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                  <text>A (RE)VISÃO DO NOVO MUNDO: AS REVISTAS CIENTÍFICAS DE
PAÍSES PERIFÉRICOS FRENTE AO IMPACTO DAS BIBLIOTECAS
VIRTUAIS
MARIA ALICE REBELLO NASCIMENTO *
bibifch@turing.unicamp.br

RESUMO
A partir dos novos pamdigmas da ciência: a teoria de Robert Merton (sociólogo da
ciência), o trabalho de Price (pai da cientometria e da biblioteconomia) e Eugene
Garfield (criador do ISI), o texto analisa o papel dos artigos e das revistas
científicas, enquanto mecanismo de comunicação e divulgação da ciência de países
periféricos frente à emergência das bases de dados bibliográficos em meios
eletrônicos e das bibliotecas virtuais. Bibliotecários e cientistas precisam repensar o
sistema de comunicação formal na ciência praticada nos países periféricos (revistas
científicas) e de seus canais de comunicação (índices de citações) que funcionam
como sistema de avaliação de desempenho da ciência. Propõe-se a inclusão da
biblioteca universitária, não só como repositária da literatura científica (sistema de
comunicação formal) como participante na construção de bases de dados
bibliográficos em meios eletrônicos, locais e regionais.

Palavras-chave: Índices de Citações. Bases de Dados Bibliográficos em Meios
Eletrônicos. Bibliotecas Virtuais. Revistas Científicas. Países Periféricos.

1. INTRODUÇÃO

Comunicação científica é um indicador de desempenho da ciência. Não é produção
científica porque nem tudo que se pesquisa e se produz na ciência é comunicado ou
divulgado.

39

�Diretora Técnica da Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
Unicamp
Não é, única e exclusivamente, análise de coleção, embora ajude a compor as
coleções de bibliotecas que lidam com a pesquisa. A integração das bibliotecas
brasileiras ao mundo virtual já é enfaticamente explorado:o acesso "on line", a
transferência de arquivos, a migração de dados, a compactação de arquivos, a cópia
de textos completos têm sido o enfoque das bibliotecas, com o objetivo de oferecer
novos serviços e produtos aos usuários.
Numa época em que a alta tecnologia de informática e as telecomunicações
convergem para promover uma aura eletrônica em tomo da biblioteca virtual , há
que se pensar quem são os responsáveis pela geração dos índices de citações
bibliográficas e quais são as bibliotecas responsáveis pelo armazenamento dos
acervos essenciais às atividades de ensino e pesquisa desenvolvidos nas
universidades. Também, há que se refletir quem armazena as revistas produzidas em
países subdesenvolvidos. Explico, em decorrência do advento da informática e o
avanço das telecomunicações, se intensifica o uso dos índices de citações em meios
eletrônicos para efetuar um levantamento bibliográfico, sobre determinado tema e,
se agudizam as diferenças de utilização dos artigos contidos nos "index" e
"abstracts ", aumentando o fosso já existente entre os periódicos consagrados
internacionalmente e os periódicos produzidos em países periféricos. É neste
intervalo que residem os índices de produtividade da ciência dos países avançados e
periféricos e onde se localiza o papel do bibliotecário como profissional da
informação.
Na grande viagem histórica, através de um recorte original - a ciência, o
desenvolvimento científico, vindo da Antigüidade e chegando aos dias atuais, não é
negado, mas trata-se de um conhecimento que contém uma criatividade científica,
mesclada por curtos períodos de florescência e longas fases de estagnação e, mesmo
declínio, atribuídos aos rudimentares mecanismos de transmissão e difusão desse
40

�conhecimento, disponíveis apenas em tratados tecnológicos, religiosos e filosóficos
e endereçados ao mundo instruído em geral. Conforme relata Ben-David "até o
século XVII não ocorre acúmulo rápido de conhecimento, nem tampouco, houve a
assimilação desse conhecimento surgido na Europa Ocidental, pelo resto do
mundo". (Ben-David, p.35)
A institucionalização da ciência só vai ocorrer após a metade do século XVII
na Europa, sob a liderança da Inglaterra, em vista da aceitação e da valorização da
atividade científica como uma importante função social reconhecida pela sociedade
e, consequentemente pela possibilidade de estabelecimento de regras e normas
próprias, independentes e autônomas que passaram a regular a conduta dos
cientistas. Nos séculos XVII e XVIII elaboram-se os principais estágios de
desenvolvimento de organização do trabalho científico e estabelecem-se novas
instituições educacionais e científicas. As universidades científicas, os institutos e os
laboratórios de pesquisa, bem como as carreiras regulares para cientistas,
determinam o aparecimento da ciência organizada.
O século XIX, pela primeira vez, assiste a eficiência das universidades e de
centros

