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                  <text>5.2

POLÍTICAS PARA PRESERVAÇÃO DE ACERVOS DE BIBLIOTECAS:
SELEÇÃO DE ÍTENS E MÉTODOS
Marta S. R. do Val*
Sandra B. Lane**

RESUMO

O trabalho focaliza meios e opções de tratamento de materiais em deterioração.
Trata, primariamente, as políticas de seleção de ítens e opções de reprodução ou
conservação.
1 INTRODUÇÃO

O termo “preservação” tem sido usado desde 1980, nos EUA e na Europa,
com significado globalizante de programas de preservação defensiva, que incluem:
definições de normas e procedimentos para a construção de bibliotecas,
planejamento físico de interiores (mobiliário adequado), controle ambiental,
acondicionamento de materiais frágeis, segurança contra furtos (SILVA e LANE,
1990), prevenção de acidentes, etc.; e programas de preservação retrospectiva, que
incluem:

conservação

(higienização,

esterilização,

desacidificação,

reparos,

restauração e encadernação) e reprodução (cópias e transferência de formatos).
Esse

*

Bibliotecária da Coleção de Obras Raras do Serviço de Coleções Especiais da Biblioteca Central da
UNICAMP.
**
Bibliotecária responsável pela Coleção de Obras Raras do Serviço de Coleções Especiais da
Biblioteca Central da UNICAMP.

�5.2

termo não deve ser confundido com conversão retrospectiva, que é utilizado na
catalogação em rede (ZANAGA, 1994).
Para se estabelecer uma política de preservação de acervos de bibliotecas é
necessário responder a questões relevantes como: o que deve ser preservado?
Quais os métodos que serão utilizados? Quais os recursos humanos e financeiros?
Como dividir o esforço em serviços cooperativos com outras instituições?
Um programa de preservação, dentro de uma instituição, deve incluir um
processo de identificação de itens a serem preservados, e seleção dos métodos
mais adequados a esses itens. Segundo BOOMGAARDEN (1987), como muitas
instituições possuem recursos limitados, destinados à preservação, esse processo
de seleção é mais um conjunto de decisões sobre o que deve ser preservado ou
não.

2 OPÇÕES PARA A SELEÇÃO DE ÍTENS

Em

geral, a seleção de ítens para a preservação em uma biblioteca

universitária é uma tarefa importante, porém difícil de realizar. Decidir o que fazer
com um item deteriorado ou em processo de deterioração não é simples, pois é
preciso conhecer o item, avaliá-lo como um bem cultural ou intelectual, sua história
bibliográfica, sua disponibilidade de compra ou empréstimo, o seu valor físico. Além
desses aspectos, é importante conhecer os métodos disponíveis de preservação,
como preservação do original através de reparos, encadernação, desacidificação,
ou transferência de conteúdo através de microfilmagem, de fotocópias ou imagem

�5.2

digitalizada. Somando-se aos aspectos técnicos acima mencionados, é preciso
considerar os recursos disponíveis pela biblioteca e o custo final correspondente.
As decisões a serem tomadas baseiam-se em questões como: condição atual
do item (mutilado, dobrado, rasgado, com partes faltantes ou soltas, papel frágil ou
quebradiço, margens muito estreitas para encadernação, texto apagado, etc.), uso
e idade do material, duplicatas, outras edições, possibilidades de empréstimo de
outro departamento, particularidades da edição (prefácio, ilustrações) ou do
exemplar (dedicatória, anotações, encadernação, ex-libris) são condições que
devem ser observadas. Também o valor do conteúdo, a importância do autor e sua
contribuição dentro de determinada área, a condição do item dentro da coleção. Por
exemplo, uma edição aparentemente sem importância pode ser de grande valor em
uma coleção exaustiva de uma determinada pessoa ou autor, ou numa coleção
especial, considerado o valor da coleção em nível local e nacional, para a pesquisa
e o currículo da instituição a que pertence, ou para os projetos cooperativos. Ou a
preservação de todas edições pode ser exigida em pesquisas literárias, em outro
exemplo (HENDERSON e HENDERSON, l995).

3 ROTINAS PARA A SELEÇÃO DE ÍTENS

A seleção do material para preservação deve se basear no levantamento dos
problemas de preservação por coleções

ou amostras do acervo geral. Esse

levantamento pode trazer resultados satisfatórios se realizado através de processos
de investigação bem definidos. Por exemplo, numa coleção contendo impressos
publicados a partir de 1870 até 1930, a amostragem é dispensável, porque essa

�5.2

época é conhecida como a era do papel fraco (doente). Uma amostra, nesse caso,
só irá confirmar o que já foi detectado, isso é, são materiais com papel quebradiço e
precisam de conversão para um novo formato.
A rotina da seleção de ítens inclui pesquisa bibliográfica, como autor, tradutor,
raridade e detalhes de outras cópias, ou outras edições na língua original do item.
Ao formulário de pesquisa deve ser acrescentada a informação de existência de
reproduções (em papel, microformas ou digital). Essa seqüência vai orientar o
bibliotecário quanto à política da biblioteca pela preferência de um certo formato,
para substituir um item (BOOMGAARDEN, l987).
A pesquisa bibliográfica pode ser agilizada se houver uma política de
pesquisa de acordo com a categoria e as prioridades de substituição.

