de maior biblioteca nacional da América Latina
(FBN, 20--?).
Criada por Pedro Gomes Ferrão Castelo Branco e conhecida como Biblioteca Central dos
Barris, a Biblioteca Pública do Estado da Bahia (BPEB), inaugurada em 1811, é considerada a
primeira biblioteca pública da América Latina (IPHAN, 2013).
Em 1821, o bibliotecário Luís Joaquim dos Santos Marrocos assume o cargo de prefeito da
Real Biblioteca, no qual permanece até 1825. Em 1822, frei Antônio de Arrábida é nomeado
autoridade máxima da Biblioteca, cargo que passa a ter o nome de bibliotecário (FBN, 20--?).
Também em 1822, a Real Biblioteca passa a receber um exemplar de todas as obras, folhas
periódicas e volantes impressos na Tipografia Nacional, fato precursor do que hoje é a Lei do
Depósito Legal. A Real Biblioteca passa a se chamar Biblioteca Nacional, em 1876 (FBN, 20--?).

�270

Em 1915, dentro das instalações da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, foi criado o
primeiro Curso de Biblioteconomia no Brasil. Considerado o primeiro da América Latina e o
terceiro no mundo, o curso seguia o modelo da École de Chartres, na França, tido como o melhor
existente à época (FBN, 20--?).
Outros cursos surgiram em São Paulo, nos anos de 1929 e de 1936, ensejando a criação, em
1932, da Associação Paulista de Bibliotecários (APB), a primeira entidade de classe da área de
Biblioteconomia no Brasil.
Em 1954, acontece, em Recife (PE), o primeiro Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e
Documentação (CBBD). Alguns dos temas do evento foram “A situação atual do leitor brasileiro e
ensino profissional”, “Processos técnicos”, “Bibliotecas públicas, infantis, de escolas primárias e
especializadas” e “Bibliografias, associações bibliotecárias e legislação profissional” (FEBAB, 20-?).
Uma grande conquista para a área foi a publicação, em 1958, da Portaria n.º 162 do
Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS), que garantiu que a profissão de bibliotecário
fosse regulamentada no Serviço Público Federal e, posteriormente, incluída no 19º Grupo das
Profissões Liberais.
Com sede e foro na cidade de São Paulo, surge em 26 de julho de 1959, a Federação
Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB), com
a missão de “defender e incentivar o desenvolvimento da profissão e com o objetivo de congregar
as entidades para se tornarem membros, coordenar e desenvolver atividades que promovam as
bibliotecas e seus profissionais, apoiar as atividades de seus filiados e dos profissionais associados”,
entre outros (FEBAB, 20--?).
Todos esses fatores irão culminar na consolidação de uma grande conquista para os
bibliotecários brasileiros no ano de 1962, quando a aprovação da Lei n.º 4084 coroou todo o
trabalho realizado por diversas entidades desde então, ao regular, até hoje, o exercício da profissão
no Brasil e estabelecer as prerrogativas dos portadores de diploma em Biblioteconomia no país.
Também em 1962, com sede e foro no Distrito Federal, foi criado o Conselho Federal de
Biblioteconomia (CFB), com jurisdição em território nacional, nos termos da Lei n.º 4.084/62, do
Decreto n.º 56.725/65 que a regulamenta e a Lei n.º 9.674/98. O CFB é uma autarquia federal
dotada de personalidade jurídica de direito público, com autonomia administrativa, patrimonial e
financeira, atualmente constituído por quatorze membros efetivos e três suplentes, designados pelo
título de Conselheiros Federais, todos brasileiros natos, bacharéis em Biblioteconomia, com
mandato trienal, eleitos nos termos legais e na forma prevista do regimento interno da instituição
(CFB, 2002?). Laura Garcia Moreno Russo foi a primeira presidente do CFB.

�271

O CFB tem a missão de orientar, supervisionar e disciplinar o exercício da profissão de
bibliotecário em todo o território nacional, bem como o de contribuir para o desenvolvimento da
Biblioteconomia em todo o Brasil. Além disso, o CFB exerce ações administrativo-executiva,
normativa, regulamentar, consultiva, supervisora, disciplinar e contenciosa, como instância
originária ou recursal (CFB, 2002?).
Por volta de 1990, o CFB elaborou um Projeto de Lei que alteraria a Lei n.º 4084/62. Nesse
documento, a intenção era garantir que as atividades de tratamento, registro e recuperação da
informação, independentemente do suporte, fossem executadas exclusivamente por bibliotecários.
A Lei n.º 9.674 foi promulgada em 1998 para complementar a Lei n.º 4084/62 no que tange à
normatização de denúncias e o enquadramento de pessoas não habilitadas na Lei de Contravenções
Penais, bem como o pagamento de multa em caso de descumprimento do que está previsto no texto
legal (CFB, 2002?).
No dia 6 de outubro de 2017, o CFB publicou a Resolução nº 184/2017, que dispõe sobre a
obrigatoriedade da indicação do nome e do registro profissional do bibliotecário nos documentos e
fichas catalográficas sob sua responsabilidade. De acordo com a decisão, é obrigatório citar o
número de registro no Conselho Regional de Biblioteconomia (CRB), após a assinatura de qualquer
trabalho relacionado com as atividades biblioteconômicas em quaisquer empreendimentos e por
quaisquer meios. Pela Resolução, o número do registro do profissional no CRB deve constar abaixo
das fichas catalográficas de publicações de quaisquer natureza e trabalhos acadêmicos.
Atualmente, o CFB é composto por 14 CRBs que abarcam todo o território nacional. São
eles: CRB-1 (Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), CRB-2 (Pará, Amapá e
Tocantins), CRB-3 (Ceará e Piauí), CRB-4 (Pernambuco e Alagoas), CRB-5 (Bahia e Sergipe),
CRB-6 (Minas Gerais e Espírito Santo), CRB-7 (Rio de Janeiro), CRB-8 (São Paulo), CRB-9
(Paraná), CRB-10 (Rio Grande do Sul), CRB-11 (Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima), CRB-13
(Maranhão), CRB-14 (Santa Catarina) e CRB-15 (Paraíba e Rio Grande do Norte).
Por deliberação do CFB, em 1º de março de 2010, o CRB 12ª Região, que compreendia o
Estado do Espírito Santo, foi transformado em uma delegacia vinculada ao Conselho Regional de
Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6), de Minas Gerais, com sede em Belo Horizonte. Dessa forma,
os bibliotecários que residem no Espírito Santo são registrados no CRB-6, juntamente com os que
vivem em Minas Gerais.

�272

3 O CRB-6

O CRB da 6ª Região (CRB-6), criado com a publicação da Resolução CFB nº. 4 de 12 de
julho de 1966, é uma autarquia federal dotada de personalidade jurídica de direito público,
autonomia administrativa e financeira, cuja sigla, jurisdição e sede são designadas em resoluções
específicas do CFB.
Sua estrutura atual é composta pelas comissões permanentes e obrigatórias de: Ética
Profissional, Licitação e Tomada de Contas e Fiscalização Profissional. Também compõem a
estrutura do Conselho as comissões de: Legislação e Normas e Divulgação. Existem, ainda,
comissões temporárias para atender demandas específicas do CRB-6. Algumas dessas comissões
são: Bibliotecas Escolares, Medalha Professora Etelvina Lima, Eventos, Recursos Humanos,
Patrimônio e Eleitoral.
A diretoria do Conselho é composta pelos seguintes cargos: Presidente, Vice-presidente,
Diretor Financeiro (antigo Tesoureiro), Diretor Administrativo e Diretor Técnico (antigos Primeiro
e Segundo Secretários).
Os diretores de escolas de Biblioteconomia bem como os coordenadores de cursos de
Graduação em Biblioteconomia de Minas Gerais e do Espírito Santo e os presidentes das
associações de classe mineiras e capixabas são membros natos do Conselho, de acordo com o
disposto no Art. 21 da Lei 4.048/62.
A gestão do Conselho é composta por 15 conselheiros efetivos e quatro conselheiros
suplentes, com três anos de mandato. A eleição de uma chapa ocorre por escrutínio secreto e
maioria de votos dentre as chapas registradas no pleito. Um conselheiro pode atuar em duas gestões
seguidas, sendo vedada a participação em um terceiro mandato consecutivo.
O trabalho realizado pelos conselheiros é totalmente voluntário, não cabendo quaisquer tipos
de remuneração direta ou indireta.
A bibliotecária Annaiz Maria Pereira Vial foi a primeira presidente do CRB-6, entre 1967 e
1969. Ela foi a primeira bibliotecária registrada em Minas Gerais, sendo, portanto, a portadora do
registro profissional CRB-6/0001. Vial também foi a segunda presidente da Associação de
Bibliotecários de Minas Gerais (ABMG).
O Conselho é obrigado a cumprir os requisitos previstos na Lei de Acesso à Informação
(LAI), que exige a apresentação de balancetes – os quais incluem despesas com diárias e ajuda de
custo, entre outros. As informações podem ser consultadas com mais detalhes no site:
www.crb6.org.br.

�273

O CRB-6 tem a missão de fiscalizar o exercício da profissão, impedindo e punindo as
infrações à legislação vigente em sua jurisdição, que são os estados de Minas Gerais e Espírito
Santo.

3.1 A VIVÊNCIA NOS CONSELHOS REGIONAIS DE BIBLIOTECONOMIA

Em geral, a sociedade e os próprios bibliotecários possuem uma ideia equivocada do que é e
para que servem os conselhos profissionais. Não é raro encontrar quem questione a existência dos
conselhos e mesmo a sua atuação.
É importante ter em mente que a função de um conselho é: 1) registrar os profissionais aptos
a exercer a profissão, na qual se graduaram, dentro da jurisdição do conselho; 2) fiscalizar a atuação
desses profissionais; 3) supervisionar a ética profissional; 4) disciplinar a classe; e 5) julgar os
profissionais inscritos nos respectivos quadros.
Para que isso ocorra, os conselhos profissionais, enquanto autarquias federais, cobram uma
anuidade dos bibliotecários registrados em suas jurisdições. Essa anuidade é um tributo estabelecido
pelo CFB e corrigido anualmente. O objetivo da cobrança da anuidade é a sustentabilidade da
instituição. Ou seja, serve para o pagamento dos salários dos funcionários, das diversas assessorias,
aluguéis, contas em geral, materiais de insumo e de papelaria, diárias, entre outras despesas. Toda a
estrutura logística e de material humano para que as atividades dos conselhos aconteçam demandam
custos. Custos esses supridos com a cobrança da anuidade.
O critério utilizado pelo CFB para o cálculo do valor da anuidade leva em consideração a
variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), calculado pela Fundação Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Do total do valor arrecadado com o pagamento da
anuidade pelos profissionais inscritos, 25% é obrigatoriamente direcionada para o CFB. Esse
percentual é denominado cota-parte e todos os conselhos no Brasil estão obrigados a enviar o valor.
Os 75% restantes permanecem no conselho de origem.
É importante ressaltar que o objetivo dos conselhos é proteger a sociedade dos maus
profissionais. Por exemplo, o Conselho Regional de Medicina, por meio do registro dos bacharéis
em Medicina e da fiscalização dos médicos registrados, pode garantir que determinado profissional
está apto a exercer sua profissão. Da mesma forma, o CRB-6, ao fiscalizar bibliotecas em todo
Estado de Minas Gerais e Espírito Santo, garante à sociedade que o bibliotecário ali presente está
apto a exercer suas funções. Logo, não é função dos conselhos proteger a classe profissional. Mas,
indiretamente, isso acaba acontecendo, uma vez que se uma biblioteca não possui bibliotecário, a

�274

instituição será autuada pelos fiscais do Conselho e terá um prazo para a contratação de um
profissional. Obviamente, a instituição irá contratar um bibliotecário com suas obrigações regulares
perante o CRB-6, que somente dará baixa no processo daquela instituição mediante comprovação
da contratação de um profissional. Dessa forma, a sociedade tem a certeza de contar com
bibliotecários habilitados ao passo que os bibliotecários em geral são beneficiados, indiretamente,
pelas vagas de emprego abertas pelas fiscalizações realizadas. Isso gera um círculo que se
retroalimenta.
Para fins de esclarecimento, a função primária de proteger a classe profissional compete aos
sindicatos. São os sindicatos que, entre outras ações, promovem a defesa dos direitos dos
bibliotecários, estimulam a organização da classe, participam das negociações coletivas de trabalho,
intercedem pelo cumprimento dos acordos coletivos, agem em prol do fortalecimento da classe e
colaboram com o poder público e o setor privado para solucionar problemas da área como um todo.
Já existiu um sindicato mineiro de bibliotecários, mas, atualmente, não existe sindicato.
Diversos movimentos, nos últimos anos, se engajaram na tentativa de restabelecer um sindicato em
Minas, mas, nenhuma tentativa prosperou.
Em São Paulo, o Sindicato dos Bibliotecários, Cientistas da Informação, Historiadores,
Museólogos, Arquivistas, Documentalistas, Auxiliares de Biblioteca e de Centros de Documentação
no Estado de São Paulo (SINBIESP), criado em 22 de agosto 1985, representa legalmente os
bibliotecários atuantes no Estado. Um de seus principais objetivos é a defesa da categoria
profissional liberal, composta de profissionais autônomos, servidores públicos, trabalhadores
assalariados e aposentados. O SINBIESP oferece assessoria jurídica, atendimento a empresas,
tabelas de recomendações salariais e convênios com outras instituições.
Coletivamente, existe um pensamento equivocado no qual essa função de proteção aos
bibliotecários cabe aos conselhos profissionais. Por isso, é importante ressaltar o papel de cada
entidade.
Da mesma forma, é creditada às associações de bibliotecários a luta pela proteção da classe.
O que também é um equívoco. As funções de uma associação podem variar. Em terras mineiras,
existe a ABMG, cuja missão é
[...] congregar bibliotecários, instituições e pessoas interessadas em biblioteconomia,
ciência da informação e áreas afins. Defender os interesses e apoiar as reivindicações dos
associados. Representar os associados junto aos órgãos da classe nacionais e internacionais,
aos órgãos públicos e privados e incentivar o aprimoramento da profissão e o
desenvolvimento cultural através de cursos, congressos, seminários, palestras e outros
(ABMG, 2018?).

