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                  <text>CATALOGO RAGIONATO DEI LIBRI D’ARTE E D’ANTICHITÀ:
marco fundamental da bibliografia sobre história da arte (séculos XIV-XIX) Biblioteca CICOGNARA, Biblioteca Central Cesar Lattes, UNICAMP

Joana D’Arc S. Pereira
Especialista em Planejamento e Administração de Sistemas de Informação
Biblioteca Central Cesar Lattes
Diretoria de Coleções Especiais /Obras Raras,
UNICAMP, Campinas, São Paulo, Brasil
joanads@unicamp.br
RESUMO
Este trabalho analisa o processo de construção do catálogo analítico: Catalogo ragionato
dei libri d’arte e d’antichità, do conde italiano Francesco Leopoldo Cicognara (1767-1834),
onde estão reunidas informações de aproximadamente cinco mil obras de sua biblioteca
particular, dos séculos XVI a XIX. Desde 1824 esta coleção faz parte do patrimônio da
Biblioteca Vaticana, sendo que, em 1989, passou por um processo de microfilmagem
(quarenta mil microfichas) pela University of Illinois at Urbana-Champaign (EUA). No
Catalogo ragionato Leopoldo Cicognara insere o elenco de publicações e comentários
sobre textos que vão desde tratados sobre arquitetura, pintura e esculturas, até guias de
arte, guias artísticos de cidades, de museus, pranchas de desenhos para aulas de arte,
textos teóricos sobre música e artes plásticas, contendo ainda comentários sobre
numismática e estética. O traçado metodológico do Catalogo ragionato, objeto deste
estudo, é investigado nos seguintes itens: idade da coleção, língua das obras, tipologia
dos documentos, traduções dos livros, sumário, índice e prefácio do autor. O Catalogo
apresenta uma organização temática segundo um modelo intelectual onde são
destacados os aspectos relevantes sobre as artes e suas relações com o conjunto das
Humanidades, ocupando um lugar de destaque e influência na historiografia artística
mundial.
Palavras-chave: Historiografia, Bibliografia

INTRODUÇÃO
“A arte de colecionar livros certamente nasceu com o livro, na
antiga Suméria. Na Roma Imperial, com suas inúmeras oficinas de
copistas, particulares e de livreiros, Sêneca investe contra aqueles
que juntam rolos de papiro e pergaminho, que em toda a sua vida
não conseguirão ler. Na baixa Idade Média chega a extremo
refinamento a arte dos copistas e ilustradores. Richard de Bury
escreve Philobiblon, onde fala de sua coleção, oferecendo os
primeiros rudimentos da bibliofilia. Petrarca é o ”pai da bibliofilia
moderna”. MARTINS (2002)

1

�O século XIX assiste o auge do colecionismo de livros. Em toda a Europa
cresce a paixão colecionadora. Nos leilões os livros são “disputados a peso de
ouro”. Criam-se clubes, “uma espécie de confraria de grã-finos, unidos pelo
mesmo culto quase religioso pelos livros antigos e raros”. Os proprietários de
bibliotecas consideravam-nas verdadeiros tesouros e as tratavam com o maior
cuidado. O valor de um livro era, para um homem de saber, simultaneamente
simbólico e material. Cuidadosamente conservados dentro de um cofre ou
armário, os livros proclamavam a ciência de seu proprietário, representava uma
forma de entesouramento, um capital tanto intelectual quanto financeiro.

Se na Idade Média existia o problema da carência de livros, no século XVI a
questão era o excesso. Antonfrancesco Doni, escritor italiano, em 1550 já se
queixava da existência de “tantos livros que não temos tempo para sequer ler os
títulos”. Livros eram uma “floresta” na qual os leitores poderiam se perder, como
diz Basnage em CAVALLO &amp; CHARTIER (1999). Jean Calvin em BURKE (2003)
afirma “...eram um oceano pelo qual os leitores tinham de navegar, ou uma
inundação de material impresso em meio a qual era difícil não se afogar”.
Estas questões foram parcialmente resolvidas com o surgimento das
bibliografias. Em FERREIRA (2001) encontram-se as seguintes definições para o
vocábulo:1- Ciência que trata da história, descrição e classificação dos livros,
considerados como objetos físicos; Inventário metódico dos livros; 2- Seção de
uma publicação periódica destinada ao registro das publicações recentes.

