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                  <text>XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias
SNBU 2014

GESTÃO DE BIBLIOTECAS DOS INSTITUTOS FEDERAIS DE EDUCAÇÃO,
CIÊNCIA E TECNOLOGIA: A ABORDAGEM SOCIOCOGNITIVA

Angela Cardoso Ferreira Silva

RESUMO
O presente trabalho objetiva desenvolver reflexão teórica sobre as bibliotecas no contexto dos
institutos federais de educação, ciência e tecnologia e a relevância da abordagem do sujeito
sociocognitivo para a gestão das mesmas. As bibliotecas da educação profissional e
tecnológica compartilham da contradição desse segmento educacional que é a formação
humana versus formação profissional, para atingir um ideal de formação integral e inclusiva.
A abordagem sócio-cognitiva preconiza que os indivíduos internalizam e demandam
informações de acordo com suas pertenças e vivências sociais. Essa abordagem orienta
estudos que promovam maior compreensão dos usuários das bibliotecas dos IFETs, o que
permite o desenvolvimento de produtos e serviços de informação cognoscíveis e socialmente
relevantes para os grupos. Concluímos que é importante a assimilação da abordagem do
sujeito sócio-cognitivo pelas bibliotecas dos institutos federais, principalmente no que se
refere à organização e administração, ao planejamento, ao marketing e comunicação e ao
desenvolvimento de coleções.
Palavras-chave: Bibliotecas. Educação profissional. Abordagem sociocognitiva.

ABSTRACT
This paper aims to develop a theoretical reflection on libraries located in the Federal Institutes
of Education, Science and Technology (IFET), and also on the relevance of the socio­
cognitive approach to the subject to the management of such libraries. The libraries of
professional and technological education share the contradiction of this educational segment
which is human education versus professional training, to achieve an ideal of comprehensive
and inclusive education. The socio-cognitive approach advocates that individuals internalize
and demand information according to their affiliations and social experiences. This approach
directs studies that promote greater understanding of the users of the libraries of the IFETs,
allowing the development of products and services of information knowable and socially
relevant to groups. We conclude that it is important to assimilate the socio-cognitive approach
to the subject by the libraries of the Federal Institutions, especially with regards to the
organization and administration, planning, marketing and communication, and the
development of collections.
Key-words: Libraries. Professional education. Socio-cognitive approach.

1091

�1 INTRODUÇÃO
A biblioteca em ambientes educacionais associa-se à missão maior da escola como
instituição de socialização funcionando como organismo voltado para práticas educacionais.
Dessa forma, apresenta funções de busca, organização e disseminação de informações
relevantes para determinados grupos, de modo a fortalecer e subsidiar os processos
educacionais para inclusão social e cidadania. Por conseguinte, bibliotecas em ambientes de
educação respondem às políticas educacionais e às conjunturas sociais, econômicas e culturais
do contexto em que estão inseridas. Podemos compreender, ainda, que a organização
estratégica de bibliotecas e serviços de informação volta-se para o atendimento de demandas
informacionais de sujeitos sociais específicos.
A Educação é o campo do conhecimento diretamente relacionado às práticas de ensino
e aprendizagem em contextos sociais. A aprendizagem, como processo, desenvolve-se a partir
da ação mental do indivíduo sobre a realidade por ele apreendida. Como recurso, a
aprendizagem permite adaptação e ação sobre essa realidade. Como efeito, a aprendizagem
implica numa transformação das estruturas cognitivas do indivíduo, que lhe permite uma
ressignificação da realidade. A Educação teria como pressuposto a compreensão das
interações e constantes trocas do indivíduo com o contexto no qual está inserido, no sentido
de que um exerce participação na conformação do outro e ambos se integram para uma
definição mútua. Sob essa perspectiva, as bibliotecas em contextos educacionais estruturar-seiam a partir do elencamento e disseminação de informações socialmente eficazes para um
determinado grupo.
Com base nessas considerações, focamo-nos nas especificidades e funções das
bibliotecas dos Institutos Federais de Educação, Ciência e tecnologia (IFETs). Essas
bibliotecas assumem características de bibliotecas públicas, escolares e universitárias.
Direcionam-se, assim como os próprios institutos, para questões educacionais de uma
sociedade de classes sob as diretrizes neoliberais, que conduz os indivíduos a buscarem
formas de elevar seus níveis de escolaridade e qualificação profissional. Com uma estrutura
acadêmica, atendem a um variado público de estudantes de ensino médio, subsequente,
superior, de pós-graduação e de jovens e adultos. Além de estudantes, têm como usuários
professores, técnicos administrativos e sociedade em geral. As práticas de pesquisa e extensão
são desenvolvidas nos níveis médio e superior. Os cursos superiores dos Institutos são, para
todos os efeitos, equiparados aos das universidades federais.
Podemos desenvolver reflexões sobre gestão de bibliotecas em contextos educacionais
sob considerações do fenômeno informacional e da abordagem do sujeito cognitivo-social. As

