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                  <text>Eixo II - Pesquisa e Extensão
A ORGANIZAÇÃO DA BIBLIOTECA DA ASSOCIAÇÃO DOS REMANESCENTES
DOS QUILOMBOLAS ILHA DE SÃO VICENTE/TO
THE ORGANIZATION OF THE LIBRARY OF THE REMANESCENTS ASSOCIATION
OF THE KILOMBOLAS ISLAND OF SÃO VICENTE / TO

Resumo: O trabalho é um projeto de extensão Campus Curitiba, do Instituto Federal do
Paraná (IFPR). O objetivo foi promover a organização do acervo da biblioteca no sentido de
proporcionar acesso à comunidade quilombola da Ilha de São Vicente/TO. A execução das
ações buscou envolver a comunidade, para possibilitar a autonomia em relação a continuidade
da organização no uso de técnicas e tecnologias adequadas a sua realidade e condições
materiais existentes. A execução do projeto, durante seis dias, foi realizada para treinar
membros da comunidade, de modo que pudessem dar continuidade ao projeto de forma
autônoma, tanto tecnicamente, quanto no uso da tecnologia para automação do acervo
sugerida. O projeto contou com a doação de materiais, dentre eles: etiquetas para os materiais,
um computador de mesa (desktop) e periféricos e a licença para o sistema operacional,
Windows. A parceria desenvolvida proporcionou o compartilhamento de conhecimentos e a
oportunidade em reconhecer que uma biblioteca pode ser desenvolvida a partir das
necessidades postas pela própria comunidade.
Palavras-chave: Bibliotecas Comunitárias. Biblioteca Quilombola. Acervo - organização e
automação.
Abstract: The extension project was approved by the Research and Extension Committee
(COPE) of Curitiba Campus, Instituto Federal do Paraná (IFPR). The objective of the project
Vicente Island/TO. The execution of the actions sought to involve the community, in the
sense of enabling autonomy in relation to the continuity of the organization in the use of
techniques and technologies appropriate to its reality and existing material conditions. During
a visit to the community, for six days, it was possible to train members of the community so
that they could continue the project autonomously, both technically and in the use of
technology for automation of the collection. The project counted on materials donation,
among them: labels for materials, a desktop computer and peripherals and the license for the
operating system, Windows. The partnership developed provided the sharing of knowledge
and the opportunity to recognize that a library can be developed from the needs of the
community itself.

�Keywords: Community Libraries. Kilombola Library. Collection - organization and
automation.

INTRODUÇÃO

Organização da Biblioteca da Associação dos Remanescentes dos Quilombolas Ilha de São
23397.001051/2017-02, do Campus Curitiba, do Instituto Federal do Paraná (IFPR), em
out./17.
Em viagem à Curitiba para participação em um congresso de geografia, da
Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fátima, em reunião com duas pesquisadoras/es do
grupo de pesquisa Xuê, do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade
(PPGTE), da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR), contou a história da
comunidade que reside e como seu projeto se tornou em um projeto para biblioteca.
Fátima, ao saber da formação em Biblioteconomia de uma109 das pesquisadoras do
Xuê e de sua atuação profissional no Instituto Federal do Paraná (IFPR), pediu sua ajuda para
a organização da biblioteca da comunidade. Considerando que as/os 110 bibliotecárias/os do
IFPR estão em ampla campanha pela valorização das bibliotecas, a proposta de ajudar no

circulação do conhecimento. Uma oportunidade de promover a autonomia da comunidade em
relação às técnicas de organização e tecnologias abertas.
Para que o projeto pudesse alcançar êxito, a bibliotecária membro do grupo Xuê
propôs apresentar algumas/ns servidoras/es do IFPR à Fátima que poderiam contribuir para a
viabilidade do projeto. Dessa forma e com a confiança de Fátima, ela convidou as/os
servidoras/es a conhecer pessoalmente a comunidade, compreender suas necessidades e
estabelecer um convívio mais próximo à comunidade, de modo que os objetivos sejam