3.1 PRESERVAÇÃO DO TEXTO

A reprodução de textos passa a ser necessária quando o item não pode ser
manuseado, sem que seja danificado, devido à acidez do papel e porque não está
acessível comercialmente, em qualquer formato. Quando o item possui valor de
artefato, uma encadernação de época, uma ilustração rara, uma edição especial, a
sua reprodução é recomendada desde que o método escolhido não danifique o
original.
Certos materiais são por natureza candidatos à conversão e correm perigo se
não receberem um tratamento diferenciado. A maioria das instituições com
experiência em conversão concentram sua atenção nas seguintes categorias:
folhetos e monografias publicados após meados do século XIX, devido à baixa

�5.2

qualidade do papel (LANE, 1994). Também jornais e periódicos, material estatístico,
cartas e manuscritos, atlas e mapas, relatórios governamentais, e reproduções de
formatos antigos e/ou de pouca durabilidade como estênceis, mimeografias,
termofax, etc. (BOOMGAARDEN, l987).
Essa parte do programa pode ser simplificada quando os materiais são
separados por categoria, ou que tenham as mesmas características.
A fotocópia em papel permanente tem bastante durabilidade e pode substituir
o original no manuseio. Os papéis permanentes são neutros, ou tem uma pequena
reserva alcalina, e são fabricados em fibra de madeira, como os papéis antigos. Os
equipamentos para fotocopiar para preservação são apropriados para prover
permanência da gravação e a tinta usada é neutra (LANE e VAL, 1996).
Uma ênfase maior foi dada até hoje ao processo de microfilmagem, pois esse
meio de conversão oferece a vantagem do filme ter uma vida útil elevada, o que
ainda não foi comprovado pelos novos meios eletrônicos, por isso é bem aceito
como um método para preservar documentos. Os documentos preservados em
microformas podem ser convertidos ao formato digital.
A tecnologia digital é um método alternativo que tem as facilidades de
armazenagem em massa, transferência da informação pelas redes entre pontos
geograficamente distantes e acesso fácil do pesquisador.
Materiais não apropriados à microfilmagem são aqueles materiais contendo
ilustrações coloridas, materiais frágeis que poderão ser danificados durante o
processo, materiais desbotados ou com contraste pobre. No entanto, esse material
pode ser digitalizado sem perdas, se o processo for compatível com a qualidade do

�5.2

original e com o que se deseja preservar como valor. Por exemplo, para ítens com
ilustrações e cores, deve ser usado um processo de resolução superior ao
empregado quando se deseja preservar um texto simples.
A razão mais aceitável para a conversão de um item, como uma opção de
preservação, é a captura do conteúdo informacional do material danificado.
A condição bibliográfica é parte da qualidade total de um item, assim, livros e
periódicos devem estar completos antes da conversão ou reprodução.
O depósito legal de direitos autorais é um elemento necessário aos
programas de conversão. A possibilidade de realizar cópias para preservação deve
estar prevista em lei, mas condicionada a fatores como idade do material, seus
formatos e motivos para copiar, como repor cópias roubadas, perdidas ou
danificadas. Os diferentes processos (fotocópias, microfilmes e conversão
eletrônica) podem apresentar questões legais específicas.

3.2 PRESERVAÇÃO DO FORMATO ORIGINAL

Uma orientação elaborada pela pessoa ou equipe responsável pela
preservação, isso é, um guia, deve ser acessível

a todos os funcionários da

biblioteca, auxiliando nas decisões de retenção de itens para preservação. Esse
guia deve indicar as opções de preservação dentro da biblioteca, suas vantagens e
desvantagens. No caso do original retido, ele pode passar por pequenos reparos
(conserto de lombadas, costuras, remendos), desde que não apresente perda de
resistência do papel. É uma opção econômica. A reencadernação, também de baixo

�5.2

custo, não é indicada para livros e papéis extremamente frágeis, quando se
recomenda acondicionadores como caixas e invólucros. A proteção é um método de
preservação temporário, que não impede a deterioração do item em estado
avançado de deterioração.
O tratamento completo de conservação é caro, só pode ser feito por
restauradores, e deve ser deixado para ítens muito valiosos, com problemas de
preservação.
Para ítens de uma única folha (mapas, gravuras,

documentos) a

encapsulação de poliéster é um método que oferece proteção estável, quando
precedido de um processo de desacidificação. A desacidificação é um método
especializado, portanto caro, e o poliéster pode ter um custo significativo para a
biblioteca.
A desacidificação em massa é uma opção que assegura o formato original, a
um custo mais baixo do que feito individualmente, enquanto estabiliza grande
quantidade de materiais (LANE e VAL, 1996).
A preservação através de ambiente climatizado também preserva o formato
original e reduz o grau de deterioração, mas não impede a degradação de um item
com a estrutura já comprometida. Essa opção exige equipamentos adequados para
manter a temperatura baixa, a umidade relativa do ar moderada, a luminosidade
adequada e a purificação do ar.

