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                  <text>[Ano]

�FUNDAMENTOS E PRÁTICAS
DA MEDIAÇÃO NO
CONTEXTO
INFORMACIONAL

�JÉSSICA PATRÍCIA SILVA DE SÁ
ANDREZA GONÇALVES BARBOSA
MARIA ELIZABETH DE OLIVEIRA COSTA
JORGE SANTA ANNA
(Organizadores)

FUNDAMENTOS E PRÁTICAS DE MEDIAÇÃO
NO CONTEXTO INFORMACIONAL

Belo Horizonte
ABMG EDITORA
2020

�© 2020 Jéssica Patrícia Silva de Sá, Andreza Gonçalves Barbosa, Maria Elizabeth de Oliveira
Costa e Jorge Santa Anna
2020 ABMG Editora
Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita
dos autores
COMISSÃO CIENTÍFICA:
André Fagundes Faria - UFMG
André Gustavo Fonseca da Silva – UFMG
Andreza Gonçalves Barbosa – UFMG
César dos Santos Moreira – IFMG
Eliane Apolinário Vieira Avelar - UFMG
Flávia Virgínia Melo Pinto – UFMG
Gabrielle Francinne de Souza Carvalho
Tanus - UFRN
Gracirlei Maria de Carvalho Lima - UFMG

Guilherme Alves de Santana – UFPE
Ismael Lopes Mendonça – UFMG
Janicy Aparecida Pereira Rocha - UNIRIO
Jéssica Patrícia Silva de Sá – UFMG
João Arlindo dos Santos Neto – UEL
Jorge Santa Anna - UFES
José Alimateia de Aquino Ramos – UFES
Sueli Bortolin – UEL
Tatiane Krempser Gandra – PMMG

NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA E DIAGRAMAÇÃO: Jorge Santa Anna
REVISÃO TEXTUAL FINAL: Jorge Santa Anna
PROJETO GRÁFICO E FORMATAÇÃO DA CAPA e CONTRACAPA: Norma Padrão - Apresentação e
divulgação do trabalho científico
MONTAGEM DA CAPA: Norma Padrão
ASSOCIAÇÃO DOS BIBLIOTECÁRIOS DE MINAS GERAIS – ABMG: Rua dos Guajajaras, 410,
Centro - Belo Horizonte, MG - CEP: 30180-912. Edifício Rotary, Sala 608
Presidenta: Maria Elizabeth de Oliveira Costa – Secretário: Jorge Santa Anna
Demais membros: Andrea Brandão, Edcleyton Bruno Fernandes da Silva, Graciane Borges,
Maria Clea Borges e Taciane Rodrigues

Ficha catalográfica
F981

Fundamentos e práticas da mediação no contexto informacional/
Jéssica Patrícia Silva de Sá ... [et al.] (organizadores) - Belo
Horizonte : ABMG Editora, 2020.
399 p. : il.
Outros organizadores: Andreza Gonçalves Barbosa,
Maria Elizabeth de Oliveira Costa, Jorge Santa Anna.
Inclui bibliografias.
ISBN 978-65-993126-0-1

1. Ciência da informação. 2. Redes sociais. 3. Comunicação.
I. Sá, Jéssica Patrícia Silva de. II. Barbosa, Andreza Gonçalves.
III. Costa, Maria Elizabeth de Oliveira. IV. Santa Anna, Jorge.
CDD: 020
CDU: 02:659.2
Ficha catalográfica elaborada por Vilma Carvalho de Souza – Bibliotecária - CRB-6/1390

�AGRADECIMENTOS
A ideia de fazer uma coletânea com o tema da mediação da informação
partiu de uma necessidade de se explorar as diversas interpretações e
instâncias que abarcam o tema no âmbito da Ciência da Informação. A
organização desta obra, consequentemente, envolveu muitas ações de
mediação por parte da equipe de organizadores, que culminou em muito
esforço e dedicação para que fosse finalizada. Contudo, sem o auxílio de
nossos interlocutores, seria impossível concluir essa empreitada.
São muitas as pessoas envolvidas que merecem ser lembradas e
mencionadas nestes agradecimentos. Considerando o universo amplo da
mediação, agradecemos, em geral, a todos os mediadores envolvidos neste
empreendimento, ou aqueles que atuam como disseminadores da informação,
contribuindo para o desenvolvimento ou melhoria na vida de outrem, sejam
pessoas, organizações, grupos sociais, dentre outros elementos da sociedade.
Cordiais agradecimentos à Escola de Ciência da Informação (ECI) da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pelo apoio e condições de
infraestrutura oferecidos. A ECI é e sempre será a nossa “segunda casa”. Ao
Centro de Extensão da ECI pelo auxílio no lançamento da obra, mediante o
Projeto Luz do Conhecimento.
A todos os autores, avaliadores e prefaciadores que compraram nossa
ideia e se dedicaram tanto quanto nós, contribuindo para a exposição do
conhecimento registrado nesta obra. Aos membros e associados da Associação
de Bibliotecários de Minas Gerais (ABMG), gestão 2018-2020. Sem a ABMG
não

seria

possível

a

publicação

deste

livro,

agradecemos

pelo

apoio

incondicional.
À Norma Padrão – Apresentação e Divulgação do Trabalho Científico –
pela disposição gráfica realizada na capa e contracapa da obra. À bibliotecária
Vilma Carvalho pela elaboração do registro bibliográfico (ficha catalográfica).
Nosso muito obrigado!
Jéssica, Andreza, Maria Elizabeth e Jorge (Organizadores)
Belo Horizonte, 15 de dezembro de 2020.

�“Ao contrário da disseminação, a mediação não está restrita
apenas às atividades relacionadas diretamente ao público
atendido, mas em todas as ações do profissional da
informação, em todo o fazer desse profissional [...]”
(ALMEIDA JÚNIOR; BORTOLIN, 2007, p. 6).

�PREFÁCIO
As discussões sobre mediação da informação estão em amplo crescimento e se
espraiando em vários segmentos da Ciência da Informação.
Parto da ideia de que a mediação da informação não é restrita a um pequeno
espaço dentro da área, mas abarca todo o fazer dos profissionais que atuam nos
equipamentos informacionais.
Um dado importante, que deve ser lembrado é que a mediação da informação,
não apenas no âmbito individual, mas também coletivo, sempre, mesmo não tendo
um objetivo claro, explicitado, cria um conflito.
A ideia de conflito merece uma discussão maior. O usuário, quando se apropria
da informação, tem mudanças em seu conhecimento. Essas mudanças não são
simples, não são pacíficas, ao contrário, elas criam antagonismos entre os
conhecimentos aparentemente sustentados por certezas, e as informações externas
que desestabilizam essas certezas. Em suma, as informações geram conflitos. E só há
mudanças a partir de conflitos. Aliás, as informações externas não desestabilizam
certezas, mas as relações entre o externo e o conhecimento, momentaneamente
estruturado, é que alteram, ou podem alterar, o conhecimento.
O profissional da informação, nos vários processos de mediação da informação
que participa, também gera conflitos. Tais conflitos estão vinculados à lida com as
questões apresentadas, mas também os conflitos se apresentam em outros espaços.
Por exemplo, os mediadores atuam a partir de um perfil ideal do usuário, um perfil do
usuário criado com base no entendimento determinado pela média dos interesses,
necessidades

e

desejos

dos

usuários

que

são

atendidos

pelo

equipamento

informacional. O momento em que os interesses definidos como coletivos e a
necessidade individual, cria conflitos.
Ao mesmo tempo, há conflitos quando usamos, nos nossos equipamentos
informacionais, as ferramentas, os instrumentos de organização da informação. A
própria ideia de organizar a informação é conflituosa. Prefiro dizer que nós
organizamos protoinformações, ou seja, “quase informações”, “talvez informações”,
“quem sabe informações”.
Há conflitos quando refletimos sobre o objeto da Biblioteconomia, da Ciência da
Informação; há conflitos quando discutimos os limites de nossas ações no âmbito da
área. O fazer do bibliotecário, por exemplo, termina quando o usuário tem acesso aos
documentos que podem, talvez, satisfazer uma necessidade, um interesse, um desejo

�informacional? Toda satisfação informacional é momentânea, que gera novas
necessidades. O fim do fazer bibliotecário não deve ser a oferta de acesso a
documentos, mas a apropriação, por parte do usuário, da informação.
A ideia de que o acesso é a linha que marca o fim das ações dos profissionais
da informação, provavelmente tem base na concepção de que tais profissionais
buscam recuperar a informação. E o fazem com a ideia de que há uma informação
para cada usuário; um usuário para cada informação. Essa ideia, desculpe
Ranganathan, não é verdadeira. A informação é construída a partir de interesses dos
que a produzem, e é disseminada já carregada de significados, de ideologias. Todo o
ciclo de vida da informação, que se desdobra e segue caminhos diferentes, com
significados diferentes, é um complexo de interferências, de dispositivos, de
profissionais e, finalizando, dos que dela se apropriam.
A concepção de recuperação da informação deve ser refletida, discutida. A
forma como ela é entendida aponta para um usuário passivo, que recebe informações
determinadas pela organização e pelo serviço de referência. O usuário recebe, é um
receptor, acompanhando o modelo matemático da informação.
A

ideia

de

construção

individual

do

conhecimento,

embora

sempre

e

necessariamente a partir da relação entre o sujeito e o mundo, entre o sujeito e os
outros, se opõe à concepção que baseia a ideia majoritariamente aceita de
recuperação da informação. Essas duas ideias são antagônicas, sendo uma delas, a da
necessidade do sujeito se relacionar com o mundo e com os outros, a que se sustenta
nas bases teóricas da mediação da informação.
A mediação da informação surge como um segmento da área, tanto da
Biblioteconomia como da Ciência da Informação. No entanto, quando o interesse
sobre ela foi aumentando, quando as pesquisas e estudos sobre esse tema foi
crescendo, o espaço da mediação da informação se espraiou no interior das duas
áreas, de tal forma que, hoje, ela é entendida como um fundamento da Ciência da
Informação.
Outro ponto que deve ser apresentado é que a mediação da informação obriga
um olhar para a informação pública, uma preocupação com a informação social, com
concepções da Ciência da Informação voltadas para aspectos sociais.
A Ciência da Informação, inicialmente, voltou-se preponderantemente, para as
informações científicas e tecnológicas, com o uso de tecnologias. No Brasil, a ideia de
informações científicas e tecnológicas, surgida com a constituição do IBICT, se
sobrepõe ao que existia, o IBBD, voltado para a Bibliografia e Documentação. Os

�próprios termos demonstram os caminhos dos interesses da área. Claro que as
informações científicas e tecnológicas são importantes e devem fazer parte das
preocupações da área. No entanto, o que a história permite entender é que as
informações públicas e sociais foram negligenciadas e relegadas a um plano
secundário. A ditadura militar que grassou no Brasil, de 1964 até 1985, teve seu
período mais duro entre os anos de 1970 a 1974. Exatamente nesse período a opção
pelas informações científicas e tecnológicas surge e ocupa os espaços dentro daquele
governo autoritário. Claro que as informações públicas e sociais não faziam parte das
políticas públicas do, então, governo autoritário. Basta lembrar as concepções
presentes na implantação do MOBRAL, uma das políticas educacionais da época.
Pesquisadores e profissionais atuando nas áreas resistem se utilizando das
pequenas brechas existentes nas rígidas vigilâncias. Textos e eventos criam espaços
para discussões e debates e, em especial, questionamentos sobre a opção que
desconsidera a informação pública nas preocupações da academia.
Os anos 1990 começam com a implantação, pelo governo, do neoliberalismo,
que acarreta na negligência desse governo pela educação e pela cultura. Órgãos
oficiais de escalões maiores na organização burocrática estatal, são extintos e a
representação dos campos de interesse da Biblioteconomia, se torna praticamente
inexistente.
O início do século XXI vê uma retomada, ainda que incipiente, das pesquisas
sobre informação pública e social. Hoje, quando iniciamos a terceira década do século,
vários segmentos mais específicos da concepção da Biblioteconomia social e da
Ciência da Informação social estão abrindo espaços entre os interesses dessas áreas.
A quantidade de “lives”, textos e livros provam isso.
Esse pequeno histórico teve uma motivação neste texto: defender que não só a
Biblioteconomia retomou o questionamento sobre os aspectos sociais da área, mas,
em quase igual medida, a Ciência da Informação também passou a direcionar suas
atenções para a informação pública e social. Acredito que a abrangência da mediação
da informação possibilitou esse novo olhar dentro das áreas.
A abrangência da mediação da informação, ocupando espaços em todos os
fazeres do profissional e em muitos dos segmentos das áreas de Biblioteconomia e
Ciência da Informação demonstra sua importância e como hoje está influenciando e
interferindo, trazendo novos olhares e formas de entender as duas áreas.
Os textos presentes neste livro provam o que disse acima. Basta olhar o
sumário para perceber como as discussões que têm a mediação da informação como

�base teórica e local de partida para análises e discussões, são abrangentes e
permitem a constatação de que ela, mediação, ocupou o espaço de fundamento
dentro de ambas as áreas, Biblioteconomia e Ciência da Informação.
A expectativa é de que a mediação da informação tenha um crescente interesse
no futuro e que contribua, novidade teórica e prática que é, com os avanços das
discussões, debates e reflexões da área.

Oswaldo Francisco de Almeida Júnior: Doutor e Mestre em

Ciências da Comunicação, pela ECA/USP. Professor
permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação da UNESP/Marília. Professor Associado da
Universidade Estadual de Londrina. Professor colaborador
no Mestrado Profissional em Biblioteconomia da UFCA. É
mantenedor do site “Infohome” (www.ofaj.com.br).
E-mail: ofaj@ofaj.com.br

�SUMÁRIO

PARTE I - MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO: UM CAMPO PLURAL E
ABRANGENTE ...................................................................................... 11
CAPÍTULO I - A contribuição de Benoit Hardy-Vallée para os conceitos de
mediação da informação ......................................................................... 12
CAPÍTULO

II

-

Mediação

dialética:

questões

para

a

construção

e

compreensão dos objetos informacionais .................................................. 35
CAPÍTULO III - A Biblioteconomia e as ciências informativo-documentárias: a
mediação documentária como um modo de produção ................................. 50
CAPÍTULO IV - Página Viva: tipografia e mediação pela cultura.................. 74
CAPÍTULO V - A prática da mediação em museus: entre o artefato e a
subjetividade ......................................................................................... 91
CAPÍTULO VI - Fundamentos teórico-pragmáticos para promoção das práticas
e dos serviços informacionais: diálogos com Ranganathan, Shera, Grogan e
Accart ................................................................................................. 110
CAPÍTULO VII - Interlocuções sobre mediação de leitura no contexto prisional
e seus desdobramentos contemporâneos ................................................ 135
PARTE

II

-

MEDIAÇÃO

COMO

PROMOTORA

DOS

SERVIÇOS

DE

INFORMAÇÃO .................................................................................... 147
CAPÍTULO VIII - Ações de informação no Laboratório de Tecnologias
Intelectuais ......................................................................................... 148
CAPÍTULO IX - Mediação e serviços de informação nas bibliotecas à luz da
fenomenologia: reflexões e possibilidades ............................................... 168

�CAPÍTULO X - A mediação da informação por meio de desafios: da aquisição
à apropriação de informações em jogos digitais ....................................... 197
CAPÍTULO XI - Bibliotecas e colecionismo: uma experiência de mediação da
leitura por meio da exposição de marcadores de páginas .......................... 213
CAPÍTULO XII - Revistas científicas e suas contribuições para a mediação da
informação .......................................................................................... 230
PARTE III - MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E SEU POTENCIAL NA
PRÁTICA BIBLIOTECÁRIA ................................................................. 245
CAPÍTULO XIII - A mediação da informação e o “tsunami de informações”: o
resgate do protagonismo bibliotecário..................................................... 246
CAPÍTULO XIV - O papel do bibliotecário na disseminação da leitura: acesso,
incentivo e mediação ............................................................................ 270
CAPÍTULO XV - Entre o leitor e o livro: bibliotecário como mediador

de

leitura................................................................................................. 289
CAPÍTULO XVI - Da biblioteca à comunidade: o bibliotecário como agente
cultural ............................................................................................... 305
CAPÍTULO XVII - Mediação literária e a literatura afro-brasileira nas
bibliotecas públicas .............................................................................. 323
CAPÍTULO XVIII - Serviço de referência e mediação: integrando pessoas,
processos e tecnologias ........................................................................ 341
CAPÍTULO XIX - Bibliotecas universitárias e a educação a distância: uma
intermediação necessária no acesso e uso da informação .......................... 369
PALAVRAS DA ABMG EDITORA .......................................................... 395
INFORMAÇÕES BIOGRÁFICAS – COMISSÃO ORGANIZADORA ........... 397

�PARTE I - MEDIAÇÃO DA
INFORMAÇÃO: UM
CAMPO PLURAL E
ABRANGENTE

�12

CAPÍTULO I - A contribuição de Benoit Hardy-Vallée para os
conceitos de mediação da informação
João Arlindo dos Santos Neto
Oswaldo Francisco de Almeida Júnior

1 INTRODUÇÃO
Este capítulo apresenta resultados teóricos originados na tese de
doutorado do primeiro autor, que investigou o estado da arte dos conceitos de
mediação da informação a partir da sua constituição e desenvolvimento
histórico. Nesta comunicação, delimitou-se como objetivo geral discutir como a
teoria de Benoit Hardy-Vallée contribui para a compreensão e legitimação dos
conceitos de mediação da informação. O capítulo é de natureza básica, com
tipologia exploratória e abordagem qualitativa, a partir de uma revisão crítica
de literatura. Para isso, realiza-se um diálogo com diferentes autores, com
ênfase na obra de B. Hardy-Valleé.
Assim como muitos conceitos trabalhados na Ciência da Informação (CI)
são originários e constituídos a partir de diferentes movimentos disciplinares,
sejam eles multi, pluri, inter ou transdisciplinares, identifica-se que os
conceitos de mediação da informação no Brasil também foram constituídos de
algumas dessas maneiras. Comumente, vêem-se investigações teóricas que
buscam compreender como determinado autor pode contribuir para o
entendimento

e

compreensão

dos

conceitos

e

disciplinas

da

ciência.

Reconhece-se o esforço de tais pesquisadores e a relevância desses estudos
para confirmar os aspectos teóricos e conceituais da ciência.
No âmbito da CI, ao buscar por tais pesquisas, pode-se identificar as
seguintes: Teoria crítica da informação no Brasil: a contribuição de Armand
Mattelart (ARAÚJO, 2009); A contribuição de F. W. Lancaster para a Ciência da
Informação no Brasil (ARAÚJO et al., 2009); A contribuição de B. Dervin para a
Ciência da Informação no Brasil (ARAÚJO; PEREIRA; FERNANDES, 2009);

�13

Charles Ammi Cutter: sua contribuição para organização da informação
(MARTINHO; GUEDES, 2009); A contribuição de C. Kuhlthau para a Ciência da
Informação no Brasil (ARAÚJO; BRAGA; VIEIRA, 2010); A contribuição de J. H.
Shera para a Ciência da Informação no Brasil (ARAÚJO et al., 2010); A
contribuição de Tefko Saracevic para a Ciência da Informação no Brasil
(PINHEIRO; SILVA; ARAÚJO, 2012); A contribuição de Robert Merton e
Thomas Kuhn para a visão auto-organizada da colaboração científica: um
estudo metateórico (HILÁRIO; GRÁCIO, 2018); A contribuição de Maria Odila
Fonseca a Arquivologia: teoria, métodos e práticas entre os arquivos, a
docência e a pesquisa (SANTOS, 2018); Bibliografia de bibliografias: a
contribuição de Edson Nery da Fonseca (VERRI, 2019).
Esses

trabalhos

pesquisadores

a

analisam

partir

de

a

contribuição

distintos

teórica

elementos:

de determinados

ocorrência

de

citação,

contribuição direta ou indireta para o campo e contribuição por associação
teórico-conceitual. É o caso deste texto, que associa as dimensões da teoria e
história dos conceitos de B. Hardy-Vallée à constituição dos conceitos de
mediação da informação. Sendo assim, o presente capítulo é composto por
esta introdução e se sucede pelas seguintes seções: mediação da informação e
seus conceitos; história e teoria dos conceitos; e, considerações finais.

2 MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E SEUS CONCEITOS
O conceito de mediação é e pode ser empregado e, portanto,
compreendido por distintos campos do conhecimento. Conforme Davallon
(2007) pontua, a mediação é um conceito “plástico” que se estende pelas
fronteiras e demarcações disciplinares existentes.
Para Marteleto e Andalécio (2006, p. 4), a mediação é “[...] uma
construção teórica destinada a refletir sobre as práticas e os dispositivos que
compõem os arranjos de sentidos e formas comunicacionais e informacionais
nas sociedades atuais, sem perder de vista os elos que, tanto os conteúdos
quanto os suportes e os acervos, mantêm com a tradição cultural”.

�14

Nunes e Cavalcante (2017, p. 15) defendem que “A ideia de uma
epistéme mediacional, assim como a construção de um discurso que situe as
bases teórico conceituais da CI no terreno das Ciências Sociais permite com
que se incorpore a noção de sentido ao conceito de informação [...]”.
Corrobora-se o exposto, tendo em vista que a compreensão em torno do
conceito de informação foi se moldando ao longo do tempo na CI, não de
forma

hegemônica,

mas

por

uma

significativa

parcelada

área.

Esta

compreende a informação sob uma perspectiva holística e plural, dependente
dos sentidos atribuídos a ela e por quem se relaciona e interage com ela.
A partir desse olhar, os estudos voltados para a mediação ampliam seu
foco, isto é, considera-se a informação – até então compreendida como objeto
da CI – mas também o sujeito, reconhecendo sua individualidade e seu papel
imprescindível nos processos de apropriação da informação ou de bens da
cultura (ALMEIDA JÚNIOR, 2015; ARAÚJO, 2014; NUNES; CAVALCANTE,
2017).

Sendo

assim,

interessar-se-ia

aos

investigadores

da

mediação

compreender não como a informação se desloca e/ou chega até o usuário –
mas as implicações e decorrências desse processo contínuo e complexo.
Ao contrário do que alguns textos afirmam, não foi em 2008 ou 2009,
mas em2006, nos anais do EDIBCIC (atual EDICIC) realizado em Marília/São
Paulo, que a definição do conceito de mediação da informação proposta por
Almeida Júnior foi publicada pela primeira vez (SANTOS NETO, 2019). No
entanto, pelo modo como os anais do referido evento foi publicado na época
(CD-R), o trabalho não obteve a mesma visibilidade e alcance daquele
apresentado em 2008 no ENANCIB e em 2009 na Revista Tendências da
Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação (TPBCI) e aparece como o mais
citado entre os trabalhos sobre mediação da informação. Em relação ao
referido conceito, Martins (2010, p. 154) ressalta que:
Do ponto de vista da formulação teórica, este é o único autor, no
âmbito de nosso corpus, que tem tentado conceituar a expressão
“mediação da informação”, concebida por inúmeros pesquisadores do
campo
como
intuitivamente
assimilada,
subentendida
ou
consensualmente sedimentada. Assim, na formulação de seu
conceito, o autor empreende um esforço para tratar teoricamente uma
noção cujo uso se difunde pelo campo.

�15

Posteriormente, durante palestra realizada no I Encontro de Pesquisa em
Informação e Mediação (EPIM), em Londrina/PR, Almeida Júnior apresentou na
palestra de abertura a reformulação do conceito elaborado em 2006. O novo
conceito, por sua vez, foi publicado formalmente em 2015 e apresenta a
seguinte concepção de mediação da informação:
[...] é toda ação de interferência – realizada em um processo, por um
profissional da informação e na ambiência de equipamentos
informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente;
singular ou plural, individual ou coletiva; visando a apropriação de
informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea,
uma
necessidade
informacional,
gerando
conflitos
e
novas
necessidades informacionais (ALMEIDA JÚNIOR, 2015, p. 25).

O referido conceito já foi amplamente discutido em outros textos e,
também, por outros pesquisadores. Santos e Gomes (2015) consideram que
após o “[...] estabelecimento do conceito de mediação da informação por
Almeida Júnior, somaram-se outros estudos que procuraram expandir o olhar
acerca da ação mediadora da informação”. De acordo com Nunes e Cavalcante
(2017):
[...] no caso da mediação da informação, ressalta-se a sua importância
enquanto
ferramenta
teórica-conceitual
no
deslindamento
da
complexa relação entre profissional, indivíduos e acesso às fontes e
recursos informacionais, entendendo a sua prática como uma ação de
interferência, logo, distante de qualquer pretensa tentativa de
imparcialidade por parte de quem medeia ou se coloca entre algo
envolvendo dois ou mais entes.

Os autores corroboram o conceito de Almeida Júnior e ressaltam que a
mediação da informação deve ser reconhecida como elemento fundamental
para se compreender as complexas interlocuções entre mediador, sujeito e
recursos informacionais.

3 HISTÓRIA E TEORIA DOS CONCEITOS
A História dos Conceitos se desenvolveu no séc. XX na Alemanha, de
modo multidisciplinar, sobretudo a partir da interlocução com as seguintes
disciplinas: Filologia, História da filosofia e Hermenêutica. Tal perspectiva
historiográfica foi criada pelo historiador alemão Reinhart Koselleck (1923-

�16

2006) fundador e o principal teórico da história dos conceitos. Considerada
também como disciplina da História que busca a análise histórica dos
conceitos, integra a agenda de pesquisa de diferentes universidades pelo
mundo.
Para que uma palavra/termo torne-se conceito, ela necessita ser
representativa e significativa em um determinado contexto. Koselleck (2006)
enfatiza que há uma polissemia dos conceitos, isto é, dependente dos atores,
contextos, emprego, uso, mudança social.
Figura 1 – História dos Conceitos

Fontes: Os autores (2020).

A figura sobreposta foi elaborada com o intuito de representar a interrelação entre as duas dimensões da história dos conceitos. Enquanto a
primeira dimensão é caracterizada por se debruçar sobre o exercício
especulativo acerca de aspectos ônticos1 relacionados ao conceito, a segunda
se atém ao estudo histórico e científico do conceito. Essas dimensões
convergem para um prisma historiográfico, considerando a ressignificação dos
conceitos (diacronia) comparado ao seu uso semântico (sincronia) num dado
contexto.
Investigar a teoria e a historicidade dos conceitos é um movimento
essencial de tempos em tempos, visto que eles são (re)criados e desenvolvidos
em um período histórico e contexto determinados, e com o tempo, podem ser
complementados, questionados e, até mesmo, refutados. Proto (2011, p. 75)
descreve que os conceitos são “[...] categorias heurísticas e ‘encarnadas’ em

1

“Relativo ao ser, ao seu estudo, sua natureza e suas características” (ÔNTICO, 2020).

�17

dadas situações históricas, nas quais foram formulados e transformados em
apreensões conceituais”.
Ao estudar a história dos conceitos, descobre-se como ocorreu o
desenvolvimento disciplinar de uma ciência, quais foram os precursores e
pesquisadores-chave, quais foram os avanços e retrocessos que o emprego de
um conceito proporcionou em determinado período histórico, teoria, escola
científica etc. (RABELLO, 2008).
Koselleck (2006) e Barros (2016) ressaltam que estudar a história dos
conceitos não pode ser um ato dissociado da história social. O entendimento
de um conceito não se restringe a compreensão de seu significado, durante
sua análise deve-se ultrapassar a barreira linguística e semântica, pois atrás
dele há muito mais a ser analisado.
Por apresentar elevada contribuição para as áreas do conhecimento, os
conceitos são indispensáveis, visto que são eles que a sustentam. As
disciplinas do campo científico se

fundamentam em bases conceituais

consolidadas e reconhecidas que afirmam a sua relevância como campo do
saber. Desse modo, “[...] os campos do conhecimento que aceitam discutir o
seu estatuto – por exemplo: a possibilidade ou não de sua cientificidade –
também demandam conceitos” (BARROS, 2016, p. 9).
No prefácio da obra Que é um conceito, Ferreira (2013, p. 12) pontua
que “Criar um conceito não consiste em se fechar numa ideia, mas em
multiplicar as ocasiões de eventos, em aumentar o possível. O conceito,
qualquer que seja sua definição ou o discurso que o construiu, não é uma
simples descrição, nem uma simples representação abstrata que alimenta
ideias gerais e/ou generalistas”. Os conceitos não surgem do nada, mas a
partir da criação de pressupostos, que categorizam o conceito como “ideia
filosófica” (MOSTAFA, 2011). Além disso, sua constituição se dá ao longo da
história envolvendo diversos pesquisadores de um determinado campo de
estudos (BARROS, 2016). Elaborar e propor conceitos não consiste em mera
apresentação de
[...] argumentos e discursos deterministas, mas construir perspectivas
conceituais e representacionais nos processos temporais/reais em
diálogo com diversas ideias, estudos e estudiosos, postulando novas
formas de vera realidade objetiva (CARVALHO, 2016, p. 15).

�18

Os fenômenos que se dão na esfera social, política, cultural ou
educacional,

por

exemplo,

decorrentes

da

sociedade,

podem

levar

os

pesquisadores à construção de conceitos. Le Coadic (2004, p. 55) compreende
que são os “[...] conceitos unívocos que tornam os conhecimentos científicos e
técnicos

em

conhecimentos

objetivos

ou

tendentes

à

objetividade.

Caracterizam-se por não terem ou tenderem um único sentido para abarcar
um conjunto definido de fenômenos”. Os conceitos são sugeridos e ao mesmo
tempo aceitos/adotados pelo sujeito (sempre o pensando no contexto social,
nunca isolado). Rabello (2010) discorre que:
Quando um conceito é construído, sobretudo no âmbito das ciências
sociais, em formulações teóricas convergentes, ele tende a não
modificar a essência de seu conteúdo. A repetição é necessária para que
o conceito seja compreendido e mais bem assimilado num jogo teórico
persuasivo entre os pares acadêmicos. Nesse caso, a repetição e a
relativa linearidade dos conteúdos conceituais adquirem dimensão
política.

Outra importante contribuição para o campo da teoria dos conceitos,
advém de Ingetraut Dahlberg (1927-2017), cientista da informação e filósofa
alemã. Dahlberg é reconhecida internacionalmente na Ciência da Informação,
dentre

outros

fazeres, por sua

trajetória

com

o

campo

conceitual

e

terminológico no âmbito das Ciências Sociais, sobretudo, para a área de
classificação e organização do conhecimento. Seu clássico texto intitulado
“Teoria do Conceito”, publicado em 1978, determina que os conceitos podem
ser classificados como individuais e gerais. “Com a ajuda das linguagens
naturais é possível formular enunciados a respeito tanto dos conceitos
individuais como dos conceitos gerais. É em base a tais enunciados que
elaboramos os conceitos relativos aos diversos objetos” (DAHLBERG, 1978, p.
102).
Santos e Simeão (2016, p. 4) afirmam que a teoria do conceito
possibilita “[...] minimizar os obstáculos referentes ao significado da mediação
da informação [...]”, e que “[...] o estabelecimento de uma série de
enunciados verdadeiros contribui para alcançar o entendimento do conceito”.
Para esta comunicação, no entanto, a ênfase será a partir da teoria de B.

�19

HardyVallée, visto que apresenta de maneira objetiva e, não por isso menos
complexa, as possibilidades de interpretação em relação às teorias do conceito.

3.1 TEORIA DOS CONCEITOS A PARTIR DA VISÃO DE B. HARDY-VALLÉE E A
MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO
B. Hardy-Vallée é graduado e mestre em Filosofia pela Universidade de
Québec e doutor em Filosofia pela Écoles dês Hautes Études em Sciences
Sociales de Paris. Em sua obra Que é um conceito, Hardy-Vallée discute - sob
a ótica de diversos pensadores renomados no campo da Filosofia -, “que é?”,
“como funciona”, “para que serve” e “como se constrói” um conceito
(FERREIRA, 2013).
Hardy-Vallé (2013) estabelece cinco dimensões para discorrer sobre as
teorias do conceito: o invariante; o critério; a aquisição e o formato; a
organização; e, a função. A seguir, se discute cada uma delas.
a) o invariante
A primeira dimensão refere-se a algumas propriedades invariáveis, isto
é, quando o conceito indica certas propriedades que não variam entre o
conceito de alguma coisa, isto é, quando todas as particularidades de uma
categoria de um conceito apresentam qualidades em comum. “O conceito é um
universal que representa particularidades [...]” (HARDY-VALLÉE, 2013, p. 19).
O conceito de mediação, por exemplo, apresenta qualidades intrínsecas
às suas distintas extensões2, isto é, todas elas carregam consigo fatores
invariantes como o diálogo, a subjetividade, o contexto, o conflito; estes,
sempre estarão presentes.
Ainda nesta dimensão, encontram-se dois sentidos: uniformidade e
estabilidade (HARDY-VALLÉE, 2013). Nesse sentido, pode-se dizer que o
conceito mediaçãopossibilita a identificação do que não varia de uma
mediação para outra (ação realizada por mediadores, processo caracterizado
pela presença de um terceiro, função pragmática, por exemplo). Compreender
2

Sobre as extensões do conceito de mediação, ver Santos Neto (2019).

�20

a invariância do conceito de mediação, pela ótica da estabilidade, significa
identificar as propriedades persistentes, duradouras.
O invariante do conceito é discutido ainda, por Hardy-Vallée (2013), a
partir de três concepções: psicológica, metafísica e linguística. Segundo a
primeira, psicológica, o invariante se situa no intelecto, a partir da percepção
(conhecimento pelos sentidos) e da concepção (conhecimento pelo raciocínio)
do indivíduo. Quanto ao conceito de mediação, salienta-se que ele não pode
ser “percebido”, pois não se refere a um “conceito empírico”, conforme Kant
postula, visto que nele não há “conteúdo empírico”: forma, som, textura. De
acordo com a segunda, metafísica, mais realista, o invariante “[...] não é um
signo, mas uma natureza que existe de maneira autônoma” (HARDY-VALLÉE,
2013, p. 42). Essa concepção diz respeito a uma natureza não mental, a uma
permanência contida no conceito. Ao aproximar essa concepção para o
conceito de mediação, poder-se-ia dizer que ela se refere ao que não varia de
uma mediação para outra, ou seja, às essências e pensamentos autônomos
que têm sua própria existência.
Por

fim,

a

concepção

linguística

compreende

a

expressão

dos

pensamentos e ideias por meio da linguagem, dos signos linguísticos, das
palavras. Logo, há que se ter um cuidado no uso das palavras para se referir a
um conceito, seguir o que Wittgenstein chama de “jogo de linguagem”
(HARDY-VALLÉE, 2013). Nesta perspectiva, subentende-se que analisar o
conceito de mediação não consiste em listar as propriedades que ele possui,
mas as que ele deve possuir. Esse jogo, o qual Wittgenstein se reporta, pode
ser deflagrado, por exemplo, quando os especialistas do campo da mediação
descrevem as diretrizes para o uso da palavra “mediação” distinguindo as
inferências verdadeiras das falsas, que se pode fazer a partir do conhecimento
de mediação que se obtém a partir dos estudos. Um exemplo é quando o
termo “uso” começa a ser menos utilizado e o termo “apropriação” passa a ser
empregado nas publicações.
b) o critério
A segunda refere-se a uma regra que possibilita incluir a “coisa” na
categoria de conceito. Essa dimensão, critério, pode ser analisada a partir de

�21

duas perspectivas: condições necessárias e semelhança (HARDY-VALLÉE,
2013). A primeira, diz respeito às condições necessárias e suficientes para uma
“coisa” ser. “Uma condição A é necessária para uma condição B, se a ausência
de A implica a ausência de B” (HARDY-VALLÉE, 2013, p. 62, grifo do autor).
Logo, quando se pensa na mediação, identifica-se como critério a sua
composição tripla, visto que é uma condição para que a mediação ocorra. Na
mediação, medeia-se algo para alguém, logo, requer a presença de três
elementos. O mediador, humano ou não, se coloca ou é colocado entre as duas
partes, exemplo: usuário e informação. Assim, ser composta por três
elementos é uma condição necessária para que seja de fato mediação: se a
situação não é composta por três elementos, não pode ser mediação.
A segunda compreende a associação de uma “coisa” em determinada
categoria

(conceito)

pela

semelhança,

analogia,

não

pelas

condições

necessárias. Hardy-Vallée (2013, p. 72) evidencia que, a semelhança deve ser
interpretada em sentido amplo: “A se assemelha a B somente se houver pelo
menos uma propriedade que A e B têm em comum e pelo menos uma que não
têm em comum. Podemos categorizar segundo uma semelhança perceptual ou
mais abstrata”. Quando se vê duas pessoas, bibliotecário e usuário, por
exemplo, conversando no balcão do serviço de referência, mesmo sem saber
exatamente do que se trata, presume-se de que está havendo uma mediação.
Isso ocorre não porque as condições necessárias à mediação foram aplicadas,
mas porque a imagem de duas pessoas conversando no setor de referência se
assemelha a ideia, que se conhece, de mediação em bibliotecas.
c) a aquisição e o formato
A terceira dimensão inclui a aquisição e o formato. De acordo com
Hardy-Vallée (2013, p. 78), duas questões são necessárias para esta
dimensão:
(1) A aquisição: esse conhecimento, eu nasci com ele? Eu o aprendi? Em
caso afirmativo, como?
(2) O formato: o conceito representa as coisas por semelhança? Senão,
são ideias ou definições que significam?

Esta dimensão se refere a uma representação abstrata do conceito, ou
seja, quando não se consegue ter uma imagem mental concreta dele. Hardy-

�22

Vallée (2013) enfatiza que um conceito deva ser minimamente abstrato. O
entendimento de abstrato pode ser feito tanto a partir da concepção de
abstração (quando se abstrai uma ideia geral) quanto pela “palavra” em si,
que se remete à generalidade e ao caráter não perceptual da ideia. Para essa
reflexão, abstração x generalização, o referido autor apresenta quatro posições
teóricas distintas sobre a aquisição e o formato: empirista, racionalista,
pluralista e analítico-linguística. Segundo Hardy-Vallée (2013, p. 79):
Cada concepção postula um formato e um tipo particulares de aquisição
de conhecimentos, fazendo de uma faculdade ou do casamento de duas
faculdades a sede do conhecimento: a percepção para o empirismo, a
concepção para o racionalismo, as duas primeiras para o pluralismo, e a
linguagem para a posição analítico-linguística.

O conceito de “mediação da informação” é composto por outros dois
conceitos: mediação e informação. Logo, sob a ótica empirista, é necessário
ter tido uma experiência com mediação e com informação (assim como ter a
capacidade de combiná-los), para se ter o que é denominado pelos filósofos de
“conceito compósito”. Na visão racionalista, por sua vez, se defende a posição
de que os conceitos não são adquiridos, mas construídos a partir de uma ação
intelectual, do trabalho reflexivo do pensamento. O pluralismo, por sua vez,
consiste na combinação das duas faculdades: perceptiva e intelectiva. Por fim,
incide a posição analítico-linguística, a qual considera que todo conceito é uma
entidade linguística e que se aprende um conceito aprendendo uma língua
(HARDY-VALLÉE, 2013).
d) a organização
A quarta dimensão refere-se à possibilidade de categorizar as “coisas” e,
logo, agrupar tais categorias em outras maiores. Para Hardy-Vallée (2013, p.
91), “[...] os conceitos são organizados sistematicamente em relações de
conjunto (A é uma espécie de B). Desse modo, pode-se categorizar um
conceito em dois eixos: vertical (referente ao grau de generalidade) e
horizontal (referente à segmentação de um nível).
No eixo vertical, Hardy-Vallée (2013) apresenta o seguinte exemplo:

�23
Figura 2 – Relações sistemáticas entre os conceitos

Fonte: Hardy-Vallée (2013, p. 93).

A partir desta representação, pode-se analisar o que os lógicos chamam
de “lei da proporcionalidade inversa”, isto é, a extensão dos conceitos mais
específicos se insere na dos mais gerais, mas o inverso não se dá igualmente;
assim como, a intensão dos conceitos mais gerais está incluída na dos mais
específicos, mas o inverso não ocorre (HARDY-VALLÉE, 2013). Desse modo,
compreende-se que todos os cães são animais, mas não que todos os animais
são cães, e que todas as propriedades dos animais estão presentes nas
propriedades dos cães, mas não que todas as propriedades dos cães sejam
também propriedades dos mamíferos.
Em analogia a essa Lei, localizou-se na literatura a discussão de Barros
(2016),

em

que

o

autor

delimita

duas

dimensões:

“extensão”

e

“compreensão”. Segundo o autor, as duas dimensões são inversamente
proporcionais, ou seja, quanto maior a extensão de um conceito menor a sua
compreensão e, de maneira inversa, à medida que se enriquece “[...] a
compreensão de um conceito – fornecendo elementos que melhor o delimitam
– a extensão diminui, pois o conceito deixa de se aplicar a muitos casos e
passa a corresponder a um menor número de casos ou objetos [...]” (BARROS,
2016, p. 72). Para o autor, uma espécie de equilíbrio entre compreensão e
extensão é uma condição essencial para uma formulação conceitual adequada.
Ao aplicar a referida lei ao conceito discutido neste capítulo, mediação,
tem-se no eixo vertical, da generalidade,a seguinte representação:

�24
Figura 3 – Relações sistemáticas entre os conceitos de mediação

Fonte: Os autores (2020).

A representação indicada na figura 3 foi elaborada com o intuito de
demonstrar como se dão as relações sistemáticas entre os conceitos de
mediação, com foco na mediação da informação. Sendo assim, entende-se que
toda mediação explícita ou implícita da informação é mediação, mas não que
todas as propriedades da mediação explícita ou implícita estão presentes nas
propriedades da mediação (conceito geral), pois nele, residem ainda diversas
extensões: mediação da cultura, mediação da leitura, mediação pedagógica,
dentre outras. Tal diferenciação é fundamental para compreensão do conceito
de mediação na medida em que se evite uma naturalização do conceito ou seu
uso indevido, muitas vezes presente no senso comum e no cotidiano de
profissionais, pesquisadores e estudantes da CI.
No eixo horizontal, Hardy-Vallée (2013) indica a ocorrência de vários
conceitos de um mesmo nível inferiores a um único nível. Utilizam-se aqui as
mesmas extensões indicadas anteriormente: mediação da cultura, mediação
da leitura, mediação pedagógica. Cada um desses conceitos faz parte da
extensão mediação, e mediação faz parte da intensão de cada um deles.
Ainda que sejam conceitos de um mesmo nível, não são idênticos e, portanto,
não

podem

ser

considerados

como

sinônimos

ou

ser

associados

superficialmente. Assim, reafirma-se que o conceito mediação é analisado e
dividido em diversos conceitos e extensões. Hardy-Vallée (2013) enfatiza que
a necessidade

de organizar conceitos e o

conhecimento em relações

sistemáticas (grupos, categorias conjuntos etc.) é natural entre os humanos.

�25

e) a função
A quinta dimensão trata da função do conceito, que pode ser definida sob
a ótica da metafísica ou da epistemologia (HARDY-VALLÉ, 2013), a partir de
múltiplas funções.Na visão da metafísica, procura-se estabelecer “[...] a
verdadeira natureza da ‘coisa’, independentemente de nossa maneira de
conhecê-la” (HARDY-VALLÉE, 2013, p. 101), ou seja, quando o conceito
procura descrever exatamente uma parte do universo. Para este caso, o autor
toma como exemplo as taxonomias, que visam a categorização das coisas de
maneira adequada e sua análise semântica.
Do ponto de vista da epistemologia dos conceitos, interesse maior dos
autores deste capítulo, a verdadeira natureza de uma “coisa” é determinada a
partir de conhecimentos de um agente e que, para tal, “[...] estuda-se a
representação de um conceito num indivíduo ou numa classe de indivíduos
(sociedade, cultura, grupo etc.)” (HARDY-VALLÉE, 2013, p. 101). Sendo assim,
ainda de acordo com o referido autor, analisar um conceito sob a ótica da
epistemologia não significa definir normas, mas discorrer sobre o uso (correto
ou não) de um conceito num determinado contexto, isto é, sua função num
prisma psicológico. Para tal, Hardy-Vallée (2013) divide as funções em três
tipos: gnosiológicas, inferenciais e linguísticas. O primeiro, referente à teoria
do conhecimento, descreve que os conceitos permitem conhecer o mundo e
realizar inferências, seja para sustentar ou rejeitar afirmações (a priori ou a
posteriori). O segundo compreende a função inferencial, que pode se dar pela
dedução, abdução e indução3. O terceiro, linguístico, Hardy-Vallée (2013, p.
104) afirma que “Os conceitos viajam pelos livros e pelas palavras e têm
funções linguísticas: a comunicação e a significação”. Logo, a comunicação
seria prejudicada ou, até mesmo, impedida sem “[...] as relações semânticas
que os conceitos nos fornecem” (HARDY-VALLÉE, 2013, p. 104).
Com o intuito de estabelecer resumidamente as diferenças entre
metafísica e epistemologia, quanto à teoria dos conceitos apresenta-se o
seguinte quadro.

3

Dedução: parte-se do universal para o particular. Abdução: a partir de um caso otoma-se
como regra. Indução: parte-se do particular para o universal.

�26
Quadro 1 – Metafísica e epistemologia dos conceitos
FUNÇÃO METAFÍSICA
FUNÇÃO EPISTEMOLÓGICA
Determina
a
maneira
como
agentes
Determina a natureza da coisa
cognitivos,
individual
ou
coletivamente,
conhecem a coisa
Especifica a intensão e a extensão reais Especifica a intensão e a extensão a partir dos
(ótimas)
agentes
Descrição: o que deve ser o caso, segundo
Norma: o que deve ser o caso realmente para
um agente ou uma coletividade, para que
que uma coisa caia sob um conceito
uma coisa caia sob um conceito
Determina
o
conteúdo
psicológico
os
Determina o conteúdo semântico inferências
processos cognitivos em ação no uso do
autorizadas por um conceito
conceito
Fonte: Hardy-Vallée (2013, p. 106).

Verifica-se similaridades entre a teoria de Hardy-Valléé (2013) e Barros
(2016), sobretudo, quanto à função dos conceitos. Em relação a função dos
conceitos, Barros (2016) propõe seis: comunicar, organizar, generalizar,
comparar, problematizar e aprofundar, conforme a figura a seguir:
Figura 4 – Seis funções dos conceitos

Fonte: Barros (2016, p. 36).

A função de comunicar

efetiva-se

quando um sujeito ou grupo

comunicam entre si a partir de uma linguagem comum sobre um determinado
tema de interesse. Essa função de comunicar está relacionada ao que
Wittgenstein e Hardy-Vallée denominaram como “jogo de linguagem”, ou seja,
quando os especialistas do campo da mediação descrevem as diretrizes para o
uso do conceito para aceitação de uma comunidade. A organização por sua
vez, refere-se à capacidade de tornar inteligível uma dada realidade. HardyVallée (2013) compreende a função “organização” como a categorização do

�27

conceito, relacionada à sua extensão e intensão. Quanto à generalização,
ocorre quando se percebem características comuns e divergentes e, a partir
justamente delas, é possível atingir a função de comparação. Segundo HardyVallée (2013), essa função poderia ser compreendida também a partir da
aquisição e formato do conceito, conforme já discutido. Por fim, as funções de
problematização e aprofundamento caminham juntas, pois na primeira
descobre-se os caminhos que são formados pelos conceitos, os pontos de
junção e possibilidades de fruição a novos caminhos, novas direções; ao passo
que o segundo, consiste em ir além dos níveis ingênuos do senso comum e ser
mais sutil (BARROS, 2016).
Por fim, Barros (2016, p. 40, grifo do autor) destaca que “Não é função
de o conceito resgatar ou capturar a realidade (os conceitos não são a
realidade). Os conceitos favorecem, sim, a construção de certas ‘imagens da
realidade’: imagens organizadas, problematizadas e de profundidade”.
A mediação em seu conceito genérico pode apresentar funções distintas
assim como a extensão mediação da informação, que pode apresentar como
umas de suas funções: apropriação, autonomia, aprendizado, dentre outras.
Salienta-se que a proposta do conceito de mediação da informação
estruturado e formalizado por Almeida Júnior (2006, 2015) é vinculada e
situada à ambiência dos equipamentos informacionais e a atuação dos
profissionais da informação. Logo, identifica-se no conceito a sua compreensão
e extensão, conforme elucida Barros (2016) quanto a abrangência dos
conceitos. No entanto, o referido autor salienta que
[...] dois autores podem chegar a uma “compreensão” mais ou menos
próxima e, no entanto, diferirem significativamente na sua concepção
concernente à “extensão” do conceito, uma vez que discordem em
relação a quais casos observáveis se enquadrariam no conceito
proposto (BARROS, 2016, p. 124).

A referida citação fundamenta e clarifica o entendimento sobre o conceito
de mediação sob o ponto de vista de sua compreensão e extensão, ou seja, ao
tempo que se pode compreender a mediação como ação de interferência
(ALMEIDA JÚNIOR, 2015) realizada por um terceiro; num processo dialógico,
formativo, ético, estético e político (GOMES, 2014, 2017); que visa a

�28

apropriação e a transformação de uma dada realidade; a sua plasticidade
(DAVALLON, 2007) faz com que a extensão do conceito seja diversa e
impulsiona os conceitos de mediação da informação, mediação da cultura,
mediação da leitura, mediação pedagógica, entre outros. É necessário
reconhecer na polissemia dos conceitos, assim como Barros (2016) discute,
não

como

uma

fragilidade

ou

incapacidade

conceitual,

mas

como

potencialidade para múltiplos olhares e interpretações.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quando um profissional da informação, por exemplo, bibliotecário,
arquivista, ou mesmo outro profissional que lida com a informação, jornalista,
programador, designer, utiliza o conceito de “mediação”, frente às diversas
possibilidades de sentido, faz-se necessário de alguma forma esclarecer o
sentido mais objetivo em que o conceito está sendo empregado. Seria
possível, por exemplo, empregar um ou outro conceito de “mediação da
informação” em qualquer contexto? Em muitos casos o termo é tomado como
senso comum entre o discurso dos profissionais da Biblioteconomia e CI e,
mais recentemente, em outras disciplinas também.Todavia, ao conceituar
“mediação” como “ação realizada por mediadores”, dá-se a este conceito uma
extensão muito grande (e possivelmente “inútil”), a qual passa a abarcar
diversas ações de mediadores, humanos e não humanos. Por outro lado,
reduz-se

a

compreensão

do

conceito

a

poucos

elementos

(processo,

interferência).
O conceito de mediação é fundacional, por exemplo, para um dos
paradigmas emergentes da CI, como o da apropriação cultural, discutido por
Perrotti e Pieruccini (2014). Para este campo de discussão, o que caracteriza
tal relevância do conceito é o fato de que a mediação coloca o sujeito no
centro do processo e lhe interessa mais os desdobramentos da pós-relação
entre ele e a informação, que minimamente compreender como a informação
chegou até ele. Não seria possível, portanto, reconhecer e analisar a

�29

complexidade dos processos e práticas informacionais sem interpretar as
implicações decorrentes da mediação, ou especificamente, da mediação da
informação.
O conceito de mediação é universal, no sentido de que permite saber que
a mediação é uma ação de interposição e/ou interferência que visa a resolução
de conflitos, a ligação entre dois elementos, o estabelecimento de uma relação
satisfatória entre eles. O conceito de mediação pode ser visto a partir de suas
funções, com argumentos bem definidos, por exemplo, quando possibilita a
autonomia,

aprendizado

e

apropriação

dos

sujeitos,

construção

e(re)conhecimento de sua identidade cultural, social, política. O conceito, ou
melhor, a extensão dele mediação da informação é composta por dois
conceitos mais primitivos e ainda mais amplos e genéricos: mediação e
informação. Por isto sua conceituação é complexa e necessária.
Considera-se ainda, por exemplo, que é ausente de propósito e
redundante a definição de que “a mediação é uma ação realizada por
mediadores” ou de que “a mediação é um processo caracterizado pela
presença de um terceiro” (essa relação triádica pode ter entes diferentes),
definições como essas não fazem avançar o conhecimento científico. E é com o
intuito de justamente avançar as discussões sobre as teorias do conceito de
mediação que este capítulo foi elaborado, suscitando novos debates e não os
findando.

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2. Acesso em: 14 jun. 2020.
SANTOS NETO, J. A. O estado da arte da mediação da informação: uma
análise histórica da constituição e desenvolvimento dos conceitos. 2019. 460
p. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Faculdade de Filosofia e
Ciências, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Marília,
2019. Disponível em: https://www.marilia.unesp.br/Home/PosGraduacao/CienciadaInformacao/Dissertacoes/santos_neto_ja_do_mar.pdf.
Acesso em: 05 jun. 2020.
VERRI, G. M. W. Bibliografia de bibliografias: a contribuição de Edson Nery da
Fonseca. Em Questão, v. 25, p. 39-66, 2019. DOI:10.19132/1808524500.39-66. Acesso em: 20 jun. 2020.

�34

DADOS BIOGRÁFICOS

João Arlindo dos Santos Neto: Bacharel em Biblioteconomia
pela UEL. Doutor e Mestre em Ciência da Informação pela
UNESP/Marília. Professor do Departamento de Ciência da
Informação da UEL. Atua com os seguintes temas da pesquisa:
mediação da informação; mediação implícita da informação;
interferência do profissional da informação; ética na mediação
da informação.Responsável pela Coluna intitulada “Sala de
aula: dia a dia na universidade” publicada no INFOhome.
E-mail: santosneto@uel.br

Oswaldo Francisco de Almeida Júnior: Bacharel em
Biblioteconomia e Documentação pela FESPSP. Doutor e
Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Professor
Associado da UEL, Professor Titular do Programa de PósGraduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília e
Professor
Colaborador
do
Mestrado
Profissional
em
Biblioteconomia da UFCA. Tem experiência na área de Ciência
da Informação, atuando principalmente nos seguintes temas:
informação e sociedade, mediação da informação, serviço de
referência e informação, bibliotecas públicas e biblioteconomia.
Presidente da ANCIB 2019-2021. Mantenedor do site
INFOhome.
E-mail: ofaj@ofaj.com.br

�35

CAPÍTULO II - Mediação dialética: questões para a
construção e compreensão dos objetos informacionais4
Ana Amélia Lage Martins

1 INTRODUÇÃO
O

termo

mediação

(e

suas

variantes

mediador,

mediações)

é,

inegavelmente, um dos operadores conceituais mais frequentes nos discursos
produzidos por pesquisadores e pesquisadoras do campo da Ciência da
Informação brasileiro na contemporaneidade.
Sua

consolidação

torna-se

evidente

não

apenas

na

literatura

especializada da área, mas na nomeação de disciplinas, programas de PósGraduação, eventos científicos, cursos, grupos e linhas de pesquisa5, assim
como de diversas ações da prática profissional do bibliotecário, tais como a
“mediação da leitura”, “mediação da informação” e “mediação cultural” etc.
A emergência da mediação como categoria analítica a partir da década
de 1980 no campo da Comunicação e Informação tem como contexto histórico
geral: a) a reorganização capitalista a partir das crises de acumulação das
décadas de 1960/70 e a posterior instauração do modelo de “Sociedades da
Informação”

4

que,

curiosamente,

traziam

como

promessa

o

“fim

das

As principais questões apresentadas neste texto são frutos da pesquisa “Mediação
informacional: perspectivas sócio-históricas” realizada pela autora no âmbito do estágio pósdoutoral feito junto ao Programa de Pós-Graduação do IBICT/UFRJ sob a supervisão da
professora Dra. Regina Marteleto entre 2018 e 2019.
5
Como exemplos podemos citar: o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
(PPGCI) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que tem como área de concentração
“Informação, Mediação e Cultura”, o “Encontro de Pesquisa em Informação e Mediação”, os
grupos de pesquisa “Fluxos e Mediações Sócio-Técnicas da Informação”, da Universidade
Federal Fluminense, “Mediações e representações culturais e políticas”, da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, “Competência e mediação em ambientes de informação”, da
Universidade Federal do Ceará, o Grupo de Trabalho- GT 3 da Associação Nacional de Pesquisa
e Pós-Graduação em Ciência da Informação e Biblioteconomia (ANCIB), “Mediação, circulação
e apropriação da informação”, além de variadas disciplinas nos currículos de Biblioteconomia,
Museologia e Arquivologia denominadas “mediação da informação”, “mediação cultural” e
“mediação da leitura”.

�36

mediações”; b) a emergência de “novos movimentos sociais”, que colocavam
em questão temas que não se explicavam somente em termos de classe, mas
que se ligavam especialmente aos aspectos das identidades; c) os processos
de democratização pelos quais passaram países da América Latina e a
legitimação de novos espaços e atores “mediadores” da participação política,
como os Conselhos e as organizações da Sociedade Civil; d) a crescente
informatização das sociedades e a emergência de “novas tecnologias da
informação e comunicação”.
As mudanças econômicas, sociais, políticas e culturais que decorreram
deste contexto colocaram para as Ciências Sociais, de maneira geral, uma
necessidade de alteração dos modos a partir dos quais eram vistos seus temas
e objetos tradicionais.
É nesta reorientação paradigmática que a categoria mediação, já
empregada há centenas de anos na Filosofia e há algumas décadas nas teorias
de Vygotsky, Adorno, Gramsci etc., é incorporada pela Comunicação, pela
Biblioteconomia e pela Ciência da Informação.
A relevância do termo e a polissemia que historicamente tem marcado
seu uso na Ciência da Informação colocaram a mediação não apenas dentro do
quadro teórico da área, mas a converteram em um hoje frequente objeto de
estudo, de modo que diversas pesquisas têm buscado apreender seus modos
de operação, seus significados e as contribuições trazidas por ele aos estudos
informacionais (MARTINS, 2010, 2019; FARIAS; FARIAS 2017; ARRUDA;
OLIVEIRA 2017; PERROTTI; PIERUCCINI, 2014, dentre outros).
As questões apresentadas neste texto se conjugam a estes esforços de
compreensão das possibilidades da mediação enquanto categoria dentro da
Ciência da Informação, os quais têm produzido um considerável conhecimento
sobre este objeto. Elas são fruto de um trabalho de investigação teóricoepistemológica iniciado pela autora desde 2010, em sua dissertação de

�37

mestrado6, e que teve continuidade no âmbito do estágio pós-doutoral,
concluído em 2019.
Pretende-se,

de

maneira

introdutória,

apresentar

elementos

que

configuraram historicamente a mediação enquanto categoria dialética que
expressa, dentre outros aspectos, a impossibilidade de conhecimento de um
objeto por sua aparência, ou manifestação imediata, mas somente pelo
reconhecimento da interconexão universal de todas as coisas como condição
de sua determinação. Do ponto de vista metodológico, a mediação coloca a
necessidade de se perseguir os nexos constitutivos de um objeto, suas
articulações, propondo a compreensão de processos singulares à luz de
totalidades históricas.
Parte-se da compreensão que a dialética, como marco fundamental de
desenvolvimento

da

mediação

como

categoria,

coloca

aspectos

epistemológicos e metodológicos relevantes para o exercício que envolve a
construção e a compreensão dos “objetos informacionais”, ou seja, dos
objetos, problemas e temas com os quais o campo da Ciência da Informação e
Biblioteconomia se ocupam científica e cotidianamente.

2 MEDIAÇÃO: ELOS HISTÓRICO-FILOSÓFICOS
Quando procuramos pelo termo/verbete mediação em enciclopédias,
dicionários e outras fontes de informação especializadas da Filosofia e das
Ciências Sociais, é muito comum deparar-nos, além de sua definição
etimológica

e

jurídica,

com

cinco

marcos

comumente

associados

ao

desenvolvimento do conceito (MARTINS, 2019). São eles: 1) a lógica da
Antiguidade Clássica; 2) o “termo-médio” do Silogismo; 3) o “meio-termo” da
ética aristotélica; 4) o pensamento teológico da Idade Média;5) a dialética
moderna.

6

MARTINS, Ana Amélia Lage. Mediação: reflexões no campo da Ciência da Informação. 2010.
252 f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Programa de Pós-Graduação em
Ciência da Informação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010.

�38

Nos dois primeiros marcos, a mediação é localizada subjacentemente à
ideia de “termo-médio” que indica, de maneira geral: a) elementos que
servem de “ponte” e que permitem, no âmbito da lógica, a “passagem de uma
coisa à outra” (ABBAGNANO, 2007, p. 655); b) no Silogismo, um termo que
estrutura o raciocínio lógico e cuja função é conectar as premissas.
A mediação localizada na ética aristotélica, evidenciada na noção de
“meio-termo” está relacionada à “justa-medida” entre o excesso e à falta, uma
fórmula da excelência moral (DIAS, 2016). O quarto marco está relacionado à
ideia da intermediação produzida pelo discurso teológico cristão da Idade
Média quando apontava Cristo como mediador entre humanos e Deus e que
até hoje compreende o uso mais corriqueiro da mediação que designa uma
ação interveniente entre duas partes.
O quinto marco, a dialética moderna, é referenciada frequentemente
como responsável por desenvolver a mediação propriamente como categoria,
ao ser colocada na estruturação do sistema lógico de Hegel.
Da

dialética

hegeliana,

no

século

XVIII,

a

mediação

será

fundamentalmente empregada - e ao mesmo tempo desenvolvida - por
autores que dialogaram com o pensamento do filósofo alemão, como Karl
Marx, no século XIX, e a partir deste, no século XX, por Adorno, Lukács,
Gramsci, Mészaros e outros que se mantiveram alinhados ao materialismo
histórico-dialético marxiano. Subsequentemente, a mediação foi empregada
pela Antropologia, pelas teorias dos Estudos Culturais ingleses e, no final do
século XX, estruturou uma virada paradigmática importante na Comunicação
latino-americana representada pela “teoria das mediações” de Martin-Barbero
(2009).
Considerando os elos históricos do conceito, destacaremos a seguir
alguns aspectos atinentes à mediação dentro da dialética, onde ela opera, ao
lado da contradição e da totalidade, como uma categoria fundamental.

�39

3 MEDIAÇÃO COMO CATEGORIA DIALÉTICA
A dialética, em sua acepção Moderna, foi proposta por Hegel como um
sistema das leis do movimento da realidade e ao mesmo tempo do
pensamento que pensa essa realidade. Este sistema tem como elementos
fundamentais o processo, a contradição e a unidade de desenvolvimento entre
o real e o racional. Nele, a contradição é um fundamento básico a partir do
qual tudo - os seres e a realidade - a partir do movimento, existe.
De maneira bastante geral, dentro da dialética, identifica-se a mediação
como um operador histórico e lógico que apreende o real e o ideal e todos
os objetos a partir do processo de sua contradição constitutiva e dos nexos
estabelecidos no âmbito de uma totalidade histórica complexa (MARTINS,
2019). Ela compreende, portanto, tanto as articulações efetivas do real e ao
mesmo tempo do pensamento que pensa, que apreende o real.
Assim, um primeiro aspecto a ser destacado para a compreensão da
mediação na dialética é esta dupla dimensão lógica e histórica: como
articulações reais que atravessam e determinam a produção da realidade e dos
sujeitos e do modo como se pensa, se conhece, se acerca dessa produção.
Tendo isto em vista, é preciso demarcar que na dialética, tanto a
idealista de Hegel como a materialista de Marx, a mediação tem função
ontológica.
Isso significa que ela, mediação, é a operação necessária para que o ser
imediato, ser vazio que corresponde ao nada, desenvolva o seu conteúdo num
processo de “vir a ser” ou seja, para que ele ganhe determinações (HEGEL,
2016).
Em Marx, a mediação também é a operação necessária para que o ser
social exista.
O trabalho é, para ele, a mediação fulcral porque a existência humana
produzida na relação dos sujeitos com a natureza não se dá de forma
imediata, ou seja, toda a relação entre sujeito e realidade e dos sujeitos entre
si é mediada pela atividade criativa e produtiva do trabalho. Assim como a

�40

linguagem também cumpre com uma função mediadora ontológica. Não existe,
dessa maneira, ser social sem mediação.
Onde a necessidade de vestir-se o obrigou, o homem costurou por
milênios, e desde muito antes que houvesse qualquer alfaiate. Mas a
existência do casaco, do linho e de cada elemento da riqueza material
não fornecido pela natureza teve sempre de ser mediada por uma
atividade produtiva especial, direcionada a um fim, que adapta matérias
naturais específicas a necessidades humanas específicas (MARX, 2011,
p. 167, grifo nosso).

Se

pensamos,

por

esta

perspectiva

ontocriativa

da

categoria,

considerando que a mediação é o que torna possível, o que produz o ser
social, temos que, nas sociedades capitalistas, esta mediação acontece
historicamente
desumanizar

os

de

uma

sujeitos.

maneira
Isto

que

porque

tanto
no

pode

humanizar

desenvolvimento

do

quanto
sistema

capitalista, as mediações passam a operar sob a lógica da reprodução
ampliada do capital e não mais a da satisfação das necessidades, da plena
realização ontológica dos sujeitos. Um exemplo é a mediação fundamental do
trabalho:

tanto

humaniza

quanto

desumaniza,

tanto

emancipa

quanto

escraviza os sujeitos, sendo que sob o capitalismo se constitui como um
elemento decisivo de exploração.
A

mediação,

assim, tanto emancipa

quanto

mantém os

sujeitos

alienados. Ela não é uma ação necessariamente positiva, como comumente se
vê na noção arraigada no senso comum que a compreende como uma ação
que promoverá, necessariamente, a passagem para uma situação melhor,
como identificou Davallon (2007).
Um aspecto central na construção da dialética por Hegel é a consideração
de que “a verdade é o todo”, frase do filósofo alemão que é muito difundida.
Para ele, o todo (e o pensamento sobre o todo) somente se completam
mediante o seu desenvolvimento em um processo totalizador, de modo que a
verdade não pode ser acessada imediatamente ao fenômeno, em sua
manifestação singular ou individual, mas somente tendo em vista suas
mediações.
Neste mesmo sentido, Marx vai dizer que toda ciência seria supérflua se
houvesse coincidência imediata entre a aparência, ou seja, a expressão
fenomênica e a essência das coisas.

�41

Porque o conhecimento não existe em sua dimensão imediata, porque
ele também decorre da produção metabólica entre natureza e homem
possibilitada pela mediação do trabalho e da linguagem e porque a essência
de um objeto não está dada em sua manifestação fenomênica, em sua
aparência ou em sua forma imediata, que existe a mediação como categoria.
Na

dialética,

o

termo

designa,

então,

epistemologicamente,

a

impossibilidade de compreensão da verdade, ou o todo de qualquer objeto pela
sua manifestação imediata ou fenomênica, mas somente tendo em vista suas
mediações,

ou

seus

nexos

constitutivos,

suas

múltiplas

determinações

(MARTINS, 2019).
Isto faz com que o método que busque a apreensão de um objeto pelo
seu todo, que permite o caminho da aparência à essência, possa ser
compreendido como o método das mediações (KOFLER, 2010). Daí a
mediação ser também, fundamentalmente, na dialética, uma categoria
metodológica (MARTINS, 2019).

4 TOTALIDADE COMO PRINCÍPIO EPISTEMOLÓGICO E METODOLÓGICO
DA MEDIAÇÃO
Como categoria epistemológica e metodológica, a mediação na dialética
está vinculada não apenas à noção de contradição, motor do desenvolvimento
e do pensamento, mas, especialmente, à de totalidade.
A filósofa brasileira Maria Ciavatta, ao pensar os problemas teóricometodológicos que cercam a mediação na pesquisa social, lembra que o uso da
categoria implica uma postura epistemológica e metodológica que trata de
colocar o objeto em relação com o todo (CIAVATTA, 2001).
A totalidade é, conforme lembra a autora, um princípio epistemológico e
um método de produção do conhecimento na medida em que esta categoria se
apresenta como núcleo organizador e critério de verdade do método dialético.
Mas como podemos pensar em totalidade na construção e compreensão
dos objetos, se parece, especialmente hoje, impossível abarcar o todo?

�42

Para Ciavatta (2001) isto pode ser feito pelo método reconstrução
histórica, porque a História, enquanto movimento do próprio real, constitui o
universo de todas as mediações.
A aproximação da realidade através da reconstrução histórica coloca,
para ela, a priori, duas questões: a abdicação de todo dogmatismo e das
concepções evolucionistas da história, a recusa da visão cética e fragmentada
do mundo e, especialmente, do relativismo como ponto de partida.
Aos sistemas explicativos fechados ou funcionais, a uma visão
fragmentada da realidade a mediação propõe a busca das articulações
que explicam os nexos e significados do real e levam à construção de
totalidades sociais, relativas a determinados objetos de estudo
(CIAVATTA, 2001, p. 219).

A lógica da reconstrução histórica pretende, assim, ser uma lógica
sociocultural que supera, segundo a autora, a lógica economicista, a lógica
pós-moderna e outras abordagens que ignoram a história como fulcro da
produção da existência humana.
Nesta concepção, o objeto informacional singular, que nós podemos
entender como uma prática ou expressão informacional específica, ou como
um documento, é visto a partir de sua gênese nos processos sociais mais
amplos, das suas múltiplas determinações.
A categoria da totalidade significa que a realidade objetiva é, neste
sentido:
um todo coerente em que cada elemento está, de uma maneira ou de
outra, em relação com cada elemento e, de outro lado, que essas
relações formam, na própria realidade objetiva, correlações concretas,
conjuntos, unidades, ligados entre si de maneiras completamente
diversas, mas sempre determinadas (LUKÁCS, 1967, p. 240).

Carvalho (2007) lembra que operar com a noção de totalidade significa
conhecer a transversalidade conectiva do todo e que para isso:
não se faz necessário - e nem possível - percorrer, como uma listagem,
todas as inumeráveis partes, elementos, momentos e relações do todo,
pois se trata de conhecer a lógica que preside a sua conexão. Com
efeito, a apreensão da conexão dialética essencial de uma totalidade
pode ser descoberta mesmo antes de se ter alcançado o grau máximo
de concretude da totalidade. É, com efeito, o que ocorre quando se
procede à análise de uma dada totalidade por necessárias
aproximações, de degrau em degrau, cobrindo, revelando e
completando cada conceito, cada relação, cada conexão e cada
categoria desde sua apreensão mais abstrata (e mais simples) à mais
concreta (e mais complexa), no curso da qual a lógica essencial que

�43
preside a conexão do todo pode ser captada em algum estágio
intermediário (CARVALHO, 2007, n. p.)

A mediação se apresenta metodologicamente como categoria, portanto,
que tem como horizonte a produção do conhecimento mediato sobre um
objeto considerando as suas múltiplas determinações, suas contradições e as
totalidades históricas nas quais ele está inserido.

5

A

METODOLOGIA

DAS

MEDIAÇÕES

E

OS

“OBJETOS

INFORMACIONAIS”
Quando Marx buscou compreender a essência da produção material da
vida das sociedades burguesas, ele partiu da mercadoria, compreendendo-a
como uma forma elementar ou aparência de um modo historicamente
específico de produção da vida material nas sociedades de classes, cuja
essência era a apropriação, pelo capital, do excedente de trabalho.
Perseguindo,

pelas

mediações,

as

“múltiplas

determinações”

da

mercadoria, ele indicou que ela, mercadoria, ganhava um valor diferente da
sua determinação essencial (valor de uso) somente pela mediação de uma
forma (valor de troca), que também é mediada por diversas outras formas,
como a forma-dinheiro, a forma-lucro, a forma-salário, as quais compreendem
uma

aparência

assumida

pelas

relações

de

produção

historicamente

determinadas. Marx evidenciou, assim, neste processo, o caráter fetichista do
mundo das mercadorias que surge do peculiar caráter social do trabalho nas
sociedades capitalistas que produz a forma-mercadoria (MARTINS, 2019).
Igualmente, se partirmos de práticas e fenômenos informacionais
específicos podemos fazer um exercício de buscar por suas múltiplas
determinações, a partir das mediações.

�44

Isto

pode

ser

feito

reconstruindo

historicamente

nossos

objetos

perseguindo os nexos que conectam as mais diversas práticas informacionais
singulares e específicas à lógica ampla da produção e da reprodução social7.
A título de exemplo, partamos de um objeto singular há algum tempo
bastante usual das sociedades contemporâneas e que mobiliza um grande
esforço

de

compreensão:

os

chamados

microdocumentos

da

Internet,

expressão de Jeanneret (2015) utilizada para designar os pequenos formatos
documentários que diferentes atores em interação nas chamadas “redes
sociais” produzem e fazem circular. Essas formas microdocumentárias reúnem
texto e imagem e são marcadas, especialmente, pela narrativa de si, pelo
reuso de narrativas elaboradas por terceiros, pelo caráter opinativo e/ou
combativo, pela propaganda e frequentemente são estruturados pelos recursos
da ironia, da retórica e do humor.
Se tomamos como exemplos esses formatos microdocumentários pela
sua expressão fenomênica, o que percebemos, imediatamente, é aquilo que
sua aparência nos demonstra: um conteúdo expresso sob determinada
forma em determinado contexto.
Uma análise desta forma-conteúdo, de maneira imediata, pode nos levar
a perceber alguns elementos tais como: a veracidade ou não da informação
que veicula, a ideologia subjacente, os sentidos que tentam fixar e fazer
circular,

sua

intencionalidade

em

vender

um

produto/ideia/serviço

ou

despertar interesses e emoção, sua utilização por determinados segmentos e
perfis, sua capacidade de mobilizar a opinião pública ou gerar adesões, seu
poder de virilizar, dentre outros aspectos.
A análise desta forma-conteúdo por suas mediações trata não apenas
de

7

perceber

a

sua

constituição,

mas

de

perseguir

as

múltiplas

Cabe-nos destacar que a produção material na dialética marxista, vista pelo prisma do
movimento histórico da totalidade, considera as formas que se estabelecem em torno da
configuração e distribuição dos meios de produção e das forças produtivas numa determinada
sociedade e em uma particularidade histórica. Ela relaciona-se, assim, às relações e condições
necessárias para satisfação das necessidades humanas. A reprodução social designa atividades
decorrentes da mediação do trabalho, bem como de provisão, cuidado e interação que
produzem e mantêm laços sociais e que se tornam mais complexas à medida que se
desenvolvem as forças produtivas.

�45

determinações deste objeto, inserindo-o no âmbito tanto da totalidade
quanto da particularidade histórica em que ele se manifesta.
Assim, a análise de uma postagem ou um grupos de postagens que
formam um corpus, por suas mediações, busca apreender para além da sua
manifestação em forma-conteúdo-contexto a sua correlação com: a) a
particularidade histórica de expressão desta manifestação tendo em vista a
dinâmica geopolítica global, organizada por permanentes disputas; b) o lugar
dos dispositivos de informação, tais como as redes sociais, no processo de
desenvolvimento da indústria da cultura e das mídias; c) as estratégias para
acumulação do capital pelos gigantes capitalistas da tecnologia de informação
e comunicação que se valem do próprio vinculo social para produção de valor
(BOLAÑO, 2012); d) o uso de informação como estruturante de uma
racionalidade particular produzida pelo neoliberalismo que avançou de modo
determinante para a produção de subjetividades ajustadas à compreensão
de cada pessoa como uma empresa (LAVAL; DARDOT, 2016), onde a
“exposição de si” figura como estratégia principal; e) as contradições históricas
que se ocultam na forma-informação; f) a capacidade de o sistema incorporar
a contradição como modo de seguir se reproduzindo em estado de contradição
(MARTIN-SERRANO, 2008)8.
Pensar os objetos por suas mediações a partir de uma perspectiva
dialética implica, dessa maneira, na construção e compreensão dos objetos
informacionais pelo reestabelecimento da categoria totalidade, a qual foi sendo
subsumida por perspectivas que começaram a empregar a categoria mediação
para destacar: a) a ampla possibilidade de agência/resistência dos sujeitos
frente aos processos de dominação colocados pela indústria cultural; b) os
processos de produção de sentido numa realidade fragmentada; c) a

8

Isto acontece, por exemplo, quando o capitalismo se utiliza dos significados que o colocam
em xeque seu modo de produção vigente (e que são mobilizados por discursos de movimentos
sociais diversos) como forma de fortalecer a sua própria lógica de reprodução. Assim ele fez
com demandas de maio de 68 (incorporando as reivindicações por flexibilidade e
horizontalidade em sua nova lógica de organização do trabalho), com pautas do movimento
ambientalista e feminista e assim faz incorporando, ajustando e, principalmente, financiando
pautas e ações organizadas em uma lógica informativa cuja aparência é a “resistência”, mas
cujo aspecto essencial é, fundamentalmente, não colocar em risco o próprio sistema.

�46

emergência de um novo paradigma de produção do conhecimento orientado
pela “lógica das redes”.
Em outros termos, a mediação dialética coloca, na perspectiva de um
“paradigma social” da Ciência da Informação, todos os objetos informacionais
no âmbito da totalidade capitalista, compreendo-a não como um sistema
econômico, mas como um modo de produção material e intelectual, que para
se constituir e se reproduzir formula ideias, noções, valores e doutrinas sem os
quais as relações de apropriação econômica e dominação política específicas a
ele não poderiam constituir-se (IANNI, 1976).
Isto porque, como assinalam Wood e Foster (1991, p. 19):
o capitalismo é ‘totalizante’ em formas e graus sem precedentes. Sua
lógica de transformação de tudo em mercadoria, de maximização de
lucro e de atura toda a ordem social. E entender esse sistema
‘totalizante’ requer o tipo de ‘conhecimento totalizante’ que o marxismo
abriu e que os pós-modernistas rejeitam.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A mediação destaca, essencialmente, a necessária dialética entre o
material e o simbólico, os significados e a estrutura9 ou entre economia e
cultura no âmbito da totalidade histórica como elementos fundamentais a
qualquer horizonte de construção e compreensão dos objetos informacionais,
sejam eles entendidos como produto, fenômeno ou prática social.
Embora este aspecto possa parecer óbvio, essa não é uma preocupação
que vem se refletindo no emprego do termo mediação, quando colocado no
escopo da problemática de produção de sentidos por sujeitos envolvidos em
ações de produção, acesso e consumo/apropriação informacional.
Demarcar o lugar da informação na produção do ser; no âmbito da
totalidade da produção material-simbólica da realidade e dos sujeitos,

9

Por exemplo: os significados que historicamente se construíram sobre o que é ser homem e o
que é ser mulher em nossas sociedades ocidentais foram mobilizados também em função do
lugar que cada um deveria ocupar no sistema produtivo para que a produção e a reprodução
social capitalista fossem como são. Não se pode pensar significados, que é algo inerente à
informação (por sua dimensão simbólica) sem pensar qual a sua função organizativa na vida
material.

�47

revelando as mediações do modo de produção e reprodução social que, nas
“sociedades da informação” tem como objetivo não a plena realização dos
sujeitos e satisfação de suas necessidades, mas o acúmulo do capital: eis um
primeiro desafio colocado teoricamente pela perspectiva dialética da mediação.
O desafio último, ético e político, é compreender a informação na
transformação, na necessária reorientação radical destas mediações.
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WOOD, Ellen Meiksins; FOSTER, John Bellony (Org.) Em defesa da História:
marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.

�49

DADOS BIOGRÁFICOS

Ana
Amélia
Lage
Martins:
Professora
adjunta
do
Departamento
de
Processos
Técnico-Documentais
da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
Graduada em Biblioteconomia, mestre e doutora em Ciência da
Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Realizou estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação
em Ciência da Informação do Instituto Brasileiro de Informação
em Ciência e Tecnologia (IBICT/UFRJ).
Email: ana.martins@unirio.br

�50

CAPÍTULO III - A Biblioteconomia e as ciências informativodocumentárias: a mediação documentária como um modo de
produção
Matheus Aguiar de Carvalho

1 INTRODUÇÃO
As práticas de mediação de documentos acompanham o desenvolvimento
da humanidade. Os processos de mediação documentária visam oferecer
mensagens sobre documentos que suscitem nos públicos o acesso e uso a
partir da leitura com o fim de promover a apropriação da informação. Portanto,
o

campo,

tomado aqui pelo

termo

Ciências

Informativo-documentárias

(MOREIRO GONZÁLEZ, 2005), se justifica e seus profissionais atuam por meio
de um modo de produção específico, que é estruturado na técnica e
materializado em processos realizados sobre e a partir de documentos. Por
meio desta atuação, promove-se junto aos sujeitos a compreensão de seu eu
individual e social conforme o desenvolvimento de seu protagonismo nas
dinâmicas de informação e comunicação que constituem a sociedade.
O objetivo deste capítulo é o de discutir a noção de mediação
documentária em relação aos conceitos que balizam sua compreensão e dos
processos contemplados por essa noção, que permitem configurar um modo de
produção específico ao campo na sociedade.
A pesquisa se justifica na necessidade de explorar um modo de produção
que justifique e especifique o trabalho do campo. Entende-se que há uma
diversidade de abordagens a este trabalho que não se comunicam e que
favorecem à dispersão, seja em decorrência da introdução do termo
informação junto aos estudos do campo em meados da década de 1950, seja
pela busca em compreender a instância mediacional de seu trabalho. Em
ambos os casos, os termos centrais nessas discussões, informação e mediação,
são tomados de um modo não específico ao trabalho do campo e explorados

�51

em todas as suas variedades semânticas, exploração que comumente se dá a
partir de outros campos e disciplinas que não reportam às Ciências
Informativo-documentárias, ou às suas disciplinas constituintes, como a
Biblioteconomia. Ademais, percebe-se, como Rendón Rojas (2014) também
destaca, a consequência de se gerar no campo um desenvolvimento pautado
no relativismo absoluto que torna todo estudo sob o nome informação válido, e
por isso o campo não se constitui efetivamente como tal, ou seja, com pontos
comuns mínimos entre as abordagens ou vertentes. O autor destaca a
necessidade de compreender esses pontos comuns para desenvolver o campo
em um relativismo

dialético em torno de determinadas problemáticas

(RENDÓN ROJAS, 2014).
Nesse sentido, a discussão proposta em torno da mediação documentária
se justifica ao específicas o modo de produção do campo, desenvolvido em
uma forma distinta de abordar o fenômeno informacional. A construção teórica
é fundamentada no percurso de constituição disciplinar do campo e confere ao
mesmo historicidade e, em decorrência desse percurso, uma consistência
considerável aos modos de abordar sua constituição, subsidiando situar os
estudos do campo em torno de uma unidade em um modo de produção que
relaciona necessidades e públicos, configurando nesse relacionamento uma
forma de trabalho que identifica e qualifica o campo.
Como metodologia, a pesquisa é do tipo descritiva (FROTA, 2007),
possibilitando delinear as discussões propostas, e oportunizada pelo método de
revisão bibliográfica (GRAY, 2012), de caráter qualitativo, pela análise da
literatura já produzida no campo e em campos correlatos, considerada
relevante para o desenvolvimento do tema. Dentre os conceitos trabalhados,
destaca-se o de mediação documentária, documento, e de sistemas e ciências
informativo-documentárias.
Em síntese, a compreensão das ciências informativo-documentárias foi
subsidiada principalmente pela produção espanhola do campo, na qual a
Biblioteconomia é conformada no campo informativo-documentário como uma
das disciplinas que o constitui e que realiza seu trabalho pela mediação
documentária em ambientes específicos, como as bibliotecas e os centros de

�52

documentação e memória. A noção de documento foi discutida a partir de
autores identificados como basilares a compreensão do conceito, identificação
que se deu em especial a partir das revisões sobre o conceito realizadas por
Cristina Ortega em conjunto a outros pesquisadores (ORTEGA; LARA, 2010;
ORTEGA, 2016; ORTEGA; SALDANHA, 2019). Ao seu turno, a discussão acerca
da mediação documentária foi pautada em uma produção da vertente francesa
do campo onde o conceito é explorado de forma mais completa em termos de
fundamentação teórica e histórica, acompanhando as práticas documentárias
seculares e constitutivas do trabalho do campo.

2

A

BIBLIOTECONOMIA

E

AS

CIÊNCIAS

INFORMATIVO-

DOCUMENTÁRIAS
O desenvolvimento da sociedade ocorre a partir de práticas cotidianas
coletivas sistematizadas em técnicas, a partir das quais são desenvolvidos os
processos para a produção de bens úteis para o uso, seja individual ou
coletivo. O processo de produção é descrito por Harnecker (1983) pelos
esforços empreendidos em torno da transformação de objetos em produtos
que respondam às necessidades humanas, tanto fisiológicas quanto sociais.
Desta forma, para o trabalho configura-se um modo de produção para produzir
bens que responsam a certas necessidades humanas. Nessa dinâmica são
mobilizadas as forças físicas e mentais dos sujeitos, que as aplicam em torno
dos processos de produção, constituindo as relações sociais neste exercício
(HARNECKER, 1983). Como forma de otimizar e oportunizar o trabalho em
questão, podem ser mobilizados instrumentos e metodologias, e aparatos
tecnológicos para produzir ambos, o que se dá a partir dos conhecimentos
técnicos já sistematizados.
Dessa forma, pelas práticas cotidianas e o processo de produção que
desencadeiam é que se torna possível a formação das culturas. O conceito de
cultura é compreendo, a partir de Laraia (2001), como uma construção de
significados compartilhados por um grupo a partir de símbolos, os quais

�53

norteiam o comportamento humano em formas de organizar os modos de
produção necessários aquele grupo.
Dessa

forma,

as

culturas

são

formadas

ao

reunir

alguns

dos

conhecimentos técnicos em torno de determinadas modos de produção,
conformando os mesmos em um sistema de crenças e valores, em um
determinado tempo e lugar (PINTO, 2005). Por consequência, a formação de
uma sociedade se dá pela reunião dos modos de produção de interesse a ela e
pelas formas que sua cultura é desenvolvida em termos das relações sociais, a
partir das quais identificam-se as necessidades e os modos de realizar os
processos de produção para o trabalho em questão.
Como forma de promover a inserção dos sujeitos nas dinâmicas que
constituem a sociedade, o papel desempenhado por diferentes entidades reside
nas relações que elas promovem entre a instância coletiva e a individual, ao
reproduzirem

os

modos

de

produção

e

as

concepções

culturais

correspondentes aos coletivos onde os sujeitos serão inseridos, de modo que
esses sujeitos venham a participar em dado momento dessas construções
coletivas.
Dentre as entidades que promovem essas relações entre coletivo e
individual, as ciências cabem o desenvolvimento do trabalho voltado à
racionalização dos processos dos diferentes tipos de trabalhos, e, dessa forma,
promovem o conhecimento sobre os mesmos. O propósito básico de cada um
deles reside em compreender os diferentes fenômenos do mundo, sociais ou
naturais, para intervir nos mesmos a favor de criar melhores condições para a
vida humana. A socialização dos esforços empreendidos pelo trabalho científico
está essencialmente na constituição de redes, atuantes em especial nos
âmbitos da comunicação e da educação.
A prática científica de forma ampla pode ser situada como do âmbito das
mediações sociais, pois constitui uma forma de controle sobre as ações do
homem no mundo pelo conhecimento que promove a construção e pelos
modos que socializa esse conhecimento entre os diferentes grupos da
sociedade. Martín Serrano (2009) situa as mediações sociais como as ações
que orientam ações, atuando no mundo em formas de preservação ou

�54

exploração, na conformação de organizações que promovem a liberdade ou a
opressão, e nas representações que humanizam ou desumanizam.
No âmbito dos fenômenos informacionais, ou comunicacionais, pela
pluralidade semântica da categoria informação, e também pelas variadas
formas que esses fenômenos se manifestam, diferentes campos científicos
foram formalizados ao longo da história, abordando essa categoria de
fenômenos conforme certas perspectivas. Ademais, entende-se que o interesse
nessa categoria está também na relevância da informação como uma proposta
de sentido que, ao ser significada e apropriada pelos sujeitos, subsidia a
formação e a ação humana.
Entende-se que os estudos dos fenômenos informacionais envolvem
tanto as discussões acerca dos processos de transmissão cultural, socialização
de conhecimento e formação de identidade, quanto aquelas relativas à
informação enquanto critério que determina os níveis de integração social,
aumentando ou diminuindo a dependência e interdependência entre os
diferentes agentes das redes que modulam a sociedade, e também entre “os
diferentes saberes, setores de atividades e funções de produção e de gestão”
(GONZALEZ DE GOMEZ, 2009, p. 28).
Como forma de tratar as relações desenvolvidas em torno da informação
em determinados períodos da história humana, em termos de acesso, uso, e
produção, assim como das desigualdades e demais tipos de relações de poder
existentes em torno dessa gestão, a autora anterior também trabalha o
conceito de regime de informação como termo designativo dessas redes de
relacionamentos de poder e de trabalho construídas em torno dos fenômenos
informacionais e também para tratar daquelas redes que estruturam os
próprios fenômenos dessa ordem (GONZALEZ DE GOMEZ, 2009, 2012).
As Ciências Informativo-Documentárias – e

sob esse termo que

discutimos os esforços realizados em torno do trabalho documentário, por
exemplo, aquele específico em bibliotecas –, foram constituídas em torno do
fenômeno informacional, em processos de comunicação viabilizados pela
produção documental e pelas práticas documentárias constituídas a partir dos
documentos.

�55

As práticas de trabalho do campo são essencialmente de caráter
informativo ao serem constituídas com fins comunicacionais, tendo como
objeto de estudo um processo de informação específico composto por sujeitos
emissores, mensagem, meios e sujeitos receptores. O trabalho também é de
caráter documentário, pois desenvolve-se na produção

de informações

documentárias a partir de objetos vistos quanto ao potencial informativo de
determinadas perspectivas. As informações documentárias são fontes de
informação sobre os

documentos, ao representarem sentidos de suas

perspectivas, visando a comunicação desses sentidos junto ao público,
comunicação compreendida por Lara (1993) como do tipo documentária, a
partir do qual promove-se o acesso e o uso de objetos, abordados enquanto
documentos pelo seu potencial informativo, que ao ser explorado pelos sujeitos
subsidia a apropriação da informação, que é o objetivo final do trabalho do
campo.
Portanto,

em

razão

do

trabalho

do

campo

ser

informativo

e

documentário, que adotamos a terminologia Ciência Informativo-Documentário
como designativa do mesmo, a qual tem origem nos desenvolvimentos do
campo

na

vertente

espanhola.

A

denominação

Ciência

Informativo-

Documentária10 é amplamente adotada nas produções espanholas do campo,
como tratam Moreiro González (2005), Rendón Rojas (2013, 2014) e López
Yepes (2015). A partir dessa denominação entende-se a fundamentação do
trabalho do campo em práticas documentárias que envolve a Biblioteconomia,
mas se fundamenta também a partir de disciplinas como a Bibliografia, a
Documentação e a Ciência da Informação, a última um pouco mais dispersa a
depender da abordagem adotada. Desse modo, o termo permite fugir à
dispersão no Brasil do que se entende por Ciência da Informação, ora situada
como disciplina específica e distinta de disciplinas como Biblioteconomia,
Arquivologia e Museologia, ora como campo de estudos e abrange aquelas.