É

ressaltado por FIGUEIREDO (1969) que “no sentido largo da palavra, a
bibliografia tem tido, sempre, por finalidade, a transcrição dos títulos dos livros,
segundo a significação etimológica do termo: biblio= livros e graphein= descrever
(do grego).” É da época da Revolução Francesa a primeira definição de
bibliografia, talvez não formulada explicitamente, mas admitida implicitamente:
conhecimento do livro sob todos os seus aspectos.

2

�As primeiras bibliografias impressas foram especializadas, dedicadas a
livros sobre um único assunto. Entretanto, podem ser consideradas internacionais
pelo fato de mencionarem livros de todas as procedências, sendo a maioria em
latim. O primeiro repertório de caráter geral foi a obra de Conrad Gessner,
naturalista e filósofo de Urich, “Bibliotheca universalis”, cuja publicação constitui o
fato mais importante da bibliografia no século XVI.
Às bibliografias logo se juntaram estantes de outros livros de referência.
Tinham títulos tais como “castelo”, “compêndio”, “corpus”, “catálogo”, “floresta”,
“inventário”, biblioteca”, “espelho”, “repertório”, “teatro” ou “tesouro”, e ofereciam
informações sobre palavras (dicionários), pessoas (dicionários biográficos),
lugares

(dicionários

geográficos

e

atlas),

datas

(cronologias)

e

coisas

(enciclopédias). Havia também coleções de muitos volumes de textos sobre
tópicos específicos — leis, tratados, crônicas, decisões de concílios da Igreja,
descrições de lugares exóticos feitas por viajantes etc. Em 1758 apareceu até um
dicionário de dicionários, publicado em Paris e ridicularizado pelo literato alemão
exilado Melchior Grimm (1723-1807), mas que mesmo assim satisfazia a uma
necessidade real, era o livro: Table alphabéthique des dictionnaires de Durey de
Noinville (1683-1768).
Em 1810, a bibliografia começou morosamente a trilhar seu caminho. Os
livreiros já tinham uma visão mais definida sobre a importância e necessidade de
investimento nas bibliografias. Nessa fase da história da bibliografia, um livreiro
pariense, Charles-Jacques Brunet publicou um repertório clássico no gênero: o
Manuel du libraire et de l’amateur des livres, em 1810. O forte movimento científico
do século XIX transformou sensivelmente as condições da atividade intelectual. A
conquista de novos países, a evolução da educação pública, a criação de notáveis
escolas, a fundação de sociedades eruditas e o aparecimento das bibliotecas
abertas ao público, todos estes são fatores que provocaram o crescimento da
quantidade de obras impressas. Desde então a bibliografia adquiriu considerável
autoridade, revelando-se inestimável instrumento de propagação. Entre 1820 e

3

�1899, apareceram, na Europa, inúmeras bibliografias especializadas em todos os
campos da ciência, atividade que prosseguiu, embora pouco sistematicamente,
até 1914.

Exatamente neste período, na Itália, o Conde Francesco Leopoldo

Cicognara lançou, em 1821, o Catalogo ragionato dei libri d’arte e d’antichita
posseduti dal Conte Lepoldo Cicognara, um marco fundamental da bibliografia e
da bibliofilia.

FRANCESCO LEOPOLDO CICOGNARA
Às vezes, quando se consulta um catálogo de livros impressos à procura de
uma certa obra, nem sempre se dá conta que este volume possa ter pertencido a
uma determinada pessoa. No entanto, quando o título indica que é um catálogo de
uma coleção particular, aguça-se a curiosidade para saber: qual seria a sua
formação profissional? Quais seriam suas áreas de interesse pessoal? Qual sua
atividade profissional? Ainda mais quando esta pessoa carrega um título de
nobreza européia...
O Conde Francesco Leopoldo Cicognara nasceu em Ferrara em 1767 e
morreu em Veneza em 1834. Crítico, teórico e historiador da arte, além de
bibliófilo e pintor, Cicognara foi educado no Collegio dei Nobili de Modena entre os
anos 1776 e 1785. Completada sua primeira educação, partiu aos 21 anos para
Roma, onde residiu até 1790. Os dois anos em que vive em Roma são
importantes para a formação do jovem teórico, logo admitido como membro da
Società dell’Arcadia e dos círculos neoclássicos dos anos ’80, gravitantes em
torno de Angelica Kauffmann (1741-1807), profundamente marcados pelo estilo do
pintor alemão, há pouco falecido, Anton Raphael Mengs (1729-1779) e dos
teóricos Johnann J. Winckelmann (1717-1768) e Francesco Milizia (1725-1798).
Graças a esta experiência romana, Cicognara supera definitivamente todo
traço de erudição provincial e já em seus escritos juvenis sucessivos àquela
estada _ os poemas didascálicos Le Belle Arti (1790), Il Mattino, il mezzo-giorno,
La sera e la notte (1790), além do diário de viagem pela Sicília _ Cicognara não
4