109

Os nomes foram preservados no sentido de atender as normas do evento SNBU/2018, respeitando a avaliação
double-blind. Por essa razão, parte da introdução foi alterada.
110
As/os autoras/es deste artigo decidiram flexionar os artigos e substantivos na forma feminina e masculina,
respeitando esta ordem de importância, no sentido de romper os discursos hegemônicos acadêmicos, postos no

�alcançados e compreendidos por todas as pessoas da comunidade para que a continuidade do
projeto fosse garantida.
O projeto foi desenvolvido junto à comunidade durante o período de 08 a 14 de
dez./17. Participaram ativamente do projeto duas bibliotecárias e um sociólogo; o projeto
recebeu apoio de uma das bibliotecárias do campus (submissão do projeto no Comitê de
Pesquisa e Extensão - COPE, do Campus Curitiba/IFPR), Sueli Terezinha Heimbecher
(doação de um desktop) e Adriano Willian da Silva (Diretor Geral do Campus Curitiba/IFPR,
liberação de diárias e passagens).
Durante o curto período para execução do projeto, a equipe decidiu treinar a
comunidade em relação ao uso do software livre para automação de bibliotecas, Biblivre,
instalado no desktop que foi doado à biblioteca e; treiná-las/os quanto a aplicação de uma précatalogação para o acervo. O acervo é composto, segundo informações de Fátima, por
aproximadamente 10 mil exemplares de livros, revistas, gibis, enciclopédias, dicionários e
outros materiais.
O objetivo do projeto foi proporcionar autonomia técnica, tecnológica e preservação
da liberdade da comunidade em relação aos rumos do seu projeto originário. Compreendemos
que não levamos conhecimento a elas/es, mas que compartilhamos e elas/es compartilharam
conosco também.
Dessa forma, seguindo uma metodologia de ação dialógica, posta por Paulo Freire,
buscou-se a promoção de uma autonomia técnica e tecnológica tem por base os fundamentos
educativos de Paulo Freire (1985) e o reconhecimento de saberes em todas as comunidades,
sejam elas acadêmicas ou não. Portanto, proporcionar autonomia, a partir do diálogo
estabelecido para a compreensão da realidade, historicidade e postura ética da comunidade,
foi também estabelecer uma relação de independência entre todas e todos envolvidas/os.
1 A COMUNIDADE QUILOMBOLA DA ILHA DE SÃO VICENTE/TO
A comunidade quilombola Ilha de São Vicente, fica localizada no município de
Araguatins, Tocantins, na região do Bico do Papagaio, no extremo norte do estado, região
norte do Brasil. O território da Ilha de São Vicente possui cerca de 586 alqueires, que
equivale a 2.851 hectares de terras.
A Ilha de São Vicente abriga 49 famílias de remanescentes quilombola, das famílias
Barros e Noronha.

�É um território em processo de regularização fundiária, reconhecida pela Fundação
Cultural Palmares desde dezembro de 2010, pesquisa antropológica realizada pela professora
antropóloga mestre e doutoranda Rita de Cassia da UFT, Campus Tocantinópolis, o Relatório
Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) foi publicado em fevereiro de 2015
(FUNDAÇÃO, 2017a).
A comunidade está localizada em uma ilha fluvial no Rio Araguaia, território onde
existe uma transição do bioma cerrado para a floresta amazônica.
A comunidade foi certificada e reconhecida pela Fundação Palmares Cultural,
conforme a Portaria n. 268/2017, publicada no DOU em 02 out. 2017 (FUNDAÇÃO, 2017b).
De acordo com informações do Blog da Fundação Barros (FUNDAÇÃO, 2017c), a
Associação dos Remanescentes dos Quilombolas da Ilha de São Vicente/TO (CNPJ:
13.933.703/0001-14) é composta por uma diretoria jovem e recentemente posta a frente da
associação, em 2013. O presidente da associação é o senhor Miguel Batista Barros.
2 O PROJETO
De acordo
africanos escravizados que mantêm tradições culturais, de subsistência e religiosas ao longo
O projeto da biblioteca foi idealizado pela remanescente quilombola Fátima Barros e
faz parte da liderança da comunidade. Fátima tem formação em pedagogia e é estudante de
engenharia ambiental, além militante pela emancipação e libertação da população negra
brasileira, principalmente a luta que envolve as comunidades tradicionais quilombolas.
Fátima elaborou o projeto a partir de uma campanha de arrecadação de livros e
conseguiu um acervo com aproximadamente 10 mil exemplares. Os materiais,
majoritariamente livros, estão em um galpão que pertence ao presidente da associação, senhor