10

No original em espanhol a denominação adotada é Ciencia Informativo-Documental ou
Ciencia de la Información Documental. O uso de “documentária” como forma de traduzir o
último termo, decorre da análise realizada por Cristina Ortega (ORTEGA, 2017) acerca dos
adjetivos documental e documentário que qualificam a atividade do campo. A partir da análise
da autora, toma-se aqui “documental” como aquilo referente específico ao documento, e
“documentário” como as ações do âmbito da documentação realizadas sobre os documentos.

�56

Assim, ao tratar como Ciências Informativo-documentárias conforma-se o
lugar da Ciência da Informação nos estudos do campo, considerando o
histórico anterior a ela por práticas sistematizadas desde o século XV,
anteriores, portanto, das primeiras discussões em Ciência da Informação que
ocorreram nos Estados Unidos na década de 1950. A necessidade de
considerar

esse

percurso

histórico

reside

em

como,

a

partir

dos

desenvolvimentos estabelecidos nele, o campo, e as práticas desenvolvidas em
seu âmbito, pode ser abordado de modo mais qualificado e fundamentado
quanto ao papel que desempenha na sociedade.

3 O DOCUMENTO E A PROPOSIÇÃO DE SISTEMAS INFORMATIVODOCUMENTÁRIOS
O conceito de documento no campo foi desenvolvido no âmbito do
movimento documentalista inaugurado por Paul Otlet a partir do “Traité de
documentation:

le

livre

sur

le

livre,

théorie

et

pratique”,

publicado

originalmente em 1934. Em seu Tratado, Otlet define documento como uma
obra da criação humana resultante de seu trabalho intelectual que produz
efeitos na sociedade (OTLET, 201811). Otlet aborda o documento como termo
que designa o conjunto de signo e suporte, por meio do qual se representa
uma realidade, em forma gráfica ou plástica, mas, independentemente de qual
forma assuma, se configura como um enunciado de fatos, dados e ideias
(OTLET, 2018, p. 145, p. 580). De forma complementar, López Yepes (1997)
destaca a importância dos documentos que, ao conjugarem forma e conteúdo,
servem de instrumento da cultura por permitir a acumulação contínua dos
conhecimentos acerca de uma comunidade, possibilitando sua conservação e
ampliação

das

comunicações

a

partir

destes

conteúdos

acumulados

e

preservados (LÓPEZ YEPES, 1997).

11

Utilizamos a primeira edição da versão traduzida em português, na organização de Antonio
Agenor Briquet de Lemos, sob o título “Tratado de Documentação: o livro sobre o livro: teoria
e prática” (OTLET, 2018).

�57

Suzanne Briet, bibliotecária da Biblioteca Nacional da França, em seu
trabalho publicado originalmente em 1951, discute a necessidade do uso para
que um objeto ganhe o estatuto de documento (BRIET, 201612). Este uso seria
promovido por processos documentários, por meio dos quais institucionalizam
os objetos são enxergados enquanto documentos e trabalhados em vistas a
estabelecer um uso vinculado a construção de conhecimento. Complementar a
isto, a autora descreve a possibilidade do desdobramento dos documentos em
documentos “secundários ou derivados” (BRIET, 2016, p. 3), resultantes do
trabalho documentário, e que configuram formas de mediação e potencializam
o efetivo uso dos documentos primários. Como documentos secundários estão
os catálogos, as bibliografias, os resumos, entre outros (BRIET, 2016).
A terceira contribuição trazida aqui para o entendimento do conceito de
documento é o trabalho de 1981, escrito por Jean Meyriat. O autor discute o
documento como um suporte, mas também como uma forma simbólica de
comunicação que, por estar inscrita em uma materialidade, torna-se durável e
passível de ser recriada em outros tempos e contextos (MEYRIAT, 201613).
Frohmann (200814) complementa ao reforçar a importância das materialidades
para compreender os aspectos sociais e públicos da informação que é
comunicada. Portanto, as duas instâncias identificadas por Meyriat (2016), a
material e a simbólica, são as que formam o documento, e como ambas
podem ser estabelecidas a partir de qualquer objeto, Meyriat (2016) destaca
aquilo já discutido por Otlet, a respeito da pluralidade de objetos que podem
servir à noção de documento, para além dos registros escritos.
Os documentos escritos são um caso privilegiado, porque a escrita é a
forma mais comumente utilizada para comunicar uma mensagem. No
entanto, é necessário observar que se pode escrever sobre muitos
objetos diferentes [...] [e] se pode escrever utilizando diferentes
sistemas de signos [...] (MEYRIAT, 2016, p. 241).

12

Utilizamos a versão em português traduzida por Maria de Nazareth Rocha Furtado, sob o
título “O que é Documentação?” (BRIET, 2016).
13
Utilizamos a versão em português traduzida por Camila Mariana A. da Silva, Marcílio de Brito
e Cristina Dotta Ortega, sob o título “Documento, documentação, documentologia” (MEYRIAT,
2016).
14
Originalmente publicado em 2006. Utilizamos a versão em português traduzida por Laffayete
de Souza Álvares Junior, Lídia Silva de Freitas e Ricardo Sili da Silva, sob o título “O caráter
social, material e público da informação” (FROHMANN, 2008).

�58

Segundo Meyriat (2016), o propósito de preservação e comunicação de
informação pode ser presente desde o momento de criação de um documento,
ou ser instituído a certos objetos a partir de processos que elaboram seu valor
informativo tornando-os úteis para obtenção de informação. Nesse sentido, a
informação constitui-se como uma mensagem, que possui um sentido para
aquele que a enuncia, e tem um sentido produzido por aquele que a recebe.
Desta forma, a ênfase das Ciências Informativo-Documentárias é no
trabalho com documentos, base material e informativa abordada quanto ao
seu potencial comunicativo, sob a qual as técnicas documentárias são
empregadas constituindo processos de mediação para promover o acesso a
esses documentos por um público, para que este se aproprie dos conteúdos
daqueles pela leitura. Por esse trabalho espera-se subsidiar a formação e
participação dos sujeitos nos coletivos em que estão inseridos e nas práticas
cotidianas que participam. Portanto, os esforços empreendidos se atentam a
como constituem-se os diferentes regimes de informação para balizar a criação
de sistemas de informação em que o trabalho mediacional possa promover o
protagonismo dos sujeitos nas dinâmicas de constituição desses regimes.
Segundo Ortega (2012), os sujeitos que constituem o público para o qual
os processos de mediação do campo são visados, é visto em torno das
atividades e contextos nos quais necessitam de informação como subsidio às
suas ações. As necessidades não se restringem àquelas formuladas enquanto
demanda apresentada pelo público ao sistema, mas às “necessidades humanas
de informação, portanto, inerentes a todo ser humano, e relativas a aspectos
de ordem científica, educacional, utilitária, de entretenimento, estética,
profissional, outras” (ORTEGA, 2012, p. 2). Complementar é a observação de
Rendón Rojas que pontua o trabalho do campo como aquele voltado a
satisfazer necessidades em informação, as quais incluem a noção de ajuda ao
“desenvolvimento

existencial do

sujeito,

e

não

apenas

proporcionar a

�59

informação que ele crê necessitar” (RENDON ROJAS, 2004, p. 180-181,
tradução nossa15).
No

nosso

entender,

a

constituição

dos

sistemas

informativo-

documentários é fundamental para as ações do campo como forma de permitir
delimitar os elementos básicos para seu trabalho: o público visado e suas
respectivas

necessidades,

e

os

objetos

tomados

transformados

em

documentos a partir de um modo de produção estruturado pela técnica do
campo. Conceitualmente, também tem referência para compreensão desses
sistemas as discussões que ocorrem sob os termos dispositivos documentários
ou

infocomunicacionais

(GARDIÈS,

2012;

GARDIÈS;

FABRE,

2012)

e

dispositivos informacionais (PERROTTI; PIERUCCINI, 2007), todos estes
referentes a instituições como bibliotecas, arquivos, museus, centros de
documentação e memória, entre outros tipos de instituições voltadas ao
trabalho com a mediação de documentos.
Desta forma, o trabalho no sistema informativo-documentário pode ser
compreendido no relacionamento que faz entre três elementos: os objetos, os
quais são tomados quanto a seu potencial informativo e transformados em
documentos; os sujeitos, na condição de público dos sistemas; e os processos
de

produção

via

mediação

documentária,

realizados

por

cientistas

e

profissionais ao promoverem a apropriação da informação pelo público a partir
da elaboração da cadeia documentária, que subsidia a ele a estabelecer
relações com a criação, consumo, transformação, transmissão e conservação
da informação.

4 A MEDIAÇÃO DOCUMENTÁRIA COMO MODO DE PRODUÇÃO DO
CAMPO
A mediação documentária é estabelecida em processos sobre e a partir
de objetos com potencial informativo, os documentos, buscando mediar seu

15

No original: “[...] al desarrollo existencial del sujeto, y no solamente proporcionarle la
información que cree necessitar”.

�60

acesso e uso com pessoas identificadas como público. Nesse sentido, o modo
de produção do campo é constituído em torno da mediação documentária
enquanto um conjunto de processos que permitem a transformação de certos
objetos em produtos úteis às necessidades humanas de informação. Esses
processos são sistematizados aqui como o de seleção, de organização da
informação - produção de base de dados e ordenação -, e pela elaboração de
produtos e serviços que potencializem os sentidos elaborados pelos processos
anteriores. Ainda, após esses processos de mediação documentárias, podem
ser realizadas atividades de sensibilização do público desenvolvidas em formas
de ações culturais específicas em termos da relação que têm com os processos
de mediação documentária.
O trabalho documentário se constitui como o de produção de sentidos,
que são elaborados sobre os documentos conforme a realização dos processos
de mediação.
Em decorrência dessa produção de mensagens/sentidos, Capurro situa
que os estudos do campo residem na constituição de mensagens para
comunicação, e para a qual ocorre a oferta de sentido (meaning offer) em um
sistema, que é selecionada por um público, que converte aquele sentido
selecionado em informação ao interpretá-lo (CAPURRO, 2003) pela leitura.
Desta forma, caberia ao campo relacionar os sentidos que oferta com as
formas que essa seleção é feita pelo público, reelaborando continuamente suas
propostas de sentido para torná-las relevantes ao público visado (CAPURRO,
2003).
Ortega (2012) situa que a construção de significados pelo trabalho do
campo não é desenvolvida apenas no momento em que o público aciona o
sistema de informação ou pelo serviço de referência, mas do trabalho em
conjunto realizado sobre os documentos. Kobashi (1996, p. 9) descreve que
“todo ato documentário é um ato de comunicação que tem a finalidade de
promover a circulação da informação”, por sua vez, essa comunicação é
caracterizada por Lara (1993, p. 4) como a “codificação e a decodificação de
conteúdos informacionais, ou seja, o tratamento e
informação”, e que se efetiva na apropriação do público.

a recuperação da

�61

Enquanto tópico de estudos, a mediação documentária encontra campo
fértil de desenvolvimento principalmente na literatura francesa, no âmbito das
Sciences de l'Information et de la Communication (SIC) (Ciências da
Informação e da Comunicação (CIC), e estabelecemos uma discussão
conceitual a partir de alguns autores dessa vertente como Isabelle Fabre,
Hélène Veyrac, Yves Jeanneret e Cècile Gardiès (JEANNERET, 2009; FABRE,
2012, 2013, 2018; GARDIÈS; FABRE, 2012; FABRE; VEYRAC, 2008).
Nesse contexto, os estudos do campo estão em constante diálogo com a
Comunicação constituindo nessa confluência seus estudos. Para Jeanneret
(2009), de forma ampla, o campo desenvolve-se na busca em compreender
todas as instâncias do processo comunicacional, vivendo, em suas palavras, da
negatividade a partir da “rejeição a uma abordagem da cultura que seja
imediata, transparente e absoluta, o que Barthes denomina como uma
‘naturalização’ das práticas culturais” (JEANNERET, 2009, [não paginado],
tradução

nossa16,

grifos

da

autora).

Conforme

Jeanneret

(2009),

a

negatividade seria uma constante do campo, que alimenta a positividade por
exigir o esforço das realidades comunicativas em se fazerem aparecer em suas
diversas variáveis. Assim, o papel do campo estaria em promover uma
constante desconstrução pela negação, para permitir novas construções e
afirmações.
A mediação ao ser tomada como um processo comunicativo, é retirada
da noção de uma simples ação facilitadora de transferência de dados ou
informações

de

um

polo

ao

outro,

que

coloca

o

profissional

como

intermediador ao aproximar um objeto a uma pessoa, mas como uma
construção de significados, estabelecidos em diferentes níveis e formas de
manifestações, realizada sobre e a partir de documentos para que os sujeitos,
pela leitura, possam atribuir sentido e se apropriarem dos significados,
construindo conhecimento em última instância.
Para Fabre (2018), compreender a mediação documentária exige antes o
entendimento da noção de dispositivo. Em suma, a noção de dispositivo pode

16

No original: “[…] le refus d’une approche immédiate, transparente ou absolue de la culture,
ce que Barthes nommait la « naturalisation » des pratiques culturelles”.

�62

ser compreendida como um arranjo de elementos que estabelecem relações e
promovem relações. No caso dos dispositivos documentários, o objetivo desses
sistemas está em promover a construção de conhecimento e para isto, se
fazem da mediação documentária como forma de promover a autonomia do
público frente a busca por informação para sua formação, ao constituir
estruturas de comunicação que relacionem público e documentos.
Em complemento, conforme Fabre (2018), a noção de dispositivo
também é útil para pensar não apenas no sistema de informação como um
todo, que promove ali certas relações, mas na própria coleção e como cada
documento é em si um dispositivo abrigado nesse dispositivo maior, o
documentário, e este, por sua vez, circunscrito em outros dispositivos maiores
e globais. Por consequência, os dispositivos documentários são constituídos
por várias redes entrelaçadas de relacionamentos e influentes em como as
pessoas são formadas e como estabelecem interações com o espaço, com os
documentos e com outros seres: “Assim, o dispositivo é o lugar onde
humanos, objetos materiais e relações são organizadas para promover
interações reais e simbólicas que instituem as modalidades e as lógicas de uso
da informação” (GARDIÈS; FABRE, 2012, par. 2, tradução nossa17).
Fabre e Veyrac (2008) definem a mediação documentária como uma
mediação do conhecimento, “onde o profissional em informação-documentação
é o mediador que permite ao usuário o encontro com a informação e para isso
estabelece um dispositivo documentário favorável a esse encontro” (FABRE;
VEYRAC, 2008, p. 3, tradução nossa18). Portanto, compreender a relevância e
propósito dessa mediação envolve estabelecer o próprio lugar da informação e
seu relacionamento com o conhecimento, tanto o individualmente construído
quanto

aquele

histórico

e

socialmente

estabelecido

pelos

coletivos

da

sociedade (GARDIÈS; FABRE, 2012). Gardiès e Fabre (2012) se referem à
mediação documentária como processo capaz de reconciliar duas instâncias

17

No original: “Ainsi, le dispositif est le lieu où humains, objets matériels et liens s’organisent
pour mettre en oeuvre des interactions à la fois réelles et symboliques qui instituent dês
modalités et des logiques d’usage de l’information”.
18
No original: “la médiation documentaire, elle, désigne une médiation des savoirs, où le
professionnel en information-documentation est le médiateur qui permet à l’usager de trouver
l’information dont il a besoin et pour lequel il met en place un dispositif documentaire adapte”.

�63

estabelecendo comunicação e acesso à informação. Essas instâncias podem ser
identificadas, a primeira, na figura da coleção dos documentos e do sistema
onde estão organizados, e a segunda, na figura do público e das práticas a que
se voltam. Ortega (2015) destaca a importância de se considerar os aspectos
linguísticos para que a comunicação pretendida pela mediação documentária,
entre os sentidos dos documentos em oferta e os sujeitos com suas
compreensões de mundo, possa ser promovida de forma mais efetiva, ainda
que não existam garantias quanto à apropriação objetivada pelas ações do
campo.
Os processos de mediação documentária, como já enunciados, podem
ser sistematizados em três categorias, a saber: a seleção, os processos de
organização da informação – produção de bases de dados e ordenação,
sendo a partir da última mobilizadas as estratégias vinculadas à sinalização e à
espacialização; os produtos e serviços para potencializar o acesso as
informações

e

produtos

documentários

elaborados

na

organização

da

informação.
Na seleção são elencados os objetos a serem transformados em
documentos, para incorporação junto as coleções, de forma que essa inclusão
agregue valor aos objetivos do sistema informativo-documentário em termos
do conhecimento esperado a ser promovido junto ao público.
Como mencionado antes, o trabalho do campo se constitui na produção
de informações documentárias. Essas informações são elaboradas no âmbito
dos processos de organização da informação, em operações para produção
de bases de dados e em formas de ordenação, ambos estabelecidos sobre os
documentos selecionados antes.
Ortega (2008, p. 8) define as informações documentárias como unidades
de representação dos documentos, com forma e conteúdo, e pautadas “nos
tipos de informação, nas áreas do conhecimento ou de atividade, na linguagem
dos usuários e nos objetivos do serviço de informação [...]”. Assim, as
informações documentárias não partem restritamente dos documentos, mas os
enxergam em termos de sua produção e dos sentidos promovidos para seu
uso. Dessa forma, as informações documentárias constituídas a partir dos

�64

processos de organização da informação funcionam como forma de comunicar
os sentidos dos documentos junto ao público.
Na produção de bases de dados, discutida na literatura em termos como
catalogação

e

representação

temática

e

descritiva,

são

elaborados

os

diferentes pontos de acesso que permitem a identificação dos documentos,
seja em termos restritos de sua materialidade, quanto de seu conteúdo,
embora seja comum a adoção desses dois conjuntos de traços documentais
como forma de representar os documentos para a recuperação posterior dessa
informação nas bases de dados.
Os valores dos pontos de identificação e acesso são definidos a depender
dos sentidos que a instituição visa potencializar sobre os documentos. A
constituição

e

materialização

desses

valores

se

dá

nas

informações

documentárias construídas no âmbito do sistema, que colocam em diálogo as
linguagens utilizadas no documento pelo autor com a linguagem do público,
devendo constituir nessa dialética a linguagem do sistema a ser adotada na
elaboração das informações documentárias. Dessa forma, pela produção de
bases de dados, o documento é descrito em determinadas facetas, e as
informações documentárias são elaboradas para comunicar estas perspectivas.
No âmbito da ordenação, as informações documentárias são elaboradas
em sentido semelhante ao que ocorre na produção de bases de dados, mas
com ênfase aos modos de relacionar dois ou mais documentos, pela sua
disposição em uma estrutura que permite a navegação em um espaço para o
aceso e uso desses documentos. A depender do caso, não são criadas novas
informações, mas reutilizadas algumas daquelas elaboradas quando produzidas
as bases de dados. Ortega (2016) sistematiza enquanto funções ao processo
de ordenação, a de subsidiar modos de leitura da coleção e das formas de
navegar por ela, de instituir a localização dos documentos, e de servir de
instrumento a gestão da coleção.
A ordenação pode ocorrer sobre as elaborações feitas na produção de
bases de dados em formas de registros documentários, ou seja, os metadados
dos documentos, assim como sobre os próprios documentos.

�65

No primeiro caso, a ordenação de metadados de documentos é instituída
pela ordem estabelecida aos registros documentários, o que é o caso, por
exemplo, das estruturas de navegação para acesso a determinados conteúdos,
comum em sites na internet, dos registros das bases de dados, como os
catálogos e as bibliografias. No segundo caso, a ordenação dos documentos, o
processo ocorre direcionado a proposição de um arranjo aos documentos da
coleção em um espaço determinado, mantendo como propósito corresponder
as funções do processo, como já enunciadas.
Em termos de métodos, a ordenação pode ser realizada por métodos
cronológico, alfabético ou classificatório. No primeiro se tem uma sequência
numérica, normalmente em ordem de 1 a 10, sendo comum para tal a escolha
de atributos documentais como a data de publicação e a ordem de registro na
coleção. No alfabético, a sequência proposta é usualmente feita pela ordem de
A a Z, a partir de atributos como a autoria e o título. Por fim, o método
classificatório, mais comum em coleções cujo acesso é irrestrito, se faz pela
operação de classificação, estruturando classes e subclasses a partir das quais
os documentos podem ser agrupados. Em decorrência de ser limitado ao
agrupamento, o método classificatório é o único que não permite uma
ordenação propriamente para cada registro ou documento, sendo assim
dependente dos métodos alfabético e/ou cronológico para se estabelecer uma
ordem no interior dos agrupamentos estabelecidos via classificação.
A utilização desses métodos, sozinhos ou combinados entre si, permitem
estruturar sistemas de localização fixa, em que a posição de cada item é
permanente no lugar atribuído a ele, ou relativa em que a ordem dos
documentos é intercalada, tornando suas posições na sequência dependentes
por serem relativas a como os agrupamentos anteriores e posteriores da
coleção são desenvolvidos pela aquisição e descarte de documentos.
A

partir

da

ordenação,

dois

processos

subordinados,

mas

com

especificidades entre si, são realizados, a sinalização e a espacialização. A
Sinalização corresponde aos recursos visuais utilizados para orientar o público
e promover sua autonomia na navegação, pelas estruturas de acesso
propostas a partir da ordenação. Por sua vez, discutir a espacialização envolve

�66

a discussão acerca das estratégias de distribuição espacial dos elementos que
compõem o sistema, como os documentos, as estantes, os demais mobiliários,
e os setores do sistema.
Os produtos e serviços figuram em propostas de potencializar o
caráter comunicativo das informações documentárias pela sua reelaboração
das formas de visualizá-las, ou ainda pela prestação de atividades de
capacitação para orientar os sujeitos aos usos do sistema informativodocumentária e das informações nele propostas e reunidas. Deste modo, os
conhecimentos promovidos nesses produtos e serviços já foram discutidos em
outros momentos pelo propósito de promover a alfabetização informacional, as
competências informacionais, e mais recente o letramento informacional,
sendo desenvolvidos no âmbito de programas de orientação bibliográfica, de
serviços de referência, em manuais para uso de bases de dados, entre outros.
Embora não sejam processos de mediação documentária, podem ser
realizadas nos sistemas atividades de sensibilização. Elas reúnem uma série de
propostas de formação ofertadas ao público, que complementam a formação
dos referenciais simbólicos dos sujeitos junto aos processos de mediação
documentária. Essas ações podem ser qualificadas como ações culturais, mas
devem ser compreendidas quanto a especificidade do campo.
De um modo geral, as ações culturais são compreendidas segundo
Almeida (1987) que as situa como as atividades realizadas com o fim de
promover relações entre as pessoas, onde cada uma é uma potencial agente
formadora de outra. Dada a amplitude que essas atividades podem abranger,
destaca-se

a

necessidade

de

sua

realização

enquanto

atividades

de

sensibilização do público, assim, compreendendo sua condição de apoio ao
trabalho documentário realizado nos processos de mediação documentária.
No que tange especificamente a organização da informação, os processos
são

fundamentais

para

a

constituição

de

um

sistema

informativo-

documentário, pois permitem promover o acesso e uso dos documentos, e é a
partir desses processos que a elaboração dos demais serviços, produtos, e
atividades pode ser realizada. Menos a noção de hierarquia entre as instâncias
que compõem a mediação documentária, a necessidade que se faz, e a

�67

tentativa que se fez, foi de situar onde todos esses processos de mediação se
encontram na constituição dos sistemas informativo-documentários e de suas
propostas

de

significação

e

respectivas

importância

para

promover

a

efetividade das comunicações visadas por esses sistemas na apropriação da
informação pelo público.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A mediação documentária pode ser compreendida como a forma de
relacionar documentos e pessoas identificadas coletivamente como um público,
cujo encontro é promovido em práticas realizadas em diferentes sistemas
informativo documentários. Esse tipo de mediação estabelece formas de
comunicar, ainda que não garanta essa comunicação, determinados sentidos
dos documentos a partir de informações documentárias, elaboradas nos
processos de organização da informação como propostas de sentido, e
potencializadas pela elaboração de produtos e serviços. Em certos casos,
incluem-se propostas de atividades de sensibilização do público que apoiem a
formação dos referenciais simbólicos deste para aprimorar a atribuição de
sentido do público à informação, tanto a documentária, quando a dos
documentos em oferta. Deste modo, os processos de mediação documentária
promovem a construção de sentido pela leitura e a apreensão dos significados
pela apropriação da informação, promovendo a formação do público pelo uso
que fazem das coleções.
As práticas de mediação documentária, para promover sua efetividade,
exigem do mediador a compreensão das linguagens que constituem os
documentos e as linguagens do público visado por suas ações, relacionando
ambas em uma dialética que produz uma linguagem do sistema como
resultado deste relacionamento.
Evidencia-se assim como todos os processos dos sistemas informativodocumentários, da seleção às ações culturais realizadas em atividades de
sensibilização, são de fundamental importância para a atuação do campo em

�68

um modo de produção que justifica sua existência e permite sua atuação social
pelas técnicas estruturantes de todos estes processos. Na conjuntura das
ações de mediação documentária que é possível estabelecer zonas de
mediação que oportunizem diferentes formas de encontro entre o público e os
documentos em suas várias possibilidades de subsídio a construção de
conhecimento.
Portanto, cabe aos esforços empreendidos no campo pelos seus
profissionais e pesquisadores, ter na pesquisa um princípio que fundamenta
suas práticas. Ainda, a necessidade de revisar hierarquizações feitas entre os
diversos

elementos

que

compõem

a

mediação

documentária,

que

desqualificam certos fazeres em virtude de outros, ou ainda que situam
oposições entre as instâncias da técnica, da tecnologia e do papel do campo na
sociedade. Sobre as relações entre estas três instâncias por si já exigem novas
reflexões nas melhores formas de situá-las e relacioná-las em uma abordagem
que não promova a concorrência entre elas, mas que compreenda como as
três coexistem, não de forma separada ou hierarquizada, mas juntas para
constituir

um

modo

de

produção,

entendendo

que

uma

abordagem

fragmentada do campo a partir de determinadas facetas, sem visualizar o todo
e os elementos básicos para sua integração, não permite o desenvolvimento de
seu modo de produção em seu potencial integral para a práxis social.

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Ángel (Coord.). El problema del lenguaje en la bibliotecología / ciencia
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Información, 2014. p. 89-95.

�73

DADOS BIOGRÁFICOS

Matheus Aguiar de Carvalho: Doutorando em Ciência da
Informaçãopelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação (PPGCI/UFMG).Mestre em Ciência da Informação
(PPGCI/UFMG). Bacharel em Biblioteconomia(UFMG).
Apoio da pesquisa: FAPEMIG.
E-mail: maguiarcarvalho.bh@hotmail.com
Lattes: http://lattes.cnpq.br/8907552061051069
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9987-0150
Telefone: (31) 9 8637-2079

�74

CAPÍTULO IV - Página Viva: tipografia e mediação pela
cultura
Ismael Lopes Mendonça

1 INTRODUÇÃO
O estudo dos registros humanos tem mostrado um apego não somente
ao ato de escrever como meio de fixar memórias e disponibilizá-las para
futuras

gerações.

Notável

atenção

também

é

dada

ao

desenho

das

composições, aos modelos de leiaute e formatos de letras herdeiros de
inúmeras convenções e interações sociais. Essas elaborações são fecundas em
toda a história. Observa-se, por exemplo, a solução gótica que conformava o
modo de produção dos copistas medievais, a reorientação humanista que
marca o início da modernidade, as experimentações contemporâneas na área
do Design e da Publicidade em vista do cenário tecnológico e de consumo,
além do próprio fazer científico, quanto ao estilo normativo das comunicações
acadêmicas, cujo padrão possui devida importância e funcionalidade no meio.
Percebe-se que existe um sentido a guiar tais práticas, um propósito que liga
forma e conteúdo e que varia conforme o contexto, ora enfatizando uma
instância, ora outra, mas sempre considerando o todo no propósito de produzir
e mediar informações.
A tipografia, por meio do arranjo lógico de caracteres ortográficos e
para-ortográficos, como numerais e sinais de pontuação, em um suporte,
possibilita mensagens, forma documentos,

medeia

leituras. Seja

como

ferramenta de produção e reprodução massiva de impressos, seja enquanto
estética que diz respeito à imagem física ou virtual pela qual as páginas se
apresentam, o significado da tipografia pode ir além. Pelas linhas escritas
circulam histórias, culturas e conhecimentos não necessariamente restritos à
comunicação verbal, pois o não verbal, isto é, a aparência ou instância
imagética do caractere e da página, coopera e é revelador de informações não

�75

menos complexas. Diante disso, para além dos estudos orientados pela
Estética da Recepção (ISER, 1979), que focam nas interações linguísticas entre
um texto ausente de corpo gráfico e o sujeito leitor, seria possível pensar na
página

tipográfica

como

matéria

viva,

fenômeno

significante,

infocomunicacional?
Este capítulo tem como objetivo refletir a relação cultural e mediacional
expressa pelas formas tipográficas. Prioriza-se uma abordagem semiótica de
cunho antropológico sobre o fenômeno, cujo zelo milenar tem se manifestado
por diferentes ações de classificação, organização e controle das produções
escritas e tipografadas. A própria materialidade, categoria valorizada nesta
monografia, aponta simbolicamente para conteúdos plurais, permitindo que a
tipografia, independente da mensagem verbal veiculada, constitua-se como
acontecimento histórico e culturalmente significante. Assim, amparado na ideia
de informação como conceito intersubjetivo advindo de práticas hermenêuticas
contextualizáveis (CAPURRO; HJØRLAND, 2007), este trabalho se justifica pela
epistemologia social da Ciência da Informação, fase paradigmática do referido
campo que, embora não exclua as anteriores, de ordem física e cognitiva,
evidencia o protagonismo das relações coletivas e cotidianas na atribuição de
sentido aos fenômenos informacionais e comunicacionais, assim como aos
documentos e suas mediações e apropriações complexas.
A reflexão se estrutura em duas seções, além da introdução e das
considerações finais. Na primeira parte, é realizado um enlace teóricoconceitual a fim de fundamentar, em síntese, o objetivo exposto. A ideia de
“materialidade” considerada aqui é tecida a partir das abordagens de Ostrower
(2013), Ginzburg (2007), Darnton (1990), Chartier (2001), Meyriat (2016) e
Frohmann (1995; 2008), além do insumo semiótico-antropológico oferecido
por Geertz (2015) e Certeau (2019), que marcam o todo da abordagem. Na
seção seguinte, a análise recai sobre a tipografia, evidenciando as relações
históricas e culturais de sentido, que são processos mediacionais apreendidos
pelo estudo das formas. Cabe ainda informar que este trabalho resulta de um
recorte atualizado da pesquisa de mestrado realizada pelo Programa de Pósgraduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Ceará

�76

(PPGCI/UFC), defendida no ano de 2018 e que teve financiamento da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A
dissertação que compreende o todo da pesquisa se chama “A tipografia como
manifestação cultural” (MENDONÇA, 2018) e está disponível no repositório da
referida instituição.

2 ENLACES TEÓRICO-CONCEITUAIS
Os registros tipografados, como os livros, para além de se constituírem
como produtos operacionalizados por uma sofisticada tecnologia de informação
e de comunicação, são fixações de ordem histórica e cultural. São resultado de
convenções que têm regulado as práticas humanas ao longo do tempo, formas
responsáveis pelas promoções de sentido e de memória. Por “forma”,
considera-se a noção dada por Ostrower (2013) de que não se trata de um
objeto isolado, mas de uma complexa rede de significações humanas. É fruto
de intencionalidades, pois forma-se algo a partir das relações de coerência e
ordenação estabelecidas sempre de modo consciente, social e cotidiano. “Toda
forma é forma de comunicação ao mesmo tempo que forma de realização”
(OSTROWER, 2013, p. 5), o que envolve não apenas os aspectos físico e
cognitivo, mas a interação, o pensar e o agir em conjunto com o outro, em
prol de algo. Assim, os registros são, antes de tudo, formas sociais
impregnadas de sentido.
A ideia de forma se comunica com o paradigma indiciário proposto por
Ginzburg

(2007),

sobre

os

objetos

se

manifestarem

como

vestígios

contextualizáveis. A noção de “vestígio”, ao ser aplicada aos registros, revela
índices que remetem a uma época ou acordo, ou conjunto de acordos, cuja
detecção possibilita conhecer os motivos pelos quais as formas estão
representadas

como

tal

e

não

outra,

aferindo

sobre

essas

uma

contextualização que é significante. Em Ginzburg (2007), trata-se de um
método

de

caráter

detetivesco,

realizado

por

um

estudo

meticuloso,

pormenorizado e heterogêneo de pistas discretas, dispersas e, muitas vezes,

�77

marginalizadas nos e pelos documentos, possibilitando uma compreensão
crítica da realidade. É um método histórico que concilia sensibilidade e
objetividade, em que os índices ou vestígios funcionam como resíduos, “dados
marginais, considerados reveladores” (GINZBURG, 2007, p. 149), ligados ao
saber venatório (decifração do passado), divinatório (lança perspectivas de
futuro) e semiótico (expressão de sentido). São “pistas talvez infinitesimais
[que] permitem captar uma realidade mais profunda, de outra forma
inatingível” (GINZBURG, 2007, p. 150). Apreendidas, tais pistas, vestígios ou
índices poderão compor narrativas de mundo.
Com isso, o vestígio material presente nos registros é também
informacional (simbólico), pois comunica algo, como o entorno social em que
foi formado, para alguém. Assemelha-se a uma anotação implícita, isto é,
marca discreta gerada pela força de alguma cultura, que vem à tona pela ação
de um interpretante. Essa prática requer método, mas se flexibiliza ao efeito
dos diversos contextos, inclusive ao do próprio analista, uma vez que as
sociedades observam “a necessidade de distinguir os seus componentes”,
conforme sejam “os tempos e os lugares” (GINZBURG, 2007, p. 171). Nesse
tocante, a mensagem expressa pelas formas escritas, produções humanas
datadas, torna-se complexa porque pode indicar muitos significados: um
sintoma, uma evidência, uma sensação, uma especialidade, um gesto cultural,
uma imagem, todos a depender da interpretação. É pela diversidade de
significados revelada pelos registros, enquanto relações culturais, que o
homem modela e é modelado, isto é, informa e é informado, medeia e adquire
conhecimento. “Se a realidade é opaca”, conclui o autor, “existem zonas
privilegiadas – sinais, indícios – que permitem decifrá-la” (GINZBURG, 2007, p.
177).
A proposta indiciária de Ginzburg (2007) tem muito a ver com o
pensamento de Darnton (1990) sobre o impacto dos bastidores técnicos e
socioculturais nas produções livrescas. Focado na realidade da França do
século XVIII, o autor se utiliza de uma etnografia da História, ou “história
vivida” (DARNTON, 1990, p. 17), de análise pormenorizada semelhante à de
Ginzburg (2007), para propor o modelo pelo qual o livro e, por extensão, os

�78

meios de informação e de comunicação em geral acontecem. Para ele, esses
objetos são marcados pelo modo como são produzidos, em um processo que
envolve interação, adaptação, subversão e jogos de poder. Percorrendo esse
circuito batizado como “ciclo de vida” (DARNTON, 1990, p. 112), o livro não
apenas ganha a forma física final, concreta, mas recebe significados conforme
as práticas sociais, políticas e econômicas adotadas ao longo da ampla cadeia
produtiva.
É mais um modo de afirmar que as produções humanas não se
configuram isentas de contexto, pois para além do pragmatismo tecnicista,
participam elaborações de ordem hermenêutica que são resultado das práticas
culturais de formação e de leitura. O ciclo, para Darnton (1990), começa pelas
ações do autor e é encerrado no leitor, que à sua maneira reinicia todo o
processo de produção. No trajeto, envolve o papel do editor, do impressor, do
distribuidor e do vendedor, ou seja, de todos os atravessadores anônimos que,
ao interagirem, compõem esse “circuito de comunicação” (DARNTON, 1990, p.
112) formador da matéria e dos sentidos do livro. Nesse tocante, a
materialidade não se esgota na fisicalidade do objeto ou do registro, ao
contrário, transcende-o e revela relações culturais de sentido.
“Todos estes elementos materiais, corporais ou físicos”, para Chartier
(2001, p. 30), “pertencem ao processo de produção de sentido”, uma
materialidade na qual também participa o leitor, em sua “corporeidade social e
culturalmente construída” (CHARTIER, 2001, p. 32). Ao chamar para o plano
dialógico o mundo social do registro e do leitor, tem-se uma dimensão
complexa tanto do ato de escrever ou tipografar, como do de ler. Trata-se de
um cenário que avança para os movimentos dialéticos da mediação, uma vez
que o registro medeia intenções autorais (ou do seu ciclo de produção), fixadas
como pistas verbais e não verbais no texto, e o leitor, por meio de uma ação
interferente de natureza interpretante, não necessariamente confirma a
mensagem, mas confronta, atualiza, transforma o que lhe chega aos sentidos.
O leitor se apropria do registro, tomando posse e controle da informação
(CHARTIER, 2001), ainda que provisória e silenciosamente, tornando “o texto
habitável, à maneira de um apartamento alugado” (CERTEAU, 2019, p. 48).

�79

Ação

semelhante

é

refletida

também

por

alguns

estudiosos

da

Documentação, como Meyriat (2016), cujo conceito de documento “não se
impõe como uma evidência inicial”, tendo em vista que “ele depende dos
pontos de vista e dos métodos da documentação e da documentologia”
(MEYRIAT, 2016, p. 241). O autor não trata esses objetos de modo apriorístico
e universal, como se existissem por si, mas como algo em constante
construção,

dependente não apenas da

intencionalidade de

uma rede

sociotécnica que configura a matéria para fins informacionais (“documento por
intenção”), como também da apropriação do público (“documento por
atribuição”). Tal apropriação, para Meyriat (2016), acontece pela atribuição de
sentido advinda do uso cotidiano, que pode confirmar a função informacional
dos documentos preparados para esse propósito, como livros e jornais, ou
transformar coisas improváveis em documentos, como uma pedra que serve
de leitura para um geólogo.
Na referida área, em fase mais recente chamada “neodocumentação”, a
ideia de “materialidade” é trabalhada de modo mais denso por Frohmann
(2008), que a compreende em contraponto à informação de ordem mental.
Para o autor, “o conceito de materialidade traz um entendimento muito mais
rico do caráter público e social da informação em nosso tempo” (FROHMANN,
2008, p. 3). Isso porque a sua perspectiva diz respeito ao modo como a
informação toma corpo, ou seja, torna-se documento por práticas humanas,
pelos exercícios de poder e controle manifestos nos sistemas de informação e
de comunicação. O autor foca no aspecto disciplinar da produção documental,
uma vez que parte de suas referências vem de Foucault, e ressalta a
importância dos mecanismos sociais como as instituições que, por ações
interativas e seletivas, produzem e subjugam fenômenos informacionais em
uma espécie de “regime de informação” (FROHMANN, 1995, p. 6, livre
tradução), quer dizer, uma rede organizacional que interfere no registro e em
seus efeitos.
Tal regime fornece os indícios pelos quais a matéria é formada e
prescreve a maneira que os significados devem ser mediados e apropriados,
visando consolidar relações estáveis de sentido. Porém, a natureza da

�80

mediação que se faz por tramas culturais mais amplas é, sobretudo, complexa
do mesmo modo que a cultura o é, pois ambas advêm da coletividade
ordenada e da imprevisibilidade cotidiana. Para Geertz (2015), existir no
mundo requer estar culturalmente ordenado, e tal ordenação reverbera pelas
produções humanas (símbolos), como nos registros, e se expressa pelos
mecanismos

sociais

de

inserção

e

de

controle,

como

nos

regimes

informacionais. A ordenação é o código cultural que autoriza e, ao mesmo
tempo, deslegitima formações, permitindo à ordem haver o mundo e seus
fenômenos, embora não os resolva por completo, dada a pluralidade cultural e
a “poética” cotidiana, com seus artifícios significantes não autorizados
(CERTEAU, 2019).
A ordem é, pois, um estado que condiciona produções, como a tipografia.
Sem ela, o caractere, nem como elemento técnico nem como fenômeno
informacional e comunicacional, existiria. Mas para além dessa cadeia
disciplinar, existem as artimanhas que desarmam regimes preconcebidos e
produzem efeitos imprevisíveis. Isso permite uma poiesis que, apesar de
discreta e anônima, revela-se necessária à dinamicidade do mundo, às
formações e às mediações.

3 TIPOGRAFIA COMO FENÔMENO CULTURAL E SIGNIFICANTE
Enquanto técnica de registro, a tipografia pode ser compreendida como
sistema formado por peças físicas e, atualmente, códigos digitais que
cooperam na composição e reprodução de textos impressos e eletrônicos. Essa
perspectiva enfatiza a relação instrumental do objeto como meio produtor de
documentos a partir de processos, por vezes, industriais, dada a velocidade e a
quantidade de produtos padronizados em série. Ela evidencia um regime de
produção específico, não descontextualizado do entorno social formado pelos
sujeitos que originam serviços (autores e editores), manipulam a máquina
(impressores), criam produtos (designers) e consomem (leitores), além dos

�81

fornecedores de insumos, mantenedores, vendedores e demais atores que
participam do “ciclo de vida” geral dos impressos (DARNTON, 1990).
O

pensamento

ligado

à

tipografia

enquanto

meio

operacional

é

frequentemente observado na literatura sobre o tema, como acontece, por
exemplo, em Araújo (1986). Quando o autor trata da editoração e afirma que
a difusão da imprensa serviu, antes de tudo, para “evitar a incidência de erros
tal como se verificava nas reproduções manuscritas” (ARAÚJO, 1986, p. 45),
infere-se à técnica uma função disciplinar em que o sistema tipográfico seria
utilizado como ferramenta de controle a conservar intenções autorais.
Entretanto, a abordagem de Araújo (1986) repousa no aspecto mecânico da
relação, na tipografia percebida como aparato neutro, promotor de duplicatas,
e não como fenômeno dialético, histórica e socialmente localizado. Nesse
sentido, o dispositivo tipográfico não atuaria com plena eficácia devido aos
“freqüentes [sic] e inquietantes acidentes de impressão” (ARAÚJO, 1986, p.
45), algo difícil de ser estabilizado, para aflição dos que perseguem regras
simples na produção, tratamento e mediação de documentos impressos.
O segundo momento surge quando Araújo (1986) lança a sua definição
sobre os tipos. Para ele, a tipografia “além de designar comumente o
estabelecimento onde se faz a impressão, significa antes de tudo determinado
sistema de reprodução de cópias, mas também a maneira como se distribuem
os tipos na página” (ARAÚJO, 1986, p. 536). Com isso, adere-se à técnica um
efeito estético que corresponde à forma ou projeto gráfico da página
tipografada, sem, mais uma vez, avançar na discussão. Pelo objetivo deste
capítulo, deve-se transcender a relação mecânica para compreender a
tipografia na totalidade de suas representações, como um sistema simbólico,
dialogicamente ligado ao homem e aos modos culturais de ordenar e de
produzir significados. Esse sofisticado sistema de escrita é originário do
contexto europeu do século XV e tem se mostrado impregnado de simbolismos
que percorrem épocas, ordenações e conflitos, mediando apropriações e
transformações diversas.
Antes dos tipos móveis serem instituídos, a produção no interior dos
monastérios

da

Idade

Média

era

cercada

de

numerosas

convenções

�82

envolvendo tempo, local, condições dos copistas, conteúdo das obras, preparo
dos materiais, estilo das letras, formato dos documentos, ilustrações e
acabamentos, compondo um padrão que orientava a produção escrita. Tal
cuidado incidia sobre o valor material e imaterial das obras, transformando os
livros em artigos caros, reservados à minoria. Algumas dessas relações foram
continuadas pelo modelo tipográfico empreendido por Gutenberg, como o
formato em códice dos livros e, na fase inicial da imprensa, a grafia gótica
adaptada aos caracteres metálicos e individualizados, que são os tipos móveis
(BRINGHURST, 2015; CHARTIER, 1999; LUPTON, 2009; MEGGS, 2009). Por
outro lado, a tipografia promoveu rupturas, como o paulatino, embora
irregular, acesso ao letramento e à aquisição de obras (diferentes formatos,
como os de bolso, foram desenvolvidos visando um menor custo para o uso
cotidiano,

por

exemplo).

Outras

modificações

sociais

de

larga

escala

aconteceram, de certa maneira, associadas ao empreendimento tipográfico,
tais como o desenvolvimento civilizatório, o surgimento da autoimagem
nacional e do modo de vida urbano, as novas relações de trabalho e de
consumo, o movimento protestante, o Iluminismo, o progresso científico e a
mídia (BRIGGS; BURKE, 2006; BURKE, 2003; ELIAS, 1996; MCLUHAN, 1977;
MCMURTRIE, 1982).
No alvorecer da modernidade, a técnica, o conteúdo e a forma dos
escritos em massa sofreram revisões. O método de produção artesanal se
tornou manufaturado pela prensa móvel, os textos perderam a censura
eclesiástica, passando a resgatar clássicos greco-romanos e a gozar de certa
liberdade de circulação, e, ainda no século XV, a estética gótica perdeu a
hegemonia para o estabelecimento da forma romana advinda, em parte, das
inscrições lapidares do antigo Império Romano. As ordenações medievais
sofreram

enfraquecimento

pela

ascensão

dos

humanistas,

classe

de

pensadores leigos, cuja erudição não estava atrelada à Igreja (BURKE, 2003).
Essa ação visava desprender o homem das amarras do comportamento
“bárbaro” e do pensamento “mágico-mítico”, marcas da fase medieval, e a
estética tipográfica romana ou humanista se tornou um dos símbolos desse
movimento. Ela materializou a tensão existente entre um passado preconizado

�83

como obscuro e um presente prometido como libertário, artificializando-se
rumo a uma cientificidade que apagaria, ao longo de séculos de sofisticação
técnica, os vestígios de uma cultura tradicionalmente oral, comunitária e
artesanal (BENJAMIN, 2018), a fim de privilegiar a lógica do progresso, do
capital e do individualismo.
Assim, na missão de formar e ampliar sociedades ditas esclarecidas e
desenvolvidas, a tipografia se sujeitou aos processos e mudanças que
empreendera, reconfigurando-se conforme as ordenações sociais e culturais
provocadas. Com a virada paradigmática promovida pela compreensão pósmoderna de mundo, no século XX, ampliada pela revolução informática dos
meios de informação e de comunicação, esse escamotear de sentidos pela
forma foi, em certa medida, revisitada. A linguagem digital permitiu uma gama
de expressividades estéticas, infocomunicacionais, modificando também os
modos de escrever e de ler. De acordo com Chartier (1999), as novas
tecnologias e a linguagem digital afastaram o escritor e o leitor comuns da
experiência em torno da substância, isto é, da fisicalidade pela qual o texto
tradicionalmente impresso se apresentava, desconstruindo identidades antes
resolvidas. Nesse cenário de instabilidades elevadas, conforme reflete Martins
(2015, p. 86), “é para os ecrãs que agora olhamos, é para as telas, [...] uma
luz de cuja artificialidade nos damos conta quando a corrente elétrica falha”.
Isso evidencia o caráter provisório e simulacro pelo qual as relações humanas
e suas formações contemporâneas, incluindo a tipográfica, tornaram-se
marcadas.
Diante da pluralidade de indícios socioculturais mediados pelas formas, a
tipografia deve ser compreendida, de acordo com Flusser (2010, p. 61), “muito
mais como uma nova maneira de escrever e pensar do que como técnica para
produção de impressos ou método para disseminação de informações
alfanuméricas”. Os caracteres não são tratados pelo autor como meras peças
de um maquinário pelo qual textos são montados, mas expressam “sentido de
modelo, forma, esquema ou conjunto interligado de características que pode
ser repetido por um número indefinido de exemplares” (FLUSSER, 2010, p.
62), o que os aproxima da noção primeira levantada por Araújo (1986).

�84

Entretanto, Flusser (2010) vai além e afirma que a tipografia, para além da
esfera técnica, diz respeito à promoção daquilo que se tornou universal e
categórico na cultura humana (“typos”, em grego), isto é, de tudo o que pode
ser reunido, classificado e organizado por esquemas lógicos, tipificados. Nessa
perspectiva, a tipografia se manifesta como signo infocomunicacional complexo
e, ao mesmo tempo, traço cultural que tem permeado a sociedade moderna.
“Nós cremos na realidade dos universais, dos tipos, na realidade da partícula
atômica, dos genes, das classes sociais, das raças, e tentamos exibi-los e
manuseá-los”, afirma Flusser (2010, p. 64), que continua: “A tipografia
esclareceu que manipulamos tipos quando escrevemos”, sendo o motivo pelo
qual “tornou-se um suporte da ciência moderna” (FLUSSER, 2010, p. 64).
Na concepção de Flusser (2010), a tipografia é, pois, uma manifestação
da cultura intelectual humana que atingiu o apogeu na fase moderna. Trata-se
de um sistema simbolicamente ordenado, que permitiu ao homem a ilusão de
domínio sobre as coisas da natureza a partir do exercício da Razão e da
supressão do diferente. Como expressão cultural, a tipografia é ordenada de
modo a permitir que sinais sejam arranjados e provoquem leituras advindas da
constituição do alfabeto, das regras da língua, mas também por refletir, na
própria matéria, o percurso histórico e cultural da humanidade. Por ser um
sistema estabilizado de e por símbolos, é que os caracteres permitem fluxos
infocomunicacionais diversos, como a materialização da fala e dos gestos, o
registro de ideias em suportes, os processos de documentação, os meios de
interação midiáticos e as significações outras em um dado contexto. Tais
códigos e linguagens são fenômenos culturais e significantes, tal como são os
caracteres. Assim, pode-se dizer que a tipografia participa intimamente da
realidade

humana,

recebendo

sobre

si

os

índices

das

ordenações

socioculturais, além de servir como meio em prol da configuração da realidade,
integrando e reforçando mecanismos de ordem, controle e sentido, pois, em
parte, é deles que se vale para se estabilizar enquanto signo, informar e
comunicar mensagens.
O tipo romano batizado como Civilité, segundo Elias (1996), foi
comumente utilizado até o final do século XVIII para dar corpo aos manuais

�85

que instruíram o comportamento civilizado do europeu. Via-se, nessa família
tipográfica, um símbolo favorável às noções de civilidade cultivadas no
Ocidente, sintoma da hegemonia humanista e de sua estética sobre os modos
de vida, que deveriam ser racionalizados em prol de um modelo de
desenvolvimento social. No âmbito científico atual, tem-se a prescrição de
certas regras tipográficas para dar corpo e alguma validade aos trabalhos
oriundos de pesquisas, constituindo padrões formais para as comunicações.
Trata-se das regras de normalização acadêmica estipuladas por instituições
reguladoras como a American Psychological Association (APA), no cenário
internacional, e a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), no
contexto nacional. A primeira (AMERICAN..., 2010) defende o uso da Times
New

Roman,

outra

fonte

tipográfica

de

estilo

romano.

A

segunda

(ASSOCIAÇÃO..., 2011), que não especifica qual fonte usar, determina que o
tamanho da letra escolhida seja 12 para o texto geral, além de listar outros
detalhes que configuram, juntos, a forma do documento acadêmico, incidindo
efeitos sobre a materialidade e a recepção.
Vale ressaltar que a Times New Roman, popularizada pelo meio
acadêmico local e internacional, surgiu para dar identidade gráfica ao jornal
britânico “The Times”. É, no dizer de Bringhurst (2015, p. 109), um “pastiche
histórico desenhado por Victor Lardent para Stanley Morison em Londres, em
1931”, possuindo “um eixo humanista mas proporções maneiristas, peso
barroco e um acabamento preciso, neoclássico”. Isso significa que a fonte
carrega diversas referências estéticas, históricas e culturais na estrutura, que
foram atualizadas na década de 1990, quando os direitos de uso e distribuição
foram

comprados

pela

Microsoft™

para

instalação

em

sua

rede

de

computadores, o que permitiu a digitalização e a interação com o grande
público. Assim, a fonte que foi processada originalmente para mediar os
significados em torno do jornal londrino, vaga hoje como matéria deslocada
das intenções primeiras de seu criador, tendo os vínculos simbólicos
apreendidos e reordenados pelo uso massivo das instituições normativas e
acadêmicas. Ao reconfigurar a teia de significados da Times, a Academia lhe

�86

ofereceu um novo sentido, tal como qualquer usuário possa lhe atribuir, dado o
caráter dinâmico das mediações e das apropriações.
Portanto, pode-se dizer que a tipografia é diversa de sentidos do passado
e do presente, e uma tensão vem à tona no ato das composições: a forma e os
significados estão sempre na iminência de reordenação. Ao serem postos no
papel ou na tela, não apenas produzem mensagens, mas o próprio caractere
surge carregado de significações que lhes são próprias, de visões de mundo,
de ideologias e tecnologias. Isso atesta o sentido dialético e público das
produções humanas, que são artifícios localizáveis contextualmente, além da
própria

natureza

das

mediações,

que

são

fenômenos

interativos

e

interferentes, dependentes de ações coletivas. O resultado informacional e
comunicacional do registro ou documento tipográfico surgirá, então, das
escolhas feitas entre o verbal e o não verbal, entre a forma e a função ou,
ainda, entre a matéria e o espírito da letra, representados pelo caractere.
Na

compreensão

antropológica

do

fenômeno

tipográfico,

as

possibilidades materiais e mediacionais estão sempre grávidas de efeitos e de
ordenações culturais, tal como diz Freire (2006) acerca das palavras, ficando a
tipografia entendida como uma narrativa sofisticada do mundo, a sofrer das
múltiplas interferências contextuais dos atos de compor e de ler. “Todo
alfabeto é uma cultura. Toda cultura tem sua própria versão da história e seu
próprio acúmulo de tradições”, defende Bringhurst (2015, p. 158). Assim, a
tipografia como fenômeno informacional e simbólico se faz pelas tramas da
cultura, matriz semiótica de significados, plena de processos transitórios de
sentido.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pela cultura de abordagem semiótica e antropológica, um fenômeno
como a tipografia desperta sentidos porque plurais são as visões de mundo,
assim como os condicionamentos que participam da experiência. A relação
interpretante está ordenada por processos que configuram práticas, estando a

�87

cultura, enquanto tear de significações, a mediar conflitos e intencionalidades
estabelecidas nas produções e recepções. Nesse tocante, aquilo que se
apreende das páginas advém de complexos e incertos filtros operados no
mundo e por meio dele, ou seja, de lentes provenientes dos diferentes regimes
simbólicos pelos quais o homem, coletiva e cotidianamente, constrói e é
construído. O próprio ato de compor não se desvincula dos valores culturais do
mundo,

o

que

imprime,

na

matéria,

índices

que

datam

e

sinalizam

perspectivas culturais.
O olhar antropológico sobre as coisas e as relações de mundo é também
informacional no sentido de que, pelo interpretar, significados são apreendidos,
mensagens são apropriadas, relações são estabelecidas. Mediar pelas tramas
da cultura condiz com o ato de informar e de comunicar como categoria social,
tal como preconiza a atual fase da Ciência da Informação, em que o fenômeno
informacional dialoga com os modos intersubjetivos de produção e de
apropriação. Assim, a tipografia, enquanto fenômeno cultural e significante,
ilustra aquilo que o conceito social de informação ou documento representa,
quer pelos simbolismos configurados via estratégias compositivas, quer pelas
práticas de leitura, favorecendo uma relação que excede os parâmetros físicos
e

cognitivos

superados

pelo

referido

campo

científico,

na

abordagem

paradigmática.
A técnica, de maquinário restritamente operacional, e a estética, de item
simplesmente cosmético, transcendem para um viés profundamente interativo
com o homem. Essa relação vitaliza e dinamiza as formas tipográficas, seja
nos atos de composição, seja de leitura, transformando caracteres e páginas,
de canais neutros ou impessoais, em signos dinâmicos, comunicantes. Por isso,
“página viva”, título deste trabalho. Pois, pela cultura, sentidos são evocados
na e pela tipografia, burilando aspectos formais e produzindo significados que
atualizam usos e apropriações. Tudo isso permite haver a tipografia como
materialidade vívida, cuja mobilidade simbólica aponta para a semiose infinita,
graças à ação da cultura que se refaz intensamente, pela trama do vivido.

�88

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Vozes, 2013.

DADOS BIBLIOGRÁFICOS

Ismael Lopes Mendonça: Doutorando em Ciência da
Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestre
em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Ceará,
especialista em Teorias da Comunicação e da Imagem pela
Universidade Federal do Ceará e graduado em Comunicação
Social (Publicidade e Propaganda) pela Universidade Federal do
Ceará. No doutorado, é bolsista da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de Minas Gerais e participa do grupo de
pesquisa “Informação e Leitura”, vinculado à Universidade
Federal de Minas Gerais e ao Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Possui experiência em
Ciência da Informação e em Comunicação, com ênfase nos
temas: relações socioculturais da informação e da comunicação,
mediação, leitura, história social do livro e da imprensa,
materialidade, tipografia, design gráfico e direção de arte
aplicada à publicidade.
E-mail: ismaelmendonca@gmail.com

�91

CAPÍTULO V - A prática da mediação em museus: entre o
artefato e a subjetividade
Felipe Eleutério Hoffman

1 INTRODUÇÃO
O vocábulo mediação pode ter sua origem rastreada a partir de uma raiz
grega mesou, ou ainda do latim médius/mediatio, que etimologicamente está
ligada em seu sentido original ao significado de intervenção, interferência,
intercessão ou ainda conciliação. Nesta acepção podemos identificar a raiz med
com o significado de “meio” que remete a ideia de uma posição mediana, algo
que se encontra no meio, no centro, um elemento terceiro que se coloca entre
duas outras partes, agindo como um intermediário, capaz de conciliar estes
dois elementos.
No universo dos museus o conceito pode apresentar acepções diversas,
mas dentro das diferentes possibilidades que se apresentam ao campo, esta
dimensão da mediação como algo que se coloca entre dois elementos com o
objetivo de provocar uma aproximação ou ainda uma relação de apropriação,
também é a que se apresenta de maneira mais comum.
De maneira geral no contexto museal a mediação está ligada a uma série
de intervenções que tem como finalidade estabelecer pontos de contato entre
aquilo que é exposto, representado, rememorado no espaço dos museus e os
diferentes significados que podem ser apreendidos por meio deles por um
público visitante. Desta forma estas diferentes intervenções podem apresentar
dimensões e contextos diversos de acordo com os distintos olhares que
caracterizam as funções e o fazer museal. Neste sentido o presente texto
objetiva traçar um olhar panorâmico sobre algumas destas perspectivas que se
apresentam ao conceito de mediação no âmbito dos museus sem buscar, no
entanto esgotá-las.

�92

Partiremos da percepção da mediação nos termos do que é denominado
nos museus de “ação educativa” ou “mediação cultural” destacando a figura do
“educador” ou “mediador” como o responsável por desenvolver atividades
educativas e/ou informativas e provocadoras no âmbito dos espaços museais.
Em seguida trataremos da mediação no que tange as atividades que são
realizadas com os artefatos e documentos para além do contato direto com o
público, destacando a prática da curadoria como instância de mediação. Por
fim

abordaremos

outras

possibilidades

de

compreensão

da

mediação

considerando novas formas de relacionamento que se desenvolvem entre as
instituições museais e o território em que se encontram inseridas no âmbito
das cidades, pensando o museu como espaço relacional, fruto de novas
abordagens que se descortinam para a museologia e para o campo dos
museus no contemporâneo.
No entanto antes de adentrarmos estas diferentes perspectivas faz-se
necessário

trazer

alguns

apontamentos

acerca

da

própria

trajetória

e

conceituação da instituição museu destacando aspectos que se tornam
fundamentais na percepção destes lugares como espaços de mediação.
Percurso que percorremos a seguir.

2 O MUSEU COMO INSTITUIÇÃO MEDIADORA DA REALIDADE
A origem da palavra museu advém da Grécia antiga, uma alusão ao
templo das musas, o Museion. Dedicados às nove deusas das artes e das
ciências, filhas de Zeus e Mnemôsine, lugares de culto e adestramento nas
artes.
No entanto, o museu da forma como o conhecemos hoje, passa pelas
coleções de objetos e dos gabinetes de curiosidades, onde o contato com este
patrimônio era ainda restrito a alguns estudiosos e é apenas nos séculos XVII
e XVIII que estes se reorganizam, enquanto instituição, assumindo um formato
próximo ao que conhecemos atualmente. A ideia de “um espaço bem
delimitado, destinado à guarda, estudo e exposição de objetos aos quais é

�93

atribuído um sobrevalor – importância religiosa, cívica, científica, estética, ou
qualquer outra- que os torna passíveis de proteção” (BITTENCOURT, 2009,
p.17).
É, portanto a partir dos ideários e de um projeto burguês, tendo como
vértice a Revolução Francesa, em 1789, que os testemunhos históricos e
artísticos são valorizados como construção de uma cidadania formadora da
coletividade e passam a ser vinculados ao campo da representação e a ser
utilizados com fins políticos, com o objetivo de unir grupos cultural e
socialmente distintos, em um projeto unificador de identidade e de nação.
Os monumentos históricos, os saberes e as práticas que os rodeiam
institucionalizam-se. Esculturas, pinacotecas, arquivos nacionais e bibliotecas
públicas, são criadas com a função de dar visibilidade ao poder constituído e de
servir ao mesmo tempo como ferramenta para instrução dos cidadãos. É
também neste contexto que os museus se consolidam enquanto instituição:
A força do conceito de instituição clareia sua função organizadora. [...]
as instituições são percebidas como fator de organização da sociedade,
interligação dos indivíduos a atividades permanentes, passando a
conhecer sua própria sociedade através das representações coletivas
que a simbolizam em totalidade. [...] a instituição inscreve-se no
contexto do grupamento social legitimado, sendo reconhecida e dotada
de verdade validada por si própria, um fato social que determina
comportamentos coletivos e inscreve-se como instrumento de análise
das contradições sociais. A institucionalização das coleções reais e
privadas em museu, tal como hoje é entendido, atenderia perfeitamente
as ambições burguesas em afirmar-se enquanto classe dominante
(CASTRO, 2002, p.103).

Esta

feição

institucional

dos

museus,

resultado

desta

complexa

vinculação com o estabelecimento dos Estados Nacionais, os estabelecem
como local de preservação de uma memória e patrimônio cultural. Patrimônio
e memórias estas que espelhavam o poder das camadas dominantes da
sociedade.
É a partir desta configuração que se deu a exportação e absorção deste
modelo de instituição museal pelo “novo mundo” e pelas nações orientais. Nas
colônias com a implantação de museus que refletiam a forma como a cultura
local era

vista

pelos

“olhos

europeus”,

representavam

um

desejo

de

incorporação política das realidades que se ora se descortinavam. No oriente,
ainda que um pouco mais tarde, principalmente através da implementação de

�94

museus de arte de estilo ocidental, reflete-se a disposição de mostrar ao
ocidente uma posição como aliado político confiável e uma adesão aos
símbolos e valores ocidentais (DUNCAN, 1996).
Neste sentido, desde seus primórdios se percebe o museu como espaço
de não neutralidade. “A instituição museal torna-se, por força de sua
representatividade, uma preciosa aliada na utilização da memória coletiva
como exercício de poder” (CASTRO, 2002, p. 111). Estabelecem-se desta
forma os museus como instrumento de afirmação da nacionalidade, que
deveriam estimular a admiração pública.
Detinham então um papel privilegiado como propagadores de uma
memória oficial, fortemente identificada com a ideia da nação como principal
suporte de uma memória coletiva. Se caracterizavam em suas origens por um
acesso restritivo a seus espaços, inicialmente como lugares para os membros
das classes mais abastadas, pesquisadores, membros da nobreza e das classes
dominantes. Ao longo do século XIX e XX, vão gradualmente se abrindo a
visitação pública.
No entanto, para além do acesso físico aos espaços do museu, outra
questão fundamental na relação da instituição museal com a sociedade como
instância mediadora do patrimônio cultural, diz respeito ao acesso simbólico.
Os procedimentos de coleta de acervo em seus primórdios privilegiavam os
segmentos das elites sociais. Suas exposições adotavam um tratamento
factual da história, promovendo o culto à personalidade, a veiculação de
conteúdos dogmáticos, em detrimento de uma reflexão crítica (JULIÃO, 2006).
Estes fatores que exercem ainda hoje, influências nas práticas museais,
constituem-se em um dos principais veículos de críticas feitas aos museus.
Foram diversos os intelectuais que desde a gênese das instituições museais,
despenderam críticas à lógica museal. Preso a ideia de representação de uma
unidade nacional, a partir de uma perspectiva elitizada, o discurso museal
impossibilitava ao público visitante uma identificação mais profunda com o que
viam em suas galerias, estes se configuravam apenas como espectadores.
As primeiras décadas do século XX trazem mudanças, principalmente a
partir das críticas realizadas pelas vanguardas do movimento moderno aos

�95

espaços museais e ao mesmo tempo pelo surgimento de uma visão mais
pragmática e associada a uma vertente mais mercadológica de museu nos
Estados Unidos. O museu começa a atender novas demandas e serviços,
associados não só a uma vertente educacional e cultural, mas também ao
entretenimento (SILVA, 2007).
No entanto, apesar de todas as transformações nos espaços museais,
permanecia ainda um distanciamento destas instituições com o público. Ainda
que propusessem uma série de novas atividades que incentivam a visitação,
havia toda uma diversidade cultural que não se sentia representada nestes
espaços de memória. Esta condição somente irá se alterar frente aos
movimentos e demandas que se originam no período pós-segunda guerra
mundial, principalmente a partir da década de 1960, movimentos estes que
ganham força nas décadas seguintes. Tal agitação resulta na quebra do
paradigma dos museus enquanto lugares associados exclusivamente ao
universo simbólico das elites e a uma ideia hierarquizada de cultura,
proposições que correm em paralelo com o alargamento da noção de
patrimônio.
Frente a esta conjuntura os museus se reestruturam e começam a
incorporar as questões relativas à vida cotidiana das comunidades, as lutas
pela preservação do meio ambiente e a memória de grupos sociais específicos.
Novas práticas e teorias sinalizam para uma função social do museu, que
passava a redefinir o seu papel, ao estabelecer como seu objetivo maior o
público, e não mais seu acervo. Este fator imprime aos museus uma função
crítica e transformadora na sociedade. Neste sentido, é neste ínterim que o
surgimento do conceito de ecomuseu e museu comunitário, no qual se
expressa a relação da população de um determinado território com sua história
e com o território que o cerca ao incorporar o patrimônio natural e cultural,
transforma a relação entre o museu e a sociedade.
Na

atualidade

o

conceito

de

museu

sofreu

grande

expansão,

principalmente no contexto pós-segunda guerra mundial no qual a criação do
ICOM

teve

determinante

influência,

propiciando

grandes

avanços

na

mentalidade museal em resposta as estas demandas sociais do pós-guerra.

�96

Portanto, ainda que tenham se estabelecido a partir de uma tradição do
ocidente, as instituições museais se configuram na contemporaneidade como
um fenômeno de alcance global.
Até recentemente segundo o ICOM (Conselho Internacional dos Museus)
um museu poderia ser definido como:
[...] uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da
sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire,
conserva, estuda, expõe e transmite o patrimônio material e imaterial
da humanidade e do seu meio, com fins de estudo, educação e deleite
(DESVALLÉES; MAIRESSE, 2014, p.64).

No entanto a partir de uma compreensão de que a atual definição não dá
conta da complexidade da realidade do século XXI, bem como das novas
responsabilidades e compromissos assumidos pelas instituições museais, e ao
mesmo tempo demonstrando a vitalidade do campo museal, começa a ser
debatida uma nova definição de museu em âmbito internacional. Tal
conceituação se baseia na apreciação de uma nova definição que será discutida
por especialistas do campo dos museus no âmbito dos canais institucionais dos
comitês institucionais do ICOM e deverá ser apresentada a comunidade museal
nos próximos anos.
Este movimento, contudo nos demonstra que ainda que se possa
estabelecer uma referência norteadora para o campo museológico a realidade
dos diferentes contextos museais nos remete a existência de uma pluralidade
de iniciativas, lugares, formas e proposições de museus no contemporâneo que
serão sempre desafiadoras e por vezes contraditórias, e que é dentro da
compreensão desta perspectiva diversa que podemos falar nas diferentes
realidades e práticas de mediação no âmbito dos museus.

3 MEDIAÇÃO, MEDIADORES E MUSEUS: O ELEMENTO HUMANO NA
MEDIAÇÃO DO ESPAÇO EXPOSITIVO
Como visto anteriormente, principalmente nas últimas décadas, os
museus passam a ocupar espaços socioculturais mais amplos com uma

�97

diversidade tipológica e conceitual que também vai refletir diretamente nas
práticas e nas formas de comunicação destas instituições com seu público.
O uso crescente das linguagens digitais tem proposto novas formas de
relacionamento entre os museus e seus visitantes, seja através das visitas
virtuais e dos canais de relacionamento e divulgação feitas por meio da Web
ou através da incorporação destas linguagens em seus espaços físicos,
propondo novas abordagens lúdicas e interativas. Contudo apesar de todas as
mudanças reconhecemos que as exposições ainda se configuram como a
principal forma de comunicação das instituições museais com a sociedade.
Neste ambiente se destaca um reconhecido uso crescente do termo
mediação para designar as atividades realizadas por um profissional da
instituição

que

é

responsável

por

desenvolver

atividades

educativas

diretamente com o público transmitindo as propostas pedagógicas dessas
instituições.

Profissional

este

frequentemente

identificado

pelo

termo

“mediador”.
Os mediadores profissionais tornam mais agradável a acolhida aos
diferentes tipos de público nos museus; conduzem e orientam sua visita
às exposições, oferecem aos visitantes diferentes leituras das
exposições; propõem e/ou participam de atividades educativas, em um
convite ao aprendizado; promovem a interatividade entre público e
exposições; esclarecem dúvidas e ao mesmo tempo questionam, de
modo a despertar a curiosidade e a reflexão, mas sobretudo, sabem
ouvir o visitante (RIBEIRO; FRUCCHI, 2007, p. 69).

Comprometidos com a tarefa de tornar mais significativa a experiência
de comunicação de sentidos e a aprendizagem nos museus, por muitas vezes
são eles o contato mais direto com a comunidade de usuários a partir do
momento que atuam também como serviços de atendimento e referência. A
atividade de mediação nesta perspectiva se encontra inserida nos programas
educativos

das

instituições

museais

podendo

adotar

atendimentos

diferenciados conforme segmentos específicos de público, famílias, grupos
escolares, idosos, pessoas com deficiências, entre outros.
Ainda que possa ser encontrada sob a denominação de monitoria ou
visita guiada, segundo alguns autores, esta terminologia reflete pouco os
avanços conceituais sobre a natureza desta ação, ao assumir o visitante como
um sujeito menos receptor e que, portanto não necessitaria ser “guiado” ou

�98

“monitorado”. O caráter de mediação explicita de maneira efetiva um processo
mais interativo entre o visitante e a figura do mediador, que levanta sua
hipóteses durante o percurso e adquire conhecimento a partir de uma troca de
experiências na visitação (GRISPUM, 2014).
Neste sentido a mudança de nomenclatura refletiria também uma
mudança de postura. Inicialmente temos a figura do “guia” como aquele que
sabia e que decorava o maior número de informações acerca de determinada
obra ou tema e que ao realizar sua “visita guiada” pressupunha uma cegueira
ou ignorância total por parte do público. Passamos pela figura do “monitor”
que não buscava delimitar os limites do público, mas o comandava dentro do
espaço e aniquilava as múltiplas possibilidades de interpretação dos objetos.
Para por fim chegarmos a compreensão de que o educador nos museus, como
mediador, se transforma naquele que propõem um diálogo, atraindo do público
sua própria capacidade de estabelecer relações entre os artefatos. Enquanto
mediador este deve buscar se tornar mais um propositor do que propriamente
um banco de informações e dados a ser despejado em cima do público (PINTO,
2012).
Embora devamos considerar os impactos da multiplicidade tipológica
(históricos, artísticos, científicos etc.) e das diferentes realidades institucionais
dos museus na contemporaneidade, gostaria de finalizar a discussão neste
tópico apontando alguns aspectos que se caracterizam como determinantes
nesta relação do elemento humano como mediador presente no espaço físico
do museu.
Primeiro apontar para a necessidade da formação interdisciplinar das
equipes que compõem os setores educativos e das equipes de mediação nos
museus. A diversidade dos artefatos presentes nas instituições museais,
principalmente

considerando

as

ampliações

tipológicas

das

categorias

patrimoniais nos últimos anos, tem demandado o domínio de diferentes
linguagens de especialidade que tendem a se mostrar de maneira mais forte
quanto mais especializado a temática que o museu aborda.
Um segundo ponto é a necessidade do estabelecimento de um diálogo
com a comunidade externa para além dos espaços do museu, pensando e

�99

executando ações de extroversão que não só levem o museu à escola, por
exemplo, mas que também conduzam a momentos anteriores e posteriores a
visita na instituição, de diálogo com os diferentes públicos.
Por fim a partir da constatação de que, como ressaltam alguns autores, a
comunicação nos museus geralmente se desenvolve por um modelo unilateral,
ou seja, sem possibilidade de resposta por um público receptor (DESVALLÉES;
MAIRESSE, 2014), destaca-se o crescente papel das ações de mediação como
possibilidade de tornar o público visitante mais ativo. Um grande diferencial
“está no processo da mediação, como ele irá trabalhar com os diferentes
contextos envolvidos na leitura das imagens: o contexto de produção sim, mas
também o contexto de recepção, o da instituição e o seu próprio” (ALENCAR,
2015, p.117). Ao considerar as distintas experiências como instâncias de
aprendizado é estabelecido um aumento no foco por sobre a subjetividade
permitindo assim “a possibilidade de interpretações múltiplas, não apenas o
discurso

reprodutor

da

cultura

hegemônica,

mas

outras

formas

de

interpretação” (ALENCAR, 2015, p.123).
Todas estas questões apontam para a centralidade que a figura do
mediador nos espaços expositivos assume na atualidade, embora possamos
tratar de outras formas de mediação no espaço museal (assunto que
desenvolveremos a seguir), há que se reconhecer sua crescente importância
não só para a aproximação entre o público e o conteúdo das exposições, mas
também para a aproximação entre público e a instituição museal.

4 CURADORIA E MEDIAÇÃO: PROCESSOS DE MEDIAÇÃO EXPLÍCITOS E
IMPLÍCITOS NO ESPAÇO MUSEAL
Outra perspectiva para se pensar o conceito de mediação em âmbito
museal se relaciona com o contato do público com os artefatos e/ou
referências patrimoniais exibidas nos museus sem que haja no momento da
visitação a presença física de uma figura humana como mediadora como vimos
anteriormente. Trata-se da interação entre o sujeito e o objeto (geralmente

�100

exposto ao olhar) nas vitrines, expositores, displays, painéis e demais suportes
expositivos que podem ser empregados dentro das estratégias comunicativas
dos museus.
Como vimos a demanda de diferentes grupos pela preservação dos
testemunhos de sua história, somada a inclusão no grupo dos objetos
considerados como de interesse para preservação, dos testemunhos da era
industrial, traz uma expansão tipológica para o conceito de patrimônio, que faz
com que os museus passem a incluir objetos pertencentes a um passado cada
vez mais próximo do presente (CHOAY, 2001).
As instituições museais começam a ter de lidar com artefatos de
realidades cada vez mais desafiadoras e com questões relacionadas à coleta
contemporânea de acervos. Ao mesmo tempo este número cada vez mais
crescente de artefatos, implica em novas reflexões nas políticas museais, tanto
no que tange a seleção do que merece ser transmitido para as próximas
gerações, quanto na forma como estes objetos, valores e ideias serão
transmitidos.
Em meio a este turbilhão de novas confrontações os profissionais do
campo dos museus precisam lidar com esta diversidade de artefatos e por
extensão precisam pensar as maneiras como serão disponibilizadas para o
público as informações dos quais estes artefatos são suportes. Neste ponto é
preciso demarcar, os objetos em si não são informação, mas sim suportes que
carregam informação, possuindo assim um potencial documental enquanto
mediadores da realidade. A este respeito Meneses (1998), nos lembra, o
documento é um suporte de informação. Os traços materialmente inscritos nos
artefatos, como sua morfologia, composição físico-química, sinais de uso e
assim por diante, orientam leituras sobre as tecnologias e condições sociais de
fabricação, sua função, significações, entre outros. Portanto, não é o
pesquisador que faz o documento falar, mas sim o pesquisador que fala por
meio dos documentos.
Torna-se assim documento tudo que pode ser interrogado por um
pesquisador com a ideia de nele encontrar uma informação sobre o passado

�101

que nos sirva no presente ou que possa vir a ter significações para um
imaginário de futuro.
Se artefatos são produtos do engenho humano ao qual são atribuídos
sentidos, se os artefatos transcendem suas meras qualidades
morfológicas, se essas só podem ser interpretadas em articulação com
“atributos historicamente selecionados e mobilizados”, não importa
então se falarmos de uma agulha ou de uma estrutura gigantesca,
complexa, cheia de detalhes visíveis e invisíveis: todos, sem exceção,
dependem da interpretação que deles é feita por seus usuários
(BITTENCOURT, 2009, p.24).

Acontece que frequentemente no contexto dos museus o nome dado a
esses profissionais pesquisadores é o de “curador” e ao desafio de selecionar,
interpretar e inter-relacionar estes artefatos na produção de diferentes
narrativas dá-se o nome de “curadoria”. Atividades estas que se encontram
presentes em qualquer museu independente de sua temática, tamanho,
localização e escala, ainda que na realidade de um pequeno museu o
encarregado não se reconheça como tal (BITTENCOURT, 2008, p.7).
Nesta direção os museus se traduzem como lugares em que estas
interpretações, narrativas (escritas, ou orais) podem ser agrupadas na
conformação de diferentes discursos sobre a arte, ciência, história e memória
de um lugar, de acontecimentos ou personagens, que por sua vez são
colocadas a disposição de uma nova interpretação por seus usuários.
É neste âmbito que alguns pesquisadores do campo da Ciência da
Informação vão nos falar que a mediação se estende para além do trabalho de
contato direto com o público e fazem a defesa de que na organização da
informação, no processamento técnico dos artefatos e suportes de informação,
também está o trabalho de mediação. Considerada como um trabalho de
mediação implícita em oposição aos processos de natureza explícitos que
estariam

mais

relacionados

ao

contato

direto

do

profissional

com

a

comunidade de usuários.
Esta mediação implícita:
[...] encontra-se nos “bastidores” de uma unidade informacional.
Atividades tais como: formação e desenvolvimento de coleções,
tratamento informacional (representação descritiva e temática), o
trabalho com softwares e base de dados, circulação, administração,
entre outros, constituem a Mediação Implícita (PAULA, 2012, p.73).

�102

Nesta perspectiva se pode destacar o papel dos profissionais que atuam
nos museus como profissionais da informação, no entendimento do objeto
como suporte informacional, portanto documento, a partir do qual se produz
conhecimento. Atuação esta centrada fundamentalmente na mediação entre os
objetos do acervo e os visitantes da instituição, realizada de maneira geral no
universo dos museus, ainda que não exclusivamente, pelos profissionais
museólogos, que são responsáveis pelas ações de preservação, pesquisa e
extroversão da informação nestes contextos.
Neste sentido, as práticas de pesquisa e documentação museológica bem
como os planejamentos previstos em planos museológicos podem ser
compreendidas, nesta perspectiva, como instrumentos de uma mediação
implícita, na medida em que são realizadas com o objetivo de atender a
necessidades informacionais. Ocorrem em situações e [...] “nos espaços dos
equipamentos informacionais em que as ações são desenvolvidas sem a
presença física e imediata dos usuários” (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.92-93). É
neste âmbito que podemos afirmar que a curadoria, exerce no museu, um
papel de mediação. Seja de maneira explícita por meio das exposições, ações
culturais e atividades educativas ou de forma implícita no tratamento
informacional do acervo, no estabelecimento de uma política de aquisição e
descarte e etc.
A mediação se encontra presente em todos os procedimentos do museu,
desde a curadoria até o trabalho final da exposição e assim como afirmamos o
museu como espaço de não neutralidade, as diferentes práticas de mediação
devem ser compreendidas como interferências intencionais. Em oposição ao
pensamento

hegemônico

que

apresenta

o

trabalho

do

profissional

da

informação como dotado de neutralidade e imparcialidade:
A imparcialidade e a neutralidade, embora procuradas, não se
concretizam, pois o profissional da informação atua como matéria-prima
que, por si, não é neutra. A informação é carregada e está envolta em
concepções e significados que extrapolam o aparente. A informação está
imersa em ideologias e em nenhuma hipótese se apresenta desnuda de
interesses, sejam econômicos, políticos, culturais, etc (ALMEIDA
JÚNIOR, 2009, p.93).

�103

A partir disso podemos pensar a própria edificação museal e suas
diferentes significações e usos dentro de outras estratégias e instâncias
comunicativas como um agente mediador.

5 MEDIAÇÕES MUSEAIS NO ÂMBITO URBANO: A MUSEOLOGIA SOCIAL
E NOVAS RELAÇÕES DE MEDIAÇÃO COM O TERRITÓRIO
Desde sua implantação nas principais cidades europeias no século XVIII
os museus sempre foram prédios diferenciados, de grande significado nos
grandes centros urbanos. É nesta direção que podemos discutir aspectos das
instituições museais no contexto urbano, ao trabalhar as questões referentes
ao estabelecimento de práticas museais no espaço da cidade no contexto da
mediação, a partir de uma visão da urbe como um complexo sistema
comunicativo.
Ao abordar a cidade como estrutura comunicativa Ferrara nos aponta o
papel fundamental da arquitetura neste processo:
A arquitetura induz, através de materiais, técnicas e formas
construtivas, a função, o uso e o valor do espaço e, nesse sentido,
constitui o suporte através do qual a cidade se constrói como meio
comunicativo que possibilite sociabilidades e interações em constantes
transformações (2007, p.41).

Na teorização da autora se percebe que à dimensão física da cidade,
composta

por

seus

suportes

construtivos,

soma-se

uma

dimensão

comunicativa que possibilitaria a cidade ao mesmo tempo emergir como
eficiente mídia e como espaço de práticas e manifestações de vida capazes de
transpor suas intenções midiáticas. Neste sentido Ferrara nos aponta que
enquanto medium informacional, ou seja, espaço como suporte de conteúdo
informacional, a cidade deve ser compreendida dentro de três aspectos
interdependentes, meio, mídia e mediação (2007).
A cidade como meio, envolve percebê-la em seu plano construtivo, seus
materiais, volumes, formas e implantações, utilizados para a construção do
espaço edificado. O meio seria desta forma, a pele da cidade, informação

�104

concreta e cuja percepção da sua representação contextualizaria, ao mesmo
tempo, a cidade e, sobretudo, a base de identidade simbólica que a
comunicaria (FERRARA, 2007).
Enquanto mídia a cidade é imagem, esta geralmente explorada pelo jogo
comercial, empresarial e, é claro, midiático, que sob a lógica do visual
distorceria a realidade para torná-la consumível por uma percepção rápida e
inconsequente, indo de encontro a uma descoberta da cidade nas suas
diferenças

e

particularidades.

A

imagem

seria

a

primeira

forma

de

comunicação entre a cidade e o usuário que através de seus ícones e símbolos
seriam “a primeira forma inteligível da arquitetura como código cultural”
(FERRARA, 2007, p.46).

Finalmente, enquanto mediação a cidade seria complexa experiência que
atingiria tanto ao usuário, quanto a cidade, partindo de seu caráter midiático
para superá-lo, enquanto interatividade. A cidade enquanto mediação é
caracterizada por sua natureza processual, portanto, aberta a possibilidades,
dependente do processo relacional que o intérprete desenvolve como usuário
da cidade, “influenciando-a e sendo por ela influenciado” (FERRARA, 2007,
p.49). A mediação na cidade desafiaria a lógica da mídia levando-a,
potencialmente, à reversão e à mudança. Nesta relação, o que se vislumbra
são as diferenças entre as cidades e as características de seus lugares.
Colocados estes aspectos, caberia indagar de que forma os museus
inseridos no contexto da cidade, tem contribuído ou colaborado para evidenciar
estes aspectos da natureza informacional das cidades. Colocado de outra
maneira, quais tem sido e quais são as possibilidades das instituições
museológicas no contexto da cidade como meio, mídia e fundamentalmente
como mediação.
No que diz respeito às suas formas, materiais, volumes, enfim numa
percepção da relação do museu com a cidade enquanto meio, conforme nos
aponta Kiefer, os museus serão marcados arquitetonicamente por uma lógica
da grande escala e da monumentalidade. Em suas origens ao ocupar os
palácios e os grandiosos edifícios públicos existentes e no contemporâneo com

�105

a grande liberdade dada aos arquitetos para elaboração de seus projetos de
museus (2001).
A

capacidade

dos

museus

de

atuarem

como

dispositivos

potencializadores em meio a um discurso midiático da cidade se relaciona
principalmente a eficácia destas instituições em se constituírem como marcos
urbanos, podendo ser empregados em campanhas turísticas e publicitárias.
Nas últimas décadas boa parte dos novos museus se desenvolvem no contexto
das chamadas operações de requalificação ou revitalização do espaço urbano,
projetos cujas propostas pretendem alterar o perfil socioeconômico de cidades
ou regiões (HOFFMAN, 2014).
Por fim na compreensão do papel do museu no plano de uma mediação
no contexto urbano. Envolve necessariamente a integração destas instituições
com

as

práticas

trazidas

no

âmbito

da

chamada

nova

museologia,

sociomuseologia ou museologia social. Nestes novos processos museológicos a
própria comunidade ou grupo social envolvido, se encontra inserido de tal
forma que eles mesmos, enquanto sujeitos e objetos de pesquisa e ação do
museu, é que são responsáveis por inventariar, selecionar, expor, organizar,
opinar e participar de todos os aspectos da instituição.
Estes processos, ideias e procedimentos museológicos teriam muito a
contribuir com os museus no território das cidades, podendo resgatar uma
dimensão de inclusão e aproximação do cidadão com seu patrimônio. Indo
para além dos discursos “participacionistas” vigentes na gestão contemporânea
das cidades. Tornando o habitante da cidade não só um consumidor ou
visitante destas instituições, ou ainda como somente fonte de informações,
objetos, memórias e narrativas que a instituição decide onde e como
aproveitar. O cerne desta proposta seria a transformação do cidadão em
gestor destes espaços, transformando o museu em um verdadeiro instrumento
de constituição de memórias e narrativas “contra hegemônicas”.
Retomando então as proposições de Ferrara, verifica-se que estas
condições vão ao encontro dos pressupostos trazidos pela autora, para a qual
a percepção da cidade como mediação “supõe uma auto-organização e
transformação do usuário à medida em que ele interfere na cidade e contribui

�106

para a própria organização do cotidiano que a caracteriza” (2007, p.49). Desta
forma, infere-se que através de práticas museológicas que tenham como base
os fundamentos trazidos pela Nova Museologia, se consiga projetar no
território

das

cidades,

experiências

comunicativas

da

urbe

enquanto

mediação.
Ao observar algumas colocações de Ferrara podemos estabelecer
conexões neste sentido. A autora nos apresenta que enquanto estrutura
comunicativa a mediação na cidade desafia a repetição midiática de imagens,
levando-a, potencialmente, à reversão e à mudança (2007, p.49). A partir de
processos museológicos comunitários os museus deveriam ser reconhecidos
pelas comunidades, sendo então um resultado delas, de sua participação e
empenho. Os papéis, neste sentido, são invertidos, os museus passam a não
ser feitos mais para os grupos sociais, mas por e com eles (CERAVOLO, 2004,
p.261). Tais processos se organizam em torno de uma noção de patrimônio
total ou integral, compreendendo as paisagens, sítios, edificações, objetos,
bem como as próprias memórias e relações sociais das pessoas que habitam o
território em questão, o foco recai sobre a necessidade de transmitir
informação.
Informação que nestes processos deveria ser entendida essencialmente
dentro de uma abordagem sociocultural da informação, enquanto informação
construída

como

prática

social.

As

comunidades,

ou

grupos

sociais

responsáveis pelo museu ou que habitam o território, poderiam ser entendidas
como comunidades discursivas. Tal possibilidade de olhar a informação
permitiria a construção da mesma enquanto “fenômeno social de informação
coletiva,

estruturas

de

conhecimento

e

instituições

de

memória

das

comunidades discursivas” (MORADO NASCIMENTO, 2006, p.31).
Ainda conforme a autora, tal abordagem permitiria:
[...] a possibilidade de provocar a produção de outro conhecimento, não
linear, mas circular, que valorize as inter-relações culturais, ambientais,
sociais, econômicas e políticas construídas para enfrentar de forma mais
coerente e atuante os desafios atuais da sociedade (MORADO
NASCIMENTO, 2006, p.31).

�107

A informação, dentro destes processos museológicos, como construção
coletiva

permitiria

uma

negociação

das

diferenças,

e

a

produção

de

conhecimento crítico, na mediação das relações entre diferentes. Tal aspecto
indo de encontro aos pressupostos trazidos por Ferrara, como condição
essencial aos processos de mediação na cidade.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apresentar

um

panorama

sobre

três

abordagens

possíveis

de

compreensão do processo de mediação no contexto dos museus foi o objetivo
do presente escrito. Estas diferentes perspectivas chamam a atenção para as
múltiplas possibilidades que se desvelam ao se aproximar do conceito de
mediação dentro do universo museal. Seja por meio dos profissionais que
neles trabalham, dos artefatos que objetivam preservar e comunicar ao público
ou por meio das edificações que ocupam, os museus estabelecem uma
complexa relação como instância mediadora da realidade, da cultura material,
dos processos de memória e identidade no contemporâneo. Compreender os
“tensionamentos” e potencialidades que podem advir destas diferentes
perspectivas é tarefa fundamental a ser enfrentada pelo profissional da
informação.

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de história: conversas sobre imagens/história e suas interpretações. 2015.
190p. Tese (Doutorado), Instituto de Artes, Universidade Estadual Paulista,
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museus, artefatos e coleções. In: AZEVEDO, Flávia Lemos Mota de et al.