�revela interesses meramente eruditos pelos testemunhos artísticos, mas a
curiosidade por enquadrá-los em um amplo horizonte de cultura. Estabelecido em
Veneza em 1808, quando é nomeado Presidente da Accademia di belle Arti da
Sereníssima, publica neste mesmo ano sua primeira obra importante, Del bello, na
qual retoma sistematicamente os princípios da estética iluminista e neoclássica,
assente igualmente sobre os ideais da educação estética da humanidade e do
conceito de sublime. Neste mesmo ano é confirmado como Presidente da
Accademia di Belle Arti di Venezia, cargo que manterá até 1826. Entre suas
realizações neste período, sempre inspiradas na idéia de educação estética,
conta-se a abertura ao público, em 1817, da Galleria dell’Academia.
Entre 1813 e 1818, Cicognara publicou a obra que o tornou célebre, a
Storia della scultura dal suo risorgimento in Italia sino al secolo di Canova (6
volumes), na qual o ponto de partida, o retorno da escultura aos modelos antigos
em meados do século XIII, era fornecido por Nicolas Pisano, e o ponto de
chegada, por Canova, considerado como a máxima expressão do clássico nos
tempos modernos. Concebida como uma continuação das obras de Winckelmann
e de Séroux d’Argincourt, a obra procurava também explorar os vínculos entre a
arte, a literatura e mesmo a história política, nela integrando as pesquisas de
Edward Gibbon (1737-1794), Charles-François Dupuis (1742-1809), entre outros.
Em seu gênero, a obras mantém-se insuperável.
Algumas obras sobre arquitetura (De’ propilei, 1814) e sobre o perfil
monumental de Veneza (Le fabbriche e i monumenti copiscui di Venezia, 1813),
além de uma Biografia di Antonio Canova, aggiuntivi il catalogo completo delle
opere (Veneza, 1823), entre outras, complementam sua obra de escritor e erudito.
Tendo ainda publicado, em 1831, um estudo sobre a impressão da gravura sobre
cobre, foi ele convidado pela Duquesa de Parma, Marie-Louise a vir a seu Ducado
assisti-la na montagem do que é hoje a Galleria Nazionale di Parma. Após Vasari,
no século XVI, Cicognara é hoje reconhecidamente, ao lado de Luigi Lanzi, um
dos mestres fundadores de um inteiro campo de estudos, a História da Arte.

5

�A Biblioteca CICOGNARA
Em 1824, Cicognara vendeu à Biblioteca Apostólica Vaticana a totalidade
de sua Biblioteca, composta de aproximadamente cinco livros (além de um
excepcional conjunto de gravuras), cujo Catalogo ragionato dei libri d’arte e
d’antichita posseduti dal Conte Lepoldo Cicognara, ele havia publicado em 1821.
A Biblioteca do Vaticano foi organizada em meados do século XV e é um dos mais
belos testemunhos da Renascença. Não foi a primeira biblioteca papal, mas desde
a época dos papas Nicolau V e Sisto IV tinha uma peculiaridade essencial: o
acervo era especializado em obras de cunho secular, como os clássicos gregos e
latinos, além de possuir obras teológicas e de direito canônico. Ciência, Arte, a
Reforma Protestante, a Contra-Reforma católica são alguns dos principais
assuntos cobertos por essa biblioteca. Possui um patrimônio amplo e
diversificado: 1.600.000

volumes

impressos,

antigos

e modernos, 8.300

incunábulos (65 dos quais em pergaminho); mais de 150.000 mil códigos
manuscritos e volumes de arquivo; além de 100 mil impressos e incisões; 300 mil
moedas e medalhas e numerosos objetos de arte.
Pode-se considerar a Biblioteca CICOGNARA como a mais importante
biblioteca de fontes da história, que confere atualmente à Biblioteca Apostólica
Vaticana o estatuto de centro de excelência de estudos em Humanidades,
especialmente em artes, arqueologia clássica, literatura, assim como estética e
história do gosto. Dessa perspectiva MARQUES FILHO (2003) revela “... a
Biblioteca CICOGNARA permite, como nenhuma outra, adentrar, em uma
reconstituição livro a livro, no conjunto de temáticas e controvérsias sobre a
natureza, a dignidade, os conceitos, os vínculos com o Antigo e as práticas
artísticas dominantes desde Vitrúvio até os anos iniciais do século XIX...” Além de
um impressionante conjunto de tratados, livros, manifestos, poemas, orações e
programas relativos às artes da pintura, escultura e arquitetura, e sua história e
relações com a literatura, música, retórica, teologia, filosofia, etc., a biblioteca
contém tudo o que de impresso Cicognara pôde reunir sobre a prática e o ensino
das artes.