Para que os materiais, em sua maioria compostos por livros, possam circular por entre
todas as pessoas da comunidade, identificaram entre elas/eles a necessidade de organizar a
biblioteca com aplicação de processo técnico e implementação de aparato tecnológico
(software de automação de bibliotecas), visto que seu maior objetivo é preservar o patrimônio
doado e fazer circulá-lo com responsabilidade e consciência.

�3 JUSTIFICATIVA E FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A região norte e nordeste do Brasil, são as regiões mais afetadas pela má distribuição
econômica e social, de modo a resultar na brutal desigualdade social que assola a população
brasileira. É considerável destacar essa evidência em relação às regiões sul e sudeste.
A desigualdade social traz os piores resultados para o desenvolvimento do país. Um
dos fatores a serem considerados é em relação a falta de acesso a direitos fundamentais, tais
como: educação, saúde e moradia.
Os Institutos Federais (IFs) foram criados com o objetivo de diminuir a desigualdade
em relação ao acesso à educação. E que essa redução ocorresse proporcionando uma educação
pública de qualidade, a ponto de garantir que trabalhadoras/es e suas/seus filhas/os tivessem
oportunidade à educação em vários níveis, modalidades e formas de oferta.
Com relação a implantação e expansão dos campi dos Institutos Federais, observa-se
que o Instituto Federal do Paraná (IFPR) expandiu muito mais que o Instituto Federal do
Tocantins (IFTO), por exemplo. Enquanto o IFPR possui 25 campi, o IFTO possui 11.
Paralela a essa realidade, a população negra brasileira possui um passado histórico de
diáspora africana provocado por um período de comercialização desumana de povos
provenientes de diversos países africanos. O Brasil foi o país que mais tempo permaneceu a
escravizar os povos africanos (aproximadamente 350 anos).
O resultado dessa prática comercial desdobrou diversas situações. Um dos
desdobramentos negativos foi o fato da população negra não ter tido condições materiais e
sociais de reintegração à sociedade após a assinatura da Lei Áurea. Permanecendo, assim, de
modo marginalizado, invisibilizado e destituído de direitos fundamentais que uma parte da
população brasileira teve e tem acesso, evidenciando um abismo de desigualdades
promovidas na formação da sociedade brasileira.
O recorte que Lélia realiza em sua análise sobre a população negra, a ascensão social e
econômica é quase nula, principalmente para o mercado de trabalho. Lélia argumenta,
As possibilidades de ascensão a determinados setores da classe média têm sido
praticamente nulas para a maioria da população negra. É certo que, de 1950 para cá,
ocorreu o crescimento das classes médias no Brasil. Todavia, em termos relativos,
isto significou a deterioração das possibilidades de acesso ao mercado de trabalho
para a população negra. Excluída da participação no processo de desenvolvimento
(desigual e combinado, não esqueçamos), ficou relegada à condição de massa
puros, trabalho ocasional, ocupação intermitente, trabalho por temporada etc. Ora,
tudo isso implica condições de vida em termos de habitação, saúde, educação etc.
(GONZALEZ, 1982, p. 96).