�5.2

4 DESCARTE OU SUBSTITUIÇÃO DO ORIGINAL

A biblioteca pode adquirir um exemplar igual ao item deteriorado, desde que
não seja um material raro ou escasso no comércio. A substituição de um item pelo
material disponível comercialmente em outros formatos (microformas, videodiscos,
CDs, meios magnéticos, etc.) tem baixo custo e economiza espaço. É
especialmente indicada quando existem no comércio microfilmes de títulos de
periódicos em vários volumes. A microforma, por sua vez, exige uma recatalogação,
equipamentos para leitura e cópia.
O descarte de um item pode indicar a falta de valor da coleção a que se
insere; ao mesmo, tempo essa decisão de não preservar pode significar uma
reserva de fundos para que outros itens possam ser preservados.
Conservar o item na estante e não tomar nenhuma medida, no sentido de
preservar, é uma outra opção, desde que seja tomada conscientemente e exista um
plano de prioridades para os itens mais importantes das coleções. Essa opção,
assim como o descarte, resultará, eventualmente, na perda gradual da coleção.
Segundo BOOMGAARDEN (l987), “as decisões na área de preservação são
diretamente relacionadas com o serviço de desenvolvimento de coleções e com as
políticas de aquisição, seguindo as regras formais ou os acordos e entendimentos
que norteiam as práticas de desenvolvimento das coleções”.

�5.2

5 O BIBLIOTECÁRIO DE PRESERVAÇÃO

O bibliotecário responsável pelos programas de preservação, dentro de uma
instituição, deve administrar as rotinas da área de preservação, através de opções
de tratamento adequado aos diversos tipos de materiais, bem como a relação entre
o seu custo e benefício. Deve consultar especialistas de áreas que possam indicar
o que vale ser preservado dentro de determinada coleção, como também revisão de
títulos candidatos à preservação retrospectiva, ou no preparo de listas de títulos
importantes nas suas áreas de atuação. Se considerar a possibilidade de preservar
os textos e ilustrações através de imagens digitalizadas deverá trabalhar com
especialistas em bancos de dados e fotógrafos (ROOSA, 1996, informação verbal).
Deve ser assistido tecnicamente pelo restaurador, sobre possibilidades de
tratamento e custos, para itens valiosos, como pelo encadernador e outros técnicos
dentro de suas áreas de especialização.

6 CONCLUSÃO

A decisão do que preservar, a seleção dos ítens à conversão de formatos, a
retenção ou não dos originais, e métodos utilizados na preservação dos materiais
são os passos iniciais na adoção de uma política de preservação dentro de uma
instituição. Outras rotinas serão estabelecidas a partir das iniciais. Na retenção dos
originais, programas de preservação defensiva e conservação. Na preservação
retrospectiva, programas de reprodução de ítens como fotocópias em papel

�5.2

permanente, microfilmagem ou escaneamento, revertem para rotinas distintas. Mas
qualquer programa de reprodução deve obter permissão de autores ou proprietários
de obras e buscar em outras instituições a complementação do seu acervo
(OHNEMUS,

1995).

Qualquer

programa

de

preservação

deve

buscar

patrocinadores públicos ou privados e colaborar com outras instituições em serviços
cooperativos.

ABSTRACT
This paper considers various ways of dealing with material in bad condition,
focussing mainly on policies for selection of items and the choice between
reproduction and conservation.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 BOOMGAARDEN, Wesley L. Selection of materials for microfilming. In:
GWINN, Nancy E. (Ed.). Preservation microfilming. Chicago: ALA, 1987.
2 HENDERSON, Kathryn L., HENDERSON, William T. Preservation of library
materials: course syllabus (LIS447). Illinois: UIUC:GSLIS, 1995.
3 LANE, Sandra S. Programa nacional de preservação de livros do século XIX:
uma necessidade. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE BIBLIOTECAS
UNIVERSITÁRIAS, 8., CAMPINAS, 1994. Anais... Campinas : UNICAMP,
1994.
4 _____. , VAL, Marta R. S. Ribeiro do. Preservação de acervos de bibliotecas:
parte I - degradação dos materiais. In: Ensaios APB, São Paulo, n.26, jan.
1996.
5 _____. Preservação de acervos de bibliotecas: parte II - um modelo de programa
local. In: Ensaios APB, São Paulo, n.27, fev. 1996.
6 OHNEMUS, Edward. What do digital library employes do all day, anyway?
Gazette Library of Congress, Washington, v. 6, n. 15, April 14, 1995.

The

7 ROOSA, Mark S. The Marston Project. [Presentation]. São Paulo : USP, 1996.
8 SILVA, Sonia T. D. G. , LANE, Sandra S. Uma política de preservação para
livros

�5.2

raros em bibliotecas universitárias. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS, 6., 1990, Belém. Anais... Belém, PA, 1990.
9 ZANAGA, Mariangela Pisoni. Conversão retrospectiva e cooperação no
processamento técnico de materiais bibliográficos: experiência do Sistema
de Bibliotecas da UNICAMP. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE BIBLIOTECAS
UNIVERSITÁRIAS, 8. , 1994, Campinas. Anais... Campinas: UNICAMP,1994.

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