de

pesqUIsa,

se

transformando

em

fatores

preponderantes

no

desenvolvimento da ciência, além do interesse natural, espontâneo e do apoio
popular à ciência, mas ao mesmo tempo, independentes desses últimos. É nessa
época que a pesquisa científica se presta a demonstrar os resultados de seus estudos,
não somente à sociedade mas, principalmente a seus pares.
Na

sociedade pós-moderna

as

publicações

periódicas

continuam

a

desempenhar papel primordial na comunicação e divulgação dos resultados de
pesquisa. Entretanto, os índices de citações, a partir do elenco de artigos e da
indexação do periódicos científicos em meios eletrônicos, agregam dois novos
valores que são os indicadores de produção em C&amp;T e a disponibilização através das
bibliotecas virtuais.

41

�2. O PAPEL DOS ARTIGOS CIENTÍFICOS

As formas de divulgação dos resultados científicos - o contato verbal direto,
pessoal ou através de eventos e a comunicação por cartas, ou mesmo, os
pergaminhos, os manuscritos e os livros eram as únicas formas empregadas até o
final do século XVII. Durante o século XVIII, a ênfase para comunicação dos
resultados de pesquisa repousa nos tratados e no século XIX são os manuais que
lideram a forma de apresentação desses resultados.
N esse ínterim, por volta de 1665, surge outro meio de comunicação - a
divulgação através de artigos científicos, em publicações periódicas. O aparecimento
de revistas, tais como "Philosophical Transactions" da Sociedade Real da Inglaterra
e, alguns meses mais tarde, do "Journal des Scavanes", da Academia de Ciência de
Paris, passam a representar um novo marco na apresentação dos resultados de
pesquisa. Entretanto, é no século XIX que as revistas científicas tomam impulso,
mesmo porque, além de instituir a comunicação aos seus pares, simbolizam o
momento de vulgarização e popularização da ciência e do novo conhecimento, uma
vez que o prestígio de Ciência e Tecnologia residia nos resultados concretos da
ciência - estradas de ferro, iluminação etc., o que significava símbolo de poder e de
nqueza.
Os manuais científicos, populares no começo do século XIX, servem por
algum tempo, para defInir implicitamente os problemas e os métodos legítimos de
um campo de pesquisa para as gerações posteriores de praticantes da ciência. Os
cientistas não têm necessidade de reconstrução de seu campo de estudo, desde os
primeiros princípios e justifIcando o uso de cada conceito introduzido. Se é verdade
que os manuais são veículos pedagógicos destinados a perpetuar a ciência normal,
devem ser parcial ou totalmente revisados toda vez que a linguagem, a estrutura dos
problemas ou as normas da ciência normal se modificam. Após cada revolução
científica são reescritos e dissimulam inevitavelmente não só o papel desempenhado
mas, principalmente a própria existência das revoluções que produziram o novo
42

�manual. Na visão de Kuhn, "os manUaIS científicos referem-se a um corpo já
articulado de problemas, dados e teorias e muito freqüentemente ao conjunto
particular de paradigmas aceitos pela comunidade científica na época em que esses
textos foram escritos. Os próprios manuais pretendem comunicar o vocabulário e a
sintaxe de uma linguagem científica contemporânea". (KUHN, 1978, p.174.)
Deste modo, os manuais começam truncando a compreensão do cientista a
respeito da história de sua própria disciplina e em seguida fornecem um substituto
para aquilo que eliminaram. É característica dos manuais científicos conterem
apenas um pouco de história, descrito num capítulo introdutório, ou maIS
freqüentemente, em referências dispersas aos grandes heróis de uma época anterior.
Essas referências fornecem aos estudantes e aos profissionais a sensação de
participação de uma longa tradição histórica. Contudo, a tradição derivada dos
manuais, da qual os cientistas sentem-se participantes, jamais existiu. Por razões ao
mesmo tempo óbvias e muito funcionais, os manuais científicos referem-se somente
aquelas partes do trabalho de antigos cientistas que podem facilmente ser
consideradas como contribuições ao enunciado e à solução dos problemas
apresentados pelo paradigma dos manuais. É óbvio que os manuais são produzidos a
partir dos resultados de uma revolução científica, ou seja, a partir de uma mudança
de paradigma e que serve de base para uma nova tradição de ciência normal,
destinando-se muito mais às atividades de ensino, do que de pesquisa.
Menções à parte, os livros sempre ocuparam um espaço nobre como elemento
de comunicação, mas atualmente, em máxima medida., são úteis aos pesquisadores
quando o objeto de pesquisa busca o resgate histórico e retrospectivo. Roche afirma
que "a atualidade, com exceção possivelmente das ciências sociais, quando os livros
chegam a ser publicados já estão completamente obsoletos". (RaCHE, p.5)