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atual. Belo Horizonte: Crisálida, 2009. p. 17-31.
BITTENCOURT, José Neves. Mediação, Curadoria, Museu: uma introdução em
torno de definições, intenções e atores. In: JULIÃO, Letícia; BITTENCOURT,
José Neves (Orgs.). Caderno de Diretrizes Museológicas 2. Mediação em
museus: curadorias, exposições, ação educativa. Belo Horizonte: Secretaria de
Estado de Cultura de Minas Gerais/Superintendência de Museus, 2008. p.2-13.
CASTRO, Ana Lúcia Siaines de. Memórias clandestinas e sua
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informacional. 2002. 180f. Tese (Doutorado), Escola de Comunicação,
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002.
CERAVOLO, Suely Moraes. Delineamentos para uma teoria da Museologia. An.
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CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação liberdade:
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DESVALLÉES, André; MAIRESSE, François (Ed.). Conceitos-chave de
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Cury. São Paulo: Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus;
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LAVINE, Steven D. (Ed.) Exhibiting Cultures: the poetics and politics of
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GRISPUM, Denise. Mediação em museus e em exposições: espaços de
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HOFFMAN, Felipe E. Museus e revitalização urbana: o Museu de Artes e Ofícios
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JULIÃO, Letícia. Apontamentos sobre a história do museu. Caderno de
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KIEFER, Flávio. Arquitetura de Museus. ARQTEXTO: Interfaces, Porto Alegre,
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MATTOS, Yára. Abracaldabra: uma aventura afetivo cognitiva na relação
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MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Memória e cultura material: documentos
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2006. Disponível em:
http://www.arq.ufmg.br/praxis/textos/morado_abordagem.pdf. Acesso em: 22
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PAULA, Thais Regina Frasciscon de. A mediação em museus: um estudo do
projeto “veja com as mãos”. 2012. 128f. Dissertação (Mestrado em Ciência da
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PINTO, Júlia Rocha. O papel social dos museus e a mediação cultural:
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mediação em museus e Centros de Ciência. Rio de Janeiro: Museu da
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arquitetura em museus: uma análise de projetos contemporâneos. 2007.
203f. Dissertação (Mestrado), Escola de Arquitetura, Universidade Federal de
Minas Gerais, Belo Horizonte, 2007.

DADOS BIOGRÁFICOS

Felipe Eleutério Hoffman: Museólogo pela UFOP. Mestre
em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG. Doutor em Ciência
da Informação pela UFMG. Professor do Departamento de
Organização e Tratamento da Informação (ECI-UFMG) na
graduação em Museologia. Atua nas áreas de Museologia,
Arquitetura e Ciência da Informação com ênfase nos
seguintes temas: museus, memória, patrimônio cultural,
exposições, museus e justiça de transição.
E-mail: hoffmanfelipe@yahoo.com.br

�110

CAPÍTULO VI - Fundamentos teórico-pragmáticos para
promoção das práticas e dos serviços informacionais:
diálogos com Ranganathan, Shera, Grogan e Accart
Jorge Santa Anna

1 INTRODUÇÃO
A organização e o uso da informação constituem campos similares e
complementares

nas

pesquisas

desenvolvidas

na

área

de

Biblioteconomia/Ciência da Informação. Quando essas pesquisas se direcionam
ao

ambiente

realizadas

por

da

biblioteca,

bibliotecários,

destacam-se,
que

sobremaneira,

possibilitam

as

sistematizar,

atividades
armazenar,

transferir e comunicar a informação. Em todos esses fazeres, o propósito é
contribuir para o atendimento das necessidades daqueles que buscam por
informação em diferentes níveis e para fins variados.
Valorizar as pesquisas desenvolvidas nesse âmbito, em grande parte, é
reconhecer a importância que a biblioteca tem assumido, ao longo do tempo,
sobretudo

nas

últimas

décadas,

a

partir

da

consolidação

de

ideais

democráticos. O interesse de pesquisa nas atividades bibliotecárias também é
fruto da importância atribuída à informação, que, mediante a evolução das
tecnologias, se tornou um recurso com valor econômico, capaz de promover o
desenvolvimento das pessoas, das organizações e da própria sociedade.
Diferente do passado, as bibliotecas se tornaram ambientes provedores
de informação, com foco no acesso e não, apenas, na guarda de materiais. Em
países desenvolvidos ou em desenvolvimento, pensar na biblioteca é explorar
as múltiplas possibilidades que os recursos informacionais podem ser utilizados
para benefícios das comunidades atendidas. O paradigma da biblioteca, na
sociedade contemporânea, é aquele que foca no usuário, cujos fazeres
profissionais visam organizar a informação para garantir o uso, sendo
explorados, nesses processos, o potencial das tecnologias digitais.

�111

Valorizar o usuário e as necessidades dele é algo que vai muito além do
mero trabalho técnico realizado na formação de acervos e bases de dados. Não
que esse trabalho seja desnecessário, mas ele sozinho é insuficiente para
atender as tendências do contexto da sociedade globalizada e informatizada.
Esse trabalho técnico-operacional precisa ser complementado com ações
intelectuais, inovadoras e gerenciais, capazes de aproximar a biblioteca da
sociedade. É a partir dessa reflexão, que a biblioteca deixa de ser um espaço
estático e fechado, para se tornar uma organização dinâmica, integrada à
sociedade.
Como proferiu Ranganathan (2009), ainda no decorrer do século XX, a
biblioteca é um organismo em crescimento, e, como tal, precisa oferecer
condições adequadas para atendimento da comunidade usuária. Considerá-la
como organização, segundo Maciel e Mendonça (2006), é identificar suas
atividades, agrupando-as em processos sistematizados, capazes de atribuir
funções variadas, como: desenvolvimento, organização e dinamização de
coleções, além das funções relacionadas à gestão.
Portanto, na sociedade contemporânea, a partir das transformações que
vêm ocorrendo, sobretudo com o uso massificado das tecnologias digitais, que
colocam em sintonia, usuários e organizações em um único espaço social (o
ciberespaço)19, a biblioteca passa a ser prestadora de serviços, a partir da
realidade em que está inserida. Assim, as atividades bibliotecárias, mesmo que
indireta ou implicitamente, precisam convergir para um único propósito:
garantir a promoção dos serviços de informação.
Os serviços de informação representam o resultado de todas as
atividades-meio da biblioteca, tais como catalogação, indexação, restauração,
dentre

outras.

Essas

atividades,

sustentadas

por

técnicas

e

métodos

específicos, que, em linhas gerais, possibilitam a construção de produtos e
sistemas de informação, são reconhecidas e adquirem valor quando são

19

Diz respeito ao novo ambiente de integração da sociedade informatizada, cuja internet
representa o espaço de interação, que converge pessoas, organizações e grupos sociais
distintos, modificando as práticas sociais, para uma cultura digital, a cibercultura (LÉVY,
1999).

�112

utilizadas pela comunidade. O efeito desse acontecimento é a inserção da
biblioteca na sociedade da informação e do conhecimento, sendo destacado o
potencial da unidade e dos profissionais que a organizam e gerenciam.
Entende-se que os serviços de informação é a concretude de todos os
fazeres realizados na unidade, sendo, portanto, a essência da própria prática
bibliotecária, como discorrido por Figueiredo (1992). Esses serviços têm sofrido
transformações,

nas

últimas

décadas,

refletindo

as

próprias

mudanças

ocorridas na unidade de informação, como um todo. Com efeito, compreender
esses serviços requer, primeiramente, entender toda a dinâmica da unidade de
informação, como também, as transformações que vêm ocorrendo, capazes de
impactar nos serviços oferecidos, de modo a adequá-los à realidade social.
Pesquisadores de destaque na área bibliotecária, embora tenham
reflexões específicas e um pouco diferenciadas, em alguns aspectos, vêm
reforçando

o

potencial

dos

serviços

de

informação,

com

pesquisas

desenvolvidas desde as primeiras décadas do século XX. É provável que o
pensamento desses autores interfira/contribua na formulação de propostas de
melhorias ou de ressignificação dos serviços de informação, na concepção dos
dias atuais.
Portanto, este artigo objetiva identificar as principais características dos
serviços oferecidos pelas bibliotecas, ao longo do tempo, evidenciando a
posição desses serviços na sociedade contemporânea, do século XXI. Para
tanto, o estudo é conduzido por meio de argumentos apontados na literatura,
sobretudo no que tange aos fundamentos defendidos por importantes
pesquisadores, como Ranganathan, Shera, Grogan e Accart. Com o fim de
atingir tal propósito, são levantados diferentes momentos históricos acerca da
concepção dos serviços de informação e como eles vêm se modificando, no
decorrer dos tempos.
Metodologicamente, o estudo possui natureza intelectual, ou seja, não
analisa uma realidade empírica, uma vez que se limita a investigar, apenas, a
literatura.

A

abordagem

teórica

caracteriza

o

estudo

como

descritivo,

exploratório e qualitativo. Por fim, quanto aos procedimentos técnicos, o texto
apresenta características de um ensaio, sustentado por uma revisão de

�113

literatura narrativa, visto que são escolhidas, arbitrariamente, as fontes de
consulta.
Salienta-se, também, que este estudo é parte integrante de uma
pesquisa mais abrangente, que tem a intenção de formular um plano de
gerenciamento

para

bibliotecas

universitárias,

no

que

tange

à

institucionalização ou melhorias do serviço de referência digital. O recorte de
estudo aqui delimitado contempla bases teóricas - descritas em parte do
referencial teórico da citada pesquisa - direcionadas à promoção dos serviços
de informação que podem ser oferecidos nas bibliotecas da atualidade.

2 SERVIÇOS DE INFORMAÇÃO NAS BIBLIOTECAS: DA ASSISTÊNCIA À
PESQUISA
Analisando a história de desenvolvimento das bibliotecas, ao longo dos
tempos, percebem-se muitas diferenças na maneira com que as atividades
eram realizadas, como também, os recursos utilizados e os serviços oferecidos,
em cada período histórico (MARTINS, 2000; MILANESI, 2002). Em períodos
antigos, como na Idade Média ou na Moderna, a biblioteca era um ambiente de
contemplação do conhecimento produzido, com atividades direcionadas à
organização e preservação do acervo, sem preocupação com a disseminação
(BURKE, 2003).
É

apenas

com

a

revolução

científica

do

século XVIII,

aliado

à

consolidação dos ideais democráticos e dos direitos humanos - preocupados
com as causas sociais - que as bibliotecas tornam-se ambientes democráticos.
A partir desse momento, a biblioteca assume uma atuação mais pró-ativa, indo
ao encontro das necessidades da comunidade (SANTA ANNA, 2015). Com
efeito, os bibliotecários passam a realizar projetos voltados ao atendimento, de
modo a acolher os usuários, como também garantir visibilidade ao que é
oferecido (GROGAN, 1995).
Segundo Grogan (1995), é nas últimas décadas do século XIX que esses
projetos se intensificaram, por meio de iniciativas isoladas, realizadas tanto na

�114

Europa quanto nos Estados Unidos. O primeiro projeto de assistência foi
proposto pelo bibliotecário Samuel Green, cujo objetivo do projeto era
fomentar a prática da leitura, sendo apresentado em conferência realizada pela
American Library Association (ALA), no ano de 1876. Decorridos mais de dez
anos, esse projeto de assistência passou a ser denominado de serviço de
referência, sendo designado um profissional e espaço adequado para atender
aos frequentadores das bibliotecas.
Analisando o texto original apresentado na conferência da ALA, nota-se
que a inquietação de Green estava relacionada às dificuldades com que cada
consulente apresentava ao buscar um tipo de livro para leitura no acervo. Um
artesão, um estudante e um pesquisador, por exemplo, possuem necessidades
e habilidades diferentes. O domínio de conhecimento do bibliotecário muito
pode contribuir para atender esses usuários, oferecendo variados livros
relacionados ao que eles buscam (GREEN, 1876).
A leitura ao texto de Green (1876) evidencia que a biblioteca precisa
realizar um trabalho que complemente a atividade de organização do acervo.
Ou seja, o tratamento dos materiais, realizado com o fim de sistematizar as
coleções, corresponde às atividades-meio, sendo necessário estruturar as
atividades-fim da unidade. O serviço de referência caracteriza-se, portanto,
como uma recepção calorosa, realizada com cordialidade, diálogo, atenção e
simpatia, proporcionando assistência personalizada e individual aos usuários
(GREEN, 1876).
Nas primeiras décadas do século XX, o serviço de referência foi se
desenvolvendo, incrementado em diversas bibliotecas, principalmente em
países desenvolvidos. Manifestava-se como um serviço de assistência, de
acolhimento, com o fim de estimular um melhor uso das fontes de informação
dos acervos impressos. O sucesso desse empreendimento promoveu maior
divulgação e reconhecimento do trabalho do bibliotecário e da biblioteca, a
ponto do serviço ser considerado “o cartão de visita” da biblioteca (GROGAN,
1995).
Ranganathan (1961), um dos defensores desse serviço, considerou como
principal característica do serviço de biblioteca, a presença do bibliotecário,

�115

profissional que exerce a atividade de mediação, colocando em contato o
usuário e as fontes de consulta. Assim, reforça-se que a referência é um
serviço personalizado que visa “[...] estabelecer contato entre o leitor e seus
documentos de uma maneira pessoal”.
Assim como Grogan (1995) e Ranganathan (1961), Figueiredo (1992)
concorda acerca da atuação personalizada prestada aos consulentes nos
momentos das buscas. A importância do serviço o torna a própria razão de ser
de uma biblioteca/unidade de informação. “[...] É uma função que também
justifica a atuação do profissional bibliotecário como agente de informação,
servindo de intermediário entre os recursos informacionais existentes e o
usuário

que

necessita

de

informação

de

qualquer

tipo

e

nível

[...]”

(FIGUEIREDO, 1992, p. 1).
A importância do serviço de referência coloca-o como cerne de atenção
nas bibliotecas. Considera-se que, ao focar no usuário, em especial, nas
necessidades desse sujeito, faz-se necessário que o serviço de referência não
contemple uma atividade meramente técnica e operacional, mas um conjunto
de

habilidades

específicas,

realizadas

por

equipe

treinada,

haja

vista

possibilitar a satisfação das necessidades da comunidade (GROGAN, 1995).
Atender as necessidades dos usuários passa a ser a principal finalidade
dos serviços oferecidos nas bibliotecas, com a ampliação do projeto de
assistência

proposto

por

Green

(GROGAN,

1995).

A

satisfação

das

necessidades não é decorrência, apenas, da assistência prestada nos serviços
bibliotecários. Ela acontece, também, com a eficiência do trabalho realizado no
processamento dos materiais que formam as coleções (RANGANATHAN, 1961).
Assim, o serviço de referência passa a ser a consequência ou o resultado
do que é realizado nas atividades anteriores, nos processos de formação e
organização de coleções (MACIEL; MENDONÇA, 2006), quando o usuário é
valorizado. Essa valorização é intensificada, a partir de princípios formulados
por Ranganathan (2009), os quais demonstram que, toda e qualquer atividade
realizada pelo bibliotecário visa atender a comunidade, devendo elas estarem
integradas, por conseguinte, viabilizando o crescimento da biblioteca.

�116

Esses princípios, de acordo com Targino (2010), servem como sustento
para ampliar a visão de todo da biblioteca, sua abertura para a vivência social
e sua capacidade de agente de transformação na sociedade. Os princípios, por
romperem as muralhas da exclusão, tornam a unidade um centro de cultura,
voltado às necessidades dos usuários, haja vista fortalecer a aprendizagem e o
conhecimento.
No entendimento de Figueiredo (1992), os princípios de Ranganathan
foram essenciais para enaltecer o valor das práticas bibliotecárias, tornandose, portanto, uma base teórica de fundamentação para o reconhecimento do
exercício profissional. Ademais, a autora também discorre que tais princípios
podem ser traduzidos em objetivos da própria biblioteca. O quadro 1 apresenta
os cinco princípios ranganathianos, algumas explicações inerentes a cada um
deles, e em quais práticas de trabalho eles se manifestam, com mais
intensidade.
Quadro 1 – Os princípios de Ranganathan, algumas explicações e em quais processos de
trabalho são utilizados
Princípio
Explicações
Em quais atividades
principais o princípio é
observado?
Livros são para o

A biblioteca fundamenta-se no paradigma

uso

do acesso, refutando a ideia, tão somente,

- Formação de coleções

de custódia. Os materiais selecionados e

- Classificação,

processados precisam ser representados

catalogação e indexação

por linguagens que traduzem a essência do
conteúdo dos documentos, a fim de que
possam

ser

localização

recuperados,
e

utilização

facilitando
por

parte

a

como

a

interface

entre

- Disseminação seletiva

da

comunidade. Esse princípio considera a
biblioteca

- Serviço de atendimento

- Serviço de alerta

os

usuários e os recursos bibliográficos
A cada leitor seu
livro

O usuário deve ser reconhecido como um
sujeito
particular,
detentor
de
conhecimentos e habilidades próprias,
influenciadas
por
seu
contexto
sociocultural. Assim, o fazer bibliotecário
precisa identificar essas peculiaridades,
correlacionando-as
com
os
materiais
organizados, a fim de buscar uma possível
sintonia ou resposta aos problemas
formulados pela comunidade

- Serviço de atendimento
- Disseminação seletiva
- Serviço de alerta
- Estudo de usuário
- Processo de referência

�117
Princípio

Explicações

Em quais atividades
principais o princípio é
observado?

A cada livro seu

Fundamenta-se na ideia de uso, assim

leitor

como no primeiro princípio. Considerar a

- Formação de coleções

intervenção realizada sobre as coleções, no

- Classificação,

sentido de torná-las acessíveis e utilizadas,

catalogação e indexação

o que dá uma noção ativa ao trabalho
bibliotecário. Por meio das técnicas de
organização,
tornam-se

as

fontes

conhecidas

potencial.

bibliográficas

do

Destaca-se,

usuário

em

também,

a

- Divulgação e marketing
- Disseminação seletiva
- Serviço de alerta

subjetividade do usuário e que, diante
disso,

todo

e

qualquer

material

pode

agregar valor em determinado contexto e
necessidade
Economize
o
tempo do leitor

Economizar o tempo do usuário é facilitar a

- Serviço de atendimento

localização das fontes de consulta, como
também, a otimização dos recursos. Desse

- Processo de referência

modo,

- Classificação,

as

atividades

visam

a

eficácia

interna da biblioteca, haja vista tornar os
recursos

bibliográficos

acessíveis

catalogação e indexação

da

maneira mais conveniente aos usuários

A biblioteca é um
organismo
em
crescimento

O trabalho realizado nas bibliotecas, ao Todas as atividades
considerar as necessidades dos usuários, bibliotecárias
precisa estar em constante adequação,
aliado
ao
fenômeno
da
explosão
bibliográfica,
o
que
condiciona
o
crescimento racional do acervo, de modo
sistêmico,
atendendo
necessidades
específicas da comunidade
Fonte: Elaborado pelo proponente (2019), a partir de Figueiredo (1992) e Ranganathan
(2009).

O quadro 1 demonstra que os princípios, em linhas gerais, se
manifestam ou regem, mesmo que implicitamente, todos os processos de
trabalho desenvolvidos pelos profissionais, seja no setor de processamento, na
referência ou em outras atividades. O quadro também permite inferir que,
pautando-se nesses princípios, o resultado é a oferta de serviços de
informação mais adequados, e, dessa forma, consolida-se um dos objetivos

�118

essenciais do serviço de referência: a satisfação da necessidade informacional,
como defendido por Grogan (1995).
Os cinco princípios formulados por Ranganathan (2009) possibilitaram o
nascimento da Biblioteconomia Moderna, sustentada no paradigma do acesso,
cuja biblioteca assume a missão de propagadora de conhecimento a todos,
tornando-se

um

espaço

democrático,

que

elimina

qualquer

tipo

de

desigualdade e limitação. Ao considerar a biblioteca sob um enfoque universal,
é possível adequá-la às tentativas de democratização do conhecimento,
sobretudo quando se tem o conhecimento como um bem público e acessível, e
os indivíduos vão compartilhando conhecimento, uns com os outros, mediante
práticas colaborativas (RANGANATHAN, 2009).
Nesse contexto, pensar a biblioteca sob os princípios de Ranganathan
(2009) é, ao mesmo tempo, propor serviços equilibrados com o perfil da
comunidade. A partir desses princípios, conforme evidenciado pelo autor e
reforçado

por

Targino

(2010),

sobretudo

quando

se

considera

o

uso

intensificado das tecnologias digitais nas práticas bibliotecárias, fomenta-se o
trabalho colaborativo, com destaque à atuação do bibliotecário, para promoção
do uso da biblioteca.
No âmbito da promoção dos serviços de informação, por conseguinte, a
garantia de melhorias ao acesso informacional, o serviço de referência se
destaca, cuja atuação profissional se manifesta como ponte que liga os
recursos informacionais com os usuários. Essa ideia de ponte, de ligação, de
intervenção realizada pelo bibliotecário para ampliação do uso da biblioteca, é
o que se denomina de mediação da informação, um conceito atual, abrangente
e ainda em desenvolvimento, no iniciar do século XXI (ALMEIDA JÚNIOR,
2015).
A mediação se aproxima do serviço de referência, sobretudo por
possibilitar a interação entre profissional e usuário. Essa interação é observada
quando da ocorrência dos primeiros projetos de atendimento aos leitores nas
bibliotecas, tal como o projeto de Green, embora o conceito de mediação ainda
não estivesse em voga. Na atualidade, a mediação passou a ser objeto de
estudo científico, quanto aos fazeres dos bibliotecários, não se manifestando,

�119

apenas, no serviço de referência, mais perpassando todas as atividades
realizadas na unidade, desde a formação da coleção, englobando catalogação,
indexação, serviços de atendimento e, por fim, práticas de leitura e ações
culturais (ALMEIDA JÚNIOR; SANTOS NETO, 2014).
O conceito abrangente ao termo mediação serve para comprovar a
necessidade

de

integração

das

práticas

bibliotecárias,

visto

que

essa

integração permitirá o crescimento racional, organizado e sistêmico da
biblioteca, mediante a mescla entre formação, organização, dinamização e
gestão da biblioteca, conforme pontuado por Maciel e Mendonça (2006).
A mediação é um termo abrangente, capaz de demonstrar a visão de
todo da biblioteca. Assim, mediar está associado à ação de interferência,
conduzida por um profissional da informação e realizada de maneira “[...]
direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou
coletiva; visando a apropriação de informação [...]”. Essa apropriação se
manifesta no âmbito do serviço de informação, cujo objetivo é fornecer
insumos que satisfaça, “[...] parcialmente e de maneira momentânea, uma
necessidade

informacional,

gerando

conflitos

e

novas

necessidades

informacionais” (ALMEIDA JÚNIOR, 2015, p. 25).
A mediação, como prática inerente ao fazer bibliotecário, sobretudo na
ambiência do serviço de referência, também é observada e fortalecida, quando
as bibliotecas, no decorrer do século XIX, passam a se dedicar ao atendimento
à pesquisa científica. A assistência oriunda do serviço de referência, nesse
contexto, manifesta-se mediante um diálogo intenso, entre pesquisador e
bibliotecário, de modo que sejam melhor compreendidas as necessidades dos
usuários (GROGAN, 1995).
Para Grogan (1995), surge o que se denomina de processo de referência,
visto que o serviço deixa de fornecer respostas prontas e se adapta a fornecer
orientação e negociação, fortalecendo a interação interpessoal. No processo de
referência, manifestam-se oito etapas que abrangem “[...] a totalidade de
passos dados pelo bibliotecário de referência ao responder as questões que lhe
são apresentadas” (GROGAN, 1995, p. 50). Essas etapas, por sua vez, podem
ser agrupadas em dois grandes momentos, caracterizados como fases: a

�120

primeira refere-se às ações que visam localizar um tipo de material; a segunda
diz respeito às ações de análise/avaliação do material. Por meio do quadro 2,
são explicitadas as fases e etapas do processo de referência, bem como as
possíveis explicações.
Fases

Localização

Quadro 2 – Fases e etapas do processo de referência
Etapas
Explicações
Problema de pesquisa
Inicia-se com a identificação de um problema, o
qual poderá ser solucionado com o acesso a
algum tipo de informação. O usuário recorre à
unidade, contextualizando a lacuna que possui,
podendo ela estar relacionada a um problema
de natureza cognitiva, utilitária, noticiosa ou
científica. Destaca-se que grande parte das
necessidades dos usuários é oriunda da própria
vivência social
Identificação da necessidade Em um diálogo inicial, o usuário contextualiza a
sua dificuldade, de modo que seja concretizada
a essência da sua necessidade, atitude
fundamental para se formalizar uma questão
clara e objetiva, capaz de ser interpretada pelo
sistema de informação. Essa necessidade nem
todas as vezes consegue ser expressa, ou é de
modo vago e impressivo; daí a importância do
diálogo firmado entre os dois agentes
Questão
Diz respeito à formalização da necessidade
informacional por meio de uma questão, e,
como tal, requer uma possível resposta. Esse
passo é fundamental por garantir maior
entendimento do bibliotecário acerca de qual
tipo de informação poderá garantir a satisfação
da necessidade
Negociação
Momento em que a questão é melhor
explicitada, haja vista esclarecer aspectos vagos
e imprecisos. Além disso, é nesse momento que
o diálogo se intensifica, com maior interação,
possibilitando
aproximar
a
necessidade
informacional do que a biblioteca tem a oferecer
como resposta
Estratégia de busca
Diz respeito ao estabelecimento de critérios que
visem selecionar os materiais mais adequados e
condizentes com a questão de pesquisa. É nesse
estágio que as tipologias de fonte são descritas,
como também expressões, controladas ou não
por vocabulários, que conectem a necessidade
informacional com os materiais do acervo
Busca
Etapa de execução da etapa anterior, ou seja,
momento em que as estratégias de busca são
colocadas em ação. Faz-se necessária a
presença das ferramentas de busca contidas em
sistemas
de
recuperação,
sejam
eles
informatizados ou não
Resposta
Nesse estágio, tem-se o resultado da busca, por
meio do retorno do sistema. Tal resultado pode
ser bem-sucedido ou não, coincidente ou não
com a questão formalizada. Nesse momento,

�121
Fases
Avaliação

Etapas

Explicações
destaca-se a interação dos agentes, haja vista
atribuir valor (avaliação) ao que foi recuperado
pelo sistema
Solução
Nessa etapa, tem-se a resposta atribuída ao
problema inicial, evidenciando que a resposta é
suficiente
para
satisfazer
a
necessidade
informacional. Destaca-se o acordo firmado
entre os agentes, o que evidencia forte
interação. Porventura, a resposta não satisfaça
a necessidade, o processo é reiniciado
Fonte: Elaborado pelo proponente (2019), a partir de Grogan (1995).

A análise ao quadro 2 permite afirmar que o processo de referência pode
ser conceituado como parte integrante do serviço de referência, regido por
fases e etapas, com presença do usuário e do bibliotecário, mediante um
intenso diálogo. Nesse aspecto, Figueiredo (1992) pontua que esse processo,
embora facilitado por tecnologias e pelo sistema de informação, tem sua
essência ou premissa básica a humanização, considerando os agentes
humanos que se interagem.
O processo de referência, conforme explicitado nos estudos de Grogan
(1995), teve impulso com a valorização das pesquisas científicas, destacandose alguns acontecimentos históricos como o desenvolvimento tecnológico e o
crescimento das universidades, ao longo do século XX. Com esse processo, de
acordo com Shera (1966), o serviço oferecido nas bibliotecas adquire uma
assistência mais ampliada, abandonando a característica técnica e meramente
assistencial (de bate e volta), de modo a adquirir um viés mais colaborativo e
participativo.
Accart (2012) concorda com essa afirmação, acrescentando que o passo
a passo firmado entre profissional e usuário na busca pela informação torna-se
essencial nas bibliotecas especializadas apoiadoras de estudos científicos,
como as bibliotecas universitárias. O serviço de referência torna-se necessário
para garantir o uso das fontes no desenvolvimento de pesquisas avançadas, o
que reforça a importância desse serviço no contexto universitário, mediante
capacitação da equipe que atua na referência (ACCART, 2012).
O diálogo estabelecido no processo de referência representa um passo
evolutivo do serviço de referência, rumo a serviços de informação mais
sofisticados, planejados a partir do momento que considera, também, todo o

�122

trabalho

desenvolvido

pela

biblioteca,

envolvendo o

processamento da

informação (SHERA, 1966). Há de considerar que, além das técnicas de
organização do acervo e o serviço de assistência, os serviços voltados à
comunidade precisam valorizar a cultura, com destaque ações culturais,
práticas de leitura, dentre outras ocorrências que aproximam a biblioteca da
sociedade (RANGANATHAN, 2009).
O atendimento a pesquisadores em bibliotecas acadêmicas passou a ser
uma das principais preocupações das bibliotecas, ou ainda, um dos pontos
mais extremos do serviço de referência (GROGAN, 1995). O processo de
referência, durante muito tempo, despertou interesse de pesquisas, em
diversos pesquisadores, o que promoveu a especialização dos profissionais,
atribuindo ao serviço, uma concepção educativa (SHERA, 1966).
Percebe-se que muitos fundamentos formulados, principalmente, por
Grogan (1995) e Shera (1966), em especial quanto à interação firmada no
processo de referência, serviu de sustentação para embasar muitos estudos
recentes acerca da prática bibliotecária, no iniciar do século XXI, tal como os
estudos direcionados às práticas de mediação. Assim,
o objetivo das bibliotecas vai além do fornecimento da informação, mas
buscando a apropriação dela pelo usuário. Ainda que esse serviço
permaneça pouco valorizado. Defende-se que as atividades que são
desempenhadas pelos bibliotecários devem ter como principal objetivo o
acesso e a apropriação de informações, tornando a função do
bibliotecário, efetivamente, uma mediação entre o usuário e a
informação [...] (ALMEIDA JÚNIOR; SANTOS NETO, 2014, p. 103, grifo
nosso).

O conceito atualizado e abrangente do termo mediação tem suas raízes
no serviço de referência, principalmente quando esse serviço é analisado em
sentido restrito, ou seja, manifesta-se no momento da interação entre usuário
e profissional, no processo de referência. A esse respeito, os autores citados
mencionam que, por meio das atividades de organização e representação do
conhecimento, como também na interação com os usuários “[...] (para que
eles possam ultrapassar do ponto de sua ‘necessidade imediata’, para gerar
significações

e

atribuir

valor

e

sentido

aos

conteúdos

informacionais

acessados), é que se concretiza, também, o processo de mediação” (ALMEIDA
JÚNIOR; SANTOS NETO, 2014, p. 103).

�123

Importante considerar que a característica ampla e diversificada da
mediação estimulou a concepção do serviço de referência sob um enfoque,
também, abrangente (ALMEIDA JÚNIOR, 2015). No entanto, conforme os
fundamentos de Grogan (1995), o destaque do serviço de referência está na
capacidade de promover a interação entre usuário e informação. Sendo assim,
a partir do argumento de Grogan (1995), sobre o serviço de referência restrito,
e de Almeida Júnior (2015), a respeito da mediação do tipo implícita e
explícita, considera-se que o serviço de referência restrito manifesta-se como
um tipo de mediação explícita, por promover a interação entre dois agentes
humanos, realizado de modo direto.
A partir dos fundamentos teóricos de Grogan (1995) e Shera (1966),
acerca do serviço de referência e sua evolução, ao longo do tempo, depreendese que esse serviço está na mediação, assim como essa está no serviço de
referência. Com efeito, eles acabam por se complementar, e servem como
fundamentos para o planejamento, gestão e melhorias dos serviços de
informação nas bibliotecas universitárias, como apontado no estudo de Accart
(2012) e Figueiredo (1992).
A evolução do serviço de referência nas bibliotecas acadêmicas, em
especial quando se refuta a ação de “bate e volta”, provoca uma nova
transformação ao serviço oferecido, o qual passa a ter uma concepção
pedagógica. O atendimento à pesquisa, mediante o diálogo estabelecido no
processo de referência, se torna mais necessário quando oferecido a usuários
não especialistas em um determinado assunto ou campo de investigação, algo
muito comum nas bibliotecas

acadêmicas, que prezam pela formação

profissional (SHERA, 1966).
A partir dessa discussão, a assistência fornecida pelo serviço de
referência se amplia, não se limitando, apenas, às práticas de leitura, ou ao
atendimento imediato, com resposta pronta (SHERA, 1966). Na concepção de
Accart (2012), ao abordar a dimensão pedagógica da própria biblioteca, a
referência passa a englobar a recepção, orientação, auxílio e pesquisa de
informação.

�124

Shera (1996) é um defensor da educação como ponto principal do
serviço de referência. O autor destaca a necessidade de capacitação do
bibliotecário para atuar em coleções especializadas, estando essa atuação
permeada por práticas de mediação, haja vista possibilitar ao usuário,
satisfazer sua necessidade informacional, a partir do diálogo estabelecido com
o bibliotecário no processo de referência, como mencionado, também, por
Grogan (1995).
A concepção educativa atribuída ao serviço de referência despertou a
necessidade de capacitação não apenas do profissional, mas também dos
próprios usuários, haja vista o

crescimento do número

de perguntas

formuladas no balcão de referência. Essa ocorrência provocou algumas
dificuldades na assistência, sobretudo quando bibliotecários tinham que
interromper o atendimento para atender as perguntas solicitadas via telefone
(SHERA, 1966).
Nesse contexto, a estratégia adotada era oferecer capacitações aos
usuários, muitas delas concretizadas durante o próprio atendimento. Portanto,
surge a proposta de autonomia do usuário, a qual somente é conseguida por
meio de ações educativas por parte do bibliotecário, haja vista tornar o usuário
autônomo em seus processos de consulta/pesquisa ao acervo.
A autonomia do usuário também está associada à atuação pedagógica do
profissional e à tendência educativa da biblioteca e do serviço de referência
(SHERA, 1996). Nas últimas décadas do século XX, com o uso do telefone e os
primeiros reflexos do processo de automação nas bibliotecas, Otlet (1989)
previu a ampliação das formas de comunicação dos usuários com as
bibliotecas, enaltecendo, nesse processo, a criação e utilização de ferramentas
interativas, as quais poderiam ser utilizadas de modo mais autônomo pelo
usuário. Esse acontecimento promoveu mudanças e o aperfeiçoamento do
serviço de referência, nascendo, pois, o serviço de referência digital.
De qualquer modo, mesmo que a automação garantisse a autonomia do
usuário, em alguns aspectos, Otlet (1989), como também Grogan (1995),
acreditam na necessidade do bibliotecário no serviço de referência digital,
sobretudo pelo fato dos usuários, mesmo com as tecnologias digitais a seu

�125

favor, precisam de mediadores, seja no esclarecimento de dúvidas, na
condução das atividades na busca pela informação, como também na oferta de
treinamentos/capacitações obre o uso das tecnologias. Essas capacitações vêm
se evoluindo e se destacando no contexto contemporâneo, engrandecendo,
ainda mais, o papel pedagógico do serviço de referência, como apontado nos
estudos de Accart (2012).

3 SERVIÇO DE REFERÊNCIA E AS TECNOLOGIAS: DO DIGITAL AO
CONTEMPORÂNEO
A automatização das bibliotecas, no decorrer das décadas de 1980 e
1990, representou o principal acontecimento responsável pela ampliação do
serviço de referência, em especial, nas bibliotecas universitárias (GROGAN,
1995). Com ferramentas eletrônicas, tornou-se possível atingir a autonomia do
usuário, sem desmerecer a atuação bibliotecária típica do serviço de
referência. Logo, “[...] o computador funciona realmente como um auxílio ao
bibliotecário de referência, não como um substituto [...]”. Isso comprova o
aspecto

pedagógico,

manifestado

como

uma

atividade

essencialmente

intelectual e humana, presente nas ações de referência (FIGUEIREDO, 1992, p.
20).
O serviço de referência digital constitui um novo modelo ou manifestação
de assistência prestada pelas bibliotecas, no âmbito da promoção dos diversos
serviços realizados na unidade. Muitos recursos e tecnologias utilizados desde
as primeiras ações de referência, tais como o tradicional balcão de referência,
ou as perguntas solicitadas por telefone e até presencialmente, ainda
permanecem na atualidade (referência tradicional). Mas, o maior destaque
está

na

oferta

de

serviços

mediados

por

tecnologias

interativas,

disponibilizadas na internet, como e-mail, chat, formulários web, dentre outros
(ACCART, 2012).
É certo que a internet contribuiu com a diversificação de recursos que
podem ser utilizados pelas bibliotecas, haja vista atender as necessidades que

�126

emergem na sociedade da informação e do conhecimento. Tecnologias digitais
passaram a ser os principais meios de comunicação nas práticas sociais, e,
como consequência, o serviço de referência precisa adaptar-se a esse novo
contexto digital (ACCART, 2012).
Justifica-se a adesão aos recursos digitais e as práticas inseridas no
ambiente digital, pois essa é uma tendência, que, provavelmente, não
permitirá retrocessos (ACCART, 2012). Na sociedade atual, o contato pessoal
está sendo substituído pelas redes de interação, possibilitando a formação de
uma cultura diferenciada, cujas trocas de informação são realizadas via
dispositivos tecnológicos, convergindo a sociedade para um único espaço, sem
limites geográficos e temporais (LÉVY, 1999).
Em virtude dessa nova tendência, muitas bibliotecas, no decorrer das
primeiras décadas do século XXI, têm se esforçado para inserir-se nesse novo
espaço de interação e compartilhamento. O serviço de referência digital
acompanha as novidades tecnológicas, se tornando, cada vez mais, um serviço
ampliado, cujos serviços de informação vão ao encontro dos usuários, a
qualquer momento e em qualquer local, desde que, para isso, o usuário tenha
um dispositivo e uma conexão com a internet (ACCART, 2012).
O serviço de referência digital, portanto, surgiu como uma mediação
estabelecida pelos primeiros recursos eletrônicos, como ensinado por Otlet
(1989). No entanto, esse serviço tem acompanhado as tecnologias digitais,
sobretudo a partir do momento que as bibliotecas informatizaram suas
coleções, além da criação de ferramentas capazes de facilitar a busca por
informação em diferentes espaços, como bases de dados, portais de
periódicos, dentre outros espaços digitais (TAMMARO; SALARELLI, 2008).
Lima (2018) concorda com Accart (2012) e Tammaro e Salarelli (2008),
ao afirmar que as tecnologias digitais vêm ampliando a capacidade de
expansão da biblioteca, que passa a atuar de modo, cada vez mais,
instantâneo e expansivo. Segundo Lima (2018, p. 144), “[...] ao longo dos
anos, novos serviços foram disponibilizados aos usuários com o uso de
recursos da internet e várias ferramentas de recuperação da informação
passaram a ser usadas no processo de referência [...]”.

�127

A literatura de Biblioteconomia/Ciência da Informação apresenta grande
número de estudos que versam sobre o uso das tecnologias digitais nos
fazeres diários da biblioteca, destacando-se, nesses estudos, o serviço de
referência. Os estudos, em linhas gerais, sinalizam diversos casos de boas
práticas, tais como a construção de canais de comunicação com o usuário,
como chat, formulários web, videoconferência, dentre outros (EZE, 2016).
Dentre outras iniciativas relatadas na literatura, destaca-se a criação de
aplicativos, oferecidos em dispositivos móveis, visto que as mensagens podem
ser facilmente enviadas e respondidas, além de facilitar o acesso a esses
recursos, em qualquer local que esteja o usuário. Os bibliotecários de
referência contribuem com a gestão e configuração desses aplicativos, além de
fornecerem assistência pessoal mediada com os recursos interativos acoplados
aos aplicativos (BARRY et al., 2010).
Mesmo que os serviços oferecidos sejam fruto do uso intensificado das
tecnologias, o serviço de referência contemporâneo continua com um aspecto
de interação, e, principalmente, com uma concepção educativa. No estudo de
Pellegrino (2012), por exemplo, é mencionada a oferta de treinamentos,
mediante programas de educação informacional, os quais fornecem habilidades
de pesquisa e auxílio na localização das fontes, com novas ferramentas
disponibilizadas nas plataformas. Destaca-se, segundo Slebodnik e Riehle
(2011), que a educação do usuário pode se consolidar mediante o processo de
interação, como também, em programas de capacitação, ofertados de modo
presencial ou digital, e também mediante a disponibilização de tutoriais de
orientação.
Na grande maioria desses estudos, evidencia-se a prática da mediação,
sustentada em ações de interferência (prestação do serviço) e de apropriação
(uso do serviço), conforme apontado na revisão de literatura desenvolvida por
Santa Anna, Dias e Maculan (2019). Desse modo, “[...] a mediação facilita ou
contribui com a prática do serviço de referência, tanto no âmbito presencial
quanto digital, possibilitando a expansão desse serviço [...]”. Os autores
complementam a reflexão, discorrendo que a mediação aproxima profissionais
de usuários, haja vista “[...] garantir o uso dos acervos, por conseguinte,

�128

condicionar a adequação da biblioteca, conforme necessidades demandadas
[...]”. Nesse contexto, a mediação como facilitadora do serviço, interfere no
uso e recebe contribuições do usuário. Logo, são elementos principais desse
processo: “[...] os profissionais, usuários e a informação, sendo as tecnologias
instrumentos que promovem a interação entre eles” (SANTA ANNA; DIAS;
MACULAN, 2019, p. 17).
De qualquer forma, mesmo com essa evolução, cujo serviço de
referência tende a se tornar mais digital, no decorrer do século XXI, é preciso
considerar que a essência, os objetivos e muitos conceitos relacionados ao
serviço de referência permanecem inalterados (ACCART, 2012). Esse autor
acredita que a tendência tradicional vai, aos poucos, se rendendo à digital, no
que se refere aos recursos utilizados. Isso demonstra, segundo Accart (2012),
que os serviços tendem a se tornar mais interativos, com ações inovadoras,
além da presença do profissional para auxiliar ao uso dos recursos e
ferramentas que vão surgindo e sendo utilizados.
Com todos os efeitos, mesmo que a tendência esperada é a manifestação
do serviço

de referência digital, os fundamentos desse

serviço

serão

necessários por possibilitar a sua essência e, por decorrência, garantir a
promoção dos serviços de informação, de modo a viabilizar formas diferentes
de acesso e produção de novos conhecimentos. Assim, acredita-se que o
serviço de referência e informação, na atualidade, contempla os fundamentos
propostos pelos autores Ranganathan, Shera, Grogan e Accart, conduzidos por
práticas de mediação e por recursos interativos e digitais, que garantam a
promoção da biblioteca na sociedade contemporânea.
Nesse contexto, considerando as novas tendências que se vislumbram
para as próximas décadas do século XXI, como também, a partir das
dificuldades enfrentadas pelas bibliotecas, como apontado por Lima (2018),
tais

como:

resistência

dos

profissionais

em

acompanhar

a

evolução

tecnológica; falta de recursos tecnológicos, humanos e financeiros; dificuldade
no uso das tecnologias, dentre outras, faz-se necessária a elaboração de
modelos que possibilitem identificar a forma com que os serviços precisam ser
gerenciados.

�129

A figura 1 demonstra um modelo proposto para compreensão da
essência, dinâmica e características dos serviços de informação, modelo a ser
utilizada

na

institucionalização

ou

gestão

do

serviço

de

referência

contemporâneo.
Figura 1 – Modelo proposto para o serviço de referência contemporâneo

Fonte: Elaborada pelo proponente (2019), a partir da literatura investigada.

O modelo ilustrado na figura 1 apresenta, em linhas gerais, a essência do
serviço de referência, na contemporaneidade, considerando os fundamentos
propostos por pesquisadores que se debruçaram em estudar esse serviço no
âmbito das bibliotecas, ao longo do tempo. Os resultados das reflexões desses
teóricos, ao serem contextualizadas, revelam que esse serviço constitui uma
estratégia para promoção de todas as atividades desenvolvidas na biblioteca
para benefícios da sociedade.
O serviço de referência nas bibliotecas contemporâneas, conforme
apresentado na figura 1, precisa ser instituído ou melhorado, a partir de um
conjunto

de

elementos

a

serem

considerados,

tais

como

usuários,

bibliotecários e tecnologias, podendo essas estarem no formato digital ou não,
como revelado na obra de Accart (2012). O modelo descrito na figura 1 é
indicado ao serviço de referência estrito, ou seja, aquele que adota a mediação
explícita, constituída por meio da interação entre usuário e profissional, na
prestação de uma assistência, seja ela direcionada à pesquisa (GROGAN,
1995), ou à leitura, a ações culturais, dentre outros tipos de solicitações

�130

(RANGANATHAN, 1961; SHERA, 1966). Nesse processo interativo, o objetivo
almejado é a necessidade informacional, e o resultado dessa interação é a
satisfação do usuário (GROGAN, 1995).
Destaca-se,

também, no

modelo

apresentado,

que a

assistência,

elemento originado da atuação do bibliotecário, que visa a satisfação da
necessidade, pode ser direcionada a três diferentes propósitos: a interação, a
mediação e a educação. A interação é estimulada pelo intenso diálogo
estabelecido entre usuário e profissional (GROGAN, 1995); a mediação é
resultante da tentativa de conexão/sintonia dos recursos informacionais com a
necessidade (ACCART, 2012; GROGAN, 1995; RANGANATHAN, 1961); e a
educação corresponde à autonomia do usuário e a ampliação de sua
aprendizagem (ACCART, 2012; SHERA, 1966). Em todas as situações, a
essência e a função da referência permanecem inalteradas, modificando-se,
apenas, as tecnologias utilizadas e as formas de uso desses recursos (ACCART,
2012).
Com efeito, infere-se que a interação, mediação e educação são
elementos do serviço de referência, estando presentes desde as primeiras
tentativas de assistência realizadas por bibliotecários, como o projeto de
Green, no final do século XIX. Mesmo que realizadas de modo implícito, elas
são essenciais ao funcionamento do serviço de referência, se intensificando,
cada vez mais, com a ampliação dos recursos e tecnologias digitais da
sociedade atual, como mencionado por Accart (2012). No decorrer do século
XXI, percebe-se que a profecia de Shera (1966), de que o serviço de referência
se tornaria cada vez mais sofisticado, está sendo alcançada. Para isso,
conforme

Accart

(2012),

faz-se

necessário

desmistificar

a

concepção

técnica/operacional da referência, considerando-a como um fazer altamente
intelectual, de promoção da biblioteca, e, como tal, conduzido por um trabalho
de gestão.

�131

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das reflexões apresentadas neste estudo, foi possível identificar
as principais características dos serviços oferecidos pelas bibliotecas, ao longo
do

tempo,

evidenciando

a

posição

desses

serviços

na

sociedade

contemporânea, do século XXI. Por meio da contextualização aos fundamentos
encontrados

nas

pesquisas

de Ranganathan, Shera,

Grogan e

Accart,

constatou-se que esse serviço se caracteriza pela assistência ofertada à
comunidade

usuária,

manifestada

por

meio

da

interação,

mediação

e

educação. Com efeito, independente dessas ocorrências, o propósito é a
satisfação das necessidades, facilitada por meio do uso de diferentes recursos
e tecnologias, adequados à realidade e preferência dos usuários.
A análise histórica do serviço de referência permitiu identificar que ele
vem se aperfeiçoando, em paralelo à evolução das tecnologias, cujo fazer do
profissional, que é a assistência prestada com o fim de auxiliar os usuários na
busca por diferentes tipos de informação, permanece indispensável. Mesmo
que o futuro torna-se cada vez mais digital, a essência e o propósito do serviço
permanecem os mesmos, colocando em sintonia quatro elementos, que são:
usuários, profissionais, informação e tecnologias.
Os fundamentos discorridos pelos teóricos destacados neste artigo
demonstram que, em qualquer serviço de informação, ou prática bibliotecária
realizada em prol de uma assistência, de um atendimento ou auxílio prestado
na busca por informação, é necessário considerar atitudes humanas, capazes
de interagir, mediar e educar os usuários. Dessa forma, tanto os usuários
como os profissionais e a própria unidade de informação tornar-se-ão
capacitados a inserirem-se na sociedade da informação, do conhecimento e da
aprendizagem colaborativa.
O estudo reforçou que o pensamento de Ranganathan, Shera, Grogan e
Accart permanecem vivos e essenciais para garantir a permanência e evolução
da biblioteca, ao longo das próximas décadas do século XXI. Os argumentos
desses teóricos possibilitam formular modelos que sustentem a formalização
de planos de gerenciamento, haja vista garantir a gestão e melhorias aos

�132

serviços de informação das bibliotecas. Como exemplo de modelo, destacamse os elementos: a necessidade informacional (considerada como objetivo do
trabalho) e a satisfação (o resultado almejado). De uma forma direta,
convergindo profissionais, usuários e tecnologias, a assistência do serviço se
manifestará mediante ações de interação, mediação e de educação.
O modelo proposto neste estudo, como também, as discussões em torno
dos fundamentos propostos pelos teóricos instigam a necessidade de estudos
práticos, com o fim de identificar a realidade empírica das bibliotecas, sobre a
oferta dos serviços de informação. Ademais, a discussão pode se aprofundar,
quando

contemplar

outras

práticas

de

mediação

explícita

ou

implícita

presentes, tanto nas bibliotecas, ou em outros contextos, como em arquivos,
museus, centros de documentação, dentre outras organizações e realidades.
Abordar os serviços oferecidos em bibliotecas, arquivos, museus e outras
unidades similares e as práticas dos profissionais da informação, nesses
contextos, é algo indispensável e necessário, sobretudo em face do valor que a
informação

assumiu

na

sociedade

contemporânea.

Contextualizar

esses

serviços e práticas no âmbito das tecnologias digitais é descobrir novos
olhares, horizontes e possibilidades, que demonstrem o potencial desses
recursos,

apontem

soluções

aos

desafios,

como

também

revelem

as

intervenções que podem ser realizadas, para fins de melhoria contínua.
Desafios e dificuldades existem! Cabem aos profissionais, pesquisadores e
apoiadores da área da Biblioteconomia/Ciência da Informação buscarem as
conquistas.

REFERÊNCIAS
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Brasília: Briquet de Lemos, 2012.
ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da Informação: um
conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos;
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Londrina: ABECIN, 2015. p. 9-32.

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ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de; SANTOS NETO, João Arlindo dos.
Mediação da informação e a organização do conhecimento: inter-relações.
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BARRY, Eithne et al. Virtual Reference in UK Academic Libraries: The Virtual
Enquiry Project 2008-09. Library Review, v. 59, n. 1, p. 40-55, 2010.
BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a
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EZE, Monica. Channels Students Prefer in Submitting Reference Inquiries.
Library Philosophy and Practice, v. 13, n. 54, 2016.
FIGUEIREDO, Nice. Serviços de referência e informação. São Paulo: Polis,
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GROGAN, Denis. A prática do serviço de referência. Brasília: Briquet de
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MARTINS, Wilson. A palavra escrita: história do livro, da imprensa e da
biblioteca. 3. ed. São Paulo: Ática, 2000.
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dos serviços bibliotecários: da guarda informacional ao acesso. Revista

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Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, v. 13, n.
1, p. 138-155, jan./abr. 2015.
SANTA ANNA, Jorge; DIAS, Célia da Consolação; MACULAN, Benildes Coura.
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bibliotecas universitárias. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM
CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 20., 2019, Anais [...]. Florianópolis: Ancib, 2019.
SHERA, Jesse. Foundations of a theory of reference service. Texas Library
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SLEBODNIK, Maribeth; RIEHLE, Catherine Fraser. Creating Online Tutorials at
Y our Libraries Software Choices and Practical Implications. Libraries Faculty
and Staff Scholarship and Research, v. 49, n. 1, 2011.
TAMMARO, Anna Maria; SALARELLI, Alberto. A Biblioteca Digital. Briquet de
Lemos: Brasília, 2008.
TARGINO, Maria das Graças. Ranganathan continua em cena. Ciência da
Informação, Brasília, v. 39, n. 1, jan./abr. 2010.

DADOS BIOGRÁFICOS

Jorge Santa Anna: Graduado em Biblioteconomia. Mestre
e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Gestão e
Organização do Conhecimento. Atuante no ramo da
prestação de serviços de orientação, escrita, normalização
e lecionamento em trabalhos e pesquisas acadêmicocientíficos. Atua como editor e assessor do Periódico PróDiscente, como também compõe a diretoria da Associação
de Bibliotecários de Minas Gerais, ocupando o cargo de
secretário.
E-mail: professorjorgeufes@gmail.com

�135

CAPÍTULO VII - Interlocuções sobre mediação de leitura no
contexto prisional e seus desdobramentos contemporâneos
Andreza Gonçalves Barbosa
Cleiton Martins de Oliveira

1 INTRODUÇÃO
As prisões - ao longo da história - faziam uso de diversos modelos
punitivos que tiveram sua gênese na Igreja, alicerçados, sobretudo, pelas
normas de Direito Canônico. À época, os Clérigos que desacatassem as normas
impostas pela igreja eram recolhidos em celas individuais para que houvesse a
reconciliação com Deus. Em alguns casos considerados mais graves, chegavase a solicitar a exclusão temporária ou permanente do mesmo (MATSUNAGA,
2007).
Os estudos de Michel Foucault (2010) revelam o quão cruéis eram as
punições, que também serviam de "espetáculo" aclamado por uma sociedade
sedenta por justiça. À época, em meados do século XVIII - a figura do
rei/soberano preponderava, sendo assim, qualquer ato considerado ilícito que
o desabonasse teria de ser reparado.
As penalidades se davam em forma de "suplício", ou seja, eram
empregadas punições como esquartejamento, apedrejamento, dentre outras.
Estas medidas visavam desencorajar futuros atos criminosos, servindo de
exemplo a quem ousasse fazê-los. Sobre os suplícios, Foucault explana:
O suplício penal não corresponde a qualquer punição: é uma produção
diferenciada de sofrimentos, um ritual organizado para a marcação das
vítimas e a manifestação do poder que pune: não é absolutamente a
exasperação de uma justiça que, esquecendo seus princípios, perdesse
todo o controle. Nos ‘excessos’ dos suplícios se investe toda a economia
do poder. O corpo supliciado se insere em primeiro lugar no cerimonial
judiciário que deve trazer à luz a verdade do crime (FOUCAULT, 2010, p.
36).

�136

Ante a crueldade dos atos de tortura, os movimentos ligados à classe de
intelectuais, liderados por filósofos, profissionais da área de Direito encabeçados pela França, se mostraram contrários a esse tipo de prática e
questionaram a aplicação destas medidas, contribuindo para a implementação
do modelo prisional como o conhecemos atualmente. Em síntese: a construção
do atual modelo de privação de liberdade resulta de ações perpetuadas e
aprimoradas no decorrer de séculos.
No modelo de punição de outrora - o cárcere servia de passagem àqueles
considerados transgressores da lei, atuando tão somente como local de
custódia dos envolvidos até a deliberação final, em outros termos, prenúncio
do ritual de suplício. Atualmente, este sistema funciona como dispositivo de
controle e vigia- como veremos subsequentemente.
Pois bem, no que se refere ao indivíduo encarcerado, a partir do
momento em que este permanece, por longos períodos, privado do convívio
social, seu comportamento é adaptado às exigências do Sistema. Por tratar-se
de um espaço hermético, emblemático e estigmatizado para a maioria das
pessoas, evocamos os estudos de Goffman (1974) sobre as "instituições
totais".

O

referido

autor

cita

manicômios,

conventos

e

prisões

como

instituições totais, uma vez que os indivíduos nelas inseridos são mantidos
apartados da sociedade e observados em suas mínimas práticas cotidianas. O
autor define instituição total como:
[...] um local de resistência e trabalho onde um grande número de
indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais
ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e
formalmente administrada (GOFFMAN, 1974, p. 11).

Como mecanismo de controle e vigia, a prisão molda o comportamento
dos cativos. Ainda segundo o autor, o período de estada no cárcere faz com
que o indivíduo não acompanhe o crescimento dos filhos, perca o contato com
amigos e familiares. Ainda a respeito das instituições totais, Monteiro (2019)
conceitua a postura que o preso assume ao adentrar o sistema prisional como
"comportamento padrão do preso", ou seja:

�137
[...] o comportamento submisso e sedutor diante das regras que lhe são
impostas e do trato com o funcionário, como por exemplo, pedir licença
ao funcionário ao passar por uma porta, responder o funcionário com
“sim senhor” e “não senhor”, andar sempre na faixa pintada no chão
que lhe é permitido (MONTEIRO, 2019, p. 99).

O recluso, dessa maneira, vivencia um processo que podemos denominar
de coerção psicológica, haja vista a mudança comportamental introduzida com
a imposição de regras, bem como o condicionamento psicológico e físico
compelido a este indivíduo.
Posto isto, as mudanças iniciadas no modelo punitivo explicitadas
anteriormente prosseguiram no decurso de vários anos, até atingirmos o atual
modelo conhecido como celular, isto é, um sistema de pena com viés mais
humanizado. Além disso, foram elaborados tratados e regras internacionais
como as "Regras de Mandela" no intuito de garantir a dignidade das pessoas
privadas de liberdade, tal qual o acesso à saúde, educação e o direito a
defesa.
No Brasil, a Lei de Execuções Penais (LEP) que será apresentada
detalhadamente na seção seguinte, garante aos presos (as) dentre outros
benefícios o direito à educação em seus variados níveis. A mesma Lei em seu
Artigo 21. dita que "Em atendimento às condições locais, dotar-se-á cada
estabelecimento de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de
reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos" (BRASIL, 1984).
É sabido que a educação é um dos pilares para emancipação dos sujeitos. Já a
leitura, por sua vez, possibilita aos mesmos desenvolverem um senso crítico a
partir do conteúdo oferecido, assim como do mundo à sua volta.
Ademais, é mister pensar a educação e a mediação de leitura no cárcere
considerando as dificuldades e barreiras encontradas no cotidiano dos presos
(as), sobretudo para se fazer cumprir o que preconiza a lei em sua
completude.
Deste modo, tendo por base as premissas acima supramencionadas, este
trabalho tem por objetivo dissertar sobre a importância das bibliotecas
prisionais, da leitura e da mediação de leitura no cárcere visando proporcionar
melhor qualidade de vida aos cativos por meio da educação e da leitura. Para o

�138

desenvolvimento deste estudo, foi realizado um levantamento bibliográfico na
literatura da área.

2 BREVE HISTÓRICO DO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO
No Brasil, a pena de prisão foi instituída a partir do código Criminal de
1830 podendo ser representada de duas formas: a prisão simples e a prisão
com trabalho. Entretanto, em razão de irregularidades e problemas estruturais
encontrados nas instituições penais brasileiras no fim do Regime Militar,
discussões políticas foram realizadas acerca da situação dos presos do país,
resultando - em 1984 - na criação da Lei de Execuções Penais (LEP)20.
A LEP - por meio de medidas socioeducativas e ressocializadoras – visa
humanizar o sistema e garantir a reinserção do internado e condenado em
sociedade (BRASIL, 1984). Além da LEP, temos, outrossim, a Constituição de
1988 fundamentada na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948,
que estabelece em seus Incisos

direitos e deveres da pessoa

presa

(BRASIL,1988).
Não obstante, o Brasil ocupa o terceiro lugar em população prisional no
contexto mundial. Segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional
(DEPEN) atualizados em 2019, o país possui uma população prisional de
773.151 pessoas privadas de liberdade. No que tange à escolaridade, a maior
parcela de pessoas presas possui somente o ensino fundamental incompleto.
No que se refere à educação, a seção V da LEP apresenta alguns Artigos
relacionados à educação no cárcere, conforme explicitado abaixo:
Art. 17. A assistência educacional compreenderá a instrução escolar e a
formação profissional do preso e do internado.; Art. 18 .O ensino de 1º
grau será obrigatório, integrando- se no sistema escolar da Unidade
Federativa; Art.18 A.O ensino médio, regular ou supletivo, com
formação geral ou educação profissional de nível médio, será implantado
nos presídios, em obediência ao preceito constitucional de sua
universalização (BRASIL, 1984).

20

Informação retirada do Grupo de Estudos Carcerários Aplicados na Universidade de São
Paulo. Disponível em: http://www.gecap.direitorp.usp.br/index.php/noticias/43-a-constituicaofederal-a-lei-de-execucao-penal-e-o-preso-7-informacoes-basicas-sobre-encarceramento.

�139

Em suma: apesar de todo amparo legal que versa sobre as políticas de
assistência educacional dos presos, é importante refletir sobre a real eficácia
destas políticas na prática e em quais condições são aplicadas, uma vez que,
em

contrapartida,

o

Sistema

registra

um

crescimento

exponencial

de

indivíduos encarcerados.

3 A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NO CÁRCERE E DOS AGENTES
MEDIADORES NAS ATIVIDADES SOCIOEDUCATIVAS
O conhecimento produzido pela atividade humana vem sendo registrado,
armazenado e repassado através dos tempos de diversas maneiras. Muitos
foram os meios de se registrar informações que, a posteriori, pudessem ser
repassadas aos seus pares. Para isso, os indivíduos aperfeiçoaram os
procedimentos de armazenagem da informação provenientes da interação com
outros indivíduos e ambientes, bem como dinamizaram os dispositivos
utilizados nas atividades por eles desenvolvidas, se valendo, desta maneira, de
informações avaliadas como relevantes para alterarem suas ações rotineiras.
Ora através da oralidade, do saber fazer, da observação, ora através do
registro

em

um

tipo

móvel

portátil

em

linguagem

que

pudesse

ser

posteriormente decodificada e reproduzida, a humanidade traçou diversos
percursos que levam ao caminho da dissolução de problemas que podem ser
considerados problemas de informação.
No contexto do cárcere, existem várias possibilidades de o indivíduo
privado de liberdade manter-se informado, como por exemplo: visita dos
familiares, o envio de cartas, a possibilidade de contatar o setor jurídico quando disponibilizado pela instituição um espaço para tal, além das
bibliotecas instaladas nestes ambientes.
A inserção de bibliotecas no cárcere está pautada na LEP, em seu Artigo
21, que discorre sobre a implantação de bibliotecas nas Unidades Prisionais
adequadas à realidade de cada local e, claramente, atendendo a todos os
reclusos, bem como oferecendo livros instrutivos, recreativos e didáticos. A Lei

�140

garante a obrigatoriedade desses espaços nas prisões, contudo, observa-se
uma brecha em relação à presença do profissional Bibliotecário, função esta
que ainda inexiste no sistema penal.
Segundo a IFLA (2005), os conceitos e valores adotados pelas bibliotecas
localizadas no ambiente carcerário devem assemelhar-se àqueles adotados nas
bibliotecas públicas, garantindo aos presos que participem das ações voltadas
ao lazer, cultura e educação.
Retomando as questões de cunho educacional nas Unidades Prisionais,
em 29 de junho de 2011 foi sancionada a Lei 12433 alterando os artigos 126,
127, 128 e 129 da Lei de Execuções Penais. A partir de então, a nova lei
permite que o preso (a) possa reduzir a pena para além do trabalho, isto é,
por meio de atividades educacionais. Melhor dizendo: a cada 12 horas de
frequência escolar o preso terá um dia de redução na pena, e um dia a menos
de pena a cada três dias trabalhados.
A remição de pena por meio da leitura foi instituída pela Recomendação
44/2013 do CNJ - Conselho Nacional de Justiça. A norma determina que o
preso (a) terá o prazo de 22 a 30 dias para ler uma obra e, em seguida,
deverá redigir e entregar uma resenha do exemplar lido à Comissão
realizadora do projeto. A cada obra lida, resenhada e aceita, reduzir-se-á
quatro dias de pena. A norma ainda estabelece o limite máximo de 12 obras
que poderão ser lidas anualmente, o que resultará em 48 dias de diminuição
da pena. Por ser uma Recomendação e não uma Lei, a medida não é
obrigatória. Fica a cargo das Comarcas aderirem ou não ao projeto.
Por conseguinte, considera-se essencial aos apenados o acesso às
bibliotecas prisionais com a presença de um bibliotecário, sendo este o
responsável pela adoção de atividades ligadas à leitura.
Ainda falando sobre os bibliotecários nas Unidades Prisionais, grande
parte destes profissionais atuam voluntariamente ou por meio de projetos de
extensão realizados pelas Universidades. Acerca desta temática, destaca-se o
trabalho da Bibliotecária, Catia Lindemann, ativista das bibliotecas prisionais e
Presidente da primeira Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP).

�141

No artigo intitulado "Implantação da biblioteca no cárcere: desafios e
possibilidades, Lindemann e Colares (2015) explanam a respeito do projeto de
Extensão "Janela Literária", realizado na Penitenciária Estadual de Rio Grande
(PERG) cidade localizada no interior do Rio Grande do Sul. Neste trabalho, as
alunas verificaram que apenas organizar e distribuir livros nas celas não
bastava. Era necessário apresentar o livro aos detentos, torná-lo familiar ao
ambiente, além de mediar a informação e a leitura, haja vista que grande
parte da população carcerária é composta por presos com ensino fundamental
incompleto.
Deste modo, percebe-se a importância do bibliotecário como agente
mediador da leitura, especialmente no contexto prisional, lido, reiteradamente,
como ambiente marginalizado.
A respeito disso, salientam Lindemann e Colares (p.3, 2015) "É esse o
papel do bibliotecário hodiernamente, ou seja, facilitar o acesso, mediar
informação para os cidadãos, como forma de que eles tenham insumos para
exercer a sua cidadania [...]", dessa maneira, o bibliotecário contribui para a
formação e ampliação de visão de mundo dos cativos.
Pensar

as

bibliotecas

prisionais

como

locais

que

possibilitem

o

desenvolvimento de atividades relacionadas à aprendizagem, ou seja, como
ambiente de mediação, impulsionando o desenvolvimento de habilidades
diversas, contribuindo pra que os apenados entendam melhor o mundo à sua
volta é de suma importância. Para esse fim, deve-se compreender o conceito
de mediação:
Toda ação de interferência – realizada em um processo por um
profissional da informação e na ambiência de equipamentos
informacionais –, direta ou indireta: consciente ou inconsciente; singular
ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação
que satisfaça parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade
informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais
(ALMEIDA JUNIOR, 2015, p. 25).

Nota-se

que

o

autor

enfatiza

a importância

de

profissionais

da

informação nas práticas de mediação. Porém, como apontado anteriormente, a
maioria dos bibliotecários atuantes no sistema prisional o fazem de forma
voluntária. Esta função, rotineiramente, fica a cargo de professores e dos

�142

próprios presos, por meio do compartilhamento coletivo de obras e de suas
impressões acerca do que foi lido. A respeito disso, Barbosa (2017) explana
em sua dissertação que, após a leitura, as apenadas do Centro Prisional
estudado em sua pesquisa adquiriam conhecimento sobre uma obra, tornandoa fonte de informação e compartilhavam-na com outras mulheres.
Sendo assim, vale destacar a importância das bibliotecas prisionais, que
dentre muitas funções enseja mudar a realidade desses sujeitos, aprimorar as
aptidões tanto comunicativas quanto de aprendizagem.
Reconhecendo estes espaços como essenciais à mudança de vida das
pessoas privadas de liberdade, entende-se que eles deveriam ser ocupados por
bibliotecários, a fim de que estes profissionais possam aliar a técnica adquirida
ao longo da graduação e adequá-las às regras estabelecidas pelo Sistema.
No entanto, dentre os fatores que contribuem diretamente para a
ausência de bibliotecários nas Bibliotecas das Unidades Prisionais destacam-se
o temor destes profissionais ao adentrar uma prisão, cuja imagem é atrelada
ao crime e demais transgressões; os entraves burocráticos para obter as
autorizações necessárias à sua permanência e desenvolvimento de atividades
nestes recintos; o embaraço quanto aos procedimentos de checagem de
objetos pessoais e, por fim, a disponibilidade de determinados gestores no que
tange à execução dos projetos propostos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo de séculos, foi possível observar como as medidas punitivas
utilizadas nas prisões no passado saíram da categoria de verdadeiras práticas
de tortura e atrocidades, que atentavam contra a vida dos cativos, para
gradualmente alcançar o modelo que conhecemos atualmente, que garante
direitos básicos de dignidade e sobrevivência destes indivíduos.
Entretanto, na história recente, no que diz respeito à humanização das
Unidades Prisionais, podemos destacar a adoção de medidas socioeducativas
no Sistema Prisional Brasileiro que possibilitam aos presos o acesso às

�143

atividades voltadas ao desenvolvimento de suas habilidades educacionais, de
aprendizagem e de leitura, contando com o papel substancial das bibliotecas
nestes ambientes.
Refletindo sobre a leitura e as atividades correlacionadas de mediação no
cárcere, tendo por base a Recomendação que discorre sobre a Remição de
Pena por meio da leitura, embora esta não seja obrigatória, conclui-se que a
medida representa um avanço no propósito de possibilitar o direito à leitura,
na obtenção de informação, proporcionado a ampliação da visão do mundo dos
apenados. Contudo, num primeiro momento - é importante refletirmos quanto
ao processo de avaliação das tarefas propostas aos cativos, especialmente
aquelas que podem beneficiá-los com a remição de pena.
Regra geral é sabido que estes indivíduos possuem o nível de
escolaridade limitado, ou seja, a necessidade de suporte adequado, tal como a
orientação de profissionais capacitados são indispensáveis ao desempenho
satisfatório dos envolvidos durante a realização das tarefas.
Do contrário, a posterior avaliação do conteúdo produzido pelos cativos
será demasiadamente prejudicada e, consequentemente, o intuito de infligir a
remição de pena pela leitura estará comprometido.
Em vista disso, se faz primordial a adoção de medidas que priorizem os
investimentos em políticas educacionais a fim de tornar estes sujeitos
habilitados e capacitados tanto para a produção de textos quanto para a
realização de leituras críticas do conteúdo ofertado.
Num segundo momento, reiteramos a importância da presença do
bibliotecário no fazer diário da educação, participando ativamente da mediação
da leitura e demais atividades correlatas - em sua totalidade, e em constante
diálogo com as equipes de Coordenação Pedagógica das instituições. O
adequado planejamento e implantação de bibliotecas nas Unidades Prisionais,
aliado ao estímulo das atividades de leitura nesses ambientes por parte de
bibliotecários - com o apoio dos gestores das instituições - são fatores que
poderão fomentar uma parceria harmônica e alinhada aos objetivos que se
pretende alcançar.

�144

Enfim, todos os envolvidos serão beneficiados, em outras palavras, os
sujeitos privados de liberdade, as instituições que os abrigam, a sociedade,
trabalhando em prol de um bem comum e fazendo com que a leitura cumpra
de fato seu papel na sociedade.

REFERÊNCIAS
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BORTOLIN, S.; SANTOS NETO, João A.; SILVA, R. (Org.). Mediação oral da
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BARBOSA, Andreza Gonçalves. Práticas informacionais das apenadas do
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de Ciência da Informação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo
Horizonte, 2017. Disponível em:
https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/BUBDB4YJ7Z/1/disserta__o_final_
digital_26_04_18_pdf__1_.pdf. Acesso em: 01 jun. 2020.
BRASIL. Lei nº 7210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de Execução Penal.
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Acesso em: 02 jun. 2020.
BRASIL. Lei nº 12433, de 29 de junho de 2011. Altera a Lei no 7.210, de 11 de
julho de 1984 (Lei de Execução Penal), para dispor sobre a remição de parte
do tempo de execução da pena por estudo ou por trabalho. Diário Oficial
[da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 30 jun.2011. Disponível
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20112014/2011/lei/l12433.htm. Acesso em: 11 jun.2020.
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do tempo de execução da pena por estudo ou por trabalho. Diário Oficial
[da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 30 jun.2011. Disponível
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20112014/2011/lei/l12433.htm. Acesso em: 11 jun.2020.
BRASIL. Constituição (1988). Diário Oficial [da] República Federativa do
Brasil, Brasília, DF, 05 out.1988. Disponível em:
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�145

BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Recomendação Nº 44 de
26/11/2013. Dispõe sobre atividades educacionais complementares para fins
de remição da pena pelo estudo e estabelece critérios para a admissão pela
leitura. Disponível em: http://www.cnj.jus.br/busca-atosadm?documento=1235. Acesso em: 15 jun.2020.
BRASIL. Ministério da Justiça. Departamento Penitenciário. Sistema
Integrado de Informação penitenciária: Infopen, Brasília, DF, 2014.
Disponível em: https://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novorelatorio-do-infopen-nesta-terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf. Acesso
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COLARES, Leni Beatriz; LINDEMANN, Catia Rejane. Implantação da biblioteca
no cárcere: desafios e possibilidades. Informação &amp; Sociedade: Estudos,
João Pessoa, v. 25, n. 3, p. 205-215, set./dez. 2015. Disponível em:
http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/16243/14537. Acesso
em: 10 jun.2020.
FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: nascimento das prisões. Petrópolis: Vozes,
2010.
GOFFMAN, Erwing. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo:
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MONTEIRO, Ciro Athayde Barros. Informação encarcerada: o jovem da
"Geração Internet" e a mediação e apropriação dos dispositivos informacionais
no interior da prisão. 2019. 245 f. Tese (Doutorado em Ciência da
Informação)- Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista,
Marília, 2019. Disponível em:
https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/191114/monteiro_cab_dr
_mar.pdf?sequence=3&amp;isAllowed=y. Acesso em: 5 jul. 2020.
ORIENTAÇÕES IFLA PARA SERVIÇOS DE BIBLIOTECAS PARA RECLUSOS.
Traduzido por Maria José Vitorino. 2005. Disponível em:
https://www.ifla.org/files/assets/hq/publications/professional-report/92-pt.pdf.
Acesso em: 21 jun. 2020.

�146

DADOS BIOGRÁFICOS

Andreza Gonçalves Barbosa: Doutoranda em Ciência da
Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação PPGCI-UFMG (2018). Mestre em Ciência da
Informação pelo mesmo programa (2017). Bacharel em
Biblioteconomia pela Escola de Ciência da Informação- UFMG
(2015).
Membro
do
grupo
de
pesquisa
"Práticas
Informacionais e Cultura" (EPIC-UFMG). Áreas de interesse:
Usuários da informação, Ciência da Informação, Informação e
cidadania, Bibliotecas Prisionais, Leitura no cárcere,
Ressocialização,
Práticas
Informacionais.
Representante
Discente PPGCI - UFMG. Membro da Comissão Brasileira de
Bibliotecas Prisionais (CBBP - Febab).
E-mail: goncalvesandreza@hotmail.com

Cleiton Martins de Oliveira: Bacharel em Comunicação
Social – Habilitação Jornalismo – pela Faculdade de Ciências
Humanas – UNIVERSIDADE FUMEC (2004). Bacharel em
Biblioteconomia pela Escola de Ciência da Informação – UFMG
(2015). Áreas de interesse: Ciência da Informação, Biblioteca
Escolar, Informação e Cidadania.
E-mail: thonmartins@hotmail.com

�147

PARTE II - MEDIAÇÃO
COMO PROMOTORA DOS
SERVIÇOS DE
INFORMAÇÃO

�148

CAPÍTULO VIII - Ações de informação no Laboratório de Tecnologias
Intelectuais
Isa Maria Freire
Gustavo Henrique de Araújo Freire

1 INTRODUÇÃO
A presente comunicação compartilha resultados de reflexão sobre a
aplicação do modelo de regime informacional proposto por González de Gómez
ao campo de pesquisa constituído pelo Laboratório de Tecnologias Intelectuais
– LTi, identificando seu valor informacional no âmbito do regime de informação
da forma de vida da comunidade da Ciência da Informação na Universidade
Federal da Paraíba (UFPB).
Desde 2009 o Laboratório de Tecnologias Intelectuais - LTi vem
desenvolvendo ações integradas de pesquisa – ensino – extensão, com o
objetivo de facilitar o acesso livre à informação científica e tecnológica na
Internet e promover competências em tecnologias intelectuais para produção e
compartilhamento da informação, na rede das redes.
Trata-se de projeto do Departamento de Ciência da Informação, em
parceria com o Departamento de Contabilidade e Finanças, os Programas de
Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da UFPB e da Universidade
Federal da Bahia (UFBA), com apoio do do Programa Interinstitucional de
Bolsas de Iniciação Científica e do CNPq. Sua abordagem metodológica
apresenta um caráter participativo, tanto em nível da articulação com os
espaços sociais e institucionais, quanto em nível da produção e comunicação
de informação e conhecimento.
Desde o início de sua implementação, a pesquisa teórica sobre o LTi tem
como objeto de investigação a pertinência das micropolíticas para gestão de
atividades em um dado regime de informação, seus resultados na produção
colaborativa de dispositivos e artefatos de informação e o compartilhamento

�149

em redes de comunicação virtual. Nesse processo, também foram objetos de
estudo a possibilidade de emergência de uma inteligência coletiva no grupo de
participantes e a ideia de uma competência ética como fundamento à prática
da responsabilidade social dos profissionais da informação.
Nossa análise, ao longo de 10 anos, vem confirmando os indícios de que
as ações de informação se iniciam e desenvolvem em um regime de
informação a partir de atores sociais, mediante dispositivos semânticopragmáticos e estruturas organizacionais aceitos pela forma de vida e apoiados
em tecnologias de informação e comunicação. Vale ressaltar que se trata de
oportunidade única de acompanhar, desde o início, a experiência de um grupo
reunido por laços sociais para criação e distribuição colaborativas de produtos
e serviços de informação.

2 UMA ABORDAGEM DAS AÇÕES DE INFORMAÇÃO
Em texto de 1999 (p. 2), González de Gómez explicita seu objetivo de
“demonstrar a validade acerca dos aspectos seletivos e decisionais da
construção de valores de informação por indivíduos, atores coletivos e
organizações”. Para a autora, embora a tendência na área da Ciência da
Informação seja abordar separadamente os problemas de informação na
perspectiva dos produtos e serviços, ou da gestão da informação, há espaço
para estudá-los a partir do questionamento dos aspectos decisórios e seletivos
das práticas e ações de informação. Pois “essas práticas intervêm na própria
constituição de algo a ser designado como informação, ou domínio da
informação, ex ante”, criando uma assimetria estrutural, uma vez que na
sociedade contemporânea
[...] as possibilidades de escolha dos sujeitos sociais, no processo de
constituição de um valor de informação, ocorrem no horizonte de um
paradoxo: por um lado, os sujeitos detém autonomia para escolher,
mas, por outro, a sociedade demanda e produz regimes de informação
cada vez mais hegemônicos (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999, p. 3).

�150

No desenvolvimento de sua abordagem, a autora encontrou na “teoria
da ação” de Wersig e Windell (1985) uma conceituação que permite uma
abordagem situacional dos problemas de informação, os quais “remetem a
complexos de atividades e situações ancoradas no tempo e no espaço, os quais
demandam uma diversidade de procedimentos e respostas gnoseológicas. [...]
Começam, assim, a ganhar novas instâncias o que será denominado ‘ações de
informação’”, pois a “teoria da ação” abriria espaço para estabelecer distinções
de caráter social e contextual, relacionando a atuação da Ciência da
Informação ao domínio da confluência dos contextos da comunicação, do
conhecimento e da ação:
A principal ideia é que "ação" e "comportamento" estão intimamente
relacionados, mas são utilizados para diferentes fins e, portanto, são
mais distinguidos pelos critérios que o analista aplica a eles por sua
natureza. Quando nos preocupamos com o "comportamento",
concentramo-nos no que é observável, enquanto que quando falamos de
"ação" existe a intenção do ator de conseguir algo e essa intenção torna
a ação "significativa" pelo menos para o ator. Ao olhar para "ações",
somos sempre confrontados com a questão de entender o sentido
subjacente.

Na abordagem de González de Gómez (1999, p.5), “a ação social se
assenta na força da relação de interlocução, que se estabelece ao mesmo
tempo em que a definição do vínculo social, conforme uma forma específica de
comunicação e de transferência de informação”. Para a autora,
[...] esse plano transcendental de regulamentação de esferas práticodiscursivas já age como pressuposto das ações cotidianas dos falantes
em seus mundos habituais de vida [...]. Os postulados e condições da
comunicação estariam assim pressupostos em alguma medida em todo
plano de ação coordenada ou coletiva (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999,
p.18).

Como essas premissas têm implicações sociais e ético-políticas, a autora
buscou fios conceituais na reconstrução das teorias sociais da ação, como as
de Bordieu e Habermas, na abordagem das práticas-discursivas de Foucault e
em abordagens antropológicas, como a de Geertz, e sociológica, como a de
Collins e Kush. E ressalta que enquanto essas abordagens privilegiam o lado
intencional, auto-referencial e de autogestão da ação coletiva e individual,
outras

abordagens

configurações

de

acentuam
ações

e

o

aspeto

relações

encoberto,

sociais

presentes

a

opacidade
no

processo

das
de

�151

constituição de um “valor de informação”. Nesse contexto, “Se na abordagem
estruturalista as relações são efeitos variáveis e de superfície das estruturas
invariáveis, nas novas abordagens não há nada nem por baixo nem por cima
das relações, pois os termos da relação só existem na própria relação, e não
ex ante” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999, p.25).
E assim chegamos às ações e relações sociais existentes nos inúmeros e
diversificados

regimes

de

informação

coexistentes

na

sociedade

contemporânea, onde “as redes são estruturas comunicativas” (CASTELLS,
2015, p.66) e, como visto, o ex ante se transmudou em aqui e agora (FREIRE,
2003).

2.1 ESTRATOS E QUADRO NORMATIVO DAS AÇÕES DE INFORMAÇÃO
González de Gómez reitera que, do ponto de vista semântico-pragmático,
um valor de informação se constitui por regras, na maioria das vezes implícitas
e habituais no grupo de sujeitos. Do ponto de vista da estruturação
metainformacional, sua constituição responde a regras formalizadas, padrões
convencionais e contratos, e do ponto de vista das infra-estruturas pode ser
vista como objeto modelável. No curso das suas reflexões a autora consolida
sua reconstrução da ação de informação como uma ação estratificada, sendo
que cada uma dessas estratificações seria definida e organizada por um plano
de regras que se manifesta como definição de valores de informação, seja
como modelo, design ou norma técnica, ou como “padrões de fato21” ou como
micropolíticas organizacionais.

21

Apoiada em Bearman e Sochats (1996), González de Gómez (1999, p.11) usa o termo para
identificar a escolha e aplicação de tecnologias na constituição de um valor de informação, na
medida em que são selecionadas “dentre as ofertas tecnológicas no mercado de indústria de
informação”, estabelecendo possibilidades e limites de relacionamento com outros recursos
tecnológicos.

�152

Quadro 1 – Estratos da informação e quadro normativo
PLANOS DE CONSTITUIÇÃO DAS REGRAS
QUADRO NORMATIVO
Critérios de validade e
aceitação da informação
Redes prático-discursivas [informação]
Arcabouços organizacionais [metainformação]
Concepção de serviços,
redes e interfaces
Mediação técnico-tecnológica
[modelos, processos, artefatos,
Infra-estrutura
tecnologias]
computacional e
telemática

Micropolíticas organizacionais
Modelos operacionais, normas
técnicas

Padrões “de fato”

Fonte: GONZÁLEZ DE GÓMEZ (1999). Intervenções dos autores entre colchetes.

Nesse contexto, “a estrutura, organização e conteúdo de uma unidade
informacional remete, antes, às ações e aos agentes que a produzem e
organizam do que aos conteúdos do mundo natural e social aos quais
apontam, bem como a seus universos de referência discursiva”. (GONZÁLEZ
DE GÓMEZ, 1999, p.4). Para a autora, a construção de “valores de informação”
é orientada por regras construídas por sujeitos coletivos cujas práticas e
discursos

concretos

estão

ancorados

no

tempo e no

espaço.

E

aqui

encontramos os atores sociais em suas formas de vida. Esses sujeitos são
considerados “atores sociais” quando existe
[...] algum grau de institucionalização e estruturação das ações
coletivas dos quadros conceituais e das estratégias prático-discursivas,
as quais agenciam diferenciais para configurar ações formativas que
singularizem e sustentem expectativas de reconhecimento social desses
sujeitos (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999, p. 24).

A

autora

faz

uma

distinção

entre

“atores

sociais”

e

“atores

gnosiológicos”: enquanto os primeiros podem ser reconhecidos por suas
formas de vida, construindo suas identidades através de ações formativas, os
atores gnosiológicos são atores sociais cujas ações formativas são, de modo
dominante, ações de informação:
A relação entre ator social, ação formativa e valor de informação é a
junção que define as ações de informação. Nesse contexto são
construídos e aceitos certos valores de informação, em situações que
demandam processos sociais de arbitragem, tais como os de produção
de conhecimentos científicos. De modo que a toda ação formativa

�153
corresponde uma ação informacional. Denomina-se, ator gnosiológico ao
ator social (cientista, pesquisador, tecnólogo) cuja ação formativa é a
ação de informação (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999, p.24).

Instala-se, então, uma nova assimetria entre as ações de informação:
enquanto para todos os atores sociais é a ação social formativa que vincula e
tematiza as ações de informação aos atores gnosiológicos, cuja ação formativa
é a ação de informação em si, a vinculação gnosiológica tematiza e organiza
suas ações sociais. É nesse contexto que González de Gómez (1999, p.22) usa
o conceito de “formas de vida”, conforme Geertz (1998), o qual pode ser
aplicado a um campo profissional, como o dos pesquisadores numa área do
conhecimento científico:
Numa área de pesquisa, entendida como “forma de vida”, regras
intersubjetivas de um “contrato local” serviriam de mediação entre a
autonomia semântica do pesquisador individual e o poder simbólico das
instituições. As regras não são fixas nem imutáveis: estão sujeitas à
reformulação e à negociação.

De modo que, para a autora, no âmbito de uma forma de vida, “a
vinculação gnoseológica tematiza e organiza [as] ações sociais”, de maneira
que “Uma ação de informação se exerce [através da] articulação entre os
planos ou estratos informacional e metainformacional” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ,
1999, p.24). O estrato metainformacional demarca o contexto em que uma
informação tem sentido: trata-se de um plano que “regula e orienta as
operações

de

relação

[tendo]

como

núcleo

um

valor

de

informação,

estipulando o domínio relacional a partir do qual [...] pode desenvolver valores
cognitivos, conforme uma práxis preferencial” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999,
p.5). Desse modo, os múltiplos estratos de informação são organizados
conforme um interesse e se orientam para um “agir ou fazer”.
O plano de articulação informacional responde “às condições daquilo
acerca do que se informa, estabelecendo relações na dimensão cultural,
cognitiva, ética e estética, nas quais estão ancoradas suas referências
semânticas e de conteúdo” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999, p.5). Nesse sentido,
remete a uma formação discursiva e aos seus universos de referência: “Toda
ação que constrói um novo valor de informação age a partir de algo que a
precede e reúne uma memória de ações de informação [...], bem como

�154

instrumentos e meios disponibilizados pelo ambiente cultural” (GONZÁLEZ DE
GÓMEZ, 1999, p.5). São os dispositivos do regime de informação.
A autora denomina dispositivo de informação a tudo que, “como matéria
informada, mediação maquínica, ou passado instituído do mundo social,
condiciona uma ação de informação [podendo] atuar como variável causal na
ocasião pontual de sua intervenção” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999, p.5).
De modo geral, um dispositivo de informação é constituído sobre
dispositivos anteriores de informação, que atuam como seu preenchimento
estratégico, em um dado regime de informação.

A reutilização é parte do dispositivo. As redes de comunicação remotas,
nessa concepção, seriam num primeiro momento herdeiras dos
conteúdos
informacionais
já
disponíveis
em
meio
digital,
independentemente de gerar outros recursos, e de modificar conforme
os novos sistemas de inscrição os repositórios já existentes (GONZÁLEZ
DE GÓMEZ, 1999, p.26).

A autora destaca que um regime de informação comporta inúmeros
dispositivos de informação, desdobrando-se
[...] num conjunto de redes formais e informais, nas quais as
informações são geradas, organizadas e transferidas de diferentes
produtores através de muitos e diversos meios, canais e organizações,
para diferentes destinatários ou receptores de informação, sejam
usuários específicos ou públicos amplos (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999,
p.27).

Em

síntese,

um

regime

de

informação

se

caracteriza

por

sua

complexidade e sua não transparência imediata, e também por nele ocorrerem
conflitos, vontades plurais e efeitos não desejados. Para a autora, esse
conceito de regime de informação, de inspiração foucaultiana, permite falar de
política e de poder sem ficar restrito ao Estado e as Políticas Públicas. Nesse
contexto, o que se denomina “informação” é constituído a partir de formas
culturais

de

semantização

desdobramentos

em

atos

de
de

nossa

experiência

enunciação,

do

interpretação,

mundo

e

seus

transmissão

e

inscrição. Essas condições de possibilidade e de realização de uma ação de
informação abrangem condições, regras e recursos de locução, transmissão,
inscrição e decodificação definidas pelas disponibilidades materiais e infraestruturais nas quais se inscreve a ação. Por essa razão, a autora sustenta que

�155

ações de informação tanto podem orientar-se à reprodução quanto à mudança
dos regimes de informação, direcionando o fluxo e distribuição de informação
entre sujeitos, áreas do conhecimento, atividades e regiões.

2.2 TIPOLOGIA DAS AÇÕES DE INFORMAÇÃO
González de Gómez (1999, p.19) denomina “forma de vida” ao complexo
de sujeitos e práticas informacionais e não informacionais, espaços sociais
onde sujeitos coletivos realizam práticas significativas e mais ou menos
duradouras. Conforme Geertz (1998), essas “formas de vida” organizam
vivências e interpretações intersubjetivas e nelas valores de informação serão
aceitos, nos processos de comunicação, inferência ou argumentação. Por sua
vez, Collins e Kush (1999) falam de “ações formativas” como aquelas que ao
fazerem sentido para um grupo social dão, ao mesmo tempo, a identidade e a
diferença

a

partir

das

quais

o

grupo

colocará

suas

demandas

de

reconhecimento na sociedade.
Nessa abordagem as instituições constituem variáveis com diversos
graus de valor, de modo que podem se estender de uma ação com um mínimo
de acordo entre os participantes até uma ordem instituída e formalizada, que
pode ser coercitiva e de pretensões totalizadoras em seu domínio de
intervenção. Nesse plano, os atores constituem e reconstituem continuamente
as instituições através de suas ações e decisões: a instituição social não é nem
fixa nem preestabelecida, mas em cada caso exerce algum tipo de “co-ação”
(ação cooperativa) no domínio de sua intervenção.
Considerando as formas de vida e as instituições como “conjuntos de
ações que se articulam”, Collins e Kush (1999, p.17) denominam esse
recíproco entrelaçamento de “ações formativas”: as formas de vida e as ações
formativas mantêm certas caraterísticas de autor-referencia e validação em
diferentes escalas de sua realização, o que as faria semelhantes a fractais:
Existe assim um elo entre formas de vida de maior extensão
(sociedades), formas de vida que compõem as sociedades (guerra,
esporte) e formas de vida menores (um esporte particular). E quando

�156
descermos na escala encontraremos que não falamos mais de formas de
vida, mas de ações que são tipicamente executadas dentro delas
(COLLINS; KUSH, 1999, p.17).