6

�Programa BIBLIOTECA CICOGNARA
O Programa BIBLIOTECA CICOGNARA iniciou como um Projeto Temático
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), 20022006, realizado pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) com a
aquisição, em 2002, de um conjunto de microfichas (The Cicognara Library:
Literary Sources in the History of Art and Kindred Subjects)

que reproduz a

Biblioteca CICOGNARA (iniciativa da University of Illinois, EUA, em associação
com a Biblioteca Apostólica Vaticana), pertencente ao Vaticano. Este acervo dota
a

universidade

brasileira

dos

recursos

bibliográficos

fundamentais

ao

desenvolvimento de pesquisas sobre a tradição clássica. O Prof. Marcos Tognon,
em entrevista a FAVA (2002), informa: “... esse acervo pertencente à Biblioteca
Apostólica Vaticana, foi reproduzido pela Universidade de Illinois, EUA, que o
colocou à disposição de instituições interessadas. Já foram repassadas mais de
100 reproduções da Biblioteca CICOGNARA para diversas universidades da
Europa e dos Estados Unidos e a universidade campineira é a primeira da
América

do

Sul

a

receber

a

Biblioteca.”� A

Biblioteca

CICOGNARA

(aproximadamente quarenta mil microfichas) encontra-se armazenada na
Biblioteca Central Cesar Lattes da UNICAMP, onde está disponível aos
pesquisadores e atualmente passa pelo processo de descrição bibliográfica e
digitalização.
O desenho intelectual da BIBLIOTECA CICOGNARA
Mais que um precioso patrimônio de livros e imagens sobre a história da
cultura, a Biblioteca CICOGNARA organiza-se tematicamente segundo um
paradigma intelectual, em que se modelam aspectos essenciais da reflexão sobre
as artes e suas relações com o conjunto das Humanidades (história, historiografia,
mitologia,

retórica, filologia,

poética, munismática, inscrições,

periegética,

bibliografia, etc.). Do ponto de vista metodológico, a organização tópica deste
saber, estabelecida no Catalogo ragionato de 1821, desempenha, para as
humanidades, aproximadamente o mesmo papel exercido pelo Systema Naturae
de Carl von Linné de 1735 para a emergência da moderna taxonomia. Com

7

�Cicognara, o sistema das artes e dos saberes arqueológicos, filológicos, poéticos
e retóricos, que têm por objeto os monumentos da Antiguidade, atinge sua
primeira exposição sistemática. Desta forma a Biblioteca CICOGNARA pode ser
comparada a Histoire Naturelle de George Buffon (1752-1802), composta de 44
volumes, considerada a primeira obra moderna a tentar abranger o conjunto do
cognoscível na natureza.
Organização e arranjo do Catálogo
O Catalogo ragionato apresenta um traçado metodológico próprio, dividido
similarmente em 42 tópicos: classificação temática específica, criada pelo próprio
Conde Cicognara, procurando organizar o conjunto da memória das formas
herdadas da Antiguidade, sendo composto por 2 volumes encadernados em um
volume físico:
- 1º volume (Parte prima) (Tabela 1- Apêndice) : 415 páginas
- 2º volume (Parte seconda) (Tabela 1- Apêndice- colunas em destaque) :
333 páginas + Índice Alfabético de Autor (Indice del catalogo per ordine alfabetico)
+ Apêndice (Appendice)
O catálogo é ordenado alfabeticamente pelo nome dos autores e títulos,
com entrada precedida de um número, em ordem seqüencial. Pode-se verificar
que houve empenho na transcrição das informações bibliográficas básicas: autor,
título, local e ano de publicação, e ainda o número de figuras existentes na obra. O
que ainda acrescenta mais valor à descrição do registro são, sem dúvida alguma,
os comentários feitos pelo Conde Cicognara, sobre todas as obras relacionadas
no catálogo.
exemplo:
2400

VENTURI Gio. Batt. Memoria intorno alla vita, e alle opere del Capitano
Francesco Marchi. Modena 1816 4. fig.
Con un bel ritratto in fronte al volume intagliato da Rosaspina, e quattro grau tavole al
fine. È interessantissima ogui produzione dell’ab. Venturi. In questa rimarcasi
um’aggiunta di molti anticoli alle Bibliografia di fortificazione inserita nell’edizione di Roma
del Marchi.