Alguns estados do Brasil, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, possuem associações
de bibliotecários fortes e representativas. A Associação Catarinense de Bibliotecários (ACB) edita a

�275

Revista ACB, indexada no portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (CAPES), e livros pela Editora ACB. Além disso, realiza desde 1982, o evento
estadual “Painel Biblioteconomia em Santa Catarina”, atualmente em sua 36º edição. A ACB
também possui uma loja virtual para venda de produtos personalizados. Em Porto Alegre, a
Associação Rio-Grandense de Bibliotecários (ARB) congrega bibliotecários, bacharéis e estudantes
de Biblioteconomia, técnicos e estudantes do curso técnico em Biblioteconomia do Estado do Rio
Grande do Sul. A ARB possui uma forte comunicação institucional, que atinge, inclusive, outros
estados do país.
Esses esclarecimentos sobre as diversas entidades de classe são importantes para que a
sociedade e também os bibliotecários direcionem melhor suas demandas. É direito de qualquer
pessoa reclamar junto aos conselhos a falta de bibliotecários qualificados na biblioteca da escola em
que seus filhos estudam, por exemplo.
Lançando um olhar para as instituições públicas de educação regular de ensino básico,
fundamental, médio e/ou técnico, é possível perceber a situação crítica e alarmante das bibliotecas
dessas escolas. O que deveriam ser bibliotecas, na verdade, são depósitos desorganizados de livros,
em sua maioria livros velhos, obsoletos, em mau estado de utilização e conservação, livros didáticos
fora do período de uso, ou livros sem qualquer relação com o ensino regular. Esses espaços,
normalmente, ficam a cargo de professores com os mais variados problemas físicos, psicológicos ou
outros que impedem seu aproveitamento em sala de aula. Na maior parte dos casos encontrados
pelos bibliotecários-fiscais, não há qualquer organização do acervo das escolas públicas, não há
prestação de serviços minimamente estruturados, bem como não há políticas de uso e de
desenvolvimento do que deveria ser uma biblioteca.
Nesses casos, quando o bibliotecário-fiscal identifica a ausência de um bibliotecário na
biblioteca, a instituição é notificada e recebe um prazo para regularizar a situação. Caso a
instituição não contrate um bibliotecário para sua biblioteca, a mesma é intimada para um
julgamento, no qual o responsável pela instituição tem a oportunidade de apresentar uma defesa
para a irregularidade e, consequentemente, propor a solução do problema, ou seja, assumir um
compromisso de contratar um bibliotecário e encaminhar as provas da contratação do profissional
dentro de determinado prazo. Caso a instituição não contrate um bibliotecário, o Conselho pode
aplicar uma multa, cujo valor será decidido pelos conselheiros.
Não é raro que prefeitos ou secretários de educação e/ou cultura dos municípios fiscalizados,
ou seus advogados, compareçam ao julgamento no plenário do Conselho. A justificativa dada,
normalmente, gira em torno de um problema comum a quase totalidade das cidades brasileiras: a
inexistência do cargo de bibliotecário. Para que haja o cargo no município, é necessário que os

�276

vereadores criem o cargo na Lei Orgânica Municipal. No Estado, a criação do cargo é uma
incumbência dos deputados. Além disso, é necessário definir valores que entrarão no orçamento
municipal ou estadual para custear o salário dos novos profissionais a serem admitidos via concurso
público.
Obviamente, o movimento para criar um novo cargo não é algo simples. Uma solução
encontrada por prefeitos em Minas Gerais foi a contratação de profissionais terceirizados
temporariamente até que a Câmara realize todos os trâmites para abertura de concursos.
E, no tocante a concursos públicos, um problema constantemente encontrado pelos
conselhos são as diferenças salariais existente entre bibliotecários e outras profissões de nível
superior. Muitas vezes, o salário oferecido para bibliotecários é inferior ao oferecido para as outras
profissões de nível superior. Não é raro também que a exigência para que se ocupe a vaga de
bibliotecário seja possuir Ensino Médio – em detrimento do Curso de Graduação em instituição
reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) e o devido registro no CRB. Nesses casos, o
Conselho encaminha para a organizadora do concurso, bem como para a prefeitura municipal, um
ofício no qual se questiona o edital publicado. Na maioria das vezes, o edital é corrigido, seja
equiparando o salário oferecido para o cargo de bibliotecário aos demais cargos de nível superior,
seja especificando a exigência de diploma em curso superior em Biblioteconomia e o registro
profissional no CRB.
Lançando um olhar para as instituições privadas de ensino básico, fundamental, médio e/ou
técnico, a situação normalmente encontrada não é menos complexa. Escolas pequenas,
especialmente as de ensino infantil, não possuem bibliotecas ou possuem a chamada “sala de
leitura”. Em geral, essas escolas particulares utilizam as mais diversas justificativas para tentar
explicar a inexistência de uma biblioteca ou a administração da “sala de leitura” por professores.
Diante da falta de instrumentos legais, o CRB se vê, muitas vezes, de mãos atadas em relação à
melhor forma de proceder para com as escolas infantis de pequeno porte.
A Lei nº 12.244, de 24 de maio de 2010, dispõe sobre a universalização das bibliotecas
escolares nas instituições de ensino do País. É sabido que a falta de profissionais suficientes para
atender a totalidade das bibliotecas nas escolas de todo o Brasil impedirá o cumprimento dessa meta
dentro do prazo. Um Projeto de Lei, apresentado pela deputada Laura Carneiro, propôs uma nova
definição de biblioteca escolar e a criação de um Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares
(SNBE), com vistas a tentar atender a Lei nº 12.244.
Entretanto, a própria Lei nº 12.244 é utilizada por diretores ou coordenadores pedagógicos
de escolas particulares, os quais alegam que somente a partir do ano 2020 são obrigados a
constituírem uma biblioteca em suas escolas. Em julgamentos ocorridos no plenário do CRB,

�277

alguns proprietários de instituições privadas de ensino afirmaram que iriam fechar as bibliotecas de
suas escolas até o ano 2020. O objetivo de fechar suas bibliotecas é o de não precisar contratar
bibliotecários. Nesses casos, se, realmente, a biblioteca é fechada, não há qualquer outra ação que o
Conselho possa realizar em prol do bibliotecário. Se não tem biblioteca, não há obrigatoriedade de
bibliotecários.
A Comissão Temporária de Bibliotecas Escolares do CRB-6, por exemplo, tem realizado
intensos trabalhos de esclarecimentos e conscientização em relação às bibliotecas escolares, infantis
e juvenis. Um dos parceiros da Comissão nessa empreitada é o Grupo de Estudo em Bibliotecas
Escolares (GEBE), da Escola de Ciência da Informação, da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG). Além de campanhas e ações pontuais, foram realizadas diversas reuniões com o Governo
do Estado de Minas Gerais e com prefeituras, com o objetivo de tratar da situação das bibliotecas
nas escolas públicas.
Uma realidade desoladora que se apresenta em bibliotecas escolares e públicas ocorre em
pequenas cidades interioranas. Os salários oferecidos em cidades muito pequenas, em geral, são
baixos, seja em instituições privadas, seja na esfera municipal. Mas, essa é uma realidade
compartilhada por profissionais de outras áreas, como professores e pedagogos. Infelizmente, não
existe solução fácil. E, por isso, muitos bibliotecários não aceitam mudar para essas cidades por um
baixo salário. Isso acarreta a falta de profissionais em grande parte do interior do Brasil. Os cursos a
distância foram pensados como uma forma de suprir essa carência de profissionais, mas, ainda
assim, não será o bastante para sanar esse problema. Num primeiro momento, o País precisa tomar a
decisão de que Educação é uma prioridade institucional e, num segundo momento, essa situação
passa por questão econômica e de planejamento.
A situação só é um pouco acalentadora em três casos: nas empresas privadas, nas
universidades públicas e nas instituições particulares de ensino superior.
Nas empresas privadas, há uma crescente necessidade de organização e tratamento de
informações. É necessário criar ferramentas e sistemas que disponibilizem informações confiáveis
de forma rápida para que os gestores possam tomar decisões. Também é importante desenvolver
formas de registrar, disseminar e compartilhar o conhecimento dos profissionais como um todo.
Além disso, vive-se uma era de digitalização. Os arquivos estão cada vez mais em formato
eletrônico e não somente físico. Para atender a essas demandas, as empresas privadas buscam
profissionais aptos a trabalhar com informações e com a gestão do conhecimento.
As universidades públicas, especialmente as federais, por serem mantidas pelo próprio
Governo, conseguem manter um plano de carreira atrativo o bastante para atrair os melhores
profissionais. O próprio tamanho dessas universidades, que muitas vezes possuem campi em

�278

diferentes cidades, culmina na criação de um grande número de postos de trabalho para suas
bibliotecas. As bibliotecas universitárias oferecem diversos serviços especializados para seus
usuários. Logo, cada bibliotecário ou grupo de bibliotecários, possui uma função bem específica. E
isso requer um número grande de profissionais. Além disso, por ser uma instituição de ensino, os
profissionais são constantemente incentivados a se qualificar o que irá impactar em melhores
salários.
As instituições particulares de ensino superior são avaliadas permanentemente pelo MEC
para fins de credenciamento e reconhecimento de cursos. Embora os instrumentos de avaliação
utilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP)
tenham sido aperfeiçoados, uma grande parte dos itens avaliados se relacionam com a biblioteca.
Por exemplo, o site da biblioteca precisa conter uma relação de, no mínimo, dez títulos de
periódicos virtuais, relacionados a cada um dos cursos oferecidos pela instituição. Além disso,
tópicos como bibliografias básica e complementar por unidade curricular, acervos voltados para
educação a distância (EAD) e trabalhos de conclusão de curso (TCC) também sofreram alterações.
Por isso, as instituições privadas de ensino superior demandam a figura do bibliotecário para
atender os requisitos mínimos legais. Entretanto, cabe aqui uma observação: o objetivo de uma
instituição privada é o lucro. Logo, não é possível, principalmente dada a conjuntura econômica por
que passa o País, ter uma vasta equipe para realizar e gerenciar os serviços prestados por essas
bibliotecas. Prevalece aqui o conceito de “fazer mais com menos”, ou seja, prestar o máximo de
serviços com o menor número de profissionais possíveis. Não é raro uma instituição particular de
ensino superior com várias unidades ou campi deslocar o acervo, bem como os profissionais de uma
biblioteca, para outra no período de avaliação do MEC. Infelizmente, o bibliotecário se sujeita a
esse tipo de manobra por receio de demissão. Muitas instituições chegam ao ponto de contratar
bibliotecários apenas por um pequeno período correspondente ao tempo de avaliação do MEC e, em
seguida, demite o profissional, podendo até mesmo fechar a biblioteca, após o curso ser autorizado
a funcionar. Existe também uma realidade, na qual um único bibliotecário responde pela gestão de
várias bibliotecas de uma mesma instituição, algumas vezes, em diferentes cidades.
Essas são situações de difícil controle e solução em razão da falta de denúncias. Caberia, aí,
talvez, uma ação do Sistema CFB/CRBs junto ao MEC para garantir o pleno funcionamento dessas
bibliotecas e manutenção do posto de trabalho para o bibliotecário, após a autorização dos cursos
avaliados.
Em outros tipos de instituições como empresas de tecnologia, pesquisa e comunicação,
museus, bancos, empresas de engenharia e transporte, editoras, agências de fomentos e inovação,
autarquias, fundações, entre outras similares, o campo para atuação do bibliotecário vem se

�279

mostrando promissor. Em geral, esses trabalhos exigem conhecimentos interdisciplinares e atuação
transversal. É importante que o bibliotecário não leve a cabo os ensinamentos muitas vezes
ideológicos ensinados nas escolas de Biblioteconomia, mas que busquem outras qualificações
complementares em áreas correlatas, de acordo com o seu gosto pessoal. Um bom início é realizar
um curso de especialização, além de participar de eventos de porte nacional, como o eDOC, o
Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação (CBBD), o
Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias (SNBU), entre tantos outros. Os conselhos
costumam participar ativamente desses e de outros eventos, seja na divulgação, seja na organização
e realização do evento em si.
É importante ressaltar, ainda, os trabalhos de divulgação realizados pelos conselhos. O
CRB-6, normalmente, tem o maior destaque nacional nessa área. A título de exemplo, entre 2012 e
2017, durante a 16º e a 17º gestões, foi publicado um Boletim Eletrônico Informativo com cinco a
seis notícias por edição, semanalmente, o que resultou em mais de 50 boletins eletrônicos, com mais
de 250 notícias, por ano. Isso totaliza 1.500 notícias institucionais produzidas nesses seis anos de
atuação. É um volume de material inédito entre os Conselhos de Biblioteconomia. Além disso, o
CRB-6 manteve um blog institucional, no qual foram publicadas mais de 7.000 matérias,
segmentadas da seguinte forma: 3.600 notícias gerais, além daquelas publicadas no Boletim
Eletrônico semanal, mais de 400 cursos divulgados, mais de 2.200 eventos, mais de 370 vagas de
empregos anunciadas, mais de 140 dicas de publicações técnicas, mais de 130 convites para defesas
de teses e dissertações, entre outros conteúdos de interesse dos bibliotecários. Ainda na área de
divulgação e comunicação institucional, o Conselho editou e publicou a Revista CRB-6
INFORMA, com assuntos atuais, regularmente, a cada seis meses. Todas as mais de 7.000 matérias
e todas as edições da Revista podem ser consultadas em: http://blog.crb6.org.br. O CRB-6 também
está presente e mantêm intensa divulgação nas redes sociais: Facebook, Instagram, YouTube, Flickr
e Twitter. O Facebook e o Twitter contavam com dois conteúdos diários, cada um, o que resultou
em aproximadamente 1.400 publicações por ano. Isso totaliza 8.400 publicações únicas nesses seis
anos de gestão. A conta no Twitter foi descontinuada em 2018, por decisão da 18º gestão do CRB-6.
Para ressaltar a importância da Biblioteconomia, das bibliotecas e dos bibliotecários para a
sociedade como um todo, foram realizados, aproximadamente, 25 eventos como palestras,
seminários e mesas-redondas, também entre 2012 e 2017, tanto em Minas Gerais, como no Espírito
Santo. Esses eventos, em sua maioria, eram direcionados, principalmente, à classe política, a
diretores de instituições de ensino, a empresas - sobretudo as privadas - que contratam
bibliotecários, a órgãos públicos e também para estudantes de Biblioteconomia, como forma de
aproximar a academia dos conselhos. Em algumas ocasiões, os eventos foram realizados em

�280

parceria com outras instituições, como a associação de bibliotecários, universidades e também com
empresas privadas.
Um tema doloroso para o CRB são as denúncias por motivação ética. Embora raros, é
possível denunciar um bibliotecário por infringir a ética profissional. Todo o trâmite do processo até
a ocorrência do julgamento que irá determinar a cassação ou não do registro do profissional acusado
é longo e desgastante, uma vez que envolve a avaliação minuciosa de documentos, relatórios,
provas, além da audição de testemunhas e advogados. O CRB-6, por exemplo, tem trabalhado,
intensamente, para orientar os bibliotecários mineiros e capixabas sobre questões éticas e de
moralidade na postura profissional. Em tempos de redes sociais e de fake news, o bibliotecário,
enquanto profissional que deve zelar pela informação de qualidade, não deve se aventurar por
caminhos que levem à propagação da desinformação. Tampouco deve ser um porta-voz de discurso
que preguem o ódio, a intolerância e o desrespeito. O bibliotecário tem aí a oportunidade de ser um
agente transformador da sociedade.
É preciso esclarecer, também, a questão do técnico em Biblioteconomia. Muitos
profissionais têm o entendimento de que o técnico em Biblioteconomia pode vir a tomar o lugar dos
bibliotecários. Mas isso não procede. A legislação é bem clara ao estabelecer que a coordenação e a
administração de bibliotecas são atividades privativas do bibliotecário. Um técnico não pode
responder pela gestão de uma biblioteca. O técnico deve ser visto como um auxiliar de biblioteca
super capacitado, e não como um concorrente.
Um ponto que merece atenção é o sentimento de pertença dos bibliotecários capixabas.
Desde 2010, quando o CFB transformou o então CRB-12 numa delegacia do CRB-6, houve quem
acreditasse que o tratamento dado às questões relacionadas à fiscalização no Estado do Espírito
Santo não atendessem plenamente os anseios dos profissionais daquele Estado. Ainda hoje, é
possível encontrar bibliotecários que acreditam que os profissionais capixabas estão “alojados
dentro do CRB de Minas”. Entretanto, esse pensamento está equivocado. E o empenho demonstrado
pelo CRB-6 nas questões que envolvem o Espírito Santo corrobora isso. A bem da verdade, é
correto dizer que o CRB-6 é um conselho, cuja jurisdição são os estados do Espírito Santo e Minas
Gerais, em igualdade de condições.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Autarquias são pessoas jurídicas de direito público, criadas por lei específica, que dispõem
de patrimônio próprio e realizam atividades típicas do Estado, de forma descentralizada. O CRB-6,

�281

por ser uma autarquia federal, está sujeito ao controle do Tribunal de Contas da União (TCU). É
importante ressaltar que a entidade nunca foi alvo de intervenção desde sua criação.
Os conselhos profissionais são autarquias federais e, por isso, cobram dos profissionais neles
registrados uma anuidade para custear todas as despesas necessárias para fiscalizar o exercício da
profissão na sua área de jurisdição.
Assim como os primeiros grupos humanos se formaram em torno de interesses comuns,
como ocorre nas histórias bíblicas, os bibliotecários devem se organizar em movimentos
associativos, como os grupos de trabalho, os sindicatos, as associações e os conselhos, entre outros,
para fortalecer a área.
É importante que os bibliotecários enxerguem nos seus conselhos um aliado e não um
inimigo a ser combatido. Os conselhos precisam do apoio de todos os envolvidos: sociedade e
bibliotecários. Somente assim será possível construir um país em que todos tenham acesso a
informações de qualidade e ao conhecimento humano. Somente assim a Educação será de fato um
direito assegurado para todos.
O CRB-6, em particular, conta com uma equipe de servidores excepcionais, sempre prontos
para atender leigos, estudantes de Biblioteconomia e bibliotecários prontamente e da melhor forma
possível. Gerente, assistentes de diretoria, assistentes administrativos, bibliotecários-fiscais, auxiliar
de serviços gerais, estagiários e aprendizes dão o melhor de si diariamente para que o Conselho
possa cumprir bem o seu papel. Certamente, o mesmo se aplica a todos os demais CRBs do Brasil.
É papel dos bibliotecários, em geral, buscar apoio no seu Conselho, contribuir com
sugestões e material para divulgação, denunciar infrações à ética profissional, participar das
plenárias abertas, ler os comunicados oficiais, votar nas eleições para novos conselheiros e,
obviamente, estar em dia com suas obrigações financeiras.