A abordagem dos autores tem como princípio ocupar
ocupar-se de tipos de
ações e não de ações singulares, estabel
estabelecendo
ecendo as diferenças entre ações
polimórficas e ações mimeomórficas
mimeomórficas:: “As ações polimórficas caracterizam-se
caracterizam
pelo fato de que envolvem uma variedade de comportamentos para executar a
mesma ação na mesma situação” (COLLINS; KUSH, 1999, p.19). Nesse
sentido, González de Gómez entende que práticas e atividades sociais de
informação são combinações híbridas de ações polimórficas e mimeomórficas,
que

podem

ser

vistas

tanto

em

sua

especificidade

quanto

em

sua

complexidade e articulação. De modo que as ações se com
compõem,
põem, articulam e
justapõem em “cascadas de ações” com diferentes possibilidades de interseção
e hibridação. Para a autora, do ponto de vista das ações de informação o
importante é conservar a relação entre ação coletiva e forma de vida, ou
comunidade de práticas
ráticas socioculturais, que “constituiriam o arcabouço social
dos processos seletivos e decisionais, tácitos ou implícitos, que levam a
constituição de um valor de informação pelos atores que agenciam as ações de
informação” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999, p.24)
p.24).. Nesse contexto, a autora
analisa a “ação de informação” como um conjunto de estratos heterogêneos e
articulados, que ocorrem de modo paralelo e simultâneo ao longo de todo o
desenvolvimento de uma atividade ou processo.
Figura 1 – Assimetrias e interfaces dos estratos das ações de informação

�157
Fonte: Adaptada de GONZÁLEZ DE GÓMEZ (2003a).

Conforme González de Gómezn (2003a) no domínio informacional
estamos imersos nas formações discursivas das comunidades de informação:
esse estrato é polimórfico e expressivo de todas as heterogeneidades e
singularidades dos sujeitos e dos seus “mundos de vida”. Aqui, as ações de
informação acontecem como ações narrativas, relacionadas às múltiplas
formas culturais de produção de sentido. O domínio metainformacional, de
estruturação regulatória, é aquele onde se estipula o domínio relacional ou
contexto dentro do qual algo apresenta ou representa um valor de informação.
Por sua vez, o domínio de infra-estruturas tecno-econômicas remete àquilo
que disponibiliza e deixa disponível um valor de informação como sua
mediação sócio-cultural.
A partir dessas considerações, a autora entende que práticas e atividades
sociais de informação são combinações híbridas de ações polimórficas e
mimeomórficas. Dessa forma, sistemas, redes e artefatos de informação
resultam da busca de um modo para equacionar as condições da base
tecnológica,

a

qual

reúne

componentes

operacionais

e

componentes

comportamentais mimeomórficos, que são de caráter genérico e com baixa
potência de singularização, com demandas e conteúdos culturais da máxima
plasticidade e polimorfismo. Nesse contexto, e tomando como apoio as
categorias de Collins e Kush (1999), González de Gómez (2003a) reconhece
três modalidades de manifestação de uma ação de informação, conforme o
contexto de sua constituição:


de mediação, quando a ação de informação fica atrelada aos fins e
orientação de uma outra ação;



formativa, quando a ação de informação é orientada à informação
não como meio, mas como sua finalização;



relacional, quando uma ação de informação tem como finalidade
intervir numa outra ação de informação, de modo que – ainda quando
de autonomia relativa – dela obtém a direção e fins.

A ação mediadora ocorre quando a informação enquanto tal faz parte de
uma ação de informação que intervém como mediação no contexto de outra

�158

ação social: o sujeito dessa ação de informação é um “sujeito funcional”, cujas
práticas e motivações serão definidas pelo contexto acional em que atua,
dentro das múltiplas atividades sociais e seu domínio de constituição é a
práxis. Quando a informação é constituída no contexto de uma ação
informacional formativa, inicia uma nova cadeia, ou domínio informacional a
partir

de

uma

manifestação

de

sujeitos

sociais

heurísticos

ou

“experimentadores”: trata-se de manifestação do domínio da poiesis. Para
González de Gómez (2003a) esta modalidade de ação de informação é gerada
por sujeitos transformadores dos modos culturais de agir e de fazer, nas artes,
na política, na ciência, na indústria e no trabalho.
Por sua vez, quando uma ação de informação tem como objeto de
referência ou de intervenção outra ação de informação, duplicando assim seu
espaço de realização e ampliando as formas da descrição, da facilitação, do
controle ou do monitoramento, pode-se chamá-la relacional. Estas são ações
realizadas por sujeitos articuladores que executariam, em grande parte, uma
forma de atividade que teria a maior expansão no mundo contemporâneo: o
trabalho relacional ou interativo. Esses sujeitos agem no domínio do “legein”,
da reunião e da articulação dos sujeitos e dos estratos.
As subjetividades constituídas nos modos da práxis, da poiesis e o legein
teriam, sobretudo, o caráter de figuras e possibilidades que estariam, em
princípio, ao alcance de todos os grupos sociais e indivíduos.
A fixação de papéis e de modalidades de ação de informação atende à
divisão social do trabalho, incluído o trabalho da cognição. Em síntese,
toda ação de informação tem uma orientação afim, mas só num caso
essa finalidade é a geração de informação como potência e competência
de transformação – nela mesma (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2003a, p.37).

A nosso ver, este é o caso do fenômeno informacional representado pelo
LTi, no qual se constitui um valor de informação no âmbito da forma de vida
acadêmica na área de Ciência da Informação, no regime de informação da
UFPB,

mediante

processos

de

proposição,

modelização,

aplicação

e

acompanhamento de ações para produção e comunicação colaborativas de
informação na Internet.

�159

3 O LTi COMO VALOR DE INFORMAÇÃO
Conforme González de Gómez (1999), definidas por seu papel relacional
num domínio de redes narrativas, sociais, técnicas e institucionais, a
informação e a ação de informação só podem vir a ser identificadas e definidas
no âmbito de uma cadeia de relações que tenha sua especificidade no contexto
social de sua constituição, no âmbito de uma dada forma de vida. Sua
ancoragem

nesse

contexto

dependerá,

contudo,

das

figuras

de

intersubjetividade que tecem os fios implicados nessas ações, a partir das
quais se estabelece se existe ou não um valor prático e factível nos elos da
cadeia de informação estabelecida entre os atores, no regime de informação.
Aplicando o modelo da autora ao LTi, observamos que é possível abordálo como um fenômeno informacional em curso no âmbito de uma forma de
vida social, corroborando a hipótese no que diz respeito à participação dos
atores sociais envolvidos na constituição desse “valor de informação”.
Enquanto fenômeno informacional, como não poderia deixar de ser, o LTi
ocorre mediante ações de informação desenvolvidas por sujeitos sociais,
individuais e organizacionais, que “articulam um valor preferencial de
informação atuando em um dado regime de informação em uma dada forma
de vida” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1999, p.3).
É nesse espaço social e cultural que atuam os sujeitos que compartilham
uma forma de vida ― no caso do LTi a forma de vida acadêmica, no âmbito da
comunidade da Ciência da Informação ― e onde se entrelaçam domínios,
estratos e modalidades das ações de informação desde seus aspectos
relacional e formativo, de coordenação, inovação, criação e aplicação de
modelos, ressaltando sua característica de mediação pela disponibilização de
artefatos e serviços de informação virtuais.

�160

Figura 2 – Dinâmica das ações de informação no LTi

Fonte: Elaborad
Elaborada pelos autores (2020).

Nesse contexto, as ações de mediação, formativas e relacionais integram
um mesmo campo de orientações estratégicas e, como consequência, “a
política e a gestão da informação formarão parte do mesmo plano decisional e
prospectivo ao qual pertence à política e a gestão da ciência e tecnologia”
(GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2003b, p.61). No caso do LT
LTi, foi possível propor uma
ação de informação no âmbito da política governamental de fomento à
pesquisa e desenvolvimento, por meio do Edital Universal do CNPq, para
promover a produção cooperativa dos participantes através de uma rede de
projetos. Nesse sentido,, as atividades acadêmicas desenvolvidas no LT
LTi podem
ser vistas como “ações de informação, as quais remetem aos atores que as
agenciam, aos contextos e situações em que acontecem e aos regimes de
informação em que se inscrevem”, como esclarece González de Gómez
(2003b, p.61) sobre o objeto de estudo da Ciência da Informação.
Nessa ambiência, e em conformidade com o modelo teórico
teórico-operativo
adotado, as ações da rede de projetos para disseminação, produção e
comunicação

da

informação

contribuem,

para

o

desen
desenvolvimento

de

habilidades de busca, recuperação, propagação e apropriação de informações

�161

relevantes por usuários na sociedade — quadro de referência em que se
fundamenta a proposta do LTi.
Na perspectiva do estrato semântico-pragmático de informação, trata-se
de projeto direcionado ao setor científico e tecnológico da produção social,
particularmente à comunidade científica e acadêmica e aos profissionais da
informação, cujos dispositivos e artefatos estão disponíveis na Internet. Nesse
sentido, o domínio polimórfico das ações expressa as “heterogeneidades e
singularidades dos [mundos de vida] dos sujeitos”, como esclarece González
de Gómez (2003a, p.34) em relação às características dos atores sociais
(produtores e usuários) no regime de informação da sociedade em rede. Sua
diversidade de formas de serviços e produtos de informação se expressa na
interface do LTi na Internet.
O estrato de infraestruturas tecnológicas de informação, no domínio de
intercessão entre ações formativas e ações mediadoras, é “definido na
indústria e nos mercados das tecnologias, das máquinas e dos produtos [...]
mediante ações tecnoeconômicas, normas técnicas, modelos” (GONZÁLEZ DE
GÓMEZ, 2003a, p.34). Essas ações dizem respeito à produção dos artefatos de
informação na rede de projetos do LTi, dos quais o portal virtual é o principal
representante. Assim, os resultados das ações formativas são compartilhados
com a sociedade através de ações de mediação desses objetos de informação
no Portal LTi e em mídias sociais virtuais como blog, Twitter, Instagram e
Facebook. As ações

formativas se

articulam, também, com as ações

relacionais, na medida em que relatos de experiência e de pesquisa são
compartilhados com a comunidade científica mediante comunicações em
eventos e publicação de artigos em periódicos.
Na perspectiva do estrato de meta-informação, as ações de informação
do LTi se inserem nos espaços institucionais do Estado (mediante as políticas
governamentais de fomento à Ciência e Tecnologia, a partir de editais públicos
para

projetos

de

pesquisa),

do

campo

científico

(na

produção

e

compartilhamento cooperativos da informação e conhecimento), da educação
formal (por estar vinculado a instituição de ensino superior), da legislação (por

�162

ter suas práticas orientadas por regulamentos) e dos contratos (mediante
termos de contratos concessão de recursos). É neste estrato regulatório que
[...] se estipula o domínio relacional [...] dentro do qual algo apresenta
ou representa um valor de informação [...] o contexto a partir do qual
aquilo que adquire caráter de informação pode desenvolver valores
cognitivos, constituir evidências probatórias, servir de apoio a decisão
ou ser insumo de ações instrumentais (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2003a,
p.35).

Este estrato é representado pelas atividades de pesquisas propriamente
ditas, cujos projetos concorrem a apoio institucional através de editais de
instituições de fomento à pesquisa científica e estão apoiadas em contratos de
alocação de recursos ou de programas específicos de apoio às atividades
acadêmicas na UFPB, em nível da graduação e pós-graduação. Este é o
domínio relacional onde as ações de informação do LTi assumem sua feição de
informação em si (mediação semântico-pragmática), criando, nesse processo,
evidências comprobatórias sobre pressupostos teóricos e procedimentos
metodológicos

da

pesquisa,

validando

seus

resultados

na

comunidade

ações

mediação

científica.
No

regime

de

informação

do

LTi as

de

estão

representadas pelas ações cooperativas para produção e compartilhamento de
artefatos, ou objetos relacionais, na interface virtual do projeto na Internet.
Essas ações estão atreladas às ações formativas para produção de artefatos,
em curso na graduação e pós-graduação, bem como às ações relacionais
representadas pela produção de dispositivos regulatórios e relatos de pesquisa.
As ações de mediação se articulam com as ações formativas para
desenvolvimento de projetos para promoção de habilidades em tecnologias
intelectuais digitais nos participantes e na comunidade acadêmica, em geral,
no âmbito dos quais são produzidos artefatos de informação compartilhados na
Internet através do Portal LTi, das mídias sociais e dos meios virtuais de
comunicação científica.

�163

Figura 3 – Rede de projetos: ações para comunicação

Fonte: Elaborad
Elaborada pelos autores (2020).

As ações de mediação se articulam com as ações formativas justamente
nesse espaço onde os estratos poli/mimeomórficos se encontram, no âmbito
do processo de produção de dispositivos e artefatos de informação. E,
também, se articulam com as ações relacionais,, na medida em que relatos de
pesquisa, modelos de gestão e de processos são compartilhados através de
meios virtuais de comunicação, propiciando oportunidades para discussão das
propostas de pesquisa e seus resultados com a comunidade científica. Da
articulação entre as ações de informação, na perspectiva da mediação,
resultam, dentre outros, os projetos de produção de tutoriais de tecnologias
intelectuais, de organização da informação em nuvem, de comunicação
científica e de edição de mídias sociais virtuais.
Enquanto representativas da forma d
de
e vida própria da comunidade
acadêmica, nas ações formativas destacam-se
se as atividades de formação
científica e treinamento profissional na ambiência dos cursos de bacharelado

�164

em Arquivologia e Biblioteconomia da UFPB e no PPGCI da UFPB e da UFBA, no
âmbito dos quais são criados e produzidos, cooperativamente, os artefatos e
dispositivos de informação compartilhados no Portal LTi.

Essas ações se

misturam às ações regulatórias ou relacionais quando se trata da produção de
relatos

de

pesquisa

―

observações, avaliações

e

análises

próprias

e

apropriadas sobre as ações em curso no regime de informação do LTi.
As ações relacionais, por sua vez, são representadas pela reflexão e
experimentação próprias das atividades de pesquisa desenvolvidas através da
rede de projetos, os quais buscam intervir em outras ações de informação no
regime de informação do LTi e, mesmo, no campo da Ciência da informação,
mediante compartilhamento de modelos de abordagem com a comunidade
científica. Nesse sentido, há uma forte interação com as ações formativas na
medida em que as atividades se inserem em uma forma de vida, são
decorrentes de dispositivos de informação aprovados pela comunidade (apoio
de

instituições

públicas

de

fomento

à

pesquisa,

relatos

de

pesquisa

comunicados em eventos e publicação de artigos em periódicos científicos), e
produzem

novos

dispositivos

e

artefatos

de

informação

amplamente

compartilhados na Internet.
Da articulação entre ações formativas, relacionais e de mediação
resultam projetos de formação para competências em tecnologias intelectuais
digitais de informação, de experimentação de modelos de políticas e gestão da
informação, e de proposição de dispositivos e artefatos de informação a partir
da experiência e do diálogo entre docentes e discentes. Na dinâmica das ações
relacionais, estas tanto se articulam separadamente com ações formativas e
de mediação, nas atividades de produção e compartilhamento de dispositivos e
artefatos de informação, como atuam conjuntamente para desenvolver um
contexto de abordagem dos problemas de informação na ambiência de um
dado regime de informação, urdindo uma trama onde os participantes da
pesquisa entretecem a rede conceitual para uma aplicação teórica no campo
da Ciência da Informação.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

�165

Nesse processo de pesquisa identificou atores sociais e ações de
informação no regime de informação do LTi, a saber: docentes e discentes da
Graduação em Arquivologia e Biblioteconomia da UFPB e da Pós-Graduação em
Ciência da Informação da UFPB e da UFBA desenvolvem ações formativas em
uma comunidade que compartilha práticas sociais, de caráter mediador,
mediante produtos e serviços disponíveis na web, e relacional, a partir das
reflexões e proposições resultantes da prática dos atores.
Os dispositivos são constituídos por documentos que legitimam a
implementação do Projeto LTi no campo científico, como editais, submissão de
projetos, termos de concessão, artigos científicos, comunicação em eventos e
trabalhos de conclusão de curso. Os artefatos, produzidos pelos atores no
curso das ações de informação, tais como tutoriais em tecnologias intelectuais,
coleções de vídeos de interesse para o ensino, biblioteca nas nuvens,
observatório bibliográfico, constituem produtos e serviços de acesso livre para
a comunidade de Ciência da Informação e para a sociedade.
Desse modo, é possível dizer que as ações de informação na rede de
projetos do regime de informação do LTi se caracterizam como um valor de
informação em si, produzido e direcionado para uma forma de vida constituída
“pelas interações duradouras de um grupo que partilha de atividades,
situações e experiências comuns” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ (1999, p.14),
definido como “comunidade acadêmica”. Representam, também, uma ação de
infraestrutura para mediação da informação, representada pela interface
virtual na rede internet, que se propõe facilitar a comunicação da informação
produzida cooperativamente pelos atores sociais; e uma

ação de meta-

informação, por se constituir também em objeto de pesquisa teórica, ademais
de seus aspectos de pesquisa aplicada, oferecendo, também oportunidades
para reflexão sobre as ações de informação em um dado regime de
informação, na perspectiva da emergência da inteligência coletiva.
Os indícios observados confirmam a proposição de González de Gómez
(1999) de que as ações de informação se iniciam e desenvolvem em um
regime de informação a partir de atores sociais, mediante dispositivos

�166

semântico-pragmáticos e estruturas organizacionais aceitos pela forma de vida
apoiados em tecnologias de informação e comunicação. Por sua vez, os
dispositivos são definidos no regime de informação da sociedade em rede, que
privilegia

a

forma

de

vida

acadêmica

como

modo

de

produção

de

conhecimentos científicos e tecnológicos mediante subvenções financeiras e
apoio institucional.
Com este modelo de abordagem, corroboramos González de Gómez
quando diz que é possível encontrar, no campo da Ciência da Informação,
recursos teóricos e tecnológicos que promovam a socialização da informação,
mediante apropriação e uso de tecnologias intelectuais de informação. E,
também, quando destaca que essa abordagem singulariza a Ciência da
Informação no campo das ciências que adotam a informação como objeto de
estudo, e a coloca em posição preferencial quando se trata de olhar processos
e domínios comunicacionais que têm sido, até agora, explicados à luz de
abordagens econômicas ou tecnológicas.

REFERÊNCIAS
BEARMAN, D.; SOCHATS, K. Metadata requirements for evidence.
Pittsburgh: University of Pittsburgh, 1996.
CASTELLS, M. O poder da comunicação. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra,
2015.
COLLINS, H. M.; KUSH, M. The shape of actions: what human and machine
can do. Cambridge Mass: MIT Press, 1999.
FREIRE, I. M. A rede de projetos do Núcleo Temático da Seca como
possibilidade de socialização da informação. Informação &amp; Sociedade:
Estudos, v. 14, n. 2, 2004.
FREIRE, I. M. O futuro é agora. Você S.A., São Paulo, v. 62, p. 58, 2003.
GEERTZ, C. O saber local. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
GONZÁLEZ DE GÓMEZ, M. N. As relações entre ciência, Estado e sociedade:
um domínio de visibilidade para as questões da informação. Ciência da
Informação, v. 32, n. 1, p. 60-76, 2003b.

�167

GONZÁLEZ DE GÓMEZ, M. N. Escopo e abrangência da Ciência da Informação
e a Pós-Graduação na área: anotações para uma reflexão. Transinformação,
v. 15, n. 1, p. 31-43, 2003a.
GONZÁLEZ DE GÓMEZ, M. N. O caráter seletivo das ações de informação.
Informare, v. 15, n. 2, p. 7-31, 1999.
WERSIG, G.; WINDELL, G. Information Science needs a theory of “Information
Action”. Social Science Information Studies, v. 5, p. 11-23, 1985.

DADOS BIOGRÁFICOS

Isa Maria Freire: Doutora e mestre em Ciência da Informação
pelo convênio entre o Instituto Brasileiro de Informação em
Ciência e Tecnologia e a Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Professora associada do Departamento de Ciência da
Informação e docente permanente no Programa de PósGraduação em Ciência da Informação da Universidade Federal
da Paraíba. Editora científica das revistas Informação&amp;
Sociedade: Estudos e Pesquisa Brasileira em Ciência da
Informação e Biblioteconomia. Coordena a rede de projetos do
Laboratório de Tecnologias Intelectuais. Líder do Grupo de
Pesquisa (CNPq) Informação e Inclusão Social. Bolsista de
Produtividade CNPq.
E-mail: isafreire@globo.com

Gustavo Henrique de Araújo Freire: Doutor e Mestre em
Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro, convênio com o Instituto Brasileiro de Informação em
Ciência e Tecnologia.Professor Associado do Departamento de
Biblioteconomia da Faculdade de Administração e Ciências
Contábeis da Universidade Federal do Rio de janeiro. Docente
Permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação da Universidade Federal da Paraíba. Docente
Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação do Instituto Brasileiro de Informação Científica e
Tecnológica convênio com a Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Editor Científico das revistas Informação &amp;
Sociedade: Estudos, Pesquisa Brasileira em Ciência da
Informação e Biblioteconomia e Revista Conhecimento em
Ação. Líder do Grupo de Pesquisa (CNPq) Comunicação,
Redes, Políticas de Informação. Bolsista de Produtividade
CNPq.
E-mail: ghafreire@gmail.com

�168

CAPÍTULO IX - Mediação e serviços de informação nas
bibliotecas à luz da fenomenologia: reflexões e
possibilidades
Jorge Santa Anna
Célia da Consolação Dias
Benildes Coura Maculan

1 INTRODUÇÃO
Com o desenvolvimento tecnológico e o valor que a informação vem
assumindo na sociedade contemporânea, observou-se que publicações com
abordagens científicas têm considerado a informação como um recurso
complexo, que assume diferentes características. No contexto específico da
Ciência da Informação, destacam-se, por exemplo, três definições clássicas,
cuja informação é definida como coisa, processo ou como conhecimento
(BUCKLAND, 1991).
De acordo com Buckland (1991), a informação como coisa é definida a
partir da presença de um suporte ou recurso tecnológico, ou seja, a
informação se manifesta em objetos, dados e documentos. Como processo, a
informação representa a mudança que promove na mente de uma pessoa, ao
entrar em contato com uma informação. Por sua vez, a informação é
conhecimento quando agrega valor ao comportamento desse sujeito.
Quando se relaciona essas definições com o trabalho desenvolvido nas
unidades de informação, sobretudo nas bibliotecas, é possível perceber, em
tese, que a primeira dimensão (informação como coisa) é a mais recorrente
(FIDELIS; SILVA, 2014). Isso porque os processos de trabalho comumente
realizados por bibliotecários permeiam as ações de organização de objetos
informacionais sistematizados em sistemas para recuperação da informação
por grupos específicos, ou seja, a informação como coisa é um “[...] elemento

�169

tangível, materializado, mensurável e tratável” (FIDELIS; SILVA, 2014, p.
329).
Considerar a informação como coisa pode restringir o trabalho do
bibliotecário à organização da informação registrada. É possível que esse limite
não atenda integralmente a complexidade de alguns aspectos do trabalho
bibliotecário, tal como o processo de referência, que se apresenta como
altamente dinâmico e complexo, como destacado por Timbó (2002).
Assim, ao atuar no campo da organização da informação, essa pode ser
uma

visão

muito

limitada

do

trabalho

bibliotecário,

sustentada

nos

fundamentos tradicionais da biblioteca, em uma concepção, tão somente,
técnica e operacional. A evolução da biblioteca, ao longo dos tempos,
promoveu

novos

olhares

ao

trabalho

realizado.

Como

organismo

em

crescimento (RANGANATHAN, 2009), a biblioteca ampliou sua dimensão,
sofrendo interferências do contexto onde está inserida, ampliando sua atenção
para além da organização e do acesso ao acervo, bem como o planejamento e
a criação de serviços de informação.
Como exemplo desta ampliação podem ser citadas as ações de
comunicação e difusão do conhecimento planejadas e implementadas pelas
bibliotecas junto a seu público. Isso quer dizer que o trabalho do bibliotecário
não termina com a indexação de um objeto em um conjunto de itens
organizados, mas continua ao criar formas de interação com a comunidade,
haja vista possibilitar um melhor aproveitamento do que está representado nos
sistemas de informação. Essa relação com o usuário, pensando na apropriação
e na satisfação, possibilita entender a conversão da informação de coisa a
processo.
A literatura até então produzida na área da Biblioteconomia e da Ciência
da Informação tem evidenciado que a biblioteca acompanha o ciclo da
informação22, não se limitando às atividades de organização do recurso

22

Neste texto, o ciclo da informação é caracterizado como o conjunto de atividades que
possibilitam a aquisição, tratamento e disseminação da informação em uma unidade
documentária, como as bibliotecas (DODEBEI, 2002), como também os processos de
construção, comunicação e uso da informação científica para fins possibilitar a tramitação do
conhecimento científico entre os especialistas (LE COADIC, 2004).

�170

informação

em

sua

forma

tangível

(FIDELIS;

SILVA,

2014;

STALEY;

MALENFANT, 2010). Fica clara essa constatação quando se estuda a biblioteca
como uma organização, sustentada por diferentes funções, conforme descrito
por Maciel e Mendonça (2006), ao citar as seguintes funções deste tipo de
unidade de informação: desenvolver, organizar e dinamizar coleções, bem
como gerenciar recursos.
A função de dinamizar coleções envolve um conjunto de atividades que
visam proporcionar a circulação dos materiais organizados e ampliar o uso dos
serviços oferecidos. É possível que, no contexto dessas atividades, o recurso
informação assuma uma dimensão mais ampla, desvinculada de um suporte,
em uma dinâmica que envolve a percepção das necessidades dos usuários e
dos recursos disponíveis, com auxílio humano ou não, para facilitar o uso e a
apropriação da informação. A informação é processo que favorecerá a sua
transformação em conhecimento a ser produzido pelos usuários, considerando
suas percepções e necessidades.
Nesse contexto, tal como destacado por Buckland (1991), a informação
estimula a produção de conhecimento, uma vez que é desvinculada do suporte
e assimilada pelo usuário, que fará uso, conforme suas necessidades. Assim,
as ações que se manifestam são muito mais complexas, pois envolvem
questões cognitivas e afetivas, portanto, carregadas de subjetividades, tanto
por parte de quem busca informação quanto por aquele que auxilia nessa
busca. Inserem-se, nesse âmbito, a mediação informacional. É importante
esclarecer que, para Almeida Júnior (2015), a mediação constitui o ato de
interferir realizado por um profissional que visa à apropriação por um sujeito
que tenha uma necessidade específica de informação.
As práticas de mediação têm possibilitado a evolução

do papel

desempenhado pelo bibliotecário que mudou sua atuação como guardião para
tornar-se mediador preocupado não só em facilitar as buscas dos usuários
como também, potencializar o papel/contribuição da biblioteca na vida das

�171

pessoas e da sociedade. Destaca-se que, a mediação nas bibliotecas tem sido
mais reconhecida por profissionais da informação no âmbito do serviço de
referência, mediante as ações de atendimento aos usuários no balcão de
referência ou em outros canais de comunicação ajudando no uso dos recursos
e serviços disponíveis.
O conjunto de atividades bibliotecárias que possibilita a prática da
referência não representa um fazer isolado. Portanto, para que a mediação
ocorra de fato e contribua com a satisfação do usuário, faz-se necessário
compreender a dinâmica da biblioteca e as demais funções desempenhadas
pelas diferentes equipes de bibliotecários, contemplando os serviços oferecidos
e as atividades realizadas pelos setores de trabalho, seja no desenvolvimento,
no tratamento ou na dinamização das coleções em uma mesma unidade de
informação.
Entende-se que a mediação demandada pelo serviço de referência requer
a compreensão e a interação com as práticas de produção, organização,
disseminação, uso e apropriação da informação, o que estimula maior
envolvimento e interação entre os bibliotecários e demais profissionais que
atuam na biblioteca.
A dinâmica informacional da biblioteca, portanto, é complexa, ou seja,
envolve questões técnicas, cognitivas e afetivas. No caso da interação firmada
na entrevista de referência, é preciso entender o contexto de vida do sujeito,
exigindo do bibliotecário uma compreensão, também, psicológica, como
discorrido no estudo de Timbó (2002). Considerando que a maioria dos
estudos desenvolvidos no Brasil tem uma concepção mais empírica do que
teórica, faz-se necessária a reflexão sobre novas metodologias ou teorias que
melhor fundamentem os processos de trabalho realizados nas bibliotecas.
Nota-se que os estudos publicados na literatura abordam propostas de
ações para gestão das práticas bibliotecárias, muitas dessas práticas estudadas
de modo isolado, sem considerar a dinâmica do ciclo da informação. Essa
percepção origina-se a partir de estudos publicados na literatura que
demonstram a necessidade de ampliação do fazer bibliotecário e a capacidade
da biblioteca em oferecer serviços inovadores, mais dinâmicos e voltados às

�172

necessidades e tendências da sociedade contemporânea (MELO; SCARVADA;
ALMEIDA, 2015; SANTA ANNA, 2016). Assim, questiona-se acerca das bases
teóricas que sustentam essas práticas e como elas podem ser compreendidas,
haja vista facilitar o alcance de resultados mais objetivos quanto aos estudos
práticos a serem realizados.
O presente texto tem a pretensão de trazer à tona os fundamentos
teóricos que podem subsidiar os estudos aplicados sobre as práticas realizadas
por bibliotecários, sobretudo nas bibliotecas universitárias, em especial no que
se refere à prática da mediação informacional no âmbito dos serviços de
informação oferecidos no contexto atual. O objetivo é discutir sobre a
contribuição da fenomenologia, considerando-a não como método de pesquisa,
mas como corrente teórica que possa dar suporte às possibilidades de
aplicação

dos

métodos

de

pesquisa

empíricos,

direcionados

ao

aperfeiçoamento dos serviços oferecidos pelas bibliotecas contemporâneas.
A escolha por essa temática se justifica considerando a escassez de
estudos teóricos que forneçam bases epistemológicas e metodológicas para
melhor compreensão do fenômeno informação no contexto das bibliotecas.
Mesmo tendo impacto positivo nos estudos desenvolvidos nas áreas de
Ciências Sociais e Humanidades, em especial por desvelar a realidade das
instituições a partir das necessidades da sociedade (BOAVA; MACEDO, 2011),
a fenomenologia não tem sido utilizada com frequência nos estudos da
Biblioteconomia e da Ciência da Informação. Por isso, neste capítulo, é
apresentada a interligação entre os processos de trabalho realizados nas
bibliotecas em comparação com as três definições atribuídas ao recurso
informacional (coisa, processo e conhecimento).
Com efeito, ao integrar os processos de trabalho, demonstram-se os
fundamentos da fenomenologia e as possíveis contribuições que ela poderá
oferecer, haja vista garantir a formulação de técnicas e métodos de pesquisa
empírica que possibilitem resultados mais consistentes para melhoria do que
pode ser oferecido pelas bibliotecas da sociedade contemporânea. Ressalta-se,
também, que este texto é fragmento do capítulo do referencial teórico

�173

desenvolvido em pesquisa de Doutorado23, em andamento, cujo objeto de
análise

é

a

gestão

do

serviço

de

referência

digital

em

bibliotecas

universitárias.

2 MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E OS PROCESSOS DE TRABALHO NAS
BIBLIOTECAS
A informação pode ser considerada o objeto de estudo da Ciência da
Informação, embora essa afirmação ainda não esteja consolidada na literatura,
sobretudo pelas dificuldades em definir e caracterizar esse objeto, que pode
assumir diferentes aspectos, dimensões e aplicações (SARACEVIC, 1996). Para
todos os efeitos, ao analisar a informação como recurso que se transforma em
um contínuo ciclo de atividades, é possível identificá-la na forma tangível
(informação como coisa) ou intangível (informação como processo ou
conhecimento) (BUCKLAND, 1991).
Como coisa, a informação se caracteriza quando materializada em um
suporte e requer a adoção de processos de organização para torná-la
disponível em um sistema de recuperação da informação apta para ser
efetivamente recuperada. Como processo e conhecimento, a informação tornase um recurso abstrato, uma vez que compreende ações voltadas ao uso e
agregação de valor, algo que vai muito além da representação, permeado por
questões individuais, cognitivas e subjetivas (BUCKLAND, 1991).
Segundo Le Coadic (2004), a informação como objeto de estudo precisa
ser delimitada em um ciclo que se retroalimenta, cujos processos de trabalho
envolvem as atividades realizadas em unidades e sistemas de informação, e o
trabalho requer a participação de profissionais de diferentes áreas do saber. Ao
tratar da informação científica, o autor identifica três grupos que congregam
atividades diversas que são: produção/organização, comunicação e uso.

23

Tese vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do Conhecimento,
Escola de Ciência da Informação, Universidade Federal de Minas Gerais, com recursos
subsidiados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

�174

A produção/organização diz respeito às atividades que possibilitam a
identificação da informação incorporada a um suporte tecnológico, capaz de
ser tratada para fins de armazenamento. Com o fim de satisfazer uma
necessidade, a informação produzida precisa ser desmaterializada, a fim de ser
comunicada e utilizada (LE COADIC, 2004), o que requer a definição de
estratégias que coloquem em sintonia quem organiza os sistemas de
informação e os que utilizam os sistemas infocomunicacionais24 (MCGARRY,
1999).
Analisando os processos de organização, comunicação e uso no contexto
de uma unidade de informação, como arquivos e bibliotecas, por exemplo, Le
Coadic (2004) ensina que entre a produção, comunicação e uso da informação
manifestam-se atividades de mediação, necessárias para garantir o uso dos
acervos às necessidades da comunidade usuária. Assim, a mediação pode ser
entendida como um processo amplo, que permeia diversas atividades
realizadas em diferentes setores da biblioteca e que tem como foco satisfazer
uma determinada necessidade de informação. Neste sentido, a mediação é
entendida como:
[...] toda ação de interferência – realizada em um processo, por um
profissional da informação e na ambiência de equipamentos
informacionais - direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular
ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação
que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma
necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades
informacionais (ALMEIDA JÚNIOR, 2015, p. 25).

Pelo conceito proposto por Almeida Júnior (2015), percebe-se que a
mediação tem um objetivo fim, que é a apropriação da informação, cuja
necessidade pode não ser sanada integralmente. Para isso, manifesta-se a
ação de interferência que possa garantir, de alguma forma, o acesso à
informação, independente se a interferência ocorra junto ao usuário ou nas
atividades de organização.

24

Refere-se aos sistemas ou práticas que visam mesclar informação e comunicação, ou seja,
ações voltadas à tentativa de disseminar a informação, por meio dos canais de comunicação
disponibilizados na sociedade (MCGARRY, 1999).

�175

Portanto, nas atividades de organização, a informação é considerada um
recurso tangível

que pode ser representado, por meio de linguagens

documentárias, que gerarão os registros da representação temática da
informação, considerados como miniaturas dos objetos informacionais e que
tornarão

passíveis

de

recuperação

quando

inseridos

nos

sistemas

de

informação (NOVELLINO, 1996). Após a implementação dos processos de
organização da informação, faz-se necessário oferecer serviços personalizados
que atendam as necessidades dos usuários nas buscas por informação, com
destaque a presença de profissional especializado para acolher e, dessa
maneira, possibilitar a prática do serviço de referência (GROGAN, 1995).
É no serviço de referência que as ações de comunicação se manifestam
de forma explícita, sobretudo a partir da interação firmada entre o bibliotecário
e o usuário. No entanto, sob um enfoque amplo, os serviços de informação
correspondem à somatória de ações que se desenvolvem de modo integrado e
em

perfeita

harmonia,

para

garantir

o

atendimento

das

necessidades

informacionais da comunidade (ALVES; VIDOTTI, 2006).
Nesse processo amplo, integrado e sistêmico, tem-se a promoção dos
serviços, ou seja, a concretude do uso da biblioteca e dos recursos
disponibilizados, de modo que a unidade cumpra seu papel de agregação de
valor para diferentes públicos e para o desenvolvimento da sociedade. A
promoção do uso da informação está relacionada à mudança social ou
organizacional e à capacidade de os bibliotecários “[...] interpretarem as
implicações de tais mudanças e converter este conhecimento em benefício de
alguém” (FIGUEIREDO, 1987, p. 78).
Ao considerar a biblioteca como um sistema integrado e em constante
crescimento, as atividades realizadas pelas equipes possibilitam identificar
processos de trabalho diluídos entre a organização, comunicação e uso da
informação. Nesses processos, é possível identificar atividades específicas
realizadas por bibliotecários e a dimensão assumida pela informação, como se
observa no quadro 1.

�176
Quadro 1 – Processos de trabalho, atividades bibliotecárias e dimensão informacional
Processo de trabalho
Algumas atividades
Informação como:
Organização/Produção
- Aquisição de materiais
Coisa
- Descarte de materiais
- Catalogação e indexação
- Restauração
Comunicação/Disseminação - Gestão dos catálogos e bases de dados
Processo
- Atendimento personalizado
- Aplicação de treinamentos
Uso/Promoção
- Competência informacional
Conhecimento
- Marketing informacional
- Estudos de satisfação/avaliação
Fonte: Elaborado pelos proponentes (2020).

Os processos de trabalho descritos no quadro 1 indicam o ciclo da
informação manifestado no interior da biblioteca ou fora dela (DODEBEI, 2002;
LE COADIC, 2004). As atividades vinculadas ao processo de organização dizem
respeito

ao

trabalho

de

tratamento

dos

acervos

(FIGUEIREDO,

1987;

NOVELLINO, 1996); no processo de comunicação, intensificam-se as atividades
de atendimento e interação com usuários (FIGUEIREDO, 1987; GROGAN,
1995); por fim, no processo de uso, os serviços são disseminados, haja vista
torná-los mais acessíveis (ALVES; VIDOTTI, 2006; GROGAN, 1995).
As diferentes abordagens que a informação assume, os processos de
trabalhos e as atividades em uma biblioteca evidenciam a necessidade de
integração entre as equipes de trabalho, haja vista garantir a atribuição de
valor que o usuário final concederá ao que lhe é oferecido, conforme discorrido
por Prado (2013). Para esse autor,
informação pressupõe a capacidade de interação entre o sujeito e um
determinado objeto fluído. Para eficácia deste processo a condição do
sujeito é determinante a fim de incorrer as habilidades pessoais de
contextualização, interpretação, assimilação, compreensão e tradução
dos códigos emitidos. A originalidade é fundamental para que se
concretizem os meandros da mensagem como informação (PRADO,
2013, p. 8-9).

A visão de todo da biblioteca (visão sistêmica, integrando todos os
setores e equipes de trabalho) permite constatar a integração do que é
realizado pelas equipes de trabalho em diferentes setores, cujo propósito
dessas atividades é o mesmo, qual seja: garantir o uso e a promoção dos
serviços informacionais. As atividades realizadas possibilitam identificar a
presença do recurso informação, em suas múltiplas abordagens, seja como

�177

coisa, processo ou conhecimento, e tais atividades podem ser agrupadas nos
processos de organização e comunicação que visem o uso da informação pelos
usuários.
Importante destacar que o ciclo da informação, sob um enfoque interno
à biblioteca, é compreendido como o trajeto assumido pela informação
materializada em um suporte (informação registrada). Nesse caminho, são
estabelecidos códigos regidos por uma linguagem artificial e também canais de
contato com os usuários, possibilitando a recuperação e o uso da informação
(DODEBEI, 2002). Em um contexto externo à biblioteca, considerando o valor
científico da informação, o ciclo da informação inicia-se com o processo de
produção, perpassando pela comunicação até chegar ao uso da informação,
haja vista a agregação de valor na vida dos sujeitos que utilizam a informação
para diferentes necessidades (LE COADIC, 2004).
Mesmo que os processos de trabalho desenvolvam-se no formato de
ciclo, é possível que as práticas de mediação estejam direcionadas a cada
processo em si. Desse modo, pode-se manifestar a mediação explícita (com
presença do usuário) ou mediação implícita (sem a presença desse sujeito)
(ALMEIDA JÚNIOR, 2015). Assim, apresenta-se a figura 1, que ilustra as ações
de mediação presentes nos processos de trabalho das bibliotecas, em uma
abordagem processual, que se desenvolve no formato de fluxo.
Figura 1 – Ações de mediação nos processos de trabalho da biblioteca

Fonte: Elaborado pelos proponentes (2020).

Conforme demonstrado na figura 1, nota-se que a mediação se faz
presente em todas as atividades, realizadas de forma direta ou indireta,

�178

explícita ou implícita. A mediação é a interferência que possibilita a
apropriação (ALMEIDA JÚNIOR, 2015). Especificamente, quanto ao serviço de
referência, ele também assume uma dimensão abrangente, acompanhando as
práticas de mediação; no entanto, a manifestação mais intensa desse serviço
está entre os processos de comunicação e uso da informação, com destaque à
interação direta firmada entre profissional e usuário, haja vista as etapas
necessárias para garantir a satisfação da necessidade informacional (GROGAN,
1995),

embora,

conforme

discorrido

por

Almeida

Júnior

(2015),

essa

necessidade pode não ser integralmente satisfeita.
Também é possível inferir a partir da figura 1 que, na comunicação e
uso, estão presentes bibliotecários e usuários em constante interação, ao
passo que na organização, as atividades desenvolvem-se sem a interação da
comunidade. Essa evidência é uma característica muito peculiar do serviço de
referência, ou seja, em sentido estrito, o serviço de referência irá englobar,
normalmente, orientação, auxílio e pesquisa de informação, adquirindo, nesse
processo, um viés pedagógico oriundo da interação estabelecida entre os dois
sujeitos (ACCART, 2012).
A dimensão educativa do serviço de referência - embora essa não tenha
sido a essência inicial do serviço de referência - tem evoluído, a ponto de
reforçar o potencial do uso da informação para benefícios dos usuários,
sobretudo na atividade de pesquisa. A esse respeito, Figueiredo (1992) e
Shera (1966) assinalaram acerca da função educativa que o serviço assume e
a responsabilidade exercida pelo bibliotecário, ao realizar um trabalho de
fundamentação para as pesquisas científicas. Por conseguinte, é possível que
essa concepção educativa também tenha se estendido à prática da mediação,
o

que

demonstra

a

intensa

relação/aproximação

entre

os

elementos:

informação, comunicação e educação.
A visão sistêmica da biblioteca é a opção mais adequada para melhor
compreensão acerca do funcionamento dos processos de trabalho, os pontos
de aproximação e distanciamento entre as práticas bibliotecárias e, por
conseguinte,

estabelecer

os

princípios

que

regem

essas

práticas

(RANGANATHAN, 2009). Prado (2013) também comunga dessa ideia ao

�179

lembrar que o reconhecimento da dinâmica informacional é muito importante,
pois poderá determinar os fundamentos teóricos e metodológicos, em prol do
aprimoramento das práticas profissionais para melhor aproveitamento da
informação na sociedade.
Prado (2013, p. 1) reforça a importância da Filosofia para a evolução de
qualquer área de conhecimento, não fugindo a essa regra, a Ciência da
Informação. Reflete ainda que a Filosofia é a mãe de todas as ciências e, por
isso, “[...] nenhuma pretensão científica pode ser completa sem estar
ancorada em algum fundamento cuja estrutura ao menos permeie algum
princípio da filosofia [...]”. Com efeito, a amplitude das práticas de mediação
nas bibliotecas - considerando-se a integração entre os processos de trabalho
e a dimensão que a informação assume - pode ser compreendida a partir de
fundamentos teóricos apresentados por correntes filosóficas, como, por
exemplo, a fenomenologia que estuda os fenômenos e seus significados.

3 FENOMENOLOGIA: ARCABOUÇO TEÓRICO PARA OS ESTUDOS DAS
PRÁTICAS DE MEDIAÇÃO NAS BIBLIOTECAS
A fenomenologia originou-se no século XX, a partir da argumentação
filosófica proposta por Edmund Husserl (1859-1938), formulada como um novo
paradigma científico capaz de superar o tecnicismo exacerbado proposto pelo
psicologismo, cujas normas são consideradas como verdades lógicas que
possibilitam generalizar interpretações da experiência. Até esse século, o
fundamento da ciência estava pautado em uma concepção positivista suficiente
para gerar o pensamento certo e inquestionável, resultado da objetividade dos
fatos e da vivência empírica (ZILLES, 2007).
Ao criticar o psicologismo, a fenomenologia assume uma postura de
teoria como de método (MARTINEZ; SILVA, 2014), em especial quando amplia
as possibilidades de interpretação de uma realidade, conforme a essência dos
fenômenos existentes. Na concepção fenomenológica, torna-se possível “[...]
analisar a propriedade dos atos de pensar, perceber etc., a partir do seu

�180

conteúdo de sentido, ou seja, do pensado e percebido [...]” (ZILLES, 2007, p.
217).
É nesse aspecto que a concepção husserliana manifesta-se como ruptura
às ideias até então aceitas para embasar os estudos realizados no âmbito das
Ciências Sociais e Humanas. Como corrente filosófica que fomenta o aporte
teórico das investigações, a fenomenologia se preocupa com as essências, ou
seja,

a

realidade

é

estudada

como

ela

mesma

se

apresenta,

independentemente dos resultados oriundos dos experimentos e aplicações.
Portanto, “[...] o interesse teórico da atitude fenomenológica dirige-se
exclusivamente ao universo da subjetividade no qual se nos dá o mundo como
existente” (HUSSERL, 2002, p. 33).
Como estudos dos fenômenos, considerando a essência como eles se
apresentam

em

um

determinado

contexto,

situação

ou

realidade,

o

pensamento husserliano tenta compreender o homem a partir da factualidade,
ou seja, uma abordagem mais coerente e contextualizada ao que se apresenta
ao pesquisador. A fenomenologia se embasa na consciência dos fatos e dos
objetos,

convergindo

objetivismo

e

subjetivismo

e

refuta

a

visão

da

consciência do ponto de vista do espírito (alma). Nesse sentido, a consciência
é resultado da somatória dos atos humanos, formados pela percepção,
imaginação, especulação, volição, paixão, dentre outros (HUSSERL, 1965).
Por meio do estudo da essência dos fatos, dos objetos e das coisas, a
aplicação dessa corrente teórica possibilita se alcançar resultados mais
concretos, robustos e substanciais. Isso ocorre porque a realidade é analisada
como se apresenta, como os sujeitos se expressam, criticam e se comportam
sobre uma dada situação. Com o uso deste aporte teórico, evita-se forjar
hipóteses e ocultar insumos que poderiam gerar novos conhecimentos e
explicações. O pensamento fenomenológico, portanto, é resultado de uma
análise genérica, que combina diferentes fatores na garantia de resultados
mais consistentes e descritivos (LYOTARD, 2008).
Ao

abordar

os

fenômenos

como

eles

se

apresentam

(essência),

considerando-os como reflexo de uma realidade sistêmica e não isolada
(factualidade), a corrente fenomenológica apresenta-se com uma característica

�181

descritiva, conforme mencionado na obra de Carmo (2000). Para esse autor,
não é tarefa principal da fenomenologia explicar os fatos, mas descrevê-los,
visto que a tentativa de os explicar poderia comprometer a essência. Com
efeito, “[...] explicar é um ato artificial, enquanto descrever supõe abordar o
fenômeno da perspectiva do homem que o vivencia tal como ele se apresenta
à consciência” (CARMO, 2000, p. 22).
Husserl (1988) define a fenomenologia como ciência ou teoria das
vivências, visto que a vivência é permeada por fenômenos dos mais variados,
em constante movimentação, que possibilitam uma dinâmica integrada, em
um sistema que se complementa infinitamente. Nesse emaranhado de
fenômenos, devem ser considerados não apenas os de cunho geral, mas
também os dados genuínos e os intencionais, os quais são descritos a partir da
percepção do todo, considerando as vivências e as práticas do cotidiano, sendo
elas complementares e não excludentes.
A fenomenologia, em sua concepção teórica, adverte para a neutralidade
do pesquisador, pois contrariar isso seria negar ou comprometer a essência,
assim como tentar explicar os fatos e não os descrever, conforme apresentado
por Carmo (2000). Tanto em relação à teoria quanto ao método, a concepção
fenomenológica visa à essência, e, como tal, não exclui as possibilidades, o
que a torna mais adequada para aprofundar os conhecimentos, sobretudo no
âmbito das vivências organizacionais (BOAVA; MACEDO, 2011).
[...] A fenomenologia não é a portadora da razão inequívoca (pelo
contrário, ela mesma constitui-se num emaranhado de contradições).
Ela representa, antes de tudo, um método de acesso ao conhecimento
peculiar. Em outros termos, um modo diferente de compreender os
significados esquecidos, ocultos e nebulosos. Uma possibilidade.
Possibilidade de se atingir o núcleo do que se pesquisa, a essência
(BOAVA; MACEDO, 2011, p. 485).

Embora a essência seja uma das principais características dos estudos
fenomenológicos, há de se considerar outros aspectos dessa importante teoria
e metodologia, sobretudo para o desenvolvimento dos estudos nas áreas de
humanidades.

Abbagnano

(1993)

centrou-se

nos

aspectos

teóricos

da

fenomenologia, considerando suas peculiaridades, a partir de fundamentos
filosóficos suficientes para consolidar a cientificidade da corrente teórica. O

�182

autor mencionou cinco características inerentes à abordagem fenomenológica,
conforme indicado no quadro 2.
Quadro 2 – As
Característica
Ciência
da
contemplação e do
rigor
Ciência da intuição

Ciência
subjetividade
Ciência
princípios

da
dos

Ciência
da
impessoalidade

características da fenomenologia a partir de uma concepção filosófica
Descrição
A fenomenologia está embasada em fundamentos absolutos, descritivos,
objetivos e factuais
Tem como base extrair a essência, a partir da razão e como as coisas se
apresentam à percepção. Considera o caráter apofântico (qualquer
enunciado que pode ser considerado verdadeiro ou falso) da razão
(levando em conta a possibilidade de qualquer enunciado ser considerado
verdadeiro ou falso, em função de descrever corretamente, ou não, o
mundo real)
Valoriza o eu como sujeito de todas as intencionalidades constitutivas
Está embasada na consciência de como as coisas se manifestam na
realidade, considerando os possíveis modos como as coisas podem ser
constituídas em um determinado contexto
Significa a ausência de parcialidade, ou seja, os sujeitos não têm
necessidade de prudência, mas de dotes teoréticos
Fonte: Adaptado de Abbagnano (1993).

Por meio da análise do quadro 2, percebeu-se que a fenomenologia,
tanto em sua concepção de corrente teórica ou de metodologia, tem seus
fundamentos na Filosofia, apresentando-se com características rigorosas e
complexas capazes de reforçar sua característica científica. A esse respeito,
Boemer (1994) destaca que a fenomenologia visa questionar e não meramente
formular e responder problemas, o que reforça a aproximação dela com a
Filosofia.

A

fenomenologia

tenta

compreender

a

realidade,

propondo

questionamentos ao que lhe é imposto pelas essências dos fatos (BOEMER,
1994).
Os estudos de Husserl (1965), embora não tenham tido grande
repercussão ao serem formulados, foram ganhando destaque no final do século
XX, sobretudo com o surgimento de novos métodos de pesquisa voltados ao
subjetivismo. Desse modo, a riqueza do que é proposto pela fenomenologia
despertou novos desdobramentos teóricos e metodológicos, a partir de
diferentes seguidores dessa abordagem, o que fez nascer a fenomenologia
realista, constitutiva, existencial, social, dentre outras (ABBAGNANO, 1993;
BOAVA; MACEDO, 2011; BOEMER, 1994; PRADO, 2013).
Em

linhas

gerais,

essas

diferentes

abordagens

correspondem

a

adaptações da proposta de Husserl para diferentes campos de investigação ou

�183

aplicações a variadas áreas de conhecimento. No âmbito da Ciência da
Informação, é coerente que o pensamento fenomenológico encontra terreno
fértil, principalmente, quando se analisam as diferentes formas com que se
manifesta a informação e o tratamento e uso dela, ao ser inserida em sistemas
ou unidades de informação. Nesse contexto, há uma abertura do ser humano
“[...] para entender a vivência a partir do outro, isto é: a adoção do viés
fenomenológico é um debruçar-se sobre o vivido dos sujeitos efetuando uma
reflexão sobre as coisas tal como elas se manifestam no mundo da vida [...]”
(LOUREIRO et al., 2011, p. 147).
Assim, a fenomenologia pode contribuir ao fornecer as bases teóricas
quanto às pesquisas empíricas desenvolvidas no campo da comunicação
(MARTINEZ; SILVA, 2014), nos estudos organizacionais (BOAVA; MACEDO,
2011), nas pesquisas da Ciência da Informação (LIMA, 2018; LOUREIRO et al.,
2011; PRADO, 2013), dentre outras áreas. Na Ciência da Informação, Lima
(2018) destaca o uso mais adequado da abordagem social da fenomenologia,
considerando que a informação é objeto de estudo e que o uso desse recurso é
estudado a partir das percepções dos usuários, considerando diversos fatores
que permeiam o contexto da unidade ou sistema de informação. Logo, “[...]
toda a interpretação que o indivíduo exerce tem como fundamento um mundo
compartilhado com outros, já construído, organizado e significativo [...]”
(LIMA, 2018, p. 59).
Isso leva a crer que o indivíduo como elemento do fenômeno estudado
no sistema ou unidade de informação não pode ser visto como ser isolado ou
descontextualizado de uma realidade. Ao contrário, o sujeito é parte integrante
do sistema, e seu ponto de vista é condição sine qua non para garantir o
entendimento de como o fenômeno se apresenta e, por conseguinte, como se
pode formular propostas de ação para melhoria do contexto em que esse
indivíduo exerce suas atividades (GANDRA; DUARTE, 2012).
Nos diferentes campos ou segmentos de investigação pertencentes à
área da Ciência da Informação, tanto os estudos desenvolvidos por Gandra e
Duarte (2012) quanto os de Lima (2018) advertem acerca da importância da
reflexão husserliana para os estudos de uso da informação: aqueles foram

�184

realizados no âmbito do processo de busca de informação por usuários; já
esses

foram

direcionados

aos

bibliotecários

que oferecem

serviços

de

informação, com destaque ao atendimento e à interação firmados pelo
profissional junto ao usuário no momento da busca. Segundo Lima (2018), é
indissociável o viés fenomenológico para melhor entendimento do perfil e da
atuação dos bibliotecários que interagem com usuários que usam serviços das
bibliotecas. Assim, ao relatar o perfil dos bibliotecários de referência, o estudo
considerou, no âmbito da fenomenologia social, que
[...] o mundo é dado ao sujeito que faz suas interpretações de acordo
com o legado dos seus antecessores, transmitidas pelos pais,
professores, entre outros. A leitura que o sujeito tem da realidade o faz
agir de modo natural e com suas interpretações, as quais Schutz
denomina de atitude natural, ou seja, a forma como ele se relaciona no
mundo da vida (LIMA, 2018, p. 59).

Nota-se que o bibliotecário, mesmo não sendo sujeito central de estudo
na pesquisa de Gandra e Duarte (2012), acaba sendo elemento de análise,
considerando as diversas variáveis que precisam ser compreendidas, a fim de
melhorar o entendimento acerca deste ator estudado em sua essência.
Portanto, a abordagem fenomenológica delimitada nos estudos de uso da
informação perpassa por três elementos, que são: a relação entre usuário e
profissional da informação; o entendimento do julgamento de relevância do
usuário; e a recepção do texto pelos usuários, a partir da percepção e
experiência (GANDRA; DUARTE, 2012).
Considerando a amplitude do ciclo informacional presente em um
sistema ou unidade de informação, a partir dos processos de organização,
comunicação e uso, é possível que uma abordagem fenomenológica possa ser
estendida a esses três processos, não se limitando, apenas, ao uso, conforme
mencionado nos estudos de Gandra e Duarte (2012) e Lima (2018). A
interdependência das atividades que sustentam esses processos possibilita
uma análise mais ampla e profunda, a fim de reconhecer a informação como
um fenômeno, independente de sua manifestação (como coisa, processo ou
conhecimento). Logo, os serviços oferecidos recebem interferências desse
contexto, e a atuação/percepção dos bibliotecários serão reconhecidas em
essência, quando as interpretações forem realizadas de modo contextualizado,

�185

acarretando, portanto, uma visão processual das práticas de mediação e de
todo o fazer exercido pelo bibliotecário. A figura 2 apresenta a visão processual
do fenômeno informação no âmbito das bibliotecas.
Figura 2 – A dinâmica da biblioteca sob uma perspectiva fenomenológica

Fonte: Elaborada pelos proponentes (2020).

A figura 2 apresenta que a biblioteca, ao ser analisada sob uma
perspectiva fenomenológica, possibilita identificar o ciclo da informação como
fio condutor presente em todas as atividades realizadas pelos bibliotecários. De
acordo com Le Coadic (2004), o ciclo da informação constitui a essência dos
serviços informacionais, os quais interagem de modo recíproco, recebem
interferências de elementos internos e externos e, por fim, são estruturados
com base nos perfis da comunidade a ser servida.
Com tudo isso, ressalta-se que investigar os serviços de informação,
sujeitos às variáveis presentes tanto no ambiente interno quanto no ambiente
externo e que representam a essência dos fenômenos atrelados às práticas de
informação pode revelar elementos para a compreensão da implantação e da
gestão dos serviços nas bibliotecas. Neste sentido, podem ser consideradas a
abordagem fenomenológica e a estruturação dos serviços de informação em
bibliotecas, conforme explorado no estudo de Khobragade e Lihitkar (2016).
Conforme apontado na figura 2, é possível identificar os seguintes elementos
que permeiam as bibliotecas a partir da filosofia husserliana, a saber:


Coisa-Processo-Conhecimento:

são

as

possíveis

manifestações

assumidas pela informação no decorrer de sua transformação em um
contexto social (BUCKLAND, 1991);

�186


Organização-Comunicação-Uso:

representam

o

conjunto

de

atividades acopladas em processos de trabalho que acompanham o
ciclo/fluxo da informação, desde sua origem à sua apropriação (LE
COADIC, 2004);


Tecnologias-Bibliotecários-Usuários: são os elementos constitutivos
que alimentam a dinâmica do fenômeno informacional na biblioteca. Diz
respeito aos personagens necessários para estruturação dos serviços de
informação

que

condicionam

possibilidades

de

usos

diversos

(KHOBRAGADE; LIHITKAR, 2016).
Perceber

a

biblioteca

na

visão

sistêmica

e

em

sintonia

com

a

complexidade que a informação assume à medida que se transforma é
essencial para compreender como a fenomenologia pode surtir efeitos nas
pesquisas empíricas. Esse entendimento contribui para fomentar estudos em
diferentes segmentos no âmbito da Ciência da Informação (FIGUEIREDO,
2012; PRADO, 2013), considerando a informação como recurso mutável, que
se transforma à medida que recebe ações de interferência e de apropriação
(ALMEIDA JÚNIOR, 2015).
Na abordagem fenomenológica direcionada aos estudos da informação,
os sentidos do ser e do fenômeno são indissociáveis (LOUREIRO et al., 2011).
Para tanto, os métodos adotados ao considerar essa abordagem precisam
privilegiar “[...] a essência dos fenômenos no âmbito da linguagem, da
informação no mundo da vida [...]”. Além disso, e de maior destaque, o
método aplicado nas abordagens fenomenológicas no âmbito da Ciência da
Informação precisa desenvolver-se “[...] em um plano transcendentalista a
reflexões destinadas a descrever significativamente, se é que é possível aquilo
que simultaneamente nos une e separa teórica e conceitualmente: o fenômeno
informação” (LOUREIRO et al., 2011, p. 147-148).
A fenomenologia pode ser contributo para as práticas de mediação e
para o seu campo conceitual, visto que essas estão presentes em todos os
fazeres da unidade de informação, desde que o bibliotecário intervenha sobre a
informação, a fim de facilitar a apropriação dos recursos pela comunidade
usuária, conforme discorrido por Almeida Júnior (2015). Ao pensar a mediação

�187

como processo abrangente, que vai muito além do serviço de referência, que
permeia atividades, processos e fluxos de informação, é destacada a relação
permanente entre objeto e conhecedor, fato esse que acaba por afetar
diretamente os estudos práticos e teóricos da Ciência da Informação
(FIGUEIREDO, 2012).
Para Figueiredo (2012), as práticas de mediação podem ser melhor
compreendidas com a fenomenologia, a partir da configuração de novos
artefatos que são utilizados no processo de organização. A autora também
pontua que o trinômio homem-tecnologia-mundo é essencial para garantir uma
atuação bibliotecária mais efetiva, condizente com as necessidades dos
usuários da sociedade contemporânea e capaz de auxiliar o acesso ao
conhecimento. Da mesma forma, e como consequência das atividades de
organização, surgem os serviços de informação oferecidos com as tecnologias
digitais, cuja atenção precisa ser direcionada aos elementos: informação,
tecnologia e pessoas (profissionais e usuários) (KHOBRAGADE; LIHITKAR,
2016).
O bibliotecário, como profissional da informação e mediador, ao valorizar
os fundamentos teóricos da fenomenologia, tem o seu fazer analisado sob uma
visão global da unidade de informação, mediante uma atuação recíproca.
Desse modo, esse profissional influencia o processo de referência e também é
influenciado por ele, visto que “[...] todo o processo sofre influência do ser
social que o conduz, da bagagem que ele carrega, das experiências de vida, do
seu perfil, sendo sempre um processo em construção [...]” (LIMA, 2018, p.
172).
A ação de interferência realizada pelos bibliotecários - seja no processo
de organização, comunicação ou de uso da informação – levará em
consideração a apropriação e, como consequência, a atribuição de valor por
aquele que utiliza a informação fornecida. Neste percurso, as práticas de
mediação são influenciadas por diferentes aspectos, como: o contexto
sociocultural da comunidade, da equipe de profissionais, do contexto e da
cultura organizacional, dentre outros. Sob uma perspectiva fenomenológica,
considera-se que o objeto analisado é apreciado mantendo a perspectiva do

�188

universo “[...] tanto do observador, um sujeito dotado de experiências
vivenciadas e intencionalidades, quanto do elemento estudado, fenômeno a ser
ponderado e seu comportamento frente ao ambiente que se apresenta [...]”
(PRADO, 2013, p. 4).
Assim como Loureiro et al. (2011), Figueiredo (2012) e Prado (2013)
acreditam no potencial da teoria construída por Husserl (1965), haja vista
garantir a escolha de metodologias de pesquisas que garantam resultados
mais objetivos e não ambíguos, capazes de subsidiar propostas de ação para
melhorias dos serviços planejados e geridos por bibliotecários nas bibliotecas.
Isso se justifica, sobremaneira, quando se percebe a falta de sintonia entre as
variáveis escolhidas para uma investigação ou a escassez de estudos que
contextualizem a vivência social e organizacional, como descrito por Boava e
Macedo (2011).
Também é bem-vinda a abordagem fenomenológica por seu aspecto
teórico-metodológico, o que lhe afere uma dupla contribuição, mesclando os
fundamentos com as aplicações. Com todo efeito, na abordagem husserliana,
“[...] a neutralidade do pesquisador pode ser utópica, mas ainda assim a
atenção na experiência pode resgatar o frescor dos estudos e contribuir com
resultados originais [...]”, sobretudo quando se percebe que “[...] muitas
pesquisas estão se tornando demasiado descoladas do mundo real [...]”
(MARTINEZ; SILVA, 2014, p. 11).
Adotar a fenomenologia como aporte teórico nos estudos relacionados às
práticas de mediação informacional é uma alternativa coerente, haja vista que
tanto o fenômeno informação quanto as ações de interferência/apropriação são
complexas e abrangentes, permeando todo o ciclo da informação. Como
ensinado por Prado (2013), ao longo desse ciclo, a tarefa mais árdua é a
interpretação da informação, atividade específica do ser humano, capaz de
expressar a atribuição de significados “[...] às manifestações sensoriais
proferidas pelos fluxos identificados em determinada conjuntura [...]”.
Essa conjuntura é a visão de todo do sistema de informação e da
unidade de informação, por conseguinte, da atuação profissional e dos serviços
gerenciados e mediados pelos bibliotecários. Como mencionado por Boava e

�189

Macedo (2011), sob uma abordagem sistêmica, torna-se possível reconhecer e
descrever a realidade, de modo que se atinja a essência dos processos de
trabalho, e, como efeito, o que pode ser realizado para fins de melhoria nas
atividades desenvolvidas.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os estudos epistemológicos propostos pela Ciência da Informação acerca
do objeto informacional e as complexidades de manifestação desse objeto
(coisa, processo e conhecimento) possibilitam identificar a interação das
atividades desenvolvidas pelos bibliotecários ao disponibilizar serviços de
informação, nas bibliotecas. Os fundamentos teóricos desses estudos trazem à
tona processos de trabalho sistematizados e conduzidos de modo integrado e
recíproco, haja vista a organização, comunicação e uso da informação. Em
meio a esses processos, diluem-se práticas de mediação, sustentadas pela
ação de interferência do profissional que visa à apropriação e agregação de
valor pelos usuários.
Partindo dessa fundamentação e considerando o propósito principal deste
texto, qual seja apresentar as possíveis relações entre os fundamentos teóricos
da fenomenologia e as práticas de mediação da informação desenvolvidas por
bibliotecários, foi possível constatar que a abordagem fenomenológica muito se
aproxima com o trabalho desenvolvido pelos bibliotecários. Isso somente é
identificado quando se considera a visão sistêmica da biblioteca, cuja
informação assume diferentes manifestações, tanto no formato tangível quanto
intangível, desde que almeje a recuperação e uso para satisfação de diferentes
necessidades.
Os resultados deste ensaio apontam que a abordagem científica proposta
por Edmund Husserl muito pode contribuir para reforçar o aporte teórico que
sustenta a dinâmica da biblioteca, permitindo o reconhecimento de que a
atuação profissional não pode ser analisada de modo isolado, mas sua essência
somente se manifesta, com objetividade e sem viesses, mediante a integração

�190

das atividades desenvolvidas pelos profissionais. As práticas de mediação não
se manifestam, apenas, em um local específico da biblioteca, como também
não permeiam somente o serviço de referência, mas se estendem às
atividades

de

tratamento

informacional

e

às

ações

que

viabilizem

a

apropriação e geração de novos conhecimentos para quem utiliza os serviços
oferecidos.
A abordagem fenomenológica pode contribuir por romper barreiras, como
trabalho isolado, falta de integração das equipes, escassez de recursos, dentre
outros, evidenciando que não há limites entre os processos de trabalho da
biblioteca, o que promoverá resultados mais consistentes capazes de explicar
razões que justificam o modo e o propósito com que os serviços são
estruturados e gerenciados. Por meio de uma visão sistêmica, além da
descrição da realidade e a compreensão de como o trabalho é desenvolvido,
torna-se mais adequada e facilitada a proposição de melhorias para as
bibliotecas, por conseguinte, ampliar as possibilidades de transformação da
informação em conhecimento para a sociedade.
A fenomenologia, ao trabalhar com a essência, com a fusão entre
objetividade e subjetividade, com a descrição e com a factualidade dos fatos
poderá

estimular

a

imparcialidade,

por

conseguinte,

reconhecerá

os

bibliotecários como personagens principais na oferta, manutenção e gestão dos
serviços

informacionais.

Sustentada

no

rigor

científico,

a

concepção

husserliana exigirá do trabalho e dos estudos desenvolvidos em prol das
bibliotecas, a adoção de técnicas e metodologias sustentadas em teorias que
considerem a informação como um fenômeno, que se transforma ao longo do
tempo, e que os serviços a serem oferecidos demandarão da integração entre
tecnologias, bibliotecários e usuários.
A visão contextualizada e integrada proposta pela fenomenologia, haja
vista garantir a descrição dos atos e fatos da forma com que se apresentam à
consciência e à realidade é a possibilidade de reforçar a característica subjetiva
e complexa do ser humano, sobretudo quando inserido em um contexto social.
O bibliotecário e o usuário são elementos-chave para estruturação dos serviços
de informação; no entanto, mesmo que os serviços informacionais precisem

�191

seguir normas, princípios e condições específicas, eles não podem se
manifestar como engessados e inacabados, assim como não é possível
considerar o próprio indivíduo como desprovido de valor próprio e sem
considerar aspectos culturais, cognitivos e afetivos que permeiam a sua
existência e interferem em sua atuação no âmbito dos sistemas e serviços de
informação.
Essas condições reforçadas pela fenomenologia precisam ser acopladas
aos estudos desenvolvidos nos diferentes campos de investigação da Ciência
da Informação/Biblioteconomia, delimitando-se como espaço de pesquisa
empírica as práticas de mediação oferecidas nas bibliotecas, por exemplo.
Essas práticas, pelo que foi abordado neste texto, não podem ser restritas, tão
somente, ao processo de uso da informação, mas também considerando as
possíveis inter-relações existentes com outros segmentos que o recurso
informação assume, ao longo do ciclo informacional.
Entender a biblioteca como um ambiente plural/heterogêneo, com
processos de trabalho que se retroalimentam, e que trabalha a informação
sobre diferentes suportes, com manifestações diversas, é uma estratégia para
melhorar os resultados alcançados com os estudos realizados em seu bojo.
Trazer a concepção fenomenológica para esses estudos é exigir que as práticas
empíricas sejam melhor planejadas e conduzidas, de modo a descrever
sistemicamente o que se observa, considerando a visão de todo e a pluralidade
de interferências existentes, sem contudo, perder a essência dos objetos
investigados.
Os fundamentos teóricos propostos neste capítulo, sobretudo a partir de
uma concepção filosófica, não possibilitam uma conclusão definitiva, cujos
resultados permitiriam colocar um ponto final a este texto. Ao contrário, a
reflexão proposta estimula novos desdobramentos de pesquisas acerca das
práticas de mediação nas bibliotecas, considerando como base de sustento
teórico e metodológico, a abordagem fenomenológica. Como discorrido, que
esses estudos considerem a mediação como um fazer que interfira nos
processos de organização, comunicação e uso da informação.

�192

Ao congregar esses três processos, diferentes técnicas podem ser
utilizadas como método de coleta, como entrevistas e grupos focais, por
exemplo, que investiguem a atuação tanto de bibliotecários quanto de usuários
e até mesmo profissionais de áreas correlatas que contribuem com a gestão
das bibliotecas. O reconhecimento/percepção de diferentes bibliotecários que
atuam nesses processos, acerca do que consideram, como realizam e o que
vislumbram como possibilidades de melhoria para os serviços de informação
das bibliotecas é outra interessante abordagem de pesquisa; a partir da
descrição dessas observações, torna-se possível formular propostas de ação
que possam fomentar as políticas de informação para melhorias do que é
realizado nas bibliotecas de um determinado contexto.
Embora esses métodos já sejam aplicados à Ciência da Informação e ao
serviço

de

referência,

entende-se

que

fundamentá-los

à

abordagem

fenomenológica é uma estratégia de garantir maior confiabilidade aos
resultados. Além disso, essas aplicações se intensificam quando associadas a
contextos

digitais,

diante

das

instabilidades

promovidas

com

o

uso

intensificado da web.
As propostas de ação também podem ser formuladas a partir de um
contexto de investigação mais específico, sob uma abordagem micro, ao
investigar o serviço de referência propriamente dito direcionado ao suporte à
pesquisa acadêmica, por exemplo. Com esse propósito, as ações de mediação
seriam observadas, tão somente, entre o processo de comunicação e uso.
Nesse

caso,

o

fenômeno

informação

seria

analisado

em

uma

visão

contextualizada, a partir de entrevistas com bibliotecários de bibliotecas
universitárias, no entanto, considerando o contato/interação estabelecido entre
bibliotecário e pesquisador no decorrer das atividades de busca e recuperação
da informação científica.

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Agradecimentos: Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo financiamento desta pesquisa.

�196

DADOS BIOGRÁFICOS

Jorge Santa Anna: Graduado em Biblioteconomia.
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Gestão e
Organização do Conhecimento. Atuante no ramo da
prestação de serviços de orientação, escrita, normalização
e lecionamento em trabalhos e pesquisas acadêmicocientíficos. Atua como editor e assessor do Periódico PróDiscente, como também compõe a diretoria da Associação
de Bibliotecários de Minas Gerais, ocupando o cargo de
secretário.
E-mail: professorjorgeufes@gmail.com

Célia
da
Consolação
Dias:
Graduada
em
Biblioteconomia. Mestrado e Doutorado em Ciência da
Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG). Professora do Curso de Biblioteconomia e do
Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do
Conhecimento, na Escola de Ciência da Informação da
UFMG.
E-mail: celiadias@eci.ufmg.br

Benildes Coura Moreira dos Santos Maculan: Graduada
em Biblioteconomia. Mestrado e Doutorado em Ciência da
Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG). Professora do Curso de Biblioteconomia e do
Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do
Conhecimento, na Escola de Ciência da Informação da
UFMG.
E-mail: benildesmaculan@ufmg.br

�197

CAPÍTULO X - A mediação da informação por meio de
desafios: da aquisição à apropriação de informações em
jogos digitais
Jose Ricardo da Silva Neto
“Decifra-me, ou devoro-te’’. – Qual o ser que pela manhã tem quatro
pés, ao meio dia tem dois, e a noite tem três?”
Esfinge grega - Conto de édipo

1 INTRODUÇÃO
Ao abordar viajantes, a esfinge25 desafiava suas vítimas a decifrá-la,
tendo como ameaça devorá-los caso não cumpram sua ordem. A esfinge,
segundo GAZOLLA (1983, p. 62), é o “símbolo do enigma supremo, que monta
guarda sobre um significado último que se situa além da capacidade do
entendimento humano”. Ser desafiado pela esfinge impele nos indivíduos a
necessidade por uma resposta, uma necessidade informacional, a qual
precisará de um processo de reflexão e domínio sobre a informação para ser
atendida. Assim, para a Ciência da Informação, a esfinge pode nos remeter, de
maneira

simbólica,

por

meio

de

sua

faceta

humana,

a

busca

pelo

conhecimento, já seu corpo animalesco, aos desafios dessa busca.
A esfinge representa todo o conhecimento de eras passadas, ela é
descrita contemplando o movimento solar pelo céu ao redor da Terra, aludindo
a roda do tempo e seu simbolismo. O esforço de perceber o mundo ao seu
redor, assim como a necessidade de compreender o contexto em que se
encontra também é associado a esfinge (GAZOLLA, 1983). Compreensão
essencial na resolução dos enigmas ou desafios com os quais nos deparamos.

25

A esfinge “é um monstro composto de várias partes do corpo humano e de animais,
representando o mito da multiplicidade ou da enigmática fragmentação do cosmos” (GAZOLLA,
1983, p. 62).

�198

Perceber e interpretar os símbolos, eventos ou formas do meio em que se
encontra é essencial para a formação do conhecimento. Como afirma Gomes, a
“visualização antecede o conhecer”:
pode-se dizer que a visualização das formas e cores e a audição dos
sons a partir dos registros visuais e sonoros, agregada à informação
escrita gerada a partir do esforço de interpretação dessas informações
imagéticas e sonoras, integram o processo de conhecer (GOMES, 2008,
p. 10).

A resolução dos enigmas ou desafios exigem a observação dos elementos
da realidade ao seu redor e oriundos ao próprio enigma, eles impelem a
produção do conhecimento, mesmo que haja uma faísca inicial desse
conhecimento. Para atender a necessidade de uma resposta, o indivíduo é
levado a buscar o conhecimento que “pode estar registrado em livros ou outros
suportes ou não estar materializado” (GOMES, 2008, p. 6). A mediação do
conhecimento,

então,

pode

ocorrer

por

meios

interpessoais,

meios

documentais e de maneira ativa, quando é criada uma necessidade pelo
domínio de uma informação específica.
O profissional bibliotecário deverá ter ciência de que as tecnologias
tangem o seu ambiente de trabalho, assim como também tangem os usuários
da informação, mas essas tecnologias devem ser percebidas como potenciais
recursos para todos os processos envolvidos na atividade das unidades de
informação. Como as tecnologias de informação e comunicação podem
suprimir as formas tradicionais de mediação, deve se atentar para as novas
formas de mediação que se abrem devido às tecnologias emergentes (SILVA;
LOPES, 2011).

2 A MEDIAÇÃO DO CONHECIMENTO
A mediação enquanto um sentido está muito ligado a imagem do
“atendimento ao usuário” (ALMEIDA, 2008, p. 3), mas a mediação envolve
diferentes formas de comunicação e suportes de informação. Além disso, a
“mediação do conhecimento” deve ser caracterizada, majoritariamente, como

�199

um processo por autores diversos, o que sugere que exista um momento
“antes da mediação”, “durante a mediação” e “pós-mediação” para o estado da
informação mediada, como afirma Almeida:
a expressão “mediação da informação” sugere que a informação é um
produto ou entidade que sofre uma ação que permite seu deslocamento
de um lado a outro do espaço, entre, por exemplo, coleção/acervo/obra
e usuário/sujeitos/público. Sendo assim, a informação seria algo
anterior ao processo de mediação, o que nem sempre é previsto nas
análises da teoria da mediação gerando contradições quando se utiliza
uma noção de informação como algo que se cria no instante da
mediação (ALMEIDA, 2012, p. 3).

Nesse sentido, a informação já existe antes do início da mediação do
conhecimento, estando ela disposta em seu portador, seja ele uma pessoa ou
um suporte informacional. Segundo Silva (2015), “a mediação da informação
precisa ser vislumbrada a partir de uma perspectiva de construção de sentidos
entre [...] centro de informação, mediador e usuário” (SILVA, 2015, p. 102),
possibilitando a compreensão da mediação do conhecimento como um
processo.
A construção do conhecimento ocorre por um caminho complexo, na qual
os interlocutores interagem não só uns com os outros, como, também,
interagem com as informações, se apropriando do conteúdo acessado a partir
de suas competências. A interação com a carga simbólica transmitida por meio
de suportes e contextos também é necessária para o processo de construção
do conhecimento, pois esses sustentam a experiência das práticas de conhecer
(GOMES, 2008).
A interação entre o conhecimento mediado e o conhecimento anterior do
indivíduo levam, então, ao processo de construção de um novo conhecimento,
o qual será apropriado pelo sujeito e utilizado caso se faça necessário. É
importante

ressaltar

que

“quando

alcançamos

o

estágio

da

mediação

produzimos conhecimento e se oferecemos tal possibilidade a outrem, da
mesma forma oportunizamos a criação de conhecimento” (ALMEIDA, 2012, p.
7), uma vez que todos os indivíduos envolvidos estão lidando de alguma
maneira com o processo de comunicação desse conhecimento, mesmo que
seja uma comunicação direta ou não.

�200

Gomes, com seu foco nos dispositivos tecnológicos, que servem como
recursos de “extensão da memória”, nos aponta que o conhecimento se dá
como resultado de uma cadeia de inter-relações de conhecimentos anteriores
com novas informações (GOMES, 2008). Os livros, filmes e outras mídias com
capacidade de registro podem ser enquadradas como recursos de extensão de
memória, uma vez que elas podem ser reproduzidas ou copiadas quantas
vezes forem necessárias. Por meio dessas “extensões de memória” temos a
possibilidade da interação sem a presença física dos seus autores ou
produtores, os quais se enquadram como interlocutores nessa produção de
conhecimento.
Essa dinâmica é perceptível a partir da arte interativa. Segundo Capucci
(1997) citado por Silva, Miranda e Baptista (2006), devido às possibilidades
dos recursos tecnológicos que permitem as obras de arte a capacidade de
responder a ação dos indivíduos que a experienciam, tem-se como resultado a
eliminação de barreiras, provocando tensões que não estão sobre o controle do
artista que produziu a obra.Essas tensões se tornam pertencentes a uma
dimensão transcultural e policontextual, o que caracteriza grande parte de seu
potencial cognitivo, cultural e social. A interação, nesse caso, já não mais se
limita a comunicação direta entre mediador e receptor da informação, como
destaca Gomes:
A interação pode ser considerada como o espaço da produção de
sentidos e ainda de manifestação e produção das relações sociais. Dessa
forma, ela não se restringirá ao verbal nem tampouco se configurará,
necessariamente, apenas na presença física dos interlocutores (GOMES,
2008, p. 6).

O que ocorre então é a produção de sentidos manifestada por meio de
um suporte pelo seu criador, seguida de uma relação do receptor com o
material recebido. A forma do material, como apontado por Gomes (2008),
influência em como este será compreendido, “As formas também produzem
sentido e a leitura é sempre uma prática constituída de gestos, espaços,
movimentos e hábitos que interferem na interpretação” (GOMES, 2008, P. 9).
O desafio, portanto, tem suas próprias características e porta em si uma carga
de intencionalidade de seu criador para o seu leitor.

�201

Para compreender o desafio enquanto um elemento de mediação do
conhecimento, é preciso recorrer ao entendimento do funcionamento das
mídias que utilizam os desafios como parte fundamental de sua composição.
Os jogos digitais, enquanto documentos, apresentam a característica de não
permitir o acesso de seu conteúdo até que o usuário consiga “passar de fase”.
Isso ocorre devido à dinâmica inerente a natureza dos jogos, que mesclam as
suas regras a uma narrativa, que, junto da interação com o usuário,
desencadeiam os ludemas.
Antes de abordar o conceito dos ludemas, é importante ressaltar que não
se deve menosprezar o potencial informacional dos jogos digitais, ou de novos
formatos de mídia, pois os jogos digitais enquanto “arte tecnológica também
conduz o homem a repensar sua condição humana por suas interações com a
própria vida” (SILVA; MIRANDA; BAPTISTA, 2006, p. 217). Como uma nova
mídia, possuidora de tecnologias e dinâmicas próprias, é, também, uma nova
forma de contar histórias. Para Cruz, “O importante é utilizar as tecnologias de
forma que nos ajudem a aprender, levando-nos a transformar informação em
conhecimento” (CRUZ, 2008, p. 1029).

3 O CONCEITO DE “LUDEMA”
O conceito “ludema” tem sua primeira aparição no artigo intitulado “Em
Busca dos Ludemas Perdidos”, publicado no “VII SBGames”,sediado em Belo
Horizonte, Minas Gerais, no mês de novembro de 2008. Posteriormente,
melhor cunhado por Marsal Alves Branco, em 2011, em sua tese denominada
“Jogos Digitais: Teoria e Conceitos para uma Mídia Indisciplinada”, em que o
autor desenvolve melhor as propriedades dos ludemas e seus variados tipos,
de acordo com os múltiplos recursos e características dos jogos digitais. O
ludema em sua origem é definido por Branco e Pinheiro como:
a unidade mínima do jogo, ponte entre a ação do interator e o resgate
das regras do sistema ludológico (atualiza os desafios que até então
existem apenas em potência) e do sistema narrativo, do qual converte
as informações e transforma em experiência de jogo. É a presença dos

�202
ludemas que garante a existência de um jogo (PINHEIRO; BRANCO,
2008, p. 73).

Sendo a conexão entre a ação do interator, a estrutura lógica do jogo
(sua programação) e seu conteúdo narrativo, o ludema é um importante
elemento para a compreensão tanto da linguagem dos jogos digitais, quanto
para

o

entendimento

do

funcionamento

do

jogo

enquanto

estrutura

informacional. Contudo, os ludemas foram trabalhados visando apenas seu
aspecto de Game Design e Comunicação, deixando em aberto lacunas
referentes às suas propriedades informacionais. Mas, antes de realizarmos
essa abordagem, precisamos, ainda em sua origem, entender o conceito, seu
funcionamento e aplicabilidade segundo Branco:
os ludemas ocorrem quando dentre todas as possibilidades o gamer, por
um ato de vontade, ATUA sobre algum dispositivo técnico qualquer
(joystick, reconhecimento de imagem ou qualquer tipo de input que o
hardware puder reconhecer) e isso AFETA o andamento do jogo. Ou
seja, o ludema é a resposta do gamer ao reconhecimento de uma
situação/desafio específico contido no sistema de regras (BRANCO,
2011, p. 76).

O ludema, como unidade mínima do jogo, pode ser facilmente visto em
funcionamento quando analisamos jogos digitais ou analógicos. No entanto, é
importante salientar que o ludema não é a estrutura do jogo em si, mas o
processo pelo qual ele insere o jogador e suas ações em seu funcionamento
lógico. Reis (2013) afirma que “a lógica dos ludemas e sua aplicação podem
ultrapassar o campo do que é facilmente reconhecível como jogo, e perpassar
também outros aspectos da vida social” (REIS, 2013, p. 198). Essa afirmação
abre a possibilidade de estudar os ludemas e o seu funcionamento como um
processo de mediação da informação e do conhecimento, mas, para tal, é
necessária uma compreensão básica sobre esse conceito.
Para obtenção de tal compreensão, é importante observar que a
descrição do conceito explicita a existência dos seguintes elementos: sistema
de regras, o sistema narrativo e as ações do jogador. E que os ludemas são
uma forma de compreender a relação do jogador, com a narrativa e suas
informações inerentes em funcionamento dentro de um sistema lúdico de
regras, ou seja, o sistema de regras existe como um suporte para o material
narrativo, mas de maneira que ambos funcionem de maneira simbiótica por se

�203

tratarem de partes complementares do conteúdo contido no jogo digital, muito
provavelmente resignados ao suporte eletrônico como o computador, o
cartucho, CD-ROM, além do console de videogame.
O sistema de regras de um jogo é caracterizado pelas condições de
vitória, derrota e ações permitidas durante a jogatina. Esse sistema, tirando
como exemplo o xadrez, inclui regras como: o movimento de cada peça, o
tempo de cada jogada (quando há limitação), o número de peças no início do
jogo e as jogadas especiais como o “roque”26. O sistema de regras pode incluir
também as regras de uso do suporte de seu conteúdo, como ocorre na
limitação de botões de Joysticks27. É importante ressaltar a afirmação de
Branco sobre o sistema de regras:
o sistema de regras apesar de ser a primeira condição para a existência
de uma game, não é por si só suficiente para que tenhamos um jogo. Se
assim fosse, qualquer sistema digital o seria, uma vez que todos são
manifestações de máquinas de estado. Um sistema operacional, uma
televisão ou uma calculadora são exemplos disso (BRANCO, 2011, p.
33).

A principal diferença dos jogos de outros sistemas digitais é a presença
de um conteúdo narrativo que, por meio do sistema de regras, permite a
interação do jogador com a narrativa apresentada. Essa narrativa interativa
possibilitada

pelo

sistema

de

regras,

muda

a

dinâmica

de

leitura

e

experienciação dos usuários, segundo Pinheiro e Branco (2012) “aos jogadores
não bastam apenas ler e interpretar o que foi escrito, mas decidir o que fazer e
agir em conformidade com essa decisão” (PINHEIRO; BRANCO, 2012, p. 72).
Essas características, segundo Branco (2011), são, também, as diferenças
cruciais entre um jogo e materiais literários/cinematográficos, devido à
necessidade do esforço físico de seu leitor para o desenrolar do jogo, além
desse esforço atuar sobre a narrativa e seus acontecimentos (BRANCO, 2011).
O jogo diante do seu jogador se comporta de maneira semelhante a
esfinge, exigindo uma resposta para seus enigmas sobre a ameaça de encerrar

26

Roque é um movimento que envolve a torre e o rei, tirando o rei do centro do tabuleiro e
deixando ele num canto, ao mesmo tempo colocando a torre no centro do tabuleiro.
27
Joystické um periférico de computador e videogame ou um dispositivo geral de controle,
composto por uma vara vertical, que transmite o seu ângulo de inclinação em duas ou três
dimensões a um computador.

�204

a jornada daquele que a ela veio, pois a história não progride se não houver a
ação de jogar, e, caso a ação não seja suficiente para vencer os desafios, o
jogador pode ser levado a passar horas infindáveis no mesmo lugar, ou até
mesmo sofrer um “game over”28 e ser levado de volta ao início do jogo. Esse
funcionamento baseado em desafios subsequentes acaba exigindo muito da
mente do jogador, como explica Vial (2015), o forçando a aprender coisas
novas ou usar seu conhecimento e habilidades de novas formas.
Todas as condutas do espírito parecem contribuir: a memória, portanto,
sob a forma de expertise; a imaginação, ampla quanto ao projeto
global, mas limitada no lance a lance; o sentido do julgamento, do
raciocínio para perceber as intenções do adversário e descobrir a
próxima resposta, a solução que permite passar dessa resposta à
retomada da progressão desejada; o sangue frio e a tenacidade nessa
ação (VIAL, 2015, p. 45).

Seja em jogos com múltiplos jogadores trabalhando em conjunto ou uns
contra os outros, indo até os jogos individuais onde se enfrenta os desafios
desenvolvidos e o próprio computador, existe essa exigência da ação, do
raciocínio em busca de soluções. Para Varela (2012) O aprendizado e
compreensão da informação pode ser entendida como uma estrutura ou a
totalidade da aplicação a uma demanda de ação intelectual, que verifique a
funcionalidade desta informação ou de suas partes. Corroborando, assim,
Gomes quando diz que: “toda ação é motivada por experiências e só é
concretizada na experiência. Desse modo, a experiência (o movimento
inerente ao protagonismo) é condição imprescindível à mediação e à formação”
(GOMES, 2014, p. 54).
Observa-se então que a ação do jogador, as regras do jogo e as
informações concedidas são fatores essenciais para que os jogadores consigam
aprender e desenvolver seu conhecimento sobre o jogo. Os ludemas estão
presentes nas mais diversas formas nos jogos eletrônicos, digitais ou
analógicos, o que pode facilitar a compreensão da mediação e produção do
conhecimento por meio de desafios.

28

Game Over - do inglês “fim de jogo”, mensagem tradicionalmente usada pela maioria dos
jogos quando o jogador fracassa em sua jornada tendo de reiniciar o jogo.

�205

4 A ESTRUTURA LUDÊMICA E O SEU FUNCIONAMENTO
O ludema, como já explicado, é composto essencialmente de três
elementos centrais, sendo eles o sistema de regras ou sistema lúdico, o
material simbólico narrativo e, por fim, a ação do usuário (preferencialmente
chamado

de

jogador).