1092

�bibliotecas têm como missão fundamental gerir elementos ou recursos de informação. A
informação, por si só, é um corpo de dados que comporta um potencial de sentido. Esse
sentido surge quando a informação externa ao indivíduo associa-se à sua estrutura interna por
meio de sua ação mental. Por meio de estratégias e representações a troca entre objetividade e
subjetividade se efetiva, gerando o conhecimento.
Para que a compreensão do fenômeno informacional seja mais representativa,
devemos considerar o sujeito do conhecimento: o sujeito/usuário de informação e o
sujeito/gerador de conhecimento. Uma linha conceitual pertinente seria a abordagem do
sujeito sociocognitivo. Esta abordagem considera que o sujeito do conhecimento também é
um sujeito social. Como fundamento, temos que as práticas informacionais são mediadas por
um sistema de conceitos que constituem um “modelo” de mundo para o sujeito do
conhecimento. Esse modelo conceitual opera como uma unidade de seleção na “filtragem” e
estruturação, tanto na emissão como na recepção da informação.
No campo da Ciência da Informação estudos incorporam a dimensão sócio-cultural
das práticas informacionais. Entre esses estudos Hjorland e Albrechstsen , desenvolvem sua
abordagem denominada Análises de Domínio, a partir de um enfoque sócio-cognitiva.
Conforme esses autores:
[...] O paradigma orientado a análise de domínio em Ciência da Informação,
afirma que o melhor caminho para compreender a informação é estudar os
domínios de conhecimento como unidades de pensamento ou de discurso.
Estas, por sua vez, são divisões da sociedade do trabalho. A organização do
conhecimento, sua estrutura, seus padrões de cooperação, suas formas de
comunicação e linguagem, seus sistemas de informação e seus critérios de
relevância, são reflexões dos objetos de trabalho dessas comunidades e de
seu papel na sociedade (HJORLAND; ALBRESCHSTSEN, 1995).
A partir dessas considerações objetivamos desenvolver reflexão teórica sobre as
características e conformações necessárias ou desejáveis para as bibliotecas dos IFETs. Essas
bibliotecas voltam-se para um heterogêneo corpo de usuários da educação profissional e
tecnológica. Utilizaremos abordagens de sujeitos cognitivos- sociais, de forma a considerar
como objetivo maior a organização e disseminação da informação socialmente relevantes para
atender as necessidades acadêmicas e culturais dos segmentos estudantis e profissionais.