REFERÊNCIAS

ASSOCIAÇÃO DE BIBLIOTECÁRIOS DE MINAS GERAIS (ABMG). Missão. (2018?).
Disponível em: &lt;http://abmg.org.br/sobre-a-abmg/missao/&gt;. Acesso em: 20 nov. 2018.
CONSELHO FEDERAL DE BIBLIOTECONOMIA (CFB). Bibliotecário: legislação e órgãos de
classe. Brasília: CFB, (2012?).
FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE ASSOCIAÇÕES DE BIBLIOTECÁRIOS, CIENTISTAS DA
INFORMAÇÃO E INSTITUIÇÕES (FEBAB). Missão e histórico. (20--?). Disponível em:
&lt;http://www.febab.org.br/sobre/historico/&gt;. Acesso em: 20 nov. 2018.

�282

FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL (FBN). Histórico. (20--?). Disponível em:
&lt;https://www.bn.gov.br/sobre-bn/historico&gt;. Acesso em: 20 nov. 2018.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Biblioteca
Aloísio Magalhães. (2013?) Disponível em: &lt;https://biblioam.wordpress.com/2013/04/25/primeirabiblioteca-publica-do-brasil/&gt;. Acesso em: 20 nov. 2018.

�283

CAPÍTULO XX
PARTICIPAÇÃO NO MOVIMENTO ASSOCIATIVO: ASSOCIAÇÃO DE
BIBLIOTECÁRIOS DE MINAS GERAIS E O SEU GRANDE DESAFIO

Andrea de Paula Brandão Martins
Aurea Regina Guimarães Tomasi

1 MOVIMENTO ASSOCIATIVO E PARTICIPAÇÃO

Os movimentos associativos são processos políticos sociais que permitem articulações
interinstitucionais, a participação e a prática associativa como uma escolha para vida política,
buscando uma identidade de classe, sentimento de pertencimento, seja geográfico, seja cultural e
profissional, aqui especificamente de bibliotecários e áreas afins, como a Arquivologia e
Museologia, no universo da Ciência da Informação. O movimento associativo pressupõe a gestão
social, articulações para interação e ações integradas, sendo de fundamental importância ter como
princípio a participação. Um dos grandes desafios, hoje, em tempos de redes sociais e
“comportamentos líquidos e/ou fugazes” continua sendo estabelecer adesão, fortalecimentos dos
laços e convergência de interesses e objetivos na construção de bens coletivos. Também constitui
um desafio superar a desmotivação, a participação incipiente por valores que buscam a necessidade
de “Sermos Juntos” em uma sociedade tão desigual e opressora. Os espaços associativos precisam
ser vistos e entendidos como espaços das possibilidades e das oportunidades, sejam culturais,
político-ideológicas, profissionais-mercadológicas, sócio-culturais e desenvolvimento de valores
que agreguem importância às profissões, às pessoas e ao papel profissional enquanto sujeito social e
coletivo que contribui para o desenvolvimento regional e do país.
Entendendo

a

importância

desses

espaços

associativos,

vislumbram-se

infinitas

possibilidades de superação das causas já há muito apontadas por diversos autores como
determinantes para até passado recente esvaziamento das associações profissionais de classe, não
sendo, contudo, uma particularidade da Biblioteconomia, sendo esse fenômeno reconhecido em
outras profissões em nível nacional e internacional.

Podemos elencar pouco interesse em

participação coletiva de classe e associações de representação de classe profissional, falta de
formação política, questões culturais, isolamento em rotinas de trabalho incompatíveis, apesar das

�284

tecnologias disponíveis e a prática participativa ser muito desgastante, exigindo disponibilidade de
tempo, dedicação, continuidade de estudo como rotina etc.

1.1 O SENTIDO PARA A PRÁTICA ASSOCIATIVA POR MEIO DA GESTÃO SOCIAL E DA
PARTICIPAÇÃO

Para dar sentido ao engajamento da prática associativa na perspectiva dos bibliotecários, há
que se pensar sobre a importância da gestão social como referência para se pensar as relações
advindas das práticas associativas e voluntárias, carregadas de valores e ideologias. Relações
estabelecidas entre sujeitos individuais e/ou coletivos, entre sociedade civil e Estado, permeadas
pela busca de poder, pelos ideais de construção coletiva, por espaços de atuação pública, social e
profissional, estando presente nas relações de trabalho e classe social.
Desde a década de 1990, diversos autores vêm trabalhando o desenvolvimento do conceito
de Gestão Social, que começaria nos moldes da gestão pública evoluindo para a complexidade das
relações estabelecidas no tecido social, envolvendo políticas públicas, legislação, responsabilidade
social, transformação cultural, inclusão, ou seja, na perspectiva da interdisciplinaridade,
multidisciplinaridade, transdisciplinaridade. Cada vez mais, adotada para o entendimento da
participação para o desenvolvimento local, autores como Singer (1999), Dowbor (1999), Carvalho
(1999), Fischer (2002), Tenório (2002), Maia et al. (2005), entre tantos outros defendem a gestão
social como possibilidade de estabelecer e interpretar forças que se tencionam nesse tecido das
relações complexas, levando em consideração critérios e valores culturais, propósitos da ação, foco
das ações do cenário político, poder local, local dos empreendimentos. Nesse processo, também se
questionam quais atores sociais participam direta ou indiretamente das ações, quais objetivos e
metas se quer alcançar, com que instrumentos, técnicas e recursos, quais parâmetros a nortear o
desenvolvimento em qualquer área da sociedade e do conhecimento.
A participação em movimento associativo requer compreensão e entendimento desse
universo de termos importantes que se relacionam, bem como os transversais e suas funções no
processo histórico-social, a saber alguns muito importantes: construção coletiva, práticas
democráticas, direito e cidadania, justiça, bem-estar social, ética, qualidade de vida, acesso a postos
de trabalho, equidade na distribuição de renda e inclusão social, a importância dos atores sociais
como os trabalhadores, população, organizações sociais, universidades, associações de classe, a
sociedade civil, sindicatos, indivíduos, grupos e coletividades, organizações não governamentais, e

�285

a possibilidade de alcançar um protagonismo no processo de construção democrática de qualquer
movimento na defesa de intenções e interesses, sejam compreendido de forma imediata ou não.
Quais objetivos se buscam e que se pretende alcançar? Quais ações necessárias? Qual é o
foco para tanto investimentos de tempo, dinheiro. Qual o sentido para a participação?
Compreendendo a importância do associativismo, gestão social e autogestão, das forças que se
tencionam e das necessárias para mudanças efetivas, somente, assim, a partir dessa compreensão,
encontram-se respostas para a pergunta emblemática que muitos fazem diante da possibilidade de
ingressarem para um conselho regional de classe, para um movimento sindical ou para as
associações de classe profissional e, aqui, especificamente, de bibliotecários. Geralmente,
perguntam: “O que a instituição tem para oferecer ao profissional?”.
Ora, quando ouve as histórias de bibliotecários abnegados, e se entende gestão social como
dedicação, planejamento de ações estratégicas, planos de ação, usando instrumentos adequados a
cada processo social em um contínuo permanente, marcado pela presença de várias gerações,
surgindo, aí, como bem descreve Pedro Demo (1993, p. 67), “perspectiva de processo histórico
cultural de algo permanentemente em construção, uma vez que não se faz gestão social a fim de se
alcançar desenvolvimento, inovação ou até mesmo o desenvolvimento local sem participação”. A
participação é uma “conquista para a vida”, complementando com a ideia de que ela é “a
característica de uma política social centrada nos próprios interessados, que passam a autogerir ou
gerir a satisfação de suas necessidades”. A autopromoção, autogestão no sentido de emancipação e,
ainda, a participação “[...] não pode ser entendida como uma dádiva, algo ofertado, e sim como
processo histórico, uma conquista” (DEMO, 1993, p. 18).
Superação de crises político-financeiras foi bandeira quase que permanente dos movimentos
sindicais e associativos no Brasil, também vivenciada na Associação de Bibliotecários de Minas
Gerais (ABMG), como já registrado em estudo de caso de autoria de Borges e Romanelli (2011),
que estiveram por muitos anos à frente da associação. E ainda, para Borges e Romanelli (2011, p.
1), esse afastamento e isolamento das associações e não participação podem acontecer devido aos
inúmeros problemas de gestão, pelo desinteresse da classe trabalhadora em zelar pela mesma, pela
falta de comprometimento e muitas vezes falta de ousadia por parte dos bibliotecários. Uma vez
absorvidos em suas rotinas de trabalho, como refletir ou perceber outros espaços que precisam de
sua participação? Como se comprometerem? É preciso unir a qualificação à participação na
associação. O sujeito social vai imprimir o conhecimento, o status de sua persona na imagem da
associação, com sua presença e adesão. Foi assim no início da criação da Federação Brasileira das
Associações Bibliotecárias (FEBAB), das associações no Brasil e dos cursos de Biblioteconomia; e
com a ABMG, não seria diferente.

�286

Como a associação de bibliotecários ainda por muitos, é vista como local físico a ser
desenvolvido, é preciso em face das possibilidades tecnológicas refletir sobre isso, sobre
“desenvolvimento local”, que Dawbor (1999) vai imprimir uma importância na necessidade de
conhecer o local imediato de atuação, em que esteja inserido, definindo, ainda, a informação como
algo imprescindível ao desenvolvimento social, afirmando que “pessoas desinformadas não
participam, e sem participação não há desenvolvimento”. Dessa forma, há que se considerarem
estratégias de produzir conhecimento participando, sendo um processo de aprendizagem, como bem
referido por Demo (1993).
Para os autores Dallari (1983), Bordenave (1986) e Demo (1993), a participação deve ser
entendida como conquista para a vida, parte intrínseca da gestão social, demandando em sua
natureza a gestão das articulações entre os atores sociais em função de um desenvolvimento que
pode ser local, mais imediato, como pode também ser em nível regional, nacional ou global. Tendo
em vista as contribuições dos autores aqui citados sobre gestão social, participação e
desenvolvimento local, o associativismo e as práticas associativas podem ser tratados a partir das
contribuições desses mesmos autores.
De acordo com Boschi (1986), associar-se é uma arte, requer habilidades, senso de justiça,
ações e interesses coletivos. O universo associativo brasileiro, há muito estudado, tem seus limites
pautados pela legislação, impedindo que haja expansão das ações coletivas. Ganança (2006, p. 115)
salienta que o associativismo brasileiro tem sofrido o esvaziamento de seus espaços, bem como
crises financeiras, dificultando suas gestões. Tem também sofrido influências burocráticas do
Estado, inclusive ônus de taxas e impostos. Situação que pode ser muito agravada na atual
conjuntura política no Brasil em que tramitam projetos no Congresso Brasileiro para criminalização
de manifestações de práticas associativas, movimentos sociais e sindicais, mais uma vez a
importância da não obrigatoriedade de adesão aos movimentos, evidenciando a conscientização
para a importância dos mesmos e apoio por associação livre, expressando o amadurecimento
político dos bibliotecários independentes de qualquer ideologia partidária.
Entender isso é tão importante para a consolidação e até mesmo longevidade e alcance dos
movimentos,

desempenho

dos

profissionais

engajados

no

movimento

associativo,

e

desenvolvimento das associações, que apontamos critérios que foram estabelecidos por Demo
(1993) quanto à qualidade política das associações, como representatividade, legitimidade,
participação de base e autossustentação. Contudo, Ganança (2006, p. 116) pontua que o
associativismo brasileiro é muito diversificado em sua composição, distante do que se pauta em
busca da democracia e cidadania, em decorrência do próprio processo político cultural do país, e
hoje tendendo ao retrocesso das mentalidades, com o alinhamento dos atores de ideologias de

�287

extrema direita em nível nacional e internacional que não veem, nem demonstram apoio as práticas
democráticas e defesa do Estado de Direito, causando muita apreensão, principalmente no âmbito
universitário e externo a ele. E, ainda, em termos de representatividade, legitimidade,
autossustentação e participação de base, segundo o autor Ganança (2006), fica evidente tratar-se de
um fenômeno não encontrar esses quatro critérios propostos por Demo nos diversos tipos de
associação no Brasil.
Apesar das dificuldades, as associações, no Brasil, não deixaram de existir ou de serem
criadas, tampouco de crescer (BOSCHI, 1986), mesmo que minimamente, desde a década de 1990
(GANANÇA, 2006).

Contudo, há que se tratar da gestão da participação nesses espaços

associativos, podendo pensar em habilidades para exercê-la nas associações de classe profissional,
como afirmam em seus estudos Almeida Júnior (1997), Walter (2008) e Ferreira e Pereira (2011),
como já mencionado o trabalho corpo a corpo, a promoção dos encontros chamando os
bibliotecários a vivenciar esses espaços associativos como um processo de formação em práticas
associativas, de militância, a partir da experiência propositiva e concreta.
Na perspectiva da gestão social ainda em construção, recebendo significados instituídos a
partir de modelos políticos, econômicos, culturais, a participação é inserida na perspectiva de
processo histórico. Ela se configura e reconfigura também pelo mesmo processo histórico cultural
de cada época. Para a promoção do desenvolvimento local, é a partir das relações, dos nexos que
desses conceitos se estabelecem - indissociáveis, na medida em que a gestão social tende a ser
democrática em prol da cidadania, e da inclusão social, que valores políticos, éticos e morais vão
sendo mais bem compartilhados e entendidos por aqueles que querem fazer a diferença, como nos
ensina os autores Demo (1993), Tenório (1998), Fischer (2002) e Maia (2005).
A participação na perspectiva da gestão social deve ser apreendida em seus significados de
importância numa construção individual e coletiva, vista como aprendizado, exercida e planejada
como um projeto de vida para a ação individual ou coletiva em função de um desenvolvimento
local. Esse deve ser visto como parte ou resultado da gestão social, da ação coletiva, participação
associativa interdisciplinar entendida e aprimorada, sendo vista como parte integrante ou
consequência da outra. Intrinsecamente, ligados à gestão social, participação e desenvolvimento
local devem ser tidos como processo. Não há gestão social sem participação, assim como não há
desenvolvimento local sem a possibilidade de gestão social das práticas associativas participativas,
como destacado nos estudos de Dallari (1983), Bordenave (1986), Demo (1993), Tenório (1998),
Fischer (2002) e Maia, (2005). Em linhas gerais, esses autores, pela convergência de ideias, nos
ajudam nas reflexões de entendimento de que a participação é algo a ser estabelecido como

�288

processo contínuo de aprendizado. Os sujeitos sociais devem atuar como protagonistas de suas
próprias histórias individuais e coletivas.
Em seu trabalho, Demo (1993) apresenta a participação como algo a ser vislumbrado,
conquistado e exercido, sempre visto e delineado como processo histórico.
A participação supõe compromisso, envolvimento, presença em ações por vezes arriscadas
e até temerárias. Por ser processo, não pode totalmente ser controlada. [...] é preciso encarar
o poder, a partir dele e, então, abrir os espaços de participação numa construção (DEMO,
1993, p. 20).

A partir dessa citação, a participação deve ser entendida como algo a ser construído, sendo
importante para o desenvolvimento do sujeito social e coletivo, para o mundo do trabalho, suas
relações para com a comunidade da qual faz parte e a sociedade. O autor chama a atenção para
conflitos e embates que surgem das disputas pelo poder de participação, com sentido em um
processo histórico, atentando para os canais de participação, como esses são usados e como se
desenvolvem e devem ser vistos, ou seja, instrumentos importantes para a participação. Ressalta-se,
ainda, a importância da participação na organização da sociedade civil, no caso específico dos
movimentos sociais, bem como os sindicais e associativos, trazendo a dimensão do trabalho,
estando a associação de bibliotecários inserida nesse contexto.
Na perspectiva da construção coletiva, do processo histórico sociológico, a participação em
órgãos representativos se faz cada vez mais necessária e valorizada, na medida em que seja vista
[...] a participação enquanto resultado do processo de construção social, portanto, sujeito a
fatores históricos e culturais. Nesse sentido, a participação parece manter uma relação
direta com a capacidade individual ou coletiva de interagir, cooperar, associar-se e confiar,
isto é com o chamado capital social (MARTINS, 2002, p. 52).