Contudo,

é

preciso

entender

a

estrutura

de

funcionamento do ludema, ou a estrutura ludemíca, como será nomeada. Essa
estrutura tem um importante papel sobre a percepção e experiência do
jogador, visto que, segundo Negrine, “no jogo, a ação sempre estará
subordinada ao significado” (NEGRINE, 2014, P. 211), logo, a ação do jogador
não se separa da carga narrativa e do contexto de desafio no qual se insere o
jogador.
Todo o engajamento do jogador para com o jogo também é um
engajamento mesmo que superficial para seu conteúdo. Os jogos bem
projetados colocam seus jogadores em estado de fluxo “onde a ânsia por
vencer promove o desenvolvimento de novas habilidades” (MITCHELL; SAVILLSMITH, 2004, apud SAVI; ULBRICHT, 2008, P. 3).E, como sem a ação do
jogador o sistema não “funciona”, o ludema, para existir, também depende da
existência de um jogador.
Imagem 1 - Elementos do ludema

Fonte: Elaborada pelo autor (2020).

O ludema integra tanto os elementos de programação quanto da
narrativa do jogo, pois, por mais que possua um sistema lógico programado,
ele é desencadeado pela ação do jogador, o qual precisa ser informado, por
meio de seu contexto, possibilitando a ele aprender, consequentemente o
capacitando a superar o desafio proposto. Como ilustrado no fluxograma a
seguir, caso o desempenho do jogador não se mostre suficiente, ou seu
método é ineficaz, o jogo lhe responde com consequências geralmente
punitivas, retornando o jogador para o contexto anterior a sua tentativa de
resposta, o permitindo observar novamente para solucionar o entrave.

�206
Imagem 2 - Estrutura Ludêmica

Fonte: elaborado pelo autor (2020).

Isso acaba colocando o usuário em uma cadeia contínua de “checagem
do desafio”, pois o jogo dá ao jogador uma informação e o submete a testes
até que você “prove” que aprendeu o que foi informado, superando o desafio.
A citação de Mitchel &amp; Savill-Smith, que é feita no trabalho de Savi &amp; Ulbritcht,
corrobora esse funcionamento. Segundo os autores, “Os jogos colocam o aluno
no papel de tomador de decisão e o expõe a níveis crescentes de desafios para
possibilitar uma aprendizagem através da tentativa e erro” (MITCHELL;
SAVILL-SMITH, 2004, apud SAVI; ULBRICHT 2008, p. 3), levando o jogador e
repetir as etapas à medida que falha em superá-las, exigindo dele um
desenvolvimento intelectual resultante do esforço feito para a finalização do
jogo, como aponta a citação a seguir.
Os jogos promovem o desenvolvimento intelectual, já que para vencer
os desafios o jogador precisa elaborar estratégias e entender como os
diferentes elementos do jogo se relacionam. Também desenvolvem
várias habilidades cognitivas, como a resolução de problemas, tomada
de decisão, reconhecimento de padrões, processamento de informações,
criatividade e pensamento crítico (GROS, 2003; BALASUBRAMANIAN;
WILSON, 2006, apud SAVI; ULBRICHT, 2008, p. 4).

Esse processo de enfrentamento do desafio pode durar várias tentativas,
por meio das quais o jogo vai dar variados feedbacks acerca da falha do
jogador, a fim de informar a ele em que errou de maneira pontual, mas nem
sempre direta. Segundo a citação a Mitchell &amp; Savill-Smith feita por Savi &amp;
Ulbritch, “o feedback instantâneo e o ambiente livre de riscos provocam a
experimentação e exploração, estimulando a curiosidade, aprendizagem por

�207

descoberta e perseverança” (MITCHELL; SAVILL-SMITH, 2004 apud SAVI;
ULBRICHT, 2008, P. 4). Essa característica de feedback é apontada por Jean
Paul Gee como algo desejável em ambientes que vão além do funcionamento
dos jogos digitais:
Platão, no Fedro, queixava-se de que os livros eram passivos no sentido
de que você não pode fazer com que eles lhe respondam em um
verdadeiro diálogo, como em um encontro cara-a-cara. Os games
respondem. De fato, nada acontece até que o jogador aja e tome
decisões. Daí em diante, o jogo reage, oferecendo feedback e novos
problemas ao jogador. Em um bom jogo, as palavras e os atos são
colocados no contexto de uma relação interativa entre o jogador e o
mundo. Assim, também, na escola, os textos e livros precisam ser
colocados em contextos de interação onde o mundo e as outras pessoas
respondam (GEE, 2009, p. 171).

Para ilustrar melhor o funcionamento da estrutura ludemíca e situar nela
a aquisição e apropriação da informação, vamos usar como exemplo a cena em
que Édipo se encontra com a esfinge. É interessante notar no esquema a
seguir a relação das cores de cada etapa com as cores dos elementos
necessários para a existência do ludema, uma vez que o início do processo
lúdico sempre se inicia com um contexto narrativo.
O exemplo a seguir se inicia em “Édipo se depara com a esfinge”,
sequencialmente seguido pela aplicação do desafio e as implicações do sistema
de regras, o qual declara a condição de derrota. O jogador, então, é impelido a
buscar as informações necessárias para superar o desafio nos recursos
disponibilizados a ele ao obter essas informações ele precisará interpretá-las
para achar a melhor forma de usar essas informações ao enfrentar o desafio
supracitado.

�208
Imagem 3 - O exemplo da esfinge

Fonte: elaborado pelo autor (2020).

Nesse exemplo, Édipo, enquanto jogador, analisa o enigma e as coisas
que sabe em busca da chave para o enigma. Ao declarar para a esfinge que a
resposta é “O homem”, a esfinge verifica se a resposta está certa em sua
mente enquanto Édipo esclarece a ela o raciocínio quando diz: “O homem
engatinha sobre quatro patas ao amanhecer, quando é ainda um bebê.
Caminha sobre as duas pernas ao meio dia, quando é um adulto e finalmente
ao pôr do sol, anda sobre três pernas, pois usa a bengala na velhice”. Após a
verificação da resposta, é dada a devida consequência, caso Édipo tenha
solucionado ou não o enigma.
O desafio, então, leva quem o enfrenta a desenvolver as suas
competências informacionais, sendo elas: a competência para a aquisição de
informação, que se manifesta por meio da busca por informações, sinalizadas
ou não, que forneçam alguma dica sobre o enigma; competências para a
interpretação da informação, pois será necessário entender o que essas
informações dizem ou apontam em seu contexto; competências para a análise
da informação, visto que será necessário discernir se aquela informação está
correta ou não, pois pode ser uma dica falsa, ou apenas um elemento avulso
no contexto; competências para a compreensão da informação, uma vez que a
informação pode possuir múltiplos significados e sentidos, ou apresentar

�209

natureza

simbólica

e

enigmática.

Essas

competências

se

associam

a

capacidade de ler a realidade e a mudança na ideia de aprendizado, como
apresentado por Cruz (2008):
A aprendizagem está, principalmente, na habilidade de estabelecer
conexões, revê-las e refazê-las. Com isso, a aprendizagem deixa de ser
algo passivo para tornar-se uma obra de reconstrução permanente,
dinâmica entre sujeitos que se influenciam mutuamente. É fundamental
saber ler a realidade com acuidade, para nela saber intervir com
autonomia (CRUZ, 2008, p. 1038).

Por fim, as competências necessárias para o uso e aplicação da
informação, são desenvolvidas durante a busca pelas soluções, seguidas da
execução de ações necessárias para superar o desafio apresentado pelo
sistema. A complexidade desse processo como um todo é perceptível na fala
de Gee (2009), quando menciona a sua dificuldade ao entrar em um jogo mais
complexo:
Quando entrei no jogo, me espantei. Era difícil, longo e complexo.
Fracassei muitas vezes e tive que mergulhar em um projeto de pesquisa
pela internet para aprender algumas das coisas que precisava saber. Os
modos de aprender da minha geração (os baby boomers) não
funcionavam. Senti-me usando músculos de aprendizagem que não
tinham sido exercitados daquele jeito desde minhas aulas de linguística
teórica no mestrado (GEE, 2009, p. 168).

Existem jogos e desafios com diversos níveis de complexidade, esses
níveis de complexidade, geralmente, atendem a suas respectivas faixas de
idade e perfil de público, de maneira que não sejam fáceis demais, nem
frustrantes demais para seus jogadores. Gee (2009) afirma que “o desafio e a
aprendizagem

são

em

grande

parte

aquilo que

torna

os

videogames

motivadores e divertidos. Os seres humanos de fato gostam de aprender”
(GEE, 2009, p. 168), mas esse processo de aprendizado ainda precisa conter
em si sua natureza lúdica, pois, segundo Gee (2009), os próprios campos de
estudo formais possuem uma estrutura similar aos jogos:
Uma ciência como a Biologia não é um conjunto de fatos. Na verdade,
ela é um “jogo” que determinadas pessoas “jogam”. Estas pessoas se
envolvem em um determinado tipo de atividades, usam tipos
característicos de ferramentas e de linguagens e compartilham
determinados valores, ou seja, elas jogam de acordo com um
determinado conjunto de “regras”. Elas fazem biologia. É claro que elas
aprendem, usam e retêm muitos e muitos fatos – e mesmo os
produzem –, mas os fatos vêm do fazer, junto com o fazer. Fora do

�210
contexto da biologia enquanto atividade, os fatos da biologia são meras
trivialidades (GEE, 2009, p. 169).

Contudo, é importante ressaltar que o jogo é um momento desprovido
de consequências para a realidade de seu jogador, como afirma Roger Caillois
“o jogo não passa de uma fantasia agradável e de uma distração inútil,
quaisquer que sejam o cuidado que lhe dediquemos, as faculdades que
mobiliza o rigor que exigimos” (. ele irá assimilar experiências, conhecimento
e, até mesmo, fortes emoções. Mas, ainda assim, isso não afetará diretamente
sua vida factual, pois, quando ocorre, o jogo se torna um esporte, em que o
ganhar se torna um elemento prioritário em detrimento da experiência de
jogo, a qual é justamente quando ocorre a mediação da informação e do
conhecimento por meio dos desafios.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A mediação do conhecimento por meio dos desafios está relacionada com
o desenvolvimento de competências informacionais devido à necessidade de
que o usuário consiga lidar com esses cenários propostos para incentivar seu
aprendizado. Se tratando de contextos no qual o usuário precisa assimilar,
discernir e utilizar a informação de maneira eficiente, estando livre para fazer
isso da forma como ela melhor conseguir, pode-se dizer que é um processo de
mediação ao desenvolvimento do próprio conhecimento do usuário sobre as
informações e cenários dispostos.
Diferente

da mediação do conhecimento que atua por meio da

comunicação direta entre o mediador e o interlocutor, na mediação por meio
do desafio, o ludema assume o papel de mediador. Sendo o processo ludemíco
e a ação do jogador o próprio meio de aquisição e apropriação da informação
para a produção do conhecimento. O ludema em si é um conceito complexo e
com níveis de profundidade ainda inexplorados, tendo vários tipos diferentes
de ludemas, os quais possivelmente possuem subtipos. No entanto, devido ao
estado da arte da pesquisa, além de evitar a produção de um capítulo

�211

enciclopédico, neste trabalho foi abordado o aspecto básico e chave do ludema
para a ciência da informação.
O ludema, por se tratar de um conceito novo, não possui muitos
trabalhos

para serem usados como

referências devido à maioria das

contribuições sobre tal conceito serem rasas. Será necessário um longo
trabalho para aprofundarmos a compreensão sobre as características e
peculiaridades info-comunicacionais dos ludemas. A pesquisa que deu base
para este trabalho é um esforço de anos, da qual somente uma fração foi
relatada aqui. O famigerado, pitoresco, caótico, abissal, bufão e excêntrico
autor deste trabalho afirma com afinco que seguirá desenvolvendo essa
pesquisa em seu futuro mestrado, doutorado e afins. O mesmo irrefreável
autor espera que você leitor se depare com os textos futuros sobre essa
pesquisa inusitada.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Carlos Cândido de. Mediação como processo semiótico: em busca de
bases conceituais. Tendências da pesquisa brasileira em Ciência da
Informação, p. 1-18, 2012.
ALMEIDA, Marco Antônio de. Mediações da cultura e da informação:
perspectivas sociais, políticas e epistemológicas. Tendências da Pesquisa
Braileira em Ciência da Informação, v. 1, n. 1, 2008.
BRANCO; Marsal Alves. Jogos digitais, teorias e conceitos para uma
mídia indisciplinada. 2011. 171 f. Universidade do Vale do Rio dos Sinos –
Programa de pós-graduação de Ciências da computação, São Leopoldo, 2011.
CAILLOIS, Roger. Os jogos e os homens: a máscara e a vertigem. Editora
Vozes Limitada, 2017, 301 p.
CRUZ, Jose Marcos de Oliveira. Processo de ensino-aprendizagem na sociedade
da informação. Educação e Sociedade, v. 29, n. 105, p. 1023-1042, 2008.
GAZOLLA, Ana Lúcia Almeida. O enigma de Édipo-Rei: dualismo e
temporalidade. Ensaios de Literatura e Filologia, v. 4, p. 53-66, 1983.
GEE, James Paul. Bons video games e boa aprendizagem. Perspectiva, v. 27,
n. 1, p. 167-178, 2009.

�212

GOMES, Henriette Ferreira. A dimensão dialógica, estética, formativa e ética da
mediação da informação. Informação &amp; Informação, v. 19, n. 2, p. 46-59,
2014.
GOMES, Henriette Ferreira. A mediação da informação, comunicação e
educação na construção do conhecimento. DataGramaZero-Revista de
Ciência da Informação, v. 9, n. 1, p. 1-15, 2008.
NEGRINE, Airton. Simbolismo e jogo. Editora Vozes Limitada, 2015. 233 p.
PINHEIRO, Cristiano Max Pereira; BRANCO, Marsal Alves. Em Busca dos
Ludemas Perdidos. SBC - Proceedings of SBGames'08: Art &amp; Design Track.
Belo Horizonte, MG – 2012. 10 nov. 6 p.
REIS, Breno Maciel Souza et al. A cidade como tabuleiro: um estudo das
dinâmicas de jogo na rede social móvel Foursquare. PUCRS / PPGCOM. Porto
Alegre, 2013, 246 p.
SAVI, Rafael; ULBRICHT, Vania Ribas. Jogos digitais educacionais: benefícios e
desafios. Renote, v. 6, n. 1, 2008.
SILVA, Antonio Felipe Galvão; MIRANDA, Antonio; BAPTISTA, Sofia Galvão. A
poesia visual e os conceitos de hipertextualidade, interatividade e
hipermediação da informação: relato de pesquisa. In: Alfabetização Digital e
Acesso ao Conhecimento, Brasília, v. 4, n. 1, p. 215-227, 2006.
SILVA, Edna Lúcia da; LOPES, Marili Isensee. A internet, a mediação e a
desintermediação da informação, 2011. 9 p.
VARELA, Aida. A explosão informacional e a mediação na construção do
conhecimento, 2012. 11 p.
VIAL, Jean. Jogo e educação: as ludotecas. Editora Vozes Limitada, 2019.
247 p.
DADOS BIOGRÁFICOS

Jose Ricardo da Silva Neto: Graduado em
Biblioteconomia. Pesquisador na área de Ciência
da Informação, com o foco em jogos digitais,
produção do conhecimento e imaginário.
E-mail: falecomjosericardosilva@gmail.com

�213

CAPÍTULO XI - Bibliotecas e colecionismo: uma experiência
de mediação da leitura por meio da exposição de
marcadores de páginas
Valéria Rodrigues de Oliveira

1 INTRODUÇÃO
O presente artigo objetiva apresentar um relato de experiência sobre a
exposição de marcadores de páginas, ou marcadores de livros utilizados, a
princípio, como um agente de entretenimento pessoal e que, posteriormente,
fora percebido como instrumento mediador da leitura, uma vez que a
exposição pode propiciar uma ponte direta entre o leitor e o livro despertandoo para o hábito da leitura.
Dependendo do seu leiaute, o marcador de páginas pode atrair a atenção
do visitante e mexer com sua imaginação. Uma simples ilustração, formato,
citação, parágrafo, textura ou até mesmo uma frase podem ser suficientes
para aguçar o interesse de um leitor, ávido por novas informações ou também
para quem só busca o entretenimento.
O relato de experiência foi embasado nas observações e interações feitas
durante as dez exposições de marcadores realizadas, entre o período de 2014
a 2018 e, visando buscar embasamento teórico, foi realizada pesquisa
documental em tese, livros e artigos que abordavam os temas mediação da
leitura, marcadores de páginas e colecionismo.
Objetivou promover um processo reflexivo que pudesse contribuir para
entender as possíveis relações existentes entre a mediação da leitura, por
meio da exposição de marcadores de páginas na esfera da biblioteca enquanto
ação cultural e o colecionismo, termo esse definido por Farina, Toledo e Corrêa
(2006, p. 1) “como o processo de adquirir e possuir coisas de forma ativa,
seletiva e apaixonada, que fazem parte de um conjunto de objetos não
idênticos e que não são utilizadas na sua forma usual”.

�214

Quanto a temática relacionada aos marcadores de páginas, enquanto
material de mediação da leitura na perspectiva do colecionismo, não foi
localizado referencial no âmbito da biblioteconomia, motivação essa que me
inspirou, enquanto bibliotecária, a relatar tal experiência por meio da
exposição de marcadores de páginas para que, futuramente, possa servir de
consulta para outros profissionais, que porventura venham a pesquisá-la.
Para tanto, é necessário refletir um pouco em torno do tipo da mediação
da leitura, que direciona para a pesquisa realizada por Martins (2010, p. 194),
ao relatar que o termo mediação está relacionado à “prática e/ou processo que
envolve o fluxo, a transferência e a apropriação da informação, a elaboração
de conhecimento e sentidos pelos sujeitos, podendo estar apoiada no agente
mediador especializado, o bibliotecário ou profissional da informação e nos
dispositivos tecnológicos”.
Para Macedo e Silva (2015, p. 65) “a noção de mediação da informação
implica em ações que auxiliam nas formas de interação entre os seres
humanos, de como essas relações podem contribuir para o compartilhamento
de ideias, saberes, fazeres e manifestações culturais, que resultam na
construção individual e coletiva do conhecimento”.
Já segundo Martins (2014, p. 166) “mediação é a ação de dividir em dois
ou estar no meio, indicando ideias de interveniência, relação, conjugação,
religação, ponte ou elo estabelecido nas relações humanas, por meio de um
elemento mediador”, que no caso em questão é a coleção de marcadores de
páginas que está sendo utilizada como mediadora da leitura, visando promover
o incentivo à leitura.
“Os mediadores de leitura são aquelas pessoas que estendem pontes
entre os livros e os leitores, ou seja, que criam as condições para fazer com
que seja possível que um livro e um leitor se encontrem” (CENTRO DE
ALFABETIZAÇÃO,

LEITURA

E

ESCRITA,

200?).

Assim

sendo,

enquanto

bibliotecária, essa foi a “ponte” proposta, utilizar a exposição de marcadores
de páginas como uma ação cultural de mediação da leitura na biblioteca.

�215

Face aos conceitos aqui expostos percebe-se que a temática “mediação”
permeia tanto as atividades inerentes ao fazer bibliotecário, na qual podemos
incluir a exposição de marcadores, assim como a unidade de informação na
qual está sendo realizado o evento, com o propósito de trazer para fora da
biblioteca essa ação cultural, promovendo maior visibilidade.
Etimologicamente a palavra mediação designa, segundo Geiger (2001, p.
908) “ação ou resultado de mediar, de servir de mediador. Relação que se
estabelece entre duas pessoas, coisa, ideias etc. por intermédio de uma
terceira (coisa, ideia, etc.)”.
Propondo conhecer um pouco sobre o surgimento dos marcadores, a
seguir será traçado um breve percurso histórico.

2 CONHECENDO O SURGIMENTO DOS MARCADORES
Os marcadores de página (ou de livros) mais antigos que se conhecem
datam do período entre os Séc. XIII e XV d.C., tendo sido encontrados em
manuscritos de scriptoria medievais de monastérios europeus. Nesse período,
os marcadores eram feitos de velino (pele de mamífero preparada para receber
manuscritos e impressões para a produção de páginas soltas, códices e livros)
ou couro, também utilizados para confeccionar capas de livros.
Contudo, no início do Séc. XXI teve-se conhecimento de um marcador
que datava de 500 a.C. o que, se supõe, que esses objetos podem ter sidos
utilizados em códices desde que os mesmos começaram a surgir, por volta do
século I.
Segundo Pedrão e Murquia (2013, p. 400) “no Séc. XVII, primava o
gosto pelo diferente, desconhecido e curioso, sendo o colecionismo uma
atividade desenvolvida principalmente por príncipes, pelo alto clero e pelos
humanistas”.
Segundo Maner (2016) a história oficial dos marcadores é dividida em
três períodos distintos a saber:

�216


marcadores antigos e medievais, que datam de 0 a 1500 d.C.: coincide
com a Era Cristã, tendo sido encontrados em códices no Egito e
Alemanha;



marcadores da idade moderna, de 1500 a 1980: foram encontrados em
livros no período da renascença e por volta dos Séculos XVII e XVIII e os



marcadores contemporâneos, de 1980 até a data presente, é um período
em que apresentam maior diversidade de desenhos e materiais, sendo
confeccionados

em

diferentes

formatos

e

muito

utilizados

para

propaganda de livros.
A primeira referência ao uso do marcador de livros ocorreu em 1584,
quando o Impressor real da Inglaterra, Christopher Barker, presenteou a
rainha Elizabeth I com um marcador de seda com franja (MANER, 2016).
No reinado da Rainha Vitória, período que compreende junho de 1837 a
janeiro de 1901, no Reino Unido, as senhoras ensinavam a arte de bordar
marcadores às suas filhas, como forma de demonstrar suas habilidades. Assim,
muitos marcadores foram confeccionados e utilizados para presentear os
amigos e familiares (HISTORY...acesso em 20 abr. 2019).
Com a morte da Rainha Vitória seu filho Eduardo a sucedeu, de 1901 a
1910 e, nesse período, os marcadores eram confeccionados com materiais
mais luxuosos passando a serem utilizados pelos livreiros, editores, papeleiros
e outras empresas que viram nesse material um potencial como forma de
divulgação de seus produtos e serviços. (HYSTORY... acesso em 20 abr. 2019).
O holandês Frank Divendal, que coleciona marcadores diversificados de todo o
mundo desde 1982 possui o maior acervo, com 103.009 (cento e três mil e
nove marcadores), conforme registro datado de 8 de fevereiro de 2010. Ele os
classifica por países, separando-os por temas como livrarias, bibliotecas,
turismo entre outros. Os seus favoritos são os confeccionados em papel.
(GUINNESS, 2019).

�217

3 COMO SURGIU O INTERESSE DE COLECIONAR OS MARCADORES DE
PÁGINAS?
O interesse pelos marcadores de páginas ou livros surgiu quando ainda
era estudante de biblioteconomia e estagiava em uma instituição particular na
cidade de Vila Velha/ES, no ano de 2000. Uma das minhas atividades era repor
e organizar os livros e revistas nas estantes e, por vezes, encontrava algum
marcador que era deixado dentro do livro. Assim eram guardados em uma
gaveta até que alguém viesse buscá-los. Como isso raramente acontecia, aos
poucos fui armazenando-os até que contabilizou mais de 300 (trezentos)
itens.
Cerca de 90% dos marcadores da coleção é proveniente de achados
entre os livros que eram guardados nas estantes e doação de colegas de
trabalho, amigos e familiares que me presenteiam com algum deles. Os outros
10% são de aquisições feitas durante viagens a passeio e eventos da área de
biblioteconomia, para complementar a coleção.
Os colegas de trabalho sabem que coleciono e sempre que tinham algum
me doavam e, sem perceber, isso acabou se tornando um hobby. Conforme
relatam Farina, Corrêa e Toledo (2006, p. 5):
O colecionador se apaixona pelos objetos colecionados, por sua coleção,
e ela faz parte de sua vida. A coleção tem o significado de reconstrução
do passado, real ou imaginado, e os colecionadores estão engajados
num processo de descoberta de si mesmos. A coleção permite ao
colecionador o reforço da própria identidade.

E assim, de forma despretensiosa, fui colecionando marcadores de páginas
dos mais variados formatos, materiais e tamanhos, buscando aliar a profissão de
bibliotecária ao lazer. Até o momento já são mais de 3.000 (três mil) itens, assim
sendo, acredito que já posso me considerar uma colecionadora, termo definido por
Lopes (2010, p. 382), “como o hábito de juntar ‘coisas’ que possuem propriedades
ou características comuns que servem para conhecer o mundo”.
Também há um leque de situações relacionadas ao colecionismo que podem
ser realizadas conforme destacam Masques e Hilbert (2009, p. 43):

�218
As práticas relacionadas a atos de colecionar estão circunscritas às mais
diferentes
motivações,
propósitos,
sentidos
e discursividades.
Colecionar, segregar, juntar, sistematizar, escolher, manter, resgatar,
descartar, codificar e outros critérios norteadores da constituição de
coleções são vivenciados.

A Instituição na qual atuo, o Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Espírito Santo – Ifes, conta com vinte e dois campi espalhados
pelo estado do Espírito Santo e, no momento que fui convidada a realizar a
primeira exposição de marcadores no campus Vila Velha, e posteriormente nos
demais campi, foi possível perceber que a coleção poderia ser utilizada no
ambiente bibliotecário como instrumento mediador da leitura, devido a
configuração material do marcador de páginas está indissociável do livro, haja
vista trazem informações relativas ao livro que os representam, enquanto
objeto cultural que é permeado pela sua evolução histórica. Conforme relatam
Macedo e Silva (215, p. 69):
A mediação da informação está presente em todas as ações que o
profissional da informação, especialmente o bibliotecário, pode
desenvolver e não somente no Serviço de Referência como usualmente
é considerado, nessa concepção, este profissional passa assumir a
posição de mediador subjetivo, haja vista, que a mediação da
informação propõe ações de interferência que ultrapassam os limites
entre o usuário e a informação.

No Quadro 1 a seguir é possível visualizar o número de exposições
realizadas, os eventos, locais e suas respectivas datas.
Quadro 1 - Exposições realizadas
Nº de
exposições
1ª
2ª
3ª
4ª
5ª
6ª
7ª
8ª
9ª

Evento e local da exposição realizada

Data da exposição

28 de novembro de
2014
IV Semana do Livro e da Biblioteca – Ifes campus Vila 24 a 27 de outubro
Velha
de 2016
1ª Semana do Livro e da Biblioteca – Ifes campus
07 de novembro de
Centro-Serrano
2016
Dia Nacional do Livro e da Biblioteca – Ifes campus São
08 de outubro de
Mateus
2016
1º Festival de Marcadores – Masterplace Mall – Vitória
1º abril de 2017
Inauguração no novo espaço da Biblioteca – Ifes
08 de agosto de
campus Centro-Serrano
2017
3º Festival de Marcadores e 20º Amigo Livro –
15 de setembro de
Masterplace Mall – Vitória
2018
Semana do Livro e da Biblioteca – Ifes campus Centro29 de outubro de
Serrano
2018
Semana do Livro e da Biblioteca – Ifes campus Vitória
12 de novembro de
4º aniversário do Ifes – campus Vila Velha

�219
Nº de
exposições

Evento e local da exposição realizada

Data da exposição
2018

10ª

1º Festival de Marcadores e Festival Literário do Amigo
Livro – Masterplace Mall – Vitória
Fonte: Elaborado pela autora (2019).

15 de junho de 2019

O primeiro convite para expor a coleção de marcadores foi em novembro
de 2014, no quarto aniversário do Ifes, Campus Vila Velha, local onde
atualmente estou lotada. Para tanto, os marcadores foram expostos em uma
grande mesa, com um cartaz feito à mão, trazendo o breve histórico dos
marcadores (FIGURA 1).
Figura 1 - Primeira exposição de marcadores realizada no campus Vila Velha, em 2014

Fonte: Autoria própria (2014).

Durante a exposição havia interação com os visitantes, que ficaram
surpresos com a referida coleção nunca antes vista. Muitos faziam referência a
alguns marcadores aos quais os livros já haviam sido lidos, outros relatavam
interesse pela leitura de algum livro ali representado no marcador, assim como
aguçava a curiosidade em buscar informações sobre algo que era representado
naquele pequeno suporte.
Com a divulgação do evento nas redes sociais foram surgindo outros
convites para expor e, a segunda exposição, ocorreu no evento da IV Semana
do Livro e da Biblioteca do Ifes de Vila Velha, de 24 a 27 de outubro de 2016,

�220

durante a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, instituída pelo Decreto Nº
84.631 de 09 de abril de 1980, com início em 23 de outubro e término em 29
do mesmo mês, no qual dia 29 de outubro também é comemorado o Dia
Nacional do Livro, instituído pela Lei 5.191 de 18 de dezembro de 1980.
A experiência de expor os marcadores de páginas foi se tornando muito
gratificante, pois comecei a perceber o encantamento dos alunos pela coleção
de marcadores e isso me motivou a dar seguimento a ideia de expô-los, porém
de forma mais profissional. Assim, com a colaboração de uma colega
bibliotecária, foram elaborados dois banners para apresentação da coleção,
sendo um de apresentação da exposição e o outro contendo uma breve
história dos marcadores, conforme ilustrado na Figura 2.
Figura 2 – Banners da exposição de marcadores de páginas

Fonte: Autoria própria (2016).

Em seguida recebi o convite da bibliotecária do Ifes, Campus CentroSerrano, para fazer uma exposição na inauguração da biblioteca, que ocorreu
em 07 de novembro de 2016. Nesta instituição a receptividade foi bem maior
por parte dos alunos do curso técnico em administração integrado ao ensino

�221

médio, haja vista serem frequentadores assíduos da biblioteca e alegavam
adorar leitura.
O quarto convite para expor a coleção de marcadores veio da
bibliotecária do Ifes de São Mateus e foi realizada em 08 de outubro de 2016,
em comemoração ao Dia Nacional do Livro.
Neste evento havia dois biombos de madeira com duas partes cada
(FIGURA 3), nos quais os marcadores foram dispostos em suportes plásticos,
além de duas mesas. As visitações eram feitas no intervalo das aulas e de
outro evento, que ocorria paralelamente.
Figura 3 - Quarta exposição de marcadores realizada no Ifes, campus São Mateus, em 2016

Fonte: Autoria própria (2016).

Devido a repercussão das exposições entre os colegas do Ifes, alunos e
redes sociais fui convidada a participar do Primeiro Festival de Marcadores,
cujo objetivo visava distribuir o máximo de marcadores possíveis aos
participantes, pelo Bruno Mattos, um dos idealizadores do “Amigo Livro, que é
um projeto literário que reúne apaixonados por literatura através de suas
ações e eventos periódicos na Grande Vitória” (AMIGO... 2018).
O evento aconteceu em 1º de abril de 2017, no Masterplace Mall em
Vitória, onde realizei minha quinta exposição, dessa vez para um público um
pouco mais diversificado de leitores e também outros colecionadores de

�222

marcadores com quem pude trocar experiências, além de familiares, amigos e
colegas bibliotecárias que me prestigiaram com a visitação.
A sexta exposição foi realizada na inauguração do novo espaço da
biblioteca do Ifes Centro-Serrano, localizado em Santa Maria de Jetibá, em 08
de agosto de 2017. Os alunos desta instituição ficaram encantados e
demonstraram interesse em conhecer um pouco mais sobre a história dos
marcadores, sinalizavam para os que já haviam sido lidos e buscavam, no
acervo da biblioteca, a existência de alguns livros representados no marcador
para leitura.
Como somente a partir desse evento comecei a disponibilizar uma lista
de assinatura para os visitantes, consegui contabilizar mais de 80 pessoas que,
ao assinarem, recebiam marcadores de páginas, sendo distribuída uma média
de 100 (cem) marcadores.
A sétima exposição aconteceu no 3º Festival de marcadores, do 20º
Amigo Livro, no Masterplace Mall, em Vitória, dia 15 setembro 2018, cujo
público não era composto de alunos do Ifes que, dada sua localização
comercial, era bem heterogêneo e aguçava a curiosidade para a coleção.
Algumas pessoas achavam que a coleção poderia ser comercializada e, ao
explicar sua real função, ficavam perplexos com o quantitativo existente.
No decorrer das exposições há interação com os visitantes, momento em
que são fornecidas informações sobre a história dos marcadores e da coleção
e, como forma de agradecimento e incentivo à leitura, são doados alguns
marcadores duplicados.
Novamente fui convidada a realizar outra exposição na Semana do Livro
e da Biblioteca, no Ifes campus Centro-Serrano, localizado em Santa Maria de
Jetibá, em 29 de outubro de 2018.
Na Semana do Livro e da Biblioteca do Ifes de Vitória, que aconteceu em
12 de novembro de 2018, houve a nona exposição, para um número bem
maior de alunos, haja vista o campus oferta dez cursos técnicos, um de
qualificação profissional, seis de graduação e oito de pós-graduação (FIGURA
4).

�223
Figura 4 – Foto da 10º Exposição realizada na Semana do Livro e da Biblioteca do Ifes campus
Vitória, em 2018

Fonte: Autoria própria (2018).

Nesta exposição foram recolhidas quase oitenta assinaturas, no entanto,
não foi contabilizado o total de pessoas que visitaram esta exposição, assim
como também as demais, pois não havia essa preocupação.
Em 15 de junho de 2019 fui convidada novamente pelo Bruno Mattos a
participar do Festival de Marcadores e Festival Literário do Amigo Livro,
ocorrido no Masterplace Mall em Vitória, contabilizando dez exposições.
Aos

poucos

fui

percebendo

que

havia

muitos

apaixonados

por

marcadores e que, em meio aos que eram expostos, estavam aqueles que
remetiam os leitores aos livros lidos e, muitas vezes, estavam esquecidos em
algum lugar do passado e os despertam para uma releitura ou, até mesmo,
doação ou empréstimo intencionando compartilhar o conhecimento adquirido.
E por meio dessa interação, entre bibliotecário, visitantes e marcadores
era possível proporcionar uma troca de informações riquíssima, inclusive com

�224

indicações de leitura entre os participantes e discussões sobre o conteúdo do
livro.
Por isso, além de livros, um mediador de leitura lê seus leitores: quem
são, o que sonham e o que temem, e quais são esses livros que podem
criar pontes com suas perguntas, com seus momentos vitais e com essa
necessidade de construir sentido que nos impulsiona a ler, desde o
começo e ao longo da vida. (CENTRO DE ALFABETIZAÇÃO, LEITURA E
ESCRITA, 200?).

4 RELATO DE EXPERIÊNCIA
A exposição dos marcadores, na maioria dos eventos, é feita em mesas,
visando melhor visibilidade e disposição dos mesmos, devido a sua variedade
de formatos e tamanhos. Com o intuito de preservá-los do manuseio incorreto,
que pode vir a danificá-los, são cobertos por um plástico de forma que,
também, os visitantes não os retirem do local pois muitos, no ímpeto,
chegavam a pegá-los com o intuito de levar, achando que eram para doação.
Já outros ficavam tão encantados com alguns que perguntavam da origem
daquele marcador, haja vista:
A coleção é composta por objetos que têm um valor representativo,
estético, fora de seu propósito original e que representam uma ideia ou
sentimento. Cada peça dentro da coleção pode ter perdido seu valor
monetário ou utilitário, mas foi acrescida de um valor sentimental e
pessoal que apenas o dono da coleção pode lhe dar: valores que
representam memórias, momentos específicos da vida, lembranças de
determinadas fases ou viagens, por exemplo. (PEDRÃO; MURQUIA,
2013, p. 397).

Objetivando dar visibilidade a exposição, dois banners eram colocados
em locais estratégicos e bem próximos da coleção de marcadores.
Visando facilitar a arrumação dos marcadores foi realizado um processo
de categorização por assuntos, ficando assim dispostos: religiosos, importados,
de bibliotecas, orelhas de livros, com corte especial (madeira, plástico, papelão
etc.), artesanais (tecido, papel, EVA entre outros), com ímãs, de autores
capixabas, em formato de calendário e de régua, de instituições públicas, de
séries especiais e variados, sendo identificados por esses grupos.

�225

Essa disposição faz uma alusão à organização de acervo, de forma a
remeter os visitantes ao espaço de uma biblioteca, como se estivesse entre as
estantes em busca do seu livro.
A coleção é armazenada em bolsa apropriada para o transporte sendo:
alguns dentro de uma caixa, outros em pastas catálogos que, devido sua
disposição, facilitam o manuseio e visualização, de forma que não sejam
danificados. Já os banners são enrolados e embalados sendo dispostos em
tripés, ou outro suporte que houver no local.
As exposições ocorridas no âmbito do Ifes tinham duração média de três
horas cada, enquanto as outras ligadas ao Festival de Marcadores foram de
cinco horas cada uma. Importante destacar que todas as exposições são
realizadas de forma gratuita e o custo com o deslocamento é por minha conta.
Foi possível observar que os marcadores que mais chamavam atenção
dos visitantes eram aqueles bem coloridos, ou com o leiaute diferenciado,
sendo muito gratificante ver que esse tipo de material tem o poder de
despertá-los para a leitura.
Como grande parte da coleção é proveniente de doações, cada marcador
tem uma história ímpar que foi regada a um sentimento de carinho, amor e
afeto, já que alguns deles foram confeccionados exclusivamente para me
presentear, o que me deixa imensamente lisonjeada pelo fato desse trabalho
ser valorizado e reconhecido, principalmente, pelos colegas bibliotecários que
visualizam no marcador a extensão do meu trabalho.
Assim, mesmo se percebendo que o colecionismo apresenta uma
diversidade grande de estímulos e intenções, é importante enfatizar que
essas práticas devem ser pensadas em razão da biografia das pessoas,
no sentido de que o momento em que se começa a colecionar e os
motivos das coleções têm relação com a trajetória de vida das pessoas,
e marcam propriedades atribuídas a seus ciclos de vida. E embora se
trate de um aspecto sempre subjetivo, a relação que as coleções
estabelecem com a vida das pessoas é um motivo interessante para
pensar, para pesquisar e, ao mesmo tempo, para compreender a forma
pela qual as coleções depois são expostas, ou não, e em que condições,
ou atendendo a que intencionalidade (LOPES, 2010, p. 386).

O relato dessas experiências foi baseado nas observações e interações
obtidas durante as dez exposições de marcadores realizadas, entre o período
de 2014 e 2018. Segundo Kauark, Manhães e Souza (p. 20, 2010) “na

�226

observação, são aplicados atentamente os sentidos a um objeto, a fim de que
se possa, a partir dele, adquirir um conhecimento claro e preciso. A
observação deve ser exata, completa, imparcial, sucessiva e metódica”.
Assim sendo, pode-se depreender que há uma relação direta da prática
biblioteconômica com o ato de colecionar e expor os marcadores. Percebe-se
que essa atividade perpassa por quase todos os processos de organização do
acervo de uma biblioteca, que vão desde a seleção, aquisição, organização,
preservação e disponibilização desses materiais informacionais, já que os
marcadores são utilizados, também, como objetos de mediação e incentivo à
leitura no âmbito do Ifes.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Devido à particularidade de cada marcador e seu modo de aquisição, até
porque a maioria foi recebida por doação e se funde com a minha trajetória de
vida profissional, haja vista ter iniciado a coleção quando ainda era estagiária
do curso de biblioteconomia, e a profissão está diretamente relacionada à
prática de selecionar, adquirir, classificar, organizar, armazenar e disponibilizar
os materiais informacionais, nada mais apropriado que utilizar a coleção de
marcadores para promover ação cultural na esfera da biblioteca.
Embora não tenha sido possível encontrar referencial teórico que
abarcasse a temática do colecionismo de marcadores de páginas, utilizado
enquanto objeto de mediação da leitura, em relação a perspectiva da mediação
da leitura, com base na visão dos autores aqui citados, há o entendimento de
que é possível estabelecer tal relação, que se dá mediante a prática de
armazenar objetos com propósitos diversos, e a mediação da leitura,
proporcionada por relações entre coisas e pessoas que podem resultar em
ações culturais que contribuam para o compartilhamento de saberes.
Face ao exposto, embasada nas bibliografias descritas e, mesmo que de
forma empírica, infere-se que a coleção de marcadores de páginas pode ser
considerada como mais um recurso mediador da leitura em ações culturais na

�227

biblioteca a ser adotado pelo bibliotecário, haja vista possibilitar despertar nos
visitantes da exposição o interesse em conhecer um pouco mais sobre a
história do que está sendo representado no marcador.
Nessa perspectiva, o presente artigo pretende promover reflexões e
propor que outras iniciativas acerca do tema abordado possam surgir, abrindo
novos caminhos para que os bibliotecários adotem outros materiais, que não
só os convencionais “livros”, como material de mediação da leitura em uma
ação cultural da biblioteca.
Toda essa interação com as exposições despertou para a necessidade de
criação de um marcador de páginas personalizado, a ser distribuído aos
visitantes de futuras exposições e na biblioteca onde trabalho, visando
incentivá-los a utilizá-lo durante a leitura. Assim sendo, contando com a
habilidade de uma colega bibliotecária, para quem repassei as informações que
gostaria que fossem incluídas no marcador, resultou neste que segue ilustrado
nas Figuras 5 e 6 a seguir:
Figura 5 - Frente do meu marcador

Fonte: Autoria própria (2019).
Figura 6 - Verso do meu marcador

Fonte: Autoria própria (2019).

�228

REFERÊNCIAS
AMIGO livro. Disponível em: https://www.facebook.com/amigolivroes/. Acesso
em: 23 nov. 2018.
CENTRO DE ALFABETIZAÇÃO, LEITURA E ESCRITA. Glossário do Ceale.
Disponível em:
http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/mediadores-deleitura. Acesso em: 2 jul. 2019.
FARINA, Milton Carlos; TOLEDO, Geraldo Luciano; CORRÊA, Gisleine Bartoomei
Fregoneze. Colecionismo: uma perspectiva abrangente sobre o comportamento
do consumidor. In: SEMINÁRIO BRASILEIRO DE ADMINISRAÇÃO COM
CONTEXTO INTERACIONAL, 6, 2006. São Paulo. Anais... São Paulo, FEAUSP,
2006. p. 1-15.
GEIGER, Paulo (Org.). Novíssimo Aulete dicionário contemporâneo da
língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2011. xxxi, 1456 p.
GUINNESS World Records. @2019. Maior coleção de marcadores.
Disponível em: http://www.guinnessworldrecords.com.br/worldrecords/largest-collection-of-bookmarks. Acesso em: 26 abr. 2019.
HISTORY of bookmarks. Disponível em:
http://miragebookmark.ch/wb_history.htm. Acesso em: 20 abr. 2019.
KAUARK, Fabiana; MANHÃES, Fernanda Castro; SOUZA, Carlos Henrique
Medeiros de. Metodologia da pesquisa: um guia prático. Itabuna, BA: Via
Litterarum, 2010. 97 p.
LOPES, José Rogério. Colecionismo e ciclos de vida: uma análise sobre
percepção, duração e transitoriedade dos ciclos vitais. Horizontes
Antropológicos, Porto Alegre, ano 16, n. 34, p. 377-404, jul./dez. 2010.
MANER, Asim. Earliest history of bookmarks. International Friends of
Bookmarks, n. 1, feb. 2016.
MACEDO, Naiara Oliveira; SILVA, Jonathas Luiz Carvalho. Revista de
Biblioteconomia e Ciência da Informação, v.1, n. 1, p. 64-74, jan./jun.,
2015. Disponível em:
http://www.brapci.inf.br/index.php/article/download/51882. Acesso em: 1 jul.
2019.
MARTINS, Ana Amélia Lage. Mediação e bibliotecas públicas: uma perspectiva
dialética. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 19, n. especial, p.
164-185, out./dez. 2014. Disponível em:

�229

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S141399362014000500013&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt . Acesso em: 7 jul. 2019.
MARTINS, Ana Amélia Lage. Mediação: reflexões no campo da ciência da
informação. 2010. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais, 2010. Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ECID88MHR9/dissertacao_ana_amelia.pdf?sequence=1. Acesso em: 2 jul. 2019.
MARQUES, Marcélia; HILBERT, Klaus. Coisas colecionadas: um jeito (conceitual
e intuitivo)de lidar com a cultura material. Métis: história &amp; cultura, Caxias do
Sul, v. 8, n. 16, p. 43-72, jul./dez. 2009. Disponível em:
http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/metis/article/view/949. Acesso em:
8 jul. 2019.
PEDRÃO, Gabriela Bazan; MURQUIA, Eduardo Ismael. Formação das
bibliotecas: uma abordagem desde a perspectiva do colecionismo. Revista da
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, Porto Alegre, v.
19, n.2, jul./dez. 2013. Disponível em:
https://seer.ufrgs.br/EmQuestao/article/view/36306/31064. Acesso em: 18
dez. 2018.

DADOS BIOGRÁFICOS

Valéria
Rodrigues
de
Oliveira:
Mestre
em
Biblioteconomia pela Universidade Federal do estado do Rio
de Janeiro - UniRio (2016), graduada em Biblioteconomia
pela Universidade Federal do Espírito Santo - Ufes (2001),
especialista em Educação a Distância pela Universidade
Católica de Brasília (2006). Atualmente bibliotecária do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do
Espírito Santo - Campus de Vila Velha. Pesquiso temas
ligados às habilidades e competências informacionais,
biblioteconomia
social
e
colecionismo.
Coordenadora da Biblioteca Zilma Coelho Pinto.
E-mail: valmarcadores@gmail.com / vpozzatti@ifes.edu.br

�230

CAPÍTULO XII - Revistas científicas e suas contribuições
para a mediação da informação
Edna da Silva Angelo
Marlene Oliveira

1 INTRODUÇÃO
As revistas científicas têm como principal atributo a dinamização da
produção e transmissão da informação. Sua introdução surte alterações que
não só afetam a produção de bens e serviços como interferem nos aspectos
culturais e nas formas de interação social.
Esses

meios

de

comunicação

científica

possibilitam

vantagens

e

melhorias na qualidade de vida, pois agilizam e disponibilizam bem-estar a
partir do desenvolvimento das ciências, das artes e, sobretudo, da realização
pessoal, haja vista a ampliação da consciência, do conhecimento, da cidadania
e do engajamento no compromisso da construção de uma sociedade justa e
democrática. Assim, vê-se a demanda crescente para refletir e compreender os
elementos envolvidos sobre esse canal de informação.
O objetivo deste artigo é apresentar as principais características e
funções da revista científica e as contribuições que elas exercem no processo
de mediação da informação científica. O estudo realiza observações sobre o
suporte e a estrutura das revistas, considerando o percurso histórico de sua
existência e o cenário em que elas nasceram e se desenvolveram. Além disso,
relaciona o papel desempenhado pelas revistas no contexto da mediação da
informação.

�231

2

PANORAMA

SÓCIO-HISTÓRICO

DA

ORIGEM

DAS

REVISTAS

CIENTÍFICAS
Durante a Idade Média, a informação foi monopolizada pela Igreja
Católica, que exercia a função de Estado como principal organização, criando
um controle, não apenas sobre a informação em si, mas principalmente sobre
a forma como ela poderia ser entendida ou distribuída (BURKE, 2003). O
reconhecimento científico era realizado por essa instituição com preceitos
religiosos, e a criação de ideias era vigiada, questionada e, quando a Igreja
discordava, punida (BARTLING; FRIESIKE, 2014).
Nos séculos XIV e XV, ocorreu um movimento inovador e consciente no
sentido de se opor ao saber convencional dos “escolásticos”. Denominado de
Renascimento, teve início na Itália e se propagou pela Europa, alterando as
visões sobre o homem e o mundo (BARTLING; FRIESIKE, 2014). A partir de
então, surgiu a preocupação em se fortalecer observações empíricas da
realidade concreta, e o saber passou a não repousar somente na especulação,
ou seja, no simples exercício do pensamento (LAVILLE; DIONNE, 1999).
Nessa conjuntura, e com a criação do aparelho de impressão de
Gutenberg, no século XV29 - que facilitou o acesso e a multiplicação da
circulação documental - a informação ganhou um aspecto público (BURKE,
2003). Essa máquina foi um acelerador decisivo para a difusão das ideias (por
permitir a reprodução rápida de textos) e, por conseguinte, ajudou a refutar o
sombrio período da Idade Média e o monopólio cultural da Igreja Católica
sobre a ciência e o poder (PEREIRA, 2009).
Assim, com o Renascimento e a invenção da imprensa e seus
desdobramentos, a pesquisa científica lentamente se emancipou da religião

29

Destaca-se que a invenção ocidental pode ter sido estimulada pelas notícias do que havia
acontecido no Oriente. Na China e no Japão, a impressão já era praticada desde o século VIII
(senão antes). No entanto, o método geralmente utilizado era o chamado de “impressão em
bloco” (usava-se um bloco de madeira entalhada para imprimir uma única página de um texto
específico). O procedimento era apropriado para culturas que empregavam milhares de
ideogramas, e não um alfabeto de 20 ou 30 letras. Certamente por essa razão teve poucas
consequências a invenção de tipos móveis no século XI na China. Entretanto, no início do
século XV, os coreanos criaram uma fôrma de tipos móveis de uma quase alucinatória
similaridade àqueles de Gutenberg (BRIGGS; BURKE, 2006).

�232

(lentamente, pois a Igreja só reabilitou Galileu em 1992 por sua afirmação
ultrajante de que o sol poderia ser o centro do universo). A marca registrada
desse tempo de mudança foi, sobremaneira, os conceitos de que o mundo era
governado por leis físicas (que poderiam ser descobertas por experimentação
cuidadosa), e que as intervenções divinas ou demoníacas eram desnecessárias
para explicar os acontecimentos na Terra (BARTLING; FRIESIKE, 2014; RALL,
1998). Esse contexto estimulou a origem da Revolução Científica, que
ocasionou mudanças extremamente significativas e de grande alcance em
todos os aspectos da cultura europeia (HENRY, 1998).
Revolução Científica é o nome atribuído pelos historiadores ao período da
história europeia em que, de maneira inquestionável, foram assentados pela
primeira vez os fundamentos conceituais, metodológicos e institucionais da
ciência moderna (HENRY, 1998). O período usualmente se refere ao que
ocorreu desde Nicolau Copernico até Isaac Newton, ou seja, do século XV ao
século XVII30. Foram cerca de trezentos anos de grandes mudanças no clima
intelectual e social (OSLER, 2000).
A

ciência

moderna

proporcionou

a

profissionalização

na

criação,

organização, e principalmente, circulação do conhecimento. As disciplinas
acadêmicas, como se conhece na atualidade, foram formadas nessa época,
assim como o sistema de publicação (BARTLING; FRIESIKE, 2014). Como
descrevem Bartling e Friesike (2014), a profissionalização na criação de
conhecimento exigiu meios para avaliar o valor de uma contribuição, de modo
que os incentivos para pesquisas bem-sucedidas pudessem ser fornecidos.
Faltando um sistema suficiente para esses incentivos, os pesquisadores do
século XVII foram secretos em suas descobertas. Sem um sistema de
publicação científica, eles reivindicaram autoria enviando anagramas a colegas
pesquisadores. Quando o conhecimento em questão se espalhava e os

30

O período preciso em questão varia segundo o historiador. Tal flexibilidade de interpretação
demonstra que é, sobretudo, uma categoria conceitual. No entanto, não significa que seja um
mero produto da imaginação sem nenhuma base na realidade histórica. É fácil perceber que o
conhecimento do mundo natural era muito diferente em 1700 do que fora em 1500. É
incontestável que durante 300 anos algo aconteceu que nunca havia ocorrido e que teve
consequências de longo alcance (HENRY, 1998; RALL, 1998). Como aponta Osler (2000),
esses fatos desencadearam uma real revolução.

�233

anagramas eram considerados sensatos, o financiamento de pesquisa futura
poderia ser garantido (BARTLING; FRIESIKE, 2014).
No final do século XVII, como efeito da ciência moderna, surgiram os
primórdios da atual revista científica. As duas primeiras publicações se
originaram por vias diferentes, em 1665, e com apenas 60 dias de diferença,
de um lado e de outro do Canal da Mancha. As primeiras revistas, portanto,
foram o Journal des Sçavans (França) e as Philosophical Transactions
(Inglaterra), mais tarde renomeadas para Journal des Savants e Philosophical
Transactions of the Royal Society, respectivamente (LEITE, 2008; SPINAK;
PACKER, 2015).
O Journal des Sçavans (a forma singular sçavant é francês médio,
coincidentemente, uma pessoa sábia) começou a ser publicado semanalmente,
em Paris, a partir de 5 de janeiro de 1665, e continha artigos originais que
constituíram exemplos de progresso notável em vários domínios (PISOSCHI;
PISOSCHI, 2016; SPINAK; PACKER, 2015).
Quando os membros da Royal Society, na Inglaterra, obtiveram a edição
do

Journal

des

Sçavans,

discutiram

a

possibilidade

de

publicar

algo

semelhante. Entretanto, concluíram que poderia ser feito de maneira mais
científica. Assim, excluíram algumas seções e deram ênfase aos relatos de
casos de experimentos realizados pelos cientistas (MERLO, 2012). Nesse
direcionamento, com a edição que se dedicava exclusivamente ao registro das
experiências científicas, dois meses mais tarde, em 6 de março de 1665,
lançaram a revista Philosophical Transactions (ou Phil. Trans.), considerada –
pela maioria dos historiadores – a primeira revista científica (MERLO, 2012;
SINGLETON, 2014).

3 MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO POR MEIO DAS REVISTAS CIENTÍFICAS
A mediação da informação é um construto social que se estabelece
entre o ser e o mundo aproximando a teoria (conhecimento) da prática (ação),
sendo que a construção de conhecimento é composto a partir do real ou

�234

concreto (das configurações sociais, materiais e históricas), com vistas a
transformação da realidade do(s) ser(es) (SILVA, 2015).
Em seu cerne se encontra o compartilhamento do conhecimento em
processos de interação assegurados pela ação comunicativa, seja ela da
comunicação direta (ou informal), seja ela da comunicação indireta (mediada
ou formal), possível por meio da informação registrada (GOMES, 2008). Neste
contexto, as revistas científicas possuem um importante papel por permitir o
acesso

e

a

interação

de

conteúdos

informacionais

que

subsidiam

o

desenvolvimento das práticas do conhecer.
Elas surgiram no século XVII, na Europa, como uma evolução da
comunicação informal das ciências, que consistia no uso de cartas, atas ou
memórias das reuniões científicas para a transferência da informação entre
pesquisadores (LEITE, 2008). Price (1976) acredita que a principal razão foi o
controle de obras e cartas demasiadamente numerosas para acompanhamento
dos leitores. Por sua vez, Meadows (1999) e Mueller (2000) inferem que o
motivo principal foi a necessidade de comunicação eficiente de alcance mais
amplo que a comunicação oral, e a correspondência pessoal entre uma
comunidade cada vez mais crescente e interessada nas novas ideias e a
formalização do processo de comunicação.
Fato é que o sistema de publicação periódica científica se desenvolveu
quando cartas escritas ou impressas e alguns livros já não eram meios
suficientes para a mediação de conhecimento. Antes de sua impressão e
divulgação, esses materiais tinham que estar em uma forma completa e
correta, pois, caso contrário, não valia a pena pagar por um processo de
publicação dispendioso. Os editores tomaram o controle sobre o conteúdo
científico controlando a impressão e disseminação de resultados científicos e,
consequentemente, a avaliação do impacto científico desenvolvido em torno do
sistema de revistas (BARTLING; FRIESIKE, 2014).
Esse processo representou um aspecto organizacional distintivo e vital na
Revolução Científica, cristalizando um novo conjunto de normas, incentivos e
estruturas organizacionais que reforçaram os compromissos dos pesquisadores
com a divulgação rápida de novos conhecimentos. Com base nesse conceito

�235

central

de

publicação,

institucionalizadas

e

cresceram

miríades

comercializadas.

Tais

de

estruturas
estruturas

parcialmente
desenvolvidas

constituíram o contexto cultural, político e básico, no qual os conhecimentos
acadêmicos se fundamentaram (DAVID, 2004).

4 CARACTERÍSTICAS E FUNÇÕES
Revista ou periódico é um tipo de publicação seriada. São publicações
não diárias (semanal, trimestral, quadrimestral etc.) que expõem ou criticam
produções literárias, científicas, técnicas ou de outros gêneros (MARTÍNEZ DE
SOUSA, 2004). Essas publicações são consideradas não apenas uma fonte
histórica, mas também o espelho da realidade, a partir das ações sociais,
políticas,

econômicas,

científicas,

dentre

outros

aspectos.

As

revistas

representam instrumento de informação que revelam pensamentos, ações,
desejos, manifestações e ideais (LANDA; LANDA, 2006).
As revistas de cunho científico têm como missão a comunicação dos
resultados da pesquisa original que contribuem para o avanço da ciência em
disciplinas ou áreas temáticas específicas. Desempenham o registro público do
conhecimento e são fundamentais para favorecer a geração e a disseminação
de informação e atividades de pesquisas (CURTY; BOCCATO, 2005).
Não se enquadram como revista científica os magazines, diários, anais,
folhetos

e

conferências.

Isso

porque

esses

veículos

não

atendem

a

peculiaridade de possuírem uma política editorial definida e um processo de
avaliação por pares (COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE
NÍVEL SUPERIOR - CAPES, 2016).
A ciência não significa simplesmente conhecimentos ou informações
publicadas. Seus fatos e teorias precisam se tornar públicos e passar por um
crivo, por uma fase de análises críticas e de provas, realizadas por outros
indivíduos competentes e especialistas, os quais deverão determinar se os
resultados alcançados com a pesquisa são críveis para que, assim, possam ser
universalmente aceitos (ZIMAN, 1979). É sobre esse princípio que se assenta o

�236

consenso internacional sobre o valor que a ciência moderna outorga às revistas
científicas, e é responsabilidade do corpo editorial assegurar esse fator (RUÍZPÉREZ; MARTÍN-MARTÍN; LÓPEZ-CÓZAR, 2015).
As funções desempenhadas pelas revistas científicas independem do
formato adotado para sua publicação. A seguir, elencam-se as principais:


Comunicar formalmente os resultados de pesquisa: a revista
científica é um canal ágil na disseminação de novos conhecimentos. Por
intermédio dela, a pesquisa é formalizada e se torna conhecimento
público (MABE, 2001; MEADOWS, 1999; OLIVEIRA, 1996; SEVERINO,
2000);



Construir

uma

desenvolvimento

comunidade
de

colégios

científica:
invisíveis

que

isso

ocorre

superam

a

para

o

barreira

geográfica, servindo para identificar, interagir e trocar informações entre
grupos de pares (JANGE; KADEMANI, 1999);


Preservar o conhecimento científico: como um registro formal
validado, as revistas mantêm a investigação e seus resultados para o
registro científico (MABE, 2001; MEADOWS, 1999; STUMPF, 1996);



Manter o padrão de qualidade na ciência: os artigos de uma revista
estão sujeitos ao processo de revisão pelos pares, a fim de manter a
qualidade diante do número crescente de fraudes ou erros. Essa revisão
confere confiabilidade ao material a ser publicado (JANGE; KADEMANI,
1999; KRONICK, 1976; MUELLER, 2000);



Estabelecer a propriedade intelectual: ao publicar seus estudos em
uma revista, o autor registra formalmente a sua autoria, requerendo
para si a descoberta científica (MUELLER, 2000; RODRIGUES; OLIVEIRA,
2012);



Promover o reconhecimento: do ponto de vista de quem faz o ciclo de
publicação acontecer, o cientista, pesquisador ou docente são avaliados
profissionalmente pela produção de artigos em revistas. Publicar é prova
de atividade científica e acadêmica, o que pode garantir uma boa
avaliação do pesquisador pelas universidades e agências de fomento
(BIOJONE, 2003; ZIMAN, 1979).

�237

Diante dessas funções, constata-se que é por meio das revistas
científicas que o conhecimento científico é validado e, como consequência, é
autorizada a sua disseminação entre pares para acesso e uso pela sociedade.
Para que isso ocorra, a avaliação pelos pares é condição sine qua non para
geração de novos conhecimentos, o que permite a continuidade e evolução do
saber humano, sendo necessária a participação de especialistas, nesse fazer.

5 ESTRUTURA DA GESTÃO EDITORIAL
As revistas científicas adotam diferentes estruturas de gestão editorial.
Entretanto, essas estruturas e o funcionamento das revistas devem ser
documentadas, formalmente (SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE SCIELO, 2014). A figura 1 ilustra a estrutura editorial científica recomendada
para uma revista.
Figura 1 - Estrutura editorial científica recomendada para uma revista científica

Fonte: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD) (2010, p.
9).
Nota: O nível de editores associados está sombreado porque, diversamente dos demais, ele
não é obrigatório dentro das boas práticas da publicação científica, mas revela-se uma
necessidade quando o número anual de submissões admitidas no processo editorial ultrapassa
quarenta (e nada impede que exista mesmo antes disso).

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) (2015, p. 2)
conceitua comitê (ou conselho) editorial como “grupo de pessoas encarregadas
de elaborar diretrizes, estabelecendo o perfil político-editorial de uma editora”.

�238

O comitê é responsável pelas questões da política editorial da revista e atua
em conjunto (faz reuniões periodicamente, de forma presencial ou on-line),
tomando decisões de forma coletiva e, eventualmente, votando os assuntos ou
questões a serem decididos. Não tem envolvimento com o conteúdo de
qualquer fascículo ou artigo em particular, mas com a coleção como um todo,
estabelecendo as diretrizes gerais que a norteiam (TRZESNIAK, 2009). A
função dessa equipe é assessorar a instituição responsável pela revista, o
editor-chefe e os editores associados, avaliar o desempenho da revista e
elaborar recomendações para o aperfeiçoamento dela (SCIELO, 2014). A
equipe que forma o comitê é constituída por um grupo de quatro a nove
pessoas representativas
[...] (1) da ou das entidades que integram a retaguarda; (2) de órgãos
de fomento; (3) de instituições de pesquisas em geral; (4) da ou das
áreas profissionais que aplicam o conhecimento veiculado na revista; (5)
outras que a retaguarda institucional julgar convenientes. O editor
científico ou geral da revista também integra esse Conselho/Comitê,
exceto quando se tratar de decidir sobre a permanência dele próprio na
função. A propósito, escolher o editor é uma das principais atribuições
desse Colegiado (TRZESNIAK, 2009, p. 88).

O editor-geral (ou editor-chefe) desempenha um papel central na
atividade de controle ético do processo de avaliação e publicação da pesquisa
científica. É o responsável pelo que é veiculado na revista, isto é, tanto pela
gestão editorial como pelo desempenho final. As funções principais dos
editores referem-se ao desenvolvimento da política editorial e avaliação de
manuscritos (ANPAD, 2010; SCIELO, 2014; TRZESNIAK, 2009). A garantia de
credibilidade científica é assegurada pelos editores, corpo editorial científico e
corpo de revisores (TRZESNIAK, 2009).
Salienta-se que revistas científicas de grande porte realizam uma divisão
natural e salutar na tarefa do editor geral: a separação das partes
administrativa e de conteúdo, pelas quais respondem, respectivamente, um
editor executivo e um editor científico. Formalmente, editor executivo ou editor
gerente é a pessoa física designada pela entidade publicadora que responde
por todos os aspectos não científicos do periódico, enquanto editor científico é
a pessoa responsável pela execução da política editorial e pelo conteúdo

�239

científico do periódico e corresponde à posição mais elevada na hierarquia
editorial (TRZESNIAK, 2009).
Os editores associados (ou editores de seção) são colaboradores que
atuam de forma ativa e sistemática com o editor-chefe na gestão do fluxo de
avaliação de manuscritos, com ênfase na seleção e interação com os
pareceristas e autores. Em termos de atribuições, apenas não tomam a
decisão final de publicar ou não um trabalho (ANPAD, 2010; SCIELO, 2014).
O corpo editorial científico, na respectiva área de especialidade, atua
como consultor do editor-geral no que diz respeito à interpretação da política
editorial. Assim, lhe são atribuídas as seguintes designações: apontar
pareceristas; analisar pareceres e, com base neles, recomendar a rejeição ou
publicação de originais; atuar como árbitros de desempate, quando uma
contribuição tiver recebido pareceres antagônicos; e supervisionar o processo
de arbitramento de artigos, por delegação do editor geral (TRZESNIAK, 2009).
Importante enfatizar que o corpo editorial científico não se reúne para
discutir algum assunto ou tomar alguma decisão; esse grupo é composto por
pesquisadores que trabalham sozinhos e interagem separadamente com o
editor. O grupo envolve-se com o conteúdo dos artigos, preocupando-se com a
uniformidade, a continuidade, a qualidade e o rigor científico do que é
publicado (TRZESNIAK, 2009).
É esperado que os integrantes do corpo editorial científico sejam
pesquisadores com credibilidade e reconhecimento da comunidade acadêmica,
embora possa haver pesquisadores seniores, para dar legitimidade, e membros
juniores (alunos de graduação ou pós-graduação), eventualmente necessários
para conferir suporte quando novos métodos e teorias sejam empregados nos
manuscritos (ANPAD, 2010).
Os consultores ad hoc, pareceristas, revisores, avaliadores ou árbitros
constituem o corpo de revisores. Esses não fazem parte do corpo editorial
científico e são consultados para avaliar determinado artigo submetido à
revista. Não possuem, no entanto, nenhum vínculo permanente com a revista
e encerram a participação ao término da avaliação do artigo que lhe foi
designado. São pesquisadores nacionais e estrangeiros (preferencialmente com

�240

abrangência em todos os continentes) e reconhecidos nas áreas das revistas
que colaboram e, especialmente, do assunto dos manuscritos que avaliam
(SCIELO, 2014; TRZESNIAK, 2009).
A estrutura de uma revista científica demonstra a credibilidade dos
resultados das pesquisas que são aprovadas para publicação. A fim de
compreender com mais afinco sobre essa estrutura, o funcionamento dela e a
importância do crivo científico para o desenvolvimento da ciência, faz
necessário refletir sobre a formação das primeiras revistas científicas e as
mudanças ocorridas ao longo da história.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo destacou as funções, a estrutura e a origem da revista
científica. A trajetória do conhecimento e os reflexos promovidos com o
lançamento das primeiras revistas científicas evidenciam a principal finalidade
desse processo, que é mediar a informação de qualidade para os cientistas e a
sociedade em geral. Na revista científica, está o alicerce da transmissão do
saber e seus efeitos influenciam de forma direita a educação, o mercado de
trabalho, a comunicação, a política, os serviços públicos, o lazer e a cultura.
Ao longo do tempo, a revista consolidou-se como o veículo oportuno de
visibilidade da produção intelectual, de modo a ampliar os espaços de diálogo e
enriquecer as discussões técnico-científicas. Ela contribui com a sociedade,
pois instiga a reflexão e o debate, haja vista garantir a produção do saber e o
aperfeiçoamento das pesquisas.
Desde seus primórdios, o sistema de publicação de revistas se
desenvolveu

em

resposta

funcional

aos

problemas

de

assimetria

de

comunicação. Elas conferem o compartilhamento de saberes e delas se vale
para apresentar conteúdos informacionais que sustentam as ações de geração
do conhecimento.
Por meio da revisão por pares, a revista certifica a qualidade da
investigação. Esse atributo tornou-se de extrema importância em face dos

�241

desafios

atuais

de

excesso

e

incerteza

da

veracidade

da

informação

disponibilizada na web. O processo de revisão peculiar às revistas solidifica
com trunfo o desenvolvimento humano mais harmonioso, mais autêntico, de
modo a fazer recuar a exclusão social, as incompreensões, as opressões e as
guerras.

REFERÊNCIAS
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Informação e documentação - publicação periódica técnica e/ou científica apresentação. Rio de Janeiro, 2015.
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manual para autores, revisores, editores e integrantes de Corpos Editoriais. Rio
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Sçavans’ e ‘Philosophical Transactions’ até o SciELO. SciELO em Perspectiva,
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A. A. P.; SAMPAIO, M. I.; KOLLER, S. (Org.). Publicar em Psicologia: um
enfoque para a revista científica. São Paulo: Associação Brasileira de Editores
Científicos de Psicologia; Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo,
2009. p. 87-102.
ZIMAN, J. Conhecimento público. Belo Horizonte: Itatiaita, 1979.

DADOS BIOGRÁFICOS

Edna da Silva Angelo: Doutoranda e Mestre em
Gestão &amp; Organização do Conhecimento pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). MBA
em Marketing pelo Centro Universitário UNA.
Bacharel em biblioteconomia pela Universidade
Federal de Minas Gerais. Bibliotecária (CRB-6 / 2560)
da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
E-mail: ednasangelo@gmail.com

Marlene Oliveira: Doutora pela Universidade de
Brasília, mestre pelo Instituto Brasileiro de Informação
em Ciência e Tecnologia -RJ e graduada em
Biblioteconomia pela FUOM/MG. Atualmente exerce
atividades de ensino e pesquisa na Escola de Ciência
da Informação da UFMG - MG, Brasil.
E-mail: marlene@eci.ufmg.br

�245

PARTE III - MEDIAÇÃO
DA INFORMAÇÃO E SEU

ídias sociais como forma de empreender: o caso do site Santa
Biblioteconomia
- Talita Daemon James e Thalita Gama

POTENCIAL NA PRÁTICA

Mediação da informação e da Leitura no Instagram: novas
possibilidades para os bibliotecários
- João Arlindo dos Santos Neto

BIBLIOTECÁRIA

Blog de bibliotecários: um estudo sobre o blog “Bibliotecária em
Construção”
- Claudia Barbosa dos Santos de Souza
As mídias sociais como ferramenta para divulgação de revistas
científicas da América do Sul
- Edna da Silva Angelo e Marlene Oliveira
As redes sociais como uma possibilidade de extensão de campo para o
bibliotecário
- Gabriela B. Pedrão
Fake News e suas repercussões na sociedade e a atuação do
bibliotecário no seu combate
- Antônio Afonso Pereira Júnior
Novos negócios em uma nova economia

�246

CAPÍTULO XIII - A mediação da informação e o “tsunami de
informações”: o resgate do protagonismo bibliotecário
Emanuelle Geórgia Amaral Ferreira
Bruno Fortes Luce

1 INTRODUÇÃO
As tecnologias de informação e comunicação (TICs) alteraram o formato,
o suporte, o processamento e a disseminação da informação; alteraram
aspectos relativos à qualificação profissional do bibliotecário, deram mais
autonomia ao usuário e remodelaram a forma como o trabalho é realizado,
modificando também as formas de mediação da informação. Em linhas gerais,
com

a

coexistência dos

suportes

físicos

e

digitais,

a

Biblioteconomia

readequou-se ao contexto atribuindo novos saberes e práticas para a sua
atuação.
Nesse

sentido,

Araújo

(2017)

menciona

que

dentre

os

desafios

contemporâneos da Biblioteconomia está o fato de que vivemos um período
em que há um amplo acesso à informação, mas isso não tem sido o suficiente
para que as sociedades vivam de maneira cidadã, democrática e igualitária.
Assim, diferentemente do esperado, ainda há muitas desigualdades; a
informação é poder apenas para uma parcela mínima da população brasileira;
há fenômenos emergentes como a pós-verdade e as fake news manipulando a
realidade por meio da desinformação. Envoltas nas facilidades de produção da
informação – que hoje são feitas e disseminadas por qualquer pessoa, desde
que tenha acesso a redes sociais, por exemplo – atingindo, assim, um cenário
de hiper informação.
Pensar que todos têm acesso à informação conforme prediz o mundo
globalizado é reforçar ainda mais o cenário de desigualdades e desinformação
da contemporaneidade. Grande parte das pessoas que possuem o acesso à
informação vive a ilusão de “[...] nos tornamos nós mesmos mercadorias

�247

dentro dos fluxos informacionais contemporâneos, fornecendo informações
nossas a cada clique de computador” (MORAES, 2019, p. 72).
Por outro lado, o documentário intitulado The GreatHack (Privacidade
Hackeada), de 2019, produzido e dirigido por Jehane Noujaim e Karim Amer
baseado no escândalo do fornecimento de dados de 87 milhões de usuários do
Facebook sem permissão pela empresa de consultoria Cambridge Analytica,
demonstrou como as informações produzidas e disponibilizadas pelos usuários
das redes sociais estão sendo utilizadas para divulgar e vender produtos,
manipular comportamentos e eleger políticos.
Durante

um

chat

sobre

“Fake

News,

Desinformação,

Eleições

e

Populismo” na plataforma Zoom Meetings31 ocorrido em 26 de março de 2020,
o pesquisador e professor da Universidade da Virgínia, David Nemer, em
conversa com a pesquisadora e professora Leticia Cesarino, da Universidade
Federal de Santa Catarina, mencionou a importância do bibliotecário em
relação ao algoritmo e ponderou: “O algoritmo é feito por um homem branco,
no Vale do Silício. Como esse algoritmo vai atender a necessidade de
informação de uma comunidade no Brasil? Ele consegue conhecer a realidade
dessa comunidade?”. A resposta nós já conseguimos imaginar. Com isso,
podemos afirmar que para haver a mediação, o bibliotecário deve conhecer a
comunidade que o cerca e assim tornar seu papel fundamental em um
contexto de hiper informação. Nesse sentido, Lankes (2011) pontua que o
bibliotecário deve ser mais ativista e se integrar àcomunidade como membro
para conhecer e contribuir realmente com a realidade social.
Mediante o contexto informacional, Araújo (2013) identificou três
grandes tendências contemporâneas que possuem elementos em comum: 1) a
Mediação; 2) o conceito de Information Literacy; e, 3) os estudos sobre
bibliotecas

eletrônicas

ou

digitais.

As

perspectivas

contemporâneas

da

Biblioteconomia são voltadas para a interação e protagonismo do usuário, que
no contexto da informação em rede interagem e constroem conhecimento. De

31

Plataforma de
videoconferências
que
possui
diversas
funcionalidades,
como
compartilhamento de tela, gravação de webinars, acesso via telefone e upload de reuniões na
nuvem.

�248

acordo

com

o

autor,

a

ideia

da

Mediação

como

uma

perspectiva

contemporânea da Biblioteconomia reorienta a concepção de biblioteca, que
passa a ser vista mais como dialógica do que como meramente uma difusora
do acesso à informação. Nesse aspecto, a promoção do uso efetivo da
informação, em instituições que atuem de maneira dialógica e próxima da
comunidade, demanda uma ação que vem sendo estudada sob a denominação
de “mediação da informação”, “mediação bibliotecária” ou ainda “apropriação
da informação” por bibliotecas e bibliotecários (ARAÚJO, 2017, p.74).
A mediação da informação é uma temática que já vem sendo objeto de
estudo da Biblioteconomia e da Ciência da Informação há algum tempo,
presente

tanto

no

discurso

científico

quanto

no

discurso

prático

dos

profissionais. Almeida Júnior (2008, p. 3) afirma que a mediação da
informação possui o conceito flexível, sempre contextualizado a realidades
muitas vezes distintas, e por esse motivo, uma definição consensual nos
âmbitos da pesquisa e da atuação parece impraticável. Por outro lado, Moraes
(2017, p. 146) afirma que a mediação é um conceito que circula na Ciência da
Informação fazendo parte dos grupos de trabalhos, dos eventos da área e do
discurso de alguns professores, mas sem uma conceituação aprofundada, o
que reflete diretamente na prática dos profissionais.
No tocante ao discurso prático, bibliotecários de diferentes campos de
atuação se auto intitulam como mediadores, conforme podemos observar na
pesquisa realizada por Ferreira (2016). A autora apresenta em sua dissertação
uma pesquisa realizada com bibliotecários de diferentes campos de atuação e
com professores de Biblioteconomia em Belo Horizonte,no qual o papel
mediador do bibliotecário foi um dos aspectos analisados. Pode-se afirmar que
a mediação da informação é um termo recorrente pelos profissionais, mas
ainda sem o aprofundamento necessário.
No discurso científico, a mediação da informação tornou-se uma temática
pesquisada sob diferentes abordagens, aumentando o volume de publicações
científicas e sendo tema de diferentes eventos da área. Destaca-se o estudo
realizado por Santos Neto (2019), que investigou o estado da arte e a

�249

historicidade do conceito de mediação da informação na Ciência da Informação
e em áreas correlatas como a Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia.
O momento contemporâneo precisa de bibliotecários como mediadores
não somente no discurso, mas com embasamento aprofundado e reflexivo
para a prática, sem desconsiderar o fato de que o discurso acadêmico não
deve ser considerado de maneira isolada ao discurso prático, pois, ambos são
complementares.

Assim, há dois pontos que não podemos deixar de

considerar: a inexistência da discussão específica da mediação no processo
formativo do bibliotecário e o discurso pronto adotado pelo profissional ao se
designar como um mediador. O processo formativo está intimamente ligado ao
fazer profissional. Trata-se de uma constatação óbvia, mas que não tem sido
encarada com a devida relevância. A utilização do termo mediação sem
aprofundamento teórico, sem reflexão crítica e sem sua inserção curricular
para dar embasamento à atuação do bibliotecário faz parte de um ciclo que
não contribui para a ação efetiva do bibliotecário em prol das comunidades e,
sobretudo, para a falta de reconhecimento social dessa contribuição para a
vida das pessoas.

2 COMO CARACTERIZAR A MEDIAÇÃO? O DISCURSO CIENTÍFICO E O
DISCURSO PRÁTICO
Kuhlthau (1993) afirma que um mediador é uma pessoa que ajuda, guia,
orienta e intervém contribuindo com o processo de busca de informação de
outra pessoa. Em linhas gerais, inicialmente podemos entender, então, a
mediação como auxiliar na identificação, seleção de fontes/serviços/sistemas
confiáveis para utilização e provimento do acesso para solucionar as
necessidades informacionais do usuário.
Em 2006, Almeida Júnior elaborou seu primeiro conceito de mediação da
informação centrado em duas ideias principais: a interferência e a apropriação
da informação.

�250
Mediação da informação é toda ação de interferência – realizada pelo
profissional da informação –, direta ou indireta; consciente ou
inconsciente; individual ou coletiva; que propicia a apropriação de
informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma necessidade
informacional (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p. 92).

Posteriormente,

o

conceito

inicial

foi

reformulado

levando

em

consideração a natureza dinâmica da construção do conhecimento e da
apropriação da informação que sofrem interferências no relacionamento com o
outro.
Mediação da informação é toda ação de interferência – realizada em um
processo, por um profissional da informação e na ambiência de
equipamentos informacionais –, direta ou indireta; consciente ou
inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando a
apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira
momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas
necessidades informacionais (ALMEIDA JÚNIOR, 2015, p. 25).

Almeida Júnior (2008, 2014) pontua ainda que a mediação recobre
atividades diferenciadas, que vão desde a concepção corrente de “atendimento
ao usuário” às ações de um agente cultural, à construção de produtos
informacionais, à elaboração de políticas de capacitação ou de acesso às
tecnologias

de

informação

e

comunicação,

à

mediação

tecnológica

proporcionada por ferramentas informacionais em rede (como os portais, sites,
blogs).
Almeida Júnior (2009, p. 92-93) distingue a mediação em: mediação
implícita, que consiste nas ações desenvolvidas sem a presença física e
imediata do usuário; e mediação explícita, que ocorre nos espaços em que a
presença do usuário é inevitável, mesmo que não seja física. De acordo com
Almeida Júnior (2008), a mediação da informação vai desde a escolha de qual
informação será disponibilizada, independentemente do artefato, aos produtos
e serviços. Assim, podemos inferir que os bibliotecários já realizavam a
mediação

desde

a

Antiguidade.

Desse

modo,

podemos

observar

a

responsabilidade do bibliotecário enquanto mediador, pois ele interfere
diretamente nas informações e serviços que serão oferecidos aos usuários da
biblioteca. Todas as atividades desenvolvidas na biblioteca pelo bibliotecário
ocorrem com ointuito de facilitar o acesso à informação, ou seja, contribuir
com a mediação da informação que será apropriada pelo usuário.

�251

Gomes (2014, p. 156) pontua que a mediação da informação tem origem
nas interações sociais e nas mediações simbólicas, razão pela qual a linguagem
é um elemento singular no processo de mediação. A autora afirma ainda que
não há possibilidade de efetividade da mediação quando se negligencia a
importância da comunicação. Assim sendo, com a ideia de mediação, podemos
observar uma grande mudança na ênfase dada à biblioteca, deixando o caráter
de difusão da informação e do conhecimento e adotandoo caráter dialógico.
De acordo com Milanesi (2002, p. 25), dentre as áreas que devem
compor os currículos para a formação do profissional da informação está o
campo da mediação da informação. O autor afirma que se trata de “uma área
abandonada, ainda que fundamental e de importância estratégica para o
desenvolvimento da sociedade” (MILANESI, 2002, p. 25).
A Universidade Estadual de Londrina (UEL) foi a primeira instituição do
Brasil a considerar a Mediação da Informação como uma disciplina no curso de
graduação em Biblioteconomia e na pós-graduação lato sensu. A disciplina foi
proposta pelo Professor Dr. Oswaldo Francisco de Almeida Júnior em 1996,
sendo implementada na matriz curricular da pioneira UEL em 1997 e ofertada
pela primeira vez em 2000 (SANTOS NETO, 2019, p.117). Hoje, há 40 cursos
de Biblioteconomia no Brasil presenciais distribuídos em todas as regiões
brasileiras e três cursos de formação na modalidade EAD (educação à
distância).
Santos Neto (2019) selecionou para sua análise na pesquisa apenas as
disciplinas que possuem o termo "mediação" no título ou na ementa. Moraes
(2012) investigou os projetos políticos pedagógicos da UFPA, UFSC, UNB, USP
e UFC e não encontrou uma área curricular que explicitava as questões
voltadas à mediação. Dentre os 40 cursos de formação em Biblioteconomia do
país, nove cursos apenas possuem disciplinas com o termo mediação no título
ou na ementa.
Por que aparece tão pouco a temática da mediação nos currículos, se são
tão recorrentes nos discursos dos profissionais da área? De que maneira a
mediação se propõe a ser uma perspectiva contemporânea de estudos da
Biblioteconomia, se ainda é tão (in)existente na formação dos bibliotecários?

�252

Santos Neto (2019, p. 307) aponta como hipótese o desconhecimento de
professores e coordenadores de curso e a divergência de olhares com relação à
mediação da informação, o que pode ser o mais provável se considerarmos a
dificuldade de consenso da área de Biblioteconomia e Ciência da Informação
como um todo com relação aos conceitos adotados.
Santos Neto (2019) categorizou os textos das ementas dos currículos e
pontuou que as disciplinas enfocam seis grandes eixos: conceitos e teorias de
mediação; cultura; serviços e produtos de informação; fontes e recursos de
informação; papel social; e, leitura.
a) Caráter teórico: conceitos e teorias de mediação, mediação da
informação, da leitura e da cultura; representações sociais, memória e
imaginário; processos de mediação e suas possíveis problemáticas em
outros ambientes informacionais, além das bibliotecas, arquivos e
museus.
b) Caráter cultural: diversidade cultural; políticas públicas; projetos
culturais; ação cultural; equipamentos culturais; direitos culturais;
patrimônio cultural; democracia cultural; produção cultural; relações
étnico raciais; identidade; afro descendência; multiculturalismo.
c) Caráter funcionalista: serviços e produtos de informação: natureza,
conceitos, características e tipologias; promoção; disseminação;
extensão; marketing; gestão; avaliação.
d) Caráter pragmático: analisar e avaliar fontes e recursos de
informação; desenvolvimento da competência em informação; orientar
os usuários na pesquisa; treinamento e capacitação de usuários.
e) Caráter político social: o papel do bibliotecário e da biblioteca frente a
cidadania; conflitos; negociação; desenvolvimento do indivíduo; ética;
construção de conhecimento; políticas públicas.
f) Caráter lúdico: mediação da leitura e do livro; promoção da leitura;
leitor; papel do mediador (SANTOS NETO, 2019, p. 310).

Moraes (2017), em seu estudo, analisou os textos dos Projetos Político
Pedagógicos de cursos do Brasil e da Colômbia, que, apesar de suas diferenças
contextuais, apresentam como característica similar o fato de que a mediação
é abordada de maneira indireta nos currículos da área de Ciência da
Informação, como algo inerente à atividade profissional, sem uma reflexão
própria e aprofundada sobre o tema especificamente.
A inserção do conceito de mediação da informação nos currículos se
reflete nas práticas profissionais dos bibliotecários, sobretudo para que a
Biblioteconomia não seja vista meramente como uma área que se dedica às
técnicas de organização da informação para prover o acesso. Mais do que isso,
a mediação no campo da Biblioteconomia é um instrumento de transformação

�253

das sociedades, aproximando bibliotecários e comunidades para solução dos
problemas informacionais.
Relacionando o discurso prático, Ferreira (2016) identificou três discursos
que refletem a maneira como o bibliotecário concebe a mediação: primeiro
relacionado ao fazer bibliotecário ser entendido como mediação; segundo
concepção direcionada a atender e satisfazer uma demanda; e o terceiro que
diz respeito à mediação como um processo que deve estabelecer-se ao longo
da vida.
Conforme podemos observar nos resultados da referida pesquisa, os
bibliotecários consideram que o ato de organizar as informações nas
bibliotecas já caracteriza uma ação de mediação, tal como menciona Almeida
Júnior (2009, p. 92) ao relacionar a mediação ao fazer do bibliotecário. Foi
possível identificar ainda que houve um consenso entre a maioria dos
entrevistados de que o bibliotecário é um mediador por natureza, seja ao
desenvolver as atividades técnicas, ao gerir e ao desenvolver atividades
culturais em seu ambiente de trabalho. Vinculados à ideia de mediação da
leitura, bibliotecários justificaram o seu papel de mediador ao afirmar que é
por meio deles que os usuários, em sua maioria, têm acesso aos livros e se
torna um leitor. E nesse sentido, o bibliotecário é um mediador independente
de seu local de atuação, seja em bibliotecas escolares, seja em ambientes
corporativos etc. Contudo, um dos sujeitos da pesquisa lembrou que por mais
que o bibliotecário seja um mediador independente de seu local de atuação, a
identificação do bibliotecário como mediador não ocorre com tanta clareza
como no ambiente das bibliotecas.
Concomitante ao discurso do bibliotecário acima, da não identificação do
bibliotecário como mediador, Moraes (2019, p. 72) alerta que os mediadores
atuam de maneira tão sutil e singela que se torna invisível na sociedade.
Apropriando-se da ideia de Zygmunt Bauman acerca da modernidade líquida,
assim se tornou a atuação profissional do mediador, “mais líquida” (MORAES,
2019, p. 72), apesar de mais numerosos que outrora.
Há, também, a concepção de que a mediação ocorre somente quando
solicitada. Trata-se de uma visão mais operacional do processo de mediação

�254

por parte de um dos bibliotecários entrevistados, que se somou o fato do
usuário não saber expressar sua necessidade informacional ao entendimento
de que a mediação ocorre só quando pedem.
Podemos identificar a concepção de que a mediação é uma palavra que
está sendo usada hoje para designar o que já era feito pelos bibliotecários há
algum tempo no serviço de referência, ao atender o público. Portanto,
bibliotecários entrevistados durante a pesquisa de Ferreira (2016), acreditam
que se trata de uma palavra “da moda”. Nesse sentido, Almeida Júnior (2009,
p. 92) esclarece que entender a mediação da informação vinculada ao serviço
de referência ou ao atendimento ao público é uma concepção empírica
considerada incoerente. O discurso desse bibliotecário revela o desafio de fazer
a mediação, principalmente se levarmos em consideração que a mediação da
informação tem como base a apropriação da informação e a interferência que
se dá no âmbito do usuário, do bibliotecário, do suporte e equipamento
informacional, do produtor da informação, das mídias etc. (ALMEIDA JÚNIOR,
2009, p. 99). Trata-se de um processo complexo, pois “não é possível
determinar o uso da informação, como se fosse esse o fim do ciclo de vida da
informação” (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p. 99).
Conforme apresenta Ferreira (2016, p. 130), um dos entrevistados, o
Bibliotecário 3, aponta que o termo mediação tem sido recorrente na
Biblioteconomia, sendo usado de maneira indiscriminada e por vezes utópicas
pelos profissionais.
Eu acho que o termo mediador se tornou muito utilizado na
Biblioteconomia, mas ele acaba sendo uma utopia porque o fato é que a
gente não muda a realidade de um dia para a noite, o fato é que a gente
não forma leitores. [...] A gente precisa continuar um trabalho que já
deveria ter sido feito e às vezes a gente acaba se deparando com
situações em que a gente está começando um trabalho quando ele já
está lá com seu quatorze, quinze anos. É difícil! O termo mediação tem
sido usado de forma genérica como se fosse a salvadora da pátria e não
é assim, até porque seria se fosse desde sempre (Bibliotecário 3).

Dentre os objetivos da pesquisa realizada por Ferreira (2016), estava o
de delinear os desafios contemporâneos da Biblioteconomia sob a perspectiva
dos bibliotecários e professores do curso de Biblioteconomia. No âmbito dessa
discussão, utilizamos elementos da pesquisa concernentes às concepções dos

�255

bibliotecários. Assim sendo, dentre os desafios encontrados, a autora destaca
quatro aspectos que se inter-relacionam: 1) Impactos das tecnologias de
informação e comunicação; 2) Mediação da informação; Formação do
bibliotecário; e, 4) Autovalorização profissional. Com relaçãoà Mediação da
Informação, tema central deste capítulo, os bibliotecários entrevistados
pontuaram dois aspectos: 1) Estar mais próximo da comunidade, de modo que
o foco de todo o trabalho desenvolvido sejam as pessoas; 2) Ouvir as pessoas,
para realizar efetivamente a mediação da informação.
O desafio de exercer a mediação, tal como foi mencionado pelos
bibliotecários entrevistados na pesquisa de Ferreira (2016) se inserem em
outras prioridades e outros interesses, sobretudo em nosso país tão carente do
básico para a existência em sociedade.