o

artigo de revista científica, enquanto instrumento de comunicação da

ciência, se consolidou ao longo dos últimos séculos, uma vez que este tipo de
publicação é um instrumento que, ao mesmo tempo que garante a permanência dos
resultados de pesquisa, traz em seu bojo a garantia do conhecimento corrente.
43

�Atualmente, no século XX, a revista continua sendo uma forma de comunicação
empregada pelos cientistas, apesar do funcionamento de recursos complementares e
ágeis, tais como: a comunicação verbal, os colégios invisíveis, os correios
eletrônicos, as redes de comunicação e a Internet representarem a oportunidade de
estabelecimento de discussões, mas que são triviais e transitórias.

3. OS NOVOS PARADIGMAS DA CIÊNCIA

N este século, o mapeamento das idéias dominantes, no tocante as revistas
científicas, sugere dois blocos principais. De um lado, os conceitos teóricos de
Robert Merton e, de outro, o surgimento da "big-science", descrito por Price, como
o crescimento exponencial da ciência e a perda de controle da produção científica. É
importante frisar que estas duas variáveis compõem um quadro favorável à criação
do ISI - Institute for Scientific Information, por Eugene Garfield, como instrumento
de organização e disponibilização dos artigos e revistas científicas. Os sociólogos da
ciência, já dispondo dos trabalhos qualitativos de Merton, que exigiam investigação
empírica se apropriam das técnicas quantitativas oferecidas por John Derek de Solla
Price

e

Eugene

Garfield,

provocando

o

advento

de

estudos,

tratados

quantitativamente e baseados na estratificação social e no sistema de recompensa da
ciência.
Estes novos paradigmas, produzidos pela ciência, anunCIam o controle da
produção científica e desencadeiam o advento da cientometria. A combinação entre
a obrigatoriedade de publicação do cientista e a explosão de publicações periódicas
científicas, num mundo que se globaliza, deixa evidente que só uma minoria do
mundo científico consegue integrar a chamada ciência mundial. Para tanto, há que se
entender os meandros da ciência e Merton, representante da sociologia da ciência,
nos fornece os elementos fundamentais para demonstrar como funciona a ciência e
os meCanIsmos que a regem.

44

�3.1. A TEORIA MERTONIANA

Robert Merton, o estudioso da sociologia da ciência, se debruça sobre o
estudo da instituição social "ciência" e analisa a inserção da ciência na sociedade, o
que o leva a elaborar todo um referencial teórico explicitado na questão do
aparecimento da relação entre pares, estudos de citações, premiações científicas,
entre outras. Merton reconhece que "o funcionamento do sistema de recompensa da
ciência, concebido como um sistema de comunicação permite revelar um novo
conjunto de influências". (MERTON, 1977, p. 564)
A primeira norma sistemática de conduta da comunidade científica está
retratada na obra de Merton "Science and Social Order", escrita em 1938. Em 1942,
Robert Merton descreve a estrutura normativa da ciência, com a formulação geral de
normas, ideais e mesmo, as de orientação aos cientistas em suas relações mútuas.
Essas normas fazem parte dos padrões de comportamento dos cientistas, na obtenção
dos objetivos da ciência. As normas reguladoras da ciência e que regem os cientistas
dependem de quatro imperativos básicos: universalismo, comunalismo, desinteresse,
e ceticismo organizado.
No universalismo a ciência deve ser submetida a critérios impessoais préestabelecidos, em consonância com a observação e o conhecimento anteriormente
confIrmado. A objetividade exclui o particularismo. Também, o acesso à ciência é
universal,

independente

dos

atributos

de

quem

o

produziu,

garantindo

impessoalidade. Porém, na prática, nem sempre acontece o universalismo devido ao
nacionalismo e, simultaneamente ao caráter hegemônico da ciência desenvolvida
nos países centrais e o descrédito da pesquisa em países periféricos.
O comunismo, posteriormente rebatizado por Bemard Barber como
comunalismo, destaca que os direitos do cientista à sua propriedade inteclectual
estão limitados ao reconhecimento e a estima. A concepção institucional da ciência,
como parte do domínio público, está vinculada ao imperativo da comunicação dos
resultados de pesquisa. O segredo, estratégia tão empregada entre os pesquisadores,
45