�Para Moura (2014, p. 253) a população negra é sujeitada a mecanismos seletores
racistas, o que resulta em opressão e discriminação. Logo, a população negra, de forma
reativa e como parte de uma dinâmica social, tenta expor seu passado africano por meio da
Id. Ibid., p. 253).
Necessário informar que a formação de quilombos111 no Brasil faz parte de sua
história e da história da diáspora africana. Para tanto, recorre-se à Gonzalez (1982, p. 91),
[...] já em 1559 se tem notícia da formação dos primeiros quilombos, essas formas
alternativas de sociedade, na região das plantações de cana do nordeste. E os
quilombos existiram em todo o país como contrapartida, o modo de resistência
organizada do povo negro contra a superexploração de que era objeto. Sua
distribuição geográfica articulou-se com a migração interna da população escrava
(principalmente depois de 1850), forçada a satisfazer as exigências econômicas
escravista (açúcar, mineração e café, além de outros mais secundários, como
algodão, fumo etc.) obrigavam a população escrava a tais deslocamentos e esta, por
sua vez, resistia com a formação dos quilombos (GONZALEZ, 1982, p. 91).

A organização de quilombos não obteve reconhecimento histórico, como Gonzalez
(1982, p. 91)
Estado livre de todo o continente americano existiu no Brasil colonial, como denúncia viva do
egra
dos Palmares, vigente no país entre o período 1595 a 1695, na antiga Capitania de
Pernambuco (Id. Ibid., p. 91).
Os quilombos eram atuantes e combatentes, inclusive com expressivo armamento
bélico. Um exemplo de combate e participação em movimentos de libertação contra invasores
europeus, tanto no período colonial quanto no império, seriam a Revolta dos Alfaiates,
Confederação do Equador, Sabinada, Balaiada, Revolução Praieira etc. (Id. Ibid. p. 91).
Gonzalez segue na denúncia que a história oficial do Brasil não menciona o que foi e o
que representou a República Negra dos Palmares, não sendo restrita apenas aos combates:
Palmares foi a primeira tentativa brasileira no sentido da criação de uma sociedade
democrática e igualitária que, em termos políticos e socio-econômicos, realizou um
grande avanço. Sob a liderança da figura genial de Zumbi, ali existiu uma efetiva
harmonia racial já que sua população, constituída por negros, índios, brancos e
mestiços, vivia do trabalho livre cujos benefícios revertiam para todos, sem exceção.
Na verdade, Palmares foi o berço da nacionalidade brasileira. E o mesmo se pode
111

Para Gonzalez (1982, p. 90) o conceito da palav
em Angola. A tradução exata seria capital, povoação, união
confusão, bordel

bantu falada

�padres, é claro) a religião comum (GONZALEZ, 1982, p. 91) (Grifos da autora).

Atualmente, as comunidades tradicionais remanescente foram reconhecidas pelo
Governo Federal como quilombolas. Em 1988 o governo criou a Fundação Cultural Palmares
e a vinculou ao Ministério da Cultura (MinC). Conforme informações da entidade, seus
objetivos são:
-

Comprometimento com o combate ao racismo, a promoção da igualdade, a
valorização, difusão e preservação da cultura negra;

-

Cidadania no exercício dos direitos e garantias individuais e coletivas da população
negra em suas manifestações culturais;

-

Diversidade no reconhecimento e respeito às identidades culturais do povo brasileiro.
A entidade já certificou mais de 2.476 comunidades quilombolas, a certificação

reconhece os direitos das comunidades quilombolas e dá acesso aos programas sociais do
Governo Federal. É referência na promoção, fomento e preservação das manifestações
culturais negras e no apoio e difusão da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da
História da África e Afro-brasileira nas escolas. A Fundação Palmares já distribuiu
publicações que promovem, discutem e incentivam a preservação da cultura afro-brasileira e
auxiliam professoras/es e escolas na aplicação da Lei.
Participar de projetos que envolvam comunidades tradicionais, sejam quilombolas
e/ou indígenas, faz-se necessário por meio da confiança que a comunidade estabelece e
adquire. Portanto, as comunidades tradicionais, de forma geral e devido a um contexto social
de exclusão, exploração e invisibilização de suas necessidades, têm por costume convidar
pessoas externas para participarem de projetos que as auxiliem, condicionando que essa
participação externa traga resultados positivos para a comunidade. Não obstante, isso ocorre
após reuniões presenciais, estabelecimento de confiança e comprometimento de que qualquer
ação estabelecida terá etapas de início, meio e fim cumpridas em sua integralidade.
A integrante da comunidade quilombola da Ilha de São Vicente/TO, Fátima Barros,
estabeleceu contato com alguns servidores do IFPR. Nesses servidores, Fátima, segundo suas
palavras, identificou uma postura política semelhante a dela e membros da comunidade para
A confiança estabelecida se deu a partir do compartilhamento de experiência com
outro quilombo (Kalunga), formação acadêmica das/os servidoras/es, postura em relação a