A participação como um processo de aprendizagem “é empenho pessoal por um aprendizado
difícil das regras e meios de se fazer, ouvir, entender e atender” (MARTINS, 2002, p. 52). O autor
demonstra não se tratar de coisa simples, sendo, muito pelo contrário, parte da complexidade da
vida. Para superação dos desafios e limitações, demandas por habilidades e técnicas para mediação
de conflitos que advirão naturalmente das tentativas e empreendimentos que se fizerem necessários,
sejam em quaisquer áreas da vida do sujeito social. União da arte da técnica da atitude
interdisciplinar (BOSCHI, 1986; MARTINS, 2013; SANTOS, 2007).
Então, no processo participativo, existem planejamento e ações estratégicas, estabelecendose relações de reciprocidade, buscando uma identidade e objetivos comuns. A participação é algo
que requer investimento, seja de tempo, estudo, gestão e planejamento. Requer que o sujeito seja
intimamente engajado no processo, enquanto Demo (1993) se atém à postura do sujeito de estar
sempre buscando algo idealizado e inacabado. Bordenave (1986, p. 16-17) vem reforçar essa idéia,

�289

enfatizando que “participar é fazer parte, tomar parte, ter parte”; enfim, a participação é vista como
“autogestão”, seja em nível individual ou coletivo.
Na esfera individual, a participação como autogestão permite inferir que sujeitos sociais
participam de algo, consciente ou inconscientemente, procurando satisfazer suas necessidades
individuais ou coletivas. Bordenave (1986, p. 16-17) reafirma a ideia de que “a participação é o
caminho natural para o homem exprimir sua tendência inata de realizar, fazer coisas, afirmar-se a si
mesmo e dominar a natureza e o mundo”.
A ideia de autogestão pode ser um meio, um instrumento para se alcançar a autopromoção.
Essa ideia é defendida por Demo (1986, p. 482), quando se refere à conquista competente dentro do
processo histórico. A vida moderna se dá principalmente na área do trabalho, pela capacidade de
fazer algo, gerir a carreira profissional, ser eficiente e competente. A mesma ideia deveria ser
aplicada por todos que querem ver a democracia consolidada, os direitos sociais garantidos, o
avanço das práticas associativas, das ações coletivas. Demo preconiza que a participação tem
também objetivos, sendo eles, além da autopromoção já apresentada, “a realização da cidadania, a
implementação de regras democráticas de jogo, controle de poder, controle da burocracia, o
estabelecimento da negociação e a construção de uma cultura democrática” (DEMO, 1986, p. 475).
Na perspectiva da participação para o desenvolvimento local, Martins (2002, p. 52)
demonstra a responsabilidade de cada um em buscar, construir, lutar defendendo seu direito pela
qualidade de vida. Tudo o que envolva o fazer humano, o estar no mundo já nos torna parte
integrante de algum “sistema ou complexidade de coisas”. Relações serão estabelecidas em maior
ou menor grau, sejam de livre escolha ou não. E ainda sobre participação:
[...] sua prática envolve a satisfação de outras necessidades [...] como a interação com os
demais homens, a autoexpressão, o desenvolvimento do pensamento reflexivo, o prazer de
criar e recriar coisas e a valorização de si mesmo pelos outros (afetiva e instrumental, fazer
coisas com os outros é mais eficaz e eficiente que fazê-las sozinho) (BORDENAVE, 1986,
p. 17).

Essa ponderação do autor chama a atenção para os dias atuais, em que mesmo com avanço
das tecnologias informacionais e de comunicação ainda há forte tendência ao individualismo, sendo
preciso repensar a vida, princípios e valores que norteiam as decisões, seja na esfera individual ou
coletiva. O autor direciona seu parecer para a importância das reflexões em torno dos poderes
instituídos, ética e incertezas:
O que fazemos e outras pessoas fazem podem ter consequências profundas, de longo
alcance e de longa duração, consequências que não podemos ver diretamente nem predizer
com precisão. Entre as ações e seus efeitos existe enorme distância – tanto no tempo como
no espaço – que não podemos sondar usando nossas capacidades inatas e ordinárias de
percepção, e sendo assim dificilmente podemos medir a qualidade de nossas ações
mediante pleno inventário de seus efeitos (BAUMAN, 2006, p. 24).

�290

Tanto Bordenave (1986) quanto Bauman (2006) fazem um chamado à participação
consciente, para que o sujeito reflita sobre suas decisões, ao falar sobre incertezas e ética. Pode-se
inferir que os autores incitam à participação coletiva, à interação, para que das relações possam
surgir novas formas de atuação, outras possibilidades de escolhas. Nesse sentido, em relação à ética,
e valores principalmente na contemporaneidade, destaca-se a participação política, porque essa
passa por um conjunto de regras e valores, princípios que darão condições para que os sujeitos
sociais façam suas escolhas individuais e coletivas.
Quanto à natureza associativa do ser humano, essa é vista por Dallari (1983, p. 36) como
uma necessidade da natureza humana, dizendo que “o direito e dever de participação política são
duas faces da mesma realidade”. E, ainda, que a “participação intensa e constante de muitos é
necessária para impedir que alguns imponham uma ordem injusta, que sempre acaba sendo
prejudicial para todos”. Dessa maneira, tanto Demo, Bordenave e Dallari como Bauman defendem a
construção conjunta, mostrando a impossibilidade do avanço se não houver empenho consciente,
diversidade de atores no processo e engajamento político.
Os autores ressaltam a importância do trabalho colaborativo, interdisciplinar, intersetorial e
defendem a importância da qualidade participativa do sujeito protagonista, contribuindo para o
desenvolvimento do próprio sujeito, das organizações, setores, grupos e movimentos sociais,
políticas públicas etc.
A partir das contribuições desses autores, juntamente com as contribuições de Martins
(2002, p. 52), sobre a participação para o desenvolvimento local, fica evidente que as pessoas
precisam estar atentas ao que possuem, onde estão, como participam. E devem refletir sobre suas
capacidades e habilidades em criar redes interativas e relacionais sobre o aprendizado coletivo,
sobre como as organizações aprendem, adotando postura consciente perante os desafios a serem
enfrentados localmente, no imediato. Sobre a importância da dimensão humana e o sentido de lugar,
ele acrescenta:
[...] esta é a escala humana, que se identifica pela relação entre as pessoas, entre estas e o
seu entorno (ambiente, empresas e instituições), pautada na interdependência e na
comunidade de interesses, mas também, e principalmente, no cotidiano conflitante e
solidário vivido em comum (MARTINS, 2002, p. 54).

Estabelecidas as redes e fortalecidas as relações, a busca por soluções dos problemas
individuais e coletivos torna-se possibilidade. Experiências felizes tendem a promover o grupo cada
vez mais para a aceitação de uma nova cultura, de uma mudança de paradigma rumo ao trabalho
colaborativo, integrado, com posturas mais propositivas e assertivas. E também com oportunidades
a partir das experiências, das práticas, de adquirir habilidades superando desafios e mediando
conflitos de interesses, tendo sempre como resultado, o aprendizado coletivo.

�291

A aprendizagem coletiva e o conhecimento construído a partir da gestão social poderão
explicar comportamentos individuais e coletivos no tempo presente, refletindo no desenvolvimento
local ou não. Para entender a complexidade da vida dos tempos atuais, requer-se uma prédisposição ao trabalho intersetorial, interdisciplinar. Para tanto, implica o entendimento dos
processos, ajuda mútua, descentralização da gestão, principalmente da gestão pública. Um sujeito
interdisciplinar é exigido a todo o momento para que as coisas possam avançar no sentido do
desenvolvimento, seja ele mais imediato, local, regional ou global.
Para Santos (2007), a atitude interdisciplinar deve ser compreendida como um
posicionamento face aos outros atores envolvidos nos processos, sejam eles de construção do
conhecimento, problemas a serem enfrentados tendo em vista um processo educativo. Pensando a
participação política como aprendizado para a vida, tanto movimento quanto atitude leva a crer na
relação que se estabelece entre o sujeito social e os espaços de participação, sejam quais forem. Há
que se buscar esse conhecimento do espaço de atuação, das regras, do cotidiano das pessoas, na
interação. Assim sendo, demandando do sujeito participativo uma atitude interdisciplinar que seria
um posicionamento frente a realidade da vida, procurando conhecer seu ambiente, principalmente
em face de tomada de decisões importante para si e para o coletivo.
Em questões de militância em prol de uma reconfiguração da realidade, o sujeito
interdisciplinar requer não perder a perspectiva de processo a médio e longo prazo para se obter
resultados. Saber esperar, ser capaz de ceder, negociar, ter reciprocidade, comprometimento,
dedicação, desapego do que já não serve mais. Humildade em assumir o que não sabe, buscar ajuda,
ser solidário, ter empatia para que seja possível um diálogo aberto e franco, assertividade e buscar
fazer o melhor possível. A atitude interdisciplinar requer maturidade.
A participação mais assertiva requer domínio de certos instrumentos, como bem pontua
Demo (1993), planejamento, ações estratégias bem pensadas e articuladas. Santos (2007), sobre o
aprendizado e o trabalho interdisciplinar, contribui no sentido de demonstrar que a discussão e as
recomendações já estão há muito colocadas no sentido da gestão das próprias atitudes e também
coletivas demandando entendimento e aplicabilidade do que está posto.
Sabe-se que o acesso e uso da informação e do conhecimento é algo imprescindível para que
se promova a inclusão social, o acesso a políticas públicas, aos direitos sociais, à cidadania, sendo
esse ideal perseguido pelo bibliotecário educador. É preciso avançar em direção à militância
política, ampliando os espaços de atuação para além das organizações do “trabalho”. Dar suporte ao
desenvolvimento em várias áreas do conhecimento, com relação direta com a educação;
participando dos processos educativos é uma premissa para o desenvolvimento. Há na literatura,
estudos que reconhecem o papel socioeducacional do bibliotecário, sendo aquele que:

�292

[...] promover a competência em informação torna-se a chave ao desenvolvimento
socioeconômico sustentado e porque está diretamente ligado à inclusão social. A
incorporação e mobilização de atitudes, conhecimentos e habilidades direcionadas ao
exercício pleno da cidadania é o coração da inclusão social e da sustentabilidade. Também
inclui a aceitação das diferenças, a valorização da diversidade, o direito de pertencer e
buscar a constante melhoria de si mesmo e da sociedade. Os bibliotecários tornam-se
mediadores pedagógicos e agentes educacionais de transformação social (DUDZIAK, 2007,
p. 88).

Juntamente a essa dimensão do papel social-educacional do bibliotecário, a contribuição de
Demo (1993, p. 70) relaciona a qualidade participativa ao exercício da cidadania. Diz-se que a
“cidadania é a qualidade social de uma sociedade organizada sob a forma de direitos e deveres
majoritariamente reconhecidos”. Assim, a reflexão passa não somente pela função social e
educacional do bibliotecário, mas também pela necessidade da qualidade participativa ao exercer a
sua profissão, a sua cidadania no mundo do trabalho, com o profissional consciente de seus deveres
e defendendo os direitos sociais e coletivos.
Para compreender um pouco a participação dos bibliotecários em espaços políticos, torna-se
necessário lançar mão do conceito da gestão social da participação em órgãos de representação de
classe. Sobre o campo da gestão social, Fischer (2002) propõe tratar-se do:
[...] campo do desenvolvimento social, que se constitui como um processo, a partir de
múltiplas origens e interesses, mediados por relações de poder, de conflito e de
aprendizagem. Para a autora, o entrelaçamento das dimensões praxiológicas e
epistemológicas já acumuladas apontam uma “proposta pré-paradigmática” da gestão
social. Nesta perspectiva da gestão social estão especialmente identificados como sujeitos
os indivíduos, grupos e coletividades interessadas, mediados por redes ou por
interorganizações (FISCHER, 2002 apud MAIA, 2005, p. 10).

Sobre a participação política em órgãos de classe, especificamente a ABMG, percebe-se que
há muito ainda por compreender e fazer, repensando a contribuição individual de cada um, e dos
grupos, demandando estudos que resgatem as personalidades que fizeram a história da
Biblioteconomia e o movimento associativo em Minas Gerais. Há poucos registros sobre os
bibliotecários que se destacaram no processo histórico, embora o que não quer dizer que não tenha
havido esses sujeitos empreendedores e dedicados ao longo de seus 58 anos. Enxergar para além
das estruturas burocráticas formais, se o bibliotecário é participativo ou apenas um associado é
importante. Como ficou registrado a participação e a contribuição de cada um na construção
coletiva de classe também torna-se relevante.
No que se refere à qualidade política das associações, Demo (1993, p. 117) afirma que,
embora não seja possível um “modelo pronto” a ser seguido, ainda assim, é preciso estabelecer
critérios de avaliação. Dentro dos processos participativos e dos movimentos associativos,
definimos os quatro critérios de qualidade política de associações: “representatividade,
legitimidade, participação da base, autossustentação”.

�293

Tendo em vista o campo da gestão social apresentado por Fischer (2002) na investigação
sobre a participação dos bibliotecários na associação, os critérios são parâmetros a serem
considerados; os bibliotecários com suas demandas também precisam ser cada vez mais ouvidos
sobre a sua atuação no mercado profissional, e o que esperam dos órgãos de participação, das
associações, como veem a atuação da mesma e se, se reconhecem como parte importante, nesse
processo.
Conhecer as lideranças, seu processo de engajamento e envolvimento com a associação é
fundamental para o reconhecimento identitário da classe bibliotecária com os movimentos de
interesse, as causas mais imediatas, projetos, mobilizações para ações coletivas etc. Assim sendo, a
qualidade política dos “gestores” da associação deverá indicar a expressão da representatividade,
sendo esse o primeiro critério a ser observado (DEMO, 1993).
O segundo critério a ser obedecido é a legitimidade, em que a importância estaria na
“qualidade política do processo participativo, quando estiver fundado em estado de direito”. Será
que todos entendem e veem no seu trabalho que têm o direito a se expressarem, participarem da
associação? E os objetivos buscados pela mesma contribuem para essa valorização da imagem e o
fazer bibliotecário? Ainda, segundo Demo, “no plano de uma associação, a legitimidade se forja
com base nos estatutos que, neste sentido, seriam uma obra-prima dos membros”. O autor destaca
que ser sócio é diferente de ser membro e completa sobre o estatuto:
[...] lá se coloca de comum acordo, como alguém se torna membro da associação, como se
desliga, como se fazem os chefes e se os impugnam, quais direitos e quais deveres são de
todos, como funciona no dia-a-dia, como praticam reuniões, como se legisla e se julga, e
assim por diante (DEMO, 1993, p. 119).

Há uma crítica do autor no que se refere à atenção culturalmente dispensada apenas à
dimensão, ao aspecto burocrático da construção dos estatutos de associações, ressaltando que há
preocupação somente com a formalidade legal, não se importando em aprofundar-se no aspecto que
seria o próprio “compromisso político”. Enfatiza, ainda, que ser membro de uma associação
significaria ser “parte integrante, consciente, compromissada, o verdadeiro dono e a autêntica
origem da associação”. O membro seria o ser cidadão exercendo a cidadania participativa, “é a
cidadania organizada que funda a legitimidade de todos os processos participativos”.
Como terceiro critério, pontua o autor a participação da base. Destaca-se que “a qualidade
política de uma associação se decide nesse parâmetro, porque na mobilização organizada da base
demonstra se existe ou se é uma farsa”:
[...] o que é indispensável é a intensidade participativa, a coesão organizada e
compromissada ideologicamente, a realização conjunta de um projeto comum, sentido e
definido como comum, na vibração da identidade de propósitos, de passado e de futuro
(DEMO, 1993, p. 21).