�é considerado a antítese da norma mertoniana e a comunicação plena e aberta é seu
real complemento.
No desinteresse, a questão é regida pelos interesses e comprOIlllSSOS dos
grupos de pesquisa e do Estado, onde a escolha acontece em função da ciência. Ao
cientista se atribui a paixão ao conhecimento, a curiosidade e a preocupação com o
bem estar da humanidade, o que tampouco, significa simplesmente o desinteresse
baseado no altruísmo.
Por último, o ceticismo organizado é um mandato metodológico e
institucional. O avaliador é a própria comunidade científica, onde todos os
elementos são passíveis de questionamento e a metodologia deve explicar os
procedimentos, de forma coerente com o paradigma vigente da ciência, com vistas a
garantir a reaplicação dos estudos.
Por conta da vigência dessas normas emerge o sistema institucional de
recompensa da ciência. O enfoque teórico adotado por Merton, revela a variedade de
situações patogênicas que aparecem dentro da comunidade científica e que abordam
importantes questões: a conseqüencia das desigualdades na produtividade dos
cientistas; o graú de equidade do sistema de recompensa que garanta o
reconhecimento profissional e até mitos relacionados ao exercício da ciência. É o
caso dos descobrimentos múltiplos, onde estão habilitados, em sua grande maioria,
os cientistas que trabalham na fronteira do conhecimento e exploram o estado atual
da ciência. Daí, também, o surgimento do efeito Mateus em que os cientistas
eminentes,

como

os

desproporcionalmente

que
malDr

recebem
se

prêmio

comparados

Nobel,
aos

obtém

cientistas

um

crédito

relativamente

desconhecidos, em pesquisas similares. Segundo Merton, "um estudo dessa análise
demonstrou que os artigos de laureados, como o prêmio Nobel, foram citados 30
vezes mais, do que nos cinco anos anteriores ao anúncio de sua premiação,"
(MERTON, 1977, p.569)
Esse mito, muito difundido e de fundamental interesse para a temática
abordada neste trabalho, diz respeito à competência de cientistas por prioridade, ou
46

�seja, os mais ativos, mais produtivos e mais citados, com influência no trabalho de
outros pesquisadores. É algo novo, que em toda sua extensão resulta do grande
aumento das dimensões, da opulência e da proeminência da ciência na ótica
moderna e da impossibilidade de elaboração exaustiva do conhecimento, em uma
única lista.
Em síntese, os imperativos científicos propostos por Merton: universalismo,
comunalismo, desinteresse e ceticismo organizado, entre outras implicações,
acabaram por estabelecer a premiação e a publicação como sistema de recompensa
da ciência. Assim, os conceitos teóricos de Merton levam a muitos estudos
empíricos que permitiram a emergência de medidas quantitativas, com a perda de
controle da comunidade científica.

3.2 A TEORIA DE PRICE E O ADVENTO DA CIENTOMETRIA

John Derek de Solla Price, um dos seguidores de Merton e historiador da
ciência da Universidade de Yale, desde 1951 se ocupou em trabalhar com a
quantificação de amplos parâmetros da ciência mundial. As taxas de crescimento da
ciência, desde 1600, no que diz respeito a um elenco de variáveis - número de
cientistas, descobrimentos científicos, novos periódicos, número de publicações
totais anuais, criação de sociedades de pesquisa - se expandem assustadoramente,
em decorrência dos altos investimentos em pesquisa militar. Para exemplificar, Price
nos esclarece que "desde o aparecimento da primeira revista científica até 1960, já
havia sido publicado mais de 10 milhões de artigos científicos, com um crescimento
a uma taxa de 6% ao ano, o que equivale anualmente a 600 mil novos artigos."
(pRICE, p.8)
A obra de Price, pOIS, estabelece algumas leis: lei do crescimento
exponencial, isto é expansão do número de cientistas, de publicações e de recursos
alocados. Também, a lei da saturação - redução de recursos financeiros e do
emprego dos recursos humanos - tem servido, principalmente, para estabelecer
47