8

�A curiosidade fica por conta das transcrições feitas, integralmente das
páginas de rosto das obras. Fato este que pode ser considerado de relevância
para a história do livro. Segue o exemplo de uma obra, com as informações
bibliográficas básicas: Lomazzo, Giovanni Paolo. Idea del tempio della pittura.
Milano: Gottardo Pontio, 1590. No Catalogo Ragionato a indicação é:
Lomazzo, Gio. Paolo Milanese Pittore Idea del tempio della pittura, nella qualle egli
discorse dell’origine, &amp; fondamento delle cose contenute nel suo trattato
dell’arte della Pittura. In Milano per Gottardo Ponto (sic); in fine per Gott.
Pontio 1590.

Metodologia
Esse estudo sobre o Catalogo ragionato não tem a pretensão de ser
exaustivo e, sim, uma investigação incipiente que possa estimular futuras
pesquisas. Foi realizada uma pesquisa documental no próprio catálogo, utilizando
uma amostragem probabilística, do tipo amostra aleatória simples, “...em que cada
elemento da população tem uma chance, conhecida e diferente de zero, de ser
selecionado” (MATTAR, 1996). A amostra aleatória simples é selecionada por
meio de sorteio de pelo menos 10% do universo da pesquisa, neste caso
empregou-se 30% (1.440 obras) do universo da pesquisa (4.800 obras).
Resultados
É importante ressaltar BURKE (2003) sobre a relação de alguns dados
estatísticos conhecidos, para lembrar a escala das mudanças que aconteceram no
início das comunicações modernas: “Por volta do ano de 1500 havia impressoras
em mais de 250 centros europeus e elas já haviam produzido cerca de 27 mil
edições. Fazendo uma estimativa conservadora de 500 exemplares por edição,
haveria então algo em torno de 13 milhões de livros em circulação no ano de 1500
numa Europa de 100 milhões de habitantes (excluindo-se o mundo ortodoxo, que
escrevia em grego ou russo ou eslavo eclesiástico). Já para o período entre 1500
e 1750, foram publicados na Europa tantos volumes cujos totais os estudiosos da
história do livro não conseguem ou não querem calcular (com base no índice de
9

�produção do século XV o total estaria ao redor de 130 milhões, mas de fato o
índice de produção aumentou dramaticamente)”.
Em relação à idade da coleção, Tabela 2, tem-se a predominância das
obras na língua italiana (44%), língua materna do autor do catálogo; seguida de
29% das obras na língua francesa; 15% na língua latina; 9% na língua inglesa, e
os demais 3%, nas línguas alemã e espanhola. Segundo VERGER (1999), “...os
estudos bem precisos fazem-nos pensar que, por volta de 1480, a parte da
impressão nas "bibliotecas do saber" francesas não passava dos 6% e que foi
apenas por volta de 1500 que ela passou para mais de 50%”. A evolução parece
ter sido a mesma por todo lado, anterior em dez ou quinze anos na Itália, mais
lenta ainda na Inglaterra.
Tabela 2 – Catalogo ragionato: língua
língua
alemã
espanhol
francês
inglês
italiano
latim
total

nº de obras
96
48
1.392
432
2.112
720
4.800

%
2%
1%
29%
9%
44%
15%
100%

A história do livro tem cerca de 6.000 anos, desde o papiro, o pergaminho,
passando pelo papel manufaturado, a partir de trapos até os sofisticados papéis
industriais feitos da pasta da madeira. Para relacionar com a idade da coleção
CICOGNARA vale ressaltar MARTINS (2002), que afirma “...existem três grandes
aspectos desta história: 1º: a técnica da gravura, 2º: a técnica da fundição manual
e 3º: a técnica da fundição mecânica”:
- 1460 - Tipografia: composição através de tipos móveis e prensa manual – Gutenberg.
- 1500 - Incunábulos: livros impressos no século XV desde a invenção da tipografia.
- 1590 - Renascimento: os tipógrafos constituem uma dinastia de verdadeiros humanistas.
- 1790 - Industrialização: inicia os séculos mais longos da história, que termina em 1914.

10

�- 1814 - Prensa mecânica, cilíndrica e movida por força motriz: a composição ainda é
manual.