�294

O quarto critério é o que de fato vai dizer se a associação é emancipada, resultado da
autopromoção. A autossustentação é fundamental para o cotidiano e manutenção da associação,
sua liberdade de ação. Os associados têm que apreender o sentido educativo-participativo de
pertencer e participar, sentindo-se parte da associação e que ela é sua. Demo (1993, p. 124) acredita
que “os processos participativos não resumem sua qualidade política somente na face política”. Os
associados precisam comparecer financeiramente, assumindo compromissos socioeconômicos. As
associações não podem sobreviver somente com “ideias, compromissos, ideologias, mobilizações”,
precisando saber resolver a questão dos recursos materiais. Para isso, há que se lançar mão de muito
engajamento, trabalho colaborativo, inteligência e criatividade e buscando por recursos alternativos
e por atividades produtivas que possam capitalizar a associação, como bem defendido os cursos de
capacitação e educação continuada por várias gestões que passaram pela associação.

2 A ASSOCIAÇÃO DE BIBLIOTECÁRIOS DE MINAS GERAIS (ABMG)

2.1 IDENTIDADE PROFISSIONAL: BIBLIOTECÁRIO PARTICIPATIVO

As reflexões sobre identidade profissional impactadas pelo advento das tecnologias e o
aprimoramento contínuo das mesmas despertam sentimentos ambíguos, contraditórios. Nos
primórdios, o profissional da informação lidava diretamente com o caos informacional e
instrumentos rudimentares; hoje, continuamos mergulhados no caos exponencial e ilimitado de
informações, há tecnologia de ponta e a falsa sensação de que tudo estaria sob controle caiu por
terra; é que hoje se domina e se conhece de tudo um pouco. Essa realidade impacta a identidade
coletiva se pensarmos a aldeia global e a rapidez com que temos que responder a situações em
tempo real. Hoje, nos falta o tempo necessário para a elaboração do pensamento, das ideias e o
reconhecimento da parcela de responsabilidades sobre os processos individuais e coletivos,
principalmente os de impacto nas transformações sociais e de visão de mundo. Com tanta
tecnologia, todos nós podemos nos sentir cidadãos do mundo, mas as mudanças locais de que
realmente precisamos não acompanham a quantidade de informação que estamos expostos. As
informações são desproporcionais e como podemos de fato utilizá-las em nosso cotidiano, em nossa
vida, em nossa comunidade, representa um dos maiores desafios da atualidade; sem contar,
também, que o sofrimento hoje passa pela síndrome do pensamento acelerado.

�295

Muito se fala sobre a identidade profissional do bibliotecário, os desafios apresentados a
esses profissionais, podendo a reflexão ser conduzida com expressivos trabalhos desde a década de
1990 por Almeida Júnior (1997), Castro (2000), Souza (2002, 2004), Dudziak (2007) e Lima e
Lima (2009). Desde a virada do milênio, Castells (2000), Sturt Hall (2002) e Bauman (2005)
colaboraram com suas reflexões sobre o estar no mundo na perspectiva da construção da identidade
coletiva e impactos tecnológicos, dos desafios que todos teríamos que enfrentar, seja como sujeito
participativo ou não, de algum movimento social. Assim, toda a reflexão passa por pensarmos o
mundo conectado por redes interativas e infinitas possibilidades de encontros virtuais após a queda
do paradigma tempo e espaço, muito embora, para tal inclusão digital, é preciso haver investimento,
disposição e letramento.
Muito se escreveu sobre o esvaziamento das associações e a falta de disposição para o
encontro físico presencial, fenômeno que atinge a sociedade como um todo e a pressão para a
produção e utilização de serviços virtuais digitais de acesso remoto. Na prática profissional,
percebe-se a tendência priorizando o encontro, por meio de conferências de acesso remoto, grupos
de estudos virtuais; enfim, tudo que a tecnologia possa proporcionar e, assim sendo, o encontro
presencial fica preterido e cada vez mais a desumanização, pois o instrumento que nos expõe a
todos é o mesmo também que afasta, nos inviabiliza e nos camufla em meio a tantas possibilidades
de recursos num mundo virtual.

2.2

O DESAFIO DO CONTATO E DA PERSUASÃO: O ENCANTAMENTO PELA

ORALIDADE

A fundação da ABMG partiu do desejo de alguns bibliotecários que levaram o curso para a
Universidade Federal de Minas Gerais, que antes era ministrado pelo Instituto Nacional do Livro
(INL), sendo criada em 17 de junho de 1960. A participação no processo para a fundação da
associação teve inspiração em nível regional, internacional e localmente, sendo um desejo e
proposta de Etelvina Lima.
Naquela época, Minas Gerais contava com poucos bibliotecários, mas a união de todos foi
importante para o crescimento e transferência do curso para a UFMG. Desde os primórdios da
profissão no Brasil, grande parte dos profissionais, por várias gerações, se interessou pela carreira
pelo gosto à leitura e por questões culturais. No início, os cursos eram bem marcados pela presença
feminina e em grande maioria pelo pouco conhecimento sobre a profissão. Há registros da vasta

�296

área de atuação da entidade, sejam em instituições públicas ou privadas, em carreira técnica,
docência e pesquisa, em gestão pública, cargos políticos e carreira jurídica.
Sobre a avaliação que podemos fazer hoje do patrimônio cultural (memória) e material
(sede, ensino e infraestrutura), a associação, nos seus 58 anos de vida ininterruptos, passou por altos
e baixos, contudo, sempre marcada pela livre associação e pelo encontro de pessoas e interesses.
Cada liderança teve seu perfil diferenciado dentro do que foi possível no contexto sócio, político,
ideológico e econômico.
Contudo, o maior patrimônio da associação sempre foi os bibliotecários, as pessoas que
dedicaram parte de suas vidas para que as coisas acontecessem ao longo do tempo de sua história.
Foram tantos bibliotecários, que os registros merecem estudo histórico à parte e aqui, como já
mencionado, com nome de Etelvina Lima, fica a homenagem às gerações de bibliotecários
comprometidas com a associação, não sendo possível citar todos, neste texto, devido à relevância de
cada um, por meio de suas ações individuais e coletivas para o movimento associativo.
Em 58 anos, a associação tem sido forte e com muita credibilidade entre os bibliotecários.
Há um reconhecimento de legitimidade e representação, contudo, ainda, assim, precisa ampliar seu
alcance junto às escolas de formação, sejam públicas ou privadas, mostrando de que maneira vem
atuando e toda a sua potencialidade de desenvolvimento em que a Biblioteconomia social tem muito
o que oferecer para a cidadania, informação estratégica para a inclusão social, para o
desenvolvimento de um povo/nação, para o desenvolvimento do país. O movimento associativo tem
muito o que contribuir para essa formação, podendo complementar a formação curricular que,
muitas vezes, não permite vivenciar processos inseridos na sociedade, como proposição de projetos
de leis, informações para movimentos sociais, informação utilitária, gestão social, dentre muitos
outros.
Os registros passam pela organização e participação de importantes Congressos Brasileiros,
sendo o Biblos 2000 (CBBD), trazendo retorno financeiro e visibilidade de entidade no mundo
bibliotecário, além de tantos outros cursos, palestras, workshops, oficinas, encontros, visando a
educação continuada dos bibliotecários, arquivistas e pessoas interessadas em Biblioteconomia e
Ciência da Informação. Dessa forma, a avaliação cultural é imensurável, além de ter contribuído
com muitas oportunidades de trabalho aos associados, não só preparando-os para o mercado, como
indicando para empresas que procuravam a ABMG, como referência de empregos e prestação de
serviços demandados.
A memória viva do movimento associativo nos leva a crer que, de fato, o maior patrimônio
cultural hoje da associação, são os profissionais bibliotecários e sua oralidade; precisamos ouvir os
profissionais que sempre estiveram presentes nos trabalhos da associação. Segundo Cléa Borges,

�297

bibliotecária que sempre esteve presente junto à associação, talvez “seja a única associação de
Bibliotecários do Brasil que tem maior patrimônio imobiliário, com sede própria”, sendo essa uma
conquista muito grande, resultado da participação de abnegados profissionais, muito empenho e
gestão estratégica. Hoje, a ABMG possui três salas bem localizadas no centro de Belo Horizonte:
duas no Edifício Hotary, próximo ao Museu Inimá de Paula; e uma no circuito histórico Praça da
Liberdade, com razoável infraestrutura.
A associação tem participação de profissionais ativos e principalmente aposentados. Os
profissionais ativos atuam em gerenciamento de bibliotecas públicas e privadas, na esfera
municipal, estadual e federal, escolares, universitárias, comunitárias e de saneamento, professores
de universidade, contadores de história, profissionais liberais, empresários, bibliotecas de órgãos
públicos etc. Geralmente, há demandas para cursos preparatórios para concursos públicos,
atualizações e formação continuada. Os aposentados são pessoas que têm perfil para trabalharem
em movimento associativo, e com vasta experiência por terem sido presidente de Conselho, de
associação, superintendente em órgão público, que gostam e queiram colaborar com a classe, pois o
trabalho é voluntário, demandando disponibilidade de tempo, habilidades diversas, perfil,
compromisso com educação continuada e atuação política; os aposentados em convergência de
interesses com os ativos demandam por oportunidades de lazer, entretenimento, viagens nacionais e
internacionais para conhecer bibliotecas e museus, espaços alternativos e encontros festivos para
confraternização etc.
A associação tem recebido demandas do profissional liberal de iniciativa privada, num
mercado cada vez mais concorrido e permanência nos postos de trabalho e valorização da profissão
e salários. Merece estudos, o fenômeno da valorização dos estágios, pois, enquanto ainda em
formação acadêmica e a desproporcionalidade no ingresso ao mercado após a formação com
salários compatíveis, os profissionais saem altamente qualificados de seus cursos. Há um
movimento dormente e renitente junto à associação pela criação de um sindicato de classe ou a
evolução da associação, transformando-a em sindicato.
Paralelo a essa situação reflexiva, diante das necessidades dos profissionais de lutarem por
inserção ao mercado de trabalho garantindo os postos e melhores condições de trabalho e salários,
podemos inferir, ainda, a pouca adesão e participação dos estudantes e profissionais da área de
Ciência da Informação, sejam técnicos de nível médio, ou graduandos ainda em formação e
profissionais já inseridos no mercado de trabalho.
Há os que defendam que a identidade para a formação associativa em movimentos de classe
precisa e deve passar pela formação acadêmica também; outros já defendem que se trata de perfil,
identificação com as causas coletivas; outros acreditam nas questões políticas ideológicas para o

�298

não envolvimento, bem como a questões financeiras e, hoje, talvez, se acentue com a legislação da
não obrigatoriedade em participação financeira em entidades de classe. Contudo, refletir sobre a
natureza das instituições coletivas quando estruturam em seus estatutos “a garantia para livre
adesão” já seria um indício da maturidade política, do uso da liberdade em escolher participar,
contribuindo para as causas coletivas.
A ABMG tem conseguido estabelecer alianças, difundindo a sua missão de congregar
bibliotecários e profissionais afins. Como toda instituição, a associação tem seus altos e baixos,
contudo, ainda assim, a baixa adesão sinaliza que é preciso investimentos na interação e ações
coletivas integradas, trabalhando a visibilidade e o sentido de pertencimento sem perder de vista a
importância da interdisciplinaridade com outras áreas de conhecimento.
O reconhecimento da legitimidade de representação se percebe sim, porque a ABMG vem
atuando há 58 anos ininterruptos. A maior parte de sua vida foi uma associação forte e com muita
credibilidade entre os pares e bibliotecários.
A articulação da associação com a categoria profissional precisa ser entendida e praticada de
todas as formas possíveis, em encontros festivos, corpo a corpo, site atualizado, telefonema, emails, redes sociais diversas e cada vez mais em alta, reuniões presenciais, participação da diretoria
nos cursos, palestras, network, workshops de outros órgãos, e mediante à divulgação dos trabalhos
de consultoria, assessorias, dos profissionais atuantes no mercado de trabalho, obviamente
acompanhando a evolução tecnológica, mas visando mais confiabilidade e agilizada nas
informações que se pretende divulgar.
Precisa buscar a interação da classe e o senso de voluntariado precisa ser ampliado para os
trabalhos e filiações, aumentando a rentabilidade que permitirá investimentos em áreas estratégicas
como marketing, estruturação de cursos, contratando pessoas para melhor gestão da associação e
isso somente será possível com a colaboração e com um contingente expressivo de profissionais
bem sucedidos e abnegados.
Atualmente, com a nova gestão recentemente empossada, permitiu sentir o prenúncio de
novos tempos na associação, com um trabalho mais planejado, reflexivo, colaborativo, buscando
assertividade, engajamento político, motivando a todos a pensar e valorizar a ascensão da
Biblioteconomia social. Nesse contexto, pressupõe ações junto àqueles que estão à margem social,
os mais necessitados de informações que venham transformar suas realidades de vida com projetos
sociais, e ações inovadoras que permitam, de fato, a inclusão social e o acesso à leitura, cultura,
artes e ao sistema educacional.
Desde sua fundação, no ano de 1960, na ABMG, encontram-se, ainda, hoje, associados que
se aproximaram da mesma na década de 1970 e empenharam-se para a sua consolidação e

�299

reconhecimento. São atores em destaque, cuja própria história de vida se confunde, entrelaçando-se
com a história da associação.
Com esse espaço de interação, perseguindo-se a ideologia da importância da participação
para a identidade coletiva do bibliotecário, persiste-se em mostrar o valor social da profissão de
bibliotecário. Esse milita exaustivamente, mesmo que, inversamente, o retorno do reconhecimento
da classe, às vezes, não seja na mesma proporção. “Preservar a memória”, promovendo a
aproximação do passado com a atualidade, por meio da oralidade, estimulada pela possibilidade do
encontro entre passado e presente torna importante o espaço físico da associação e, nesse sentido,
da oralidade somada à tecnologia. Para Almeida Júnior (1997),
uma associação [...] uma entidade de classe deveria surgir da necessidade de união de
pessoas vinculadas a uma área profissional comum, com um ou mais objetivos específicos
[...] deve ser construída a partir e com as necessidades das bases – entendida como a
totalidade ou uma parcela dos profissionais da área (ALMEIDA JÚNIOR, 1997, p. 109).

A princípio, o encontro de várias gerações deveria promover ou estimular bibliotecários a
conhecer as questões atuais com olhar sobre a experiência do passado. Estimula-se o engajamento na
associação como uma oportunidade de resgatar a memória, mesmo que seja na oralidade. A história
da Biblioteconomia mineira deve ser pauta permanente da agenda da associação.
Enquanto uns querem preservar a memória, outros, em face do advento das tecnologias,
querem o rompimento com o passado ampliando fronteiras, inclusive para o acolhimento na
associação de outros profissionais, como tem sido, nos últimos anos, de acordo com o Estatuto, os
arquivistas, museólogos, todos pertencentes à área de Ciência da Informação. Além do Estatuto,
quais ações são empreendidas? Os bibliotecários, por serem os fundadores da ABMG, têm
consciência dessa relação? Os arquivistas e museólogos têm conhecimento dessa possibilidade de se
associarem? Como percebem essa realidade?
Dessa relação, ainda não totalmente estabelecida, talvez seja possível identificar o sentimento
de pertencimento que os associados tenham para com a associação, como está sendo visto, e se existe
mesmo essa aproximação entre os profissionais dos primórdios da associação com a atualidade e
quais vínculos estão de fato estabelecidos.
Adotando os critérios sobre a qualidade política da associação, pode-se inferir sobre os “reais
motivos” de interesse pela participação ou não participação dos bibliotecários, arquivistas,
museólogos e analistas de sistemas informacionais.
Quais estímulos favorecem a aproximação dos mesmos com a associação são questões que
estimulam o encontro para a reflexão em busca de respostas, e de como agregar, de fato, pessoas para
o trabalho associativo. Ações que poderão funcionar como estratégias para avançar rumo à inovação
no sentido de uma nova reconfiguração da associação de bibliotecários, detectando as possíveis

�300

necessidades de mudanças de mentalidade e comportamentais, do profissional que lida com o caos
informacional, de modo geral, em relação à associação. Parte dos motivos para participação ou não
participação possivelmente estabelece “nexus” com o que os autores citados neste texto classificaram
como critérios de qualidade política de associações. O não reconhecimento desses critérios, por parte
das instituições ou pelos associados, pode dificultar o engajamento em ações coletivas, em
movimentos de interesse da classe.
Segundo Demo, é preciso participar conscientemente, acentuando que “a maior inteligência
da participação está em mostrar-se tão necessária quanto viável”, sublinhando-se a importância de
um planejamento considerado pelo autor como um “instrumento de participação”. “Entretanto, assim
o cremos, não somente no sentido de pelo menos não estorvar processos participativos, mas
igualmente no sentido de colaborar em sua motivação” (DEMO, 1993, p. 42).
Essa citação vem mostrar que a participação está para além do discurso, requer muito trabalho
e que a sua qualidade e planejamento dependem da autocrítica, da capacidade de autoavaliação de
cada sujeito social envolvido no seu fazer. Sobre o dever de participação política, pode-se concluir e
acrescentar aos apontamentos de Demo (1993):
[...] todo indivíduo exerce alguma influência sobre o meio social em que vive e sofre
influência desse meio por mais que procure isolar-se [...] a participação não depende de se
desejar ou não, pois mesmo aqueles que não tomam qualquer atitude são utilizados pelos
grupos mais ativos, visto que o silêncio e a passividade são interpretados como sinais de
concordância com as decisões dos grupos dominantes (DALLARI, 1983, p. 34).