2 MÉTODO UTILIZADO
Para elaboração desse estudo teórico utilizamos revisão de literatura. Apresentamos
considerações iniciais sobre a relevância da abordagem do sujeito sociocognitivo para

1093

�desenvolvimento de estudos de usuários e práticas de gestão de bibliotecas dos IFETs. Essa
abordagem considera as comunidades de discurso e pertenças sociais dos indivíduos, assim
como o modo pelos quais estas orientam a percepção e ação dos sujeitos no mundo. Trata-se
de uma abordagem necessariamente multidisciplinar, contando com diferentes linhas teóricas
e metodológicas do campo das ciências sociais para aplicações efetivas em diferentes
pesquisas.
Tivemos a oportunidade de utilizar a abordagem sociocognitiva em pesquisas
anteriores. A princípio realizamos um estudo sobre os impactos da informação sobre um
grupo de estudantes a partir de referencial teórico da Ciência da Informação (ARAÚJO, 1998;
BROOKES, 1980; GÓMEZ, 1984; HJORLAND; ALBRECHSTSEN, 1995).

Em um

segundo momento, trabalhamos política educacional para jovens utilizando a teoria das
Representações Sociais (ABRIC, 1998; MOSCOVIC, 1978, 2003; JODELET, 2001). A
atuação como bibliotecária durante sete anos no Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia da Paraíba (IFPB) apresentou desafios relacionados às características sociais dos
grupos usuários das bibliotecas, o que nos convenceu da validade da abordagem
sociocognitiva e conduziu-nos para elaboração do presente trabalho.

3 BIBLIOTECAS NO CONTEXTO DOS IFETS
As políticas educacionais contemporâneas no Brasil são engendradas a partir de uma
realidade histórica de fortes desigualdades sociais. Consoantes à globalização econômica e
sob a égide de uma constituição cidadã91, essas políticas assumem os aspectos contraditórios
entre capitalismo e democracia. Segundo Azevedo (2004) o vértice principal das políticas é o
desenvolvimento econômico, isto porque o desenvolvimento da sociedade é a meta principal,
na medida em que o mundo da produção dos bens materiais e do seu consumo alimenta a
existência humana influenciando diretamente as relações sociais. A educação como política
pública volta-se para questões relacionadas às novas dinâmicas produtivas e às revoluções
científica e tecnológica; assim como ao quadro de exclusão e desigualdades socioeconômicas.
As principais mudanças que impregnam hoje as políticas educacionais no Brasil
ocorreram a partir da década de 1990, seguindo ideários e diretrizes de encontros e decisões
internacionais sobre educação92 que, em seus aspectos negativos, apresentam tendências à

91Constituição Brasileira de 1988.
92Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em 1990, financiada pela UNESCO (Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura); UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a
Infância); PNDU (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e Banco Mundial. Lançamento do
documento econômico da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe) - Tranformación

1094

�acriticidade, dualidade educativa e reprodução socioeconômica. Estabelece-se uma sintonia e
uma conexão entre a exaltação às forças de mercado, com as correspondentes políticas de
liberalização e desregulamentação e a hegemonia conservadora sobre as formas de
consciência social e suas implicações na educação (SHIROMA; MORAES; EVANGELISTA,
2000).
Nesse contexto, a educação profissional e tecnológica (EPT) conforma-se como
segmento fundamental para responder ao projeto educacional e social que se estabelece. A Lei
9.394/96, de diretrizes e bases da educação nacional, tem seu conteúdo referente à EPT
reformulado pela Lei 11.741/08. Essa reformulação apresenta os objetivos de redimensionar,
institucionalizar e integrar as ações da educação profissional técnica de nível médio, da
educação de jovens e adultos e da educação profissional e tecnológica. No Plano de
Desenvolvimento da Educação (PDE), é proposto o enlace da educação com o
desenvolvimento econômico e social territorial, a partir da ampliação da rede federal de
educação profissional e tecnológica (BRASIL, 2007). O Decreto 6.095/07 estabelece
diretrizes para a integração de instituições federais de educação tecnológica objetivando a
composição dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFETs) (BRASIL,
2007). A Lei 11.892/08 cria os IFETs. Essa Lei define, entre as finalidades e os objetivos dos
institutos, a oferta de educação profissional e tecnológica para os níveis médio e superior,
para a educação de jovens e adultos (EJA) e para cursos de formação inicial e continuada,
objetivando a formação e a qualificação com vistas na atuação profissional com ênfase no
desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional (BRASIL, 2008).
A EPT, consolidada principalmente através dos Institutos Federais e sua proposta de
integração da formação profissional com os diferentes níveis e modalidades de ensino, vem a
responder questões de uma sociedade de classes sob as diretrizes neoliberais, que conduz os
indivíduos a buscarem formas de elevar seus níveis de escolaridade e qualificação
profissional. Conforme Fischer e Franzoi (2009) a pedagogia do capital é hegemônica. Dessa
forma, quando pensada para atender aos novos requisitos da reestruturação produtiva, essa
preparação para o trabalho reforça compreensões estritas sobre o manejo da técnica sem a
problematizar, sem que a mesma seja compreendida como construção humana, sendo
necessária a incorporação do trabalhador enquanto ser humano integral.