�parâmetros materiais da comunidade científica. A partir desses estudos empíricos, há
razões para supor que o efeito Mateus aumenta, em freqüência, de acordo com o
aumento exponencial da ciência.
Assim, Merton já percebia que o funcionamento do sistema de recompensa da
ciência, concebidos como um sistema de comunicação permite revelar um novo
conjunto de inferências." (MERTON, 1977, p.564) Ademais, como observado por
Price e citado por Merton , o efeito Mateus ocasiona nos sistemas de recompensa e
da comunicação da ciência, vantagens cumulativas que operam em muitos sistemas
de estratificação social para produzir sempre o mesmo resultado : "o rico fica mais
rico, a um ritmo que faz o pobre tomar-se cada vez mais pobre." (MERTON, 1977,
p.576).
Com a curva logística de Price - crescimento exponencial e de saturação da
ciência, o pai da cientometria e da biblioteconomia demonstra que todas as medidas
grosseiras, de qualquer forma que se chegue a elas, mostram uma aproximação
inicial. A ciência aumenta exponencialmente, a um índice composto de 07 por 100
anualmente, duplicando suas dimensões a cada 10-15 anos, crescendo também, em
um fator de 10 a cada meio século e aproximadamente em um fator de 1.000.000,
nos 300 anos que nos separa da invenção, no século XVII, do artigo científico.
Se por um lado, os estudos teóricos de Merton demonstram os ideais e as
normas de orientação dos cientistas que incluem o sistema de recompensa, através
da premiação e da publicação dos resultados de pesquisa. Por outro lado, os estudo
empíricos de Price decorrentes da "big sicence" , explicitam que o volume de
publicações científicas dificulta, cada vez mais, o acompanhamento da produção
científica e tecnológica devido ao dilúvio de resultados de pesquisa e de produção
científica publicadas no campo de trabalho de cada pesquisador. Resta ao cientista a
tarefa, cada vez mais crescente, de identificar entre a vasta produção, os trabalhos
significativos publicados em sua área de atuação. Nada mais oportuno do que
desenvolver um sistema de coleta, organização e controle dessa produção científica,
traduzido em índices de citações, em âmbito internacional.
48

�3.3 EUGENE GARFIELD E A CRIAçÃO DO ISI

Entre os herdeiros de Merton, encontram-se Eugene Garfield que cria, na
década de 1960, o Institute for Scientific Information (ISI), em Filadélpia, com o
objetivo de compilar, organizar e localizar a informação, vendendo a idéia de manter
o pesquisador atualizado na fronteira do conhecimento. Price, em 1963, um dos
pioneiros a explorar a potencialidae da base de dados - Science Citation Index, do
Institute for Scientific Information, trabalha os seus dados de registro, observando
que o estudo de citações bibliográficas, através da quantidade (número de citações) e
o impacto do trabalho do pesquisador, passaram a funcionar como mecanismo de
reconhecimento do pesquisador.
Desta ótica, o Science Citation Index, o Current Contents e outros índices de
citações funcionam como indicadores quantitativos de produção científica e
permitem comprovar o reconhecimento científico internacionalmente, através da
indexação do artigo, da análise de citação e do fator de impacto. O cientista obtém o
seu reconhecimento através da indexação de seus artigos e da análise de citação
bibliográfica, que se traduz em número de vezes que o pesquisador foi citado. Por
sua vez, o fator de impacto significa a medida de frequência do título de cada revista
citada no Science Citation Index, por um dado período, como um dos parâmetros
para identificação da qualidade de uma publicação periódica. O resultado é a
classificação dos títulos de revistas, de acordo com o volume médio de citações
obtidas por seus artigos. Essa série de inovações no campo bibliográfico, criados por
Garfield, objetivava facilitar de forma imparcial e totalmente técnica os resultados
de pesquisas científicas disponíveis nos periódicos.
Vale salientar que o Science Citation Index e o Current Contents, publicados
pelo ISI, se tomaram instrumentos reificados que adquiriram vida própria, para
então se transformarem na essência. Os artigos e as revistas indexadas não são tão
somente listas bibliográficas, encaradas como uma mera ferramenta de trabalho. Na
verdade, esses novos métodos foram absorvidos indistintamente, sem consciência do
49