Ou seja, a oportunidade do encontro valoriza os registros sobre o profissional e sobre a
Biblioteconomia, passando também pela oralidade, pela oportunidade de contar e preservando a
memória, no próprio espaço físico da associação. As ações planejadas estratégicas devem permear
iniciativas nesse sentido. Mas também a não participação pode deixar lacunas que outros grupos de
pessoas mais organizados e articulados poderão ocupar espaços, desde que queiram e não
encontrando resistências, já que há o esvaziamento das associações, de modo geral. É preciso
refletir sobre essa realidade, se seria esse o destino dos sindicatos, grêmios e associações de classe
com o impacto das tecnologias.
Finalizando, a ABMG, sendo parte integrante dos movimentos associativos do Brasil,
merece estudo histórico, resgatando sua documentação arquivística, suas histórias, principalmente,
por meio da oralidade de muitos bibliotecários atuantes desde o início de sua fundação.

�301

REFERÊNCIAS
ALMEIDA JÚNIOR, O.F.A. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997.
BARBALHO, C.R.S. Planejamento estratégico: uma análise metodológica. Informação &amp;
Informação, Londrina, v. 2, n. 1, p. 29-44, jan./jun. 1997. Disponível em:
&lt;http://www.brapci.ufpr.br/documento.php?dd0=0000001490 &amp;dd1=50bcf&gt;. Acesso em: 30 maio
2013.
BAUMAN, Z. Ética pós-moderna. 3. ed. São Paulo: Paulis, 2006.
BAUMAN, Z. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahaer, 2005.
BORDENAVE, J.E. O que é participação. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.
BORGES, M.C.; ROMANELLI, M.L.C. How can libraries, librarians and library associations be or
not to be successful on developing countries: case study - Minas Gerais Library Association, Brasil.
In: IFLA WORLD LIBRARY AND INFORMATION CONGRESS: 77th, 13-18 August 2011, San
Juan, Puerto Rico. IFLA General Conference and Assembly: IFLA, 2011. Disponível em:
&lt;http:// Conference. Ifla.org/ifla 77&gt;. Acesso em: 20 dez. 2012.
BOSCHI, R. A arte da associação. Rio de Janeiro: Vértice, 1986.
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Lei nº 4.084, de 30 de junho de 1962. Dispõe sobre a
profissão de Bibliotecário e regula seu exercício. Brasília, DF, Diário Oficial da República
Federativa do Brasil, 02 jul. 1962.
CARVALHO, J.M. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 13. ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2010.
CARVALHO, M.C.B. Alguns apontamentos para o debate. In: RICO, E.M.; RAICHELIS, R.
(Org.). Gestão social: uma questão em debate. São Paulo: Educ/IEE/PUCSP, 1999. p. 19-29.
CASTELLS, M. O poder da identidade. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
CASTRO, C.A. História da Biblioteconomia brasileira. Brasília: Thesaurus, 2000.
DAGNINO, E. Os movimentos sociais e a emergência de uma nova noção de cidadania. In:
DAGNINO, E. (Org.). Os anos 90: política e sociedade no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1994.
DALLARI, D.A. O que é participação política. São Paulo: Brasiliense, 1983.
DEMO, P. Participação é conquista. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1993.
DEMO, P. Precariedades de práticas associativas. Cadernos de Estudos Sociai, Recife, v. 2, n. 2,
jul./dez. 1986.
DEUS, C.C.R.D. Evolução das bibliotecas universitárias e suas relações com as políticas
educacionais no Brasil. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA E
DOCUMENTAÇÃO, 24., 2011, Maceió. Anais..., Maceió, Alagoas, 2011.

�302

DOWBOR, L. A gestão social em busca de paradigma. In: RICO, E.M.; RAICHELIS, R. (Org.).
Gestão social: uma questão em debate. São Paulo: Educ/IEE/PUCSP, 1999.
DOWBOR, L. Educação e desenvolvimento local. São Paulo: Cortez, 2006. Disponível em:
&lt;http://www.linagalvani.org.br/pdfs/Educa%C3%A7%C3%A3o%20e%
20Desenvolvimento%20Local%20-%20Ladislaw%20Dowbor.pdf&gt;. Acesso em: 08 ago. 2013.
DUDIZIAK, E.A. Information literacy: principles, philosophy and practice. Ciência da
Informação, v. 32, n.1, p. 23-35, 2003.
DUDZIAK, E.A.A. O bibliotecário como agente de transformação em sociedade complexa:
integração entre ciência, tecnologia, desenvolvimento e inclusão social. Ponto de Acesso, Salvador,
v. 1, n. 1, p. 88-98, jun. 2007.
FERREIRA, M.M.; EVANGELISTA, R.; PEREIRA, J.S. O profissional bibliotecário no Maranhão
e sua relação com os órgãos de classe. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONMIA,
DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 24., Maceió, ago. 2011, Anais..., Maceió,
2011.
FISCHER, T. Poderes locais, desenvolvimento e gestão: introdução a uma agenda. (Org.). Gestão
do desenvolvimento e poderes locais: marcos teóricos e avaliação. Salvador: Casa da Qualidade,
2002. p. 12-32.
FONSECA, E.N. Introdução à biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos, 2007.
FONSECA, E.N. Ser ou não ser bibliotecário e outros manifestos contra a rotina. Brasília:
ABDF, 1988.
GANANÇA, A.C. Associativismo no Brasil: características e limites para a construção de uma
nova institucionalidade democrática participativa. 134 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade de
Brasília, Brasília, 2006. Disponível em: &lt;http://repositorio.unb.br/handle/10482/6650&gt;. Acesso em:
13 ago. 2013.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. 7. ed. Rio de Janeiro: DP&amp;A, 2002.
KIRK, J.; TODD, R. Information literacy: challenging roles for information professionals. In:
NATIONAL INFORMATION LITERACY CONFERENCE: THE AUSTRALIAN AGENDA,
1992, Adelaide. Proceedings..., Adelaide: US AL, 1995. p. 126-135.
LIMA, C.C.; LIMA, K. A autoimagem do bibliotecário versus a visão social: uma análise da
valorização profissional. 2009. 83 f. Monografia (Graduação em Biblioteconomia) - Instituto de
Ciências Humanas, Comunicação e Artes, Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2009.
MAIA, M. Gestão social: reconhecendo e construindo referenciais. Revista Virtual Textos &amp;
Contextos, n. 4, ano IV, dez. 2005.
MARTINS, S.R.O. Desenvolvimento local: questões conceituais e metodológicas. Interações:
Revista Internacional de Desenvolvimento Local, v. 5, p. 51-59, set. 2002.
MARTINS, L.R. O trabalho: categoria central na vida humana1. Disponível em:
&lt;http://scholar.googleusercontent.com/scholar?q=cache:2v4dpPj-uU8J:scholar.
google.com/&amp;hl=pt-BR&amp;as_sdt=0,5&gt;. Acesso em: 30 jul. 2013.

�303

PEREIRA, J.S.; EVANGELISTA, R.L. Formação política do bibliotecário maranhense. In:
ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDANTES DE BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO,
GESTÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 33., João Pessoa, 2010. Anais..., João Pessoa, 2010.
RAICHELIS, R. Gestão social: uma questão em debate. São Paulo: PUC, 1999.
RASCHE, F. Ética em bibliotecas públicas: representações de ética de profissionais da
informação bibliotecários. 2005. 280f. Tese (Doutorado em Ciência da informação) - Programa de
Pós-Graduação em Ciência da informação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis,
2005.
SANTOS, E.H. A interdisciplinaridade como eixo articulado do ensino médio e do ensino técnico
de nível médio integrado. In: BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica.
Ensino médio integrado à Educação Profissional: integrar para que? Brasília, DF, 2007. p. 139153.
SINGER, P. Alternativas da gestão diante da crise do trabalho. In: RICO, E.M.; RAICHELIS, R.
(Org.). Gestão social: uma questão em debate. São Paulo: Educ/IEE/PUCSP, 1999. p. 55-66.
SOUZA, F.C. Biblioteconomia, educação e sociedade. Florianópolis: UFC, 1993.
SOUZA, F.C. Ética e deontologia: textos para profissionais atuantes em bibliotecas. Florianópolis:
UFSC, 2002.
SOUZA, F.C. O nome profissional “bibliotecário” no Brasil: o efeito das mudanças sociais e
econômicas dos últimos anos do século. Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e
Ciência da Informação, Florianópolis, n. 18, p. 90-106, 2004.
SPUDEIT, D.F.A.O. et al. O processo de socialização na construção da identidade dos
bibliotecários em Santa Catarina. 2010. 131f. Dissertação (Mestrado) - Centro de Ciências da
Educação, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Universidade Federal de Santa
Catarina, Florianópolis, 2010.
SPUDEIT, D.F.A.O.; FÜHR, F. Sindicatos de bibliotecários: história e atuação. Transinformação,
Campinas, v. 23, n. 3, p. 235-249, set./dez. 2011.
TENÓRIO, F.G. (Coord.). Gestão social: metodologia e casos. 3. ed. Rio de Janeiro: Fundação
Getúlio Vargas, 2002.
VASCONCELOS, M.L.C.R. Movimento associativo ascenção ou desintegração. Caderno
Brasileiro de Biblioteconomia, v. 1, n. 1, p. 3-5, set. 1980.
WALTER, M.T.M.T. Identidades, valores e mudanças: o poder da identidade profissional. Em
Questão, Porto Alegre, v. 10, n. 2, 2008.
WALTER, M.T.M.T. Bibliotecários do Brasil: representações da profissão. 2008. Tese
(Doutorado em Ciência da Informação) – Escola de Ciência da Informação, Universidade de
Brasília, Brasília, 2008.

�304

À GUISA DE CONCLUSÕES
BIBLIOTECONOMIA SOCIAL: O FUTURO EM PERSPECTIVA

Jorge Santa Anna

1 MAS AFINAL, O QUE É BIBLIOTECONOMIA SOCIAL?

A Biblioteconomia é uma área de conhecimento, porque tem suas origens em tempos
remotos da sociedade e foi se desenvolvendo, ao longo dos períodos históricos, deixando de ser um
fazer técnico para se aperfeiçoar, a partir de métodos cientificamente construídos. Trata-se, como
dizia Shera (1977), de uma construção coletiva, pautada em ações concretas existentes no dia a dia
das instituições e dos profissionais, sem perder, contudo, o aspecto humano, social e
epistemológico, com base em princípios e argumentos teóricos que possibilitam a sua evolução.
Essa área de conhecimento tem um potencial extraordinário para a sociedade, como também
permeia todas as demais áreas do saber humano, uma vez que possibilita a “limpeza”, separando, ou
melhor, organizando o conhecimento produzido e tornando-o passível de ser recuperado. Como
dizia Andrade (1976), é ela que alimpa as escolhas dos estudiosos de toda suja confusão, o que
permite o desenvolvimento das demais áreas científicas, das profissões e da sociedade, em geral.
Com base nesses argumentos, a priori, é possível constatar a dependência da sociedade e do
mundo à Biblioteconomia. Ela sempre esteve presente e acompanha o desenvolvimento
tecnológico, mesmo que se reinventando, tornando-se mais fortalecida, “de cara nova”, sobretudo a
partir da incorporação dos recursos digitais nas práticas de organização, representação e
disseminação do conhecimento.
Trazemos à discussão, nosso ilustre professor Edson Nery da Fonseca (2007), ao proferir
que o significado da palavra, talvez, possa trazer uma concepção pejorativa e que, certamente, não
consegue representar a amplitude das funções e do louvor atribuído à Biblioteconomia, aos
bibliotecários e às bibliotecas. De qualquer forma, o referido teórico salienta que enquanto
existirem

sociedades

humanas,

haverá

bibliotecas,

e

é

de

fundamental

importância

considerar/valorizar o papel da leitura, do leitor e do profissional que proporciona o acesso à
informação.
É certo que o papel inestimável da biblioteca sempre existiu, mas, ao contrário do que
muitos, erroneamente, pensam, é a partir das últimas décadas, em face do crescimento dos

�305

movimentos sociais e dos princípios básicos que regem as sociedades democráticas que as
bibliotecas acabaram se fortalecendo. A tecnologia não inibe a atuação bibliotecária e o poder das
bibliotecas, nem, tampouco de outras instituições de informação e educação. É como salienta Lévy
(1999), é um novo tempo, em que as pessoas interagem de outra forma, por meio dos recursos
digitais, consolidando uma cultura interativa, uma sociedade integrada.
E, é nesse novo tempo, que o poder hegemônico e opressor que, durante séculos, conduziu a
sociedade, torna-se cada vez mais vulnerável, estimulando o desejo de uma sociedade libertadora,
em que os direitos humanos e democráticos ganham destaque, logo, a educação (FREIRE, 1996),
em conjunto com a informação (McGARRY, 1999), tornam-se os recursos mais almejados,
necessários para inibir as desigualdades e garantir o estabelecimento de sistemas sociais menos
opressores e mais pacíficos e libertadores.
A valorização atribuída à informação e à educação, como discorrido pelos teóricos citados,
estimula o desenvolvimento de uma nova sociedade, portanto, de uma nova Biblioteconomia, em
que velhos paradigmas passam a caminhar em paralelo com outros paradigmas. Observa-se a
transformação de uma biblioteca que tem como atividade básica a custódia, para uma unidade de
informação que prioriza o acesso e, mais recentemente, o uso para fins de desenvolvimento humano
e social.
Nessa discussão, é bem-vindo o discurso de Capurro (2003), acerca dos paradigmas que
sustentam a Ciência da Informação, e as proximidades dessa ciência com a Biblioteconomia
permitem garantir, ainda mais, o fortalecimento dessa última, como uma técnica, uma disciplina,
uma ciência, uma área de conhecimento essencial para a sociedade do futuro.
Capurro (2003) considera como principais paradigmas, o físico, o cognitivo e o social. O
primeiro diz respeito aos registros gráficos em que a informação se utiliza para ganhar forma, se
materializar. Nesse aspecto, associemos tal paradigma à formação dos acervos, atividade tradicional
das bibliotecas; o paradigma cognitivo é aquele em que a informação se dinamiza em fluxos e pode
ser recuperada por diferentes usuários, considerando as necessidades de cada um. Assim, os fazeres
bibliotecários que viabilizam o atendimento ao usuário, as estratégias de disseminação e
recuperação da informação podem ser um exemplo da ocorrência desse paradigma; por fim, o
paradigma social é aquele que se relaciona ao uso; ele vai além da materialidade da informação, na
forma documental, e alcança instâncias mais elevadas, em que os usuários agregam valor à
informação, à medida que fazem uso dela em seus contextos de vida. O paradigma social, portanto,
pode ser assimilado às tentativas das bibliotecas em elevar os serviços para além das instituições, de
modo a preocupar-se, não apenas, com a custódia e o acesso, mas o uso da informação, tendo uma
aplicabilidade prática e útil na vida dos indivíduos.