3O TSUNAMI DE INFORMAÇÃO: DAS TIC’S À HIPER-INFORMAÇÃO
O que é um tsunami? De origem japonesa, a palavra é formada por tsu
(“bahía”, “porto”) e nami (“onda”). Assim, de maneira simplificada, podemos
definir o fenômeno como uma série de ondas de água causadas pelo
deslocamento de um grande volume de um corpo de água, como um oceano
ou um grande lago. A analogia do tsunami com a informação diz muito do que
a sociedade contemporânea vive no momento, conforme veremos a seguir.
As tecnologias da informação e comunicação (TICs) transformaram nossa
maneira de interagir com o mundo, nos aproximaram virtualmente, aceleraram
nossa comunicação e nos deram uma gama infinita de informações. Para
Castells (2016, p.88), a atual revolução tecnológica não é caracterizada pela
centralização de conhecimento e informação e sim em sua aplicação cíclica e
compartilhada, assim sendo: “[...] uma geração de conhecimento e de
dispositivos de processamento/comunicação da informação, em um ciclo de
realimentação cumulativo entre a inovação e o uso.” Castells (2016) afirma
que a evolução das TICs é como um organismo de retroalimentação, em queas
informações

produzidas

geram

sua

evolução

e

adaptação

gerando

�256

conhecimento para criar mecanismos para facilitar esse compartilhamento. Em
ambientes online é possível notar essa constante evolução.
Segundo Ribeiro et.al. (2012, p.201), o diferencial da web em relação
aos meios de comunicação tradicionais é o seu alcance rápido: “A velocidade
com que a internet vem se difundindo nas últimas três décadas não pode ser
comparada com a velocidade de difusão de qualquer outro meio de
comunicação.” Nesse fluxo intenso de informações compartilhadas na internet,
se encontra uma sociedade que tem a necessidade de estar em constante
adaptação para acompanhar a evolução provocada pelas TICs. Em termos de
Brasil, a internet ganha sua comercialização somente em 1996 pela EMBRATEL
após a confirmação do extinto Ministério da Comunicação liberar atuação de
portais e provedores no mercado interno (ARRUDA, 2011).
Durante a comercialização até os dias atuais temos uma evolução da
web,saindo de uma lógica estática da Web 1.0, passando para interação entre
atores na Web 2.0 e chegando na Web 3.0 ou Web Semântica. Segundo
Catarino e Souza (2012, p.79),
O W3C pretende implementar, divulgar e promover linguagens, normas
e recomendações que permitam que os computadores possam, a partir
de dados dispersos em sites e bases de dados da Web, compor
interações na rede e gerar serviços e produtos (CATARINO; SOUZA,
2012, p. 79).

Com uma internet dinâmica, temos a consolidação das redes sociais,
onde a questão geográfica não importa mais para os arranjos sociais, que
ficam ao encargo dos interesses pessoais, como aponta Castells (2003, p.110):
“Em outros casos, essas redes on-line tornam-se foras de ‘Comunidades
especializadas’, isto é, formas de sociabilidades construídas em torno de
interesses específico”. Assim, nos relacionamos com pessoas que tenham os
mesmos interesses que os nossos, nos isolando em bolhas informacionais
pautadas por opiniões semelhantes.

Para potencializar isso, as empresas

gestoras da internet desenvolvem algoritmos que nos deixam reféns dessa
estratégia.

�257
O código básico no seio da nova internet é bastante simples. A nova
geração de filtros on-line examina aquilo de que aparentemente
gostamos – as coisas que fazemos, ou as coisas das quais as pessoas
parecidas conosco gostam – e tenta fazer extrapolações. São
mecanismos de previsão que criam e refinam constantemente uma
teoria sobre quem somos e sobre o que vamos fazer ou desejar a
seguir. Juntos, esses mecanismos criam um universo de informações
exclusivo para cada um de nós – o que passei a chamar de bolha dos
filtros – que altera fundamentalmente o modo como nos deparamos com
ideias e informações (PARISER, 2012, p. 11).

Em meio a isso se encontram duas empresas detentoras de parte do
mercado informacional:Google e Facebook. Em pesquisa divulgada em 2019
pela We Are Social, as cinco primeiras plataformas mais usadas pelos
brasileiros são controladas por essas duas empresas: Youtube (95%),
Facebook (90%), WhatsApp (71%), Instagram (67%), Messenger (43%).
Sendo oFacebook detentor de quatro empresas (WhatsApp, Instagram,
Messenger) das cincos e a Google, proprietária doYoutube. Além de serem
empresas que trabalham com informação online, suas matrizes localizam-se no
estado da Califórnia (Estados Unidos). Multinacionais americanas que ditam
através de seus algoritmos o fluxo informacional brasileiro em ambiente
digital.
Para Castells (2016, p. 124), a informação é “[...] uma parte integral de
toda atividade humana, todos os processos de nossa existência individual e
coletiva são diretamente moldados (embora, com certeza, não determinados)
pelo novo meio tecnológico.” A interação atual da sociedade está diretamente
ligada (monitorada) por empresas globais, que não tornam somente a
economiaglobalizada,como também as informações e a comunicação global,
eliminando limites fronteiriços e culturais.

3.1 Hiper Informação
O prefixo hiper, que vem do grego Hypér, significa posição superior,
além ou excesso (AURÉLIO, 1986, grifo nosso). Ao prefixar ao termo
informação,

conota

informação,facilitadopela

um

excesso,

evolução

das

demasia,
TICs

que

neste

caso,

culminou

com

de
a

�258

democratização na produção e disseminação de conteúdo na web trazendo
uma gama excessiva de informação que temos que lidar diariamente.
Embora pareça que o excesso de informação seja algo moderno, já gera
preocupações de teóricos e acadêmicos desde a consolidação da prensa de
Gutenberg. O historiador inglês Peter Burke (2002, p. 175) exemplifica esse
descontentamento com o excesso de informação:
Antonfrancesco Doni, escritor italiano, em 1550 já se queixava da
existência de “tantos livros que não temos tempo para sequer ler os
títulos”. Livros eram uma “floresta” na qual os leitores poderiam se
perder, segundo Jean Calvin (9). Eram um “oceano” pelo qual os leitores
tinham de navegar, ou uma “inundação” de material impresso em meio
a qual era difícil não se afogar (10). As metáforas de florestas e oceanos
eram topoi, naturalmente, mas como topoi em geral também
expressavam a experiência vivida. O bibliotecário francês Adrien Baillet
temia que a multiplicação de livros trouxesse consigo uma nova época
de barbárie. “On a sujet d’appréhender que la multitude de livres quiaug
mententtousles
jours
d’une
manièreprodigieuse,
ne
fassetomberlessièclessuivantsdans
une
étataussifâcheuxquiétoitceluyoùles
barbares
avoitjetélesprécédents”
(BURKE, 2002, p. 175).

As preocupações e ressalvas não contiveram o avanço da informação e
das publicações que, se antes se detinham somente aos livros impressos,
ganharam alcance e uma velocidade de compartilhamento no formato digital
inimagináveis aos teóricos do século XVI, embora tenham sido um pouco
alarmistas na época, já previam possíveis problemas no futuro. Autores
contemporâneos também fazem ressalvas para esse problema.Conforme
pontua Han (2018, p. 106), o excesso de informação pode acarretar efeitos
negativos na sociedade atual.
Quando mais informação é liberada, mais o mundo se torna não
abrangível, fantasmagórico. A Partir de um determinado ponto, a
informação não é mais informativa, mas sim deformadora, e a
comunicação não é mais comunicativa mas sim cumulativa (HAN, 2018,
p. 106).

Han (2018) pontua que esses efeitos podem ocasionar doenças psíquicas
causadas pela Síndrome da Fadiga da Informação (SFI), devido a um excesso
de informação. Cunhado pelo psicólogo David Lewis em 1996 a SFI consome
nossos critérios de seleção embaralhando o que é essencial com o que não é
essencial, confundido nossas tomadas de decisão.

�259

Cornella (2004) faz um jogo de palavras para criar um termo que define
esse momento.Juntando a palavra informação com intoxicação para formar
infoxicação. Para o autor, nós estamos intoxicados com excesso de dados que
consumimos pelos nossos dispositivos eletrônicos. O termo infoxicação foi
criado por Cornella em 1996 para designar a relação entre a informação e a
intoxicação, um neologismo que explica a dificuldade para administrar a
grande quantidade de informação com que somos bombardeados diariamente.
As ideias de Han (2018) e Cornella (2004) convergem ao pontuarem que
a hiperinformação causada nos reais tanto para um indivíduo como para uma
sociedade. Ao não conseguirmos discernir o conteúdo recebido, deixamos
passar informações duvidosas como as chamadas Fake News.

3.2 Fake News
O termo em inglês Fake News, que em uma tradução literal do inglês
para o português significa “Notícias Falsas”, ganhou visibilidade após dois
eventos de escala global, ambos ocorridos em 2016: 1) as eleições norteamericanas, com a vitória de Donald Trump; e, 2) a saída do Reino Unido da
União Europeia, o BREXIT. Mesmo representando uma notícia falsa, o termo
transcende e a definição ganhou relação com o ambiente web, como conteúdo
informacional vinculado dentro de um ambiente online que tenha como
objetivo enganar e prejudicar uma instituição, um grupo social ou um
indivíduo, diferenciando-se, assim, de uma notícia falsa produzida em veículos
de comunicação.
Segundo Dalmazo e Valente (2018, p.155), que fazem uma construção
histórica na relação do jornalismo sensacionalista que utiliza as informações
falsas para se promover, as “Notícias falsas, histórias fabricadas, boatos,
manchetes que são iscas de cliques (as chamadas clickbaits) não são
novidade.”

Os

autores

exemplificam

rememorando

movimentos

da

comunicação que se tornaram célebres pela utilização desses subterfúgios,
como os Pasquins na Itália, Tabloides na Inglaterra e os Canards na França.

�260

Autores como Allcott; Gentzkow (2017) e Zuckerman (2017) também
defendem que as Fake News não são novidades em ambientes informacionais,
mas que ganharam visibilidade com o desenvolvimento das TICs. Zuckerman
(2017) utiliza as eleições americanas para dividir as Fake Newsem três
categorias: 1) notícia falsa para desviar a atenção do problema real;
2)propaganda, onde é usada a notícia falsa para promover um candidato e
denegrir a imagem do outro; e por fim, 3)

um número grande de notícias

falsas, confundindo o leitor pelo excesso de informação.
No último tópico apresentado, realizamos a referência ao termo
hiperinformação como algo propositalmente implementado para confundir os
receptores, nos infoxicando. Ao chegar nesse nível, perdemos nossos critérios
de seleção e amargamos com a Síndrome da Fadiga da Informação
(SFI).Assim, podemos afirmar que estamos vivemos em uma sociedade do
cansaço, como exemplifica Han (2017). De acordo com o autor, “[...]o cansaço
profundo afrouxa as presilhas da identidade. As coisas pestanejam, cintilam e
tremulam

em

suas

margens.

Tornam-se

mais

indeterminadas,

mais

permeáveis, e perdem teor de sua decisibilidade” (HAN, 2017, p. 75). Assim,
cansados

ou

infoxicados,

aceitamos

melhor

o

que

é

mais

facilmente

apresentado, algo que venha ao encontro das nossas opiniões, algo que
corrobora com nossa pós-verdade.
Eleita em 2016 pelo Dicionário Oxford como a palavra do ano,a PósVerdade não corresponde ao sinônimo de mentira (D’ANCONA, 2018). O termo
representa que fatos são menos importantes que as emoções e crenças
pessoais na formação de opinião de um grupo de pessoas. Assim sendo, uma
informação, mesmo que falsa, pode ganhar maior repercussão se ela for
compartilhada dentro de um grupo que queira acreditar nisso. Esses grupos
formados dentro de bolhas informacionais definidos por gostos e desejos
semelhantes e organizados por algoritmos impulsionam a disseminação de
Fake News em ambientes digitais.
Nesse cenário, encontramos uma sociedade sem pensamento crítico
informacional, reféns de algoritmos multinacionais e esgotadas mentalmente
pelo

excesso

de

informações

compartilhadas

diariamente

em

seus

�261

smartphones. Uma sociedade da desinformação, que (des)informa através da
informação e não da sua ausência. Com isso, nunca se fez tão necessário
profissionais que atuem em mediação como os bibliotecários, pois o problema
transcendeu a barreira dos dados e se tornou um problema de saúde pública.

4

O

BIBLIOTECÁRIO

MEDIADOR

E

OS

FENÔMENOS

DA

HIPERINFORMAÇÃO E DA DESINFORMAÇÃO
Ao nos depararmos com um cenário de hiperinformação - que propicia a
desinformação -, vemos a importância de um bibliotecário atuante. Como
exercer além do ambiente da biblioteca? A mediação tradicional, no balcão do
serviço de referência, já aderiu às novas ferramentas digitais utilizando as TICs
para se aproximar de seus usuários e valendo-se das redes sociais para
divulgação de seu material, atuando também fora do espaço físico das
bibliotecas;

confeccionando

material

informativo

para

utilização

nas

plataformas digitais etc. Nesse sentido, o bibliotecário não é mais o
intermediário entre a informação e o usuário e sim o próprio produtor do
conteúdo juntamente com os usuários que se apropriam das informações e
constroem novos conhecimentos. Desse modo, podemos observar uma
retomada, mesmo que virtual, do papel de destaque do bibliotecário.
Outras formas de mediação que transcendem a mediação de balcão maneira passiva na atuação, fazendo uma analogia à educação bancária
rechaçada por Paulo Freire, onde o aluno inerte recebe o conteúdo do
professor. A ideia da mediação de balcão torna o bibliotecário um facilitador
inerte que age somente quando é demandado. Segundo Salort (2017, p. 88) a
mediação não pode servir mais somente como um meio entre o usuário e a
informação.
[...] o sentido de “mediação” visto como aquele que apenas disponibiliza
a informação almejada, ou seja, que serve como “ponte” entre a
informação e seu usuário, talvez necessite ser transformado no mesmo
sentido dado à “mediação pedagógica”, caso se queira avançar em uma
perspectiva educativa da profissão de bibliotecário (SALORT, 2017, p.
88).

�262

Para Salort (2019, p.85), o profissional da informação não pode
continuar atuando somente como um intermediário ou “ponte”, para isso
autora defende um bibliotecário educador “[...]não mais aquele que só
transmite a informação, mas aquele que atua para a geração do conhecimento,
ou ainda, que interfere no desenvolvimento cognitivo de seu interlocutor”.
Belluzzo

(2008,

p.

37)

reforça

a

importância

de

se

assumir

como

educador,sobretudo,no contexto digital.
Os educadores e os bibliotecários devem conscientizar-se de que a
educação é parte desse cenário de mudanças e um referencial
diferenciado na chamada “sociedade em rede”,
sendo
uma
situação emergente a mudança de postura no que diz respeito à
migração da sua identidade de transmissora de informação e de
cultura para uma condição de ensinar a aprender e a pensar [...]
(BELLUZZO, 2005, p.37).

Ao se posicionar como um educador, Morigi et. al. (2005) consideram
que o bibliotecário assume responsabilidades que permeiam a democracia, a
solidariedade e uma construção de identidade nacional. Como educadores,
reforçamos uma identidade nacional, damos visibilidade à comunidade na qual
estamos inseridos, nos desvinculando de uma padronização causada por uma
globalização informacional. A atuação de educador transporta o profissional
para um papel fundamental na sociedade: o desenvolvimento de competências
informacionais de seus usuários através do letramento (Information Literacy).
Caregnato (2000), Dudziak (2001; 2002; 2003) e Campello (2003; 2005)
constroem

o

pensamento

aprendizagem

constante

conhecimento

de

acerca
por

maneira

da

meio

que

Information

da

possa

informação
ser

Literacy
e

da

implementada

como

uma

geração
na

de

prática,

trabalhando, assim, o reconhecimento de fontes confiáveis, pois é através
desse tipo de material que é possível ter uma prática concreta. Mas, para que
isso ocorra, é necessário que o bibliotecário mude também e compreenda que
seu

trabalho

transcende

ao

tecnicismo

e

seu

foco

principal

desenvolvimento de uma sociedade (MORIGI, 2005; LANKES, 2011).

é

o

�263
Não é mais aceitável enviar bibliotecários a comunidades preparados
para responder a perguntas de referência, mas incapazes de processar a
pobreza que encontrarem lá. Não é mais aceitável treinar bibliotecários
acadêmicos para reconhecer lacunas na coleção, mas não para
reconhecer a falta de moradia dos estudantes. Não é mais aceitável
treinar arquivistas que não entendem a política inerente ao controle da
memória de uma comunidade (LANKES, 2019, tradução nossa).

Em seu The Atlas Of New Librarianship, publicado em 2011, Lankes
resgata o protagonismo da atuação do bibliotecário ao estipular uma missão:
“A missão dos bibliotecários é melhorar a sociedade por meio de
facilitação da criação de conhecimento em suas comunidades” (LANKES,
2011, p. 13, tradução nossa, grifo nosso). Não se trata de uma missão para a
biblioteca, trata-se de uma missão para o bibliotecário. Com essa missão,
Lankes (2011) convida a comunidade bibliotecária a repensar sua atuação tão
voltada primordialmente para as técnicas de organização da informação e
volta-se para a comunidade, para a contribuição do bibliotecário para a
melhoria da vida das pessoas por meio da construção do conhecimento.
A Nova Biblioteconomia de Lankes nos propõe uma quebra de paradigma
das bibliotecas ao trazer a visão de que bibliotecas deveriam ser como
comunidades (usuários), pensando as pessoas e não os dispositivos que
armazenam

a

informação.

Assim,

Lankes

(2019)

aponta

que,

independentemente do local onde o bibliotecário exerça sua profissão, é
necessário que compreenda sua comunidade, como avaliar serviços, como
coletar, analisar e proteger dados.Portanto, é necessário que se “aceite que os
bibliotecários não são neutros e devem desenvolver habilidades que sejam
tanto sobre resiliência e autoexame quanto sobre como administrar uma
organização” (LANKES, 2019, tradução nossa).
Não há manual de processos ou linguagem documentária que consiga
roubar do bibliotecário a liberdade de estabelecer fronteiras entre o que
é essencial e acessório. Será sempre ele quem decidirá o que merece
ser representado e o que merece ser descartado no desenvolvimento de
coleções, na prática de indexação, no plano de marketing e na política
de atendimento. É ele que estabelece as relações de subordinação entre
os personagens que transitam na biblioteca. Enfim, o dialógico é
princípio da prática profissional. Dele nasce a repulsa a qualquer
modalidade de mentira. Se não há possibilidade de se separar
radicalmente o que produzimos e o no que acreditamos, podemos
garantir o direito do outro falar (BRAYNER, 2019).

�264

Nesse sentido, Lankes (2011) pontua que devemos cada vez mais
romper com a divisão entre o “mundo real” e o “mundo acadêmico”, apontados
nesse texto como “discurso prático” e “discurso teórico”. Não há a necessidade
de desenvolver padrões únicos, mas, sim, criar sistemas contínuos de
aprendizagem que sejam ágeis, conectados e incorporados para contribuir com
a sociedade.
Consonante com a Information Literacy e com a proposta de Lankes de
uma Nova Biblioteconomia – ambas teorias voltadas para a aprendizagem, a
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(UNESCO) vem defendendo que a alfabetização do século XXI deve incluir a
capacidade de lidar de maneira eficaz com a informação e as mídias. Assim,
lançou em 2016, no Brasil, a publicação intitulada “Alfabetização Midiática
eInformacional: Diretrizes para Formulação de Políticas e Estratégias”, que
conceitua a alfabetização midiática informacional (AMI)e defende que essaé a
formação necessária para cidadãos tomarem decisões (sobre saúde, educação,
política etc.) baseados em informação e diálogo.
Assim, a atuação do bibliotecário deve ser exercida com o devido
protagonismo que o momento de nossa sociedade pede. Vivemos fenômenos
como a hiperinformação, as fake news, e consequentemente, a desinformação,
mencionados

neste

capítulo.

Não

cabe

mais

ao

bibliotecário

o

papel

estereotipado de estar nos bastidores, preparando a informação para dar o
acesso. Dar o acesso e informar não é o suficiente. Nossas comunidades
demandam uma mediação que contribua para a construção de uma nova
realidade social.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Há dois pontos que não podemos deixar de considerar: a inexistência da
discussão específica da mediação no processo formativo do bibliotecário e o
discurso pronto adotado pelo profissional ao se designar como um mediador. O
processo formativo está intimamente ligado ao fazer profissional. Trata-se de

�265

uma constatação óbvia, mas que não tem sido encarada com a devida
relevância. A utilização do termo mediação sem aprofundamento teórico, sem
reflexão crítica e sem sua inserção curricular para dar embasamento à atuação
do bibliotecário faz parte de um ciclo que não contribui para a ação efetiva do
bibliotecário em prol das comunidades e, sobretudo, para a falta de
reconhecimento social dessa contribuição para a vida das pessoas.
O bibliotecário, com suas expertises, pode contribuir no combate
àdesinformação em seus três níveis: desinformação por supressão de
conteúdo, a desinformação por excesso de conteúdo (hiperinformação) e a
desinformação causadas por conteúdo malicioso – às Fake News. Nunca se fez
tão relevante o papel do bibliotecário atuando diretamente com a comunidade
o qual ele atende,deixando, assim, o perfil estereotipado de um profissional
isoladoem meio a livros e assumindo o seu protagonismo em uma sociedade
informacional.
A fim de transcendermos para uma sociedade do conhecimento,
necessitamos de informações fidedignas e checadas, através do trabalho de
profissionais qualificados. Os problemas que eram vistos no século XVI ainda
reverberam atualmente.Cabe a nós decidirmos se faremos algo para estancar
isso ou permitir que a barbárie seja estabelecida, como já avisara Adrien
Baillet.

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DADOS BIOGRÁFICOS

Emanuelle Geórgia Amaral Ferreira: Bibliotecária,
Mestra e Doutoranda em Ciência da Informação pela UFMG.
Pesquisadora dos seguintes grupos de pesquisa “Estudos
em Práticas Informacionais e Cultura” (EPIC/UFMG) e
“Informação na Sociedade Contemporânea” (UFRN), ambos
cadastrados no CNPq. Seus interesses de pesquisa estão
em torno da Biblioteconomia, com ênfase na Ciência da
Informação.
E-mail: emanuelle.gaf@gmail.com

Bruno Fortes Luce: Formado em Jornalismo pelo Centro
Universitário Metodista IPA e bacharel em Biblioteconomia
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Mestre em Informática na Educação no Instituto Federal do
Rio Grande do Sul(IFRS). Desenvolveu a pesquisa:
Desinformação na terceira idade: como o público idoso se
relaciona com as Fake News dentro das redes sociais.
E-mail: brunofluce@gmail.com

�270

CAPÍTULO XIV - O papel do bibliotecário na disseminação da
leitura: acesso, incentivo e mediação
Jéssica Patrícia Silva de Sá
Claudio Paixão Anastácio de Paula

1 INTRODUÇÃO
No âmbito das atribuições do bibliotecário, destaca-se sua competência
na disseminação da leitura literária. O bibliotecário, na sua atuação em prol da
leitura, age em três diferentes níveis: acesso, incentivo e mediação. Contudo,
na literatura da área de Biblioteconomia e Ciência da Informação é perceptível
o uso dos termos “acesso”, “incentivo” e “mediação” como sinônimos, não
sendo realizada uma devida distinção entre os três termos, que se relacionam
com diferentes formas de atuar na disseminação da leitura no contexto das
bibliotecas. Dessa forma, nesse ensaio, objetivamos discutir os referidos
termos de forma a definir cada um em sua particularidade.
Inicialmente, antes de discutirmos os termos e suas distinções, é
necessário

promover

uma

reflexão

sobre

a

leitura.

Na

sociedade

contemporânea existe um consenso de que a leitura literária é prática
importante

na

vida

de

um

sujeito.

Dessa

forma,

diversas

pessoas,

pertencentes a diferentes contextos e classes sociais, afirmam enfaticamente a
importância da leitura. Contudo, quando se questiona o porquê da relevância
do ato de ler, as respostas costumam ser evasivas ou superficiais. Torna-se
essencial, portanto, a discussão a respeito de qual a real importância da leitura
e como ela está relacionada com a atuação do bibliotecário.
As principais vantagens da leitura literária referem-se, principalmente, à
formação e humanização dos sujeitos. Quanto à formação, a apropriação da
leitura literária é desejável em vários sentidos, por meio dela o sujeito se torna
mais hábil no uso da língua, adquire uma inteligência mais crítica e reflexiva,
alcança novas esferas de conhecimento (YUNES, 1995; PETIT, 2009).

�271

No que diz respeito à humanização, diversos autores se manifestaram e,
em suas reflexões, acabaram por compor uma descrição sobre como o contato
que se estabelece entre o “eu lírico” do autor corporificado em sua obra e a
pessoalidade do leitor acabam por produzir consequências significativas na
identidade desse último. Merleau-Ponty (2002) aponta exatamente nessa
direção, quando destaca que o valor simbólico das palavras do autor guia o
leitor na construção de sucessivas significações estabelecidas pela sua
consciência imaginante (SARTRE, 2004) tornando-o o verdadeiro criador do
texto e um introdutor de novos sentidos ao mesmo. Essa experiência acabaria,
como descreve Proust (1991), tirando o leitor de um estado de passividade e,
mesmo na solidão de sua leitura, o conduziria na busca de elementos de
humanização que, ao estimularem a sua capacidade criadora, tornariam-no
mais forte. De forma análoga, Botton (2011) irá atribuir à leitura da obra do
próprio Proust a oportunização da reflexão sobre – entre outros temas – o diaa-dia, a amizade, o amor, a expressão dos sentimentos e a fruição do tempo e,
consequentemente, elevar a obra desse autor ao status de fonte inesgotável
de consolação, humanização e cura para seus leitores. A leitura possibilita a
atividade de simbolização, de forma que os textos podem agir em diversos
níveis: por meio de seus conteúdos, das associações que suscitam, das
discussões que promovem (PETIT, 2009).
Por meio da leitura, o sujeito torna-se capaz de explorar a experiência
humana, ampliando sua compreensão e comunhão com o mundo, interagindo
com o real para interpretá-lo, compreendê-lo e decidir sobre ele (YUNES,
1995). A função da literatura não é transmitir nada, mas, sim, criar (LAJOLO,
1982). Ouaknin (1996) postula que, uma vez que só há acesso ao tempo
humano através da narrativa, o livro é uma espécie de tempo-objeto ou um
objeto portador do tempo. Em consequência disso, a leitura, ao se configurar
como uma ação interpretativa (ou seja, hermenêutica), teria a possibilidade de
se

32

tornar

uma

“cronoterapia32”

e

oferecer

um

pharmakon33

para

as

Administração de medicamentos a uma determinada hora do dia, considerada ideal para um
melhor resultado terapêutico, no que se considera ser o respeito pelos ritmos circadianos que
regem cada organismo, com o intuito de aumentar a eficácia dos tratamentos e diminuir a sua

�272

“cronopatologias34” de um tempo morto: a ausência de passado (ou a
dissidência em relação a ele), a perda da capacidade para se projetar no futuro
e

de

antecipar.

Em outras

palavras, a

leitura

poderia

oferecer

uma

oportunidade para que o leitor buscasse a convivência justa e harmoniosa da
memória com a esperança: a convivência do que ele é, com o que ele foi e o
com o que ele poderia ser na temporalidade da existência.
Destaca-se que a leitura literária é uma ação que possibilita a fruição,
por meio do contato com a experiência artística da literatura. O livro literário
enquanto obra de arte possibilita a apreciação estética, o despertar de
sentidos. Além disso, o ato de ler também propicia a vivência da alteridade,
possibilitando uma educação emocional, podendo também ser um refúgio para
uma realidade esmagadora. Em suma, a importância da leitura está na
possibilidade de dar sentido à vida. Botton e Armstrong (2014), ao discorrerem
sobre o valor de arte em geral, propõe um raciocínio que poderia ser aplicado,
com muita propriedade, às particularidades da obra literária. Para os autores,
ao apontar a complexidade do universo e expressar essa complexidade no
contexto das transformações e contradições enfrentadas pelas pessoas na
época em que foi produzida, a obra de arte (inclusive a obra literária) acaba
por discutir valores e ideias (ou apresentar a seu público uma oportunidade
para fazer isso). Na contemplação dos conflitos expressos nessas obras,
acabariam por emergir reflexões sobre elementos como, por exemplo, a
indissociável conexão entre a existência humana, a solidão e o sofrimento e,
consequentemente, ofereceriam a possibilidade de

que as pessoas se

sentissem menos solitárias ao experimentarem essas sensações. De forma
análoga, seria possível que essa experiência ajudasse as pessoas a manterem
a esperança diante da crueza da vida. Nessa mesma direção, os autores
advogam que alterações no valor as pessoas atribuem a manterem-se em

toxicidade. Disponível em: https://www.meudicionario.org/cronoterapia. Acesso em: 27 abr.
2020.
33
Droga, medicamento, medicamento veterinário, produto farmacêutico, quimioterápico,
remédio, substância terapêutica. Disponível em: https://pt.glosbe.com/de/pt/Pharmakon.
Acesso em: 27 abr. 2020.
34
Capítulo das ciências médicas que estuda e trata os efeitos dos ciclos circadianos, circanuais
ou outros ciclos temporais sobre os estados de saúde ou doença dos seres vivos. Disponível
em: https://www.meudicionario.org/cronopatologia. Acesso em: 27 abr. 2020.

�273

equilíbrio e valorizarem os detalhes e as pequenas coisas da vida poderiam
emergir da interação com o conteúdo das obras de arte. Para os autores, as
obras de arte, mesmo quando tratam de temas sombrios e traumáticos,
apontam para a promoção de valores e atitudes importantes. Eles afirmam
também que os autores doariam a sua habilidade durante o processo de
criação para tornar esses valores mais atraentes e acessíveis. Desse modo,
cada obra literária, se corretamente explorada, poderia oferecer aos seus
leitores uma oportunidade de refletir sobre a importância de uma vida rica em
experiências, para a necessidade de alargar seus horizontes, para assumir uma
perspectiva mais alegre, terna ou mesmo crítica da vida. Em sua variedade de
motivos, a obra de arte poderia oferecer uma via régia para histórias que
pudessem sincronizar-se com as necessidades das pessoas e de sua época:
indo de um espectro que cobriria desde exemplos de força para se manterem
de pé diante das adversidades e para observar os melhores aspectos da vida
humana a oferecer-lhes espaço e autoridade para reconhecerem a si mesmas
diante de um mundo ruidoso e distraído.
Essa interlocução entre o autor, sua obra e o leitor e os efeitos que ela
trás ao leitor é descrita, com maestria no clássico Autopsicografia de Fernando
Pessoa (1942):
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Ao construir o seu metapoema e dobrar a obra poética sobre si mesma
para descrever como ela se constela, Pessoa expõe não só o próprio processo
de criação – onde afirma que o (bom) poeta modela (ou finge, da expressão
latina

para

modelar:

fingere)

e

busca ardentemente

reproduzir

nessa

�274

modelagem os traços que desenhou em sua imaginação – mas também
discorre sobre os mecanismos que permitem a conexão dessa obra com eu
leitor.
Essa capacidade que o poeta tem de moldar as palavras para, de forma
intensa e completa, representar certas emoções desperta no leitor, segundo o
próprio poeta afirma, sentimentos semelhantes. No entanto, sob o efeito dessa
ficção, o leitor não sente a dor do poeta (seja ela de fato sentida ou apenas
“fingida” pelo autor), mas uma dor que brota, numa espécie de espelhamento,
da forma particular como o leitor interpreta – ou seja, mistura a sua própria
história, sua própria realidade – com a realidade que é expressa (“fingida”) no
poema. Essa conversão da dor original do poeta em uma dor “fingida” (i.e.:
representada) ajuda o leitor a também representar a sua dor original em outra
dor. O poema ajuda o leitor a converter a sua dor em outra dor. Ajuda-o a
criar, por assim dizer, uma dor “mediada” (amplificada em seu significado) e,
assim, o auxilia o difícil processo de dar sentido à sua experiência dolorosa.
Assim,

por

trás

do

“mero

entretenimento”

da

razão

aparentemente

representada pela fruição que a obra literária desperta, diz Pessoa, existe
muito mais; existe um ato de contaminação de aprofundamento que se
transfere de um indivíduo para o outro.
Retomando, após essa longa digressão, as bibliotecas como um objeto
de reflexão o que encontramos é uma coleção de espelhos em potencial.
Espelhos que como nos contos dos Grimm (2000) insistem em revelar não
exatamente o que o seu consulente quer saber, mas o que ele precisa saber e,
dessa forma, ajudam-no a colocar a sua visão em perspectiva:
Dize a pura verdade, dize, espelho meu:
Há no mundo mulher mais linda do que eu?
E certo dia, o espelho respondeu:
Aqui neste quarto sois vós, com certeza,
Mas branca de neve possui mais beleza (GRIMM, 2000, p. 358).

A biblioteca é, dessa forma, mais que apenas um local que possui um
acervo composto por muitos livros ela é uma possibilidade. A possibilidade da
transformação de uma instituição alicerçada no nobre propósito de promover a
prática da leitura literária, possibilitando o acesso e empréstimo de livros de

�275

forma gratuita para a comunidade em geral em um espaço transformacional
para pessoas e, até, sociedades. Para Britto (2016, p. 40) “as bibliotecas são o
lugar do livro e da leitura. [...] Há, por assim dizer, uma identidade de todas
as bibliotecas: a guarda e a organização do texto escrito e a oferta da leitura”.
Nas bibliotecas escolares, o desenvolvimento de projetos em prol da
leitura é essencial. No contexto da escola, o trabalho do bibliotecário deve
sempre adequar-se ao projeto pedagógico da instituição, proporcionando que o
trabalho desenvolvido na biblioteca esteja alinhado ao plano educacional.
Nesse sentido, a parceria entre bibliotecários e professores é fundamental,
visando o planejamento de atividades de incentivo e mediação de leitura. A
promoção da leitura no contexto da biblioteca escolar possui, portanto, uma
característica formativa e educativa, objetivando o aprimoramento das práticas
de leitura, visando a apropriação de aprendizados. Contudo, a função da
leitura literária não deve ser reduzida a um caráter puramente didático, sendo
importante que o bibliotecário se atente para o efetivo trabalho com o
letramento literário, tendo em vista a produção de sentidos por meio da
literatura. É importante que os alunos compreendam a biblioteca como meio
para o aprendizado e conhecimento, mas também como espaço de lazer e
reflexão, sendo necessário que o bibliotecário estimule práticas de leitura
prazerosas, em contramão à obrigatoriedade da leitura que muitas vezes
ocorre em sala de aula.
Já nas bibliotecas públicas, o trabalho com a leitura literária pode ser
potencializado em seu aspecto mais estético e emocional, reduzindo um pouco
o caráter formador e educativo tão presente na biblioteca escolar. Assim, o
bibliotecário pode trabalhar com a promoção da leitura no espaço da biblioteca
pública visando a formação do leitor, com ênfase nas experiências de leitura e
os sentidos que produzem nas vivências dos sujeitos. A ideia é sensibilizar o
sujeito a introjetar a leitura como prática cotidiana, vendo no texto literário
uma nova forma de fruição, lazer, reflexão e compreensão de mundo. A
biblioteca pública tem como função a democratização da informação, sendo
extremamente pertinente a promoção da leitura literária, direito de todo ser
humano.

�276

Outros tipos de biblioteca também devem realizar ações de incentivo e
mediação de leitura. Nas bibliotecas universitárias o trabalho com a leitura não
deve ser menosprezado, sendo importante a criação de ações que visem a
promoção da leitura entre os estudantes, como por exemplo, a criação de
espaços

próprios

para

a

leitura

literária

nas

bibliotecas.

Bibliotecas

especializadas, como bibliotecas de empresas e instituições, também podem
atuar na promoção da leitura literária, realizando ações como campanhas de
doação

de

livros

sensibilizando

os

literários

e

trabalhadores

trocas
a

de

ver

na

livros

entre

leitura

uma

os

funcionários,

opção

para

o

entretenimento e a reflexão. De forma semelhante, a importância da leitura
pode e deve ser disseminada em bibliotecas comunitárias, prisionais, dentre
outras.
Em síntese, toda biblioteca (por essa potencialidade da promoção da
leitura literária) comporta em sua essência a possibilidade para se tornar uma
instituição que traga “escala, consistência e força externa àquilo que de outra
forma poderia permanecer para sempre como um evento pequeno, aleatório e
privado” (BOTTON, 2011, p. 248). Há, nelas, a possibilidade de oferecer
substância às dimensões interiores do humano – aquelas partes interiores que
um mundo barulhento e caótico prefere deixar desregulamentadas e presas,
junto com os “sentimentos unicamente a volumes de poesia ou ensaios,
sabendo que, no fim, os livros são unicamente objetos silenciosos” (Botton,
2011, p. 248) se permanecerem confinados às estantes.
Botton (2011), falando da sociedade secular como um todo, afirma que
precisamos:
[...] de instituições para estimular e proteger aquelas emoções que
estamos inclinados a cultivar, mas às quais, sem uma estrutura de
apoio e um sistema de lembretes ativo, não dedicamos tempo
porque somos distraídos e indisciplinados demais (BOTTON, 2011, p.
251, grifo nosso).

No que diz respeito às bibliotecas, qual poderia ser esse “sistema de
lembretes ativo”? É para uma tentativa de responder a essa questão que o
presente ensaio busca dirigir a sua reflexão.

�277

Tendo em vista as considerações de que a leitura é importante e que
uma biblioteca é um local propício à leitura, é fundamental que o bibliotecário
reflita em torno dessas questões, de forma que possa enriquecer sua prática
profissional. Afinal, qual é o papel do bibliotecário (e, consequentemente da
“sua” biblioteca) na promoção da leitura literária? O que é efetivamente mediar
leitura?Para responder a essas questões torna-se necessário iniciar a reflexão
proposta no início deste capítulo em torno dos termos acesso, incentivo e
mediação de leitura.
Nas discussões sobre leitura e biblioteca, o termo “acesso” geralmente é
utilizado em expressões como “acesso ao conhecimento” ou “acesso à
biblioteca”, sendo pouco utilizada a expressão “acesso à leitura”, como descrito
a seguir.
[...] permite ao indivíduo um acesso ao conhecimento e um maior
domínio das informações (SILVA; SILVA; LOURENÇO, 2016, p. 11, grifo
nosso).
Além disso, é preciso que haja um mediador (bibliotecário ou professor)
que possa estimular o acesso do aluno à biblioteca e aos seus
recursos [...] (GOMES; BORTOLIN, 2011, p. 168, grifo nosso).
[...] o bibliotecário não deve ser um mero técnico– administrativo à
disposição da escola, deve também lutar pela conquista de
oportunidades sociais; possibilitar a todos os estudantes o acesso ao
conhecimento [...] (ALMEIDA; COSTA; PINHEIRO, 2012, p. 475, grifo
nosso).

De forma recorrente, “incentivo” e “mediação” são palavras usadas como
sinônimos quando se aborda a atuação do bibliotecário:
Como podemos notar o bibliotecário também realiza atividades que
desenvolvem ações educativas e culturais como forma de promover
iniciativas e incentivos à mediação de leitura (SILVA; SILVA;
LOURENÇO, 2016, p. 12, p. 160, grifo nosso).
Destaca-se também a importância do papel do bibliotecário e do
professor na mediação da leitura, pois é neles que os alunos vão
encontrar o incentivo para utilizar o acervo e frequentar a biblioteca
(GOMES; BORTOLIN, 2011, grifo nosso).
[...] esse é o papel do bibliotecário escolar no processo de mediação
e incentivo à leitura (ALMEIDA; COSTA; PINHEIRO, 2012, p. 483,
grifo nosso).

�278

Não cabe aqui uma crítica ao trabalho dos referidos autores, e sim, uma
constatação da ausência de diferenciação entre os termos. Apresenta-se a
seguir uma proposta de diferenciação.
A relação do bibliotecário com a promoção da prática da leitura literária
se inicia com a garantia do acesso aos livros de literatura. O acesso à leitura
é essencial para que seja cumprida a missão da biblioteca. O acesso envolve o
espaço físico da biblioteca, o acervo, sua organização e disponibilização. A
seleção, tarefa pertinente ao desenvolvimento de coleções, é uma etapa
importante no que diz respeito ao acesso à leitura, pois a qualidade dos livros
depende dos critérios de seleção da literatura que irá compor o acervo. O
tratamento da informação no que se refere à catalogação, classificação,
indexação e ordenação, são ações que propiciam a organização do acervo
literário,

possibilitando

a

sua

disponibilização

para

o

usuário.

O

acondicionamento dos livros nas estantes e sua devida sinalização também são
formas de facilitar a circulação do usuário na biblioteca, de forma que consiga
localizar itens com facilidade. É importante lembrar também da acessibilidade,
organizando a biblioteca para que ela possa ser amplamente utilizada por
todas as pessoas.

Todas as ações realizadas pelo bibliotecário estão

diretamente ligadas a dimensão do acesso à Literatura.
O uso da expressão “todas as ações” possui um caráter intencional, cada
ação desenvolvida numa biblioteca carrega, de forma implícita, uma missão
dupla e muitas vezes entendida como contraditória: a de organizar, guardar e
proteger as obras e, simultaneamente, dar vida a elas colocando-as nas mãos
de um ou vários leitores. Muitas vezes o segundo desses objetivos é deixado
vago e ignorado. No entanto não seria exagero afirmar que o propósito da
primeira missão é servir à segunda. Ainda assim, essa duplicidade unívoca
embora sustentada no plano teórico, soa para muitos indivíduos como absurda
se proposta ativamente no plano prático. Boa parte do receio de abordar a
“entrega” do livro e da biblioteca ao leitor vem da óbvia percepção de que
existem tipos diferentes de sujeitos interagentes com as bibliotecas. Há – na
mente perplexa dos habitués das bibliotecas (e não somente na “cabeça” dos
bibliotecários) – os que são vistos como um potencial perigo para a ordem,

�279

para os livros, para a limpeza, para a tranquilidade e para a própria
sobrevivência da biblioteca enquanto instituição e há outros, usuários, público,
leitores que remetem a um ideal quase platônico de perfeição construída,
muitas vezes, com base na própria concepção que esses observadores tem de
si mesmos como usuários.
No entanto, é muito difícil encontrar no mundo real os tipos idealizados
(tanto positivamente, quanto negativamente) que os observadores constroem
entre essas polaridades. A realidade sempre frustra a idealização propondo
novas variantes. No entanto o que fica claro diante disso tudo é que nem todos
os sujeitos vão se tornar efetivamente leitores. O gosto pela leitura é
subjetivo, as pessoas têm preferências diversas e essa sua individualidade
deve ser respeitada. Uma pessoa pode não ser um leitor literário, mas ser, por
exemplo, um efetivo apreciador de artes plásticas, o que também implica em
um tipo de leitura (interpretação), fruição e apreciação estética que, também,
como atesta o mesmo Botton (2011) em sua experiência com as obras de arte
pode experimentar a mesma “frágil qualidade que permite a dissolução das
fronteiras de nossos egos, ajuda a nos reconhecermos nas experiências de
estranhos e pode fazer com que a dor deles tenha tanta importância quanto a
nossa” (BOTTON, 2011, p. 191). Contudo, é necessário garantir que todos
tenham acesso à leitura literária, podendo assim, ter o direito de escolher se
desejam ou não se tornarem leitores literários.
Que tipo de atenção pode-se oferecer a essas pessoas? Como atingi-las e
tocá-las de modo a despertá-las para as possibilidades anteriormente
mencionadas?
O incentivo à leitura diz respeito à sensibilização do público da
biblioteca, usuários reais e potenciais, para a prática da leitura. Para realizar
ações de incentivo à leitura não é necessária uma grande proximidade com os
leitores, sendo importante conhecer o público-alvo da ação de modo geral. No
entanto, apesar dessa amplitude de olhar, é necessário que seja estabelecida
uma profunda compreensão da comunidade em que essas pessoas estão
inseridas, sua história, suas características e as mudanças pelas quais ela
passou (e passa) nas dimensões temporais e culturais. Paradoxalmente, esse

�280

fator permite que atividades de incentivo à leitura sejam mais generalistas no
sentido de buscarem contemplar necessidades e interesses do público em geral
e menos generalistas no sentido de serem produzidas como uma ação
massificada; conseguindo, assim atingir um público maior. O incentivo envolve
a atuação do bibliotecário e equipe no que se refere à divulgação de livros por
meio de exposições temáticas, feiras de trocas de livros, visitas guiadas,
contação de histórias, convite a autores, etc. O incentivo à leitura também
envolve ações de marketing da biblioteca.
Nessa perspectiva, o próprio conceito de marketing como é entendido e
praticado pela maioria dos bibliotecários precisa ser ampliado. A noção de
marketing, em sua origem, está intimamente ligada à compreensão da
identidade dos dois polos do comércio de um produto ou serviço. A
compreensão do mercado, ou seja, da identidade das pessoas e grupos que o
compõe, e a compreensão do produto ou serviço – construída a partir da
identidade da instituição que o oferece e expressa na marca que a representa.
Arriscando uma abordagem bastante livre da proposta de Botton (2011), o
olhar do bibliotecário interessado em auferir aos seus esforços de marketing de
bibliotecas um valor efetivo necessitaria vencer as limitações impostas pelo
atrito com uma visão reducionista desse trabalho. Dessa forma, indo além de
uma modéstia desnecessária, ele poderia estender seu olhar para a busca
ampliada das necessidades humanas manifestas em sua comunidade fazendo
pequenas melhorias na oferta de seus serviços e “produtos” para ajudá-la,
através dos indivíduos que a compõe, a se reencontrar com “itens de
consumo” (não apenas intelectual, mas sensorial e emocional). Novos “itens”
que ofereçam regularidade à alimentação da sua humanidade resgatando o
contato com conteúdos (incluindo os momentos e sentimentos já mencionados
anteriormente) que, em outras circunstâncias, seriam negligenciados e, até,
esquecidos.
Exposiçõesde livros nas bibliotecas são exemplos clássicos de ações de
incentivo à leitura. Uma boa forma de manter a frequência das exposições é
aproveitar datas específicas como Dia do Livro Infantil, Dia da Mulher, Dia do
Folclore, Dia da Consciência Negra, para selecionar os livros relacionados às

�281

temáticas e expô-los na biblioteca em local de destaque, de preferência com
alguns textos explicativos e, sempre que possível, uma explicação oral feita
pelo bibliotecário para os visitantes da exposição. Outra prática muito comum
é a exposição de livros de um determinado autor no mês de seu aniversário,
como por exemplo, Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Ariano Suassuna, etc. Essas
exposições contribuem para que o público tenha a oportunidade de conhecer
livros e autores que não conhecia, descobrir novos interesses e se sentir
estimulado a compreender assuntos diversos.
A contação de histórias é uma atividade comumente realizada em
bibliotecas, sendo benquista por muitos bibliotecários. De fato, a contação de
histórias permite uma aproximação do público, atraindo crianças, jovens e
adultos para o espaço físico da biblioteca. O ato de contar histórias remonta à
tradição oral, consistindo em uma ação cultural que sensibiliza e humaniza
leitores e não leitores. Essa atividade pode contribuir para diminuir as
distâncias entre as pessoas e a biblioteca, assim como para sensibilizá-las
quanto à potência das histórias para a criação de sentidos. Contudo, é
importante ressaltar que a contação de histórias, na maior parte das vezes,
ocorre sem a mediação do objeto livro. Pelo fato de o livro não possuir uma
centralidade nesse tipo de atividade, a contação de histórias se enquadra como
ação de incentivo à leitura.
Atividades virtuais de marketing da biblioteca como, por exemplo,
divulgação do acervo e exposição dos livros por meio das redes sociais podem
ser também consideradas como ações de incentivo à leitura. As postagens
realizadas no Facebook, Instagram, blog ou site, criados especificamente para
divulgação da biblioteca, auxiliam na disseminação de informações sobre
livros, autores, lançamentos, novas aquisições, citações de trechos de livros,
convite para eventos da biblioteca, etc. Essas ações são extremamente
relevantes,

pois

promovem

a

inserção

da

biblioteca

no

meio

digital,

promovendo um canal de comunicação direto com uma parcela dos usuários
que se encontra frequentemente conectada à internet.
Já a mediação de leitura é fazer fluir o livro até o leitor. A mediação de
leitura nada mais é do que o efetivo acompanhamento do sujeito em sua

�282

prática de leitura literária. É evidente que essa mediação entre o livro e o leitor
será potencializada durante o processo de formação do leitor, em que é
necessário um acompanhamento mais intenso, um auxílio na transposição de
barreiras e um encaminhamento que permita a esse conhecer as diversas
possibilidades no âmbito da prática leitora. De modo diferenciado, a mediação
de leitura para o leitor experiente ainda é relevante e eficaz no que diz respeito
aos compartilhamentos e trocas de experiências literárias.
A mediação de leitura pode ocorrer de forma individual ou em grupos. No
que se refere à mediação individual, trata-se da relação entre o bibliotecário e
o leitor, na medida em que o mediador estabelece uma relação próxima,
tentando conhecer o perfil daquele leitor, suas preferências literárias, sua
formação leitora, seu nível de leitura, com a finalidade de sugerir leituras,
trocar ideias sobre literatura, conversar sobre os livros, ouvir o leitor e
efetivamente acompanhá-lo na sua trajetória literária. Para que isso ocorra é
necessário que o bibliotecário atue com postura ética, respeitando o espaço
individual do leitor, não sendo invasivo, mas colocando-se à disposição para
atuar como um guia do usuário pelo universo literário, sendo essencial,
contudo, abrir espaço para as escolhas pessoais do leitor, respeitando as
particularidades de cada sujeito. Essa formulação corrobora de Petit (2013),
que concebe o mediador de leitura como uma pessoa que ama os livros,
devendo promover o desejo de ler, abrindo espaços nos quais o leitor possa
traçar seu próprio caminho, de forma que sua atuação não seja sentida como
uma intromissão.
Um outro modo de realizar a mediação de leitura é a atuação com grupos
como, por exemplo, por meio das leituras compartilhadas, comumente
destinadas para o público infanto-juvenil. A leitura compartilhada é uma
prática realizada tendo com centralidade o objeto livro. Em um grupo de
leitores, o bibliotecário apresenta o livro, seu título, autor e ilustrador, e
começa a leitura do livro em voz alta, mostrando também as ilustrações do
livro para o público. As leituras compartilhadas promovem a ligação entre os
leitores e o livro, despertando a curiosidade, estimulando a prática da leitura e
a construção de sentidos por meio da narrativa literária. Além disso, a leitura

�283

realizada de modo coletivo permite o estabelecimento de relações entre os
próprios leitores, que podem trocar experiências literárias.
Também realizados de forma coletiva, os clubes de leitura são ambientes
propícios para a atuação do bibliotecário como mediador. A criação de clubes
de leitura está intimamente ligada a necessidade de compartilhar experiências
vivenciadas por meio da literatura. A leitura literária, por vezes realizada de
modo solitário, torna-se assim uma atividade coletiva, que proporciona a
interação entre os leitores. Clubes de leitura podem ter propostas diversas
quanto às leituras prévias que antecipam cada encontro, sendo possível definir
que todos os leitores devem ler o mesmo livro ou também propor que cada um
leia o livro que escolher. De toda forma, o leitor deve realizar suas leituras
antes do encontro definido. A função do bibliotecário como mediador de um
clube de leitura é atuar como um guia, um orientador, motivando a
participação de todos os leitores presentes, levantando pontos a serem
debatidos, fazendo perguntas e questionamentos de forma a incitar os leitores.
O mediador deve iniciar o encontro, dar voz aos leitores, mas também realizar
um fechamento, de forma que as pessoas sintam que o encontro teve início,
meio e fim. É interessante também que o mediador proponha dinâmicas de
grupo, quiz e sorteios de livros, de forma que o encontro fique dinâmico. A
interação entre os participantes é essencial para que o encontro ocorra e seja
enriquecedor no que se refere ao compartilhamento de leituras.
Atualmente, clubes de leitura também podem ocorrer virtualmente, por
meio das redes sociais como WhatsApp e Facebook. A leitura coletiva em
ambientes virtuais pode ser também uma possibilidade de atuação do
bibliotecário. Nesses grupos é muito comum que seja definido um livro para
ser lido durante o mês, sendo colocadas metas semanais para a leitura. A
interação ocorre diariamente nessas verdadeiras comunidades virtuais de
leitores. O mediador de leitura pode atuar promovendo a interação e trocas
entre os participantes, levantando questões e propondo reflexões, de forma
semelhante ao que ocorre no clube de leitura presencial.
É importante afirmar que as três linhas de atuação – acesso, incentivo e
mediação da leitura – são complementares e de extrema relevância para que o

�284

bibliotecário consiga atuar na disseminação da leitura e efetivação dessa
prática junto à comunidade. Contudo, observa-se que os três níveis apontados
constituem-se como uma progressão, sendo o nível do acesso o mais amplo e
a mediação de leitura o nível mais próximo ao usuário, com maior
possibilidade de acompanhamento e confirmação da formação de leitores.
Nota-se também que o primeiro nível tem potencial de atingir um público
maior, o segundo nível tende a atender uma parcela da comunidade e o
terceiro é um trabalho realizado com grupos. Dessa forma, há uma tendência
de diminuição da dimensão e amplitude dos trabalhos do primeiro ao terceiro
nível. De forma inversamente proporcional, há o aumento da potencialidade da
intervenção, como também a construção de uma relação mais íntima entre os
bibliotecários e os leitores. O quadro 1, a seguir, apresenta a caracterização
das possibilidades de atuação do bibliotecário na disseminação da leitura.
Ação
Acesso

Incentivo

Mediação

Quadro 1 – Acesso, incentivo e mediação de leitura
Definição
Alcance
Relação
bibliotecário/público
Disponibilização de livros
Tem o potencial
Relação superficial,
literários na biblioteca,
de atingir toda a
impessoal e genérica.
devidamente selecionados e
comunidade.
organizados.
Ações de sensibilização do
Atinge uma
Relação de proximidade
público visando a prática da
parcela da
entre o bibliotecário e os
leitura literária.
comunidade por
usuários, conhecimento do
vez.
público-alvo.
O efetivo acompanhamento do
Trabalho
Relação de afetividade e
leitor em sua prática de leitura, realizado em
confiança mútua.
processo que envolve uma
atendimento
relação de afetividade que
individualizado ou
possibilita a formação do leitor, com grupos.
a transposição de barreiras e a
criação de sentidos por meio da
leitura.
Fonte: Elaborado pelos autores (2020).

Evidencia-se que o bibliotecário pode atuar em qualquer um dos três
níveis de disseminação da leitura, sendo o ideal que cada biblioteca possua as
três frentes de atuação.
Tendo como meta a atuação do bibliotecário como mediador de leitura,
outras questões se fazem pertinentes: O bibliotecário está preparado para ser
um mediador de leitura? Como atuar como um mediador de leitura?

�285

Em

sua

formação,

geralmente,

o

bibliotecário

tem

contato

com

disciplinas sobre leitura e formação do leitor literário, o que já o capacita para
atuar na disseminação da leitura. Existem também vários cursos de formação
de mediadores de leitura, presenciais e virtuais, gratuitos e pagos, que
auxiliam o bibliotecário a ter uma formação complementar.
Contudo, ações de mediação de leitura demandam mais do que uma
aprendizagem formal. Primeiramente, é necessário que o mediador de leitura
seja de fato um leitor, que tenha um amplo repertório de leituras e que tenha
gosto pela leitura, caso contrário, não conseguirá formar leitores nem dialogar
com eles. É necessário também que o bibliotecário conheça o acervo de sua
biblioteca, para que possa refletir sobre as possibilidades de disponibilização
desse acervo e na diversidade de perfis de leitores que podem acessá-lo. Como
afirmado anteriormente, o bibliotecário deve garantir o acesso de qualquer
usuário ao acervo literário. É essencial conhecer a comunidade da biblioteca,
suas demandas e necessidades, de forma que a atuação seja mais efetiva para
o público. O planejamento das ações de incentivo e mediação de leitura na
biblioteca são de fundamental importância, de forma que seja definido o
tempo, público-alvo e que seja feita a devida divulgação da atividade. A
postura do mediador também deve ser evidenciada no que diz respeito a não
ter preconceitos com o público, julgando quem pode ou não se tornar um
leitor. É importante também que o mediador tenha capacidade de lidar com o
público, os diversos perfis de leitores, com respeito e afetividade, dando
liberdade a esses sujeitos. O quadro 2 lista algumas dicas para o bibliotecário
atuar como mediador de leitura.
Quadro 2 - Atuação do bibliotecário mediador de leitura
Sugestões para a atuação do bibliotecário como mediador de leitura:
- Ser um leitor constante e curioso, construindo seu repertório de referências, que será
fundamental no momento da escolha e avaliação dos livros;
- Conhecer o acervo da biblioteca na qual trabalha e, na medida do possível, ampliá-lo
pensando na diversidade e multiplicidade de perfis de leitores;
- Conhecer o público de sua comunidade, suas necessidades e demandas;
- Garantir o acesso à leitura, organizando e disponibilizando os livros do acervo;
- Preparar o espaço da biblioteca para ações de incentivo e mediação de leitura;
- Planejar as etapas de cada atividade, prevendo o tempo de duração e o público-alvo;
- Ser inclusivo e propiciar espaços acessíveis para todos os leitores nas ações realizadas na
biblioteca;
- Não menosprezar a capacidade do público, tendo preconceitos em relação a quem pode ou

�286
não se tornar um leitor;
- Abrir espaço para escuta dos leitores, dando voz e liberdade aos sujeitos.
Fonte: Elaborado pelos autores (2020).

Tendo em vista a proposta de diferenciação entre acesso, incentivo e
mediação de leitura, como também a discussão da atuação do mediador,
conclui-se que o bibliotecário possui potencial e capacidade para atuar
efetivamente na disseminação de leitura. As três frentes de atuação do
bibliotecário na promoção da leitura – acesso, incentivo e mediação - são
ações complementares e fundamentalmente importantes nas bibliotecas,
sendo cada uma delas particularmente relevante na criação de vínculo entre os
usuários e a leitura.
Constata-se também que o bibliotecário possui a competência necessária
para atuar como mediador de leitura, sendo o profissional capacitado para a
gestão da informação, realizando uma mediação implícita, no que diz respeito
ao

acesso,

como também

a

mediação

explícita, em

ações

realizadas

diretamente com a comunidade da biblioteca.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Waldinéia Ribeiro; COSTA, Wilse Arena da; PINHEIRO, Maria Inês da
Silva. Bibliotecários mirins e a mediação da leitura na biblioteca escolar.
Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v. 17, n. 2, p.
472-490, jul./dez. 2012.
BOTTON, Alain de. Religião para ateus. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011.
222p.
BOTTON, Alain de; ARMSTRONG, John. Arte como terapia. Rio de Janeiro:
Intrínseca, 2014. 240p.
BRITTO, Luiz Percival Leme. No lugar da leitura: biblioteca e formação. Rio
de Janeiro: Edições Brasil Literário, 2016.
GOMES, Luciano Ferreira; BORTOLIN, Sueli. Biblioteca escolar e a mediação de
leitura. Semina: Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v. 32, n. 2, p. 157170, jul./dez. 2011.

�287

GRIMM, Jacob &amp; Wilhelm. Contos de Gimm. Belo Horizonte; Rio de janeiro:
Editora Itatiaia, 2000. 596p.
LAJOLO, Marisa. O que é literatura. 5. ed. São Paulo, 1984. 98p.
MERLEAU-PONTY, Maurice. A prosa do mundo. São Paulo: CasacNaify, 2002.
191p.
OUAKNIN, Marc-Alain. Biblioterapia. São Paulo: Edições Lyola, 1996. 344p.
PESSOA, Fernando. Poesias. Lisboa: Ática, 1942.
PETIT, Michèle. A arte de ler ou como resistir à adversidade. São Paulo:
Ed. 34, 2009.
PETIT, Michèle. Leituras: do espaço íntimo ao espaço público. São Paulo: Ed.
34, 2013.
PROUST, Marcel. Sobre a leitura. Campinas: Pontes, 2011. 66p.
SARTRE, Jean-Paul. O que é a literatura? Petrópolis: Vozes, 2015. 256p.
SILVA, Ivanice Prado da; SILVA, Winglyg Thais do Nascimento da; LOURENÇO,
Adriana. Contação de história como mediação de leitura: contribuição na
formação do bibliotecário. Ciência da Informação em Revista, Maceió, v. 3,
n. 2, p. 10-17, maio/ago. 2016.
YUNES, E. Pelo avesso: a leitura e o leitor. Letras, Curitiba, n. 44, p. 185-196,
1995. Disponível:
https://social.stoa.usp.br/articles/0037/3051/Leitura_e_leitorYUNES.pdf.
Acesso em: 24 jun. 2019.

�288

DADOS BIOGRÁFICOS

Jéssica Patrícia Silva de Sá: Doutoranda em Ciência da
Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e
Mestra em Ciência da Informação pela mesma instituição
(2018). Possui graduação em Biblioteconomia pela UFMG
(2016). Atua como Bibliotecária na Biblioteca Pública Municipal
Professor Francisco Tibúrcio de Oliveira, vinculada à Prefeitura
Municipal de Santa Luzia (MG). Tem interesse nas áreas de
práticas informacionais e estudos de usuários da informação,
com
enfoque
na
apropriação
da
leitura
literária
e
compartilhamento de leituras.
E-mail: j.jessicadesa@gmail.com

Claudio Paixão Anastácio de Paula: Possui doutorado em
Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (2005),
mestrado em Ciência da Informação pela Universidade Federal
de Minas Gerais (1999), graduação em Psicologia (Habilitação
em Psicologia Clínica) pela Fundação Mineira de Educação e
Cultura (1994) e bacharelado e licenciatura em Psicologia pela
Fundação Mineira de Educação e Cultura (1993). Atualmente é
Professor Associado do Departamento de Teoria e Gestão da
Informação (DTGI) da Escola de Ciência da Informação da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do
grupo de pesquisa Gabinete de Estudos da Informação e do
Imaginário (GEDII), onde desenvolve a pesquisa Dimensões
simbólicas e afetivas da informação: construindo um repertório
de práticas de investigação na ECI/UFMG.
E-mail: claudiopap@hotmail.com

�289

CAPÍTULO XV - Entre o leitor e o livro: bibliotecário como
mediador de leitura
Flávia Ferreira Abreu
A mediação de leitura deve ir ao encontro dos
interesses do leitor como passaporte para novas
leituras, interpretações e desdobramentos. Tem
que gerar inquietações, pois ao compartilhar a
leitura, cada indivíduo irá experimentar um
sentimento
de
pertença,
de
apropriação,
possibilitando abrir-se para o outro introduzindo-o
no mundo (PETIT, 2008).

1 INTRODUÇÃO
A relação leitura e mediação aqui apresentada é um recorte da pesquisa
de mestrado Mediação e Leitura na biblioteca escolar, defendida no programa
de Pós–Graduação em Ciências da Informação da UFMG. A pesquisadora
investigou as ações de mediação à leitura que têm sido utilizadas pela equipe
de profissionais das bibliotecas escolares da cidade de Belo Horizonte – MG.
O

objetivo

principal

da investigação

foi

analisar

o

trabalho

dos

bibliotecários escolares que desenvolvem essas ações em seu modo de operar,
contribuindo para a formação de sujeitos críticos, com gosto pela leitura. Nesse
capítulo,procurou-se principalmente, entender como os bibliotecários que
atuam em projetos de leitura na biblioteca compreende a mediação da leitura
na escola.
Para Yunes (1995) esse fazer pode possibilitar o contato com as
palavras, uma troca, o nascimento do prazer de conhecer, de imaginar outros
contextos de vida a partir da leitura.

Para responder a esse fim, foram

selecionadas duas bibliotecas escolares, de modo a contemplar as diferentes
configurações de ensino: bibliotecas escolares do ensino particular e público
municipal, que atendem alunos do ensino fundamental a partir do quinto ano e
tem atividades voltadas para a mediação da leitura. Segundo Ceccantini

�290

(2009), os estudos atestam que há um abandono de atos de mediação à
leitura, à medida que os leitores recém-cultivados vão deixando a infância. Por
acreditar que isso não é o ideal para incentivar o gosto contínuo pela leitura,
escolheu-se esse tipo de ação para compreender.
Nesse ambiente de aprendizagem, a equipe da biblioteca pode procurar
compartilhar

novos

conhecimentos

com

outros

estudantes

e

mediadores.Martins (2013, p.14) ressalta que “a importância da biblioteca
escolar se dá, principalmente, pelo apoio no processo de escolarização, a
medida em que a escola é entendida como lugar de mediação e troca de
conhecimentos, haja vista que a mesma tem como foco reconstruir o saber e
legitimá-lo”. A partir desse desempenho no meio social, a constituição das
funções, objetivos e características das bibliotecas será determinada pelos
contextos sócio-históricos e culturais a que pertence.
Bicheri e Almeida Junior (2013, p. 43) atestam que, para que a biblioteca
escolar possa cumprir sua função é necessário, além de espaço e acervo, um
bibliotecário “competente e engajado na escola como um todo. Importa, e
muito, a qualidade das atividades, as atitudes tomadas pelo bibliotecário, que
deve ser comunicativo, interessado e criativo”. É ideal que haja um
planejamento que vise novas e diferentes estratégias para aproximar o leitor
do

texto

e,

dessa

forma,

auxiliar

os

alunos

no

desenvolvimento

de

competências e habilidades de leitura. Desde os primeiros contatos com a
leitura, é preciso encontrar caminhos que levem à apropriação das informações
do texto, para que o leitor possa dar sentido, forma e consistência aquele
conteúdo.
Já Britto (2015), considera que a escola é um lugar de aprender fatos
que não se aprendem no trato da vida cotidiana. Ler e aprender podem ser
ensinados fora da escola, mas é na escola que a produção intelectual
organizada encontra espaço para expandir-se e sistematizar-se, além do senso
comum. Campello (2016) observa que o desenvolvimento de um trabalho em
equipe do bibliotecário com os professores na escola é alicerce para que
mudanças possam ser efetivas nas ações de mediação à leitura e de forma
política, em prol do melhor desempenho da educação e transformação social. A

�291

seguir serão apresentados conceitos sobre a leitura, leitor, mediador da leitura
e a metodologia para o desenvolvimento da pesquisa.

2 BREVE REFERENCIAL TEÓRICO
O arcabouço teórico desta pesquisa é estruturado por temas relevantes
para a compreensão das ações desenvolvidas pelo bibliotecário como mediador
da leitura destacando, portanto, o papel do bibliotecário como mediador social,
que auxilia no desenvolvimento do gosto pela leitura. Certamente, esse
enfoque perpassa por outras áreas de estudo como a educação, pois a leitura é
uma ação social, desenvolvida por atores e em determinados contextos.

2.1 LEITURA E O LEITOR
Para compreender o processo de mediação de leitura é preciso ampliar a
noção desse conceito a partir do entendimento do que é a leitura, retratado na
literatura, como relata Dumont (2007), o processo histórico sobre os estudos
da leitura que se deu nos Estados Unidos no contexto da crise econômica do
final da década de 1930, embasado na sociologia da leitura. Os estudos sobre
difusão da leitura e os efeitos sobre o leitor reuniram, no mesmo sentido, as
ações dos literatos, educadores, bibliotecários, pedagogos, psicólogos e
sociólogos. Um pouco mais tarde, em 1950, os franceses iniciaram as
pesquisas voltadas para a promoção e uso da partilha dos textos. A partir da
década de 1980, os estudiosos passam a ter um olhar direcionado ao público
leitor ou receptor de informações. Para a Ciência da Informação e a
Biblioteconomia, a leitura é visualizada a partir das necessidades dos usuários,
segundo o perfil do leitor. A autora salienta, ainda, que, nas últimas décadas,
surgiram indagações para compreender o contexto social e, assim, o fluxo de
informações, o sujeito e a diversidade da leitura nessas duas áreas.
Atualmente, as pesquisas se preocupam em identificar a efetividade e a

�292

introjeção de conhecimentos pela leitura, entendida aqui como apropriação da
leitura, a partir da subjetividade do leitor e seu contexto.
Chartier (1998) elucida que a leitura é sempre apropriação, invenção e
produção de significados. “Segundo a bela imagem de Michel de Certeau, o
leitor é um caçador que percorre terras alheias. Apreendido pela leitura, o
texto não tem de modo algum, ou ao menos totalmente, o sentido que lhe
atribui seu autor, seu editor ou seus comentadores” (CHARTIER, 1998, p. 7). A
leitura perpassa por caminhos que envolve o contexto socio histórico do leitor
que interfere no processo intelectuais que asseguram a compreensão do texto.
Para compreender o escrito, o leitor depende de seus conhecimentos de
mundo e de escrita para decodificar os signos e dar sentido ao que lê. Porém,
esse novo modo de leitura instrumental precisa partilhar com a leitura
prazerosa a possibilidade de submeter-se ao tempo do leitor, a garantia da
atividade crítica, dando uma nova permanência histórica e cultural às
narrativas que se constituem e se renovam na grande temporalidade.
A partir da revisão teórica, percebeu-se que a leitura do texto não tem
um sentido único, mas uma construção de entendimento que envolve o leitor a
partir de seu espaço sociotemporal e as novas ideias apresentadas pelo texto.
A teoria da estética da recepção desenvolvida por Iser (1996) vem confirmar
as diversas possibilidades de leitura a partir da interação entre o horizonte de
expectativas dos autores e as possíveis significações por seus leitores,
deixando claro que a interpretação do texto vai além dos conhecimentos do
texto. A estética da recepção visa explicar que ao tratar de obras textuais,
inacabadas e abertas a inúmeros olhares interpretativos. Esse conceito “atribui
à leitura um efeito emancipatório que libera o leitor da busca por uma única e
perfeita interpretação” (SILVEIRA; MOURA, 2007, p. 125).Dessa maneira,
proposta principal para formar o leitor é inserir a prática da leitura pela leitura.
E assim, pode-se visualizar a formação e transformação de um leitor
consciente e capaz de dialogar com o texto, já que ambos são indissociáveis.
Segundo Moreira e Duarte (2014), a animação de leitura tem como
propósito empreender de forma dinâmica a leitura no ambiente escolar, de
modo especial na biblioteca, a partir de métodos do teatro, com o objetivo de

�293

ampliar o processo da leitura para além da rigidez escolar, que a tratava como
meio e não fim. Porém, Perroti (1990) explica que a animação da leitura
passou assim a ser uma das estratégias de fazer frente às representações
negativas sem planejamento, da promoção da leitura comumente adotadas
nas escolas que não formavam leitores.
Campello (2009) alerta para o número significativo de pesquisas que têm
revelado os equívocos das políticas e das atividades de práticas da leitura, que
partem do princípio de que o importante é ler, não importa o quê, semse
estudar e planejar o que ler, é criar o “gosto” da leitura por meio de técnicas
de animação, “possíveis”, e não direcionadas ao texto. Para a autora, a
biblioteca pode ser um espaço no qual se forma o leitor, desde que seja um
lugar de criação e de compartilhamento de experiências, um ambiente de
produção cultural e que os bibliotecários e mediadores sejam leitores críticos,
aptos para o confronto com os usuários através da literatura sem cobranças
mecânicas de compreensão de texto lido e sem fórmulas rígidas de indicação
por idade.

2.2 BIBLIOTECÁRIO COMO MEDIADOR DE LEITURA
O mediador de leitura trabalha com a intervenção entre duas partes, na
ação de dividir em dois ou estar no meio, no conceito de mediação aplicado
sob diferentes perspectivas, “indicando ideias de interveniência, relação,
conjugação, religação, [...] elo estabelecido nas relações humanas, por meio
de um elemento mediador“ (RASTELI, 2013, p.24).

Para Araújo, Duarte e

Dumont (2019), o mediador há de se atentar para que seus próprios valores e
cultura pessoal não interfiram na formação do conhecimento do outro, de
modo que o profissional da informação evite que sua influência se confunda
com manipulação, já que os limites entre uma coisa e outra são um tanto
imperceptíveis. Ainda, para esses autores:

�294
Dentre os diferentes tipos de bibliotecas – públicas, escolares,
comunitárias, universitárias, especializadas, entre outras. – uma em que
o papel do mediador se faz fundamental é a biblioteca escolar. É nesse
ambiente que se forma o leitor e se educa para a competência
informacional (capacidade de se reconhecer a necessidade de
informação, saber como buscá-la, localizá-la e utilizá-la de modo
crítico), atividades em que a presença da mediação explícita se torna
condição sine qua non para o sucesso (p.94).

Além do mais, verifica-se com Silva (2010, p. 8) que a “expressão
mediação é um termo raro nas obras de referência da área de Ciência da
Informação”. E que deve ser trabalhado pelo profissional bibliotecário, para
que este possa ser um agente no auxílio a uma leitura compreensiva do
contexto sócio, político e cultural do leitor. ABREU (2019)acredita que a
mediação da leitura é uma possibilidade de transformação do entendimento do
texto pelos leitores. Através da interação entre os sujeitos envolvidos no
processo de construção do conhecimento e do compartilhamento de ideias, são
possíveis o diálogo, a formação de convicções e questionamentos sobre as
informações que envolve a realidade em que se está inserido.
Acredita-se que o papel dos mediadores é buscar várias formas de
mediar a leitura para além do texto, levar a reflexão por meio do diálogo do
que foi lido e das informações constantes nas entrelinhas. Todavia, deve-se ter
a ciência que o texto, mesmo oferecendo uma gama de probabilidades de
leitura, não pode ser lido arbitrariamente, de qualquer maneira, já que o
sentido não está apenas no leitor, nem no texto, mas na interação autor-textoleitor, cabendo ao mediador literário e ao leitor traçar caminhos possíveis de
interpretação baseados no texto. Por isso, “é de fundamental importância que
o leitor considere na e para a produção de sentido as sinalizações do texto,
além dos conhecimentos que possui” (KOCH, 2008, p. 217).
Carvalho (2016) salienta que o papel mais importante do mediador de
leitura é facilitar, para crianças e jovens, textos de qualidade, sem apelar para
a sedução invasiva e a demagogia, e assim, oferecer aos leitores encontros e
descobertas de algo que fale especialmente com eles a partir do acaso.
Para a pedagoga Farias (2017, p.40), o espaço da biblioteca “cria opções
de aprendizado através de projetos, elegendo a mediação de leitura, propicia
um vínculo entre o leitor, o mediador e os livros”. Isso pode traduzir a

�295

interação e o incentivo à leitura, junto à troca de conhecimento, às
descobertas que vão acontecendo com maior liberdade entre os leitores. A
autora ressalta, ainda, que a intervenção do mediador de leitura apresenta-se
como essencial no processo de incentivo à leitura. O bibliotecário mediador
tem uma função social essencial na formação do leitor, ao interpretar os
conteúdos informacionais que se encontram em sua unidade de informação, na
tentativa de tornar mais acessível ao usuário as informações que demanda.
Esse profissional torna-se ouvinte do leitor e passa a conhecê-lo melhor,
possibilitando o trabalho de mediar a leitura de forma mais efetiva, não só pela
literatura, de ficção, mas pela leitura da sociedade. Os mediadores, ao
incentivar a leitura, podem provocar no leitor o processo de apropriação do
texto e da informação, por meio de novas alternativas de leitura, propiciando
uma aproximação dos alunos ao conhecimento. Para Rodrigues (2007), o olhar
do bibliotecário precisa abranger e trabalhar a atitude educativa da leitura,
auxiliando os sujeitos leitores a refletir, a compreender, a descobrir e a
inteirar-se socialmente no mundo.
Já Barros (1986), espera que o bibliotecário tenha competência técnica,
não seja passivo em seu trabalho, assuma uma postura política, acumule
cultura, exerça a autocrítica, não seja um mero guardião de livros e respeite o
leitor, muito mais carente de saber do que de técnicas. Esse profissional tem
responsabilidade para com a escola e sua função de “mediador favorece, entre
outros

aspectos,

a

seleção,

organização,

disponibilização

do

acervo/informações e intervenção nas práticas de leitura no ambiente em que
atua, também contribuindo na formação de leitores” (BICHERI, ALMEIDA
JUNIOR, 2013 p. 44). Assim como, para a educação do usuário no trato com a
biblioteca

como

um

todo,é

imprescindível

que,

independentemente

do

ambiente e de influências educacionais, políticas, sociais e culturais, o
bibliotecário seja, antes de tudo, um leitor. Um leitor incondicional e
permanente dos assuntos ligados à sua área profissional, de atuação específica
e, também, de modo geral, a temas referentes às questões sociais, políticas e
econômicas de maneira a atuar de forma relevante e competente em seu
meio, procurando sempre redimensionar suas atividades de acordo com a

�296

realidade, mudanças e necessidades de sua comunidade (BICHERI, ALMEIDA
JUNIOR, 2013 p. 44). Além disso, deve ser consciente em relação a seu papel
de mediador, agente social, crítico e transformador na sociedade.
Almeida Junior (2006, p.53-54), discorrendo sobre a postura do
bibliotecário escolar, menciona que:
O bibliotecário adequado é aquele que [...] está em constante
questionamento; [...] que procura conhecer sua área de atuação; [...]
que tem consciência de que o usuário é seu fim último; que sabe que as
informações com as quais lida não são neutras e imparciais; que está
sempre procurando conhecer os motivos que há por trás de suas ações;
[...] que sabe que a informação é imprescindível para a formação do
cidadão. O bibliotecário escolar é aquele que reconhece sua profissão
como importante e necessária para a sociedade.

Acredita-se que colaborar para a formação do cidadão é atitude que faz
do bibliotecário escolar um sercapaz de agir em prol do outro por meio da
mediação da leitura. Assim como Carvalho (2012), os dados desta pesquisa
consideram o processo de mediação de leitura permeado por atividades de
rodas de leitura, encontros com escritores, ilustradores e especialistas em
literatura para debates literários, contação de histórias, e o clube da leitura.
Essas atividades tendem a despertar a mediação da leitura, as quais precisam
ser planejadas e executadas respeitando o valor de arte da literatura. Tais
atividades - de acordo com a autora citada e com os dados deste estudo – não
podem ser utilizadas como pretexto, no sentido de apenas auxiliar outras
disciplinas, e sim formar leitores.

3 METODOLOGIA
Esta pesquisa se caracteriza pela abordagem qualitativa com o intuito de
compreender o que os bibliotecários entendem por mediação de leitura nessas
bibliotecas.

Angrosino

(2009)

apresenta

algumas

características

da

investigação qualitativa com o objetivo de compreender, descrever e, às vezes,
explicar fenômenos sociais, a partir de um olhar para as práticas dos
profissionais, em conjunto com a observação e o registro de ações de
interação.

�297

O estudo tomou por base uma amostra não probabilística, qual seja: a
amostragem por julgamento. Nesse tipo de escolha estatística, classifica-se a
amostra

intencional,

selecionando

por

interesse

e

responsabilidade

do

pesquisador (LAKATOS; MARCONI, 1996).
Os sujeitos da pesquisa referem-se a bibliotecários que apresentam seu
entendimento sobre as ações de mediação de leitura. A bibliotecária EBMB35 da
Escola Municipal (MB) é Mestre em Ciência da Informação pela UFMG, há 20
anos atuando nessa biblioteca, com indicação a prêmios de bom exemplo por
ações que desenvolve, como o incentivo à leitura. Já as bibliotecárias da Escola
Particular (P), que foram entrevistadas, pois uma saiu da escola durante a
pesquisa porque foi aprovada em concurso público e a outra continuou de
forma efetiva o trabalho da funcionária anterior. Ambas EB1EP e EB2EP36 são
graduadas pela UFMG. EB1EP atuou na instituição por cinco anos e EB2EP
iniciou a trajetória há seis meses, interagindo com as professoras de História e
Produção de Texto, as quais desenvolvem o Projeto “Clube da Leitura”, há
nove anos na instituição.

3.1 ENTREVISTA COM BIBLIOTECÁRIOS
As três bibliotecárias foram entrevistas in loc. O objetivo da entrevista foi
sondar significados, explorar as nuances, captando o que está obscuro, e aliar
as questões gerais sobre o que se quer saber, o entendimento a respeito da
mediação de leitura.
3.2 A PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS – ANÁLISE DOS RESULTADOS
A mediação de leitura, segundo EB1EP, é uma conversa literária para
levar o texto ao leitor que vai ao encontro da promoção de leitura. Já EB2EP
visualiza a mediação como uma relação de interação maior com o seu leitor
através do diálogo que permitem o compartilhamento de ideias sobre a leitura.

35
36

Entrevistada Bibliotecária da Escola Municipal.
Entrevistada Bibliotecária da Escola Particular.

�298

EBMB defende a mediação de leitura no sentido:
De abrir caminhos de se mostrar as possibilidades de leitura e de
interpretação de texto, de aumentar essa visão estética sobre as coisas
de entrar no universo do escritor, de entrar no universo da literatura eu
gosto muito dessa visão da mediação e acho que é um papel primordial
do profissional da biblioteca escolar.

O mediador precisa ter “paciência” para lapidar a leitura, de acordo com
o perfil do leitor, auxiliando-o no amadurecimento da tipologia de textos a
serem lidos e principalmente conhecendo esse leitor. As entrevistadas
ressaltam, assim como Carvalho (2016) e Almeida Junior e Bortolin (2009),
que o mediador de leitura tem que ser leitor, pois, ao defender algo como
essencial, é necessário que se tenha propriedade e experiência na área dos
gêneros textuais, conhecimento a respeito de autores e obras, ler muito e
sempre compartilhar com os discentes da escola o que está lendo, o que
possibilita efetividade na ação de mediar a leitura.
Para se mediar a leitura, então, é preciso saber as possibilidades e só
consegue isso se abrir para esse outro olhar. Então, além de você
conhecer o que você está lendo, mediando, porque você não pode
enganar seu usuário, leitor, fingindo que gosta de ler, que você leu.
Você tem que ler e saber o que está mostrando; então, é um trabalho
muito grande de conhecer acervo, livro, de abrir seu olhar para essa
outra forma de encarar o livro como um objeto estético e artístico.
Quando a gente se depara com professores de Português, alguns
professores daqui que têm alunos em outras escolas e vão me pedindo
se tenho os livros das listas dessas escolas particulares para o ano todo,
eu vejo os livros indicados estão velhos, ultrapassado. Aí, eu percebo
que aquele professor não é um leitor contemporâneo de literatura
infantil e juvenil. Veja bem aquele livro que ele está indicando para o
aluno de sexto, oitavo e novo ano; é um livro que ele leu há uns vinte
anos e que agora não tem mais diálogo com esses meninos, são edições
esgotadas. Que você passa um aperto danado, por que quem faz essa
indicação são coordenadores e professor e você ver que ele não está se
abrindo a novas possibilidades de livros, de textos e de outras
abordagens, para alguns assuntos, por exemplo, um livro sobre a
família, que esse livro é da década dos anos 80, não refletirá a família
de hoje, que é completamente diversa. Eu percebo muito isso: a falta do
professor, desse profissional que está na sala de aula e está se abrindo
para isso, de estar se abrindo também para o gosto do menino,
atualmente. Por exemplo, é uma resistência a bestseller e eu nem acho
que isso seja uma das piores coisas, não! (EBMB).

Ainda EBMB ressalta que a:

�299
Biblioteca perde um pouco na questão do letramento informacional, a
gente ainda não deu conta de levar a informação para a sala de aula,
formar os pesquisadores de formar alunos competentes em informação
eu acho que isso é o grande desafio da biblioteca escolar. Mas eu
defendo sim a mediação da leitura e ela deve ser uma habilidade do
profissional com a informação muito bem trabalhada, tem que conhecer
o que agente está mediando, ler o que estamos mediando, abrir os
olhos e a percepção do que rola no mundo para a gente poder estar
mediando essa informação, essa leitura.

Essas atividades são incipientes para as habilidades de formar alunos
mais autônomos em suas pesquisas; é um caminho a ser mais desenvolvido na
biblioteca escolar.É preciso entender/considerar o tempo de compartilhamento
espontâneo entre ouvintes e leitores tão importante quanto a leitura e a
narração, é valorizar a indispensável qualificação do mediador de leitura.
O projeto Clube da Leitura na escola particular cujo objetivo é
compartilhar leituras, em queas mediadoras colocaram-se à disposição para
assumir o compromisso de converter a leitura prazerosa e comumente
marginalizada, em uma leitura a ser realizada e discutida no ambiente da
biblioteca. Outro objetivo das mediadoras desse projeto é romper mitos e
derrubar preconceitos que envolvem a literatura, fazendo com que os alunos
descubram o prazer do texto. Elas acreditam que, ao valorizar a independência
de leitura dos discentes, por meio do diálogo intertextual e orientado para uma
leitura crítica e reflexiva em encontros agradáveis para compartilhar suas
apreciações, é possível descobrir o prazer em uma diversidade de textos cada
vez maior.
O clube da Leitura já é, assim, um caso a parte em que, a gente
conseguiu interagir com o leitor; o aluno, enquanto leitor, nos procura,
pedindo indicações e nós fazemos indicações para eles que são
adequadas; eles gostam, desfrutam daquilo, assim, com gosto. Então, é
uma mediação de leitura que dá certo, que quer pegar um leitor que
realmente tem o prazer de ler, ler além da conta, do combinado na
escola. Eu vejo a EP como ponto muito positivo pelo lado do Clube da
Leitura; acho que é uma coisa bastante rica que tem lá e [...] é um
trabalho bacana, que, assim, a gente vê que dá muitos frutos e
maravilhosos. Os ex-alunos que saíram de lá como são e o que
desenvolvem hoje, e a gente sabe que muito se deve ao fato de eles
serem leitores críticos, que realmente gostam de ler. Atualmente, eu
estou trabalhando na prefeitura do interior e pretendo montar um clube
da leitura lá (EB1EP).
O Clube da leitura é o sonho (risos...) (EB2EP). Elas viram a
necessidade de ter uma interação para os meninos começarem a ter
gosto pela leitura; foi criado o clube e é aberto a partir do sexto ano do

�300
Fundamental II; é um espaço para interação, para conversa com os
alunos sobre livros; a gente coloca assuntos atuais, sugestões; eles dão
sugestões de livros [...]. É um momento de interagir não só aqui na
biblioteca, porque a gente não fica só aqui, mas tem fora também,
cinema, teatro. Tudo que é programação [...] tem esse cunho literário.
O Clube é o xodó do colégio; é onde eles investem, eles gostam, tem
orgulho de ir para o Clube; tanto é que já está aí há anos (EB2EP).

As mediadoras do Projeto Clube da Leitura planejam chá com autores
como aconteceu com a Lavínia Rocha, a escritora conversou com os membros
do Clube da Leitura sobre o processo de publicação do livro, inclusive uma
menina falou que não gostava de romance, mas ao ler o livro “Um amor em
Barcelona” foi tocada pelas palavras da autora. Lavínia afirma não acreditar
que existe gente que não goste de ler, apenas não encontrou seu gênero
literário; ela se considera uma leitora desde a infância.
Nesse projeto, há por meio do contato com mediadores, escritores, livros
e filmes a interação com a literatura, a partir do prazer de ler. O Clube da
Leitura permite a participação ativa dos alunos a eventos de leitura, atividades
essas consideradas por Carvalho (2016) como uma fonte de aprendizagem. O
contato com atos de leitura e escrita confere ao leitor a possibilidade de
ampliar o conhecimento de si e do outro. O diálogo do leitor com o objeto lido
é um ponto de partida para a formação do leitor, e o auxílio do mediador de
leitura, nesse processo - de ler com os leitores - poderá favorecer o
intercâmbio de leituras, ampliando o entendimento de determinado assunto
para ambas às partes.
O diálogo do leitor com o objeto lido é um ponto de partida para a
formação do leitor, e o auxílio do mediador de leitura, nesse processo - de ler
com os leitores - poderá favorecer o intercâmbio de leituras, ampliando o
entendimento de determinado assunto para ambas às partes.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo principal desta pesquisa foi entender a mediação de leitura na
visão dos bibliotecários, nas bibliotecas escolares, especificamente na cidade
de Belo Horizonte, Minas Gerais. Verificou-se que nas bibliotecas existem

�301

projetos planejados e implementados. No entanto, para que se alcance a
efetividade dessas ações, é fundamental conhecer os meninos, a escola e a
literatura, sendo leitores que vão formar o leitor pelo exemplo, pelo diálogo e
por praticar aquilo que se acredita. A eficácia das atividades perpassa pelo
trabalho contínuo dos profissionais com os processos de mediação à leitura.
Na instituição de ensino EP, observou-se que o projeto Clube da Leitura é
elaborado e escrito formalmente pela equipe. Isso proporcionou a efetividade e
longevidade da ação. Assim, como em qualquer contexto organizacional, o
planejamento, a formalização e a colaboração entre os envolvidos são
elementos essenciais para garantir o melhor desempenho das atividades de
mediação à leitura.
Na escola MB, os empréstimos, orientações de leitura e contação de
história são constantes na biblioteca. A bibliotecária esclareceu que a contação
de história é importante, embora não seja a única estratégia, cabendo aos
profissionais buscarem meios de capacitação e aperfeiçoamento para o
exercício relacionado à leitura nas bibliotecas escolares. Neste caso, há uma
abertura da entrevistada quanto ao letramento, demonstrando que o trabalho
na biblioteca ainda é incipiente para o planejamento de ações neste sentido.
Os resultados alcançados evidenciam que o bibliotecário utiliza da sua
competência de ser leitor para a escolha das ações de mediação, para lidar
com a informação, além de conhecer a literatura que dará suporte às
atividades planejadas. O conhecimento cultural e as experiências desse
profissional estão presentes em suas ações de mediação à leitura.

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YUNES, Eliana. Pelo avesso: a leitura e o leitor. Curitiba: Editora da UFPR,
1995.