Expressando a idade da coleção, Tabela 3, verifica-se o alto percentual de
46% de obras do século 18; seguido de 21% do século 16. Os 16% de obras do
século 19 podem ser compreendidos pela data de edição do Catalogo ragionato
em 1821. As obras do século 15 representam 2%. É prudente considerar as
condições de acesso a estas obras, como também as circunstâncias da época da
aquisição da coleção.
Tabela 3 – Catalogo ragionato: idade da coleção
século
Sec. 15
Sec. 16
Sec. 17
Sec. 18
Sec. 19
total

nº de obras
96
1.008
720
2.208
768
4.800

%
2%
21%
15%
46%
16%
100%

O catálogo ainda se sobressai pela diversidade na tipologia dos
documentos

primários

e

secundários,

apresentando:

livros,

dissertações,

catálogos, bibliografias, índices, tratados, discursos, conferências, almanaques,
guia de viagens, além de um numeroso acervo de gravuras, sobretudo de
Escultura Antiga, Arquitetura e Perspectiva. Inclui vários conjuntos encadernados
de gravuras com textos indicativos de como desenhar e pintar, traçar perspectivas,
projetar arquiteturas, pontes, fontes, máquinas em geral, etc. Entre outros temas,
destacam-se também obras sobre museus e coleções privadas e seus acervos,
guias de viagem sobre cidades artísticas, gravuras de esculturas e pinturas
modelares, etc.
No Sumário do Catalogo Ragionato, visualizado na Tabela 1 (Apêndice), é
nítido o propósito do Conde Cicognara em relacionar os assuntos de modo a
facilitar a consulta dos leitores. Atualmente, na Biblioteca Central Cesar Lattes –
Unicamp, nas investigações realizadas pelos pesquisadores, pode-se reconhecer
11

�a racionalidade do arranjo temático do catálogo pela rapidez com que os assuntos
são localizados. É interessante verificar a relação dos tópicos com o número de
obras abrangidas. Os assuntos que englobam um número maior de obras são:
Tratados de arquitetura, Hábitos e costumes antigos e modernos, Dicionários e
abecedários, Grandes museus, galeria e obras de pintura, Obras de escultura dos
gêneros Antigo e Moderno, Roma antiga e moderna, Panoramas de cidades e
descrição de monumentos e Guias ilustrados. Devido ao arranjo temático pode-se
inferir que o Catalogo Ragionato é uma relevante base de dados bibliográfica,
sendo que, para transforma-se em base de dados virtual seriam necessárias,
unicamente, alterações de suporte, de impresso para eletrônico.
Outra faceta a ser distinguida é o Índice (Índice del Catalogo per ordine
alfabetico), que reproduz a estrutura do catálogo e ocupa 77 páginas da obra.
Certamente, com o objetivo de investir na eficácia quanto à rapidez e objetividade,
o Conde Cicognara “abrevia” os títulos das obras, preservando os itens mais
importantes para a recuperação da informação. Segue o exemplo da obra nº
2.400: VENTURI Gio. Batt. Memoria intorno alla vita, e alle opere del Capitano
Francesco Marchi. A indicação do autor apresenta-se em ordem alfabética de
sobrenome, seguido pelos títulos existentes do autor em questão, indicando o nº
da obra. Com precisão o pesquisador recupera as informações bibliográficas
completas da obra: nome do autor, título, local e ano de publicação, editor, título(s)
da(s) obra(s) encadernadas com a obra indicada e o comentário do Conde
Cicognara.
exemplo:
Venturi G.B Essai sur les ouvrages de Lionard di Canova, 3561
_ Indagine Fisica sui colori, 228
_ Rapporto sulla misura lineare, 1820
_ Memmoria sulla vita ed opere del Marchi, 2400

Mais um aspecto a ser considerado é o interesse nas diversas edições das
obras. Por exemplo: as mais de cinqüenta edições de um único volume do Vitrúvio
– texto clássico reeditado a partir do Renascimento, período em que se deu