�uma educação aberta e que oportuniza a autonomia da comunidade, além da experiência com
tecnologias.
Para tanto e fundamentando a questão de identidades que se encontram e se
identificam como sujeitos cognoscentes112, nos apoiamos em Paulo Freire (1985).
Compreendemos que o relacionamento estabelecido com a comunidade das/os remanescentes
quilombolas da Ilha de São Vicente/TO ocorre de forma igualitária e de troca. A esse respeito,
Freire faz um apont
27).
Ao estabelecer o compartilhamento de conhecimento por meio do diálogo, em ação
dialógica,
E ser dialógico, para o humanismo verdadeiro, não é dizer-se
descomprometidamente dialógico; é vivenciar o diálogo. Ser dialógico é não invadir,
é não manipular, é não sloganizar. Ser dialógico é empenhar-se na transformação
constante da realidade. Esta é a razão pela qual, sendo o diálogo o conteúdo da
forma de ser própria à existência humana, está excluído de toda relação na qual
homens que são
-se numa relação antagônica.
O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o
-o, o humanizam para a
humanização de todos (FREIRE, 1985, p. 28).

No entanto, Freire não pode ser considerado romântico, nem ingênuo ao desenvolver a
ideia de humanismo quando descreve a relação entre as pessoas e suas culturas, saberes,
quereres e poderes.
Humanismo que, recusando tanto o desespero quanto o otimismo ingênuo, é, por
isto, esperançosamente crítico. E sua esperança crítica repousa numa crença também
crítica: a crença em que os homens podem fazer e refazer as coisas; podem
transformar o mundo. Crença em que, fazendo e refazendo as coisas e
transformando o mundo, os homens podem superar a situação em que estão sendo
um quase não ser e passar a ser um estar sendo em busca do ser mais (FREIRE,
1985, p. 51) (grifos do autor).

Proporcionar autonomia é promover a liberdade na relação estabelecida entre pessoas
de comunidades diferentes ou da mesma comunidade. A ação que, pode parecer simples a
uma/um bibliotecária/o e/ou educadora/r, na aplicação de uma técnica e um conhecimento não
pode ser vista como uma simples transferência. Poderia ser, caso fosse realizada apenas por
máquinas. Mas no caso deste projeto de extensão, há o envolvimento de pessoas, culturas e
questões sociais.
112

Na perspectiva de Paulo Freire (1985), sujeitos cognoscentes são aqueles que participam ativamente da
transformação social a que se propõem em suas ações, de forma consciente e crítica.

�Freire, mais uma vez, nos auxilia no fundamento de tal pensamento sobre a liberdade
por meio da educação e seu processo,
transferência ou a transmissão do saber nem da cultura; não é a extensão de
conhecimentos técnicos; não é o ato de depositar informes ou fatos nos educandos;

Aquela em que o ato cognoscente não termina no objeto cognoscível , visto que se
comunica a outros sujeitos, igualmente cognoscentes (FREIRE, 1985, p. 55).