Productiva con Equidad. Convocada pela UNESCO, a Comissão internacional sobre Educação para o século
XXI, coordenada pelo francês Jacques Delors, que organizou o relatório Educação, um tesouro a descobrir.
Dentro das agências multilaterais, o Banco Mundial lança o documento Prioridades y Estratégias para la
Educación. (SHIROMA; MORAES; EVANGELISTA, 2000).

1095

�Na perspectiva de uma formação humana e integral, e para que se estabeleçam como
sustentáveis e inclusivas, as instituições de EPT voltar-se-iam para contribuir com o aumento
da capacidade de (re) inserção social, laboral e política dos seus formandos. O mundo do
trabalho demanda por indivíduos autônomos que possam atuar em um ambiente de geração e
transferência do conhecimento. Entretanto, é necessário que esses profissionais ultrapassem
esses limites e, ao alcançarem uma verdadeira autonomia, possam atuar na perspectiva da
transformação social orientada aos interesses e necessidades das classes trabalhadoras
(MOURA, 2008).
Nesse contexto, as bibliotecas da educação profissional e tecnológica voltam-se para
ofertar subsídios informacionais para as práticas de ensino, pesquisa e extensão dos institutos.
Essa estrutura é paralela à estrutura das universidades em sua forma acadêmica, ofertando,
todavia, ensino médio, superior, pós-graduação e ainda formação inicial e continuada.
Podemos considerar que as bibliotecas do IFETs conformam-se como bibliotecas
universitárias com usuários segmentados por níveis e modalidades de ensino, voltadas para
formação profissional e tecnológica em seus vários formatos. Assim, nossa análise sobre as
bibliotecas da EPT atravessam análises das bibliotecas universitárias.
Conforme Miranda (1978) antes de constituir-se em um problema técnico possível de
ser submetido às leis da biblioteconomia, as bibliotecas universitárias são antes um fenômeno
social, devendo-se realizar uma análise técnica e política do problema. Assim, consideramos
de suma importância avaliar o atual contexto social e econômico em que essas bibliotecas
inserem-se e a função social que assumem. Podemos compreender que as bibliotecas dos
IFETs são organismos institucionalizados da rede federal de educação profissional, científica
e tecnológica em expansão, que, por sua vez, responde à diretrizes globais de educação, que,
de uma forma geral, estabelecem a educação para o trabalho e desenvolvimento econômico.
Cobrindo todo o território nacional, a rede federal presta um serviço à nação
ao dar continuidade à sua missão de qualificar profissionais para os diversos
setores da economia brasileira, realizar pesquisa e desenvolver novos
processos, produtos e serviços em colaboração com o setor produtivo
(BRASIL, 2014).
Assim, as bibliotecas participam da mesma contradição desses institutos que é a
formação humana versus formação profissional, para atingir um ideal de formação integral e
inclusiva. Ainda, a grande heterogeneidade de seus usuários, que apresentam diferentes
situações sociais, econômicas e culturais, é um fator de importância para ser considerado na
conformação das bibliotecas. Essas bibliotecas, portanto, devem ser engendradas de forma

1096

�que seus produtos, serviços e comunicação não apenas consoem com as necessidades
informacionais para a formação integral, como também respondam as características
sociocognitivas dos grupos. Desenvolveremos essas questões na próxima seção do trabalho.