12

�verdadeira explosão de criações artísticas, literárias e científicas, inspiradas na
Antiguidade greco-romana. Outro destaque é De Reaedificatoria, de Leon Battista
Alberti, com nove edições, desde 1485 até a tradução italiana de 1726. Há ainda
14 distintas edições dos tratados de Andrea Palladio, desde 1570 até a tradução
francesa de 1785, entre outras.
No Prefácio do Catalogo ragionato, o conde Cicognara enuncia que
chegando à sua idade, 54 anos, ficou muito honrado em contribuir com o seu país,
a Itália, através do lançamento do Catalogo ragionato, onde pôde deixar para a
juventude um manifesto sobre a erudição das Artes. Essencial se faz advertir que,
na época do lançamento do catálogo, a idade do conde Cicognara, 54 anos, era
considerada muito avançada, daí as inúmeras citações que o autor faz à sua
própria velhice. Ainda expressa a importância que tiveram os seus amigos e
conhecidos, especialistas nos diversos assuntos compreendidos no catálogo, na
conclusão da obra. É notória a sua preocupação em explicar que também se
esmerou em procurar obras que não fossem conhecidas, porém que tinham
importância, igual ou até superior, às consideradas ilustres. Apresenta explicações
detalhadas sobre a classificação das obras nos temas, considerados por ele, os
mais adequados. Na época ainda tinha a intenção de continuar na sua busca
incessante por livros raros e relevantes ao estudo das Artes, pretendendo reeditar
o Catalogo ragionato com um apêndice. Interessante é a sua inquietação em
relação à expectativa que os leitores pudessem ter com o conteúdo do catálogo.
Num rompante entusiástico afirma que, durante a elaboração do catálogo, teve os
melhores anos de sua vida. Na última frase do prefácio esclarece que deu
preferência às obras que tinha mais estima e que entendia serem de maior
importância, julgando ser melhor esta conduta a calar-se. Ainda finaliza desejando
saúde aos leitores.

Conclusão
Como, entre o fim da Idade Média e o século XIX os homens tentaram
ordenar o multiplicado número de textos que o livro manuscrito – e depois o
13

�impresso – colocou em circulação? Arrolar os títulos, classificar as obras,
estabelecer os textos: tantas operações graças às quais tornava-se possível o
ordenamento do mundo escrito... O Catalogo ragionato dei libri d’arte e d’antichita
posseduti dal Conte Lepoldo Cicognara é um exemplo de uma base de dados que
disponibiliza, em um único local, de fácil e rápido acesso, as informações
essenciais aos pesquisadores das áreas de Estudo da Arte e Arquitetura.

A

inteligência e arrojo do conde Cicognara propiciam aos estudiosos dos assuntos
tratados no catálogo, como também aos bibliotecários, um exemplo de uma
estrutura de organização da informação através da qual é possível armazenar e
recuperar a informação, nos moldes nas modernas ferramentas atuais disponíveis.
Entretanto, é imperioso salientar que essa obra foi concebida no início do século
XIX com todas as dificuldades e limitações da época.
THE CATALOGO RAGIONATO DEI LIBRI D’ARTE E D’ANTICHITÀ: a fundamental
landmark of the bibliography about art history (XIV-XIX centuries) - CICOGNARA
Library, Central Library Cesar Lattes, UNICAMP, SP, Brazil
ABSTRACT
This paper analyses the process of organizing the analytic catalog: Catalogo ragionato dei
libri d’arte e d’antichità, of the Italian count Francesco Leopoldo Cicognara (1767-1834),
where the information of approximately five thousand pieces of his private library - from
XVI to XIX centuries, is gathered. Since 1824 this collection is a property of the Vatican
Library, and in 1989 it was submitted to a process of microfilming (forty thousand
microfiches) by the University of Illinois at Urbana-Champaign (EUA). In the Catalogo
ragionato Leopoldo Cicognara, is inserted the list of publications and comments about
texts, from architecture, painting and sculptures treaties, to art guides, artistic guides of
cities, museums, sketches for drawings used in arts classes, theoretical texts on music
and fine arts, besides comments on numismatics and aesthetics. The methodological plan
of the Catalogo ragionato, objective of this study, is to investigate the following items:
collection age, language of the pieces, kind of documents, books translation, summary,
indices and prefaces of the author. The Catalogo presents a thematic organization
according to an intellectual model where the relevant aspects about art and its relations
with Humanities are emphasized, taking an outstanding and influencing place in the artistic
world historiography.
Keywords: Historiography, Bibliography

14

�Referências bibliográficas
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Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
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Ática, 1999.
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pertenceu à biblioteca do crítico italiano Conde Francesco de Cicognara. Jornal da
UNICAMP, Campinas, v. 17, n. 191, 2002.
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abril 2003. Disponível em:
&lt;http://www.italiaoggi.com.br/not04_0603/ital_not20030402h.htm&gt;. Acesso em: 02 de abril
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MARTINS, W. A palavra escrita: historia do livro, da imprensa e da biblioteca. 3. ed.
São Paulo: Ática, 2002.
MATTAR, F. Pesquisa de marketing. São Paulo: Atlas. 1996.
VERGER, J. Homens e Saber na Idade Média. Bauru: EDUSC, 1999.