DADOS BIOGRÁFICOS

Flávia Ferreira Abreu: Bacharel em Biblioteconomia (2010),
Especialista em Gestão Estratégica da Informação (2012),
Mestre em Ciência da Informação (2019) pela Universidade
Federal de Minas Gerais. Possui experiência na área de Ciência
da Informação, com ênfase em Gestão da Informação, atuou
principalmente nos seguintes temas: leituras compartilhadas;
biblioteca itinerantes, mediação de leituras e em gestão de
sistema da informação. É servidora do Sistema de bibliotecas
da UFMG, no setor de Referência da Biblioteca Central.
E-mail: flaviaabreu2911@gmail.com

�305

CAPÍTULO XVI - Da biblioteca à comunidade: o bibliotecário
como agente cultural
Alison Barbosa de Souza

1 INTRODUÇÃO
Entrar em uma biblioteca pública, observar seus livros, seus espaços, sua
organização, seus móveis, mesas, cadeiras, estantes. Junto a isso, perceber
que bibliotecas não são compostas apenas de objetos, há também as pessoas,
por vezes acolhedoras, ora aproximando-se prontamente e se colocando na
posição de atenção, escuta e acolhida, ora deixando aquele ser fruir livre, até
que um questionamento porventura surja a partir de sua observação. O
conjunto de sensações e impressões, formado a partir das experiências
vivenciais e intersubjetivas que cada sujeito carrega consigo, faz com que os
atores presentes nos dois lados dessa cena (pessoas que adentram os espaços
informacionais de um lado e funcionários ali dispostos a mediar o encontro
entre os livros e seus leitores de outro) tenham algo a dizer.
De modo geral, considera-se a biblioteca pública um equipamento que
ampliaas possibilidades de formação dos indivíduos por meio do acesso à
informação, estabelecendo processos de mediação informacional, de fruição,
apreensão e produção do conhecimento, a fim de possibilitarem que os sujeitos
atuem crítica e construtivamente nas realidades em que estão inseridos. Por
sua vez, a ação cultural pode ser compreendida como um mecanismo eficaz
na democratização do acesso aos bens culturais. É a ação cultural que visa
garantir “o ingresso do cidadão em atividades de formação, difusão [...] dando
luz a projetos e manifestações locais, bem como proporcionando transparência
e visibilidade nas ações governamentais” (BELO HORIZONTE, 2018, p. 3).
Existe um axioma presente em nossa realidade brasileira, no que se
refere ao livro e à leitura, de que estamos em um país de não-leitores.
Presente em estatísticas dos mais diversificados organismos, a ausência de

�306

fluidez de leitura – de sobremaneira nos contextos mais vulnerabilizados – da
população nos impõe alguns questionamentos: será que nós, bibliotecárias e
bibliotecários, estamos fazendo a nossa parte? Qual a nossa contribuição para
a inserção do livro (enquanto objeto, valor, rotina, prática) em nossos
contextos de convivência? Nós somos, também, não-leitores e não-leitoras?
No exercício de responder aos questionamentos acima, sem perder de
vista o contexto comunitário, evidencia-se ainda mais a necessidade de termos
profissionais bibliotecários e bibliotecárias comprometidos com o papel de
agentes culturais, posto que a suposta ausência de prática leitora é também
responsabilidade da nossa área. Os questionamentos nos levam a identificar a
parcela de contribuição do profissional bibliotecário, comprometido com o
envolvimento e apropriação da comunidade em espaços de leitura, de escrita e
de produção de conhecimento, dos quais destacamos as bibliotecas de acesso
público, como demasiadamente significativa.
Em uma realidade permeada pela adoção de suportes tecnológicos cada
vez

mais

imagéticos,

é

nosso

dever

defendermos

a

ampliação

das

possibilidades de acesso à informação, quer por livros impressos (infantis,
ilustrados, informativos, literários, entre outros) quer pela leitura e pela
produção

de

textos,

em

ambiente

físico

ou

virtual.

Por

fim,

tais

questionamentos nos convidam a adotarmos em nossa prática habitual o
desenvolvimento da capacidade de leitura e da escrita de maneira crítica e
criteriosa.
Para a contribuição que deixo neste capítulo, cujo objetivo é estabelecer
a relação entre a Biblioteca e a comunidade, considerando as Bibliotecárias e
os Bibliotecários como agentes culturais, parto da experiência que angariei a
partir de minha atuação como Bibliotecário na Fundação Municipal de Cultura
da Prefeitura de Belo Horizonte. Considero que este capítulo seja igualmente
apropriado para profissionais que atuam em outros contextos de bibliotecas de
acesso público: quer sejam no ambiente escolar formal, acadêmico, técnico,
empresarial ou especializado.
Quando pensamos no termo comunidade, geralmente ocorre um
equívoco que associa esse termo quase sempre à pobreza. Pelo contrário,

�307

considero que qualquer ajuntamento social, minimamente organizado e que se
concentra com certa regularidade – seja essa concentração espontânea ou
compulsória – pode ser considerada como comunidade.
Com vistas a estabelecer esse percurso existente entre a biblioteca
pública e a comunidade, recupero em parte os estudos teórico-conceituais
realizados para a conclusão de minha dissertação de mestrado37, após uma
breve introdução (Seção 1), apresentando a biblioteca pública (BP) e a revisão
do conceito a partir do Manifesto da Unesco/IFLA (Seção 2), passando para a
compreensão da BP a partir de seus aspectos históricos e de cidadania,
abordando também os aspectos sociopolíticos (Seção 3), partindo para as
funções e importância social e comunitária da mesma (Seção 4). Feito isso,
passo à conclusão do presente capítulo (Seção 5), que espero que seja de
satisfatória leitura para todos e todas, afinal, é no contexto comunitário que se
dão as mais efetivas trocas de experiências e vivências para a produção de
conhecimento.

2 A BIBLIOTECA PÚBLICA: REVISÃO DO CONCEITO A PARTIR DO
MANIFESTO DA UNESCO/IFLA
A biblioteca pública pode ser compreendida para além do já superado
conceito que, em outros momentos históricos, a definiu como uma coleção de
livros organizada e disponibilizada para consulta pública. Isso porque, em uma
compreensão

atual,

tal

instituição

não

deve

ser

analisada

única

e

exclusivamente em função de seu acervo, posto configurar-se, conforme
apontam a Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias
(International Federation of Library Associations and Institutions – IFLA)38 e a

37

SOUZA, A. B. de. A Biblioteca pública do Centro Cultural Vila Fátima: funções sociais e
percepções dos cidadãos-usuários. 2018. 127f. Dissertação (Mestrado em Ciência da
Informação) – Escola de Ciência da Informação. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo
Horizonte, 2018.
38
IFLA: Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (International
Federation of Library Associations andInstitutions). É um organismo internacional que

�308

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (United
Nations Educational, Scientificand Cultural Organization – Unesco)39, em porta
de entrada para a comunidade e em local que possibilita a autoformação dos
sujeitos, bem como a ampliação das oportunidades de acesso à informação por
meio da mediação e do estabelecimento de relações de troca, de produção de
conhecimento e de construção permanente da cultura.
O Manifesto da Unesco/IFLA sobre Bibliotecas Públicas é um documento
aprovado por aqueles órgãos em Paris no dia 29 de novembro de 1994. De
acordo com tal proposição, as bibliotecas públicas são entendidas como
espaços que potencializam tanto o desenvolvimento local quanto o pessoal, por
meio da promoção da cultura e de atividades que fomentam o acesso da
comunidade

à

informação,

a

dinamização

das

práticas

educativas

eo

estabelecimento de relações afetivas e de socialização.
No contexto brasileiro, a Coordenadoria do Sistema Nacional de
Bibliotecas Públicas (SNBP), endossando as modalidades de compreensão
acima assinaladas, estabeleceu princípios e diretrizes vinculadas à atuação
social dessas instituições, os quais podem ser dispostos conceitualmente por
meio dos seguintes termos:
O conceito de biblioteca pública baseia-se na igualdade de acesso para
todos, sem restrição de idade, raça, sexo, status social, etc. e na
disponibilização à comunidade de todo tipo de conhecimento. Deve
oferecer todos os gêneros de obras que sejam do interesse da
comunidade a que pertence, bem como literatura em geral, além de
informações básicas sobre a organização do governo, serviços públicos
em geral e publicações oficiais. A biblioteca pública é um elo de ligação
entre a necessidade de informação de um membro da comunidade e o
recurso informacional que nela se encontra organizado e à sua
disposição. Além disso, uma biblioteca pública deve constituir-se em um
ambiente realmente público, de convivência agradável, onde as pessoas
possam se encontrar para conversar, trocar ideias, discutir problemas,
autoinstruir-se e participar de atividades culturais e de lazer. (SNBP,
2000, p. 17).

representa os interesses dos serviços de biblioteca e informação e dos seus utilizadores ou
usuários. Constitui-se como a principal voz dos profissionais de informação e documentação.
39
UNESCO: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (United
Nations Educational, Scientificand Cultural Organization). É uma agência especializada
das Nações Unidas (ONU), com sede em Paris. Seu principal objetivo é contribuir para a paz e
segurança no mundo mediante a educação, ciências naturais, ciências sociais, humanas,
comunicação e informação.

�309

Partindo desses princípios e diretrizes, a BP se apresenta, ainda, como
lugar de ação cultural, de exercício da cidadania e de vivência política e
comunitária, que ganha força de intervenção social a partir dos suportes
informacionais que possui e do poder de decisão que enseja em seus cidadãos.
Faz-se presente no conceito acima mencionado a importância para os utentes
desses espaços informacionais e relacionais, agregados sob a forma de
comunidade,

para

a

consolidação

da

biblioteca

enquanto

espaço

de

apropriação púbica.
Esta perspectiva coaduna também com a definição de Jaramillo (2000,
apud JARAMILLO, 2011, p.72), para quem a BP é entendida como uma
instituição sociocultural que tem como principal finalidade possibilitar o livre
acesso à informação e ao conhecimento de maneira gratuita, contribuindo para
a melhoria na qualidade de vida das pessoas e a construção de relações
democráticas.
Em termos contextuais, os aspectos históricos de constituição das
bibliotecas públicas, tal como explicitado por Silveira (2012), deixa claro os
objetivos que viabilizaram o surgimento dessas instituições e também os
distintos

elementos

de

ordem

política

e

social

que

favoreceram

sua

consolidação enquanto espaço cultural. Nas palavras do autor:
A história das bibliotecas públicas é relativamente recente. Elas surgem
na Europa como resultado de inúmeras transformações decorrentes do
expressivo processo de desenvolvimento industrial e urbano que ocorreu
naquela região entre os séculos XVIII e XIX. A expectativa era que tais
instituições contribuíssem de maneira significativa para o progresso
cultural e intelectual da nação, bem como para a promoção da ordem
social. Em virtude disso, logo adotaram como uma de suas principais
funções a tarefa de elaborar e auxiliar as políticas públicas ligadas à
promoção da cultura, da memória, da leitura e das atividades educativas
(SILVEIRA, 2012, p. 209).

Essa compreensão histórico-política nos autoriza assinalar que tais
instituições

surgem,

portanto,

com

o

intuito

de

contribuírem

para

o

desenvolvimento sociocultural das comunidades em que se inserem e também
a promoção da cidadania. Razão pela qual suas funções básicas se inscrevem
em torno da disseminação de informações voltadas à valorização da cultura
local, ao acesso à cultura letrada, à preservação da memória e ao estímulo às
práticas educativas, de leitura e de lazer.

�310

Lançando mais uma vez nosso olhar sobre o Manifesto da Unesco/IFLA,
verificamos que, em função da BP ser definida como local público de
informação, esta deve ofertar a seus utentes bens e serviços variados,
baseados na igualdade de acesso e sem qualquer distinção. Com isso,
demarca-se a importância de que todos os grupos etários, étnicos e de
diversificadas identidades encontrem no acervo itens adequados às suas
necessidades, bem como esses grupos possam estabelecer relações sociais e
afetivas entre si e com a biblioteca como frequentadores desses espaços. O
Manifesto destaca a importância da comunidade circunscrita em torno da
biblioteca para a consolidação desta enquanto espaço de apropriação, de
relações afetivas e de geração de conhecimento.
Este documento legitima a BP como espaço de apropriação comunitária,
conferindo também valor à mediação aos profissionais que ali congregam.
Consideramos que o Manifesto da Unesco/IFLA sobre Bibliotecas Públicas é o
ponto do qual derivagrande parte das análises teóricas e conceituais
projetadas em torno da BP, destacando-se os estudos que apresentamos a
seguir.

3 BIBLIOTECA PÚBLICA: ASPECTOS HISTÓRICOS E DE CIDADANIA
Dialogando com as proposições do Manifesto da Unesco/IFLA sobre
Bibliotecas Públicas, estudos com enfoques multidisciplinares têm se dedicado,
na contemporaneidade, a demarcar os modos de funcionamento responsáveis
por justificar socialmente a existência dessas instituições. No cenário latinoamericano, tributário do modelo espanhol de bibliotecas públicas40, destacamse as contribuições teóricas de Orlanda Jaramillo (2000; 2010; 2011) e Silvia
Castrillón (2011). Tais autoras, ambas colombianas, refletem acerca dos
distintos processos por meio dos quais as bibliotecas públicas inserem-se na

40

O modelo espanhol de biblioteca pública edifica-se tendo por referência a forma de atuação
das bibliotecas populares, diferentemente daquelas que marcam o modelo francês, cuja
gênese remota à prestação de serviços a um público mais elitizado.

�311

realidade comunitária na AméricaLatina e, em especial, como essas instituições
operam na atualidade.
No artigo “Revisión conceptual de la biblioteca pública” (JARAMILLO;
MONTOYA-RÍOS, 2000), as autoras estabelecem um panorama do surgimento
da BP na América Latina, afirmam ser difícil pensar na biblioteca pública sem
considerar a comunidade usuária e sem almejar prestar serviços igualitários a
crianças, jovens, adultos e idosos. Para essas autoras torna-se indispensável
reconhecer que cada uma dessas faixas etárias tem interesses, necessidades,
gostos, motivações e habilidades. Em contrapartida, frisam que pensar a
biblioteca e o trabalho por ela desempenhado, levando em consideração as
especificidades de cada um de seus usuários e considerando-os como seres
independentes, pertencentes a diferentes gerações, com gostos e interesses
próprios de suas faixas etárias, já não é tão simples assim.
Reforçam as autoras a importância do estabelecimento das relações
comunitárias, considerando a cultura no seu aspecto de arregimentação de
pessoas em torno de uma prática comum. Com isso, enfatizam a importância
dos bibliotecários e bibliotecárias enquanto agentes culturais, tendo em vista
que são os profissionais que estabelecem relações com a comunidade utente
das bibliotecas.ABP é definida pelas autoras como:
[...] um espaço para a formação da identidade dos indivíduos; sua
função está alicerçada na criação de cidadãos livres por meio do acesso
e da participação das pessoas na cultura e no fornecimento de
informações que necessitam para tomar decisões. A biblioteca pública
tem um grande potencial de intervenção nas dinâmicas sociais se
considerada a partir da contribuição que pode realizar, direta ou
indiretamente, para a solução das desigualdades econômicas, culturais,
educativas
e
organizacionais,
possibilitando
o
equilíbrio
no
desenvolvimento das pessoas (JARAMILLO; MONTOYA-RÍOS, 2000, p.
30, tradução nossa)41.

Por meio dessa definição, as autoras conclamam o caráter formativo da
BP – numa lógica independente do ambiente escolar – para os aspectos
41

La biblioteca pública es un espacio para la formación de la identidad individual; su función
está cimentada en la creación de ciudadanos libres por medio del acceso y la participación de
las personas en la cultura y del suministro de información que requiere para tomar decisiones.
La biblioteca pública tiene un gran potencial de intervención en las dinámicas sociales si se
juzga a partir de la contribuición que puede hacer, directa e indirectamente, para la solución
de las desigualdades económicas, culturales, educativas y organizativas, al posibilitar el
equilibrio en el desarrollo de las personas.

�312

identitários dos sujeitos. Destacam o potencial de modificação das realidades
sociais a partir da BP e de diminuição da desigualdade com a ampliação das
possibilidades de acesso à informação em que a biblioteca atua. Reforçam,
ainda, as funções sociais da BP, uma vez que caracterizam essas instituições
como ambientes favoráveis ao exercício da liberdade expressiva e criativa por
meio da leitura, da escrita e de outros processos possíveis de interação e de
mediação informacional.
Indo mais além, no artigo “La biblioteca pública, un lugar para
laformación

ciudadana:

referentes

metodológicos

del

proceso

de

investigación”, Jaramillo (2010) assinala que no contexto das bibliotecas
públicas três práticas cidadãs transversais se explicitam com maior frequência,
são elas: a convivência, a participação e a autonomia. Para a autora, a
convivência se expressa nas normas e acordos comuns inscritos nas relações
interpessoais: respeito, diálogo, confiança e cuidado com o bem público
(JARAMILLO, 2010); a participação se verifica no discurso e nas práticas de
identidade, pertencimento e apropriação que esses espaços oportunizam.
Complementar a essas duas, a prática cidadã da autonomia se faz visível a
partir do reconhecimento de si e de que modo cada sujeito pode deliberar e
decidir sobre assuntos próprios e outros relacionados ao seu entorno.
A pesquisadora dá continuidade ao estudo do tema em sua tese
(JARAMILLO, 2011), na qual conclui que não se deve almejar estabelecer um
modelo universal de BP, posto a mesma configurar-se de acordo com os
contextos sociais e as dinâmicas comunitárias de onde se inserem. Afirma
também que a apreensão da BP, a partir de uma dimensão cidadã, implica em
adotar uma definição que supere a simples concepção de biblioteca enquanto
facilitadora de acesso à informação e ao conhecimento.
Nesses termos, Jaramillo (2011) atesta que deve ser levando em
consideração, também, que a BP deve representar um papel dinâmico e ativo,
com o estabelecimento de vínculos que possibilitem tornar realidade a
formação do sujeito, dotando-o de capacidades não apenas para exigir e
exercer seus direitos; não apenas como consumidor, mas também como
produtor e transmissor de informação e de conhecimento. A pesquisadora

�313

mostra-se, pois, signatária de uma BP demasiadamente atuante nos processos
formativos do sujeito, que se esmera em busca de autonomia, criatividade e
reflexão ante a realidade.
Em “O direito de ler e de escrever”, Silvia Castrillón (2011) ressalta,
entre outras importantes questões relacionadas às bibliotecas públicas, o papel
significativo que elas desempenham na formação cidadã. Defendendo que “ler
e escrever é um direito dos cidadãos, direito que devemos fazer cumprir e que,
por sua vez, implica um dever e um compromisso de muitos” (CASTRILLÓN,
2011, p. 15), a autora associa a leitura à escrita e vincula tais práticas ao
exercício da cidadania. Em face disso, pontua:
[...] somente quando a leitura constituir uma necessidade sentida por
grandes setores da população, e essa população considerar que a leitura
pode ser um instrumento para seu benefício e for de seu interesse
apropriar-se dela, poderemos pensar numa democratização da cultura
letrada. No entanto, deparamos aqui com um paradoxo: essa situação
só poderia ocorrer à medida que os níveis de desenvolvimento
melhorem e, ao mesmo tempo, diminuam as desigualdades.
Infelizmente, isso não é o que acontece (CASTRILLÓN, 2011, p. 16-17).

Castrillón discute em inúmeros trabalhos a necessidade de se levar em
consideração a leitura e a escrita como forma de apropriação de conteúdos
significativos para o exercício das relações sociais cotidianas. Em paralelo a
isso, reconhece o paradoxo estabelecido pela manutenção das desigualdades e
a consequente paralisação do desenvolvimento humano42 e social43 quando
essas práticas não são devidamente consideradas. A pesquisadora colombiana
deixa claro que a inserção no mundo das práticas leitoras “não é um luxo das

42

O conceito de desenvolvimento humano nasceu vinculado a um processo de ampliação das
escolhas das pessoas para que elas tenham capacidades e oportunidades para serem aquilo
que desejam ser. Diferentemente da perspectiva do crescimento econômico, que vê o bemestar de uma sociedade apenas por meio dos recursos ou pela renda que pode gerar, a
abordagem de desenvolvimento humano procura olhar diretamente para as pessoas, suas
oportunidades e capacidades. A renda é importante, mas como um dos meios do
desenvolvimento e não como seu fim. Com o desenvolvimento humano, o foco é transferido do
crescimento econômico, ou da renda, para o ser humano. Disponível em:
http://www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/idh0.html. Acesso em 23. jun.2020.
43
Em relação a 2014, o Brasil estagnou no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), no valor
de 0,754, e no ranking mantém a posição 79 entre 188 países. Na América do Sul, o Brasil é o
5º país com maior IDH. Chile, Argentina, Uruguai e Venezuela aparecem na frente. Disponível
em:https://nacoesunidas.org/relatorio-do-pnud-destaca-grupos-sociais-que-nao-sebeneficiam-do-desenvolvimento-humano-brasil-estagnou-no-idh/. Acesso em: 23 jun. 2020.

�314

elites que possa ser associado ao prazer e à recreação, tampouco uma
obrigação imposta pela escola” (CASTRILLÓN, 2011, p. 19).
Ao transpor esse argumento para o universo das bibliotecas públicas, a
autora demarca em suas análises que o principal objetivo dessas instituições
deve ser o de converter-se “em meios contra a exclusão social, isto é, que se
constituam em espaços para o encontro, para o debate que dizem respeito a
maiorias e minorias” (CASTRILLÓN, 2011, p. 36). Nesses termos, propõe que a
BP seja pensada como lugar de encontro geracional, possibilitando, assim, o
convívio entre “crianças, jovens e adultos de todas as condições, leitores e não
leitores, escolares e não escolares” (CASTRILLÓN, 2011, p. 36), e que a
mesma seja capaz de apresentar respostas aos problemas e interesses de seus
usuários, facultando que esses sujeitos constituam novas perspectivas de
interação social.Para responder a esses desafios, Castrillón (2011) ressalta a
necessidade de se fazerem presentes no espaço das bibliotecas públicas
profissionais bibliotecários que sejam agentes culturais, dotados de habilidades
intelectuais que os tornem “capazes de assumir um compromisso ético e
político com seu país e com a sociedade” (CASTRILLÓN, 2011, p. 39). Ao
chamar a atenção para essa necessidade, a autora amplia as formulações do já
mencionado Manifesto da Unesco/IFLA sobre as bibliotecas públicas (1994),
posto preconizá-las como instituições sociais produtoras de condicionantes
políticas voltadas para o exercício da cidadania, em suas esferas específicas,
conforme veremos adiante. A partir desses apontamentos, impõe-se a cada
um desses espaços de mediação informacional, o desafio inovador de se
comprometerem permanentemente com a ampliação das possibilidades de
acesso e instrução dos sujeitos, bem como se acentua o engajamento político
e ético – tanto do profissional, quanto dos bens e serviços prestados – da
biblioteca, para o estabelecimento da justiça e da cidadania.
Castrillón (2011) afirma que “[...] o papel do bibliotecário é revalorizado
quando se aceita que seu trabalho supera o estritamente técnico-profissional e
se reconhece que esse trabalho permite a outros transcender e melhorar sua
condição humana” (CASTRILLÓN, 2011, p. 40). Por meio desse argumento,
Castrillón (2011) destaca o protagonismo do bibliotecário e sua decorrente

�315

(re)valorização a partir da superação dos aspectos estritamente técnicos
ligados ao exercício profissional, passando o mesmo a ser reconhecido pelo seu
trabalho de ação cultural, mediação informacional na interação com os sujeitos
que acessam a biblioteca. Nesse sentido, a participação de profissionais
bibliotecárias e bibliotecários engajados no compromisso com as comunidades
que atendem é fundamental para que essas ações sejam eficazes.
Em paralelo a isso e tendo-se em vista o processo informacional, urge a
necessidade de demarcar o protagonismo das bibliotecas em todas as etapas
da circulação da informação social e utilitária, especialmente em territórios de
alto grau de vulnerabilidade. Faz-se necessário, também, a discussão de ações
voltadas para a recepção crítica da informação que circula nesses espaços.
Nesse sentido, assim como Castrillón (2011), acreditamos ser importante
buscar:
[...] ampliar o leque da participação ativa das bibliotecas na sociedade.
O interesse em contribuir para a democracia, para a inserção dos
cidadãos na vida social e política, para se abrir como espaço de
participação e, em poucas palavras, para contribuir para o exercício da
cidadania, é um desejo de bibliotecas e bibliotecários. (CASTRILLÓN,
2011, p. 72).

De certa forma, é isso que também assinala Gaiman (2013),sem perder
de vista a historicidade das bibliotecas, ressalta os vários usos possíveis desses
espaços informacionais:
Bibliotecas são lugares que pessoas vão para obter informação. Livros
são apenas a ponta do iceberg da informação: eles estão lá, e
bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente [...] as
bibliotecas também são, por exemplo, lugares onde pessoas que não
tem computadores, que podem não ter conexão à internet, podem ficar
online sem pagar nada: o que é imensamente importante quando a
forma que você procura empregos, se candidata para entrevistas ou
aplica para benefícios está cada vez mais migrando para o ambiente
exclusivamente online. Bibliotecários podem ajudar estas pessoas a
navegar neste mundo (GAIMAN, 2013).

De modo complementar, os apontamentos de Gaiman (2013) encontram
ressonância no estudo de Silveira (2014), que caracteriza a biblioteca como
um espaço vivencial a partir das referências e dos suportes informacionais
existentes. Silveira (2014) conceitua a BP como um lócus de identificação

�316

possível entre o espaço e os sujeitos, para a busca e resolução de suas
necessidades informacionais do cotidiano.
Gaiman (2013) acentua os usos da biblioteca por meio da conectividade,
em contrapartida Silveira (2014) analisa os usos possíveis das bibliotecas a
partir da identificação do indivíduo com esses espaços e os processos de
enraizamento estabelecidos entre sujeitos e as bibliotecas ao longo de sua
trajetória de vida. De modo geral, ambas as percepções podem ser atribuídas
às ações decorrentes dos processos de empoderamento e de emancipação dos
sujeitos e das comunidades proporcionados pelas bibliotecas públicas.
Por sua vez, Libânio (2017), ao estudar práticas culturais em contextos
periféricos, sinaliza para a importância de se levar em consideração a
territorialidade e as possibilidades de acesso informacional. No contexto desse
estudo, o direito à cidade é tratado como uma condicionante sem a qual não se
pode falar em urbanidade dos sujeitos, assim como “é possível também
objetar que sem a efetivação do acesso às facilidades urbanas tal direito corre
risco de se tornar letra morta” (LIBÂNIO, 2017, p. 54). Com isso, a
pesquisadora enfatiza a necessidade do estabelecimento de sistemas de
garantias de aplicabilidade das políticas públicas estabelecidas para todos os
campos da atuação governamental, incluindo-se a cultura. A autora destaca
ainda os entraves que se apresentam à concretização efetiva do “direito à
cidade”:
É necessário considerar, ao se perceber o hiato existente entre o direito
à cidade e sua efetivação, que a segregação socioespacial e as
desigualdades de acesso da população são condicionadas por fatores
diversos, diretamente proporcionais às fragilidades ou vulnerabilidades
sociais [...] Para romper a segregação socioespacial e garantir o direito
à cidade seria necessário, portanto, tornar efetivo o acesso à estrutura
de oportunidades presentes no espaço urbano (LIBÂNIO, 2017, p. 54).

Tendo em vista fundamentar sua crítica, Libânio parte do conceito de
acesso inscrito na obra de Marques (2010 apud LIBÂNIO, 2017), o qual se
alicerça em torno da estrutura de oportunidades presentes na conjuntura
socioespacial das cidades, aliado à presença de agentes capazes de dinamizar
tais oportunidades, para apontar a necessidade de rompimento da segregação
socioespacial e a decorrente garantia de direito à cidade. A autora destaca que

�317

a vulnerabilidade, por sua vez, seria causada pela dificuldade dos indivíduos
em acessar as oportunidades, não somente econômicas, mas também culturais
e sociais, o que consequentemente dificultaria o uso dos recursos existentes.
Atentando para tais apontamentos, torna-se ainda mais relevante, no contexto
geral dessa pesquisa, clarificarmos quais são as funções e como podemos
mensurar a importância social das bibliotecas públicas.

4 BIBLIOTECA PÚBLICA: FUNÇÕES DE MEDIAÇÃO, IMPORTÂNCIA
SOCIAL E COMUNITÁRIA
As bibliotecas públicas são, em sua maioria, caracterizadas como
instituições que oportunizam as relações comunitárias a partir do acesso à
informação e que impulsionam as relações afetivas e relacionais, bem como a
produção e disseminação do conhecimento. Em função disso, partem da
preservação e do acesso à cultura para ampliar as possibilidades de convívio
entre os distintos sujeitos que delas fazem uso.
Objetivando

fortalecer

no

contexto

das

bibliotecas

públicas

os

mecanismos e dinâmicas promotores de uma “percepção crítica da realidade”
(FREIRE, 1981, p. 36), tais estudos dedicaram-se, via de regra, a analisar os
processos de difusão da cultura por meio da animação/ação cultural. Inscritos
nos campos da Sociologia, da Pedagogia, das Ciências Políticas e da
Biblioteconomia inúmeros pesquisadores referendaram a necessidade de uma
movimentação positiva das camadas menos favorecidas rumo à ampliação do
acesso à informação. Diante disso, faz-se necessário estabelecermos um
diálogo com Victor Flusser (1983) e Teixeira Coelho (1986; 1997), uma vez
que ambos vinculam a ação cultural à ação bibliotecária. Flusser (1983)
defende essa aproximação apontando que:
Para o propósito de uma ação cultural, as duas posições diante da
cultura – acervo e contexto – devem ser constantemente consideradas,
pois a ação cultural é basicamente mediação e criação de acervo,
inseridas em contexto cultural bem definido (FLUSSER, 1983, p. 148).

�318

Para Coelho (1986) o termo ação deve ser compreendido como uma
realização constante, que não possui início nem fim demarcados, sendo a ação
cultural “algo que se faz com, de lado de, por dentro, desde a raiz – um
processo que tem sujeitos, que forma sujeitos” (COELHO, 1986, p. 100 –
destaque do autor). Coelho (1997) indica que a ação cultural é uma contínua
descoberta, exigindo, pois, seu constante reexame e reelaboração.
O estudo de Maria Clara Fonseca (2005), “Biblioteca pública: da extensão
à ação cultural como prática de cidadania”, promove um resgate histórico
acerca da BP, conferindo especial atenção aos processos de gradação da ação
extensionista para uma ação cultural freireana. Segundo Fonseca (2005), a BP
surge da necessidade de preservação dos registros gráficos, sonoros e visuais,
com vistas à transmissão do conhecimento às futuras gerações. Razão pela
qual toda BP tem sua funcionalidade atrelada à produção cultural, à
organização e disseminação de serviços e informações, assemelhando-se a
uma caixa do tempo, onde o conhecimento é preservado e propagado para
gerações futuras. Dito com as palavras da autora:
A necessidade de democratizar e interiorizar os serviços bibliotecários
torna-se cada vez mais urgente. O tratamento elitista que sempre
priorizou o serviço da biblioteca pública ao atender exclusivamente os
habitantes do centro da cidade, deve dar lugar para o atendimento, ou a
palavra, aos chamados “não-públicos”, que são as populações
suburbanas ou rurais que não tem noção de cidadania, não conhecem
seus direitos e deveres na sociedade, e que até há pouco tempo eram
chamados de minoria, mas hoje em termos quantitativos, atingem mais
da metade da população brasileira. A biblioteca pública como entidade
prestadora de serviços deve utilizar cada vez mais metodologias
adequadas para diagnosticar as necessidades de informação,
possibilitando o atendimento às aspirações da comunidade (FONSECA,
2005, p. 46).

Ao assinalar tais aspectos, Fonseca (2005) reforça a possibilidade de ser
a BP a entidade que presta serviços de informação para o cidadão, a partir de
metodologias adequadas, com o estabelecimento de uma ação cultural
realizada como prática de cidadania.
Os serviços de promoção e mediação da leitura visam proporcionar, por
meio do estímulo criativo, que cada participante se aproxime do universo dos
livros, valendo-se tanto de referências inscritas na realidade concreta de seus
usuários, quanto de alusões ao mundo do imaginário. A participação em

�319

atividades recreativas também é importante para a manutenção das relações
entre bibliotecários e bibliotecárias e seus públicos. Por meio dessas ações,
torna-se possível aos sujeitos envolvidos criarem e recriarem laços de
solidariedade pautados pelo exercício da imaginação, da valorização da
criatividade, do acesso à cultura letrada e da experimentação de emoções
próprias do contexto narrativo.

5 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma biblioteca pública é também lugar do imaginário, da fruição e do
exercício da criatividade. É o lugar do despertar para o conhecimento formal e
também para a ampliação de novas possibilidades de informação e estímulo
cognitivo. É o lugar da ação, sobretudo da ação cultural, posto que as práticas
sociais

cotidianas

aproximam

as

pessoas

em

busca

de

autonomia,

fortalecendo, assim, a capacidade decisória de cada cidadão. Dito isso, ratificase a importância e as funções sociais atribuídas às bibliotecas públicas, que se
alicerçam em dinâmicas específicas de produção e fruição cultural das
localidades nas quais cada uma dessas instituições se insere.
As bibliotecas de acesso público, em sua maioria, se caracterizam por
serem instituições que propiciam o acesso à informação e que facilitam a
produção e disseminação do conhecimento. Por essa razão, partem da
organização e das oportunidades de acesso à cultura (quer seja escrita,
imagética, audiovisual, táctil, entre outras) para promover e ampliar as
possibilidades de convívio entre os distintos sujeitos que delas fazem uso.
Em contrapartida, a BP não se sustentará enquanto local de efetiva
participação e engajamento comunitário, se mantiver uma postura resistente e
encastelada

no

contato

com

seus

potenciais

usuários,

privilegiando

a

preservação e a conservação de seus acervos acima de qualquer outra
conduta. Com essa afirmação, não queremos defender uma depreciação
desenfreada dos acervos, uma total falta de controle do que há na biblioteca,
do que entra e do que sai. Pelo contrário: a biblioteca, conforme preconiza

�320

Ranganatham (2009), deve ser um organismo em crescimento, não somente
quantitativo, mas também na capacidade de se manter viva e ativa nos
contextos sociais em que se faz presente.
Nesse sentido, não devemos desprezar os aspectos afetivos que
fortalecem as ações de promoção da leitura, a partir dos vínculos estabelecidos
entre os cidadãos-usuários e os mediadores de leitura, situação que se
converte em ações de acolhida, segurança e aconchego. Soma-se a isso a
representação da Biblioteca como espaço referencial para a comunidade em
função dos bens e serviços culturais por ela ofertados.
Espera-se que as bibliotecas de acesso público sejam espaços de
interação social e de participação comunitária, tendo os bibliotecários e as
bibliotecárias como agentes culturais desta ação. Estima-se também que esses
espaços impactem positivamente na vida e na realidade social em que se
inserem, sendo a biblioteca pública reconhecida como um lugar que oportuniza
não apenas o acesso à informação, às melhores condições de produção de
conhecimento, aos insumos da cultura humana e local, à promoção da leitura,
da educação e da cidadania, mas, também, a criação de laços de solidariedade
e o fomento à paz social.

REFERÊNCIAS

BELO HORIZONTE. Fundação Municipal de Cultura. Centros Culturais e de
Referência. Disponível em: http://https://prefeitura.pbh.gov.br/fundacaomunicipal-de-cultura/centros-culturais. Acesso em: 13 jun. 2020.
CASTRILLÓN, S. O direito de ler e de escrever. São Paulo: Pulo do Gato,
2011.
COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São
Paulo: Iluminuras, 1997.
COELHO, T. Usos da cultura: políticas de ação cultural. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1986. (Educação e comunicação, 16).

�321

FONSECA, M. C. Biblioteca pública: da extensão à ação cultural como prática
de cidadania. 2005. 209f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) –
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, 2005.
GAIMAN, N. Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de
sonhar acordado. The Guardian. 15 Out. 2013. Disponível em:
https://indexadora.wordpress.com/2013/10/17/neil-gaiman-por-que-nossofuturo-depende-de-bibliotecas-de-leitura-e-de-sonhar-acordado/. Acesso em:
13 mar. 2020.
JARAMILLO, O. La biblioteca pública, lugar para laconstrucción de
cuidadanía: una mirada desde laeducación social. 2011. 270 f. Tese
(Doctorado em Educación – Línea de FormaciónCuidadana) – Facultad de
Educación. Universidad de Antioquia, Medelín, 2011.
JARAMILLO, O. La biblioteca pública, un lugar para la formación ciudadana:
referentes metodológicos del proceso de investigación. Revista
Interamericana de Bibliotecologia, Medellín, v. 33, n. 2, p.287-313,
jul./dec. 2010.
JARAMILLO, O.; MONTOYA RÍOS, M. Revisión conceptual de la biblioteca
pública. Revista Interamericana de Bibliotecologia, v.23, n.1-2, p.13-56,
ene./dic. 2000.
LIBÂNIO, C. de A. Reinventando o urbano: práticas culturais nas periferias e
direito à cidade. 2017. 330 f.: il. Tese (Doutorado em Arquitetura e
Urbanismo) – Escola de Arquitetura. Universidade Federal de Minas Gerais,
Belo Horizonte, 2017.
RANGANATHAN, S. R. As cinco leis da biblioteconomia. Brasília: Briquet de
Lemos 2009.
SILVEIRA, F. J. N. da. Biblioteca pública e identidade: percepções
intersubjetivas enraizadas em torno da Luiz de Bessa. Perspectivas em
Ciência da Informação, v. 19, número especial, p.128-150, out./dez. 2014.
SILVEIRA, F. J. N. da. Biblioteca pública, memória e representações sociais: o
depoimento de um grupo de usuários acerca da Mário de Andrade.
Investigación Bibliotecológica, México, v. 26, n. 27, p. 199-231, may./ago.
2012.
SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS. SNBP. Biblioteca Pública:
princípios e diretrizes. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, Dep. de
Processos Técnicos, 2000. (Documentos técnicos; 6).

�322

DADOS BIOGRÁFICOS

Alison Barbosa de Souza: Graduado em Biblioteconomia.
Mestre em Ciência da Informação pelo Programa de PósGraduação em Ciência da Informação da UFMG. Pósgraduado em Gestão Cultural pela Faculdade UNA.
Bibliotecário na Fundação Municipal de Cultura da
Prefeitura de Belo Horizonte. Atua como coordenador de
Centro Cultural, ocupando o cargo de Gestor.
E-mail: alisonbarbosa@gmail.com

�323

CAPÍTULO XVII - Mediação literária e a literatura
afro-brasileira nas bibliotecas públicas
Gabrielle Francinne de Souza Carvalho Tanus
Gustavo Tanus

1 BIBLIOTECA PÚBLICA E A IMPORTÂNCIA DE SEUS ACERVOS
A origem das bibliotecas públicas está vinculada ao movimento free
library que surgiu na segunda metade do século XIX, nos Estados Unidos e na
Inglaterra. A constituição das instituições bibliotecas públicas, abertas a à
sociedade, emerge em decorrência da revolução industrial, que passou a exigir
mão

de

obra

qualificada,

ensino

formal,

aperfeiçoamento

individual

e

desenvolvimento nacional (NOGUEIRA, 1986). Segundo Mueller (1984), a
biblioteca pública serviria para manter a ordem social e o progresso nacional,
e, especialmente, a democracia. A constituição do Estado burguês, capitalista e
liberal aflorou o desenvolvimento da ideologia liberal (que postula a igualdade
entre os homens), de modo que a biblioteca pública pudesse ser esse espaço
aberto a todos e gerido pelo Estado como via de democratização do saber
(MULLER, 1984).
Não obstante, a biblioteca pública já em sua constituição com o discurso
de atender a todos, principalmente o proletariado, demonstrou fraturas nesse
processo. Concretamente, seu exercício não atendia, de fato, às expectativas
reais da classe trabalhadora, a começar pela sua localização, horário de
funcionamento e pelos acervos e serviços disponíveis (MUELLER, 1984). Assim,
a biblioteca acabou perpetuando o sistema estabelecido e a ideologia
dominante, pois seu papel social, desde a sua idealização, era o de educar as
classes baixas, formando uma coesão ideológica que contribuísse para a
preservação

dos

valores

sociais

vigentes

legitimadores

dos

interesses

hegemônicos. Ao longo da história das bibliotecas públicas, encontramos na
literatura da área a denúncia e o alerta de que apenas uma camada

�324

privilegiada, uma pequena parcela da população, possui o livre acesso aos
bens culturais, sendo beneficiada pelos serviços e produtos que essas
bibliotecas deveriam oferecer à sociedade como um todo sem qualquer tipo de
exclusão.
Corroboramos com a ideia de Almeida Júnior (1997) e Luís Milanesi
(1986) de que as bibliotecas acabaram constituindo-se em “aparelhos
ideológicos do estado” (ALTHUSSER, 1980), quando, na verdade, elas
deveriam ser espaços propícios para o debate, possibilitando a construção de
um ambiente democrático e de questionamentos, inclusive das próprias ações
do Estado. As bibliotecas acabaram servindo ao Estado a partir da manutenção
de uma ideologia da classe dominante, por meio da oferta dos produtos
culturais gestados pela classe hegemônica. Esse afastamento da real intenção
da

biblioteca

pública

resultou

na

criação

das

bibliotecas

populares

e

comunitárias, as quais por força e vontade da comunidade mantém esses
espaços culturais sem o apoio do poder público. Sobre as bibliotecas como
aparelhos do estado é importante destacar que:
As instituições pedagógicas e as de memória têm a sua parte na
manutenção da cultura hegemônica, porque movimentam um
mecanismo de exclusão que funciona não pelo conflito desimpedido
entre a cultura que produzem em detrimento das culturas das
alteridades, mas sim pela oferta quase exclusiva de bens simbólicos
produzidos por essa cultura, em um processo que seus sujeitos
passariam a vê-la como um bem universal (TANUS; TANUS, 2018, p.
3906).

O discurso do “atendimento a todos”, em que se baseiam as bibliotecas
públicas, acabou promovendo o apagamento dos grupos minoritários, que não
são representados nos acervos e nos serviços oferecidos aos usuários. É mais
comum a manutenção daqueles que frequentam a biblioteca, do atendimento
ao leitor frequente com os “gostos comuns”, do que voltar-se para aqueles que
não a frequentam, que não têm o hábito de leitura, que não se veem
contemplados nos acervos das bibliotecas, como os autores das alteridades,
não apenas suas temáticas. As literaturas Negra, Indígena, LGBTQIA+
brasileiras não estão contempladas a contento nos acervos das bibliotecas
públicas, o que demonstra uma falha das instituições em cumprir sua efetiva
missão social de atendimento à população. Destacam-se nos espaços das

�325

bibliotecas

públicas

estrangeiras,

o

que

as
não

literaturas
seria

um

consideradas
problema

clássicas,
se

não

nacional

fossem,

e

quase

exclusivamente, o foco desses acervos.
Por seu turno, as bibliotecas públicas deveriam zelar para que os “[...]
interesses culturais estejam representados nos materiais do acervo da
biblioteca, cuja contribuição deve refletir a diversidade de culturas presentes
na comunidade” (IFLA, 2012, p. 10), devendo, para isso, acompanhar
discussões presentes na sociedade, disponibilizando recursos em diferentes
formatos, suportes, temáticas e autorias. Diante disso, o Sistema Nacional de
Bibliotecas Públicas do Brasil sinalizou que: “dentro desse contexto, cabe a
biblioteca pública atuar, como instituição democrática por excelência, e
contribuir para que esta situação [de desigualdade] não se acentue ainda mais
e que a oportunidade seja oferecida a todos” (FBN, 2010, p. 17). O(a)
bibliotecário(a) depara-se com esse enorme desafio: mobilizar para dentro e
fora do espaço da biblioteca a informação, de modo personalizado e
individualizado, o acesso ao mundo informacional que não se restrinja ao livro
e nem aos autores clássicos notadamente presentes nos acervos.
Pensar no todo, nesse coletivo de usuários que frequentam as bibliotecas
públicas, requer discutir sobre as diferenças e, sobretudo, as desigualdades
que fundamentaram e ainda sustentam a nação brasileira. Consideramos
urgente trazer para o ambiente da biblioteca a discussão sobre a diversidade
étnica e cultural tendo em vista que é dever das bibliotecas promover o acesso
aos serviços e recursos para comunidade, sem discriminação de idade, raça,
sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição social (IFLA, 2012).
As bibliotecas públicas devem se manter conectadas às necessidades das
comunidades, atuando como “agentes de mudanças” de modo proativo no
desenvolvimento social e cultural do indivíduo e da comunidade (IFLA, 2012).
É preciso olhar para a comunidade, para as demandas plurais e singulares,
especialmente, para os grupos excluídos socialmente, postos à margem da
sociedade, focando nessa população, elaborando estratégias para trazê-la para
a discussão sobre a função das bibliotecas e a distribuição equitativa dos bens
culturais e simbólicos da sociedade.

�326

Aproximar os usuários/leitores com o espaço da biblioteca envolve, antes
de entendê-los a partir das suas subjetividades, com os serviços e os produtos
oferecidos pelas bibliotecas alinhados com as comunidades. Pensar a diferença
entre o discurso sobre o que a biblioteca é ou o que deveria ser, conduziriam
suas ações e práticas cotidianas, inclusa a mediação, com toda a sua
potencialidade transformadora. Dito isto, é preciso extrapolar a oferta de
serviços “comuns”, isto é, básicos, que ocorrem em todas as bibliotecas,
como: os empréstimos e atendimentos presenciais para sanar possíveis
dúvidas; indo atrás do que poderiam ser as demandas, necessidades,
motivações, interesses dos usuários.
Os próprios acervos das bibliotecas públicas, constituídos também por
doações, precisam ser repensados, questionados e criticados. É certo que as
bibliotecas públicas possuem geralmente milhares de livros em seus acervos,
entretanto, o volume não representa necessariamente uma qualidade desse
acervo. Assim, a seleção e a avaliação do acervo é, ou deveria ser, o ponto
central. Isto porque se as bibliotecas são instituições responsáveis pela
conservação da herança nacional, faz-se urgente a reflexão sobre se esse
legado representa, de fato, a sociedade como um todo. Uma instituição que
privilegia um tipo de discurso mantenedor do status quo dominante não
cumpre a sua missão de atender a comunidade e a de distribuição dos bens
simbólicos e culturais plurais. A variedade de oferta é condição indispensável
para atingir seu papel social e democrático.
Assim, a negação da oferta das literaturas, é um dos elementos que
prejudica a formação do leitor e a própria conexão da biblioteca com a
comunidade onde se insere que, por sua vez, compromete a mediação em
suas diversas outras manifestações. Em suma, acervos mais representativos
da diversidade são importantes porque inserem as bibliotecas em um ciclo
virtuoso em que os acervos contribuirão para a atração do usuário e
comunidades leitoras, fortalecendo seus laços com a instituição biblioteca, que
cumprirá seu papel formador e facilitador dos diálogos.

�327

2

ADENTRANDO

OS

ACERVOS

DAS

BIBLIOTECAS

PÚBLICAS

BRASILEIRAS
Longe de pensar as bibliotecas como instituições burocráticas, mas, sim,
como instituições de formação a partir de processos dinâmicos, de locais de
reflexo à espaços de reflexão. Pensando nisso, o foco desta análise é a
literatura, o acervo de livros literários. A literatura se configura tanto como um
dos modos possíveis de representação da realidade, quanto contribui, a sua
maneira,

para

a

re-criação

dessa

realidade

e

de

outros

modos

de

relacionamentos com ela. É com essa leitura literária que ocorre o deslocar-se
em direção ao outro, uma experiência de alteridade, cujo movimento é
importante para a (des)construção dos modelos e a construção de identidades,
que é ao mesmo tempo singular e plural (TANUS; TANUS, 2018).
De modo análogo ao que foi dito sobre a literatura, a própria biblioteca
pública pode oferecer, por conta de seus acervos constituídos e mesmo pelas
políticas de formação desses acervos, questões sobre a comunidade nacional e
as

matrizes

culturais

que

formam

essa

comunidade.

Salientamos

a

necessidade de olhar detidamente para os acervos, tendo em vista que a
formação e seleção dos acervos são atividades racionais, críticas, atos políticos
que devem ser refletidos e avaliados, pois a coleção disponível aos usuários
provoca efeitos na sociedade e compromete a efetivação de um Estado
Democrático de Direito.
Como atividade incorporada às ações consolidadas, sabemos que os
estudos de usuários não são realizados pelas bibliotecas, como deveriam ser.
Embora as justificativas sejam decisivas, como a falta de equipe necessária
para o empreendimento, parece óbvio que uma compreensão dos porquês para
tal ação forneceria à instituição elementos autênticos para fundamentar um
pedido formal de contratação de bibliotecários. De modo análogo, outras ações
indispensáveis, tais como avaliação da formação e desenvolvimento dos
acervos, atividades que deveriam ser essenciais nos espaços das bibliotecas
públicas que apresentam o desafio de atender indivíduos diversos, não são
devidamente realizadas.

�328

Dito isto, um dos possíveis, e até necessários, caminhos para o(a)
bibliotecário(a)

pesquisador(a)

é

também

como

rotina

o

trabalho

de

desenvolver pesquisas vinculadas à missão da instituição e a avaliação dos
produtos e dos serviços. Destarte, para este estudo, recorremos à “avaliação
do acervo por meio do cotejo com bibliografia” (LANCASTER, 1996) para,
justamente, diagnosticar as presenças e as ausência da literatura afrobrasileira nos acervos das bibliotecas públicas estaduais brasileiras. Assim, foi
utilizado o índice de autores, escritoras e escritores afro-brasileiros, arrolados
no portal literafro − O portal da Literatura Afro-brasileira44, que, desde 2001
vem reunindo pesquisadores com vistas à percepção de autores e autoras
identificados com o projeto de uma literatura negra. O portal é uma espécie de
arquivo dinâmico de discursos que dispõe aos usuários informações sobre
autores e autoras negros e, em alguns casos, sobre seu processo de escritura,
sobre sua obra nas informações bibliográficas e apresentação de excertos e,
também, de sua crítica, que é localizada, definida, reunida.
Assim, seu objetivo não é somente ser um ponto de convergência de
teorias e conceitos já existentes, mas um espaço de/para articulação de
pensamentos e perspectivas, de textos de escritoras e escritores negros, que
somam, atualmente mais de 130, desde o século XVIII até os tempos atuais, e
seus

respectivos

textos

críticos.

A

dinâmica

estrutura-se

de

maneira

rizomática, num arranjo de discursos, cujo destino são os deslocamentos
possíveis de serem realizados por pesquisadores dentro das academias, pelos
professores e alunos dentro das salas de aulas, e também pelos bibliotecários,
em suas ações de mediação da informação. Assim, sendo um espaço de
divulgação e estímulo à pesquisa e à reflexão sobre a produção literária de
autoria negra, oferece insumos e aportes crítico-teóricos para a formação dos
profissionais que contribuirão para que suas atividades rotineiras contemplem,
de fato, a modificação da sociedade brasileira.

44

Esse portal, disponível no endereço http://www.letras.ufmg.br/literafro/, é fruto do trabalho
do Grupo de Interinstitucional de Pesquisa Afrodescendências na Literatura Brasileira, sediado
no Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade – NEIA, da Faculdade de Letras da
UFMG.

�329

Em relação à literatura, além da sua importância já dita, entender a
especificidade da literatura afro-brasileira, compreender seu espaço de recriação é deveras importante porque sua conceituação, sua particularidade diz
muito sobre as instituições vinculadas à produção da cultura e de sua guarda.
Como disse Cuti (2010), as conquistas da população negro-brasileira têm sido,
desde sempre, minimizadas justamente porque o propósito de uma nação
exclusivamente branca tem continuado a sobrepujar as mentes que a
comandam em suas diversas instâncias de poder. Ainda segundo Cuti (2010,
p. 11-12), com surgimento das personagens, dos autores e leitores negros
tornou-se possível à literatura brasileira a colocação de questões referentes a
sua formação, com a revelação dos elementos culturais das populações da
diáspora, no que se refere às formas e temas, à modificação do paradigma
crítico-literário.
Concomitante a isso, foram trazidos para a discussão aspectos diversos
que, por conta do domínio ideológico, estavam obliterados, silenciados, por
séculos. A literatura afro-brasileira, por meio de textos de autoria negra,
reelabora as imagens da literatura oficial, rediscutindo-as, reencenando-as e
re-apresentando-as,

fazendo

insurgir

questionamentos

acerca

das

invisibilidades. Ela não só valoriza as positividades, a inteligência, a criação do
segmento étnico-racial que a compõe, como trabalha – estética, politicamente
– formas, o pensamento, a linguagem, os temas próprios da cultura negra
(SOUZA, 2017).
Dito isto, adentramos os acervos das bibliotecas, para realizar o
diagnóstico dos acervos das bibliotecas públicas brasileiras. O levantamento –
dos autores e títulos dos livros – foi sistematizado em uma planilha, para que
fosse possível pesquisar no catálogo online das bibliotecas. Para o estudo dos
acervos, concentramo-nos na composição da listagem dos títulos das obras
que atendessem aos seguintes critérios: obras literárias (romances, contos,
infantil, teatro) publicadas individualmente e em coautoria, ou seja, obras
produzidas em parcerias.
Foram identificados 133 autores e 981 obras de literatura a partir da
consulta e extração das informações no portal Literafro realizada no ano de

�330

2019. Quanto a autoria identificamos 37 do sexo feminino e 96 do sexo
masculino. A naturalidade dos autores arrolados concentra-se na região
Sudeste, com 82 escritores, e no Nordeste, com 36 escritores, seguidas das
regiões Sul, com 10 escritores, 2 da região Norte e 2 do Centro-Oeste, e uma
nascida nos Estados Unidos (no apêndice apresentamos, na íntegra, os nomes
dos autores(as).
Em seguida, para verificar as presenças desses escritores e escritoras
negros, fez-se necessário identificar quais bibliotecas públicas brasileiras
possuíam catálogo online disponível para efetuar as consultas, a partir dos
critérios: nome dos autores e de suas obras, atendendo ao recorte da pesquisa
(autoria e texto literário). Das 27 unidades federativas brasileiras, sendo 26
estados

e

um

distrito

federal,

encontramos

o

catálogo

online

em

funcionamento em apenas 14 instituições. Constatamos, infelizmente, que
apenas algumas bibliotecas públicas estaduais disponibilizam o catálogo online,
o que prejudica o conhecimento e o acesso à informação, a autonomia dos
usuários em realizarem suas buscas e, neste caso, a inviabilidade de se
conhecer de modo mais amplo a realidade dos acervos brasileiros.
Expomos, então, a seguir, o quadro 1 que demonstra a frequência dos
títulos presentes e ausentes, apresentados aqui de modo geral, a partir da
consulta ao catálogo das seguintes bibliotecas públicas estaduais:
Quadro 1: Presenças e ausências de títulos nos acervos das bibliotecas públicas brasileiras
ESTADO

BIBLIOTECA

AUSENTE PRESENTE

RIO DE JANEIRO

Biblioteca Parque Estadual

726

255

PARANÁ

Biblioteca Pública Estadual do Paraná

751

230

MINAS GERAIS

Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais

753

228

BAHIA

Biblioteca Pública Estadual da Bahia

814

167

SÃO PAULO

Biblioteca de São Paulo

877

104

PARÁ

Biblioteca Pública Estadual Arthur Viana

929

52

BRASÍLIA

Biblioteca Nacional de Brasília

923

58

SANTA CATARINA Biblioteca Pública Estadual de Santa Catarina
ESPÍRITO SANTO Biblioteca Pública Estadual Levy Cúrcio da Rocha

943

38

951

30

MATO GROSSO
RIO GRANDE DO
SUL

Biblioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça

962

19

963

18

SERGIPE

Biblioteca Pública Estadual Epifânio Dórea

967

14

ALAGOAS

Biblioteca Pública Estadual Graciliano Ramos

977

4

Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul

�331

ESTADO
PIAUÍ

BIBLIOTECA
Biblioteca Pública Estadual Desembargador
Cromwel de Carvalho
Fonte: Elaborado pelos autores (2020).

AUSENTE PRESENTE
978

3

A ausência de catálogos on-line das bibliotecas públicas brasileiras
impossibilita ao usuário o acesso remoto ao acervo da biblioteca, atrapalhando
não apenas as pesquisas para seleção de obra, mas também a constatação das
lacunas nas estantes, e a possibilidade de contribuição para a melhoria desse
acervo. Os números que representam a presença das obras de literatura dos
autores e autoras negras arrolados no portal literafro é desalentador. A maioria
das bibliotecas não dispõe de mais de 100 títulos dentre os 981 títulos
identificados, conforme exposto no quadro em que se apresentou a quantidade
de títulos presentes nos acervos da maior para a menor frequência. As
bibliotecas que apresentam uma maior variedade de títulos são da região
Sudeste, como também é a naturalidade dos autores listados, e onde também
há uma maior concentração de editoras que publicam autores e autoras
negras. Cumpre ainda destacar que os autores Machado de Assis e Lima
Barreto, dois autores negros, considerados cânones da literatura brasileira
estão, como é suposto, presentes nos acervos dessas bibliotecas pesquisadas,
por isso optamos por não realizar a identificação de suas obras nos acervos;
entretanto decidimos manter a verificação de autoria.
De modo geral, podemos dizer que os autores mais encontrados nas
bibliotecas públicas brasileiras são: Júlio Emílio Braz, Joel Rufino dos Santos e
Rogério Andrade Barbosa, com suas obras de literatura infantil e juvenil. Além
desses autores destacamos também: Edimilson de Almeida Pereira, totalizando
os quatro autores mais recorrentes nos acervos analisados. Entre as mulheres
registramos uma ínfima participação delas nos acervos, quando elas estão
presentes não há uma quantidade significativa de títulos presentes. Dentre as
mulheres mais presentes nos acervos destacamos: Carolina Maria de Jesus,
Conceição Evaristo, Maria Firmina dos Reis, Mãe Stella de Oxóssi, Geni
Guimarães, Cyana Leahy-Dios, Madu Costa, Heloisa Pires Lima, Cidinha da
Silva. Entretanto, quando comparamos a presença da autoria masculina e da

�332

autoria feminina, a primeira é significativamente maior. As mulheres são uma
minoria nos acervos seja pela sua presença como autoras seja pelo
quantitativo de títulos presentes nos acervos.
De modo geral, a partir desse retrato dos acervos das bibliotecas
públicas é possível dizer que esses acervos – por variáveis mais ou menos
conhecidas, como: verba, produção editorial, legislação e a própria política de
formação e desenvolvimento de acervo – operam com a exclusão, apagamento
e

silenciamento

da

literatura

produzida

pelos

autores(as)

negros(as).

Percebemos uma concentração da presença de títulos em poucos autores,
revelando uma baixa variedade de autores e autoras negros de literatura afrobrasileira identificados a partir do referido Portal. Essa ausência de títulos e
autores nas bibliotecas públicas reforça a estrutura racista e preconceituosa da
sociedade brasileira, quando tal instituição deveria combater esse movimento
excludente e promover o acesso a todos, especialmente, aos usuários negros e
pardos, maioria da população, em acessar a literatura negro-brasileira.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
“Se os acervos das bibliotecas têm refletido
durante muito tempo a ideologia, deve-se grande
parte
à
seleção
feita
pelo
bibliotecário”
(MARANON, 1980, p. 56).

Passados quase quarenta anos dessa assertiva e dezesseis anos da
instituição da Lei 10.639/2003, os acervos das bibliotecas públicas ainda não
contemplam em toda sua potencialidade os autores e autoras negras de
literatura afro-brasileira. Apesar dos muitos avanços das bibliotecas públicas
em seus serviços e dinamizações refletidas no próprio conceito de “biblioteca
viva”, que traz o envolvimento da instituição com o usuário de forma
acentuada, quando se aborda no plano das alteridades, do desenvolvimento de
acervos de uma outra literatura que não a clássica, a canônica, a qual é
formada por homens, brancos, com cursos superiores, escritores, vinculados
ao eixo Rio de Janeiro e São Paulo (DALCASTAGNÈ, 2014). É preciso reforçar a
importância dos bibliotecários(as) para a formação e desenvolvimento dos

�333

acervos, buscando repensar constantemente o lugar de atuação e os efeitos
gerados pelos mediadores de cultura e de literatura nesses espaços públicos
que são as bibliotecas.
Está evidente que sem acervos de literatura afro-brasileira não há
verdadeiramente uma democratização do acervo, da biblioteca pública, como
se deseja e como é indispensável. A mediação também continua, por sua vez,
comprometida, pois os acervos são um dos serviços de suma importância para
a comunidade, que, no caso da brasileira, é de maioria parda e negra. Há,
também, o comprometimento da mediação literária na biblioteca pública
devido à oferta dos mesmos títulos que reforçam uma identidade nacional
fundamentada em uma unidade, uma coesão que não representa uma
sociedade étnica e racialmente plural, como é a brasileira.
Compreendemos que o profissional bibliotecário deve ter consciência da
relevância de formar e desenvolver acervos que propiciem o acesso à leitura
de livros a todos, para além do reforço apenas do cânone tradicional, que já
compõe os acervos de quase todas as bibliotecas brasileiras. A diversidade e o
acesso à informação de modo mais democrático são fundamentais para a
constituição de uma sociedade menos desigual, fundamentada na pluralidade,
a qual teria como base cidadãos bem informados, que possam, por meio do
acesso à leitura, fortalecer suas identidades, suas comunidades.
Se a apropriação da informação é condição sine qua non para ela existir,
reiteramos também que os acervos construídos a partir da “bibliodiversidade”
é também condição urgente para que as bibliotecas constituam como
instituições democráticas contribuidora para uma efetiva democracia. A
biblioteca pública por meio dos seus acervos, em especial, os livros de
literatura, possibilita a construção de uma autoestima e o reconhecimento da
alteridade, necessárias para o desenvolvimento da cidadania. Isto justamente
porque a “literatura é poder, poder de convencimento, de alimentar o
imaginário, fonte inspiradora do pensamento e da ação” (CUTI, 2010, p. 12).
Desse modo, “As coleções e os serviços [que] não devem ser submetidos
a qualquer forma de censura, seja ideológica, política ou religiosa, nem de
pressões comerciais”. (IFLA, p.12), não podem servir a uma “Política de

�334

silenciamento” dos afro-brasileiros na biblioteca, lugar da escrita da memória e
da história nacionais (CARDOSO, 2015). É preciso, portanto, que as bibliotecas
públicas se atentem para uma “política de reparação de seus acervos”, com
vistas a “descolonizar os acervos” (TANUS; TANUS, 2018; TANUS, et al, 2020).
É preciso expor essa reparação dos documentos oficiais de formação e
desenvolvimento de acervos e aplicar essa mudança na composição dos
discursos com vistas a contemplar a inteligência negra, representada pelos
intelectuais, tradutores, editoras, revisores, ilustradores, entre outros, e,
sobretudo pelos autores e autoras negras.
O portal de Literatura afro-brasileira, que serviu como fonte de
informação para identificação das obras e dos autores, pode constituir, para
o(a) bibliotecário(a), para quem ainda desconheça a produção intelectual
negra, em um dos caminhos para se iniciar a lista de seleção de obras para
composição dos acervos das bibliotecas públicas. Asseveramos, entretanto,
que há outros lugares de pesquisa, como, por exemplo, Quilombhoje (1980);
Geledés: Instituto da Mulher Negra (1988); Fundação Cultural Palmares
(1989) entre outros. Enfim, é preciso atenção dos bibliotecários(as) na
formação e desenvolvimento dos acervos das bibliotecas públicas, porque
acreditamos que a literatura por si só não humaniza, ela é potencialmente
humanizadora, dependendo, portanto, da ação, de leitura, das ações para a
modificação do status quo dominante vigente.

REFERÊNCIAS

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alternativas. Londrina: Editora UEL, 1997.
ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito
atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo; SILVA, Rovilson
José da (Org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina:
ABECIN, 2015. 278p. p.9-32.
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado. 3. ed.
Lisboa: Presença, 1980.

�335

BIBLIOTECA pública: princípios e diretrizes. Rio de Janeiro: Fundação
Biblioteca Nacional, 2000. E-book. Disponível em:
https://www.bn.gov.br/producao/publicacoes/biblioteca-publica-principiosdiretrizes. Acesso em: 30 jul. 2018.
CARDOSO, Francilene do Carmo. O negro na biblioteca: mediação da
informação para construção da identidade negra. Curitiba: CRV, 2015.
CUTI (Luiz Silva). Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.
(Coleção consciência em debate).
DALCASTAGNÈ, Regina. Por que precisamos de escritoras e escritores negros?
In: SILVA, Cidinha da (Org.). Africanidades e relações raciais: insumos
para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no
Brasil. Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2014. p. 66-69.
DUARTE, Eduardo de Assis. Por um conceito de literatura afro-brasileira.
Terceira Margem, Rio de Janeiro, n. 23, p. 113-138, jul./dez. 2010.
IFLA. INTERNATIONAL FEDERATION OF LIBRARY ASSOCIATIONS AND
INSTITUTIONS. Diretrizes da IFLA para bibliotecas públicas. Brasília/DF:
Briquet de Lemos, 2012.
LANCASTER, F. Avaliação de serviços de bibliotecas. Brasília: Briquet de
Lemos, 1996.
LITERAFRO. O portal da Literatura Afro-brasileira. Disponível em:
www.letras.ufmg.br/literafro. Acesso em: 17 jan. 2017.
MARANON, Eduardo Ismael Murguia. A contradição da biblioteca pública: a
biblioteca popular. 1990. 103 f. Dissertação (mestrado) - Pontifícia
Universidade Católica de Campinas, Campinas, 1990.
MILANESI, Luís. Ordenar para desordenar. São Paulo: Brasiliense, 1986.
NOGUEIRA, M. C. D. Biblioteca pública: a ambivalência de seu papel. Revista
da Escola de Biblioteconomia da UFMG, v. 15, n. 2, 1986.
MUELLER, Suzana Pinheiro. Bibliotecas e sociedade: evolução da interpretação
de função e papéis da biblioteca. Revista da Escola de Biblioteconomia da
UFMG, n. 1, v. 13, 1984.
SOUZA, Gustavo Tanus Cesário de. Constelações do poeta negro: imagens
de Adão Ventura no arquivo literário. 2017. 203 f. Dissertação (mestrado) Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras. Disponível em:
http://hdl.handle.net/1843/LETR-AQKFS8. Acesso em: 3 nov. 2017.
TANUS, Gustavo; TANUS, Gabrielle Francinne de S.C. As bibliotecas públicas e
a importância da formação e desenvolvimento dos acervos de literatura afro-

�336

brasileira. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA
INFORMAÇÃO, 19., Anais [...]. Londrina. Disponível em:
encurtador.com.br/hGX38. Acesso em: 02 nov. 2018.
TANUS, Gabrielle Francinne de S.C et al. A literatura afro-brasileira no Sistema
Estadual de Bibliotecas Públicas da Bahia. Revista Brasileira de
Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 16, p. 1-24, fev. 2020.

Agradecimentos: Aos discentes do curso de Biblioteconomia vinculados ao
projeto “A literatura afro-brasileira nos acervos das bibliotecas públicas”, em
andamento na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN): Flavia
Figueiredo de Oliveira; Geísa Pereira Alves; Magaly Alexandre Santiago; Maria
Clara Tavares da Silva; Marcus Victor Siqueira Josua Gomes; Milena Natalya
Morais Frederico; Silvana Souza da Silva; Solange Gomes Toscano de Oliveira;
William Santos da Silva.

APÊNDICE – Escritores e escritoras de literatura afro-brasileira
extraídos do Portal Literafro
Total de Títulos de literatura

Nome

Região

3

Abdias Nascimento

SE

3

Abelardo Rodrigues

SE

2

Abílio Ferreira

SE

4

Aciomar de Oliveira

SE

7

Adão Ventura

SE

7

Ademiro Alves (Sacolinha)

SE

3

Aldri Anunciação

NE

3

Aline França

NE

8

Allan da Rosa

SE

2

Aloísio Resende

NE

5

Alzira dos Santos Rufino

SE

5

Ana Cruz

SE

2

Ana Maria Gonçalves

SE

1

Anajá Caetano

SE

6

Anelito de Oliveira

SE

2

Anízio Vianna

SE

1

Antonieta de Barros

3

Antonio Vieira

NE

5

Aristides Teodoro

NE

9

Arlindo Veiga dos Santos

SE

8

Arnaldo Xavier

NE

9

Bahia (José Ailton Ferreira)

NE

S

�337
10

Bernardino da Costa Lopes

SE

17

Carlos Correia Santos

N

2

Carlos de Assumpção

SE

8

Carolina Maria de Jesus

SE

Cidinha da Silva

SE

6

Conceição Evaristo

SE

7

Cristiane Sobral

SE

9

Cruz e Sousa

13

20

S

Cuti

SE

Cyana Leahy-Dios

NE

11

Domício Proença Filho

SE

13

Domingos Caldas Barbosa

SE

37

Edimilson de Almeida Pereira

SE

3

Edson Lopes Cardoso

NE

9

Eduardo de Oliveira

SE

2

Elaine Marcelina

SE

6

Éle Semog

SE

2

Eliane Marques

8

Elio Ferreira

NE

2

Elizandra Souza

SE

2

Esmeralda Ribeiro

SE

3

Estêvão Maya Maya

NE

2

Eustáquio José Rodrigues

SE

3

Fábio Mandingo

NE

9

Fausto Antônio

SE

4

Fernando Conceição

NE

2

Fernando Ferreira Góes

NE

5

Francisco Maciel

SE

9

Geni Guimarães

SE

5

Gonçalves Crespo

SE

1

Grande Othelo

SE

1

Guellwaar Adún

SE

8

Heloisa Pires Lima

1

Helton Fesan

SE

3

Henrique Cunha Jr.

SE

3

Hermógenes Almeida

NE

5

Inaldete Pinheiro de Andrade

NE

6

Ivan Cupertino

SE

3

J. Romão da Silva

NE

7

Jaime Sodré

NE

1

Jamu Minka

SE

1

Jenyffer Nascimento

NE

Joel Rufino dos Santos

SE

7

29

S

S

�338
3

Jônatas Conceição

NE

3

Jorge Dikamba

SE

6

José Carlos Limeira

NE

5

José do Patrocínio

SE

13

José Endoença Martins

S

Josias Marinho

N

Júlio Emílio Braz

SE

5

Jussara Santos

SE

3

Kiusam de Oliveira

SE

3

Lande Onawale

NE

1

Lepê Correia

NE

3

Lia Vieira

SE

X

Lima Barreto

SE

12

Lino Guedes

SE

6

Lívia Natália

SE

7

Lourdes Teodoro

CO

1

Luís Fulano de Tal

SE

5

Luiz Gama

SE

X

Machado de Assis

SE

8

Madu Costa

SE

2

Mãe Beata de Yemonjá

NE

5

Mãe Stella de Oxóssi

NE

2

Manto Costa

SE

2

Márcio Barbosa

SE

3

Marcos A. Dias

SE

3

Marcos Fabrício Lopes da Silva

CO

4

Maria Firmina dos Reis

NE

8

Maria Helena Vargas

3
159

S

14

Martinho da Vila

SE

17

Maurício Pestana

SE

2

Mel Adún

5

Mestre Didi

NE

4

Michel Yakini

SE

4

Miriam Alves

SE

5

Muniz Sodré

NE

4

Nascimento Moraes

NE

Nei Lopes

SE

13

USA

1

Nelson Maca

2

Nilma Lino Gomes

SE

1

Nívea Sabino

SE

11

Oliveira Silveira

S

S

8

Oswaldo de Camargo

SE

7

Oswaldo Faustino

SE

�339
5

Oubi Inaê Kibuko

SE

3

Patrícia Santana

SE

2

Paula Brito

SE

7

Paulo Colina

SE

3

Paulo Lins

SE

6

Plínio Camillo

SE

3

Ramatis Jacino

4

Raul Astolfo Marques

NE

9

Raul Joviano do Amaral

SE

6

Raymundo de Souza Dantas

NE

2

Renato Noguera

SE

4

Ricardo Dias

SE

3

Rita Santana

NE

Rogério Andrade Barbosa

SE

5

Romeu Crusoé

NE

12

Ronald Augusto

S

4

Ruth Guimarães

SE

8

Salgado Maranhão

NE

8

Santiago Dias

SE

2

Sergio Ballouk

SE

Silvério Gomes Pimenta

SE

9

Solano Trindade

NE

1

Sônia Fátima da Conceição

SE

2

Ubiratan Castro de Araújo

NE

4

Waldemar Euzébio Pereira

SE

82

11

S

�340

DADOS BIOGRÁFICOS
Gabrielle Francinne de Souza Carvalho Tanus: Professora
do Departamento de Ciência da Informação da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutora em Ciência da
Informação (Saberes científicos da Biblioteconomia em diálogo
com as Ciências Sociais e Humanas), Mestra em Ciência da
Informação e bacharela em Biblioteconomia pela Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou como bibliotecária no
Sistema de Bibliotecas da UFMG nas bibliotecas da Faculdade de
Direito e da Escola de Ciência da Informação
E-mail: gfrancinne@gmail.com

Gustavo Tanus: Doutorando em Estudos da Linguagem –
Leitura do Texto Literário e Ensino (UFRN). Mestre em Teoria
da Literatura e Literatura Comparada (UFMG), tendo atuado
na
Formação
Intercultural
de
Educadores
Indígenas
(Faculdade de Educação/UFMG). Pesquisador e integrante da
comissão
editorial
do
literafro,
Núcleo
de
Estudos
Interdisciplinares
da
Alteridade
(NEIA/Faculdade
de
Letras/UFMG). Autor do livro “Africanos e afrodescendentes
nas estantes a Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais”,
publicado pela Faculdade de Letras (UFMG), 2017.
E-mail: gustavotcs@gmail.com

�341

CAPÍTULO XVIII - Serviço de referência e mediação:
integrando pessoas, processos e tecnologias
Jorge Santa Anna
Célia da Consolação Dias
Benildes Coura Maculan

1 INTRODUÇÃO
A análise histórica das bibliotecas tem demonstrado o quanto essas
unidades têm evoluído, adquirindo novas configurações, em conformidade com
o desenvolvimento da sociedade e o potencial das tecnologias. Essa evolução
está associada, também, ao trabalho realizado pelos bibliotecários, cujos
fazeres têm se ampliado, conduzidos por atividades operacionais, intelectuais e
gerenciais, que visam o acesso e uso da informação, de acordo com
necessidades específicas da comunidade servida.
Durante muito tempo, as bibliotecas manifestaram-se como espaços
elitizados,

servidoras

da

ordem

estatal

(BURKE,

2003).

Com

o

desenvolvimento científico, a democratização do conhecimento e como valor
atribuído à informação, as bibliotecas são inseridas no seio das organizações,
sobretudo de universidades, escolas e centros de pesquisa. Nessas bibliotecas,
destaca-se

o

trabalho

realizado

mediante

práticas

de

organização

de

documentos, mediação informacional, gestão de recursos, dentre outras.
Mesmo que o fazer bibliotecário tenha se ampliado, sobremaneira, no
final do século XX, há de se considerar que algumas práticas constituem a
própria essência da biblioteca. A organização do acervo, por exemplo, é uma
prática milenar e é considerada como a base de constituição das primeiras
bibliotecas. Por conseguinte, a mediação informacional - um termo ainda em
desenvolvimento - pode ser observada junto às técnicas de organização dos
acervos, e se intensificou com o valor atribuído às necessidades dos usuários
(ALMEIDA JÚNIOR; SANTOS NETO, 2014).

�342

Os estudos científicos que investigam o trabalho do bibliotecário revelam
que, além de organizar acervos informacionais diversos, esse profissional atua
como educador e mediador, colocando o usuário em contato com as fontes de
informação, para fins de atender a necessidades específicas (MARTINS, 2017;
SANCHES, 2018). Colocar o usuário como centro dos sistemas de informação e
consequentemente das atenções constitui um novo paradigma para as
bibliotecas, suficiente para transcender a função, tão somente, de custódia e
de armazenamento, atribuída a essas unidades. Ao apoiar-se nesse paradigma,
é possível que o trabalho de organizar e mediar a informação condicione a
oferta de produtos e serviços de informação condizentes com a realidade onde
a biblioteca está inserida.
Embora o termo “serviços e produtos de informação” seja bastante
utilizado na literatura, é importante apresentar o conceito associado a serviço
e a produto. Para esclarecer a definição de ambos os termos, recorre-se ao
estudo de Duarte et al. (2015, p. 608). Para esses autores, serviço de
informação “[...] é algo feito por um profissional, com vistas a atender ao
interagente e dar uma direção para os recursos de informações de que ele
necessita [...]”. Entende-se que o termo serviço denota algo intangível,
normalmente, conduzido por um conjunto de atividades e de modo planejado.
Já o produto corresponde ao resultado concreto, ou seja, “[...] é representado
por algo já pronto por um profissional que o idealizou e o projetou para existir
materializadamente” (DUARTE et al., 2015, p. 608).
Embora os termos sejam diferentes, eles são indissociáveis, sobretudo
quando analisados no contexto das bibliotecas ou outras unidades de
informação. Borges (2008) defende essa associação entre produtos e serviços
e menciona que esses são mais abrangentes, contemplando aqueles. Em linhas
gerais, os serviços de informação são caracterizados sob três grandes
definições, a saber: 1 - todo processo de auxílio ao usuário na busca de
informação ou na satisfação de suas necessidades informacionais; 2 – a
interface direta entre a informação e o usuário; e 3 - a atividade destinada à
identificação, aquisição, processamento e transmissão de informação e ao seu
fornecimento em um serviço ou produto de informação (BORGES, 2008).

�343

A partir dessa diferenciação, serviço de informação, neste texto, é
designado como um termo mais abrangente, capaz de contemplar as
diferentes atividades que uma biblioteca pode oferecer. Logo, com essa
concepção, os serviços de informação constituem o planejamento dos recursos
mediado

pelo

bibliotecário, que

possibilite

satisfazer

uma necessidade,

podendo esse processo envolver: a construção de um produto; a oferta de um
produto; e/ou o atendimento direto aos usuários. Em todas essas perspectivas,
o objetivo é satisfazer as necessidades de informação de uma comunidade.
Nesse sentido, com as mudanças de paradigmas, sobretudo com a
inserção das tecnologias digitais, a biblioteca assume um papel fundamental
para o desenvolvimento da sociedade, cujo fazer bibliotecário não visa,
apenas, a construção de produtos de informação, mas a elaboração,
disponibilização e gestão dos serviços de informação. Tais serviços possibilitam
melhorar a relação/interação da unidade com o público e, como consequência,
facilitar o uso do que a unidade tem a oferecer. Isso promoverá o
reconhecimento acerca da importância e da contribuição exercida pela
biblioteca, na sociedade contemporânea (SANTA ANNA, 2016).
A proposta de ofertar serviços de informação nas bibliotecas não é
recente e acredita-se que essa ideia iniciou com o tradicional serviço de
referência (SR), quando do atendimento prestado a leitores, em meados do
século XIX, nos Estados Unidos. Tal proposta foi bem acolhida, visto que o SR
tornou-se essencial para apoiar as atividades de pesquisa, de modo a oferecer
orientações, por meio de uma atuação pedagógica. Além disso, com a adesão
às tecnologias digitais, o SR torna-se passível de ser disponibilizado no
ambiente web, com recursos interativos.
A oferta dos serviços de informação nas bibliotecas se ampliou com o uso
das tecnologias digitais. Santa Anna (2016, p. 234) acredita no fortalecimento
dos serviços de informação, ao longo do tempo, uma vez que as bibliotecas
têm

se

tornado cada dia

mais

híbridas,

“[...] oferecendo

tecnologias

sofisticadas, sem, contudo, eliminar as tecnologias tradicionais, satisfazendo a
amplitude das necessidades demandadas por seu diversificado público”.

�344

Sendo assim, a discussão em torno da oferta de serviços de informação
nas bibliotecas não é fruto da atual concepção paradigmática, cujo usuário se
revela como o ator principal das práticas bibliotecárias. De acordo com Fonseca
(2007), a biblioteca passou por três importantes paradigmas, como o
Paradigma da Conservação (-1450), Paradigma da Difusão (1450-1950) e o
atual que é o Paradigma da Interação (1950-). Nesse último, a biblioteca deixa
de ser unicamente um espaço de difusão e promoção de informação e cultura
para também se transformar em um espaço de apropriação e de expressão das
individualidades. Nesse contexto, afirma-se a ideia de que o indivíduo é, ao
mesmo tempo, insumo e sujeito do conhecimento, produtor e receptor do
conhecimento e recurso de orientação para si e para os outros (FONSECA,
2007).
A discussão em torno do atual paradigma tem suas raízes no tradicional
SR, que visa acolher os leitores no recinto das bibliotecas, e se caracteriza pelo
seu papel instrutivo atribuído a esse atendimento. Além disso, acredita-se que,
o uso das tecnologias digitais e a ampliação do conceito atribuído ao temo
mediação da informação são fatores que reforçam a importância e o papel do
SR nas bibliotecas atuais.
A partir dessa contextualização, este artigo tem como temática dois
importantes conceitos: mediação da informação e SR. Parte da concepção de
que esses conceitos são complementares e possibilitam uma visão sistêmica da
biblioteca, contemplando diferentes atividades que são realizadas.
Com efeito, o presente estudo objetiva reforçar as relações existentes
entre mediação e SR, haja vista identificar as características, os elementos
constitutivos e o que é esperado dos serviços de informação para as bibliotecas
do futuro.
O estudo se justifica pela contribuição teórica e prática: a primeira
contribuição diz respeito à tentativa de reforçar as relações entre mediação e
SR,

apontando

bases

teóricas

suficientes

que

garantam

sustentação,

motivação e convencimento acerca dos estudos relacionados a esses temas; a
segunda

está

direcionada

à

importância

do

SR

para

as

bibliotecas

universitárias e as possibilidades de melhoria que podem ser implementadas.

�345

Neste sentido, o estudo ora apresentado é resultado preliminar da
revisão

de literatura

realizada

no

desenvolvimento

de uma

tese, em

andamento, sobre planos de gestão para o SR em bibliotecas universitárias.
Esta investigação está vinculada à linha de pesquisa Gestão e Tecnologia, do
Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do Conhecimento –
Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais.

2 MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO COMO UM CAMPO ABRANGENTE
De acordo com o dicionário da Língua Portuguesa, o termo mediação tem
como significado o ato de mediar, ligar, relacionar, facilitar. Mediar, em sentido
denotativo, é uma ação promovida por um agente, normalmente, uma pessoa
que se coloca como facilitador, haja vista contribuir com outra pessoa, seja na
aquisição de conhecimento ou outra contribuição colaborativa (HOLANDA,
2018).
O termo mediação se desdobra para outros significados, dependendo do
contexto em que é utilizado. Pode-se notar, por exemplo, que a mediação
como prática colaborativa se manifesta no fazer pedagógico ou em um
discurso religioso, cujos mediadores são, respectivamente, o professor e o
padre (BICHERI, 2008). A mediação também se manifesta, de forma explícita,
nos trabalhos de profissionais que lidam com a leitura, tais como os
bibliotecários (BORTOLIN, 2010).
Embora esse termo não seja novo, ele tornou-se interesse de pesquisa
científica nos últimos anos, sobretudo com os estudos relacionados à dimensão
que a informação assume na sociedade da informação e do conhecimento (LE
COADIC, 2004). Nesse contexto, o termo refere-se a diferentes conceitos e
aplicações a serem utilizados em diversos campos do saber como Direito,
Educação, Comunicação e Ciência da Informação (SILVA; FARIAS, 2018).
Em algumas áreas do conhecimento, a mediação passou a ser estudada
em profundidade com os métodos de organização do conhecimento, a partir do
uso de técnicas de representação, como catalogação, indexação, dentre

�346

outras. Isso porque, ao organizar o conhecimento, como acontece nas
unidades de informação, por exemplo, é necessário criar vínculos entre as
fontes de informação do acervo e aqueles que buscam pela informação. Nesse
sentido, destaca-se o trabalho de intervenção realizado pelo bibliotecário
(ALMEIDA JÚNIOR; SANTOS NETO, 2014).
Esse trabalho, segundo os autores citados, não se resume, tão somente,
às ações de interação na busca por informação. Isso quer dizer que a
mediação vai muito além da ideia de ponte ou ação de ligação entre o
bibliotecário e os usuários. A mediação é um conceito que vem evoluindo na
área da Biblioteconomia e da Ciência da Informação, não se manifestando
como um processo estático que visa, apenas, a transmissão de mensagens
entre dois agentes que se interagem, pois,
mediação da informação é toda ação de interferência – realizada pelo
profissional da informação –, direta ou indireta; consciente ou
inconsciente; individual ou coletiva; que propicia a apropriação de
informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma necessidade
informacional [...] (ALMEIDA JÚNIOR, 2015, p. 25).

Estudo desenvolvido por Macedo e Silva (2015, p. 65) reforça que a
mediação é objeto de grande interesse aos estudiosos da Ciência da
Informação,

sobretudo

transmissão

de

quando

conhecimento

esse
na

objeto

sociedade.

possibilita
Portanto,

a

construção

nessa

área

e
de

conhecimento,
[...] a noção de mediação da informação implica em ações que auxiliam
nas formas de interação entre os seres humanos, de como essas
relações podem contribuir para o compartilhamento de ideias, saberes,
fazeres e manifestações culturais, que resultam na construção individual
e coletiva do conhecimento (MACEDO; SILVA, 2015, p. 65).

Ao

estimular

a

transmissão,

por

conseguinte,

geração

de

novos

conhecimentos, o ato de mediar assume uma dimensão ampla e diversificada.
A característica plural e abrangente do processo de mediação é confirmada,
quando se analisa o conceito formulado por Almeida Júnior (2015), cuja
mediação é ação de interferência que exige a presença de um profissional
atuante nas unidades de informação. Assim, no âmbito da Biblioteconomia e
da Ciência da Informação, mediar é ação de interferir que almeje a apropriação

�347

da informação, garantindo, portanto, o uso da informação, haja vista a
satisfação das necessidades dos usuários.
Considera-se, também, que o resultado da mediação não pode ser
analisado como acabado, visto que a satisfação, por ser momentânea, tende a
promover um processo que se retroalimenta, fomentando novas indagações,
conflitos e necessidades àqueles que utilizam as bibliotecas. Além disso,
pontua-se que a mediação, ao ser estudada no âmbito dos equipamentos
culturais como bibliotecas, arquivos e museus, pode se manifestar de forma
explícita e/ou implícita (ALMEIDA JÚNIOR, 2015).
Grande parte dos estudos publicados na literatura brasileira sobre
mediação no âmbito das unidades de informação concorda com a afirmação de
Almeida Júnior (2015), acerca de que a mediação pode se concretizar de forma
direta ou indireta e explícita ou implícita. Portanto, entende-se que o processo
é amplo ou abrangente, que permeia todos os fazeres dos bibliotecários, indo
além do ato de interação, normalmente estabelecido nos serviços de
atendimento como um todo.
No âmbito do processo de organização do conhecimento presente nas
bibliotecas, segundo Almeida Júnior e Santos Neto (2014), a mediação é
observada nas diversas práticas profissionais do bibliotecário, envolvendo
diferentes setores e atividades da unidade, tais como: processamento técnico
(classificação e catalogação), SR, atividades culturais, contação de histórias,
dentre outros fazeres e contextos. Ressalta-se que, na maioria das bibliotecas
brasileiras, o processamento técnico é formado por um conjunto de atividades
intelectuais, realizada em setor específico, com equipe especializada para
desempenho das atividades de representação da informação; o SR se
manifesta no balcão de atendimento, com equipe capacitada para interagir
com a comunidade, seja nas atividades de pesquisa ou informações de
natureza utilitária, que possam auxiliar as indagações dos usuários; as
atividades de cunho cultural, normalmente, acontecem em espaços especiais,
como

laboratórios

ou

auditórios,

entretimento para a comunidade.

possibilitando

momentos

de

lazer

e

�348

Essa abrangência atribuída ao processo de mediação é comungada,
também, por Silva e Farias (2018), quando analisam as ações desenvolvidas
no contexto dos serviços de informação. Nesse contexto, a mediação aparece
no SR, no provimento de informação utilitária, na oferta de eventos ou ações
que estimulem a cultura e o lazer, nas práticas de leitura e na atividade de
pesquisa. Os autores citados concluíram que a abrangência do processo
possibilita “[...] a formação de processos pragmáticos implícitos e explícitos,
sendo pertinente correlacioná-los para compreender a dinâmica do serviçode
informação e, em especial, para a formação de competência” (SILVA; FARIAS,
2018, p. 120).
A partir de diversos estudos publicados na literatura brasileira de
Biblioteconomia/Ciência da Informação, percebe-se que a mediação é objeto
de análise, sobremaneira, na ambiência dos equipamentos culturais (arquivos,
bibliotecas, museus, centros de documentação, dentre outros). Nesses
espaços, é possível entender a mediação como uma ação que se desenvolve
paralela a diferentes atividades, de modo integrado e contextual (ALMEIDA
JÚNIOR, 2015; ALMEIDA JÚNIOR; SANTOS NETO, 2014; CORDA, 2012;
FARIAS; SILVA, 2019).
A literatura investigada neste estudo também é unânime ao compartilhar
dois modos de manifestação do ato de mediar, a saber: implícito e explícito;
direto e indireto. Assim, associando essas formas de manifestação no âmbito
de uma biblioteca, é possível identificar a mediação como ato de interferência
e acoplá-la aos processos de organização e transferência da informação: no
primeiro, a mediação acontece de forma implícita e indireta, ao passo que no
segundo

modo,

manifesta-se

detalhado na figura 1.

a

mediação

explícita

e

direta,

conforme

�349
Figura 1 – A mediação como ato de interferência realizada nas bibliotecas

Fonte: Elaborada pelos proponentes (2020).

A figura 1 apresenta que a mediação, como ação de interferência,
manifesta-se de modo abrangente em meio a diferentes atividades que
formam os processos de organização e transferência da informação. Além
disso, como ação implícita/indireta, a interferência se faz entre o bibliotecário e
os recursos informacionais, e como ação explícita/direta, a interferência se
manifesta entre bibliotecário e usuário, concretizando uma ação interativa,
com dois atores envolvidos.
Considerando que o conceito de mediação não permeia, apenas, a ação
de interferência, mas também o resultado dessa intervenção, que é a
apropriação (ALMEIDA JÚNIOR, 2015), entende-se que o objetivo do ato de
mediar é garantir o uso da informação pela comunidade usuária, considerando
as necessidades demandadas. A estruturação e a oferta do SR constituem
atividades-fim da biblioteca e precisam ser planejadas e gerenciadas, a partir
das ações de mediação, consagradas no âmbito da interferência e da
apropriação (SANTA ANNA; DIAS; MACULAN, 2019).
Caracterizar a mediação como ato de interferência é algo recorrente na
literatura e mais concreto de ser comprovado. No entanto, aproximar a
mediação da apropriação é algo mais complexo, em especial por envolver
questões subjetivas. Isso pode ser percebido a partir do que comenta Almeida
Júnior (2009) acerca da apropriação, afirmando que ela está relacionada ao
uso, à agregação de valor pelo usuário, o qual terá a possibilidade de

�350

transformar a informação recebida em conhecimento, para resolução de seus
problemas pessoais e coletivos, e também para a produção de novos
conhecimentos.
Na visão de Lima (2018), a mediação foge ao escopo das bibliotecas, em
alguns

aspectos,

por

envolver

questões

cognitivas,

associadas

com

a

experiência e cultura do indivíduo e com o contexto em que ele está inserido
(LIMA, 2018). Com todo efeito, no âmbito da apropriação, a biblioteca já vem
realizando trabalhos a partir de insumos de outras áreas de conhecimento,
como Educação, Administração e Psicologia, por exemplo, ações voltadas aos
estudos de comportamento e satisfação de usuários, avaliação de serviços,
dentre outros, sendo essas ações essenciais para garantir a melhoria do que é
oferecido em todos os serviços oferecidos nas bibliotecas (COTÉ; KOCHKINA;
MAWHINNEY, 2016).
A possibilidade de apropriação é um elemento essencial capaz de
fornecer insumos para melhorias do que é oferecido nas unidades de
informação.