�306

No âmago da Biblioteconomia contemporânea, acreditamos que os paradigmas da Ciência
da Informação são incorporados à Biblioteconomia, não sendo eles excludentes, mas caminham
juntos, formando um conjunto que acaba por caracterizar uma área cada vez mais fortalecida e
diversificada. A Biblioteconomia não é a ciência da custódia, do acesso e nem, tão somente, do uso,
mas, podemos dizer, que, nos tempos atuais, ela contempla esses três aspectos, sendo, portanto, uma
ciência mista, uma ciência híbrida, e, por assim dizer, os profissionais e as unidades de informação
recebem essa mesma pluralidade de funções, sustentados por um paradigma híbrido.
É a partir do desenvolvimento das sociedades democráticas, em favor do exercício da
cidadania, resultado alcançado, sobremaneira, a partir das revoluções do século XIX e XX, tais
como Industrial, Francesa e Tecnológica (BELL, 1974) que assistimos, hoje, uma sociedade em que
somente sobrevive quem se adapta. Com efeito, para essa adaptação, é preciso conjugar o misto de
paradigmas, de modo a atender as diferentes necessidades e anseios da sociedade. No caso da
Biblioteconomia, uma ciência híbrida, que utiliza dos fundamentos teóricos da Ciência da
Informação e da Epistemologia Social (SHERA, 1977), entendemos que seja necessário comungar
dos aspectos físicos, cognitivos e sociais (figura 1).
Figura 1 - Conjugação dos paradigmas físico, cognitivo e social para uma ciência híbrida
FÍSICO:

COGNITIVO:

Acervos

Serviços

informacionais

informacionais

SOCIAL:
Questões e práticas
sociais

BIBLIOTECONOMIA CONTEMPORÂNEA:
bibliotecas e bibliotecários na sociedade
Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

A Biblioteconomia na atual sociedade se apresenta como uma ciência e profissão mista,
plural ou híbrida, em que são conjugados os três principais paradigmas discorridos no âmbito dos
estudos da Ciência da Informação, como defendido na tese de Capurro (2003). Embora essa seja a
realidade, não há como negar as fortes tendências do ambiente tecnológico e a preocupação
premente dos Estados Democráticos com as causas sociais. Por isso, reforçamos os argumentos
propostos por Shera (1977), acerca do fortalecimento de uma área que tem seu espaço de ocupação,
tão somente, para o benefício da sociedade. Logo, nota-se a prevalência de um dos principais
campos inerentes à Biblioteconomia, a Biblioteconomia Social.

�307

A Biblioteconomia Social é a disciplina que se ocupa com as questões que não se limitam ao
ambiente da biblioteca. Podemos dizer que esse campo aproxima, cada vez mais a biblioteca da
sociedade, de modo que os serviços criados, tradicionalmente, para serem oferecidos em uma
unidade, passam a ser oferecidos em outras instâncias e contextos muito além dos muros das
instituições, como ensinado por Almeida Júnior (1997).
A Biblioteconomia Social tem como objetivo as causas, os problemas, as necessidades, as
tendências da sociedade. Ela se manifesta em contextos desinstitucionalizados, ou seja, não se
prende a um único espaço formal institucionalizado, mas torna-se autônoma, capaz de aproveitar
outras possibilidades a serem oferecidas fora do ambiente institucional (LANCASTER, 1983).
As questões e práticas sociais passam a ser o foco dos produtos e serviços bibliotecários.
Eles convergem os espaços sociais em suas múltiplas facetas, por meio de uma biblioteca pública,
democrática e de qualidade, que preza pela cidadania, pelos direitos humanos, pela igualdade social,
pelo respeito às diferenças, que adentra-se à cultura da nação e que conduz os projetos, políticas e
demais ações no âmbito político (ALMEIDA JÚNIOR, 1997).
Colocar-se a serviço das causas sociais tem sido uma das principais preocupações dos
Estados Democráticos. A agenda governamental, seja em âmbito de Brasil ou internacionalmente,
cada vez mais, tem como base a garantia de direitos e deveres, uma luta conjunta das nações em
prol da erradicação da pobreza e fortalecimento da igualdade. Essa tendência vem se aproximando,
também, da Biblioteconomia, sobretudo dos órgãos de classe. A Agenda 2030 da Organização das
Nações Unidas, em conjunto com outras ações que prezam pelo desenvolvimento sustentável das
nações, é a comprovação desse empreendimento por parte da classe bibliotecária.
Portanto, embora tenhamos como base os três paradigmas da Ciência da Informação
(CAPURRO, 2003), cabe afirmar que um desses se sobressai, ou seja, temos um paradigma
emergente (SANTOS, 2000), que é o paradigma social. Por conseguinte, a Biblioteconomia Social é
um campo emergente no decorrer das próximas décadas do século XXI. Além disso, há de se
considerar que o paradigma social é mais abrangente, logo, os demais paradigmas inserem-se ao
paradigma social, visto que os acervos e os serviços informacionais, conforme as necessidades dos
usuários, são elementos do ambiente social.
Em síntese, a Biblioteconomia Social é a disciplina que adentra-se às causas sociais,
considerando como causas sociais todos os elementos do ambiente social e todas as ocorrências da
sociedade. Dentre essas causas, destacam-se, principalmente, os serviços oferecidos que garantam a
consolidação dos princípios democráticos e dos direitos humanos, em busca de uma sociedade mais
justa e igualitária. Portanto, nesse aspecto, a Biblioteconomia Social perpassa diferentes contextos,
em que presenciam-se casos de desigualdades e/ou vulnerabilidades, injustiças, explorações,

�308

conflitos, situações de preconceitos, desrespeitos, ambientes propícios a sentimentos de angústias,
aflição, dentre outras muitas situações em que, por meio do acesso à informação, de alguma forma,
os problemas existentes nesses contextos possam ser solucionados ou minimizados.
Os bibliotecários que comungam da Biblioteconomia Social são aqueles que investem cada
vez mais nas causas sociais, seja por meio da elaboração de projetos que levem informação, cultura,
entretimento e educação a todos os cidadãos, sem qualquer tipo de limitação temporal ou espacial,
como também, sem qualquer tipo de discriminação, respeitando as peculiaridades de cada ser
humano. E essas atividades passam a ser oferecidas em ambientes que extravasam as paredes das
bibliotecas. Ou seja, a Biblioteconomia Social tem uma forte tendência de ir além, de ir ao encontro
dos usuários, de se fazer presente nos espaços sociais, ampliando os horizontes da unidade de
informação.

2 O QUE SE ESPERA DA BIBLIOTECONOMIA NO SÉCULO XXI?

A Biblioteconomia Social é a grande aposta para o século XXI, visto que contempla ou
abarca os demais paradigmas existentes nas unidades de informação da contemporaneidade. Formar
acervos, gerenciar serviços de acesso e garantir o uso desses serviços para fins de disseminação da
informação é a função central (ou deveria ser) de qualquer biblioteca. Portanto, a biblioteca é feita
pela e para a sociedade, devendo se tornar um ambiente cada vez mais democrático, dinâmico,
híbrido e inovador.
Está comprovada a contribuição da informação e da educação para o desenvolvimento da
sociedade. Também estão cada vez mais percebíveis, os esforços das nações em prol da construção
de sociedades mais democráticas e igualitárias, com base na cidadania. Diante dessa necessidade
social, ou melhor, dessa tendência da sociedade contemporânea, presumimos que a Biblioteconomia
Social tende a se fortalecer a cada dia.
Para que esse fortalecimento ocorra, é preciso a união de esforços de todos os envolvidos
com a área, seja os profissionais inseridos em qualquer modalidade de biblioteca, ou atuante em
qualquer tipo de serviço de informação; seja de docentes e pesquisadores; seja de estudantes ou
órgãos de classe, dentre outros agentes. A questão não é achar culpados para os problemas que
permeiam o fortalecimento da área, mas sim, cada um assumir o seu compromisso, em contribuir
para garantir o reconhecimento e valorização por parte da sociedade. Acreditamos que é por meio
do reconhecimento, que o fortalecimento se consolidará.

�309

Além do compromisso em expandir os serviços biblioteconômicos, em mostrar o potencial
da Biblioteconomia, compromisso esse dos envolvidos com a área, é preciso, por outro lado,
despertar a valorização por parte da sociedade, sobretudo dos gestores públicos, haja vista conceder
políticas públicas que garantam o desenvolvimento das bibliotecas e dos serviços informacionais.
Assim, conforme a figura 2, por meio do engajamento por parte dos envolvidos com a área e do
reconhecimento/valorização por parte da sociedade, a Biblioteconomia Social tende a ser
fortalecida.
Figura 2 - Fortalecimento da Biblioteconomia Social: engajamento + valorização

ENGAJAMENTO PROFISSIONAL
Agentes envolvidos com a área

FORTALECIMENTO

BIBLIOTECONOMIA SOCIAL
VALORIZAÇÃO/RECONHECIMENTO
Agentes sociais (empregadores,
gestores públicos etc.)

Melhorias à sociedade

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Conforme esquematizado na figura 2, é possível presumir um futuro esperançoso para a
Biblioteconomia Social. O futuro que se espera, e que, certamente, toda a sociedade quer e precisa,
é um futuro em que a informação - oferecida por meio dos serviços bibliotecários - tenha cada vez
mais utilidade prática na sociedade, e que esses serviços sejam realizados, principalmente, em
contextos onde as pessoas mais precisam.
Para que isso ocorra é preciso atender duas exigências: 1 - que os bibliotecários continuem
extravasando os muros das bibliotecas ao elaborarem serviços que vão além das instituições e que
lutem para demonstrar as potencialidades da área; 2 – que a sociedade, representada por
empregadores e gestores públicos - possa reconhecer o potencial desses serviços e criem/gerenciem
políticas que envolvam os profissionais e que utilizem dos serviços bibliotecários para
desenvolvimento das organizações e, por conseguinte, para o desenvolvimento da própria
sociedade.
No que se refere ao reconhecimento do potencial da Biblioteconomia Social para o futuro, é
esperada a participação cada vez mais intensa do poder privado e, especificamente, do poder
público. Assim, é preciso a oferta de recursos, infraestrutura e condições de trabalho adequadas para
os profissionais. É preciso diversificar os ambientes de atuação, permitindo que os profissionais
sejam inseridos nas diferentes secretarias e órgãos, atuando além das unidades. É preciso envolvê-

�310

los em equipes multiprofissionais, haja vista contribuírem com sugestões inovadoras, garantindo
melhoria contínua ao que é oferecido à população. Enfim, é preciso conhecer melhor e dar o devido
reconhecimento e oportunidade, para que o desejo de uma sociedade mais justa e igualitária possa
ser alcançado.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Biblioteconomia e Sociedade. São Paulo: Polis,
1997.
ANDRADE, Mario. Os filhos da Candinha. São Paulo: Martins, 1976.
BELL, Daniel. O Advento da Sociedade Pós-Industrial. São Paulo: Cultrix, 1974.
CAPURRO, Rafael. Epistemologia e ciência da informação. In: ENCONTRO NACIONAL DE
PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO - ENANCIB, 5., 2003. Belo Horizonte. Anais...
Belo Horizonte: UFMG, 2003.
FONSECA, Edson Nery da. Introdução à Biblioteconomia. 2. ed. Brasília: Briquet de Lemos,
2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz
e Terra, 1996.
LANCASTER, Frederic. A biblioteconomia futura: preparando para uma carreira nãoconvencional. Wilson Library Bulletin, p. 747-753, maio 1983.
LÉVY, Pierre. Cibercultrua. São Paulo: Editora 34, 1999.
MCGARRY, Kevin. O contexto dinâmico da informação: uma análise introdutória. Brasília:
Briquet de Lemos, 1999.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: Contra o desperdício da
experiência. São Paulo: Cortez, 2000.
SHERA, Jesse. Epistemologia social, semântica geral e Biblioteconomia. Ciência da Informação,
Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 9-12, 1977.

�311

EQUIPE
ELABORADORA

DADOS
BIOGRÁFICOS

�312

DADOS BIOGRÁFICOS

Adriana Bogliolo Sirihal Duarte: Professora Associada do
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da
Universidade Federal de Minas Gerais.
E-mail: &lt;bogliolo@eci.ufmg.br&gt;.

Álamo
Chaves
de
Oliveira
Pinheiro:
Bibliotecáriodocumentalista da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG). Especialista em Gestão de Pessoas pelo Serviço
Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). Bacharel em
Biblioteconomia pela UFMG. Cursou disciplinas do Mestrado em
Ciência da Informação e do Mestrado em Gestão e Organização
do Conhecimento da UFMG. Foi Diretor de Informações
Estratégicas da empresa Praxis Softwares Gerenciais. Foi Vicepresidente e Tesoureiro do Conselho Regional de Biblioteconomia
6º Região (CRB-6).
E-mail: &lt;o.arietino@yahoo.com.br&gt;.

Alessandra Soraya Gino Lima: Graduada em Biblioteconomia
pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pós–
Graduação em Biblioteconomia e gestão. Atualmente, é diretora
da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, onde atua no
gerenciamento da organização de acervos bibliográficos,
promoção de atividades culturais de incentivo ao livro e à leitura,
na disseminação da informação e na preservação do patrimônio
bibliográfico relativo a Minas Gerais.
E-mail: &lt;alessandragino@yahoo.com.br&gt;.

Ana Carolina Silva da Cunha: Bibliotecária. Graduada pela
Universidade Federal do Espírito Santo (2018).
E-mail: &lt;anacarolinacunha2003@yahoo.com.br&gt;.

�313

Ana Karisse Valença Silva Azevedo: Graduada pelo Curso de
Biblioteconomia da Universidade Federal de Alagoas (2018). Foi
pesquisadora do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação
Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (PIBIC/CNPq) no Projeto "As relações étnico-raciais na
organização do conhecimento: uma análise no sistema de
Classificação Decimal de Dewey” e monitora da disciplina de
"Representação Temática 1" do Curso de Biblioteconomia.
E-mail: &lt;karisseazevedo@gmail.com&gt;.

Andrea de Paula Brandão Martins: Mestrado Profissional pelo
Centro Universitário UNA BH em Gestão Social Educação e
Desenvolvimento
Local
(2013).
Especialização
em
Gestão
Estratégica da Informação pela Escola de Ciência da Informação
(ECI), na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, 2005).
Graduação em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Minas
Gerais (1998). Bibliotecária documentalista lotada na Universidade
Federal de Minas Gerais – Sistema de Biblioteca Universitária da
Faculdade de Direito.
E-mail: &lt;dedehbrandao@hotmail.com&gt;.

Andreza Gonçalves Barbosa: Bacharela em Biblioteconomia pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre e Doutoranda
em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em
Ciência da Informação ( PPGCI) da Escola de Ciência da Informação
(ECI), na UFMG .
E-mail: &lt;goncalvesandreza@hotmail.com&gt;.

Aurea Regina Guimarães Tomasi: Graduação em Ciências Sociais
pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - Universidade
Federal de Minas Gerais (1979); Pós-Graduação em Ciências Sociais
Aplicadas à Educação - Faculdade de Educação da UFMG (1982);
Mestrado em Ciências da Educação - Université René Descartes ParisV Sorbonne (1994) e Doutorado em Ciências da Educação Université René Descartes Paris, V Sorbonne (2005).
E-mail: &lt;aureagt@gmail.com&gt;.

�314

Claudialyne da Silva Araújo: Doutoranda e Mestra em Ciência da
Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação da Universidade Federal da Paraíba (PPGCI/UFPB).
Docente do curso de Arquivologia da Universidade Estadual da
Paraíba (UEPB). Graduada em Biblioteconomia pela Universidade
Federal da Paraíba.
E-mail: &lt;claudialynearaujo@gmail.com&gt;.

Claudia Barbosa dos Santos de Souza: Bacharel em
Biblioteconomia pela Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro (Unirio). Arquivista, graduada pela Universidade Federal
Fluminense (UFF). Pós-Graduação em MBA Gestão Empresarial e
Sistemas de Informação pela UFF. Atuou como estagiária de
Biblioteconomia: Sesc Departamento Nacional: 03/2017 a 11/2018;
Biblioteca da Alerj: Outubro/2016 a Fevereiro/2017; Biblioteca
jurídica da PGM-RJ: junho a setembro/2016; Biblioteca Central da
Unrio em 2016. Atuou como arquivista, Coordenadora de
Documentação em empresas privadas de médio e grande porte. –
Período:2008 a 2016.
E-mail: &lt;claudia.bs.souza@gmail.com&gt;.

Daniela Spudeit: Professora no curso de Graduação em
Biblioteconomia e no Programa de Pós-Graduação de Gestão da
Informação da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).
É doutoranda e possui Mestrado em Ciência da Informação pela
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialista em
Gestão de Unidades de Informação e em Didática do Ensino
Superior. Possui bacharelado em Biblioteconomia e licenciatura em
Pedagogia.
E-mail: &lt;danielaspudeit@gmail.com&gt;.