�nível da tradição mertoniana e, muito pior, esses indicadores, como um sistema com
caráter de autonomia, passaram a refletir-se nas comparações quantitativas entre as
áreas do conhecimento, entre as regiões e entre países centrais e periféricos, onde os
estudos quantitativos da ciência passam a ser efetuados sem a inferência e
participação dos cientistas .
O ISI parte da premissa que se no mundo existem aproximadamente 50 mil
revistas, das quais ele considera que mais de 90% dessas publicações são de menor
importância, o refinamento deste dado permite inferir que realmente são muito
"importantes" 500 a 1000 revistas. Em vista disso, as bases bibliográficas do ISI
acumulam 4000 a 5000 títulos de revistas. Anualmente, o ISI efetiva um processo de
renovação das revistas de seus registros, considerando aspectos como: fator de
impacto das publicações, considerações quanto ao espaço ocupado, recomendações
de especialistas e tempo consumido de cada revista resenhada. Além disso, o
ingresso de novos títulos de periódicos obedecem a um elenco de tantos outros
parâmetros e padrões. A existência do ISI e de suas bases de dados levaram a uma
super valorização da chamada ciência mundial, mais visível, mais citada e mais
disponível, o que não impede que os países periféricos façam um esforço de
repensar caminhos de inserção nesta conjuntura.

4. AS CARACTERÍSTICAS DA CIÊNCIA NA PERIFERIA

Como todas as coisas, a ciência não é distribuída igualitariamente entre as
áreas do conhecimento, as regiões ou entre os diferentes países. De fato, a
distribuição da ciência é extremamente heterogênea, estratificada e elitista,
privilegiando sempre e, cada vez mais algumas áreas do conhecimento, algumas
regiões e países. Essas desigualdades não estão restritas aos dados de entrada da
ciência: alocação de recursos financeiros, investimento em P&amp;D, número e tamanho
dos laboratórios, número de pesquisadores, cientistas e técnicos, disponibilidade de
equipamentos e instrumentos mas, principalmente a resultados de pesqwsa
50

�científica: apresentação de comunicações, publicação de artigos científicos etc., o
que implica que o reconhecimento da ciência, no âmbito internacional, passa pelo
número de publicações e de citações. Assim, o paradigma vigente, ainda, é o da
quantificação.
Em vista desse fato fica evidente que só uma minoria do mundo científico
está inserida na geração de um novo conhecimento científico, ou seja, na chamada
ciência mundial, o que provoca o confinamento dos resultados de pesquisa aos
países periféricos. A baixa, ou quase nula, representatividade de revistas de países
periféricos, nos parâmetros instaurados por Garfield, dependem de uma série de
fatores

complexos,

interdisciplinaridade,

como:
falta

idioma,
de

pertinência

implementação

dos
dos

temas,
colégios

busca

de

invisíveis,

desconsideração pelas bibliografias, conselho editorial etc. É certo que os países da
periferia empreendem um esforço muito significativo de desenvolvimento de sua
capacidade científica e tecnológica mas, freqüentemente, além de seu isolamento, é
fortemente afetado por fatores estruturais e conjunturais que perpassam a economia,
o sistema educacional e a sociedade, fatores esses preponderantes para a perspectiva
científica.
Ao assumir que a ciência, nos países periféricos têm características diferentes
dos países centrais, pode-se inferir que a comunidade científica trabalha, na maioria
das vezes, em condições adversas, o que gera frustrações, insatisfações e contribuem
para a diminuição da produtividade. É precária a infra-estrutura institucional dos
centros de pesquisa, das universidades, das associações e sociedades profissionais,
aparentemente semelhantes aos países avançados mas, freqüentemente muito mais
frágeis, por apresentarem desde a descontinuidade de recursos financeiros até a alta
rotatividade dos cientistas de maior qualificação, dificultando a manutenção de um
padrão de excelência próximo ao dos países avançados. Vessuri, ao analisar uma
revista científica venezuelana, diz que "em realidade muitos dos cientistas
venezuelanos mais qualificados só publicam no exterior, o que fortalece sua
reputação internacional individual, o que debilita as revistas científicas nacionais
51