E nessa relação em que se transmite um conhecimento a outra pessoa e/ou comunidade
que não o domina ou possui, est
centralizou seus esforços.
Educador-educando e educando-educador, no processo educativo libertador, são
ambos sujeitos cognoscentes diante de objetos cognoscíveis, que os mediatizam.
Poder-se-á dize
possível por o educador e o educando num mesmo nível de busca do conhecimento,
se o primeiro já sabe? Como admitir no educando uma atitude cognoscente, se seu
papel é o de quem aprende do educador? (FREIRE, 1985, p. 55).

mas espaços para relações onde a praxis educativa é viva, ativa, reflexiva e solidária. É o
encontro consigo mesmo, no momento em que se encontra com a outra pessoa. E foi nesta
perspectiva que o projeto foi executado.
4 OBJETIVOS
Objetivo Geral
Promover a organização dos materiais da biblioteca da comunidade quilombola da Ilha
de São Vicente/TO. A promoção das ações envolveu a comunidade local, no sentido de
possibilitar autonomia em relação a continuidade da organização no uso de técnicas e
tecnologias adequadas a sua realidade e condições materiais existentes.
Objetivos Específicos:
-

Organizar os 10 mil materiais doados à comunidade quilombola da Ilha de São
Vicente/TO;

�-

Propor um sistema de organização autônomo e sustentável que garanta a continuidade
da organização inicial ao acervo de livros e quaisquer materiais que venham a compolo;

-

Conscientizar a comunidade local, por meio de reuniões, sobre a importância em
manter a biblioteca funcionando para atender as demandas educacionais das pessoas
que a compõe;

-

Identificar as necessidades educacionais da comunidade local;

-

Implantar sistema de gerenciamento de acervo para bibliotecas aberto e livre;

-

Capacitar as pessoas para terem condições em manter a biblioteca funcionando, tanto
em relação ao sistema de gerenciamento, quanto à organização do acervo conforme
sua circulação ocorre.

5 RESULTADOS OBTIDOS
Os resultados do projeto de extensão foram apresentados em forma de relatório ao
Comitê de Ensino e Extensão (COPE), do Campus Curitiba, do IFPR, para atender aos
trâmites processuais necessários.
Em relação à participação in loco e relacionamento com a comunidade, foi elaborado
um treinamento para utilização do software livre de automação de bibliotecas, Biblivre. Além
disso, o treinamento também foi ministrado em relação a pré-catalogação do acervo, ação
importante para identificação dos elementos nos materiais a serem catalogados e,
posteriormente, informações inseridas no sistema. Tais ações foram implementadas visto que
teríamos apenas seis dias para execução do projeto junto à comunidade.
No sentido de estabelecer um primeiro contato, tivemos a oportunidade de conhecer o
campus Araguatins, do Instituto Federal do Tocantins (IFTO) e sua biblioteca. Conversamos
com a diretora de ensino do campus e uma das bibliotecárias, de modo informal, sobre nosso
projeto junto à comunidade da Ilha de São vicente/TO e a possibilidade de continuidade por
parte de outras pessoas, incluindo o IFTO.
Ao observar as necessidades educacionais da comunidade, percebemos que ela é
formada por voluntárias/os de diversas faixas etárias e escolaridade. No entanto, estavam a
disposição para os treinamentos apenas em seu tempo livre, uma vez que dedicam a maior
parte de seu tempo em atividades escolares e trabalho remunerado para provimentos de
necessidades básicas.

�Pré-Catalogação dos Materiais
Devido ao curto tempo que teríamos para executar o projeto, elaboramos uma ficha
com dados essenciais para que uma pré-catalogação ocorresse antes da inserção das
informações no sistema.
Para tanto, nos baseamos nos elementos obrigatórios propostos pela Associação
Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), especificamente a NBR 6023/2002. Os elementos
extraídos foram: autoria (pessoal e entidade), título e subtítulo, edição, local, editora e data.
Elaboramos um manual com a definição de cada elemento para melhor compreensão
das pessoas da comunidade e, dessa forma, pudessem ter condições de continuidade sobre a
pré-catalogação.
O objetivo da pré-catalogação foi proporcionar à comunidade a possibilidade de
identicação dos elementos essenciais dos materiais da biblioteca, de forma independente, sem
o auxílio de uma/um bibliotecária/o. No entanto, caso a comunidade decida e queira participar
de projetos junto à/a bibliotecárias/os, será possível avançar nos elementos inseridos tanto
manualmente quanto no sistema, a fim de completar as informações e ampliar a recuperação
dos materiais via sistema.
Automação do Acervo
A biblioteca comunitária é um elemento fundamental para elevar o patamar dos
processos de ensino-aprendizagem e desenvolvimento sócio-cultural. Por esta razão, a
informatização das atividades de gerenciamento de acervos é um fator importante de
qualidade e controle deste bem cultural, sua automação a partir da escolha e funcionamento de
software para automação de acervos faz parte desse processo. Para Bastos, Almeida e Romão
r, é compreendida como fator
indispensável nessas instituições, transformando-se em um recurso de valor cultural,
A escolha do software de automação de acervos, Biblivre, deu-se pela facilidade e
viabilidade na adequação às necessidades da comunidade. Tais como: é livre e aberto, dessa
forma, permite que, por meio do código fonte, seus módulos sejam programados conforme as
necessidades administrativas e informacionais da comunidade local; é gratuito, a comunidade
não necessitará dispor de valores monetários para seu acesso e funcionamento; as versões