4 A ABORDAGEM SOCIOCOGNITIVA
A informação é um conceito que engloba várias definições. Um dos sentidos desse
conceito pode ser buscado por meio de sua origem etimológica. Assim, temos que informação
é uma palavra de origem latina, do verbo “informare”, que significa dar forma, colocar em
forma, construir uma ideia ou noção. A partir de sua origem etimológica podemos perceber
dois sentidos complementares para esse conceito. Assim, temos que a informação pode ser
compreendida como processo de atribuição de sentido. Em termos de práticas
informacionais

diríamos que tal processo se dá por meio de ações de recepção/ seleção das

informações recebidas. Outra compreensão pode ser formulada se considerarmos a
informação como processo de representação objetivando comunicar o sentido dado à mesma.
Esse processo acontece através das ações de codificação /emissão /decodificação /uso da
informação. Em termos de práticas informacionais diríamos que esse processo se dá por meio
de ações de geração e transferência da informação. A partir de uma visão etimológica, a
informação pode ser conceituada como uma prática social que envolve ações atribuição e
comunicação de sentido.
Conforme Brookes (1980), a informação é um elemento que provoca transformações
nas estruturas. Assim, quando se envia uma mensagem (conjunto de informações) a um ser
consciente, baseada num código conhecido, essa mensagem pode ser interpretada e a partir
daí adquirir sentido. Ao utilizar essa informação (com sentido) para resolver determinado
problema, ou se informar sobre qualquer situação, o sujeito produziu conhecimento. Tal
conhecimento pode ser a simples identificação de determinado objeto ou a compreensão exata
e completa desse mesmo objeto. Assim, quando se afirma que existe uma relação entre
informação e conhecimento e que estes elementos podem provocar transformações nas
estruturas; estamos nos baseando na ideia de que nosso estado de conhecimento sobre
determinado assunto, em determinado momento, é representado por uma estrutura de
conceitos ligados por suas relações, isto é, a nossa imagem do mundo.
Quando constatamos uma deficiência ou anomalia desse estado de conhecimento,
encontramo-nos em estado anômalo de conhecimento. Ao tentarmos obter informações que
93 Práticas Informacionais: ações de recepção, geração e transferência de informação que se desenvolvem por
meio de circuitos comunicacionais nas formações sociais (ARAÚJO, 1998).

1097

�corrigirão essa anomalia, criaremos um novo estado de conhecimento, que uma vez aplicado a
uma situação problemática, pode provocar uma nova situação ou a transformação de
estruturas. A partir das reflexões feitas compreendemos que a informação é uma prática que
envolve ações de atribuição e comunicação de sentido, que por sua vez, provocam
transformações nas estruturas mentais e/ou sociais.
Para que a compreensão do fenômeno informacional seja mais representativa,
devemos considerar o sujeito do conhecimento: o sujeito/usuário de informação e o
sujeito/gerador de conhecimento. Uma linha conceitual pertinente seria a abordagem do
sujeito sociocognitivo. Esta abordagem considera que o sujeito do conhecimento também é
um sujeito social. Como fundamento temos que as práticas informacionais são mediadas por
um sistema de conceitos que constituem um “modelo” de mundo para o sujeito do
conhecimento. Esse modelo conceitual opera como uma unidade de seleção na “filtragem” e
estruturação, tanto na emissão como na recepção da informação. Conforme Gómez (1984):
[...] uma das conseqüências dessa abordagem é que esse modelo conceitual
depende das experiências anteriores dessa indivíduo ou grupo, sendo afetado
pelos processos de socialização que recebem os indivíduos e pela vivência
histórica dos grupos sociais. São, como preferimos dizer, modelos sóciocognitivos.
A abordagem de Hjorland e Albrechstsen (1995) considera que o sujeito é cognitivo,
pois produz conhecimento, e é também social, pois participa de uma comunidade de discurso
que se estrutura a partir do mundo do trabalho. Nesse contexto, partilha e incorpora seu
conhecimento no mesmo elemento comunitário. Assim, o universo de conhecimento é
dinâmico e implica em intercâmbios constantes entre o individual e o coletivo.
Wersig (1985) também considera a realidade social em seus estudos sobre a
informação. Para este autor, as práticas informacionais acontecem sempre entre sujeitos
duplamente geradores e receptores de informação, a partir de um “equipamento prévio” que
os capacita para a comunicação e para a ação. Esse equipamento inclui, além de uma memória
de formas simbólicas que age como unidade de codificação e decodificação, um modelo
interno do contexto social e um inventário de programas e estratégias para representar o meio.
Este equipamento delimita, orienta a atividade consciente do sujeito e, consequentemente, faz
a intermediação entre o campo da consciência e o campo da ação/ execução.
Assim, as práticas informacionais configuram um discurso metainformacional que é
social, não apenas porque tal discurso tem um embasamento cultural específico, nem porque é
um dos elementos constitutivos do projeto social, mas, principalmente, porque tais práticas