�que podiam pennitir visualizar com malDr nitidez a existência do aporte
venezuelano na ciência mundial". (VESSURl, 1987, p.126)
A gestão de publicações periódicas em países em desenvolvimento é muito
complicada e complexa, porque se enfrentam muitas dificuldades para manter uma
revista especializada, com temas coerentes na defInição prévia de linhas de
pensamento e de pesquisa. Sempre é necessário incorporar uma miscelânea de
comunicações e artigos que, de certa fonna, tomam a revista generalista. É comum
cada centro, departamento ou instituto decidir pela organização de uma publicação
científica, com privilégio para os trabalhos da "casa", o que impede a
interdisciplinaridade, quando na verdade a revista é um instrumento que promove o
coletivo dos cientistas e precisa trabalhar com o cosmopolitismo, rechaçando o
cenário provinciano e atrasado. Arunachalam avalia que a "ciência periférica
raramente mostra sinais de interdisciplinaridade, bem como de intemacionalismo:
uma grande parte de citações para revistas de países periféricos serão de cientistas
dos mesmos países e pesquisadores do mesmo campo". (ARUNACHALAM, 1989,
p.395)
Ao constatar que a ciência da periferia, freqüentemente, sofre de isolamento e
de contato adequado com a ciência mundial, observa-se que, de fato, raramente a
comunidade científIca dos países periféricos têm a oportunidade de trabalhar em
áreas emergentes e fronteiriças do conhecimento. Adicione-se a esse elemento o fato
das citações bibliográficas contidas em boa parte das publicações produzidas nos
países periféricos serem relativamente antigas. Ao mesmo tempo, a bibliografIa é
um claro indicador de relevância, dada a rápida obsolescência de uma comunicação
em C&amp;T. Vessuri ao trabalhar com a questão da bibliometria latino-americana
observa uma quase total despreocupação com as referências bibliográficas. Ela
relata já "ter tido oportunidade de constatar que alguns artigos latino-americanos
ignoram total ou parcialmente as publicações sobre esse tema, não só de outros
países latino-americanos, mas sim do próprio país". (VESSURl, 1985, p.39)

52

�Ademais, o acesso inadequado à informação relevante, talvez, seja
ocasionada pela pobreza nas facilidades de telecomunicações. O avanço nas áreas de
telecomunicações e de microeletrônica fornecem aos países periféricos a falsa ilusão
de que o acesso à informação e aos canais de comunicações estão completamente
disponibilizados para produzir um grande salto qualitativo. É certo que as
facilidades aumentaram exponencialmente, mas essas novas condições não têm
garantido a agilidade suficiente para chegar ao fIm do isolamento científIco.
Arunachalam é enfático na sua análise: " o isolamento da Índia é só com respeito a
suas habilidades para contribuir para o crescimento do conhecimento de outras
partes,

e

não

para

receber

e

assimilar

conhecimento

no

exterior" .

(ARUNACHALAM, 1981, p.21)
Em vista do exposto, os países periféricos, apesar da hegemonia dos
indicadores quantitativos de avaliação de revistas consagradas internacionalmente,
buscam caminhos para sua inserção na ciência mundial. Dentre a variedade de
exigências, o comitê editorial de uma revista deve ter um perfIl de excelência, tais
como: o gabarito do corpo de editores, a seriedade e a imparcialidade dos processos
de seleção para publicação, o relacionamento de editores com autores nacionais e
estrangeiros, a inclusão de membros de abrangência internacional, a adoção de
padrões internacionais de produção e circulação e as estratégias de marketing devem
ser a tônica desses "empresários". A esses requisitos fundamentais para garantir
espaço e visibilidade nos meios de comunicação, mesmo que científicos, outras
questões não podem ser desprezadas. Há que se pensar na regularidade da
publicação, porque a baixa periodicidade interfere diretamente nos índices
quantitativos de fator de impacto, além da inconstância na publicação da revista
conferir um estatuto questionável; há que se preocupar com as barreiras lingüísticas
e os aspectos decorrentes da língua e, por último são passíveis de análise e
considerações o respeito aos padrões internacionais que incluem o ISSN
(Intemational Standard Serial Numbers), os resumos, as citações bibliográficas etc.