�atualizadas (com correção de erros) estão disponíveis no sítio eletrônico da comunidade que
desenvolve o software; participação no fórum da comunidade, possibilitando troca de
experiências, dificuldades e sugestões para melhorias.
O Biblivre é um software que possibilita a inclusão digital das pessoas e suas diversas
realidades; adequado para catalogação e divulgação de acervos de bibliotecas públicas e
privadas, de diversos portes.
Ao acessarmos o software pela primeira vez, iniciamos os testes buscando a
identificação e definição dos campos a serem utilizados na catalogação, conforme a
necessidade da Biblioteca da Comunidade Quilombola da Ilha de São Vicente/TO.
O treinamento das pessoas da comunidade teve início com uma breve explanação
sobre o motivo da escolha das informações a serem inseridas na planilha de entrada do
software.
Durante os dias que se seguiram foram treinados cinco pessoas. As atividades
desenvolvidas foram: inserção das informações a partir da pré-catalogação. Não foram
identificadas maiores dificuldades pelas/os participantes, pois a usabilidade do sistema se
apresenta de modo simples e eficiente. Além disso, algumas/ns pessoas da comunidade
possuem formação e conhecimento na área de informática, algo que facilita o manuseio e
usabilidade do software.
Foram realizadas orientações no uso das grandes áreas do conhecimento, para isso
utilizamos a Classificação Decimal de Dewey (CDD), para classificação de áreas e uso e para
classificação de autoria, a Tabela Cutter. Assim, o arranjo físico apresentou a organização
temática formal técnica, seguindo padrões determinados pela Biblioteconomia.
Por fim, para completar a organização física, as etiquetas foram preenchidas
manualmente, após a realização dos testes para recuperação dos títulos inseridos no sistema e
execução dos serviços de empréstimos e devoluções. Considera-se que a capacitação nas
atividades de automação foi exitosa, porém incompleta e com tempo insuficiente para troca de
ideias com a comunidade e compartilhamento de conhecimento a respeito do sistema.
Diante disso, recomenda-se que a comunidade estabeleça parcerias para continuidade
do projeto, automação completa da biblioteca, incluindo alimentação das informações do
acervo no sistema, divulgação e circulação do material entre a comunidade e, se assim
quiserem, com a comunidade da cidade de Araguatins/TO.