1098

�são sustentadas por sujeitos sociais concretos que se representam e representam grupos e
instituições sociais. Retomando a conceituação do termo informação, temos que esta pode ser
compreendida como prática social de um sujeito cognitivo - social que desenvolve ações de
comunicação e atribuição de sentido que, por sua vez, provocam transformações nas
estruturas - tanto individuais, como sociais - pois pode gerar novos estados de conhecimento.
Considerar o fenômeno informacional sob essa perspectiva é admitir que o mesmo é
um processo constantemente reconstruído pelo sujeito do conhecimento a partir de uma certa
necessidade informacional, de uma determinada realidade social e de significados pessoais,
que poderíamos denominar de intencionalidades. Informar-se, portanto, não é um processo
finalizado quando o sujeito do conhecimento recebe /usa informação. Esse processo é algo
aberto e inacabado e, como tal, propício a reestruturações, caso contrário não poderíamos
criar novas informações, uma vez que as já existentes representariam a realidade de forma
completa e satisfatória.
Assim, consideramos que a abordagem do sujeito sócio-cognitivo inserida no
fenômeno informacional pode convergir em estudos de usuários que promovam maior
compreensão dos segmentos que utilizam as bibliotecas dos IFETs. Tal compreensão, por sua
vez, permitirá um melhor planejamento para que as bibliotecas respondam às questões
acadêmicas e sociais de seus usuários, colaborando com subsídios informacionais para uma
educação integral e inclusiva para os variados grupos da EPT. Desenvolveremos essa questão
na sequência.

5 BIBLIOTECAS DOS IFETS E SUJEITOS SOCIOCOGNITIVOS
Considerando o sujeito do conhecimento como sociocognitivo, faz-se necessária a
colocação de dois aspectos. O primeiro deles estrutura-se a partir da compreensão de que o
meio social tem influência na formação da estrutura cognitiva, no sentido de que, numa
comunidade, podem ser percebidos padrões na forma de se organizar a linguagem e a
comunicação. Outro aspecto é de que o indivíduo procurará informações de acordo com seus
desejos e necessidades, que estariam relacionados com o seu contexto social, ou seja, o
indivíduo buscará informações que sirvam para atender as suas demandas sociais.
Os usuários das bibliotecas dos IFETs apresentarão necessidades da informação
relacionadas às suas situações de ensino, pesquisa e extensão. Assim, usuários de um curso
determinado terão, a princípio, necessidades informacionais das áreas de conhecimento
relacionadas àquele curso. Essa seria, portanto, a primeira diretriz para gestão das bibliotecas:
desenvolver acervos e serviços para suprir as necessidades acadêmicas dos estudantes dos