53

�Em síntese, o padrão de qualidade de uma publicação periódica científica
depende, em máxima medida, do conselho editorial e de quem publica o artigo . Ao
pesquisador de periferia não basta comunicar. Visibilidade, impacto, prestígio,
língua hegemônica, prestígio e reconhecimento são as palavras chave para uma
eficaz comunicação científica.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todo esse quadro conjuntural, gestado e processado nas últimas décadas, se
agrava com o advento e os avanços da biblioteca virtual. Os índices de citações,
anteriormente publicados em papel e, agora produzidos em meios magnéticos (CDRom ou via Internet) se reciclam e agregam novos valores. A transação de
levantamento bibliográfico, através de correto que só uma pequena minoria do
mundo científico está inserida na chamada ciência mundial e consequentemente é
detentora do privilégio de comunicação em revistas reconhecidas mundialmente, e,
em sua maioria publicadas pelos países centrais. Se é correto reafirmar que existe
uma baixa representatividade de produção científica dos países periféricos nos
índices de citações consagrados, como é o caso das bases de dados bibliográficas
eletrônicas produzidas pelo Institute for Scientific Information. É pertinente,
também, reafirmar que os países da periferia empreendem um esforço muito
significativo de desenvolvimento de sua capacidade de C&amp;T, mas de pequena e
limitada penetração nos meios científicos mundiais. A exclusão da produção
científica de países periféricos nos índices internacionais e a inexistência de sistemas
de indexação no país, e mesmo na América Latina, em certa medida, impedem o
conhecimento sobre a reflexão local e da região.
Por último, vale assinalar que o que está ocorrendo, especialmente, nos países
centrais é o estabelecimento de um sistema altamente centralizado de seleção da
produção científica que tende a interferir com os resultados avaliatórios e decisórios,
no âmbito da ciência mundial. Não é fantasiosa a idéia de que essa seleção possa vir
54

�a se constituir em um instrumento poderoso de controle dos países centrais e, assim
de distribuição de informações que podem ou não ser censuradas. Este é o possível
percurso da biblioteca virtual, para tanto, a periferia precisa encontrar caminhos e
alternativas. Num trabalho de aliança e interação com o pesquisador, compete ao
bibliotecário, não só caminhar rumo à biblioteca virtual, mas principalmente
estimular, incentivar e colaborar na construção de bases de dados bibliográficos em
meios eletrônicos que privilegiem a indexação de revistas e artigos científicos
produzidos nos países periféricos. Além disso, a biblioteca universitária deve
continuar a se revelar de grande valia no armazenamento e controle da literatura
publicada localmente. Estas transformações de grande vulto e profundidade têm sido
aparentemente esquecidas, havendo uma tendência de preocupações de curto prazo e
relegando a um plano secundário o conteúdo das proposições de desenvolvimento
aparentemente neutras.

55

�REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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comparativo. São Paulo: Pioneira; EDUSP, 1974.
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. La revista cientifica periferica: el caso de Acta Cientifica Venezolana.
Interciencia, vo1.12, n03, p.124-134, 1987.

ABSTRACT

Using as reference the new paradigms of science: Robert Merton's theory
(sociologist of science), the discussions of John Derek Solla Price (the introducer of
scientometry and librarianship science) and the work of Eugene Garfield (lS!' s
creator), the text analyses the role of the artic1es and periodicals as a way of
communication and divulgation of the science in the peripheral countries in face of
the emergency of bibliographical databases and virtual libraries. Librarians and
scientists should reconsider about the science formal communication and the way
it' s being practiced in the peripheral countries (periodicals) and it' s communication
channels (citation indexes) that work as an evaluation system of development of
science. The purpose is to inc1ude the universitarian library as a repository of
scientific literature (formal communication system) but fundamentally participating
in the construction oflocal and regional e1etronic bibliographical databases.

Keywords: Citation Index. Eletronic Bibliographic Data Bases. Virtual Libraries.
Scientific Periodicals. Peripheral Countries

57

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Documentação&#13;
Ciência da Informação&#13;
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                <text>SNBU - Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias</text>
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    <name>Event</name>
    <description>A non-persistent, time-based occurrence. Metadata for an event provides descriptive information that is the basis for discovery of the purpose, location, duration, and responsible agents associated with an event. Examples include an exhibition, webcast, conference, workshop, open day, performance, battle, trial, wedding, tea party, conflagration.</description>
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      <name>Dublin Core</name>
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              <text>A partir dos novos paradigmas da ciência: a teoria de Robert Merton (sociólogo da ciência), o trabalho de Price (pai da cientometria e da biblioteconomia) e Eugene Garfield (criador do ISI), o texto analisa o papel dos artigos e das revistas científicas, enquanto mecanismo de comunicação e divulgação da ciência de países periféricos, frente à emergência das bases de dados bibliográficos em meios eletrônicos e das bibliotecas virtuais. Bibliotecários e cientistas precisam repensar o sistema de comunicação formal na ciência praticada nos países periféricos (revistas científicas) e de seus canais de comunicação (índice de citações) que funcionam como um sistema de avaliação de desempenho da ciência. Propõe a inclusão da biblioteca universitária, não só como repositória da literatura científica (sistema de comunicação formal) como participante na construição de bases de dados bibliográficos em meio eletrônico, locais e regionais.</text>
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