Representa a

concretização

do

objetivo

final

das

práticas

bibliotecárias, refletindo o esforço despendido e os resultados alcançados, além
das necessidades de modificações para alinhamento às necessidades dos
usuários. Em linhas gerais, pensando na apropriação, as bibliotecas podem
realizar pesquisas, “[...] cujo foco é atribuído aos usuários e as formas com
que acessam os serviços. Assim, estão inseridos nessa categoria os estudos de
uso,

modalidades

de

serviços

utilizados,

comportamento,

satisfação

e

percepção” (SANTA ANNA; DIAS; MACULAN, 2019, p. 9).
A partir das evidências coletadas da literatura, apresenta-se a figura 2, a
qual demonstra o que pode ser realizado pelas bibliotecas, considerando o ato
de apropriação oriundo da mediação.

�351
Figura 2 – A mediação como ato de apropriação realizada nas bibliotecas

Fonte: Elaborada pelos proponentes (2020).

Pela figura 2, nota-se que a apropriação é um elemento da mediação,
manifestado em atividades que formalizam o processo de uso da informação,
reforçando a tese de Almeida Júnior (2015). Além disso, a apropriação é o
resultado do ato de intervenção, sendo, portanto, a base de toda a atividade
do bibliotecário, assim como o é o SR, conforme pontuado por Figueiredo
(1992). As atividades realizadas pelas bibliotecas, por exemplo: os estudos de
usuários e de satisfação, dentre outros, representam a mediação explícita - a
partir de técnicas de coletas de dados, como a entrevista guiada, por exemplo
– e a mediação implícita - quando se emprega técnicas não interativas, como o
questionário e análise às estatísticas de uso, dentre alguns exemplos.
De acordo com Corda (2012), a mediação se explicita diretamente no
âmbito da oferta dos serviços de informação, cujo bibliotecário assume a
missão de disseminar, de modo a garantir o uso do acervo informacional. A
autora reconhece, assim como Almeida Júnior (2015), que o ponto máximo da
mediação nas bibliotecas está no SR, com destaque a interação firmada entre
o profissional e o usuário, na busca pelas fontes de informação.
A missão do bibliotecário como mediador da informação se inicia no
processamento das fontes e se consolida na oferta do SR, mediante a
interação com usuários, seja de modo presencial ou digital. Desse modo, o
sucesso de qualquer atividade demandará da reflexão do profissional acerca da
seleção e implementação de ferramentas e da oferta de serviços de informação
adequados à realidade de cada biblioteca, considerando uma série de fatores,
tais como: “[...] as características específicas [...] de usuários, a diversidade

�352

de tecnologias ofertadas a esses usuários e também aos não usuários,
autonomia, estímulo e facilidades para o acesso, busca e uso das fontes de
informação” (NOVELLI; HOFFMANN; GRACIOSO, 2014, p. 31).
Nesse contexto, todos os fazeres realizados pelos profissionais, que
antecedem o atendimento no SR, tais como a catalogação, indexação, dentre
outros, alcançam os objetivos a que são destinados, quando ocorre a
apropriação da informação pelo usuário, ação que, embora subjetiva e
complexa, pode ser facilitada por meio dos serviços de informação. Para Santa
Anna, Dias e Maculan (2019), a mediação contribui para o atendimento
prestado no SR, e, como tal, também auxilia na aquisição de conhecimento,
sobretudo quando são identificadas ações de interferência e apropriação no
planejamento e gestão do SR.
Assim, conforme elucidado por Silva e Farias (2018), os estudos sobre
mediação podem fornecer bases teóricas ou insumos reflexivos que formalizam
programas de ação, intervenção e interferência nas bibliotecas, e os serviços
de informação funcionam como a operacionalização ou a concepção pragmática
do processo de mediação. Portanto, em acordo com Santa Anna, Dias e
Maculan (2019), faz-se necessário reconhecer o potencial da mediação, de
modo a melhor explorá-lo, a fim de apontar melhorias para o SR oferecido nas
bibliotecas universitárias.
Importante destacar que as bibliotecas universitárias são espaços
apropriados para disseminar informação a diferentes públicos, além de
estabelecer relações com organizações de cultura e de memória, que utilizem a
informação para diferentes fins (MURRAY, 2020). Com o potencial das
tecnologias, as bibliotecas universitárias ampliam as práticas de mediação,
haja vista possibilitar o acesso, a busca e a aprendizagem das fontes de
informação (NOVELLI; HOFFMANN; GRACIOSO, 2014). Com efeito, como
discorrido por Farias e Silva (2019, p. 356), é com essa filosofia de trabalho,
que as bibliotecas universitárias, com profissionais capacitados às atividades
de mediação, tornarão as necessidades dos usuários “[...] explicitadas,
interpretadas e atendidas”.

�353

3 SERVIÇO DE REFERÊNCIA E MEDIAÇÃO INFORMACIONAL
O SR pode ser conceituado como um conjunto de atividades realizadas
em prol do provimento de informação a diferentes grupos de usuários, a fim de
satisfazer necessidades específicas desses grupos (GROGAN, 1995). Esse tipo
de serviço proporciona facilidades de uso do acervo informacional, com o fim
de subsidiar, principalmente, atividades de pesquisa, leitura ou ações culturais,
considerando o propósito da unidade de informação (ACCART, 2012).
Caracterizado como atividade-fim da biblioteca, e também aclamado
como a própria essência da ação do bibliotecário que atua na organização dos
acervos (FIGUEIREDO, 1992), o SR define-se, em sua essência, como o
provimento

de

respostas

a

perguntas

realizadas

pela

comunidade.

As

transações que ocorrem podem envolver desde questões simples, de cunho
direcional, a indagações mais complexas, como o uso de um recurso de busca,
por exemplo (BARRETT, 2010).
Ao

bibliotecário,

após

disponibilizar

a

informação

em

artefatos

tecnológicos variados e sistematizar esses recursos em um sistema de
informação, iniciam-se as atividades de atendimento às demandas de
informação solicitadas pelos usuários, antecipando a oferta de informações ou
fornecendo informações para demandas especializadas. Assim, o SR é definido
como uma das funções mediadoras da biblioteca, cujo profissional atua como
agente de informação, “[...] servindo de intermediário entre os recursos
informacionais existentes e o usuário que necessita de informação de qualquer
tipo e nível [...]” (FIGUEIREDO, 1992, p. 1).
Na visão de Lima (2018), o SR constitui, grosso modo, o atendimento
pessoal prestado pelo bibliotecário ao público que frequenta a unidade. Esse
processo,

segundo

Ranganathan

(1961),

está

pautado

na

assistência

personalizada oferecida aos consulentes de uma biblioteca, ou seja, o contato
firmado entre profissional e utilizadores.
Observou-se que o SR nasceu com uma concepção restrita, no final do
século XIX, voltado à assistência personalizada, prestada com cordialidade, aos
leitores de bibliotecas norte-americanas (GREEN, 1876). No início do século

�354

XX, com o crescimento das universidades, o SR se fortalece com o processo de
pesquisa, a partir de ações de intervenção que colocavam em sintonia usuários
e profissionais, mediante um intenso diálogo (GROGAN, 1995).
A importância do processo de pesquisa para fins de auxiliar os
pesquisadores em bibliotecas europeias e nos Estados Unidos, ao longo do
século XX, promove uma concepção pedagógica e instrutiva ao SR, haja vista
facilitar o uso dos recursos informacionais, com destaque a atividades de
educação do usuário (FIGUEIREDO, 1992; SHERA, 1966). Caminhando para as
últimas décadas do século XX45, o SR passa a ser auxiliado, também, pelos
recursos

da

internet

(ACCART,

2012;

OTLET,

1989),

adquirindo

uma

concepção, também, de promoção ao uso, com ênfase as ações de divulgação
e interação da biblioteca com diferentes públicos e contextos (BOSQUE et al.,
2017; PELLEGRINO, 2012).
Nesse percurso evolutivo, o SR também envolve a construção de canais
de comunicação que potencializam o uso da biblioteca, sobretudo com a
utilização dos recursos digitais, o que fez surgir o Serviço de Referência Digital
(SRD), empregando tecnologias da web 2.0. Nesse contexto, o SR é
caracterizado no âmbito da promoção dos serviços de informação em toda a
biblioteca, em que convergem usuários, profissionais, recursos de informação e
tecnologias (PELLEGRINO, 2012).
A

partir

desses

apontamentos,

percebe-se

que

o

SR

possui

características diversas, não se limitando, apenas, a um conceito engessado,
conforme apontado por Alves e Vidotti (2006). Os autores alertam que o
atendimento prestado à comunidade que fornece informação para fins de
satisfazer uma necessidade corresponde a uma das múltiplas características e
possibilidades do SR. Outro aspecto foi mencionado na obra de Shera (1966),
que afirma que o SR tende a abranger todo o espectro da biblioteca, com
auxílio prestado para fornecimento de informações tanto de natureza geral
quanto específica.

45

As mudanças e adaptações com que os serviços oferecidos nas bibliotecas têm passado
estimulam o desenvolvimento de uma linha do tempo, desde os serviços tradicionais aos
digitais. Esse percurso evolutivo constitui um dos produtos que se pretende alcançar com a
finalização da pesquisa de Doutorado, a ocorrer nos próximos dois anos.

�355

É possível que a característica ampla atribuída ao SR seja consequência
da evolução que sofreu, ao longo dos tempos, sobretudo com o impacto
promovido

com

o

desenvolvimento

tecnológico.

Observa-se

que

essas

transformações foram impactantes, a ponto de determinar dois significados ao
SR, conferindo-lhe um sentido amplo (convergência de toda biblioteca para uso
dos recursos informacionais) quanto restrito (orientação para sanar uma
necessidade específica) (LIMA, 2018; MACEDO, 1990; SHERA, 1966).
No Brasil, o SR se consolidou nas últimas décadas do século XX,
intensificando-se na década de 1990, em ações paralelas aos processos de
automatização das bibliotecas, embora o serviço tenha sido implementado sem
planejamento

e

gestão

adequados

(FIGUEIREDO,

1992).

Assim

como

apresentado por Figueiredo (1992), Macedo (1990) também discute sobre o
fortalecimento do SR nessa década, considerando que ele se manifesta nos
seguintes campos de atuação: assistência ao usuário (serviço propriamente
dito), educação de usuário, disseminação seletiva e serviços de alerta,
comunicação e divulgação de serviços e gestão do SR.
É certo que a ampliação do SRD origina-se com o uso da internet,
embora isso não represente o fim dos serviços tradicionais, mas condiciona
uma mudança significativa na forma de organizar, comunicar e utilizar a
informação. Portanto, nas primeiras décadas do século XXI, é provável que o
serviço se torne cada vez mais digital, de modo a fortalecer e facilitar a
interação e promover maior divulgação do potencial da biblioteca e seus
recursos. Isso requer a adoção de técnicas administrativas, haja vista garantir
a institucionalização de um SRD capaz de modificar-se instantaneamente,
conforme as tendências tecnológicas que forem surgindo (ACCART, 2012).
Analisando a trajetória do SR do século XIX ao XXI e com base nos
apontamentos da literatura nacional e internacional, é possível identificar cinco
estágios evolutivos: assistência a leitores (GREEN, 1876), processo de
referência (GROGAN, 1995), educação informacional (SHERA, 1966), SRD
(ACCART, 2012) e promoção/gestão de serviços de informação (ACCART,
2012; FIGUEIREDO, 1992). A figura 3 ilustra uma linha do tempo para o SR
em bibliotecas.

�356
Figura 3 – Trajetória evolutiva dos serviços de informação nas bibliotecas

Fonte: Elaborada pelos proponentes (2020).

Conforme explicitado na figura 3, percebe-se que, embora sejam
identificados cinco estágios ao longo da trajetória, eles não são excludentes,
mas integrados uns aos outros, de modo a consolidar, sobretudo no contexto
contemporâneo, uma realidade híbrida, por meio da fusão entre serviços de
informação com tecnologias tradicionais e digitais. A mesma integração é
percebida nas principais atividades realizadas em cada estágio e o contexto em
que se manifestavam, possibilitando a formação de um SR e de uma biblioteca
cada vez mais sofisticados, conforme proclamado em meados do século XX,
por Shera (1966).
Assim, a linha do tempo apresentada aqui evidencia que as atividades
realizadas em cada estágio, como também as tecnologias utilizadas, vão sendo
aperfeiçoadas, mas também convivem, promovendo o nascimento dos espaços
e atividades híbridas. O estudo de Santa Anna, Siqueira e Gerlin (2015)
demonstrou essa realidade, sobretudo quando constatou a diversificação de
recursos e serviços oferecidos nas bibliotecas universitárias, o que promove ao
usuário utilizar/escolher o que for mais adequado às suas preferências e perfis.
A análise da figura 3 também permite evidenciar algumas principais
características e tendências para cada estágio evolutivo do SR:

�357

1 – Assistência: surgimento do SR, por meio de um projeto para acolhimento
a leitores em bibliotecas norte-americanas. Os profissionais eram treinados
para acolher os leitores com cordialidade e prestatividade, incentivando a
prática de leitura, em espaço adequado e indicando materiais de acordo com o
perfil e necessidade dos usuários (GREEN, 1876);
2 – Processo de referência: surge o tradicional balcão de atendimento para
acolher

as

necessidades

dos

pesquisadores. Mediante

um

atendimento

específico, a intenção era firmar um processo dialógico, conduzido pelas fases
que envolvessem desde a formulação da questão pelo usuário, perpassando
pelas estratégias de busca e etapa de negociação, para fins de localização do
item informacional solicitado (GROGAN, 1995);
3 – Educação informacional: é resultado do sucesso alcançado com as
ações de busca e de recuperação junto aos acervos impressos e no balcão de
atendimento. O aumento do número de usuários despertou a adoção de
práticas instrutivas que tornassem o usuário capaz de realizar de modo
autônomo suas próprias buscas. Nesse estágio, eleva-se o papel pedagógico
da biblioteca, do bibliotecário e do SR (FIGUEIREDO, 1992; SHERA, 1966);
4 – Referência Digital: aparecimento dos primeiros recursos eletrônicos,
com a presença de bases de dados em CD-ROM, além de canais eletrônicos de
comunicação, como o telefone e o e-mail. Com o surgimento das coleções
digitais e utilização da internet, ampliam-se as formas de mediação por meio
de tecnologias interativas e multiplicam-se os meios de contato entre
biblioteca e usuário, podendo esse agente estar no recinto da biblioteca ou fora
dele (ACCART, 2012; GROGAN, 1995);
5 – Promoção/Gestão: o uso da web 2.0 acarretou o surgimento de
tecnologias que facilitam a interação, desencadeando a promoção e divulgação
de todos os serviços das bibliotecas, além dos muros das unidades/instituições.
Nesse estágio, o contato se estabelece mediante comunicação síncrona e
assíncrona46, de modo presencial ou digital, com destaque ao uso de

46

A comunicação assíncrona não exige a presença de ambos os envolvidos em tempo real,
conectados a uma rede. Já a comunicação síncrona necessita que dois ou mais envolvidos
estejam conectados ao mesmo tempo no ambiente virtual (SANTOS; BARBOSA, 2013).

�358

dispositivos móveis e redes sociais. Assim, a biblioteca é inserida no universo
da web social, com atividades inovadoras, condizentes com as novas
tendências, o que exigirá o planejamento e a gestão dos serviços de
informação (ACCART, 2012; BOSQUE et al., 2017).
Ao considerar as características presentes nos estágios, torna-se possível
identificar a presença da mediação em cada um deles, predominantemente a
mediação explícita/direta. A assistência prestada a leitores é uma prática muito
comum nas bibliotecas, desde tempos antigos, e tal prática permanece ao
longo do tempo, com propósitos distintos, seja para fins de pesquisa,
recreação, conhecimento, dentre outras possibilidades. No âmbito da prática
de leitura, a mediação possibilita a formação do leitor crítico e reflexivo, a
orientação

à

pesquisa,

haja

vista

despertar

nos

usuários

“[...]

o

desenvolvimento de habilidades para busca e uso da informação, seja para
resolução de problemas ou tomadas de decisões, sejam para a produção de
conhecimento de maneira individual ou coletiva” (VALDEZ; CALIL JUNIOR,
2017, p. 4).
O processo de referência evoluiu-se ao longo do século XX, como
resultado

da

evolução

científica

que

estimulou

o

desenvolvimento

de

pesquisas. A realização de investigação e a necessidade de acessos aos
recursos de informação contribuem para tornar a biblioteca o local mais
adequado para a busca de informação para a construção da fundamentação
teórica dos estudos em andamento. Segundo Grogan (1995), o processo de
referência é o caminho percorrido parao encontro da informação desejada,
caminho manifestado mediante o diálogo detalhado entre bibliotecário e
usuário. Na visão de Lima (2018), esse processo é socialmente construído,
sendo necessária a interação entre quem busca por informação e quem auxilia
a busca. A visão de ambos os autores evidencia a ação de interferência do
bibliotecário, com o fim de facilitar, em uma atitude interativa, entre
profissional e usuário, o acesso à informação, o que possibilita manifestar,
nesse processo, a mediação explícita e direta.
A educação informacional, terceiro estágio do processo evolutivo do SR,
tem proporcionado um novo olhar a esse serviço, cujo bibliotecário passa a ter

�359

um perfil de instrutor/educador quanto ao uso das fontes de informação
(SHERA, 1966). A educação informacional corresponde ao conjunto de
atividades pedagógicas fornecidas para capacitação do usuário, com o fim de
torná-lo autônomo na realização das buscas e no uso, de modo exaustivo, dos
recursos e ferramentas disponibilizados (SLEBODNIK; RIEHLE, 2011). A
mediação também se faz presente nesse processo, visto que, por contemplar
um ato educativo, há interação entre profissional (ensinante) e usuário
(aprendiz). Assim, além de consagrar-se como orientador, localizador e
identificador, o bibliotecário, ao realizar educação informacional, assume a
missão, também, de conselheiro e orientador (KHULTHAU, 1994).
Observa-se que o SRD também viabiliza práticas de mediação. Isso
porque, ao contrário de muitas especulações relacionadas ao fim do SR com o
uso da internet, a realidade empírica tem demonstrado o quanto a intervenção
humana é necessária, mesmo quando o usuário utiliza a biblioteca no
ambiente digital (SANTA ANNA; SIQUEIRA; GERLIN, 2015). De acordo com
Garcia e Sousa (2017, p. 35), a mediação é beneficiada com as tecnologias
digitais, pois oportuniza diferentes formas de realizar a interação com o
usuário, “[...] englobando outras plataformas e tempos, além do espaço físico
e do contato direto e em tempo real com o usuário”.
Quanto ao estágio atual do SR, em que predomina a promoção e gestão
dos serviços de informação, esse estágio apresenta-se como altamente
diversificado, mesclando tecnologias tradicionais e digitais, com predominância
de adesão a essas últimas (ACCART, 2012). Essa tendência evidencia que as
práticas de mediação também se pluralizam, realizadas de modo direto ou
indireto, consciente ou inconsciente, explícito ou implícito, sobretudo quando
se pensa na criação de mecanismos para aumentar o uso das fontes de
informação, em especial aquelas inseridas no ambiente digital (NOVELLI;
HOFFMANN; GRACIOSO, 2014). Observou-se a importância de considerar a
gestão do SR, as possíveis ações de mediação e o potencial das tecnologias
(ACCART, 2012), sobretudo no que tange aos recursos que aumentam a
visibilidade e possibilitam a divulgação dos serviços de informação oferecidos,
por meio do marketing informacional (PELLEGRINO, 2012). Dessa forma, é

�360

possível aproximar, cada vez mais, a biblioteca de seus públicos, fortalecendo
seu

papel

na

sociedade

atual,

conforme

as

tendências

emergentes

(CHAPUTULA; MUTULA, 2018).
Com efeito, a mediação é um processo, sustentado por atividades
variadas, relativas ao ato de interferência e apropriação, estando essas
atividades presentes no SR oferecido em bibliotecas. Revisão sistemática de
literatura realizada por Santa Anna, Dias e Maculan (2019) identificou que os
trabalhos publicados sobre SR contemplam aspectos relativos tanto ao ato da
interferência, à apropriação, ou a ambos. Portanto,
por meio da mediação, é possível aproximar profissionais de
usuários, e, dessa forma, garantir o uso dos acervos, por
conseguinte, condicionar a adequação da biblioteca, conforme
necessidades demandadas. Assim, infere-se que a mediação é, ao
mesmo tempo, ação e reação, cujos elementos principais desse
processo são os profissionais, usuários e a informação, sendo as
tecnologias instrumentos que promovem a interação entre eles (SANTA
ANNA; DIAS; MACULAN, 2019, p. 1, grifo nosso).

Os resultados alcançados com a revisão de literatura supracitada
reforçam a importância que a mediação exerce, tanto para os usuários, ao
garantir o uso (apropriação), como também para a própria biblioteca e os
profissionais que a gerenciam, ao condicionar as possibilidades de mudanças e
adequações às tendências atuais. Desse modo, o fazer profissional é,
constantemente,

ressignificado,

em

uma

abordagem

social,

conforme

defendido por Lima (2018).
Nota-se a existência de uma reciprocidade entre o SR oferecido na
biblioteca e os usuários. É por meio da mediação, sobretudo no modo explícito,
por meio da interação, que essa ação de auxílio mútuo se intensifica. Isso pode
ser percebido tanto nas ações de interferência quanto nas ações de
apropriação, quando se tem o retorno do usuário acerca da satisfação ou não
de sua necessidade informacional. A pesquisa de Corda (2012) aproxima dessa
reflexão, mencionando que “[...] é responsabilidade do bibliotecário de
referência acrescentar valor ao processo de transferência de informação [...]”.
Esse valor deve perpassar “[...] os processos de busca, categorização,
hierarquização, filtragem, tradução e comunicação das respostas oferecidas ao

�361

usuário, a fim de satisfazer sua demanda de informação” (CORDA, 2012, p.
94-95).
No entendimento de Almeida Júnior e Santos Neto (2014), no âmbito do
SR, a mediação aparece de maneira explícita, com destaque maior a interação
entre o bibliotecário e o usuário. Esse contato, segundo os autores, é essencial
por garantir melhorias e inovações às atividades de comunicação da unidade
com os públicos, pensando em adaptações contínuas.
A mediação se concretiza mediante a oferta de um serviço (SILVA;
FARIAS, 2018). Assim, os autores consideram que
[...] as relações entre mediação e serviços de informação se dão de
forma fluida no contexto paradigmático, o qual opera como uma espécie
de diretriz da prática informacional, e no contexto temático-aplicativo,
que age como um conjunto de práticas de intervenção e interferências
no desiderato informacional (SILVA; FARIAS, 2018, p. 114).

A mediação é uma atividade ampla que se intensifica no SR, e, por
conseguinte, possibilita o reconhecimento do valor que a informação promove
aos usuários. Esse reconhecimento despertará o atendimento ou não àquilo
que foi planejado pelos profissionais, no decorrer de todas as atividades
bibliotecárias realizadas na unidade. Com efeito, entende-se que a mediação
pode se manifestar como “[...] um programa de ação, intervenção e
interferência, e os serviços de informação se constituem como uma das
principais atividades técnica, pedagógica, institucional e pragmática da
mediação [...]” (SILVA; FARIAS, 2018, p. 115). Ademais, considerar essa
relação é importante, principalmente quando se atesta a necessidade de
melhorias e de gestão dos serviços de informação. Logo, a mediação “[...]
auxilia no planejamento, programação e ampliação da envergadura aplicativa
dos serviços de informação, enquanto os serviços de informação atestam o
caráter aplicativo da mediação” (SILVA; FARIAS, 2018, p. 115).
A relação entre SR e mediação é complementar e ambos são necessários
para garantir melhorias ao uso e à promoção dos serviços de informação,
sobretudo com a adesão aos recursos digitais. Desse modo, os serviços de
informação se constituem como “[...] um dos principais mecanismos para
mediação da informação em um centro de informação, de sorte que se

�362

configura como uma proposta materializada e concreta que aproximam o
centro de informação e o usuário” (SILVA; SILVA, 2012, p. 21).
A aproximação e a adequação dos serviços da biblioteca às necessidades
dos usuários dependerão de uma série de fatores, tais como o modelo de
gestão adotado, o contexto social e institucional em que a unidade se
relaciona, dentre outras tendências emergentes da atual sociedade (SANTA
ANNA; DIAS; MACULAN, 2019). Em todos os casos, a característica pedagógica
do SR, também percebida nas práticas de mediação, permanece como
condição apropriada para viabilizar aprendizagens colaborativas e intensificar o
uso dos recursos informacionais (FARIAS; SILVA, 2019; SILVA; SILVA, 2012).
Em suma, mesmo que a literatura aponte a existência de diversas
relações entre mediação e SR, há de se considerar os resultados alcançados
com o estudo bibliométrico realizado por Farias e Farias (2017), sobretudo
quando reconhecem a mediação não como um fazer técnico e operacional, mas
como um aporte conceitual e pragmático ligado a objetos diversos da área
informacional. Assim, em todos os casos, segundo as autoras, os estudos que
versam sobre essas relações direcionam olhares aos aspectos cognitivos, tanto
de bibliotecários e usuários, para promoção e inovação dos serviços de
informação. Valorizar esses aspectos é necessário, haja vista o fortalecimento
da biblioteca, como também o desenvolvimento de habilidades humanas
capazes de tornar o trabalho teórico e prático condizentes com o contexto
atual.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo discorreu as relações existentes entre mediação e SR,
identificando as características, os elementos constitutivos e o que é esperado
dos serviços de informação para as bibliotecas do futuro. Constatou-se que o
SR contempla práticas de mediação explícita, a partir da interação estabelecida
entre usuários e bibliotecário para alcance das necessidades informacionais.
Portanto, a interação é a característica principal, inerente a esses dois

�363

conceitos, cujos elementos constitutivos desse processo envolvem usuários,
profissionais, informação e tecnologias.
Com o desenvolvimento tecnológico e as adaptações promovidas nas
bibliotecas, é possível que usuários estejam cada vez mais próximos da
informação e novos modos de interação sejam instituídos, o que possibilita a
expansão dos serviços de informação. Isso exigirá pró-atividade e visão
estratégica do bibliotecário, consciente de sua missão na garantia de um uso
mais efetivo da informação.
Percebe-se o quanto as duas temáticas demandam por estudos mais
aprofundados, desmembrando olhares diversos, acerca de garantir a oferta de
serviços de informação

mais

adequados aos

usuários e

possibilitar

a

permanência, a valorização e um uso efetivo da biblioteca na sociedade
contemporânea. Assim, a abordagem intelectual deste artigo, como também, a
falta do estabelecimento de critérios para seleção da literatura investigada são
as duas principais limitações do estudo, o que evoca a necessidade de
realização de estudos futuros, por exemplo:


Estudo empírico, sustentado por entrevistas a bibliotecários, haja vista
identificar o posicionamento destes profissionais para implementar
melhorias no SR;



Pesquisa documental, conduzida por levantamento dos regimentos das
bibliotecas, a fim de identificar práticas de mediação mencionadas
nesses documentos e as relações dessas práticas com o que é oferecido
pelas bibliotecas analisadas;



Estudo focal com bibliotecários, a fim de mapear o conhecimento desses
sujeitos acerca das possíveis relações entre mediação e SR;



Investigação dos currículos dos cursos das Escolas de Biblioteconomia,
ou questionário aplicado a estudantes finalistas desse curso, com a
finalidade de reconhecer os conceitos ensinados na formação profissional
sobre mediação e SR;



Diagnóstico e levantamento de uma ou várias realidades empíricas, em
especial, dos Sistemas de Bibliotecas Universitárias, haja vista propor
plano de ação para melhorias do SR e das práticas de mediação;

�364


Revisão Sistemática de literatura, em bases de dados, a partir do
estabelecimento de critérios que garantam seleção mais rigorosa das
fontes de consulta.
Por fim, este estudo contribui com a área de Biblioteconomia/Ciência da

Informação, pois tende a tornar mais robustas as pesquisas empíricas
realizadas no contexto das bibliotecas e até mesmo de outras unidades de
informação, como arquivos e museus. As relações apontadas servem como
sugestões de melhorias aos serviços de informação oferecidos, como também
possibilitam identificar problemas, propor soluções e pensar em inovações.

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de mediação da leitura e da informação em bibliotecas escolares: um olhar
sobre as bibliotecas dos colégios de aplicação das IFES. Revista Práticas em
Gestão Pública Universitária, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, maio 2017.
Agradecimentos: Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo financiamento desta pesquisa.

DADOS BIOGRÁFICOS
Jorge Santa Anna: Graduado em Biblioteconomia.
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Gestão e
Organização do Conhecimento. Atuante no ramo da
prestação de serviços de orientação, escrita, normalização
e lecionamento em trabalhos e pesquisas acadêmicocientíficos. Atua como editor e assessor do Periódico PróDiscente, como também compõe a diretoria da Associação
de Bibliotecários de Minas Gerais, ocupando o cargo de
secretário.
E-mail: professorjorgeufes@gmail.com

Célia
da
Consolação
Dias:
Graduada
em
Biblioteconomia. Mestrado e Doutorado em Ciência da
Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG). Professora do Curso de Biblioteconomia e do
Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do
Conhecimento, na Escola de Ciência da Informação da
UFMG.
E-mail: celiadias@eci.ufmg.br

Benildes Coura Moreira dos Santos Maculan: Graduada
em Biblioteconomia. Mestrado e Doutorado em Ciência da
Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG). Professora do Curso de Biblioteconomia e do
Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do
Conhecimento, na Escola de Ciência da Informação da
UFMG.
E-mail: benildesmaculan@ufmg.br

�369

CAPÍTULO XIX - Bibliotecas universitárias e a educação a
distância: uma intermediação necessária no acesso e uso da
informação
Maria Elizabeth de Oliveira Costa
Beatriz Valadares Cendón

1 INTRODUÇÃO
O presente estudo aborda a temática da Educação a Distância (EaD) e a
contribuição das bibliotecas universitárias, pontuando também as práticas de
mediação que permeiam o fazer dos bibliotecários na sociedade do século XXI
no apoio à democratização do ensino. Considerando que a EaD permite acesso
mais amplo à educação, o estudo pretende contribuir para fortalecer uma
educação mais igualitária e democrática ao questionar o que as instituições de
ensino, por meio das suas bibliotecas e dos bibliotecários nelas atuantes,
podem fazer para fortalecer o processo educativo na modalidade a distância;
proporcionando o acesso aos recursos informacionais para esses alunos da
EaD.
Este artigo consiste de um recorte de pesquisa de Doutorado, conduzida
por levantamento bibliográfico, documental e entrevista a diretores de
Sistemas de Bibliotecas e os diretores do Centro de Educação a Distância e/ou
Diretores da Universidade Aberta do Brasil, com vistas a verificar o que vem
sendo desenvolvido pelas Bibliotecas Universitárias no País em termos de
atendimento aos alunos que estudam nessa modalidade. E assim tem como
um dos objetivos analisar os Sistemas de Bibliotecas das Universidades que
têm atuado no oferecimento de serviços, recursos informacionais a esses
usuários que se encontram fora do campus universitário da instituição. E
levantar indícios para a possibilidade de formalização de um plano de gestão
que possa fornecer subsídios para as bibliotecas que atuam ou precisam atuar
no apoio ao ensino a distância, mediando a informação e permitindo que o

�370

aluno dessa modalidade tenha acesso aos recursos informacionais para a sua
vida acadêmica.
O

corrente

trabalho

contemplou

apenas

uma

fase

do

percurso

metodológico da pesquisa mencionada, com levantamento de opiniões de
bibliotecários gestores sobre o papel da EaD e as contribuições exercidas pelas
bibliotecas universitárias, mediante a prestação de serviços para o apoio aos
alunos das instituições de ensino superior. Além disso, são apresentados
alguns tipos de mediação, conforme relatado na literatura, e a identificação
desses tipos nos serviços oferecidos pelas bibliotecas universitárias para o
aluno da EaD.
O tema abordado é relevante por beneficiar diversos atores envolvidos
com a prática educativa, tanto professores, quanto gestores de EaD, gestores
bibliotecários e, principalmente, usuários da modalidade a distância. O texto
tem a pretensão de despertar a consciência acerca da importância dos estudos
voltados à EaD, além de evocar o potencial dos bibliotecários para intervir mais
na educação a distância, de modo a apoiá-la para melhor qualidade do ensino
e apoio a esse usuário. A EaD tem o poder de transformação na vida das
pessoas, e as bibliotecas precisam estar no processo, intermediando a
informação, para que todos tenham acesso e façam uso das fontes e recursos
informacionais disponibilizados para a comunidade acadêmica.

2

EDUCAÇÃO

A

DISTÂNCIA,

MEDIAÇÃO

E

BIBLIOTECAS

UNIVERSITÁRIAS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
O fazer educacional tem o professor como um agente que interage com
os alunos, com vistas a estimular o senso crítico, de modo que eles possam
participar ativamente da vida em sociedade. Assim, “[...] cabe ao professor
colocar-se como ponte entre aluno e conhecimento e cabe ao aluno participar
ativamente desse processo [...]” (BULGRAEN, 2010, p. 30). No entanto, como
se

trata

de

um

processo,

a

educação

somente

ocorre

mediante

a

intermediação de determinados elementos que contribuem para a transmissão

�371

de conhecimento. Dentre esses elementos, além do professor, estão outros
profissionais que facilitam o aprendizado, como os coordenadores de disciplina,
os bibliotecários, dentre outros.
O ensino a distância é uma modalidade de educação que utiliza
tecnologias da informação e comunicação para possibilitar a transferência de
informação e o aprendizado, de modo não presencial. É graças a esse tipo de
educação

que

alunos

e

professores

permanecem

em

sintonia,

sem

necessariamente, estarem ligados a um mesmo espaço físico, a sala de aula
presencial (VIEIRA, 2011).
Abbad, Zerbini e Souza (2010) acreditam que é papel principal da EaD
garantir a democratização do conhecimento na sociedade, além da construção
de novos mecanismos de aprendizado, com valorização da aprendizagem
colaborativa estimulada pelas mídias digitais. Assim, “[...] o estudo assíncrono
e veiculado por múltiplas mídias possibilita o acesso de profissionais à
aprendizagem a qualquer hora e em qualquer lugar [...]”. Essa característica
da EaD “[...] a torna um importante meio de democratização e ampliação do
acesso de minorias à aprendizagem e à qualificação profissional” (ABBAD;
ZERBINI; SOUZA, 2010, p. 297).

Segundo esses autores, a EaD é um

importante meio educacional que democratiza e amplia o acesso das minorias
ao aprendizado e à qualificação dos profissionais.
Embora o ensino a distância tenha tido a sua gênese no final do século
XIX, com o uso de cursos por correspondência, é com as tecnologias digitais
que a EaD se expandiu, viabilizando “[...] a disseminação e a democratização
do acesso à educação em diferentes níveis, permitindo atender à grande
massa de alunos” (HERMIDA; BONFIM, 2006, p. 34).
Com a expansão dessa modalidade educacional, novos atores passam a
fazer parte desse processo, tais como bibliotecários que atuam nas instituições
de ensino. Como observam Costa, Santa Anna e Cendón (2018, p. 1), a
EaDrequer o uso de materiais para subsidiar as atividades educativas, o que
implica que “[...] as bibliotecas universitárias devem garantir a expansão dos
serviços bibliotecários para além dos muros das instituições, contribuindo com
o ensino de qualidade a diversas partes da nação [...]”.

�372

Segundo Nogueira e Bernardino (2018), as bibliotecas universitárias não
podem se omitir no que se refere ao auxílio para a EaD. Isso porque elas têm
potencial para isso, com recursos, tecnologias e profissionais habilitados à
disseminação

do

acesso

à

informação.

Nas

bibliotecas

universitárias,

normalmente, se fazem presentes recursos humanos e materiais capazes de
garantir

“[...]

a

difusão

do

conhecimento

científico,

promovendo

a

interconexão entre pesquisadores, docentes e discentes através de redes de
conhecimento, e otimizando o processo de apropriação da informação por
parte do usuário” (NUNES; CARVALHO, 2017, p.91).
A biblioteca muito pode contribuir para o desempenho acadêmico de seus
alunos, sejam eles da modalidade presencial ou a distância, em especial
quando fornece o acesso às fontes de informação que serão utilizadas nas
disciplinas dos cursos. Costa, Santos e Barbosa (2015), ao reforçarem o papel
exercido pelas bibliotecas nos polos, afirmam que é papel da biblioteca
universitária suprir as necessidades de ensino-aprendizagem dos alunos da
EaD, mediante a oferta de pesquisa laboratorial e pesquisa nos acervos, sendo
que o intuito dessa intervenção é atender as demandas do ensino e da
produção de conhecimento no ensino superior.
O termo mediação denota diferentes significados, e como tal, pode ser
aplicado a diferentes contextos. Neste texto, ele é entendido como toda ação
de interferência, conduzida por profissional da informação, que vise a
apropriação da informação, seja ela materializada em diferentes suportes e
utilizada para diferentes finalidades (ALMEIDA JÚNIOR, 2015).
Nessa perspectiva, concerne às bibliotecas universitárias conservarem-se
em constante processo de atualização e procurarem “[...] estar preparadas
para atuarem como mediadoras [...] assim como procurarem trabalhar as
insuficiências de seus usuários no âmbito da informação [...]”. Os bibliotecários
que atuam nesse contexto, assumem o papel de mediadores, ou seja, realizam
práticas de mediação como contributo ao processo educativo (NOGUEIRA;
BERNARDINO, 2018, p. 45). Na visão de Sena e Chagas (2015), o bibliotecário
que atua nas universidades assume o papel de mediador entre o documento e
o seu leitor, e com a EaD, esse profissional precisa conhecer os recursos

�373

informacionais disponíveis para ser capaz de pesquisar conteúdos no uso da
informação. Entende-se que, na EaD, a mediação se intensifica com a oferta de
conteúdo exigido nas bibliografias básicas e complementares dos cursos, como
também com o acesso a esse conteúdo.
Especificamente, no contexto das bibliotecas universitárias, a mediação
está diretamente relacionada às diversas atividades que permeiam o fluxo
informacional, resultando na disseminação e no uso da informação por parte
do usuário. Nunes e Carvalho (2017) reforçam que a mediação envolve um
conjunto de intervenções, sejam elas direcionadas ao acesso e uso da
informação, sejam elas voltadas à cultura e ao lazer, além de envolver,
também, práticas de leitura que podem ser muito bem exploradas pelas
bibliotecas das universidades. Para Almeida Júnior e Santos Neto (2014), as
atividades dos bibliotecários direcionadas à mediação podem se manifestar no
processamento técnico de materiais, em que a necessidade do usuário precisa
ser colocada em primeiro lugar, ou pode se manifestar nos serviços de
referência, além de se manifestar, também, em outras atividades que
possibilitem a aproximação da biblioteca com o universo informacional.
As práticas de mediação precisam permear o trabalho do bibliotecário,
independentemente de serem realizadas no ambiente físico ou digital. Na visão
de Silva e Gallotti (2019), específica para os bibliotecários da EaD, estes
atuam em quatro vertentes de trabalho, que são: serviços virtuais e digitais;
mediação,

competência

e

capacitação

informacional;

formação

e

desenvolvimento de coleções; e interação e apoio didático. No que se refere à
vertente “mediação, competência e capacitação informacional”, alguns serviços
a serem prestados são: auxílio no uso de fontes de informação, mediação em
buscas personalizadas, capacitação da equipe didático-pedagógica para acesso
a bases de dados, preparação de auxiliares de bibliotecas para atuarem nos
polos e capacitação de professores conteudistas e professores virtuais (SILVA;
GALLOTTI, 2019).
Alguns autores buscam categorizar os diferentes tipos de mediação. Por
exemplo, Nunes e Carvalho (2017) nomeiam os seguintes tipos: mediação
documentária

(tratamento

de

acervos),

mediação

educacional

�374

(atendimento a alunos e professores) e mediação cultural (ações de
entretenimento e valorização da cultura). Segundo Nogueira e Bernardino
(2018), as atividades operacionais realizadas pelo bibliotecário no recinto da
biblioteca é o que se chama de mediação técnica, embora outras formas de
mediação constituam também o fazer do bibliotecário, como a mediação
pedagógica e a institucional. As práticas de mediação da informação no
contexto das bibliotecas universitárias são dinamizadas em sua forma técnica
por meio do desenvolvimento de coleções, “[...] processamento técnico, de
técnicas de preservação, restauração e conservação do acervo assim como na
alimentação correta das redes sociais, na sinalização do espaço físico da
biblioteca, dentre outros processos [...]” (NOGUEIRA; BERNARDINO, 2018, p.
55). A mediação pedagógica acontece em parceria com o serviço de
referência e disseminação de informação, e a mediação institucional
acontece com intermédio de outros setores da instituição, como as ações
culturais sustentadas pelos projetos de pesquisa e extensão, por exemplo. Já,
para Costa e Fofonca (2017), a mediação tecnológica é constituída pelo
conjunto de tecnologias da informação e comunicação capazes de ligar pessoas
em diferentes locais, tendo como espaço de encontro a internet. Quando se
trata

de

educação,

essas

tecnologias

fomentam

práticas

pedagógicas

educomunicativas, cujo conhecimento é socializado sem a necessidade de
interação física entre humanos.
No contexto da EaD, a mediação pode se manifestar de modo explícito,
ou seja, quando o aluno interage no processo, ou de modo implícito, quando
não há presença direta do usuário, como apontado no estudo de Almeida
Júnior e Santos Neto (2014). A biblioteca como equipamento cultural
(ALMEIDA JÚNIOR, 2015), pode realizar essas duas formas de intervenção
(implícita e explícita), e, em ambos os casos, ela se comporta como peça
estratégica para diminuir os problemas com o acesso igualitário à informação,
através do uso das novas tecnologias e da capacitação em informação
(SUAIDEN; FREITAS, 2017). Como exemplos de mediação explícita citam-se os
seguintes

serviços:

treinamentos,

disseminação

seletiva,

serviços

de

referência, entre outros; já como mediação implícita estão todos os serviços de

�375

organização e tratamento da informação, como catalogação, indexação, dentre
outros (ALMEIDA JÚNIOR; SANTOS NETO, 2014).
O Quadro 1 procura sintetizar os principais tipos de mediação apontados
na literatura, suas definições e os respectivos autores. O esclarecimento acerca
dessas tipologias é necessário, pois contribui para a identificação das mesmas
nas atividades e serviços realizados pelos bibliotecários nas universidades
investigadas

neste

artigo.

Observe-se

que

algumas

dessas

categorias,

definidas por diferentes autores, se sobrepõem. É o caso das categorias
mediação

institucional e

mediação cultural e das categorias mediação

documental e mediação técnica. Já no caso das categorias mediação
pedagógica

e

mediação

educacional,

entendeu-se

que

são

apenas

nomenclaturas diferentes para a mesma atividade.
Quadro 1 - Principais tipos de mediação apontados na literatura
Tipo de mediação
Definição
Pedagógica ou
Educacional

Explícita

Institucional

Cultural

Documentária

Implícita

Acontece mediante a interação do
bibliotecário com usuários no serviço
de referência e disseminação de
informação, visando o aprendizado
no
uso
dos
instrumentos
de
pesquisa.
Atendimento a alunos e professores,
com vistas a contribuir para as
atividades acadêmicas requeridas no
processo de ensino.
Manifesta-se com o intermédio de
outros setores da instituição, a
maioria das vezes, envolve projetos
culturais e ações juntos aos projetos
de extensão nas instituições.
Ações
de
entretenimento
e
valorização
da
cultura
que
estimulem ou explorem outras
potencialidades de bibliotecas e
equipamentos
de
cultura,
informação e educação.
Tratamento de acervos comumente
realizado em bibliotecas e demais
unidades de informação, visando a
recuperação. Constitui as atividades
que permeiam os serviços de
organização
e
tratamento
da
informação,
como
catalogação,
indexação, dentre outros.

Autoria
Nogueira
Bernardino
(2018)
Nunes
Carvalho
(2017)

e
e
e

Nogueira
Bernardino
(2018)

e

Nunes
Carvalho
(2017)

e

Almeida
Júnior
e
Santos Neto
(2014)
e
Nunes
e
Carvalho
(2017)

�376
Tipo de mediação

Definição

Técnica

Atividades operacionais realizadas
pelo bibliotecário no recinto da
biblioteca:
desenvolvimento
de
coleções, processamento técnico,
técnicas de preservação, restauração
e conservação do acervo assim como
alimentação
correta
das
redes
sociais, sinalização do espaço físico
da
biblioteca,
dentre
outros
processos.
Tecnológica
Constituída
pelo
conjunto
de
tecnologias
da
informação
e
comunicação
capazes
de
ligar
pessoas
em
diferentes
locais,
visando o aprendizado em atividades
educativas
para
formação
profissional.
Fomentam
práticas
pedagógicas educomunicativas, cujo
conhecimento é socializado sem a
necessidade de interação física entre
humanos.
Fonte: Elaborado pelas autoras (2020).

Autoria
Nogueira
Bernardino
(2018)

e

Costa
Fofonca
(2017)

e

A mediação é um fazer que acompanha todo o trabalho do bibliotecário,
como enfatizado pelos autores descritos no Quadro 1. Nas bibliotecas
universitárias, as práticas de mediação possibilitam que o bibliotecário atue
não apenas como mediador da informação, mas como mediador e também
facilitador da ação educativa, através de tecnologias que trouxeram facilidades
e desafios nesse processo, o que exigirá o envolvimento de toda a
universidade (NOGUEIRA; BERNARDINO, 2018).
Pellegrino (2012, p. 31) entende que é através da atuação do
bibliotecário como mediador da informação, por meio de personalização de
serviços, de buscas adaptadas às necessidades dos usuários, de seleção de
links e disponibilização de conteúdos específicos, por meio de treinamentos e
tutoriais, que se consegue o diferencial requerido pela EaD. Ou seja, para a
mediação efetiva é preciso inovar, oferecer outros modos de contato e de
interação entre usuários e bibliotecários. Assim, entende-se que, para o aluno
da EaD, a mediação é algo importante, que precisa se manifestar por meio dos
serviços de informação oferecidos pelas bibliotecas.
Por meio da mediação, a biblioteca buscará outros meios de interação,
em que os profissionais terão como aliadas a tecnologia e as ferramentas
disponibilizadas no mercado que possibilitarão o auxílio, sobretudo nos

�377

procedimentos de pesquisa, de modo a auxiliar alunos, professores e
bibliotecários no acesso à informação para apoio aos trabalhos acadêmicos
(NOGUEIRA; BERNARDINO, 2018). Santos Neto e Almeida Júnior (2017)
acreditam que as práticas de mediação têm se ampliado com o uso da
internet, em que a biblioteca redefine os produtos e serviços oferecidos, sendo
necessário, a princípio, criar um site institucional e disponibilizar os serviços
nessa plataforma, além de utilizar redes sociais com o fim de divulgar o que
pode ser oferecido aos alunos. A biblioteca universitária tem um papel
fundamental no acesso à informação e apoio à aprendizagem, e com as
tecnologias esse compromisso se concretiza com mais facilidade, desde que
haja esforços empreendidos pelos agentes envolvidos com a educação nas
instituições de ensino superior (SILVA; GALLOTTI, 2019).

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O trabalho aborda uma visão pragmática enfatizando o problema de
pesquisa e utilizando-se de abordagens pluralistas para obter conhecimento
sobre o problema sem se comprometer com um sistema particular de filosofia
(positivista ou construtivista), e escolhendo métodos, técnicas e procedimentos
de pesquisa que melhor atendem às suas necessidades e propósitos.
O estudo quanto a sua natureza está sob o enfoque da pesquisa
aplicada. Segundo Gil (1991), a pesquisa aplicada apresenta um propósito
dedicado à geração de conhecimento para solução de problemas específicos,
dirigido à busca da verdade para determinada aplicação prática.
Quanto aos objetivos pretendidos, a pesquisa classifica-se como do tipo
exploratória e descritiva. A pesquisa é de cunho exploratório no que tange à
compreensão do problema da pesquisa no contexto em que ele ocorre, sendo o
assunto tratado com profundidade (GIL, 2008). Ainda de acordo com Gil
(1991),

pesquisas

exploratórias

objetivam

facilitar

familiaridade

do

pesquisador com o problema objeto da pesquisa, para permitir a construção de
hipóteses ou tornar a questão mais clara.

�378

As entrevistas foram realizadas no período de 19 de novembro a 10 de
março de 2020 com os diretores dos Sistemas de Bibliotecas de seis
instituições federais de ensino superior brasileiras (Universidade Federal do
Amazonas, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal de
Ouro Preto, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de
Brasília e Universidade Federal Rural de Pernambuco). Tiveram o propósito de
levantar opiniões dos bibliotecários gestores sobre o papel da EaD e as
contribuições dos bibliotecários, identificar os serviços prestados e recursos
oferecidos para o alunado da EaD além deidentificar, nos serviços oferecidos,
práticas de mediação que são realizadas ou que podem ser realizadas pelos
bibliotecários no contexto da EaD. Para tanto, o roteiro de entrevista foi
composto por cinco questões.
Portanto na seção seguinte, através da descrição dos dados levantados,
apresentam-se esses propósitos, buscando também discutir as ações de
mediação da biblioteca. O texto confronta os comentários dos entrevistados
com a literatura e estudos publicados sobre o assunto mostrando pontos de
convergência ou complementaridade. Amplia, ainda, a discussão valendo-se da
literatura e sugerindo caminhos com relação ao tema tratado

3.1 A PERCEPÇÃO DOS BIBLIOTECÁRIOS GESTORES
As percepções dos bibliotecários gestores foram enquadradas nas
seguintes

categorias: contribuições da EaD para a

democratização da

educação, contribuições das bibliotecas universitárias para a EaD, papel da
tecnologia para a EaD e para a mediação, papel da biblioteca no apoio ao
ensino-aprendizagem e para o estímulo à interação e sociabilidade.
No que se refere ao papel da EaD no ensino superior brasileiro, as
respostas dos entrevistados assemelham-se no que tange à democratização do
ensino, à capacidade em levar a educação para lugares mais distantes e à
oportunidade de conceder o estudo a todas as pessoas, inclusive àquelas que

�379

não possuem tempo para estudar, por causa do trabalho. O Quadro 2 expõe os
comentários que evidenciam essas características do ensino a distância.
Quadro 2 – A contribuição da EaD na visão dos diretores de Sistemas
Na sua opinião, qual o papel da educação a distância no ensino superior
brasileiro?
Instituição
Comentários
UFAM
“Eu entendo que a EaD contribui para a ampliação do ensino. Pode
contribuir muito mais, principalmente, com pessoas que não tem
tempo disponível para se dedicar ao ensino presencial.
Consequentemente, a EaD contribui para o barateamento da
educação. Em especial as instituições privadas não precisam investir
tanto em infraestrutura, para poder receber um número maior de
estudantes [...]”
UFMG
“Ampliar a oportunidade de formação da sociedade [...]; dar acesso
mesmo à educação”
UFOP
“Levar o conhecimento às pessoas que não têm tempo de estar ali,
presencialmente [...]. Levar o conhecimento a pessoas que não têm
condições de se deslocar para outros lugares, onde há uma
instituição, uma faculdade. Então, para mim, o papel da EaD é
estratégico, no sentido de possibilitar a formação de profissionais,
em especial de pessoas que trabalham o dia todo, que não têm
tempo de estudar durante o dia [...]”
UFRGS
“Bom, eu acho a EaD fundamental, considerando o tamanho do
nosso país e considerando as desigualdades regionais e de acesso
das pessoas aos grandes centros universitários. Então, a EaD é
fundamental para democratizar o acesso ao ensino superior [...]”
UFRPE
“A Educação a distância é uma alternativa para a democratização da
educação superior no Brasil. Para um país com um território de
dimensões continentais, disponibilizar educação de qualidade para
todos é um enorme desafio. Acredito que a EaD se apresenta como
uma ferramenta nesse contexto [...]”
UnB
“Depois das expansões das universidades, instituições de ensino
superior, federais e estaduais, talvez de 2008 para cá, a gente pode
observar que é muito importante que as universidades cheguem em
locais para além dos grandes centros [...]”
Fonte: Dados da pesquisa (2020).

No Quadro 2, nota-se que os gestores concordam que EaD tem o
propósito de romper os limites geográficos e temporais, sendo essa uma
estratégia viável para estimular a prática educativa em todos os cidadãos. As
entrevistas evidenciam que os diretores dos sistemas de bibliotecas concordam
que a EaD facilita o oferecimento da prática educativa para todos os cidadãos,
contribuindo para a democratização do conhecimento. Essa posição está de
acordo com trabalhos publicados na área da Educação, como o estudo de
Moore e Kearsley (2008), que afirmam que o papel da EaD é proporcionar o
acesso democrático à educação, mesmo que os envolvidos, alunos e
professores, estejam em locais diferentes. Ainda na percepção desses autores,
a EaD é o aprendizado planejado “[...] que ocorre normalmente em um lugar

�380

diferente do local do ensino, exigindo técnicas especiais de criação do curso e
de instrução, comunicação por meio de várias tecnologias e disposições
organizacionais e administrativas especiais” (MOORE; KEARSLEY, 2008, p. 2).
Quando os entrevistados foram questionados sobre a contribuição das
bibliotecas universitárias para a EaD, as respostas obtidas corroboram o
pensamento de Suaiden e Freitas (2017) quando dizem serem as bibliotecas
universitárias estratégicas no apoio aos alunos da EaD, para diminuir as
dificuldades para o acesso igualitário à informação, através do uso das novas
tecnologias e da capacitação em informação. Nas percepções de alguns dos
bibliotecários

entrevistados,

a

contribuição

da

biblioteca

é

apoiadora,

sobretudo na oferta dos serviços informacionais, que envolvem atividades
voltadas ao provimento de materiais de estudo para os alunos. As respostas
revelaram que, para os entrevistados, biblioteca e EaD precisam ser elementos
indissociáveis. A relação entre esses dois elementos é de extrema importância,
sobretudo

pelos

materiais

que

são

procurados

pelos

alunos

no

desenvolvimento das atividades acadêmicas solicitadas pelos professores, o
que demonstra que a biblioteca tem um papel de apoiar o processo de ensinoaprendizagem.
Em suas entrevistas, os bibliotecários gestores, em sua maioria,
destacam o papel desempenhado pelas tecnologias, observando que elas não
eliminam a interação humana. Nesse sentido, a educação quando ofertada na
modalidade a distância, tem na tecnologia um apoio ou contribuição voltada à
mediação. Com essas tecnologias, o ensino se descentraliza, indo ao encontro
de diferentes públicos, independente das limitações de tempo e de espaço:
[...] permite novas formas de aprendizagem, tanto na expansão do
acesso ao ensino superior, via o atendimento de novos públicos que
estão [...] longe, que não têm acesso ao ensino superior presencial [...]”
(Comentário UFRGS).

Entende-se, desse comentário, que as bibliotecas universitárias podem
contribuir para a EaD e apoiar o processo de ensino-aprendizagem, uma vez
que elas podem ajudar o aluno a ter acesso aos recursos informacionais para
as suas atividades acadêmicas, mediando a busca pela informação.

�381

Outro aspecto revelado nos comentários dos participantes diz respeito à
capacidade da biblioteca de promover a sociabilidade dos alunos, ou seja, para
além do provimento de informação, a biblioteca pode possibilitar um espaço
para diálogos, compartilhamentos, esclarecimentos de dúvidas, dentre outras
atividades que promovam a sociabilidade dos alunos da EaD, seja em
ambiente presencial ou digital. Além de contribuir para o ensino-aprendizagem
e para a sociabilidade dos alunos, as bibliotecas, na EaD, podem contribuir
para a formação desses alunos, o que demonstra o papel formativo das
bibliotecas no contexto da EaD.
O Quadro 3 apresenta os comentários correspondentes sobre essas três
contribuições

da

biblioteca

para

o

aluno

da

EaD:

apoio

no

ensino-

aprendizagem, estímulo à interação e sociabilidade e o papel formativo.
Quadro 3 – Contribuições da biblioteca na Educação a Distância
Na sua opinião, qual a relação e contribuição da biblioteca universitária com a EaD?
Contribuição
Comentários
“[...] A biblioteca é muito importante para poder guiar esse
aluno, a fim de ter acesso às fontes de informação [...]”
(Comentário UFAM)
“[...] Ele [o aluno da EaD] tem contato com a pesquisa, os
acervos em geral, não só com os específicos da área dele.
E a biblioteca vai dar essa oportunidade de ampliar os seus
conhecimentos” (Comentário UFMG)
Ensino-aprendizagem
“[...] O bibliotecário atua em atividades que possam também
ajudar na capacitação deles [alunos]. [...] Este é um dos
grandes braços que os bibliotecários podem ter, que são as
capacitações [...]. E o aprendizado mesmo, que eles chamam
de letramento informacional: ensinar o aluno como pesquisar,
como
produzir
documento,
como
esquematizar
o
conhecimento, como ter acesso às normas solicitadas [...].
Enfim, dar este suporte para a sala de aula e para o professor
[...]” (Comentário UNB)
“[...] A biblioteca é um espaço de socialização. Não tem como
Sociabilidade
não ser, muita coisa acontece na biblioteca: os encontros entre
alunos, as discussões também. Ela é muito importante, sim
[...]” (Comentário UFOP)
“[...] A biblioteca atua não somente em termos de acesso [a
recursos informacionais], porque muita coisa está disponível
fora da biblioteca. A biblioteca precisa atuar muito no sentido
formativo, de boas condutas e até de esclarecimentos para
confiabilidade das informações [...]” (Comentário UFRGS)
“A biblioteca insere-se dentro da universidade como órgão
Papel formativo
fundamental de atuação no processo de ensino-aprendizagem.
Também se caracteriza pelo seu papel na promoção do gosto
pela pesquisa e na formação de novos projetos, seja no ensino,
pesquisa ou extensão universitária [...]” (Comentário UFRPE)
Fonte: Dados da pesquisa (2020).

�382

3.2 SERVIÇOS E RECURSOS OFERECIDOS AO ALUNO DA EAD
Esta

subseção

trata

dos

serviços

oferecidos

pelas

bibliotecas

universitárias e que por sua vez podem ser estendidos às bibliotecas dos polos
e aborda as percepções dos bibliotecários gestores sobre o oferecimento
igualitário desses serviços para os alunos da EaD e a importância das
bibliotecas polo para tal.
O Quadro 4 expõe serviços/recursos que já são oferecidos pelos
Sistemas de Bibliotecas das instituições pesquisadas. Apresentou-se esta
relação aos entrevistados, com a pergunta: Dos serviços relacionados a seguir
quais devem fazer parte do universo da EaD, se ainda não o são? Ou seja, a
pergunta buscou elicitar dos entrevistados, a partir dos serviços já oferecidos,
usualmente,

nas

bibliotecas

universitárias

para

os

alunos

dos

cursos

presenciais, quais podem e devem fazer parte do universo da EaD?
Quadro 4 – Serviços informacionais que devem fazer parte do universo da EaD
Tipo de serviço
UFOP
UFMG
UFRPE
UFAM
UFRGS
UNB
Empréstimo domiciliar
X
X
X
X
X
Empréstimo entre bibliotecas
X
X
X
X
Solicitação de artigos/outros via
X
X
X
X
X
Comutação Bibliográfica
Levantamento bibliográfico
X
X
X
X
X
Portal de Periódicos da Capes
X
X
X
X
X
X
E-books
X
X
X
X
X
X
Pesquisas em bases de dados
X
X
X
X
X
X
Normalização bibliográfica
X
X
X
X
X
Solicitações por telefone
X
X
X
X
X
X
Acesso a livros
X
X
X
X
X
X
Teses e dissertações
X
X
X
X
X
X
Consultas às obras raras
X
X
X
X
X
X
Consultas em periódicos
X
X
X
X
X
X
Consultas
aos
materiais
X
X
X
X
X
X
especiais (áudio, vídeo, mapas,
partituras)
Repositórios institucionais
X
X
X
X
X
X
Bibliotecas digitais
X
X
X
X
X
X
Participação em treinamentos
X
X
X
X
X
X
Fonte: Dados da pesquisa (2020).
X: Indica que a biblioteca pode oferecer o item correspondente para alunos de EaD.

Dos 17 serviços apresentados no Quadro 4, por meio das entrevistas
com

os

bibliotecários,

constatou-se

que

sete

podem

ser

oferecidos,

exclusivamente, por meio de serviços on-line, tais como: Portal de Periódicos
da Capes, E-books, Pesquisas em bases de dados, Biblioteca Digital de Teses e

�383

dissertações, Consultas em periódicos on-line, Repositórios institucionais e
Bibliotecas digitais. Seis serviços apenas podem ser oferecidos nas bibliotecas
físicas,

como:

Empréstimo

domiciliar,

Empréstimo

entre

bibliotecas,

Solicitações por telefone, Acesso a livros, Consultas às obras raras e Consultas
aos materiais especiais (áudio, vídeo, mapas, partituras). Neste caso, entendese que pode haver uma intermediação entre as Bibliotecas físicas do Sistema e
as Biblioteca dos Polos para atendimento ao aluno da EaD no Polo ou criação
de mecanismo, serviços para apoiar esses alunos.
serviços

(Solicitação

de

artigos/outros

via

Por sua vez, os demais
Comutação

Bibliográfica,

Levantamento bibliográfico, Normalização bibliográfica e Participação em
treinamentos) podem ser oferecidos tanto como serviços on-line quanto no
ambiente físico da biblioteca.
Todos os entrevistados enfatizaram a importância de atendimento aos
alunos de EaD e pensam no oferecimento, para a EaD, de alguns serviços que
atualmente são exclusivos de ambiente presencial. Embora tenham serviços
que possam ser oferecidos, exclusivamente, como serviços on-line, percebe-se
ainda, que há interesse na oferta de serviços realizados presencialmente, além
da oferta de serviços híbridos, oferecidos tanto no ambiente físico como no
digital. Essa diferenciação quanto a forma de oferta do serviço se assemelha
ao que defendeu o estudo de Costa, Santos, Barbosa (2015, p. 55), quando
afirmaram que as bibliotecas “[...] precisam se adaptar aos novos tempos para
irem de encontro às necessidades dos usuários atuais, sendo eles usuário
presencial ou remoto”.
Segundo os gestores pesquisados, apenas cinco serviços não são
disponibilizados para o aluno da EaD, de acordo com todas as instituições:
empréstimo domiciliar (não oferecido em uma instituição), empréstimo entre
bibliotecas (em duas instituições), solicitação de artigos (em uma instituição),
levantamento bibliográfico (em uma instituição) e normalização bibliográfica
(em uma instituição). Ressalta-se que, nesse último serviço, segundo o
participante, o que se oferece são orientações de como se normalizar um
trabalho acadêmico.

�384

As razões apresentadas para a não disponibilização desses serviços ao
aluno de EaD são variadas: indisponibilidade desses serviços, serviços não
terem sido solicitados por nenhum aluno da EaD, ou porque exigiriam um
serviço de transporte entre as bibliotecas dos campi e a residência do aluno ou
na biblioteca polo, o que não seria possível; ou ainda porque o serviço já existe
na biblioteca do Polo do aluno.
Embora acreditem que tanto o aluno presencial quanto o aluno da EaD
devem ter acesso aos recursos informacionais, igualmente como os alunos dos
cursos presenciais como se vê no comentário abaixo:
“[...] É o seguinte! A gente não faz nenhuma diferenciação em termos
de prestação de serviços para aluno EaD e presencial. Para nós, é aluno
de graduação. A gente sabe que os alunos de EaD têm uma limitação,
quando estão distantes da universidade. Mas, fora isso, para nós, é
indiferente se eles são EaD ou não! São alunos de graduação”
(Comentário UFRGS).

Destacam que diversos desafios se manifestam, em especial quando se
trata de materiais físicos, considerando as dificuldades existentes para
transporte do material. E mencionam a importância da biblioteca polo no
oferecimento de serviços. Como relatado por um entrevistado:
“[...] A biblioteca adquirindo [material impresso], obviamente, os alunos
de EaD vão ser favorecidos. Nessa dificuldade eu não tenho ainda como
interferir; nós não temos como suprir esses serviços de malote. Mesmo
porque um curso de EaD, não significa que é só gente de dentro do
estado [...]. Pode ter gente lá do Acre. Eu acho muito difícil dar acesso
ao livro físico para o aluno da EaD. Vai ser mais fácil ele ter o acesso ao
livro físico na biblioteca polo. [...] Por isso, eu acredito que precisa
dessa interação, pois quem dá este suporte todo é a instituição onde o
aluno faz o curso [...]” (Comentário UFMG).

Embora o acesso físico a determinados materiais represente um
obstáculo, os entrevistados acreditam que essa dificuldade precisa ser
superada. Daí, a importância de se ter uma biblioteca no polo de apoio
presencial. Segundo um dos entrevistados, o desejável seria que a bibliotecapolo os oferecesse ao invés do atendimento à distância:
“[...] Tudo que foi colocado aqui como serviço, mais ou menos está
relacionado com a pergunta [...]. Existe a proposta de uma biblioteca
nos polos que ofereça esses serviços. Se ela não conseguir, a gente vai
oferecer esses serviços em EaD. [...] Se a gente conseguisse atender
todos esses serviços nos polos seria perfeito [...]” (Comentário UFOP)

�385

Portanto, as bibliotecas dos polos precisam ser valorizadas pelas
instituições, visto que elas constituem estruturas de apoio à formação do aluno
da EaD, “[...] principalmente para aqueles que não possuem recursos
financeiros para adquirir os materiais bibliográficos, para acessar a internet e
que precisam consultar os materiais impressos recomendados aos seus
estudos [...]” (ROCHA, 2019, p. 22). Evidenciou-se, no estudo de Costa e
Cendón (2015), a necessidade de interlocução entre bibliotecas situadas na
sede do campus universitário e as bibliotecas existentes nos polos de apoio
presencial. O estudo sugere
[...] a integração entre as bibliotecas universitárias, ou sistemas de
bibliotecas com as bibliotecas dos polos, de modo a ampliar a
contribuição dessas unidades aos cursos oferecidos a distância, [...],
para que esse alunato da EaD tenha acesso e uso dos recursos
informacionais necessários para suas atividades de pesquisa acadêmicocientífica (COSTA; CENDÓN, 2015, p. 92).

É importante destacar que alguns dos entrevistados acreditam que para
o oferecimento igualitário de serviços para o aluno de EaD, além de apoio
pelas bibliotecas dos polos, é importante a criação de setores, serviços para
atendimento desses alunos nas bibliotecas universitárias. Não obstante
iniciativas nesse sentido inexistem no momento das entrevistas. Uma das
gestoras entrevistadas informou que já chegou a ter no Sistema de Biblioteca
um Setor de Apoio as Bibliotecas dos Polos e, consequentemente, de apoio aos
alunos da EaD da instituição, estando este Setor hoje inativo por falta de
pessoal. E em outra instituição houve a proposta de criação de um setor de
apoio a EaD que sequer foi concretizada, devido à falta de infraestrutura, ou
porque segundo a entrevistada, acreditou-se não ser o referido setor
necessário.

3.3 O PAPEL MEDIADOR DA BIBLIOTECA
Pelos serviços oferecidos pelas bibliotecas analisadas para os alunos de
EaD e de acordo com o Quadro 1, percebe-se que a mediação deve está
presente no trabalho do bibliotecário que atua em bibliotecas universitárias,

�386

com vistas a atender ao alunado da EaD através do oferecimento de recursos,
serviços e materiais necessários para realização das atividades estudantis.
A mediação observada nas entrevistas e serviços oferecidos ocorre em
ambas as modalidades explícita e implícita. Dentro da modalidade explícita,
percebe-se a existência da mediação institucional, pedagógica, documentária,
técnica e tecnológica como será discutido a seguir.
A mediação institucional manifesta-se principalmente no apoio que a
biblioteca dá ao tripé ensino, pesquisa e extensão. Também acontece mediante
o apoio dos bibliotecários junto aos centros de EaD, quando realizam
atividades de incorporação dos materiais produzidos por esse centro no
repositório institucional da universidade. Constata-se, também, mediação
institucional, quando bibliotecários são enviados para realizar estudos junto
aos polos de apoio presencial, ou até mesmo, com apoio dos centros de EaD,
treinarem funcionários para atuarem no atendimento aos alunos nos polos. A
mediação institucional também está presente no contexto das bibliotecas da
EaD, sobretudo em virtude dos investimentos que precisam ser despendidos
para oferta do ensino a distância nas universidades. Para que o bibliotecário
ofereça serviços em diferentes formatos, é preciso apoio e integração com
outros setores institucionais, o que depreende a importância de argumentos
válidos que despertem convencimento nos gestores das instituições. Para
Nogueira e Bernardino (2018, p. 47), a mediação do bibliotecário também
precisa ser institucional, estando associada aos procedimentos de como o
profissional da informação irá buscar recursos variados, como infraestrutura,
recursos humanos, financeiros, acervos, dentre outros “[...] seja dentro ou
fora da instituição que o centro de informação está inserido para concretizar
suas ações e interferências [...]”.
A mediação pedagógica manifesta-se com destaque para os serviços de
treinamento de usuários, cujo objetivo principal é tornar os alunos mais
autônomos nas buscas por materiais que subsidiam as atividades acadêmicas.
Na

modalidade

implícita,

fica

subentendida

a

presença

da

mediação

documentária e técnica. A documentária através do tratamento dos acervos
através da catalogação, indexação, dentre outros. A técnica através das

�387

atividades operacionais tais como o desenvolvimento de coleções, a aquisição
ou disponibilização de materiais, em correspondência com as bibliografias dos
cursos ou a alimentação correta de redes sociais, por exemplo. Com a EaD, se
intensifica ainda a mediação tecnológica, que vem para contribuir para os
demais agentes humanos envolvidos com a transmissão e compartilhamento
de conhecimento.
Na visão de Pellegrino (2012), os serviços de busca bibliográfica são
mediados pelo bibliotecário, sobretudo quando esse incorpora ferramentas de
busca que possibilitam a autonomia do usuário. Essa mediação pode ser do
tipo implícita, documentária e técnica, uma vez que o bibliotecário atua na
oferta de recursos disponibilizados nas bases de dados, por exemplo.
Pellegrino

(2012)

também

menciona

os

serviços

de

treinamentos,

mencionando que os usuários que recorrem a esse serviço têm mais sucessos
em suas buscas bibliográficas. No caso dos treinamentos, a mediação se
manifesta como explícita e pedagógica, considerando a interação entre
usuários e bibliotecários.
Entre os tipos de mediação identificados na literatura, não se observou
nos serviços investigados a presença da mediação cultural, embora fosse
possível o oferecimento desse tipo de mediação em especial, nas bibliotecas
dos polos. Conforme Rocha (2019, p. 14), as bibliotecas localizadas nos polos
poderiam oferecer uma diversidade de serviços, muitos deles relacionados à
preservação das características regionais, haja vista “[...] permitir que a
população descubra e valorize a sua origem, cultura, história, seus aspectos
físicos e naturais, seu povo e seu espaço” (ROCHA, 2019, p. 14).
Com base no que foi relatado nas entrevistas com os bibliotecários
gestores, sobre o papel da EaD, constatou-se que a mediação é um fazer que
está por trás da ação educativa e que, com as tecnologias, o conhecimento vai
sendo socializado, mediante um ciclo de compartilhamento, em que pessoas
comportam-se como mediadoras, aprendendo uma com as outras:
“[...] Assim, a gente tem mais um braço da educação superior que
fortalece a formação de estudante de graduação pelo Brasil, [...] que, às
vezes, tem problemas de locomoção, de finanças, de tempo [...]. Enfim,
cada um tem sua forma de aprender. Eu acho que o ensino a distância é
muito interessante e parece que tem se mostrado bastante sólido,

�388
bastante promissor [...]. A impressão que tenho é que o ensino a
distância cada vez mais vem ganhando adesão dentro da educação
superior brasileira, principalmente por garantir o compartilhamento e
colaboração no aprendizado [...]” (Entrevistado UNB).

Nesse contexto, depreende-se que a biblioteca comporta-se como
mediadora do processo de ensino-aprendizagem, ao oferecer serviços e
produtos de informação para os usuários do ensino a distância. Esses serviços,
por serem diversificados e oferecidos em diferentes formatos, possibilitam
diferentes práticas de mediação, seja ela de natureza implícita, explícita,
pedagógica, institucional, documentária, técnica e tecnológica.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta pesquisa, foi possível verificar, entre outros resultados, que os
bibliotecários

gestores

têm

a

percepção

de

que

a

EaD

possibilita

a

democratização do ensino, levando informação e educação para diferentes
partes do país, sem limitar-se no tempo e no espaço. Evidenciou-se que essa
modalidade de educação pode ser beneficiada com o trabalho desenvolvido
pelas bibliotecas universitárias na oferta dos serviços já tradicionais adaptados
para a EaD.
Os resultados revelam que as bibliotecas podem oferecer para os alunos
de EaD, assim como já é oferecido para os alunos dos cursos presenciais,
desde os serviços básicos, como empréstimo do material informacional, livros,
periódicos, dentre outros, até a orientação no levantamento e normalização
bibliográficas, ou atividades que requerem interferência mais profunda, como
acesso ao acervo físico, à bibliografia básica dos cursos, aos repositórios
institucionais e biblioteca virtual como o Portal de Periódicos da Capes, além de
prover treinamentos para garantir o acesso a esses serviços. Em todos esses
serviços,

constataram-se,

conforme

a

literatura,

ações

de

mediação,

manifestadas de forma implícita ou explícita, como a mediação documental,
técnica, institucional e pedagógica, tecnológica, não tendo sido percebida a
presença da mediação cultural.

�389

Embora os entrevistados tenham manifestado interesse no oferecimento
de atendimento a EaD, os dados oriundos das entrevistas com diretores de
sistemas de bibliotecas universitárias, revelaram a inexistência de serviços
proporcionados, exclusivamente, para apoio a alunos da EaD. Para que sejam
criados serviços próprios para este usuário, é preciso que os bibliotecários
procurem conhecer a realidade do usuário da EaD. Desse modo, poderão
realizar de fato a mediação dos serviços e produtos das bibliotecas e colocá-los
à disposição desse alunado. Os usuários dessa modalidade de ensino,precisam
desse apoio tendo em vista que, na sua maioria encontram-se extra campus
universitário, o que evidencia a necessidade de engajamento, criatividade e
interferências dos bibliotecários, com vistas a tornarem-se mediadores ativos e
criarem políticas de atendimento a esse usuário. É importante que seja
facilitado o acesso e uso aos recursos informacionais para esses alunos. Em
todos os casos, é preciso fomentar a consciência da mudança e da inovação no
bibliotecário, de modo que possa atuar para a contribuição do Ensino a
Distância. Afirmam Nunes e Carvalho (2017, p. 107) que os profissionais
precisam ser estimulados à criatividade, à ética e ao compromisso social “[...]
para que eles possam assumir de modo consciente seu papel como mediadores
da informação”.
Ainda que a realidade levantada demonstre que os bibliotecários
gestores sensibilizam-se com relação a EaD, percebe-se, para que o aluno
tenha acesso, e ao mesmo tempo possa fazer uso desses materiais
informacionais para apoio nos seus estudos acadêmicos, as bibliotecas
universitárias

da

instituição

precisam

criar

mecanismos,

políticas

de

atendimento, quer seja, através de um setor ou mesmo de um bibliotecário
disponibilizado para este fim, além das bibliotecas-polo, considerando que as
bibliotecas universitárias, já possuem a infraestrutura necessária para apoio ao
aluno. Com base na literatura, sugere-se ainda, uma união de esforços, com a
busca de maior interação com os centros de apoio a educação a distância nas
universidades para com isso apoiar o aluno da EaD, muitas vezes localizado
nos interiores dos Estados. Conforme Costa, Santa Anna e Cendón,

�390
[...] Recomenda-se a criação de um espaço físico, com infraestrutura,
serviços e produtos informacionais adequados, além da necessidade de
bibliotecários, a fim de melhorar a gestão das bibliotecas polos, e assim,
socializar o conhecimento para todos (COSTA; SANTA ANNA; CENDÓN,
2017, p. 1731).

Os

estudos

voltados

à

contribuição

das

bibliotecas

para

a

EaD

consideram a necessidade de aplicação e desenvolvimento de serviços para
atender o usuário de EaD. Entende-se como aplicação ou desenvolvimento
destes serviços a criação de politicas informacionais como, por exemplo, a
criação de Bibliotecas Digitais com o conteúdo pedagógico da Bibliografia
básica e complementar do curso do aluno, ou até mesmo, a possibilidade de
um carro-biblioteca para interação entre as Bibliotecas Universitárias e os
Polos para atender esses alunos. O’Leary (2000) diz que: Os serviços de
biblioteca que são tradicionalmente fornecidos no local, como empréstimo
entre bibliotecas e serviços de referências, podem ser entregues on-line, por
meio de formulários, tutoriais e referência por e-mail e

ainda manter uma

interação por telefone. [...]. O’LEARY (2000), e acrescenta:
[...] Esses temas nada mais são do que extensões ou variações das
coleções e serviços virtuais já oferecidos pelas bibliotecas à maioria dos
acadêmicos. [...], eles são importantes por si só, porque o ensino a
distância continuará a crescer. Com um pouco de ajustes, as bibliotecas
pode agregar valor a essa nova classe de clientes, ajudando assim mais
um caminho para a sobrevivência e prosperidade nesta era digital
(O’LEARY, 2000).

Assim, também entende ser importante realizarem estudos de usuários e
de satisfação, a fim de que sejam identificados pontos fortes e fracos, com o
propósito de implementação de políticas e planos de ação para melhorias dos
serviços existentes. Esse é um desafio instigante e os resultados desses
estudos, no que tange à oferta de serviços e recursos para o alunado da EaD e
a participação do bibliotecário como mediador da informação, certamente,
contribuirão para as áreas de Biblioteconomia/Ciência da Informação e
Educação, possibilitando benefícios para os envolvidos com a prática educativa
na sociedade. Espera-se que a presente pesquisa se insira neste contexto e
seja um instrumento ou mecanismo de conscientização para o planejamento
de atividades bibliotecárias que visem o aluno da EaD e que sejam

�391

fundamentadas nas práticas de mediação criativa e inovadora, as quais
possam contribuir para uma educação que seja, de fato, democrática.

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VIEIRA, Rosangela Souza. O papel das tecnologias da informação e
comunicação na educação a distância: um estudo sobre a percepção do

�394

professor/tutor. Associação Brasileira de Educação a Distância, v. 10, n.
1, p. 1-6, 2011.
Agradecimentos: Os autores agradecem a todos os diretores de Sistema de
Bibliotecas das universidades federais brasileiras que se disponibilizaram para
as entrevistas.

DADOS BIOGRÁFICOS

Maria Elizabeth de Oliveira Costa: Bibliotecária do
UFMG). Possui Mestrado em Tecnologia e Gestão em
Educação a Distância pela UFRPE. Doutoranda do PPG-GOC
na Escola de Ciência da Informação da UFMG. Presidente da
Associação dos Bibliotecários de Minas Gerais. Exerceu o
cargo de diretora do Sistema de Bibliotecas da UFMG, no
período 2006-2013. Atua principalmente em áreas
temáticas: Bibliotecas Universitárias - Gestão de Pessoas,
Gestão em Unidade de Informação, Extensão Universitária e
Ensino a Distância.
E-mail: mabethcosta@gmail.com

Beatriz Valadares Cendón: Professora Titular do Programa
de Pós-Graduação em
Gestão &amp;
Organização do
Conhecimento da Escola de Ciência da Informação da
Universidade Federal de Minas Gerais (Nível 5 - CAPES).
Possui os títulos de Doutora e Mestre em Ciência da
Informação pela Universityof Texas at Austin (1996, 1990).
Formada em Engenharia Econômica pela Fundação Dom
Cabral (Especialização, 1984) e em Engenharia Civil pela
Universidade Federal de Minas Gerais (Graduação, 1980).
E-mail: cendon@eci.ufmg.br

�395

PALAVRAS DA ABMG EDITORA
A mediação como ação de auxílio prestado a outrem tem assumido
diferentes abordagens, visando ao alcance de objetivos distintos. Quando essa
prática se apresenta como um ato de interferência para fins de apropriação da
informação, manifesta-se um campo específico, acordado por muitos como
mediação da informação.
Mesmo com esse direcionamento, a mediação da informação não se
singulariza, sobretudo quando se considera a diversidade de formatos e
recursos utilizados para registrar a informação. Além disso, consideram-se,
também, as diferentes opções de acesso e uso com que profissionais e
usuários recorrem, com o fim de sanar as necessidades de informação.
Boa parte dos conceitos, dos fundamentos e das aplicações da mediação
da informação está na prática conduzida pelos profissionais da informação,
como arquivistas, bibliotecários, museólogos, dentre outros. Em todos os
casos, o campo da mediação ainda continua bastante difuso, o que instiga
nosso reconhecimento sobre tais práticas, em especial, em meio à expansão
do universo informacional, seja no meio acadêmico ou profissional.
Confirmamos, por meio dos textos explorados, a diversidade do campo
da mediação da informação, cujos profissionais da informação, desenvolvendo
atividades em unidades de informação, como arquivos, bibliotecas e museus,
ou em serviços variados, poderão facilitar a apropriação da informação. A
mediação explorada no universo informacional possibilita campos variados de
intervenção, contribuindo para um uso mais efetivo da informação, e, desse
modo, ampliando os modos de produção do conhecimento na sociedade.
Esta obra nasceu a partir de experiências, pesquisas e pontos de vista de
diferentes profissionais que atuam no campo informacional. Trata-se de mais
uma contribuição da ABMG Editora que, desde a sua institucionalização, em
dezembro de 2018, vem oportunizando a publicação de livros para a classe
bibliotecária e profissionais de áreas correlatas.
Esta

é

a

terceira

obra

publicada

pela

ABMG

Editora,

como

complementação às obras lançadas em 2018, com os temas associados à

�396

Biblioteconomia Social e ao Empreendedorismo na Biblioteconomia. O desejo
da Editora é, por meio da disseminação do conhecimento produzido pela
Biblioteconomia, favorecer a divulgação e o fortalecimento da área.
Nossos

agradecimentos

desenvolvimento

e

lançamento

a

todos

desse

que

contribuíram

importante

para

empreendimento,

o
em

especial à comissão organizadora, aos autores, prefaciadores e avaliadores.
Também agradecemos aos membros da diretoria da ABMG (2018/2020), na
pessoa de Maria Elizabeth de Oliveira Costa, Jorge Santa Anna, Andrea
Brandão, Edcleyton Bruno Fernandes da Silva, Graciane Borges, Maria Clea
Borges e Taciane Rodrigues.
Esperamos que esta obra contribua para potencializar o brilhante
trabalho realizado pelos profissionais e pesquisadores que atuam no amplo e
diversificado contexto informacional. Desejamos boas leituras e um ótimo uso
desta obra a todos os profissionais, pesquisadores, estudantes, dentre outros
envolvidos e interessados com o campo da mediação.

Belo Horizonte, 15 de dezembro de 2020.
Jorge Santa Anna – Editor
Editora ABMG

�397

INFORMAÇÕES BIOGRÁFIC
BIOGRÁFICAS – COMISSÃO ORGANIZADORA

Andreza Gonçalves Barbosa: Doutoranda em Ciência da
Informação pelo Programa de Pós
Pós-Graduação
Graduação em Ciência da
Informação PPGCI
PPGCI-UFMG
UFMG (2018). Mestre em Ciência da
Informação pelo mesmo programa (2017). Bacharel em
Biblioteconomia pela Escola de Ciência da Informação
Informação- UFMG
(2015). Membro do grupo de pesquisa "Práticas Informacionais e
Cultura" (EPIC
(EPIC-UFMG). Áreas de interesse:
nteresse: Usuários da
informação, Ciência da Informação, Informação e cidadania,
Bibliotecas Prisionais, Leitura no cárcere, Ressocialização, Práticas
Informacionais. Representante Discente PPGCI - UFMG. Membro
da Comissão Brasileira de Bibliotecas Prision
Prisionais
ais (CBBP - Febab).
E-mail
mail: goncalvesandreza@hotmail.com

Jéssica Patrícia Silva de Sá: Doutoranda em Ciência da
Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e
Mestra em Ciência da Informação pela mesma instituição (2018).
Possui graduação em Biblioteconomia pela UFMG (2016). Atua
como Bibliotecária na Biblioteca Pública Municipal Professor
Francisco Tibúrcio de Oliveira, vinculada à Prefeitura Municipal de
Santa Luzia (MG). Tem interesse nas áreas de práticas
informacionais e estu
estudos
dos de usuários da informação, com enfoque
na apropriação da leitura literária e compartilhamento de leituras.
E-mail
mail: j.jessicadesa@gmail.com

Jorge Santa Anna
Anna: Graduado em Biblioteconomia. Atuante no
ramo da prestação de serviços de orientação, escrita,
normalização e lecionamento em trabalhos e pesquisas
acadêmico
acadêmico-científicos.
científicos. Atua como editor e assessor do Periódico
Pró-Discente,
Discente, como também compõe a diretoria da Associação de
Bibliotecários de Minas Gerais, ocupando o cargo de secretário
secretário,
além do cargo de editor da ABMG editora.
E-mail
mail: professorjorgeufes@gmail.com

Maria Elizabeth de Oliveira Costa
Costa: Bibliotecária da UFMG. Possui
Mestrado em Tecnologia e Gestão em Educação a Distância pela
UFRPE. Doutoranda do PPG
PPG-GOC
GOC na Escola de Ciência da
Informação da UFMG. Presidente da Associação dos Bibliotecários
de Minas Gerais. Exerceu o cargo de diretora do Sistema de
Bibliotecas da UFMG, no período 2006
2006-2013.
2013. Atua principalmente
em áreas temáticas: Bibliotecas Universitárias - Gestão de Pessoas,
Gestão em Unidade de Informação, Extensão Universitária e Ensino
a Distância.
E-mail
mail: mabethcosta@gmail.com

�398

Esta é uma obra editada pela:

ABMG
EDITORA
Rua dos Guajajaras, 410, Centro - Belo Horizonte, MG CEP: 30180-912. Edifício Rotary, Sala 608
Diretoria da ABMG (Gestão 2018-2020): Maria Elizabeth de
Oliveira Costa, Jorge Santa Anna, Andrea Brandão, Edcleyton Bruno
Fernandes da Silva, Graciane Borges, Maria Clea Borges e Taciane
Rodrigues
Editor da ABMG Editora: Jorge Santa Anna

Como referenciar esta coletânea no todo:
SÁ, Jéssica Patrícia Silva de; BARBOSA, Andreza Gonçalves; COSTA,
Maria Elizabeth de Oliveira; SANTA ANNA, Jorge (Org.).
Fundamentos e práticas de mediação no contexto
informacional. Belo Horizonte: ABMG, 2020. 395 p.

�399

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        <name>Dublin Core</name>
        <description>The Dublin Core metadata element set is common to all Omeka records, including items, files, and collections. For more information see, http://dublincore.org/documents/dces/.</description>
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                <text>ABMG - Associação dos Bibliotecários de Minas Gerais</text>
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                <text>A ABMG tem como principal missão congregar bibliotecários, instituições e pessoas interessadas em Biblioteconomia, Ciência da Informação e áreas afins. Defender os interesses e apoiar as reivindicações dos associados. Representar os associados junto aos órgãos da classe nacionais e internacionais, aos órgãos públicos e privados e incentivar o aprimoramento da profissão e o desenvolvimento cultural  através de cursos, congressos, seminários, palestras e outros.meuip.co</text>
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      <name>Dublin Core</name>
      <description>The Dublin Core metadata element set is common to all Omeka records, including items, files, and collections. For more information see, http://dublincore.org/documents/dces/.</description>
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          <name>Title</name>
          <description>A name given to the resource</description>
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            <elementText elementTextId="69895">
              <text>Fundamentos e Práticas da Mediação no Contexto Informacional</text>
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          <name>Creator</name>
          <description>An entity primarily responsible for making the resource</description>
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            <elementText elementTextId="69896">
              <text>Jéssica Patrícia Silva de Sá </text>
            </elementText>
            <elementText elementTextId="69897">
              <text> Andreza Gonçalves Barbosa </text>
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              <text> Maria Elizabeth de Oliveira Costa </text>
            </elementText>
            <elementText elementTextId="69899">
              <text> Jorge Santa Anna</text>
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          <name>Contributor</name>
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          <name>Coverage</name>
          <description>The spatial or temporal topic of the resource, the spatial applicability of the resource, or the jurisdiction under which the resource is relevant</description>
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              <text>Belo Horizonte : Minas Gerais</text>
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          <name>Publisher</name>
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              <text>ABMG Editora</text>
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          <name>Date</name>
          <description>A point or period of time associated with an event in the lifecycle of the resource</description>
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          <name>Language</name>
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          <description>An unambiguous reference to the resource within a given context</description>
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              <text>Livro</text>
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          <name>Subject</name>
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              <text> Atuação do Bibliotecário </text>
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              <text> Mediação da Leitura e da Cultura</text>
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          <name>Description</name>
          <description>An account of the resource</description>
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              <text>O livro “Fundamentos e práticas da mediação no contexto informacional”, caracterizado como coletânea, foi inspirado a partir das diversas formas de mediação que permeiam a sociedade da informação e do conhecimento. O livro tem uma intenção profissional e acadêmica, com vistas a ampliar a discussão e promover um debate mais sólido acerca das contribuições da Ciência da Informação no desejo de aproximar, cada vez mais, as fontes documentárias, os acervos e a informação contida nesses artefatos, dos usuários, considerando, sobremaneira, os diferentes suportes e tecnologias que podem ser utilizados, principalmente, com a disponibilização desses recursos no ambiente web. Esse livro reflete sobre as possibilidades de atuação dos profissionais da informação como mediadores, em diferentes práticas e contextos, desde ações de leitura e práticas culturais a atividades de organização e recuperação de documentos e da informação.</text>
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