1099

�institutos. Além disso, é importante considerar as situações socioculturais dos usuários e as
comunidades de discurso a que pertencem. Os indivíduos respondem a elementos
significantes - informativos, ideológicos, valores, crenças, imagens, etc. - do seu meio social.
Esses elementos estão relacionados a aspectos históricos, culturais, linguísticos, de
comunicação, etc. Assim, a pertença social de uma pessoa tem relação direta com sua visão de
mundo.
Dessa forma, podemos compreender que a o estabelecimento de bibliotecas enquanto
serviços de informação deve responder não apenas às necessidades de informação de seus
usuários como deve fazê-lo considerando suas estruturas sociais prévias. Isso é especialmente
importante no contexto dos IFETs em que os usuários da biblioteca são formados por
adolescentes que ingressam no ensino médio nas modalidades de ensino técnico integrado;
adultos que procuram a profissionalização através dos cursos técnicos subsequentes, do
Programa Nacional de Integração da Educação Profissional à Educação Básica na Modalidade
de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA), do Programa Nacional de Acesso ao Ensino
Técnico e Emprego (Pronatec) e de outros programas, até estudantes dos cursos superiores de
tecnologia, engenharias e bacharelados e de cursos de pós-graduações diversos.
Nessa linha, outra perspectiva se coloca é da inclusão ou reinclusão social. A
formação para o trabalho e para o desenvolvimento econômico que orienta as práticas dos
IFETs deve ser problematizada e, de alguma sorte, superada, para evitar a reprodução
socioeconômica. Não é suficiente a proposição de desenvolvimento de saberes que permitam
o encaixe no mundo produtivo, mas antes buscar deve-se promover a cidadania e o
protagonismo social, fortalecendo a capacidade dos indivíduos de se apropriarem dos bens
socialmente criados e serem atores para a transformação da sociedade de classes em uma
realidade de maior justiça social.
Analisando o futuro das bibliotecas universitárias, Cunha (2010) previa a evolução
para uma educação centrada no aprendiz, relacionando tal perspectiva ao impacto das
tecnologias de informação e na indústria do conhecimento e aprendizado. Apesar de nosso
enfoque ser diferente, consideramos que a premissa da educação centrada no aprendiz e,
consequentemente, de biblioteca centrada no aprendiz/ usuário pode ser efetivada a partir da
abordagem dos sujeitos sociocognitivos. Podemos compreender que os diferentes grupos
apresentam estruturas sociais prévias que orientam de maneira forte o modo ou a atitude pela
qual os indivíduos vêm, internalizam e respondem às informações disseminadas nas
bibliotecas.

1100

�A aproximação do sujeito sociocognitivo pode ser alcançada por meio de estudos de
usuários que a serem realizados por meio de abordagens alternativas que enfoquem
indicadores sociais, econômicos e culturais. Conforme Rolim e Cendón (2013), com o avanço
dos estudos de usuários percebeu-se que os papéis sociais influenciavam na complexidade de
busca e capacidade de utilizar os serviços oferecidos pelas bibliotecas, de forma que seriam
necessárias abordagens alternativas de estudos de usuários, que se caracterizam como
abordagens de cunho cognitivo, por meio de estudos centrados no usuário da informação, com
métodos de pesquisa das ciências sociais.
O estudo do usuário associado à análise crítica da realidade socioeconômica com
desvelamento de mecanismos de exclusão e reprodução social e às funções das bibliotecas da
EPT, fornece subsídios para o planejamento. O planejamento elaborado sob essas
considerações permite o desenvolvimento de produtos e serviços de informação acadêmica e
socialmente relevantes para os estudantes e demais públicos da biblioteca. Esses produtos e
serviços deveriam, dessa forma, ter como diretrizes a formação integral, traduzida no
desenvolvimento de acervo em áreas técnicas, científicas e humanas; acessibilidade, isto é,
estar ao alcance físico, cognitivo e cultural dos indivíduos; o relacionamento social,
compreendido como afinidade e conexão com as práticas e objetos sociais dos grupos;
complexidade crescente, que seria o desenvolvimento de temas de níveis introdutórios até
níveis mais elaborados.
Com base nessas reflexões consideramos que é importante a assimilação da
abordagem do sujeito sociocognitivo para gestão das bibliotecas no contexto dos institutos
federais, principalmente no que se refere à organização, à administração, ao planejamento, ao
marketing e comunicação e ao desenvolvimento de coleções. O reconhecimento e a integração
dos sujeitos em suas pertenças sociais nas práticas bibliotecárias corroboram para inclusão e
empoderamento dos mesmos, um passo na direção da justiça social.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As bibliotecas dos institutos federais compartilham da problemática da formação
profissional versus a formação humana que permeia a educação profissional e tecnológica no
Brasil. No cerne dessa problemática está a contradição entre educação para o trabalho e
desenvolvimento econômico em paralelo à educação integral e inclusiva voltada para
mudança social. Nesse contexto, as bibliotecas enquanto serviços de organização e
disseminação de informações, devem responder às exigências acadêmicas e sociais dos