15

�Apêndice
Tabela 1- Catalogo ragionato: Sumário
Nº
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
32
33
34
35
36
37
38
39
40
41
42

Tópico
Delle Belle Arti in generale
Trattati della Pittura
Dell’Intaglio in rame e in legno
Trattati della Scultura
Elementi, Proporzioni, Anatomia
Trattati dell’Architettura
Architettura Teatrale moderna
Architettura Teatrale antica
Prospettiva
Edificj di vario genere, Ponti, Strade, Fontane, Giardini…
Poemetti Didascalici sulle Arti
Scrittori del Bello
Poemi, Drammi, e Autori Classici figurati
Favoleggiatori
Lettere Pittoriche e Antiquarie
Descrizioni, Relazioni, e Memorie
Orazioni Pittoriche, Statuti Accademici, Almanacchi…
Feste, Ingressi, Trionfi, Spetaccoli, e Funerali
Miscellanee
Abiti e Costumanze Antiche e Moderne...
Emblemi
Biblie figurate, Vite istoriate, Collezioni di Ritratti antiche…
Dizionarj e Abededarj
Biografia
Autori di Fisionomia
Delle Antichità in genere
Antichità, Egizie, e Indiche ec.
Antichità Etrusche, e Italiane avanti I Romani
Antichità Greche, Greche-Italiche, ed Ercolanensi
Numismatica, e Pietre Intagliate
Iscrizioni
Erudizione varia
Grand Musei, Gallerie, e Opere di Pittura
Opere di Scultura d’ogni genere Antiche e Moderne
Roma Antica e Moderna
Vedute di Città e Descrizioni di Monumenti, e Antichità...
Guide e brevi Illustrazioni delle singolarità, che trovansi…
Cataloghi
Equitazione
Alcuni Libri di Bibliografia
Mitologia, Imagini Sacre, e Costumi Religiosi …
Appendice

TOTAL

nº de
obras
60
177
23
17
82
336
35
18
73
97
73
32
44
10
99
55
83
176
5
281
123
167
36
239
55
33
45
90
81
311
72
179
343
92
321
205
244
182
35
38
92
41
4800

%
1%
3,9 %
0,5%
0,4%
2%
7%
1%
0,4%
1,5%
2%
1,2%
1%
1%
0,2%
2%
1%
2%
3,9%
0,1%
6%
2,4%
3,1%
1%
5%
1%
1%
1%
2%
2%
6%
1,4%
4%
7%
2%
6%
4%
4%
4%
1%
1%
2%
1%
100%

16

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                <text>Biblioteconomia&#13;
Documentação&#13;
Ciência da Informação&#13;
Bibliotecas Universitárias</text>
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                <text>Tema: Acesso livre à informação científica e bibliotecas universitárias.</text>
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                <text>SNBU - Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias</text>
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    <name>Event</name>
    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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              <text>Catálogo Ragionato Dei Libri D’arte e D’antichita: marco fundamental da bibliografia sobre história da arte (séculos XIV-XIX) - Biblioteca CICOGNARA, Biblioteca Central Cesar Lattes, UNICAMP.</text>
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              <text>Este trabalho analisa o processo de construção do catálogo analítico: Catalogo ragionato dei libri d’arte e d’antichità, do conde italiano Francesco Leopoldo Cicognara (1767-1834), onde estão reunidas informações de aproximadamente cinco mil obras de sua biblioteca particular, dos séculos XVI a XIX. Desde 1824 esta coleção faz parte do patrimônio da Biblioteca Vaticana, sendo que, em 1989, passou por um processo de microfilmagem (quarenta mil microfichas) pela University of Illinois at Urbana-Champaign (EUA). No Catalogo ragionato Leopoldo Cicognara insere o elenco de publicações e comentários sobre textos que vão desde tratados sobre arquitetura, pintura e esculturas, até guias de arte, guias artísticos de cidades, de museus, pranchas de desenhos para aulas de arte, textos teóricos sobre música e artes plásticas, contendo ainda comentários sobre numismática e estética. O traçado metodológico do Catalogo ragionato, objeto deste estudo, é investigado nos seguintes itens: idade da coleção, língua das obras, tipologia dos documentos, traduções dos livros, sumário, índice e prefácio do autor. O Catalogo apresenta uma organização temática segundo um modelo intelectual onde são destacados os aspectos relevantes sobre as artes e suas relações com o conjunto das Humanidades, ocupando um lugar de destaque e influência na historiografia artística mundial.</text>
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