Edcleyton Bruno Fernandes da Silva: Doutorando pelo Programa
de Pós-Graduação em Gestão e Organização do Conhecimento da
Universidade Federal de Minas Gerais (PPGGOC-UFMG). Mestre em
Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Informação da Universidade Federal da Paraíba (PPGCI/UFPB).
Graduado em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba.
Membro do Grupo de Pesquisa Informação, Aprendizagem e
Conhecimento (GIACO) do Conselho Nacional de Pesquisa e
Desenvolvimento (CNPq).
E-mail: &lt;biblioebfs@yahoo.com.br&gt;.

�315
Elaine
Meneguci
Gregório:
Bibliotecária,
graduada
pela
Universidade Federal do Espírito Santo (2013). Atuou como estagiária
em unidades de informação e documentação como: recursos humanos
e arquivo do Instituto Federal do Espírito Santo; Biblioteca
universitária - período junho de 2012 a agosto de 2015. Atua em
empresa de Comunicação na área de arquivo e catalogação e
descrição de imagens. Trabalha em consultoria de arquivo jurídico.
E-mail: &lt;ellaine.grego@gmail.com&gt;.

Eni Maria de Souza Pinto Zanetti: Graduada em Biblioteconomia
e Administração. Mestre em Engenharia de Produção. Atuante no
ramo educacional. Compõe o editorial da Revista Atalaia. Professora
e Coordenadora de Curso Técnico, Membro da CPA e Bibliotecária da
Faculdade Castelo Branco.
E-mail: &lt;e.zanetti@oi.com.br&gt;.

Edivanio Duarte de Souza: Doutor em Ciências da Informação
pela Universidade Federal de Minas Gerais (2011). Mestre em
Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (2004).
Graduado em Direito pela Faculdade Estácio de Alagoas (2014) e
em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba (1999).
Professor do Curso de Biblioteconomia e do Programa de PósGraduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de
Alagoas, atuando na linha de pesquisa “Produção, Mediação e
Gestão da Informação".
E-mail: &lt;edivanioduarte@gmail.com&gt;.

Flávia Ferreira Abreu: Possui Graduação em Biblioteconomia pela
Universidade Federal de Minas Gerais (2010). Atualmente, é
mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação/UFMG. Tem experiência na área de Ciência da
Informação, com ênfase em Gestão da Informação, atuando
principalmente nos seguintes temas: leituras compartilhadas,
biblioteca itinerantes, mediação de leituras e em gestão de sistema
da informação.
E-mail: &lt;flaviaabreu2911@gmail.com&gt;.

�316
Gildete Santos Veloso: Graduada em Biblioteconomia pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É servidora da
Secretaria de Estado da Cultura (SEC), desde 1996, onde já
exerceu as funções de coordenadora do Setor Braille e
coordenadora do Serviço de Caixa Estante. Desde agosto de 2011,
ocupa o cargo de Diretora de Extensão e Ação Regionalizada
(DEAR) na Superintendência de Bibliotecas Públicas e Suplemento
Literário (SUBSL).
E-mail: &lt;dear.sub@cultura.mg.gov.br&gt;.

Gleice Pereira: Doutora em Ciências da Informação pela
Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Tecnologia
Educacional pela Universidad de Salamanca (1993). Especialista em
Documentação e Informação pela Universidade Federal do Espírito
Santo (1990) e bacharel em Biblioteconomia pela Universidade
Federal do Espírito Santo (1989). Atualmente, é professora
assistente do Departamento de Biblioteconomia da Universidade
Federal do Espírito Santo.
E-mail: &lt;gleicepereira@gmail.com&gt;.

Helba
Aparecida
Borges:
Bibliotecária,
graduada
pela
Universidade Federal do Espírito Santo. Tem experiências nas
áreas de Bibliotecas Públicas e Escolares, com participação em
projetos sociais.
E-mail: &lt;helba@yahoo.com.br&gt;.

E-mail: paularenatamariano@gmail.com

Igor de Souza Bento: Bibliotecário, graduado pela Universidade
Federal do Espírito Santo (2018).
E-mail: &lt;igorsouzabento@gmail.com&gt;.

�Jorge Santa Anna: Graduado em Biblioteconomia. Atua no ramo
da prestação de serviços informacionais, ministrando aulas de
Metodologia
Científica,
Normalização
Bibliográfica
e
Estruturação/Revisão de textos acadêmico-científicos, além de
orientações e consultorias diversas na área da Ciência da
Informação e Pesquisa e Estudos Acadêmicos. É membro do
comitê editorial e assessor do Periódico Pró-Discente, do Programa
de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do
Espírito Santo (UFES).
E-mail: &lt;professorjorgeufes@gmail.com&gt;.

Karla Karinne Alcoforado Pinho Costa: Graduada em
Biblioteconomia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
Especialista em Gestão de Bibliotecas Escolares pela Faculdade
Católica de Fortaleza/Acesso Educacional. Atualmente, atua como
Bibliotecária do Colégio Ari de Sá Cavalcante em Fortaleza.
E-mail: &lt;karlakarinne@aridesa.com.br&gt;.

Laiana Ferreira de Sousa: Graduada em Biblioteconomia pela
Universidade Federal do Ceará (UFC). Doutoranda em Ciência da
Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestra
em Ciência da Informação pela UFPB. Especialista em Educação à
Distância pela UFC. Especialista em Teorias da Comunicação e
Imagem pela UFC. Atualmente, atua como Supervisora Pedagógica
e de Monitoramento e Avaliação do Núcleo de Tecnologias e
Educação a Distância em Saúde da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal do Ceará (NUTEDS/FAMED/UFC). Professora
de Pós-Graduação nas áreas de Gestão Estratégica e Unidades de
Informação e Gestão em Bibliotecas Públicas e Escolares.
E-mail: &lt;laiana_ffsousa@hotmail.com&gt;.

Maria Aparecida de Mesquita Calmon: Graduada em
Biblioteconomia pela Universidade Federal do Espírito Santo
(UFES). Pós-Graduação em Biblioteca Escolar. Graduanda em
Arquivologia pela UFES.
E-mail: &lt;macalmom@hotmail.com&gt;.

317

�318

Maria de Lourdes Franklin Maia: Bibliotecária, graduada pela
Universidade Federal do Espírito Santo. Tem experiências nas áreas
de Bibliotecas Públicas e Escolares, com participação em projetos
sociais.
E-mail: &lt;lourdesfranklim@gmail.com&gt;.

E-mail: paularenatamariano@gmail.com

Maria do Socorro Soares Rodrigues: Graduada em
Biblioteconomia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
Especialista em Gestão de Bibliotecas Públicas e Escolares pela
Universidade
Católica
de
Fortaleza/Acesso
Educacional.
Atualmente, é Bibliotecária da Universidade Estadual do Ceará –
Centro de Humanidades – Campus Fátima.
E-mail: &lt;msoares425@gmail.com&gt;.

Maria Elizabeth de Oliveira Costa: Bibliotecária do Sistema de
Bibliotecas da Universidade Federal de Minas Geria (UFMG). Possui
Mestrado em Tecnologia e Gestão em Educação a Distância pela
Universidade Federal Rural de Pernambuco. Doutoranda do
Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do
Conhecimento, na Escola de Ciência da Informação da UFMG.
Presidente da Associação dos Bibliotecários de Minas Gerais.
Exerceu o cargo de diretora do Sistema de Bibliotecas da UFMG, no
período 2006-2013. Atua principalmente em áreas temáticas que
abrangem as seguintes questões: Bibliotecas Universitárias Gestão de Pessoas, Gestão em Unidade de Informação, Biblioteca
Digital, Competência Informacional, Extensão Universitária e
Ensino a Distância.
E-mail: &lt;mabethcosta@gmail.com&gt;.

Paula Renata Mariano: Bacharel em Biblioteconomia pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em
Gestão Pública e em Gestão de Projetos Sociais. Atua há 14 anos
em biblioteca pública, elaborando e coordenando projetos
culturais, sociais e de inclusão, através do incentivo à leitura,
promovendo a democratização do acesso à informação.
E-mail: &lt;paularenatamariano@gmail.com&gt;.

E-mail: paularenatamariano@gmail.com

�319

Rafael Ribeiro Rocha: Aluno do 4º período do curso de
Biblioteconomia da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG). Possui Graduação em Comunicação Social – Habilitação
em Jornalismo pelo Centro Universitário Estácio de Sá de Belo
Horizonte (2012). Trabalhou como estagiário na Biblioteca do
Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais –
Campus I. Atualmente, exerce o cargo de estagiário na
Gerência-Geral de Documentação e Informação (GDI) da
Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
E-mail: &lt;ribrocc18@gmail.com&gt;.

Sara Suyane de Sousa Rodrigues: Graduada em
Biblioteconomia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
Graduanda em Letras Português pela UFC/Universidade Aberta
do Brasil (UAB). Especialista em Gestão de Bibliotecas Públicas
e Escolares pela Faculdade Católica de Fortaleza/Acesso
Educacional. Atualmente, atua como bibliotecária escolar no
Colégio Santo Inácio em Fortaleza.
E-mail: &lt;sarasuyane.00@gmail.com&gt;.

Suelen de Oliveira Campos: Arquivista/Bibliotecária.
Complementação Pedagógica em História. Especialista em
Gerenciamento de Projetos/ História e Tecnologia em
Informática na Educação.
E-mail: &lt;suelenoc@gmail.com&gt;.

Taciane Gomes Rodrigues: Bibliotecária, graduada pela
Universidade Federal de Minas Gerais. Pós-Graduação em
Gestão Estratégica da Informação. Atuou como estagiária em
unidades de Informação e documentação como: Arquivo do
Departamento De Pessoal/UFMG, 2009 a 2010; Biblioteca
Universitária UFMG – período outubro 2010 a março 2011;
Assembleia Legislativa de Minas Gerais no período de
fevereiro 2011 a dezembro de 2011. Trabalhou como
bibliotecária documentalista em Empresas como: Manabi S/A
e Construtora Andrade Gutierrez. Trabalha com Normalização
documentária.
E-mail: &lt;tacianegomees@gmail.com&gt;.

�320

Tatiana Soares Brandão: Graduada em Biblioteconomia e
Letras (UFMG). Especialista em Gestão de Projetos Sociais.
Atua na Biblioteca Pública da cidade de Lagoa Santa - MG,
onde cresceu e reside. Elabora e coordena projetos culturais,
sociais e de inclusão, através do incentivo à leitura,
fomentando a democratização do acesso à informação.
E-mail: &lt;tatianasb10@gmail.com&gt;.

E-mail: tatianasb10@gmail.com
Valéria Rodrigues de Oliveira Pozzatti: Mestre em
Biblioteconomia pela Universidade Federal do Estado do Rio
de Janeiro (UniRio, 2016). Graduada em Biblioteconomia
pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES, 2001).
Especialização em Educação a Distância pela Universidade
Católica de Brasília (2006). Atualmente, é coordenadora da
biblioteca do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Espírito Santo (IFES), Campus de Vila Velha.
E-mail: &lt;valeriapozzatti@gmail.com&gt;.

�321

Esta é uma obra editada pela:

ABMG

Rua dos Guajajaras, 410, Centro - Belo Horizonte, MG - CEP: 30180-912. Edifício
Rotary, Sala 608

Como referenciar esta coletânea no todo:
SANTA ANNA, Jorge; SILVA, Edcleyton Bruno Fernandes da; COSTA, Maria
Elizabeth de Oliveira da (Org.). Biblioteconomia Social: possíveis caminhos para
construção da cidadania. Belo Horizonte: ABMG, 2018. 320 p.

�322

�</text>
                </elementText>
              </elementTextContainer>
            </element>
          </elementContainer>
        </elementSet>
      </elementSetContainer>
    </file>
  </fileContainer>
  <collection collectionId="41">
    <elementSetContainer>
      <elementSet elementSetId="1">
        <name>Dublin Core</name>
        <description>The Dublin Core metadata element set is common to all Omeka records, including items, files, and collections. For more information see, http://dublincore.org/documents/dces/.</description>
        <elementContainer>
          <element elementId="50">
            <name>Title</name>
            <description>A name given to the resource</description>
            <elementTextContainer>
              <elementText elementTextId="50728">
                <text>ABMG - Associação dos Bibliotecários de Minas Gerais</text>
              </elementText>
            </elementTextContainer>
          </element>
          <element elementId="49">
            <name>Subject</name>
            <description>The topic of the resource</description>
            <elementTextContainer>
              <elementText elementTextId="50729">
                <text>A ABMG tem como principal missão congregar bibliotecários, instituições e pessoas interessadas em Biblioteconomia, Ciência da Informação e áreas afins. Defender os interesses e apoiar as reivindicações dos associados. Representar os associados junto aos órgãos da classe nacionais e internacionais, aos órgãos públicos e privados e incentivar o aprimoramento da profissão e o desenvolvimento cultural  através de cursos, congressos, seminários, palestras e outros.meuip.co</text>
              </elementText>
            </elementTextContainer>
          </element>
        </elementContainer>
      </elementSet>
    </elementSetContainer>
  </collection>
  <itemType itemTypeId="1">
    <name>Text</name>
    <description>A resource consisting primarily of words for reading. Examples include books, letters, dissertations, poems, newspapers, articles, archives of mailing lists. Note that facsimiles or images of texts are still of the genre Text.</description>
  </itemType>
  <elementSetContainer>
    <elementSet elementSetId="1">
      <name>Dublin Core</name>
      <description>The Dublin Core metadata element set is common to all Omeka records, including items, files, and collections. For more information see, http://dublincore.org/documents/dces/.</description>
      <elementContainer>
        <element elementId="50">
          <name>Title</name>
          <description>A name given to the resource</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51204">
              <text>Biblioteconomia social: possíveis caminhos para construção da cidadania</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="39">
          <name>Creator</name>
          <description>An entity primarily responsible for making the resource</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51205">
              <text>Jorge Santa Anna</text>
            </elementText>
            <elementText elementTextId="51206">
              <text>Edcleyton Bruno Fernandes da Silva</text>
            </elementText>
            <elementText elementTextId="51207">
              <text>Maria Elizabeth de Oliveira Costa</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="37">
          <name>Contributor</name>
          <description>An entity responsible for making contributions to the resource</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51208">
              <text>ABMG</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="38">
          <name>Coverage</name>
          <description>The spatial or temporal topic of the resource, the spatial applicability of the resource, or the jurisdiction under which the resource is relevant</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51209">
              <text>Belo Horizonte (Minas Gerais)</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="45">
          <name>Publisher</name>
          <description>An entity responsible for making the resource available</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51210">
              <text>ABMG Editora</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="40">
          <name>Date</name>
          <description>A point or period of time associated with an event in the lifecycle of the resource</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51211">
              <text>2018</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="43">
          <name>Identifier</name>
          <description>An unambiguous reference to the resource within a given context</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51213">
              <text>978-85-85259-01-3</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="51">
          <name>Type</name>
          <description>The nature or genre of the resource</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51214">
              <text>Texto</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="49">
          <name>Subject</name>
          <description>The topic of the resource</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51215">
              <text>Biblioteconomia Social</text>
            </elementText>
            <elementText elementTextId="51216">
              <text>Cidadania</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="41">
          <name>Description</name>
          <description>An account of the resource</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51217">
              <text>O livro está dividido em quatro partes e subdivido em vinte capítulos, abordando temas ligados à Biblioteconomia Social e à utilização da leitura, como meio transformador nos diferentes espaços físicos e contextos da sociedade, objetivando a democratização do acesso à informação como forma de conscientizar o cidadão, visando minimizar as desigualdades sociais</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="48">
          <name>Source</name>
          <description>A related resource from which the described resource is derived</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="51218">
              <text>Livro</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
        <element elementId="44">
          <name>Language</name>
          <description>A language of the resource</description>
          <elementTextContainer>
            <elementText elementTextId="68107">
              <text>pt</text>
            </elementText>
          </elementTextContainer>
        </element>
      </elementContainer>
    </elementSet>
  </elementSetContainer>
  <tagContainer>
    <tag tagId="26">
      <name>ABMG</name>
    </tag>
    <tag tagId="27">
      <name>Livros</name>
    </tag>
  </tagContainer>
</item>