1101

�indivíduos, corroborando com produtos e serviços de informação para a formação acadêmica
e a inclusão social.
A abordagem sociocognitiva preconiza que a pertença social do indivíduo orienta as
formas de internalização e as demandas informacionais. A consideração do sujeito sóciocognitivo fornece subsídios teóricos para compreensão e aproximação dos variados grupos de
estudantes/ usuários o que, por sua vez, ocasiona melhor entendimento das necessidades de
informações acadêmicas e sociais desses. Essa abordagem pode proporcionar, ainda, a
integração dos sujeitos em suas comunidades de discursos e vivências sociais e culturais, o
que orienta para conformação de bibliotecas acessíveis e inclusivas.
Dessa forma, acreditamos que o desenvolvimento de pesquisas e trabalhos que tenham
como foco o sujeito sociocognitivo podem auxiliar na gestão das bibliotecas dos institutos
federais, que assumem a difícil missão de atender segmentos variados de públicos em um
contexto educacional que tende ao tecnicismo e, por isso mesmo, necessita de serviços e
ações que promovam a emancipação social, política e humana.

7 REFERÊNCIAS
ABRIC, Jean-Claude. A Abordagem Estrutural em Representações Sociais. In: MOREIRA,
A.S. P.; OLIVEIRA, D. C. (Orgs.). Estudos Interdisciplinares de Representação Social.
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ARAÚJO, E. A. de. A construção social da informação: Análises de práticas informacionais
de Organizações Não-Governamentais - ONGs brasileiras. Brasília, 1998. 240 f. Tese
(Doutorado em Ciência da Informação) - Universidade de Brasília - UNE.
AZEVEDO, Janete M. Lins de. A Educação como Política Pública. 3. ed. Campinas:
Autores Associados, 2004. (Coleção Polêmicas do nosso tempo, 56.). 75 p.
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Decreto

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Disponível

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              <text>O presente trabalho objetiva desenvolver reflexão teórica sobre as bibliotecas no contexto dos institutos federais de educação, ciência e tecnologia e a relevância da abordagem do sujeito sociocognitivo para a gestão das mesmas. As bibliotecas da educação profissional e tecnológica compartilham da contradição desse segmento educacional que é a formação humana versus formação profissional, para atingir um ideal de formação integral e inclusiva. A abordagem sócio-cognitiva preconiza que os indivíduos internalizam e demandam informações de acordo com suas pertenças e vivências sociais. Essa abordagem orienta estudos que promovam maior compreensão dos usuários das bibliotecas dos IFETs, o que permite o desenvolvimento de produtos e serviços de informação cognoscíveis e socialmente relevantes para os grupos. Concluímos que é importante a assimilação da abordagem do sujeito sócio-cognitivo pelas bibliotecas dos institutos federais, principalmente no que se refere à organização e administração, ao planejamento, ao marketing e comunicação e ao desenvolvimento de coleções.
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