�CONSIDERAÇÕES FINAIS
Consideramos que o projeto proporc
continuidade por outras pessoas da própria comunidade e fora dela, de modo autônomo e
preservando a liberdade de decisões de suas/seus idealizadoras/es.
Durante os momentos de diálogo com membros da comunidade, principalmente com
Fátima (que nos recebeu, acompanhou pelos espaços e nos apresentou às pessoas da
comunidade), compartilhamos ideias e sugestões para futuros projetos, uma vez que a biblioteca
da comunidade, a partir dessa etapa, passa a possuir um computador (desktop) próprio, com
sistema operacional e sistema de automação de biblioteca instalados, etiquetas, treinamento
sobre a funcionalidade de uma biblioteca e informações sobre o que significa automatizar um
acervo para circular entre a comunidade.
Apesar de alcançar os objetivos específicos deste projeto, os desafios para a comunidade
da Ilha de São Vicente/TO ainda são inúmeros. Para que a biblioteca funcione bem e
plenamente, o envolvimento da comunidade deverá ocorrer por meio de sua consciência,
identidade e importância de existir enquanto pessoas que possuem uma história, um território,
um lugar de pertencimento e a esperança em resistir lutando. A biblioteca será o resultado dessa
consciência e atenderá parte das necessidades postas pela própria comunidade, além de nutrir
sua existência e resistência com conhecimento por meio de um acervo que reflita sua história.
Para nós, apesar do fim formal do projeto, o compromisso social com a comunidade
passa a ser individual, de postura política e valorização de sua continuidade, mesmo à distância,
sociabilizaram sua história e a esperança de uma sociedade mais
justa, inclusiva e igualitária conosco, nos renovaram na busca e na luta por essa sociedade.
Axé Muntu!113

113

Expressão criada por Lélia Gonzalez, misturando as línguas ioruba (axé, poder, força, energia, tudo de bom)
intelectuais-militantes/lelia-gonzales/&gt;. Acesso em: 21 jan. 2018.

�REFERÊNCIAS
BASTOS, Gustavo Grandini; ALMEIDA, Marco Antônio de; ROMÃO, Lucília Maria Sousa.
Biblioteca comunitária: mapeando conceitos e analisando discursos. Inf. &amp; Soc.: Est., João
Pessoa, v. 21, n.3, p. 87-100, set./dez. 2011. Disponível em:
&lt;http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/10822/6998&gt;. Acesso em: 22 dez. 2017.
FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? 8. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
FUNDAÇÃO Barros. História da família quilombola da Ilha de São Vicente. Blog. Disponível
em: &lt;http://fundacaobarros.blogspot.com.br/2013/11/historia-da-familia-quilombola-dailha.html&gt;. Acesso em: 31 out. 2017c.

Disponível em: &lt;http://www.palmares.gov.br/comunidades-remanescentes-de-quilomboscrqs&gt;. Acesso em: 31 out. 2017a.
FUNDAÇÃO Palmares Cultural. Certidões expedidas às comunidades remanescentes de
quilombos (crqs) atualizada até a portaria nº 268/2017, publicada no dou de 02/10/2017.
Disponível em: &lt;http://www.palmares.gov.br/file/2017/10/CERTID%C3%95ESEXPEDIDAS-%C3%80S-COMUNIDADES-REMANESCENTES-DE-QUILOMBOS-03-102017.pdf&gt;. Acesso em: 31 out. 2017b.
GONZALEZ, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira. In: LUZ, Madel T. (Org.). O lugar
da mulher. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.
MOURA, Clóvis. Dialética radical do Brasil negro. 2.ed. São Paulo: Fundação Maurício
Grabois; Anita Garibaldi, 2014.
O QUE é biblivre. Disponível em: &lt;http://biblivre.org.br/index.php/sobre-biblivre&gt;. Acesso em:
22 dez. 2017.

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              <text>O trabalho é um projeto de extensão Campus Curitiba, do Instituto Federal do Paraná (IFPR). O objetivo foi promover a organização do acervo da biblioteca no sentido de proporcionar acesso à comunidade quilombola da Ilha de São Vicente/TO. A execução das ações buscou envolver a comunidade, para possibilitar a autonomia em relação a continuidade da organização no uso de técnicas e tecnologias adequadas a sua realidade e condições materiais existentes. A execução do projeto, durante seis dias, foi realizada para treinar membros da comunidade, de modo que pudessem dar continuidade ao projeto de forma autônoma, tanto tecnicamente, quanto no uso da tecnologia para automação do acervo sugerida. O projeto contou com a doação de materiais, dentre eles: etiquetas para os materiais, um computador de mesa (desktop) e periféricos e a licença para o sistema operacional, Windows. A parceria desenvolvida proporcionou o compartilhamento de conhecimentos e a oportunidade em reconhecer que uma biblioteca pode ser desenvolvida a partir das necessidades postas pela própria comunidade.</text>
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